BLOG POR BLOGA
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
E o palito afundou
Estive dia desses no famoso Bar Léo, reduto dos apreciadores do bom chope, bem tirado e na temperatura correta, no centro de São Paulo, mais precisamente na região conhecida por Boca do Lixo (rua Aurora), com algumas pessoas do curso de fotografia, ávidos por uma boa conversa e matar a sede após uma saída fotográfica na Pinacoteca e arredores. Foi a primeira vez que estive nesse bar, mas a vontade de lá ir sempre me invadiu, pois as referências que dele tinha eram as melhores. Gosto de frequentar os pontos tradicionais da cidade de São Paulo, como o Ponto Chic, Moraes, Mercadão da Cantareira, bar Estadão, feira do Pacaembu, Frangó, por saber que são locais que, a despeito de todas as modificações gastronômicas por que passa a cidade, incorporando hábitos que são muitas vezes importados de outras paragens, mantêm seu cardápio, pois sabem que a freguesia fiel vai lá exatamente por isso.
No bar, naquela noite de terça-feira, estranhei o local estar bem vazio. Sempre li e ouvi que era quase impossível arranjar lugar para sentar no tal boteco, e os donos há tempos providenciaram balcões na calçada para atender aos que não tinham oportunidade de sentar às mesas internas. Pedidos os chopes, notei o colarinho correto, cremoso, a cor cristalina, o copo devidamente limpo. E comentei com o pessoal - todos muito jovens, observe-se - as características que fazem a fama do bar. Não sou mestre cervejeiro, daqueles que identificam em um trago a qualidade do líquido. Mas o sabor me pareceu um tanto estranho. Mas, vamos lá. E, para demonstrar meu (parco) conhecimento da arte chopeira, falei aos colegas do teste do palito, que ouvi há muito tempo. Não sei se é mesmo verdade, mas diziam que, para verificar se o chope foi bem tirado, deve-se mergulhar um palito no colarinho. Se ele permanecer imóvel, foi devidamente cortado. Mas, se descer, foi tirado de maneira incorreta.
Bem, fiz o teste. E o palito desceu e sumiu. Fiquei com cara de bobo, imaginando que talvez teria entendido errado o teste. As pessoas me questionando a respeito. Minha reputação de conhecedor caiu por terra. Mas tudo na boa, afinal, o importante era estarmos em um bar respeitado da cidade e sorvendo uma bebida de qualidade reconhecida há quase 70 anos. E fiquei quieto quanto ao meu repertório de boêmio.
Qual não foi a minha - e a de muitos paulistanos e muitos brasileiros de outras plagas - surpresa e indignação ao ler nos jornais dias depois que o bar tinha sido interditado por vender chope de baixa qualidade sem avisar aos clientes, fazendo-o passar pelo Brahma (e cobrando-o como)? Um apreciador contumaz, estranhando o sabor da bebida, chamou a polícia e foi descoberta a sacanagem. Vários barris de outra marca foram encontrados no depósito. E, pior, havia comida vencida no local. Decepção. Trauma. Sensação chata de ser feito de trouxa.
O bar Léo foi fechado por uns dias, não sei se já reabriu. Mas a imagem foi arranhada. Será difícil reaver o prestígio. O consumidor não gosta de ser enganado, ainda mais quando ele estabelece uma relação de carinho com o fornecedor, seja lá do que for. O que me angustia é a falta de respeito, além de com o consumidor, com as tradições, em nome do lucro rápido. Li que quem comanda o botequim agora são herdeiros do dono que lhe construiu o nome e fama. Acho que faltou a esses novos administradores a percepção de que aquilo que se obteve com anos de trabalho decente deve ser preservado. Se havia dificuldade de manter o negócio, há muitas outras maneiras de se atrair mais clientela, mas a pior é enganar as pessoas.
Fica em mim a sensação de que os valores são coisas que perderam um tanto de sua importância, que a lógica do mercado se sobrepõe a eles, e o vale-tudo está cada vez mais presente nas relações humanas, sejam elas de consumo ou de afeto. Exemplos não faltam. O metrô paulistano era considerado, tempos atrás, o melhor meio de transporte da cidade, limpo, organizado, pontual. Hoje o que se vê é total desrespeito ao usuário, que se espreme e faz verdadeira ginástica para entrar na composição. Vão dizer que aumentou exponencialmente o número de pessoas que o utiliza, ok, mas e o investimento para atender à nova demanda?
Em mim ainda fica uma certa angústia de perceber que a vida está cada vez mais complicada, que o crescimento desmedido da cidade torna o fruir das coisas que nos agradam mais difícil, que para se ter algo um pouco mais qualificado se deve pagar muito e, assim, se segmenta cada vez mais o acesso, alargando o abismo social tão notório em nosso mundo. É triste.
Mas nem tudo está perdido. Fomos sexta-feira, 06/04, no bar do Alemão, outro reduto tradicional da cidade que ainda não conhecia. Atendimento correto, chope bem tirado, música de altíssima qualidade (se bem que alta demais, atrapalhando a conversa). Reencontrei lá o músico Eduardo Gudin, que há tempos não via tocar, desde o histórico show com Vânia Bastos, com quem gravou um LP sensacional. Achei-o meio acabado, magro demais, a idade cobrando seu voraz tributo. Mas o violão continua um primor. Agradeço aos amigos Regina e Antônio pela dica. E ainda encontrei lá o camarada Lela e Célia. Eles sabem das coisas.
Mas nem tudo está perdido. Fomos sexta-feira, 06/04, no bar do Alemão, outro reduto tradicional da cidade que ainda não conhecia. Atendimento correto, chope bem tirado, música de altíssima qualidade (se bem que alta demais, atrapalhando a conversa). Reencontrei lá o músico Eduardo Gudin, que há tempos não via tocar, desde o histórico show com Vânia Bastos, com quem gravou um LP sensacional. Achei-o meio acabado, magro demais, a idade cobrando seu voraz tributo. Mas o violão continua um primor. Agradeço aos amigos Regina e Antônio pela dica. E ainda encontrei lá o camarada Lela e Célia. Eles sabem das coisas.
quarta-feira, 28 de março de 2012
A lenda ganha história
“Lenda não tem história.” É o que diz Paulo Coelho em determinado momento do filme “O início, o fim e o meio”, documentário de Walter Carvalho e Eduardo Mocarzel sobre o mito Raul Seixas, a que assisti nesta segunda-feira, 26/03/12, em uma sessão das 16h20 quase vazia no Espaço Unibanco (Itaú?) do Shopping Bourbon.
Sim, apesar da resistência do místico escritor e parceiro do Maluco Beleza em dar seu depoimento ao filme, sua presença é bem constante na fita, dando até leve impressão de que o homenageado lá parece ser ele, e não o retratado. Tudo bem. O filme é ótimo, bem pesquisado, com cenas inéditas e recheado de canções sempre boas de ouvir.
Começa com imagens de “Easy Rider” (aqui, “Sem Destino”), o grande filme dirigido por Dennis Hopper, lançado em 1969, que aborda o movimento hippie, a contracultura e a liberdade. E introduz Raul como o cara que fez a fusão do rock com a música popular brasileira, misturando guitarras e triângulo e atabaques, atacando até de bossa-nova em alguns momentos.
Sim. Raulzito inovou o rock brazuca, até então ingênuo e careta na Jovem Guarda e depois desafiador com os tropicalistas e os Mutantes. Ele queria dizer algo libertário, em uma época em que a ditadura procurava calar vozes dissonantes e a censura extirpava letras de Chico Buarque e afins.
Vários depoimentos importantes traçam um perfil bem honesto do baiano, desde a mãe, irmão, amigos de infância, primeiros parceiros, as mulheres, filhas, produtores, jornalistas, outros artistas, enfim, um painel aparentemente completo da vida do cara. Sua paixão por cinema, que o levou a conhecer outro mito, Elvis Presley, que o fez dedicar-se ao rock o resto de sua vida.
Faltou o depoimento de Jerry Adriani, que aparece apenas em uma foto esmaecida, ele que levou Raul ao Rio e o introduziu em uma gravadora, onde trabalhou como produtor, compôs para vários artistas do cast (inclusive para Adriani) e acabou lançando seus próprios discos. Injustiça. Talvez tenha se recusado, não sei.
É um filme importante por documentar um artista da estatura de Raul, porém um tanto comovente demais para meu gosto, feito para chorar, coisa que destoa do espírito do nosso roqueiro maior. Preferia um documentário mais doidão, que acompanhasse em estética fílmica o pensamento e atitudes do músico. Mas não deixa a desejar, o retrato é bem detalhado.
Em 1973, a loja de discos de meu pai recebe o Krig-ha, bandolo!, primeiro trabalho solo de Raul, com os clássicos “Ouro de tolo”, “Mosca na sopa”, “Metamorfose ambulante”, “Al Capone” – esta em parceria com Coelho. Um disco memorável, que eu ouvia à exaustão e me fez abandonar de vez as breguices que escutava até então (exceção aos Beatles, que curtia desde pequenino).
Foi uma época muito legal o início da década de 1970. Acho que a encheção de saco que o AI-5 trouxe fez o pessoal das artes ficar mais criativo, e desse período surgem artistas que fizeram acontecer durante muitos anos e outros que caíram no ostracismo rapidamente. Normal. Eu, aos 12, 13 anos, assistia a aquilo tudo com enorme curiosidade e refinava meu gosto, além de me motivar a ser cantor também, objetivo, contudo, que nunca persegui.
O filme faz a lenda virar história, e isso é importante em um tempo em que muitos, absurdamente, não sabem de sua existência. Sim, ouvi de uma menina de seus 20 e poucos anos que estuda fotografia comigo não o conhecer! Isso apesar de o bordão “toca Raul” já ter se tornado um clássico nos botecos. Talvez seja melhor ele permanecer mesmo como mito.
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sexta-feira, 16 de março de 2012
Meu primeiro Chico
Dois de março de 2012, uma sexta-feira, eu e Isabela fomos assistir ao show de Chico Buarque no HSBC. “Hoje é o dia da graça”. Primeira vez em nossas vidas vendo esse ícone ao vivo em um palco. Emoção. Alegria. “Abro meus braços pra você”. Momento raro. Vejo em seu site que este foi o sexto espetáculo que ele apresentou em 36 anos. Não podia perder.
Tinha visto Chico uma vez no Rio, acho que em 1996, em uma partida de futebol entre seu time, o Polytheama, e uma seleção de barrigudos do PT. Após a partida (esqueci quem ganhou), ele, arisco, safou-se do batalhão de jornalistas que o queriam bombardear de perguntas como quem se livra de um ataque de abelhas. “E a gente vai ficando pra trás”. Não respondeu à minha pergunta (nem me lembro mais qual foi). Na verdade, respondeu a uma ou duas e sumiu, atravessando perigosamente a avenida Brasil rumo a sei lá onde, correndo o risco de “morrer na contramão atrapalhando o tráfego”.
Outra vez, em 1997, o vi no lançamento do projeto “Terra”, com livro contendo fotos de Sebastião Salgado, texto de José Saramago e um CD com quatro músicas dele. Mas também inacessível.
Desta vez não, estava lá no palco, roupas escuras, cenário com reproduções de telas de Portinari e desenho Niemeyer e um desenho geométrico, iluminação quente. “Eu não queria jogar confete, mas tenho de dizer, ‘cê’ tá de lascar, ‘cê’ tá de doer.” Uma turnê longa, iniciada em novembro em Belo Horizonte e que aqui, em São Paulo, está estendida até abril.
Começou com O Velho Francisco. Entremeou canções do último disco, “Chico”, que não conheço, com outras de várias fases de seus 45 anos de carreira. Algumas de que consigo me lembrar: Desalento, Bastidores, Teresinha, Ana de Amsterdam, Anos Dourados, Sob Medida,Tereza da Praia (que dividiu os vocais com o baterista Wilson das Neves, de quem ficou com o chapéu da foto), Cálice (homenageando o rapper Criolo) e, surpresa, Geni e o Zeppelin!
Esta merece um destaque: foi a música que me fez prestar atenção nele, lá nos meus 16, 17 anos. Claro que sabia de sua existência pelos festivais, dos quais eu era espectador interessado pela TV. Conhecia A Banda e Sabiá, mas nesta época, 78, 79, meu gosto musical era duvidoso, sem muito critério, “à toa na vida”.
E essa música, por causa do verso “joga bosta na Geni”, chamou minha atenção – e a de todo o país, imagino -, pois vivíamos um regime militar que censurava tudo e tornava a vida muito careta, “tanta mentira, tanta força bruta”. Pouco tempo depois, em 1980/81, já participando do movimento de jovens da paróquia de meu bairro, virei seu fã incondicional e de tantos outros bambas da dita MPB.
Eu montaria outro repertório para o show. Eliminaria muitas das músicas novas, que não me empolgaram (o penúltimo disco dele, “Carioca”, comprei e ouvi apenas uma vez), e acrescentaria muitas mais antigas e conhecidas. Difícil escolher. “Tem samba de sobra pra gente sambar.” Mas valeu assim mesmo. Um espetáculo que fez brotar emoções “à flor da pele”. “Deus lhe pague”, Chico.
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sábado, 10 de março de 2012
O preço
Tudo neste mundo capitalista (mesmo nos ditos socialistas) tem um preço. Monetário ou não, há sempre um valor determinado a pagar pelo que você deseja. Também aquilo que você pratica tem um custo, está na física: para cada ação, há uma reação correspondente, de igual intensidade. Boca grande também costuma suscitar a cobrança de tributo. Tenho o hábito de falar o que me dá na telha, sem medir as consequências. Isso é resultado de anos de mutismo, que trabalhei anos para superar. O problema é que acho que erro na dose. Ponderar sempre é bom. O velho ditado de pensar dez vezes antes de agir - ou falar algo - é uma verdade absoluta.
A sabedoria, dizem, está em ouvir mais e falar menos. Na época que frequentava as comunidades eclesiais de base, as CEBs, havia a máxima Ver, Julgar, Agir. Acho que ando me esquecendo um pouco da palavra do meio, ou então julgado errado, ou apressadamente. E, como disse, pago o preço pelo afobamento.
Tive perdas recentes, por causa de não avaliar adequadamente a situação, e despejar a primeira impressão que me veio à cabeça. E certas perdas são irredutíveis, não têm volta. Agora é administrar o prejuízo e aprender com essa lição (tema do post anterior, ora veja!).
Alguém me disse dias atrás que é necessário se basear em fatos concretos para tomar alguma atitude. Suspeitas, indícios, evidências podem acender o sinal amarelo, mas não podem ser a base para o julgamento, a ação, a palavra dita. O problema é que isso fica registrado na mente, mas o impulso não permite muitas vezes resgatá-lo antes de fazer qualquer coisa.
As pessoas estão muito impacientes hoje, acho que sempre, mas agora sinto um pouco mais de intensidade nisso, sei lá. Ninguém mais vai tolerar ser maltratada ou distratada, ou tentar compreender a razão de certos gestos. É mandar às favas e chamar o próximo da fila - odeio a expressão 'a fila anda'. Porque parece que as relações se estabelecem em bases pouco firmes, e qualquer abalo é suficiente para deixarem de existir.
Pois é, o ano que me parecia que seria glorioso, até o momento só tem me trazido dissabores, e é hora de parar um pouco e refletir sobre o que vem acontecendo, rever as ideias, pensamentos, analisar os comportamentos, atitudes, e, principalmente, parar para pensar antes de pôr qualquer gesto em ação. Espero que aprenda a lição.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Lições de vida
Dias conturbados, estes últimos. Muitos acontecimentos. Uns bons, outros nem tanto. O que é bom é que tudo que se extrai dessa vida são as lições, as que nos guiarão para o futuro, nos farão refletir sobre nossos procedimentos e os das pessoas que estão ao nosso redor. O importante é aprender e se distanciar o suficiente para ver com olhos clínicos para tirar dos fatos o que eles nos apresentam de ensinamentos. Um exemplo: acreditar que alguém vá se moldar ao que você quer é uma besteira. As pessoas não estão nesse mundo para se adequar ao que outros esperam dela. Qualquer um tem o direito de ser o que é e esperar que seja aceito assim.
Outra boa lição: pessoas canalhas vão ser sempre canalhas e, quanto mais disfarçam, mais canalhas são. Dissimular penso que seja o pior da canalhice, pois esse tipo de gente não se expõe, na verdade se esconde em pele de cordeiro para dar o bote na hora certa. Temos de identificar logo e fugir de pessoas assim. É difícil às vezes perceber, mas não impossível. Uma dica: quem muito se contradiz e tem explicação para tudo, mesmo que não aparente coerência, pode apostar, tem coisa aí.
Portanto, até agora me referi a duas coisas importantes que aprendi nesses poucos anos que vivi até agora (sim, como disseram minha filha e amigos, não sou tão entrado em anos assim como me quiseram fazer crer): não esperar dos outros muito além do que eles são e aprender a reconhecer o malfeitor o quanto antes para não cair em armadilhas que podem lhe prejudicar bastante.
A vida está aí para nos ensinar e cabe a nós saber captar essas lições e aproveitá-las. Eu vivi experiências nos últimos anos que, surpreendentemente, abarcaram essas duas verdades. Me envolvi com pústulas e acreditei que não o eram e que, contudo, podia ter delas mais do que queriam me oferecer. Tolice! Se já é complicado esperar de pessoas honestas que sejam aquilo que você quer delas, que dizer de gente do mal? Essas, sim, jamais vão querer se adaptar, pelo contrário, vão querer te enrolar para que você seja a marionete nas mãos dela.
Mas nem tudo é sofrimento. Também estive ao lado de pessoas que me amam e que eu amo, e essas, sim, não querem ver minha ruína e aceito como são e elas a mim também. Todos temos defeitos, falhas, fraquezas, inconstâncias, é próprio da natureza frágil que temos, por conta da complexidade das relações humanas, dos interesses individuais quase sempre se sobrepondo aos coletivos. Afinal, madres Terezas de Calcutá não as há em abundância por aí.
Falar nisso, essas lambadas da vida me fizeram mais generoso e condescendente, ao contrário de me tornarem amargo e egoísta, como era de esperar. Não, eu não quero me vingar de nada e de ninguém, porque se me ferrei foi porque me deixei iludir, porque elementos para perceber que estava entrando em uma fria tinha de sobra. O que faltou, talvez, foi coragem de cortar o mal pela raiz e enfrentar a dor que o rompimento provoca, mas que passa, como tudo.
Portanto, a hora agora é de rever o que se passou, extrair a devida lição e não pensar mais muito nisso, tocar a vida em frente, porque, como diz o ditado, para frente é que se anda. Quem quiser caminhar comigo será bem-vindo e aceito como é. E, se for canalha, sinto muito, meu tempo é precioso e só a mim pertence, e prefiro gastá-lo com quem seja realmente prazeroso estar.
sexta-feira, 2 de março de 2012
A razão da idade
Não me incomodo quando me chamam de velho. Primeiro, porque quem o faz em tom pejorativo revela preconceito, e para a opinião de pessoas preconceituosas não dou o menor valor. Segundo porque pessoas com mais idade têm, sim, lugar no mundo, são os guardiões de nossa história e podem ser a lanterna na popa e na proa (lembrando livro do economista Roberto Campos) para os que têm a curiosidade necessária de ouvi-los para entender um pouco as coisas. Terceiro porque o passar dos anos nos dá de presente o ensinamento, a experiência, coisas que ninguém pode tirar de nós e que podemos passar de graça a quem se interessar; portanto, antes de tentar ofender alguém chamando de velho, é melhor refletir um pouco sobre o significado da vida e como a idade é algo relativo.
Conheci esta semana uma pessoa de quase 100 anos, senhor Pedro, de uma lucidez incrível. Um homem gentil, educado, interessado, a quem ouvir é um prazer inigualável. Muitas vezes a gente bate a cabeça por aí, errando, hesitando, perdido sobre o que fazer, e esquece que o que podemos estar vivendo neste momento tem um peso que podemos estar exagerando em sua dimensão. Ouça alguém mais experiente, vai ver que isso já foi vivido por essa pessoa e que pode ter muito menos importância do que parece.
Convivi com pessoas que sofriam demasiadamente por causa dos problemas que vêm lhe atormentar, e chegaram ao cúmulo de achar que não têm mais lugar neste mundo, tamanha a carga de agruras por que acham que passam. Ora, problemas sempre os teremos, a diferença está em sabermos encará-los com tranqüilidade e coragem, não os deixar crescer demais, porque aí sim eles nos engolem.
A juventude é uma delícia, claro, o vigor, a capacidade quase ilimitada de realizar as coisas, o descobrir. Mas cada fase da vida tem seu encanto, e quem tem filho sabe bem disso. Penso que não é legal a gente se vangloriar por ser jovem, bem disposto e com muito mais competência para certas atividades que os mais idosos. Quando eu era adolescente, sofria muito pela dificuldade de compreender muitas coisas, e clamava pela experiência que agora tenho. Mas nem por isso deixei de viver cada ano de minha vida com a plenitude que pude... e nunca maltratei ou humilhei ninguém de qualquer idade.
Novo ciclo – Estou percebendo que uma etapa nova se inicia em minha vida. Meio que por acaso, as coisas foram acontecendo e, ao me dar conta, vi que a vida nos reserva sempre surpresas – boas e ruins. Nada foi planejado, as decisões foram ao sabor das oportunidades, dos desejos que surgiam. O importante é que tive a destreza de perceber a mudança e a coragem de abraçar o novo sem medo de ousar. Eis aí mais uma importância da experiência: antes o novo me assustava e me deixava hesitante, pé no chão por demasia que sou. Agora, vamos encarar, e seja o que Deus quiser.
Deixo para trás dissabores que quase me fizeram perder a razão, e o faço sem ressentimento, pois isso só entorpece os sentidos e diminui nosso valor. A tendência, após ter vivido experiências tenebrosas, é ficar batendo a cabeça se perguntando como pude ser tão burro, ingênuo. Ora, ninguém está imune a se enganar, nem toda experiência do mundo nos livra de cair em armadilhas da vida, afinal, a gente tem boa fé e isso por vezes impede que sejamos desconfiados o suficiente para evitar que o mal nos atinja.
Como disse recentemente a uma pessoa, o fato de ter sido ludibriado em várias ocasiões não significa que todos são ruins e que vou me ferrar novamente. Se fosse assim, não poderia mais sair de casa, conhecer pessoas, experimentar novas sensações. Ainda tenho fé nas pessoas de bem, que há em abundância por aí. E continuo acreditando que viver vale a pena e o importante é seguir em frente.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Sete Estados
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| BR-364 - Divisa Goiás/Mato Grosso |
Gosto de viajar, mas o que me encanta mesmo é dirigir. Chegar é menos importante do que o ir, para mim. Nestas férias, botei o carro na estrada dia 30/01 e voltei em 15/02. Foram quase 5.700 quilômetros rodados, passando por sete Estados. Peguei todo tido de estrada: perfeita, razoável, esburacada, de terra; viajei de dia, de noite, e cheguei ao cúmulo de dirigir 27 horas direto, com apenas pausa de cerca de duas horas para um cochilo. Sei lá, meio que testando meus limites, mas também porque não gosto de parar. A estrada me deixa absorto. Vou dirigindo, ouvindo minhas músicas preferidas, tomando coca-cola. Nem fome me dá. Loucura, disseram-me. Mas é meu jeito de ser.
Gosto de conhecer meu país, suas diferenças regionais. Os cheiros característicos. Cada estrada tem seu aroma. O de café em Minas; laranja em São Paulo; de cana e soja no Mato Grosso. Outras têm um fedor terrível, cheiro de sujeira, de óleo diesel queimado, de asfalto derretendo. Aromas de produtos os mais diversos em zonas industriais, de vegetação as mais variadas nas áreas rurais. Pessoas de todos os tipos. Isso tudo me encanta, essa diversidade que marca nosso país. É a economia real à minha frente, o Brasil que lemos nos jornais e interpretamos nas estatísticas frias e nos enunciados dos economistas e especialistas. Viajar pelo país é vê-lo em sua verdade intestina, fora da maquiagem edulcorada dos paraísos turísticos.
Chegando a uma localidade, é guardar a bagagem e sair à rua, à praia, à praça, ir aos bares, restaurantes, comércio e conversar com as pessoas, observar, interagir. Comer a comida local, beber o que se toma ali, dançar a música que se ouve. Pena que essa "aldeia" se tornou por demais global e quase tudo se padronizou e comportamentos, hábitos, costumes típicos estejam sendo substituídos por aquilo que a televisão aponta como legal. Exemplo: em Nova Viçosa, na Bahia, onde fiquei quatro dias, me falaram de um luau na praia. Fui lá, esperando uma roda em torno de alguém com um surrado violão, cantorias iluminadas pelo brilho da lua cheia. Que nada: cheguei na praia onde se realizaria o encontro e o que vi foram carros com os porta-malas abertos e os alto-falantes enormes expostos jorravam o mais indigesto "funk carioca", e meninas de bermudas ínfimas rebolando suas bundas em coreografias eróticas... Nem esperei a coisa começar.
Na mesma cidade, à noite a diversão era ir na pracinha do centro, cheia de barraquinhas de "artesanato", que não passavam de coisas industrializadas que se encontram em qualquer ponto do país. No sábado, uma bandinha local tocava os maiores "sucessos" de todos os tempos, coisas como o axé baiano, o tal sertanejo, universitário ou não, os telós da vida... Pelo menos em Goiânia assisti a algo interessante: em um shopping, uma cantora local, Karine Serrano, entoando chorinhos clássicos, em um pocket-show que está se tornando comum nos centros de compras espalhados por aí.
Longe de ser um tradicionalista chato, o que me dá mais tristeza é notar que o Brasil profundo está cada vez mais se tornando uma coisa só, e os assuntos acabam sendo os mesmo em qualquer lugar que se vai. Mesmo assim vale a pena sair por aí, conhecer, ver, experimentar. Trouxe, como sempre, lembranças muito boas dos lugares por onde passei e das pessoas com quem tive contato.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Vizinhos indesejáveis
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| Foto: Raul Machado (site SRZD) |
Quando nos mudamos para Santo André, em 1974, na casa que meu pai construiu quase com as próprias mãos em terreno que sua mãe comprara assim que voltou do interior de São Paulo, ganhamos de presente um vizinho que promovia cultos de umbanda toda sexta-feira à noite, e o batuque rolava até alta madrugada. Não foram poucas vezes que o velho Chico chamou a polícia e nem menos as que ele próprio foi tomar satisfação do seu Brás, o dono do lugar e pai-de-santo que promovia a "baderna". Para piorar, aos domingos, logo cedo, a igreja católica em frente começava a "tocar" os sinos (na verdade, era um disco com sons de carrilhões, já que o templo não tinha campanário). Às 18h, a coisa se repetia.
Casado, fui morar em São Bernardo do Campo, em um bairro pouco afastado do centro, bem aprazível. Mas logo em seguida foi aberto um boteco que à noite reunia um monte de motoqueiros e jovens motorizados que gostavam de ligar um som bem alto e ficar na algazarra horas a fio. Com a Isabela pequena em casa, a coisa era difícil. Queixas da vizinhança não adiantaram, e as noitadas acontecem até hoje. Por que será que o poder público não dá atenção a esses delitos, preferindo centrar fogo em nossos deslizes no trânsito apenas?
Depois, separado, fui morar em outro bairro da mesma cidade. E aí a encrenca era um pátio de veículos onde as transportadoras (donas das famosas "cegonhas") deixavam os veículos antes de os levar para toda parte do país ou ao porto de Santos. No caso nem era o barulho, mas o trânsito daquelas carretas na via de acesso ao meu condomínio tornava o ir e vir um tormento diário. E mais: pouco acima do prédio, uma oficina que atende às empresas, esta sim, fazia um barulho infernal de marreta no aço, serra, furadeira e sei lá mais que sons desagradáveis que acabavam com o sossego.
Morei em seguida um tempo no Jabaquara, enquanto meu apartamento novo não era entregue, bem vizinho ao aeroporto de Congonhas. O som dos aviões e suas turbinas malucas o tempo todo impedia que se visse (e entendesse) algo que se estava vendo na TV ou se ouvisse uma música que se tentava escutar. Ler, então, era um exercício de paciência, inúmeras as vezes que era necessário reler o que acabava de ler porque o raciocínio tinha sido interrompido por nova chegada de aeronave.
Agora, aqui na capital paulista, além dos vizinhos de prédio que, insatisfeitos com o que acabaram de comprar, vivem em obras, tenho bem em frente a minha janela a escola de samba Mocidade Alegre. Seus ensaios e festas são para pôr à prova o nível de tolerância de qualquer cidadão de bem. O baticum começa logo após sair o resultado da apuração do carnaval. Claro, acabado o desfile do ano, é hora de se pensar no do ano seguinte, pois a festa pagã, de tanta fama aqui e no mundo, não pode parar. Incrível é a voz do tal puxador de samba da escola, potente a tal ponto que nem precisaria de microfone, amplificador e caixas acústicas. Mas o sacripanta faz questão de usar o equipamento e o faz no volume máximo, talvez porque os foliões que ali estão sejam surdos de tanto frequentar o ambiente. Mas nós, vizinhos, não somos. E sofremos.
Morar bem realmente é privilégio de poucos. A solução, em meu caso - enquanto não coto as tais janelas indevassáveis -, é deixar o volume do que estou ouvindo bem alto e dormir com fones nos ouvidos, apreciando uma boa música ou programas de rádio. O problema é que posso sofrer precocemente de problemas auditivos (já percebo uma diferença entre a audição do ouvido direto e o do esquerdo).
Mas garanto que não tenho absolutamente nada a ver com o incêndio no barracão desta escola, embaixo do viaduto Pompeia, ontem (09/01/12), que destruiu algumas de suas alegorias...
Reparação - Quero reparar uma injustiça cometida em meu último post (Decepção). Apesar do infortúnio por que passei no revéillon, minha virada de ano foi ótima, com minha família, irmãs, cunhado e sua mãe, sobrinhos, sobrinhos-netos (entre os quais a pequena Nathália, que vem se desenvolvendo a contento, graças a Deus). Depois do Natal também perfeito com minha filha e sua família, só posso agradecer ter gente tão boa ao meu lado, o que apequena ainda mais o episódio chato que me aconteceu.
Reparação - Quero reparar uma injustiça cometida em meu último post (Decepção). Apesar do infortúnio por que passei no revéillon, minha virada de ano foi ótima, com minha família, irmãs, cunhado e sua mãe, sobrinhos, sobrinhos-netos (entre os quais a pequena Nathália, que vem se desenvolvendo a contento, graças a Deus). Depois do Natal também perfeito com minha filha e sua família, só posso agradecer ter gente tão boa ao meu lado, o que apequena ainda mais o episódio chato que me aconteceu.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Decepção
"Eu não acredito nas pessoas, eu acredito nas evidências. Pessoas mentem, evidências não!" (Francisco Cembranelli, promotor de Justiça no Estado de São Paulo)
2012 começou péssimo para mim. E eu que esperava que, por ser ano par, as coisas melhorariam um pouquinho em relação ao anterior. É que sempre me acontecem fatos bons em anos pares, não sei bem por quê, coisas da metafísica. O fato é que o réveillon já prenunciou que este 2012 bissexto pode não ser tão alvissareiro quanto eu imaginava. De bom princípio, o que ganhei foi uma tremenda decepção, uma traição profunda, um balde de água gelada bem na moleira, uma pisada na bola inesquecível. E o pior é que ainda me pus a acreditar que eu podia estar errado e relevei os fatos. Mas a verdade sempre triunfa e o acaso trabalha para as coisas se colocarem em seus devidos lugares.
2012 começou péssimo para mim. E eu que esperava que, por ser ano par, as coisas melhorariam um pouquinho em relação ao anterior. É que sempre me acontecem fatos bons em anos pares, não sei bem por quê, coisas da metafísica. O fato é que o réveillon já prenunciou que este 2012 bissexto pode não ser tão alvissareiro quanto eu imaginava. De bom princípio, o que ganhei foi uma tremenda decepção, uma traição profunda, um balde de água gelada bem na moleira, uma pisada na bola inesquecível. E o pior é que ainda me pus a acreditar que eu podia estar errado e relevei os fatos. Mas a verdade sempre triunfa e o acaso trabalha para as coisas se colocarem em seus devidos lugares.
Não quero perder a fé na humanidade, como disse em mensagens de feliz ano-novo que mandei a pessoas queridas - elas, sim, que dão alento à minha vida. Mas acho que está cada vez mais difícil se acreditar nas pessoas, nas suas boas intenções, na retidão de seus caracteres, na verdade de suas ações e sentimentos. Infelizmente, há pessoas que conseguem, com ardis hábeis, iludir o mais experiente dos seres humanos (o que decididamente não sou). Artimanhas bem urdidas, argumentos irrefutáveis, estratégias bem pensadas para enganar - ou pode ser mesmo uma habilidade nata para fazer o mal parecendo estar realizando o bem.
Cuidado, alerto aos amigos. Pessoas são o diabo, sempre o interesse delas estará à frente, não nos podemos iludir com benfazejas intenções, quando no fundo o que se pretende é extirpar algo de você, de que dimensão for, não importa. A quem nada tem - ou julga merecer mais do que possui -, escrúpulo às vezes é artigo raro. Caí na armadilha, fazer o que: olhar para frente, absorver a experiência e seguir em frente, talvez se preparando para as consequências que possam vir.
Ontem (05/01), li um post no Facebook de uma colega radialista que menciona algo semelhante, sobre uma decepção sofrida apesar de sua percepção a alertar que havia algo de estranho no ar. E repito aqui o comentário que lhe fiz: precisamos sim prestar atenção à nossa intuição. A gente não é totalmente burra, é fácil juntar os pontos, conectar os indícios e chegar a uma conclusão, ou, ainda em princípio, uma suspeita. Tudo bem que a Justiça consagrou o benefício da dúvida, mas quando as evidências começam a se multiplicar, os equívocos e mentiras se somam em progressão geométrica, o sinal vermelho acende. Mas, a mente trabalha em um ritmo e o coração em outro. E essa falta de sintonia entorpece a razão e faz a emoção aflorar e se evidenciar.
Não gosto de ser um ser racional total, gosto de emoções fortes, de me arriscar às vezes, de dar algum tempero a essa vida por tantas vezes chata, insossa que somos obrigados a levar. Mas vejo que, diante dessa experiência - e de outras tantas passadas -, é necessário um pouco mais de frieza na análise, de pé atrás no relacionamento com as pessoas. É próprio da vida, desde que a Humanidade se instalou no planeta, viver o perigo, seja ele vindo da natureza, seja dos membros da mesma espécie (não sei qual o pior). O problema é quando se precisa se defender de uma ameaça velada, dissimulada, disfarçada. Porque os inimigos verdadeiros mostram suas intenções à luz do dia e assim se consegue se preparar para a defesa ou o ataque. Mas a maldade travestida de bondade é complicada de se perceber; quando se vê, já se está envolto tanto que não há mais saída, a não ser desaparecer.
Fui vítima por um bom tempo de uma pessoa sórdida que agora não teve como negar o óbvio, como tantas outras vezes fez em momentos em que a contradição, a abjeção, o aviltamento se mostraram na minha cara e eu, tolo, inepto para perceber as coisas elementares da ação vil, acreditei que meus olhos estavam enganados, minha inteligência me pregava uma peça, meu instinto de sobrevivência poderia estar exagerando. Não, desta vez esse embotamento não será possível, há prova material, pública (sinal de que mesmo as mentes mais psicóticas não são tão inteligentes assim como se crê). A máscara finalmente caiu.
A mim me resta esquecer a pessoa, não o episódio, que este deve estar sempre bem fresco na memória para que não me deixe enganar novamente, lamentavelmente vai embutir em minha mente a dúvida, a apreensão, a descrença, o ceticismo, talvez o niilismo. E confiar em alguém será um exercício mais complicado, quem sabe.
Mas, como de tudo se tira uma lição, imagino que deste acontecimento o ensinamento é que a gente não pode se dar tanto, se doar demais; é necessário se preservar, manter uma certa margem de manobra, e ter um plano de fuga bem elaborado para a emergência que se fizer necessária. E esse plano envolve principalmente o desapego, o livrar-se daquilo que lhe é nocivo, mesmo que por vezes prazeroso. Afinal, este é o mote de tudo que vicia: a expectativa de um efêmero benefício, mas a um alto custo.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Estado de zumbi
Meu corpo anda me pregando peças incríveis. Tenho sono nas horas menos recomendáveis e falta dele nas necessárias. Isso já me causou constrangimentos e perdas irreparáveis. Uma delas, que me recordo com tristeza, foi ter dormindo profundamente no teatro, em 2007, assistindo a O Avarento, com Paulo Autran, sua última atuação antes de morrer, em 12/10 daquele mesmo ano. Foi lamentável, pois era a primeira vez que via o grande Autran no teatro - e, claro, a última. Houve outros episódios semelhantes, em que dormi profundamente em espetáculos musicais, teatrais, cinema, em frente à TV, na mesa de bar, e, até, na cama...
Deve ser algum distúrbio criado após os anos a fio em que venho invertendo o relógio biológico para trabalhar. Fiz até um exame específico, polissonografia, que, segundo o médico, não acusou nada de anormal, mas me receitou um remediozinho natural para ajudar a dormir. Mas é chato viver assim, as pessoas acabam por achar que está sendo enfadonho para mim estar ao lado delas, quando na realidade não é nada disso.
Às vezes dou pescadas inevitáveis na mesa de trabalho, chegando a quase cair da cadeira. Certa vez, dormi ao volante, indo para casa, quando ainda morava em São Bernardo. Foi apenas um cochilo rápido, mas o suficiente para perder a direção; sorte que despertei a tempo de desvir o carro, que ia direto para embaixo de um caminhão; mas a manobra rápida em pista molhada pela chuva me fez derrapar e só parar ao bater no guard-rail. Foi a gota d'água que me levou a me mudar para perto do local de trabalho poucos meses depois. Hoje, vou a pé para o serviço, mas o sono ainda me persegue.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
... e la nave va...
Vida que segue - Isto é incrível. Estamos nos aproximando de mais um fim de ano, Natal, 2012 na soleira. Hora de fazer balanço? Perspectivas para o ano que virá? Muito óbvio. Ontem (15/12), em evento no trabalho, the boss disse que 2011 parece que durou 18, 24 meses, todos doidos para logo terminar. É. Tirando as razões específicas pelas quais ele isso comentou, diria que, sob minha perspectiva, este ano passou ligeiro. Escrevi muito pouco aqui, porque fiz pouco, mas também muito. Voltei a estudar, a malhar, emagreci muito, mudei de casa e de cidade. Vi algumas convicções ruírem, incorporei outras, iludi-me e desiludi-me com a mesma velocidade. Conheci um monte de gente, e isto é uma grande dádiva. Revi pessoas, e outras nunca mais vi - acho que nem verei mais. Profissionalmente também encarei desafios interessantes, e pessoalmente outros igualmente árduos. Que esperar de mais um ano? Nada, afinal, não é o calendário que rege a vida, que segue indiferente ao dia, mês e ano que giram. Mas gosto de pensar que evolução virá, porque as cabeçadas que damos nos fazem rever procedimentos e tentar melhorar. É. Isso com certeza vai rolar. A principal creio que será ter mais cuidado para evitar dissabores vividos.
Grata surpresa - Quarta-feira, 14/12, conheci O Café. Papo ótimo, em local agradável. Pessoa interessante. Gosto de conhecer pessoas, e esta me veio de uma forma inédita e inusitada. Legal saber quem está atrás das personas criadas no mundo virtual. Isso tem me acontecido com alguma frequência. E há surpresas, e, claro, decepções. Neste caso, valeu a pena. Desde o almoço com o titular e leitores do Balaio do Kotscho que não saio tão feliz de um encontro. E a razão é que ainda há vida inteligente por aí, ao contrário do que eu vinha pensando, dados tantos infortúnios passados. A lição a tirar é que se deve escolher bem o que fazer na vida, pois o tempo é ligeiro e ela passa rápido, sem chance de retornar e consertar o que saiu errado.
Polêmicas - O livro A Privataria Tucana tem dado o que falar. A mulher que espancou o cachorrinho até a morte também. A doença do Lula gerou reações incríveis. O metrô em Higienópolis, a greve na USP, a morte de bin Laden e de Kadafi, a primavera árabe, queda de ministros de Dilma/Lula, crise europeia, aperto fiscal americano, Rafinha Bastos e muitos outros fatos... As redes sociais serviram como um termômetro do que anda na cabeça das pessoas, cumprindo um papel que os meios tradicionais de comunicação não têm condição de abraçar, mas pincelam, ao gosto do critério editorial. Todos têm o direito de expressar sua opinião, seja ela qual for. E encarar as repercussões - mesmo que não haja nenhuma (caso de algumas que tenho exposto). O legal é que podemos fazê-lo. Lembrei-me, na conversa, com O Café, de quando no então ginásio as coisas eram diferentes, não se podia abrir a boca e exprimir pensamento diverso do aceito pelos fardados que comandavam este país e seus habitantes como a recrutas relapsos. Porém, o que observo, é que parece que o espírito censório e ditatorial ficou impregnado nas mentes e contaminou as gerações seguintes, tamanhas as tentativas de calar a boca de quem anda desviando um tanto do senso comum. Isso é perigoso: revela o quanto de ódio existe na sociedade e que a famosa cordialidade do povo brasileiro, se existiu, anda esquecida.
Lição - Aprendi na marra uma coisa neste ano: quando alguém não se empenha por você, não adianta esperar muito deste. Atenção e dedicação não se obtém de quem não está à disposição. E, como dizia um velho gerente do banco em que trabalhei, não se deve gastar vela com mau defunto. Enterrei.
Lição - Aprendi na marra uma coisa neste ano: quando alguém não se empenha por você, não adianta esperar muito deste. Atenção e dedicação não se obtém de quem não está à disposição. E, como dizia um velho gerente do banco em que trabalhei, não se deve gastar vela com mau defunto. Enterrei.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Um dia politicamente correto e incorreto
Cheguei ao North Beer, zona norte de SP, por volta de 14h de sábado, 10/09/11. Mesa reservada, poucas pessoas ainda. Kotscho já lá estava, vi-o entrando quando estava ainda na calçada. Entrei de mansinho, procurei uma cadeira, coincidentemente em frente à do homenageado, ao lado de Ênio. Tímido, me sentindo um estranho no ninho; algumas pessoas me olhando, outras perguntando meu nome, de onde eu era. Marisa, que me avisara do evento e me convidara, ainda não tinha chegado, e fiquei naquelas de imaginar o que estavam pensando de mim ("mas quem será esse cara?").
Foi o terceiro encontro dos leitores do Balaio do Kotscho, blogue do veterano jornalista Ricardo Kotscho, hoje abrigado no portal R7, depois de pouco mais de 3 anos no iG. Aos poucos, mais leitores chegando, puxadas de papo, me soltando, conhecendo as pessoas. Audálio Dantas, outro veterano da imprensa, me cumprimenta. Outras pessoas também. Receptivas. Ouvindo as conversas, reconheço o Ênio ao meu lado, de ler sobre ele no blogue do Renato Rovai. Fazemos os pedidos: a maioria chope, caipirinha (de vodca, mas também pinga), Ênio pede Seleta e discorre sobre a qualidade da cana de Salinas, região mineira produtora das melhores cachaças brasileiras. Diz-se cachacista, apreciador e estudioso da aguardente, uma vez que cachaceiro é o fabricante, explica. Vou de Brahma Black, mas logo depois emendo com uma Seleta também, maravilhado com a cor amarelada observada no copo de meu vizinho de mesa. Saborosa, leve.
Kotscho levanta-se e volta com um prato recheado de tentações e, como diz uma amiga minha, gordices: torresmo, bacon, cupim, costela. Claro, não resisto. Belisco e logo depois pego minha porção também no bufê, acompanhado de um grosso caldinho de feijão. O evento é organizado pelo pessoal do Boteco do Balaio, site criado por pessoas que acompanham o blogue do Kotscho e lá costumam postar comentários e se tornou uma espécie de fórum de discussão. Mais à vontade, vamos conversando. Muito papo à toa, mas também política, claro, cultura, história, jornalismo. Agora começo a me sentir um peixe no aquário, integrado, pessoas com histórias parecidas com a minha, vivências similares, modos de pensar semelhantes.
Precisava disso, contaminado que ando por ambientes pouco a ver comigo, mas que por necessidade preciso frequentar. Nada contra, não podemos nos isolar em nossos feudos. O interessante foi constatar que são pessoas que mantêm o senso crítico, não babam ovo para o povo que está aí no poder, que muitos ajudaram a lá estar. Como mencionei em um post anterior, não me sinto parte deste governo, porque nunca quis isso, e, com esse necessário distanciamento, posso até discordar de algumas coisas que aconteceram nesses oito anos e nove meses de PT no Planalto.
Mas não é sobre isso que quero falar. É sobre a lufada de ar puro que lá respirei, o estar em um ambiente do qual me isolei já há algum tempo e estava me fazendo falta. Sempre falo que os jornalistas hoje estão um tanto caretas. Pelo menos em relação aos da época em que comecei. Não fumam, não tomam pinga, não comem porcarias de botequim... muito politicamente corretos para meu gosto. Muitos nem saem da redação mais, tudo na base do telefone, e-mail, MSN e outras tecnologias que permitem o cumprimento de vinte pautas em um dia. E lá estavam Kotscho e Audálio, entre outros, de grandes reportagens, de fôlego, como se dizia antes. Quando você podia mandar o repórter para longe e deixá-lo uma semana para voltar com uma grande matéria. O Kotscho, entre tantas outras, veio com uma que popularizou o termo "mordomia". O Audálio descobriu no Canindé a Carolina Maria de Jesus, catadora de lixo, cuja história foi eternizada no livro Quarto de Despejo, que li lá pelos meus vinte anos de idade e me marcou muito.
Sei lá, há ainda grandes reportagens nos meios de comunicação, nada de nostalgia do tipo "no meu tempo era melhor". Apenas os tempos mudaram. E ponto. Digamos que, por vivermos em um período de trevas (outra expressão bem datada), a realidade era meio escondida, e os jornalistas se esforçavam para quebrar esse bloqueio e trazer à luz que o tal milagre brasileiro era coisa para inglês (americano?) ver. Sim. Delfim fez o bolo crescer um pouco, mas já dividir... Lembra uma música que cantávamos no coral da igreja, de uma das Campanhas da Fraternidade da CNBB: "Meu irmão eu vi plantar/ meu irmão nos deu o pão/ mas na hora de jantar/ não chamaram meu irmão" (Esta mesa nos ensina). Comparações com os dias atuais ficam em aberto.
Lá, no almoço, foram feitas muitas, contadas histórias incríveis; eu ouvinte, pouco a contar, deslumbrado? Um pouco, mas mais reverente e respeitoso que aparvalhado. Afinal, em meus 23 anos de profissão, convivi com muitas feras e me orgulho disso; a gente aprende vivendo com os bambambans (e com os babacas também). Mas nem tudo lá era nostalgia, afinal, a gente vive o presente e nosso ofício exige estar sempre atualizado. O bom disso foi eu sair um pouco da toca que me impus, e voltar à rua me deu novo ânimo, vontade de escrever, de fazer coisas. Isso já se desenhou há pouco tempo, quando resolvi voltar a estudar, um curso básico de economia, na Fipe, nada que eu não já tenha visto, mas importante para desembaraçar certos conceitos e, melhor ainda, conviver com colegas e professores. Ouvir pontos de vista diferentes dos meus, discutir, aprender, sonhar com voos mais altos - meu projeto de cursar um mestrado ainda está de pé, quem sabe não consiga ano que vem...
Foi um belo sábado, concluído com a ida ao teatro, ver Trair e Coçar É Só Começar, que imagino ser um dos poucos brasileiros que ainda não a tinha visto, 25 anos que está em cartaz esse texto do global Marcos Caruso. Pena que dormi tanto na apresentação que nem acompanhei adequadamente os quiproquós em cena, mas ao final, já desperto, o ritmo estava mais agitado e permiti-me rir um pouco. Interessante foi ver um grupo de portadores da Síndrome de Down na plateia. Acho que algum instituto ou algo assim os trouxe. São adoráveis. Coincidência, quando me dirigia ao restaurante, ouvi no rádio entrevista com o criador do blogue Mano Down, Leonardo Gontijo, que conta suas experiências com o irmão mais novo, o Dudu. É. As coisas se intercalam, dizem que coincidências não existem, se conectam. O fato é que adorei este sábado. E de quebra ainda descolei uma bela dedicatória do Kotscho em seu livro Do Golpe ao Planalto, que darei de presente a minha filha Isabela, futura colega.
P.S. Por sugestão do leitor Rafael Campos, paragrafei o texto para ficar mais fácil de ler...Agradeço a sugestão.
Foi o terceiro encontro dos leitores do Balaio do Kotscho, blogue do veterano jornalista Ricardo Kotscho, hoje abrigado no portal R7, depois de pouco mais de 3 anos no iG. Aos poucos, mais leitores chegando, puxadas de papo, me soltando, conhecendo as pessoas. Audálio Dantas, outro veterano da imprensa, me cumprimenta. Outras pessoas também. Receptivas. Ouvindo as conversas, reconheço o Ênio ao meu lado, de ler sobre ele no blogue do Renato Rovai. Fazemos os pedidos: a maioria chope, caipirinha (de vodca, mas também pinga), Ênio pede Seleta e discorre sobre a qualidade da cana de Salinas, região mineira produtora das melhores cachaças brasileiras. Diz-se cachacista, apreciador e estudioso da aguardente, uma vez que cachaceiro é o fabricante, explica. Vou de Brahma Black, mas logo depois emendo com uma Seleta também, maravilhado com a cor amarelada observada no copo de meu vizinho de mesa. Saborosa, leve.
Kotscho levanta-se e volta com um prato recheado de tentações e, como diz uma amiga minha, gordices: torresmo, bacon, cupim, costela. Claro, não resisto. Belisco e logo depois pego minha porção também no bufê, acompanhado de um grosso caldinho de feijão. O evento é organizado pelo pessoal do Boteco do Balaio, site criado por pessoas que acompanham o blogue do Kotscho e lá costumam postar comentários e se tornou uma espécie de fórum de discussão. Mais à vontade, vamos conversando. Muito papo à toa, mas também política, claro, cultura, história, jornalismo. Agora começo a me sentir um peixe no aquário, integrado, pessoas com histórias parecidas com a minha, vivências similares, modos de pensar semelhantes.
Precisava disso, contaminado que ando por ambientes pouco a ver comigo, mas que por necessidade preciso frequentar. Nada contra, não podemos nos isolar em nossos feudos. O interessante foi constatar que são pessoas que mantêm o senso crítico, não babam ovo para o povo que está aí no poder, que muitos ajudaram a lá estar. Como mencionei em um post anterior, não me sinto parte deste governo, porque nunca quis isso, e, com esse necessário distanciamento, posso até discordar de algumas coisas que aconteceram nesses oito anos e nove meses de PT no Planalto.
Mas não é sobre isso que quero falar. É sobre a lufada de ar puro que lá respirei, o estar em um ambiente do qual me isolei já há algum tempo e estava me fazendo falta. Sempre falo que os jornalistas hoje estão um tanto caretas. Pelo menos em relação aos da época em que comecei. Não fumam, não tomam pinga, não comem porcarias de botequim... muito politicamente corretos para meu gosto. Muitos nem saem da redação mais, tudo na base do telefone, e-mail, MSN e outras tecnologias que permitem o cumprimento de vinte pautas em um dia. E lá estavam Kotscho e Audálio, entre outros, de grandes reportagens, de fôlego, como se dizia antes. Quando você podia mandar o repórter para longe e deixá-lo uma semana para voltar com uma grande matéria. O Kotscho, entre tantas outras, veio com uma que popularizou o termo "mordomia". O Audálio descobriu no Canindé a Carolina Maria de Jesus, catadora de lixo, cuja história foi eternizada no livro Quarto de Despejo, que li lá pelos meus vinte anos de idade e me marcou muito.
Sei lá, há ainda grandes reportagens nos meios de comunicação, nada de nostalgia do tipo "no meu tempo era melhor". Apenas os tempos mudaram. E ponto. Digamos que, por vivermos em um período de trevas (outra expressão bem datada), a realidade era meio escondida, e os jornalistas se esforçavam para quebrar esse bloqueio e trazer à luz que o tal milagre brasileiro era coisa para inglês (americano?) ver. Sim. Delfim fez o bolo crescer um pouco, mas já dividir... Lembra uma música que cantávamos no coral da igreja, de uma das Campanhas da Fraternidade da CNBB: "Meu irmão eu vi plantar/ meu irmão nos deu o pão/ mas na hora de jantar/ não chamaram meu irmão" (Esta mesa nos ensina). Comparações com os dias atuais ficam em aberto.
Lá, no almoço, foram feitas muitas, contadas histórias incríveis; eu ouvinte, pouco a contar, deslumbrado? Um pouco, mas mais reverente e respeitoso que aparvalhado. Afinal, em meus 23 anos de profissão, convivi com muitas feras e me orgulho disso; a gente aprende vivendo com os bambambans (e com os babacas também). Mas nem tudo lá era nostalgia, afinal, a gente vive o presente e nosso ofício exige estar sempre atualizado. O bom disso foi eu sair um pouco da toca que me impus, e voltar à rua me deu novo ânimo, vontade de escrever, de fazer coisas. Isso já se desenhou há pouco tempo, quando resolvi voltar a estudar, um curso básico de economia, na Fipe, nada que eu não já tenha visto, mas importante para desembaraçar certos conceitos e, melhor ainda, conviver com colegas e professores. Ouvir pontos de vista diferentes dos meus, discutir, aprender, sonhar com voos mais altos - meu projeto de cursar um mestrado ainda está de pé, quem sabe não consiga ano que vem...
Foi um belo sábado, concluído com a ida ao teatro, ver Trair e Coçar É Só Começar, que imagino ser um dos poucos brasileiros que ainda não a tinha visto, 25 anos que está em cartaz esse texto do global Marcos Caruso. Pena que dormi tanto na apresentação que nem acompanhei adequadamente os quiproquós em cena, mas ao final, já desperto, o ritmo estava mais agitado e permiti-me rir um pouco. Interessante foi ver um grupo de portadores da Síndrome de Down na plateia. Acho que algum instituto ou algo assim os trouxe. São adoráveis. Coincidência, quando me dirigia ao restaurante, ouvi no rádio entrevista com o criador do blogue Mano Down, Leonardo Gontijo, que conta suas experiências com o irmão mais novo, o Dudu. É. As coisas se intercalam, dizem que coincidências não existem, se conectam. O fato é que adorei este sábado. E de quebra ainda descolei uma bela dedicatória do Kotscho em seu livro Do Golpe ao Planalto, que darei de presente a minha filha Isabela, futura colega.
P.S. Por sugestão do leitor Rafael Campos, paragrafei o texto para ficar mais fácil de ler...Agradeço a sugestão.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O ofício de escrever
"Hoje os anos correm muito mais / e as noites já não têm calor / E uma saudade imensa é tudo / quanto resta ao velho trovador"
(Alberto Marino Júnior)
Alguém disse certa vez que escrever é cortar palavras, dizem que é obra de Drummond, mas ele negava. Em tempos de Twitter, com o limite de seus cento e tantos toques - mas nunca respeitados, por causa dos links -, a concisão é regra. Afinal, com a profusão de meios de informação que temos hoje, ninguém tem paciência para ler textos muito longos. De modo que procurarei, nessa retomada de meus escritos, ser econômico. Como eu dizia tempo atrás, sem "nariz de cera de Pinóquio". Pra quem não é do ramo, nariz de cera era (e ainda é por aí) um texto introdutório de uma matéria jornalística sem nenhuma informação relevante.
O motivo de eu voltar a escrever é que ganhei uma nova leitora e por ter encontrado um escrito meu de 30 anos atrás, quando me metia a poeta, mas sem nenhuma técnica, apenas pensamentos livres postos no papel, no afã de expressar o que a mente inquieta elaborava. O texto é enorme, quatro páginas de caderno universitário, em letra de forma. Não me lembro do contexto em que o escrevi, mas era um tempo em que vivia angustiado, conhecendo a realidade do mundo e me indignando com as coisas além dos limites do lar.
Tinha muita vontade de me manifestar, mas a timidez me podava a desenvoltura, e o veículo certo para isso era a escrita, daí ter optado pelo jornalismo, na esperança de pôr meu texto a serviço de alguma causa. Sei lá, passados 23 anos de profissão, se o que escrevi até hoje mexeu com a cabeça de alguém, mas percebi que aquela ideia inicial era fantasiosa, afinal, a imprensa tem um papel bem delimitado na sociedade e, enfim, sempre reflete o pensamento do dono do veículo, não de seus artífices. Como não me tornei nenhuma referência no jornalismo, não tenho o privilégio de escrever, profissionalmente, sobre o que me der na telha.
Mas é o ofício, afinal. Para o resto, esse blogue dá conta do recado (em termos, como disse à minha nova leitora). Mas o texto daquele 7 de agosto de 1981 é caudoloso porque tinha muito o que falar, e pouca coragem de dizer. Tinha um ambiente propício, amizades fortes, mas nem tudo a gente consegue expressar falando. Então escrevia, mas poucos liam. Angústia de quem escreve é a falta de leitor. Exercício solitário.
Imagino que tenha sido uma das minhas últimas tentativas de escrever livremente, a partir de lá, o escrever tornou-se ofício e, pior, muitas vezes reescrever o trabalho dos outros, ou os corrigir, que foi por onde comecei. Mas rever esse texto e outros papeis que encontrei em minhas arrumações de apartamento novo me remeteu àquele tempo de 20 anos de idade. Nelson Rodrigues escreveu que o homem guarda o menino dentro de si. Concordo, mas ando procurando esse jovem dentro de mim e o vejo muito distante.
Nunca senti muito o avanço dos anos, sempre me mantive jovial, com uma alegria de viver e conhecer que não percebia o tempo passar. Só quando se depara com coisas como esta que se dá conta de que o menino acabou ficando lá dentro mesmo, escondido em algum canto do ser. Se naquele tempo escrever solitariamente era meu modo de botar para fora o que me assombrava, hoje o que me assombra é ter visto tanta coisa que a indignação foi substituída por uma sensação de indiferença, de imobilismo, diria até de um certo niilismo, em sua concepção mais ordinária. O escrever tornou-se meio de subsistência, a revolta virou complacência, as relações humanas cada vez mais virtuais, o convívio trocado pela solidão.
Como dizem os versos ali em cima, do pai de minha nova amiga/leitora, a vida hoje está muito acelerada, os valores que prezávamos são postos ao chão a toda hora, e nem sempre conseguimos incorporar os novos. Se fosse reescrever esse texto de 30 anos atrás, talvez muito pouco se aproveitasse, mas o importante é que permanece como retrato de um momento da vida que é sempre bom relembrar, para não me deixar dominar pelo homem mais frio que, se deixar, não reconhece mais o menino de ontem. E gosto dele, apesar de sua tamanha ingenuidade.
Alguém disse certa vez que escrever é cortar palavras, dizem que é obra de Drummond, mas ele negava. Em tempos de Twitter, com o limite de seus cento e tantos toques - mas nunca respeitados, por causa dos links -, a concisão é regra. Afinal, com a profusão de meios de informação que temos hoje, ninguém tem paciência para ler textos muito longos. De modo que procurarei, nessa retomada de meus escritos, ser econômico. Como eu dizia tempo atrás, sem "nariz de cera de Pinóquio". Pra quem não é do ramo, nariz de cera era (e ainda é por aí) um texto introdutório de uma matéria jornalística sem nenhuma informação relevante.
O motivo de eu voltar a escrever é que ganhei uma nova leitora e por ter encontrado um escrito meu de 30 anos atrás, quando me metia a poeta, mas sem nenhuma técnica, apenas pensamentos livres postos no papel, no afã de expressar o que a mente inquieta elaborava. O texto é enorme, quatro páginas de caderno universitário, em letra de forma. Não me lembro do contexto em que o escrevi, mas era um tempo em que vivia angustiado, conhecendo a realidade do mundo e me indignando com as coisas além dos limites do lar.
Tinha muita vontade de me manifestar, mas a timidez me podava a desenvoltura, e o veículo certo para isso era a escrita, daí ter optado pelo jornalismo, na esperança de pôr meu texto a serviço de alguma causa. Sei lá, passados 23 anos de profissão, se o que escrevi até hoje mexeu com a cabeça de alguém, mas percebi que aquela ideia inicial era fantasiosa, afinal, a imprensa tem um papel bem delimitado na sociedade e, enfim, sempre reflete o pensamento do dono do veículo, não de seus artífices. Como não me tornei nenhuma referência no jornalismo, não tenho o privilégio de escrever, profissionalmente, sobre o que me der na telha.
Mas é o ofício, afinal. Para o resto, esse blogue dá conta do recado (em termos, como disse à minha nova leitora). Mas o texto daquele 7 de agosto de 1981 é caudoloso porque tinha muito o que falar, e pouca coragem de dizer. Tinha um ambiente propício, amizades fortes, mas nem tudo a gente consegue expressar falando. Então escrevia, mas poucos liam. Angústia de quem escreve é a falta de leitor. Exercício solitário.
Imagino que tenha sido uma das minhas últimas tentativas de escrever livremente, a partir de lá, o escrever tornou-se ofício e, pior, muitas vezes reescrever o trabalho dos outros, ou os corrigir, que foi por onde comecei. Mas rever esse texto e outros papeis que encontrei em minhas arrumações de apartamento novo me remeteu àquele tempo de 20 anos de idade. Nelson Rodrigues escreveu que o homem guarda o menino dentro de si. Concordo, mas ando procurando esse jovem dentro de mim e o vejo muito distante.
Nunca senti muito o avanço dos anos, sempre me mantive jovial, com uma alegria de viver e conhecer que não percebia o tempo passar. Só quando se depara com coisas como esta que se dá conta de que o menino acabou ficando lá dentro mesmo, escondido em algum canto do ser. Se naquele tempo escrever solitariamente era meu modo de botar para fora o que me assombrava, hoje o que me assombra é ter visto tanta coisa que a indignação foi substituída por uma sensação de indiferença, de imobilismo, diria até de um certo niilismo, em sua concepção mais ordinária. O escrever tornou-se meio de subsistência, a revolta virou complacência, as relações humanas cada vez mais virtuais, o convívio trocado pela solidão.
Como dizem os versos ali em cima, do pai de minha nova amiga/leitora, a vida hoje está muito acelerada, os valores que prezávamos são postos ao chão a toda hora, e nem sempre conseguimos incorporar os novos. Se fosse reescrever esse texto de 30 anos atrás, talvez muito pouco se aproveitasse, mas o importante é que permanece como retrato de um momento da vida que é sempre bom relembrar, para não me deixar dominar pelo homem mais frio que, se deixar, não reconhece mais o menino de ontem. E gosto dele, apesar de sua tamanha ingenuidade.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Isolamento
Insônia é algo terrível. Pior para quem trabalha à noite, como eu, imagino. Ficar o dia todo acordado, sem nada que preste na TV aberta e na paga. Na internet, ninguém online no MSN, nenhum recado no Face, no Twitter e no Orkut, nenhum e-mail nem torpedo. Nada. Hoje terminei as bolsas da Ásia - minha última tarefa no trabalho - muito cedo, 6h45, e não tenho vontade de ir para casa, já que ainda estou sem sono e temo ficar isolado apesar de toda a festejada sociabilidade que a rede mundial de computadores proporciona, dizem. Telefonema também, nenhum, apenas de uma senhora querendo fazer comigo uma pesquisa sobre investimentos na web, eu que estou longe de me enquadrar nesse perfil. Pior foi atender no domingo à noite uma ligação se dizendo da Claro, informando que uma fatura minha voltou e querendo atualizar meu endereço. Vi que o número recebido era de um celular. Apesar de estranhar esse fato, e o de estar atendendo esse tipo de telefonema em um dia não útil e à noite, e também de ter informado meu novo endereço à operadora quando me mudei para o novo apartamento, acolhi a ligação e dei as informações solicitadas. Dizia que tinha uma fatura em aberto. Não me lembrei que minhas contas caem em débito automático, logo, não haveria fatura em aberto... Não, nada disso me ocorreu naquela noite de domingo, e caí em um golpe, com toda certeza, pois até informei número de documento, além do endereço. Não sei que consequência isso terá, mas já estou me preparando para o pior. É isso. As novas tecnologias não impedem a sensação de isolamento, e ainda te pregam armadilhas que podem dar muita dor de cabeça. Além da sensação de otário que me invade, sinto que as amizades virtuais não preenchem o vazio existencial que me persegue, e que relacionamentos reais ainda são o melhor a cultivar. Sinto saudade dos meus vinte e poucos anos, quando tinha uma turma enorme com quem me relacionava e diversas atividades que ocupavam boa parte de meu tempo, além das próprias da faculdade. Depois, trabalho, casamento, filha, e as amizades foram-se esvaindo, as atividades rareando, concentrando-me em uma nova realidade que também com o passar dos anos foi mudando, para chegar aonde estou agora, isolado na madrugada e no apartamento do Limão. Confesso que me cansei de tudo isso que o mundo novo nos trouxe. Não tive vontade de postar nada novo neste blog, porque não vi nas minhas novidades nada de interessante a relatar. Também enjoei de publicar coisas sem nenhum apelo nas redes sociais. Tantos meios de comunicação com o mundo e nenhum conteúdo, essa é a verdade. Bons tempos em que reuníamos um monte de gente em uma sala e discutíamos como mudar o mundo, com a convicção de que tínhamos esse poder. Mas isso não era o mais importante, mas sim o contato humano, cara a cara, com as novidades sendo passadas de boca a boca, olho no olho. Aquele grupo que representávamos chegou ao poder, mas me sinto excluído dele, não me vejo nele, não me sinto com poder. Porque abdiquei de seguir adiante, para "militar" no jornalismo. Não queria e não quero o poder, nunca me senti atraído por isso, queria mais era discutir a realidade, fazer amigos. Quando um colega veio me comunicar das articulações para a fundação de um partido, nos idos dos anos 80, senti uma coisa estranha, como se pressentisse o fim de tudo aquilo de que eu gostava tanto, porque tudo se concentraria agora na luta institucional, na busca pelo poder oficial - que, afinal se deu. Alijei-me desse processo voluntariamente, apesar de participar dele em duas ocasiões, mas como profissional de comunicação, não como ente político tradicional. A constatação agora é de que não me dediquei a nenhum projeto em particular, fui agindo conforme a necessidade e a eventualidade. Cheguei a um bom patamar profissional, mas a vida social hoje resume-e a isso: um isolamento que dói e do qual não vejo como sair.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
A vida como ela é
Woody Allen é engraçado. Sabe fazer filmes engraçados mesmo tratando de temas sérios e delicados. Neste Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos, não lida com nenhum grande tema caro à humanidade, apenas com dramas comuns da atualidade como a busca da felicidade, a expectativa, a frustração, as decepções, os relacionamentos complicados, a recusa em envelhecer, as ilusões (que às vezes são melhores que os remédios, diz em certo momento). É um emaranhado de situações que vão se costurando para resultar na dissolução de duas famílias e as tentativas de se construir outras mais felizes. No final, a impressão que se tem é a de que não há uma ideia central, um fio condutor, reforçada pela frase de MacBeth (Shakespeare) que o narrador fala no começo ("A vida é cheia de som e fúria e no final não significa nada"). Acho que é isso. Muito barulho por nada. Nenhuma lição de moral, nenhum julgamento. As pessoas cometem as maiores atrocidades morais e não há punição, a não ser as próprias da vida. No fundo todos só querem ser felizes. E alguns conseguem. É a história de dois casais ingleses, vividos por Anthony Hopkins e Gemma Jones, e a filha e genro deles, por Naomi Watts e Josh Brolin. Hopkins deixa a mulher após 40 anos de casamento ao não admitir que esteja envelhecendo e parte em busca da juventude, malhando, andando de carro esportivo e ao final se envolvendo com uma ex-prostituta (Lucy Punch, mais nova que sua filha). A mulher (Jones), inconformada com a separação, passa a se consultar com uma vidente (Pauline Collins) pra lá de charlatã, que lhe dá em troca de seus honorários vários chavões, como o que dá título ao filme. Ela ainda reclama do genro (Brolin), um ex-médico que aventurou-se pela literatura mas não emplacou mais nenhum sucesso depois do primeiro, e vive (às suas custas) esperando pelo telefonema de uma editora que o queira publicar. Watts obviamente não se conforma com a inatividade do marido e vai à luta, empregando-se em uma galeria de arte de Antonio Banderas, por quem irá alimentar depois uma paixão não correspondida. Enquanto a mãe vive repetindo as "previsões" da cartomante, crendo piamente em suas realizações, Brolin vai se envolvendo com uma vizinha, que só se veste de vermelho (por que será?), vivida por Freida Pinto. E assim a história segue, com desfechos que às vezes surpreendem (como o de Jones), às vezes enervam (como o de Brolin). Ou seja, não há linearidade, não há maniqueísmo. É a vida como ela é, sem retoques, e pintada em um tom sépia e com uma trilha jazzística que tornam o filme muito belo, com grandes interpretações e a gente sai do cinema com a sensação de que a vida, ao contrário do bardo inglês, tem, sim, algum sentido. O que damos a ela.
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Uma graça de cantora
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Imagina, 30 anos sem Lennon
Ontem, 8/12, completaram-se 30 anos que um maluco de nome Mark Chapman, sem motivo aparente, disparou quatro vezes contra o ex-beatle John Lennon, que contava com meros 40 anos e um currículo respeitoso na área musical e comportamental. Morria uma lenda viva, um músico que formou simplesmente o mais influente grupo de rock de todos os tempos, ultrapassando inclusive as fronteiras do rock. Como muitos, eu me lembro muito bem o que estava fazendo e onde estava quando soube da notícia. Ouvi em casa e corri para a rua. Encontrei Cristina na frente da igreja do bairro e ficamos a falar sobre o que acontecera. O mundo era outro, sem internet, Google, orkut, ainda nos informávamos pelos meios tradicionais: rádio, TV, jornal. Não me lembro em qual desses veículos soube da notícia. Mas me lembro dos noticiários noturnos da TV, mostrando o choque mundial que tinha sido sua morte. Os rádios tocavam sem parar músicas antigas dele e do disco recém-lançado, Double Fantasy, como (Just Like ) Starting Over, Woman, Beautiful Boy, Watching the Wheels - minhas preferidas. Esse álbum era seu primeiro desde 1975, quando se deu um tempo para curtir o filho que tivera com Yoko, Sean (hoje um músico que adora os Mutantes, rs), tentando reparar o erro que cometeu com o primeiro filho, Julian, com Cynthia, que praticamente não viu crescer dada a febril rotina de superstar. Foi um momento de grande tristeza, como se tivesse perdido um ente querido, sentimento compartilhado por milhões mundo afora, tenho certeza. Acabava-se, ali, a esperança de os Beatles tocarem juntos novamente, desejo alimentado nos últimos dez anos, desde a separação do grupo. Eu aprendi a gostar dos Beatles exatamente no ano que eles se separaram. Claro que quando pequeno ouvia as músicas, principalmente pelos serviços de alto-falantes dos parques de diversão, e pelo rádio que minha mãe mantinha o tempo todo ligado enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Mas em 1970 tive um contato maior, quando meu pai comprou uma loja que vendia discos. Na época, começaram a sair os compactos simples de cada um deles, todos com a maçã verde no selo, o que me fez identificar de pronto que se tratavam de singles dos ex-integrantes do grupo. Eram eles Mother, de Lennon; Another Day, de McCartney; My Sweet Lord, de Harrison; e Photograph, de Starr (ou It Don't Come Easy, não me lembro muito bem). O disco Abbey Road, o último deles a ser gravado (mas lançado antes de Let It Be, gravado antes mas lançado depois), me impressionou muito. Primeiro pela capa, aqueles quatro cabeludos atravessando uma faixa de pedrestes da rua que dá nome ao álbum. Desde então quis ter cabelos compridos, o que fiz por vários anos. Depois as músicas, belíssimas, surpreendentes, diferentes de tudo que eu ouvira, a começar por Come Together, com aquele som surdo no início, cantada por Lennon. Impacto semelhante eu teria ao ouvir Sgt. Pepper's e por aí vai. Incrível a genialidade da dupla Lennon & McCartney. Poucos anos depois, saíram duas coletâneas, o álbum azul e o álbum vermelho, quando então pude conhecer mais sobre a obra do quarteto. Na verdade, só passei a comprar os discos nos anos 90, quando completei a coleção. E depois os póstumos Past Masters, Live at BBC e os três volumes de Anthology, depois os DVDs e os shows de Paul. Enfim, contam-se aí 40 anos de admiração a essa grande banda, que, depois da morte de Lennon, ainda viria a perder, em 2001, o guitarrista George Harrison. É estranho a gente ver um ídolo morrer. Não vivi a época em que foram-se embora Jimy Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Brian Jones, ( os 4 J do rock), mas imagino que o gosto que a geração deles sentiu foi a mesma que a minha, uma sensação de amargor, como se o mundo deixasse um pouco de ser colorido.
P.S: Olha que coincidência, meu post anterior foi sobre Paul McCartney, e agora John Lennon. Mas, como dizem, nada é por acaso, não é?
P.S: Olha que coincidência, meu post anterior foi sobre Paul McCartney, e agora John Lennon. Mas, como dizem, nada é por acaso, não é?
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Obrigado, paulistas
Foram duas horas de deslocamento no trânsito caótico da cidade, mais de uma hora de espera em uma fila quilométrica, uma hora e quarenta de demora para o início do show, tudo isso sob uma chuva inclemente que, por sorte, deu trégua durante o espetáculo. Mas a epopeia valeu. O show de Paul McCartney, nesta segunda-feira, 22/11, foi demais. Irretocável. Perfeito é a palavra. Foi logo atacando de Magical Mystery Tour, do disco de mesmo nome, na fase psicodélica dos Beatles. O público veio abaixo. Marmanjos berrando a plenos pulmões. Garotos que nem eram projetos quando o quarteto se extinguiu estavam em profusão igualmente fascinados pelo artista. Em seguida veio Jet, já da carreira solo, com o Wings. Delícia de música. Rocão. Aí vem All My Loving, do LP With The Beatles, de 63. Eu em êxtase, os 64 mil ouvintes em coro. Letting Go é a próxima, do disco solo Venus and Mars. Mais Beatles, com a acelerada Got to Get You Into My Life, do excelente Revolver, um de meus favoritos. Vem depois Highway, que eu não conheço, de um projeto eletrônico dele, Fireman, disco Electric Arguments, de 2007. Let Me Roll, do Band On The Run, disco ótimo, mantém o pique. The Long And Winding Road, de Let It Be, abaixa a bola, com Macca mantendo o arranjo de cordas de Phil Spector, odiado por muitos, aqui sendo executado nos teclados. 1985, também de Band On The Run, reacende a galera, seguida de Let'em In, uma canção muito gostosa do mesmo disco. My Love, feita em homenagem à primeira mulher, Linda, é momento romântico. Ele diz, em português, que a fez para sua gatinha Linda. Simpático. Mais Beatles: I'm Looking Through You, de Rubber Soul, início da fase psicodélica dos Fab Four, com sua capa enigmática. Aí vem Two Of Us, de Let It Be, dueto com John, executada com maestria e para me deixar de cabelos em pé. Blackbird, só ao violão, divino, uma das canções mais lindas dele. Na sequência, Here Today, homenagem ao amigo John Lennon; Bluebird, também do Wings; Dance Tonight, de 2007; e Mrs. Vanderbilt, ótima balada também do Band. Volta aos Beatles, com Eleanor Rigby, de Revolver, arrasador. Depois vem a homenagem a George Harrison, com Something, inicialmente no ukelelê, instrumento havaiano de quatro cordas, depois com a entrada da banda em alta performance, igual à execução no excelente DVD Concert for George, em que seus amigos lhe prestam homenagem. Depois Sing The Changes, também do projeto Fireman; Band On The Run, com suas três partes distintas, de levantar defunto. Aí vem Ob-la-di Ob-la-da, do White Album, canção simpática com um pianinho delicioso e oportunidade para a galera entoar o coro. Mais cacetada, agora com outra do White, Back In The USSR. Depois vem outra de minhas favoritas do Let It Be, I've Got a Feeling, em que Paul rasga a voz e, incrível para um homem de 68 anos, não arranha. Paperback Writer, com solo maravilhoso de guitarra, single de 1966. A Day In The Life, do fenomenal Sgt. Pepper's, é simplesmente uma das músicas mais sensacionais que conheço; ele a emenda com Give Peace a Chance, manifesto pacifista de Lennon. Let It Be, do álbum homônimo, é a próxima, sempre uma audição inesgotável. Aí vem o momento bombástico, com Live And Let Die, trilha de filme do 007, com direito a explosão de fogo no palco e show pirotécnico. Catarse absoluta, arrebatador, só se via faces maravilhadas, a minha inclusive. Hey Jude foi outro momento para a plateia, enfeitiçada, fazer coro no na-na-na-na. Neste ponto, ele se despede de mentirinha, porque vem o bis com Beatles direto na veia, sem dó: Day Triper, Lady Madonna e Get Back. Mais uma despedida de mentira e o segundo bis, começando com Yesterday, uma das canções mais regravadas do mundo; Helter Skelter, um rock totalmente fora do padrão beatle, novamente mostrando que os anos parece que não passaram para ele; Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band, a segunda parte, e The End, com riffs de espantar. Aí foi o fim mesmo. Um show memorável, com um Paul simpaticíssimo, arrasando no português, cantando e tocando muito. Para ficar na memória para sempre. Obrigado, Paul.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Filme leve para um sábado modorrento
Neste sábado, 20/11, assistimos Red - Aposentados e Perigosos, de Robert Schwentke, para não perder a viagem, uma vez que a opção inicial era ver Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos, de Woody Allen, mas a sessão já estava lotada quando lá chegamos. É um filme baseado em uma história em quadrinhos de mesmo nome sobre um ex-agente da CIA que se vê de repente caçado sem saber por qual motivo. O agente aposentado é Bruce Willis, que convoca para ajudá-lo os ex-colegas Morgam Freeman e John Malkovich, aos quais se junta uma atendente do serviço de previdência social, Mary-Louise Parker, e depois uma espiã anciã, Helen Mirren. Willis é caçado por um agente, Karl Urban, que não sabe por que está atrás dele. A trama é meio confusa, como em todos filmes do gênero que já assisti, mas é diversão boa, com muito tiro, muito suspense, perseguição, armadilhas, revelações surpreendentes e até humor, principalmente a cargo do sempre irretocável Malkovich. Após sofrer um atentado em casa, Willis vai atrás de saber por que motivo o perseguem e descobre que se tratam de ex-colegas seus de CIA, em uma operação tipicamente de queima de arquivo. O Red do título é a sigla para Retired Extremely Dangerous - ou aposentado extremamente perigoso, que é como o ex-agente interpretado por Willis é nomeado em seu dossiê. O desfecho não chega a ser surpreendente e o filme não passa mesmo de mera diversão, algo leve para um fim de semana de sol modorrento como foi este.
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