O Barquinho Cultural

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terça-feira, 2 de junho de 2009

Que Rei sou eu?


Leio na Mônica Bergamo, colunista da Folha de S. Paulo, que o Roberto Carlos reclamou à direção da Globo a exclusão de algumas das cantoras que o homenagearam em show em São Paulo no último dia 26 do especial que a emissora exibiu editado nesta sexta-feira. Não foram mostrados os números de Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Paula Toller, Mart'nália, Rosemary e Celine Imbert. Humilde, o Rei sugeriu que sua participação fosse reduzida no programa para caber as divas. Ao que o diretor Mariozinha Meirelles respondeu que foram usados "critérios artísticos" na edição. Bem, se a Ivete Sangalo tivesse aparecido uma vez no lugar das duas às quais foi contemplada, já haveria espaço para mais uma cantora. Aliás, qual foi o critério artístico sacado para tal decisão? Ivete rende mais ibope? Deve ser. Segundo a coluna, as cantoras também não gostaram das omissões, e a empresária de uma (não é identificada) reclama que só as "globais" apareceram, apontando Ivete e Sandy, "que foi queridinha da Globo durante muito tempo". Bem, a verdade é que a Globo faz o que quer, não é obrigada a atender a nenhum interesse, a não ser aqueles que lhe convêm. Mas o estranho é o próprio Rei se incomodar com isso, o que demonstra que algo aí não saiu bem.

Air France 447

Já comentei outras vezes aqui de meu temor com a quantidade de acidentes aéreos que tem havido. E agora mais este, com uma aeronave considerada a mais moderna e bem equipada que há. São 228 vidas que se vão, provavelmente seus corpos jamais serão resgatados, bem como os restos do avião. O que motivou a queda? Por enquanto, há hipóteses, certezas não sei se teremos. O certo é que a cada episódio desses eu fico mais temeroso de viajar por esse meio de transporte. Não adianta me dizerem que, estatisticamente, ele é o mais seguro, porque o problema é você estar na exceção, como esses 228 que embarcaram num avião, o Airbus A330, sem histórico de acidentes graves. Afora isso, só temos que lamentar essa tragédia e rezar (ou orar, conforme a crença) por essas almas.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Vampiros, tambores e reis

Fim de semana chuvoso em São Paulo. E mais ainda em São Bernardo. Na sexta-feira, fui ao Teatro das Artes, no shopping Eldorado, comprar ingresso para o show de Bruna Caram, uma pré-estreia de seu novo disco, Feriado Pessoal. Será dia 10 de junho, uma quarta, véspera de feriado. Em casa, assisti ao primeiro DVD da minissérie Agosto, baseada em livro de Rubem Fonseca. Quando passou na TV gostei muito, pois gosto de obras policiais. Na juventude, era leitor voraz de livros de bolso de espionagem e policiais. E desde sempre adorei ouvir Gil Gomes no rádio. Cheguei a pensar em fazer meu mestrado sobre esse programa, que está até hoje no ar. Histórias policiais, de espionagem, suspense, terror, mistério, adoro. Acho que é por isso que não criei um hábito de ler poesias. A prosa sempre me cativou mais. Não sei explicar por quê. E, afinal, nem tudo tem que ser explicado, não é? No sábado, decidimos, eu e Ilana, continuar quietinhos em casa, vendo DVD e fazendo comidinhas gostosas. Peguei-a na rodoviária do Tietê às 7h e fomos direto para Santo André, para compras no supermercado. Finalizamos os suprimentos na padaria que fica em frente ao conjunto habitacional em que moro, e finalmente chegamos em casa. Foi um sábado diferente dos últimos que tenho tido, sem rua, sem viagens, sem conhecer nada novo. Apenas os filmes que assistimos: Crepúsculo e O Tambor. O primeiro, uma estória de vampiros moderninha, está muito bem cotado por aí, ganhou 5 prêmios do MTV Movie Awards ontem. A fotografia é muito boa, assim como as locações, aparentemente no Estado de Washington. O filme é baseado em livro de mesmo nome que está causando furor no mundo. Leio que já foram vendidos 5 milhões de exemplares em todo o globo. Bem, não entendo por que, uma vez que a história é velha, apenas "adolescentizada", ambientada em um colégio americano, com teens nos papéis principais. De resto, tudo que se pode esperar de um filme desse gênero. Quanto ao segundo, também baseado em um romance de mesmo nome, tem uma proposta um pouco mais séria, que é discutir a sociedade alemã dos anos 20 a 40 e o florescimento do nacional-socialismo ali. É uma crítica mordaz à dita burguesia e seus valores, no olhar de um menino que se recusa a crescer ao perceber tanta iniquidade ao seu redor. É um filme muito interessante, que mescla tragédia e comédia em doses equilibradas. Este filme me foi emprestado há tempos por uma tia de minha filha e estava para o ver, o que fiz, creio, em hora bem adequada.
E o fim de semana foi assim. Filmes, pipoca, hot dog, salmão ao molho de maracujá com arroz de brócolis, cocada, cerveja, vitamina, guaraná. Uma passada rápida de olhos nos jornais, recolher o lixo, a cama do quarto da filha que quebrou. Vida doméstica. Fazia tempos que não vivia isso. E o mais incrível: um fim de semana inteiro sem internet (apenas uma conectada rápida para ver a receita do peixe). É possível, sim. Agora, se fosse depender apenas da TV para me divertir, ia sofrer. Nem vale a pena comentar as "atrações" que procuram nos cooptar aos sábados e domingos. Basta dizer que valeu mais a pena dormir ou ouvir uma música. Falar em música, acabei de ouvir uma coleção de mais de 180 músicas do Chico Buarque que meu colega de trabalho Beto me cedeu. Foram três ou quatro dias ouvindo, ao ir para a agência e voltar dela. Puro prazer. Cada canção traz a lembrança de uma época, uma ocasião, às vezes uma pessoa, uma história vivida. É incrível como o compositor sabe transformar em letras sentimentos e sensações que são tão caros à gente. É impressionante como ele lida com temas de alta complexidade com uma simplicidade desconcertante. A minha preferida, de sempre, é Construção, mas Roda Viva também me cativa e, se for lembrando, daqui a pouco vou acabar elencando toda sua obra. Mas essas duas dão a dimensão de seu pensar, de sua poética e de seu modo de fazer canções. Chico é um músico que não mudou, não serviu ao clima de então, não desbundou nem destoou. Está há 40 anos fazendo o que quer e deixando uma grande parcela de seu repertório na galeria das canções eternas. Tenho o Carioca, seu último CD, e confesso que só o ouvi uma vez, e nem apreendi nada dele, a não ser que me parece uma obra despreocupada, relaxada, mais interessado em contemplar o horizonte ao seu redor que meter uma lente de aumento em seus olhos e enxergar algo além. Não sei. Vou ouvir novamente e prestar mais atenção. De repente algo se revela.
Não podia deixar de falar de Roberto. A apresentação do show Elas cantam Roberto, gravação do espetáculo levado ao palco do Teatro Municipal de São Paulo terça-feira, exibida pela Globo neste domingo, não me agradou totalmente. Além das imperdoáveis ausências de Maria Bethânia e Gal Costa, julgo ter havido rasgação de seda demais e um glamour chato, com as ditas divas exibindo modelos feitos talvez para a ocasião. Entraram as poderosas do momento, caso das baianas axezentas Cláudia Leitte e Ivete Sangalo, além da Daniela Mercury, mas essa está em outro patamar. Já quer era pra botar as topo das paradas, deveriam chamar a Joelma, do Calypso. Ah, mas esta não se apresenta sem o Chimbinho, deve ser. Não é o caso de Sandy, que já botou seu mano na cozinha dos Nove Mil Anjos e pode seguir solo. Maríla Pêra e Nana Caymmi, claro, arrasaram, e gostei de estarem lá Wanderlea (imperdoável se não estivesse) e Rosemary, esta deslumbrante. Hebe eu achei esquisito, mas me parece que a proposta do show era mesmo esta: reunir 20 cantoras de diversas épocas, para abraçar um tiquinho da longa carreira de 50 anos do Rei. Eu asseguro uma coisa: eu vou no show dele, ou em São Paulo ou no Rio. Será a primeira vez que verei um espetáculo ao vivo desse cantor que eu curtia muito na minha infância e que gostei até o disco de 1971 - o que tem Detalhes. Depois, ouvia, até porque, como vendia discos na loja de meu pai no Ipiranga, era um dever de ofício, já que o cara era um dos que mais vendiam LPs na época (os outros campeões de venda no começo dos anos 70 eram Martinho da Vila e Clara Nunes). Vou porque ele é, afinal, nosso Rei, influenciou quase todo mundo (se não influenciou, ao menos quase todo mundo o ouviu). E, bem, se Bethânia e até Marisa Monte gravam músicas dele, não podemos desprezar. Eu vou. Podem esperar o post.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A desalambrar

É noticiada hoje a prisão de um dos militares que mataram o chileno Victor Jara durante a ditadura de Pinochet. Aos 16 de setembro de 1973 - exatos cinco dias após o golpe que derrubou Salvador Allende e pôs os militares no poder -, Jara era executado no estádio que depois seria rebatizado com seu nome, diz a notícia que com 44 tiros de fuzil, depois de ter as mãos quebradas com os canos das armas. Quando eu soube da história do compositor de Te Recuerdo Amanda, se dizia que ele teve as mãos quebradas para não fazer mais músicas revolucionárias, ao que teria respondido que fazia música com a cabeça, não com as mãos. Bem, houve até versões que se lhe tinham decepado ambas as mãos. O que importa é terem sido as mãos o objeto da ira e do sadismo dos jovens soldados. Sim, porque esse Adolfo Paredes Márquez que foi preso agora tinha 18 anos na época. E Jara, 40. Quebrar as mãos para que ele não mais tocasse seu violão? Para que não escrevesse suas canções? Ouvi falar de Jara no começo da década de 80, quando comecei a frequentar o grupo de jovens da igreja Nossa Senhora das Dores, na vila Palmares, em Santo André. O padre lá, Rubens Chasseraux, era da linha progressista - era, porque já há mais de 20 anos que ele mudou de lado - e as missas eram povoadas de canções latino-americanas, os trabalhos de base focavam os pobres e despossuídos (o padre tinha um trabalho junto à favela do bairro que se tornou símbolo mundial). Então vivíamos cantando Jara, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Gabino Palomares e outros. E aprendi a admirar esse homem que, antes de se firmar como cantor e compositor, foi ator e diretor teatral de grande brilho, além de jornalista e professor. Suas canções falam da vida do povo, dos trabalhadores, de injustiças. Cantávamos A Desalambrar em nossas reuniões cheias de violões (até eu, na época, meti-me a tentar aprender o instrumento) com um vigor como se o simples cantar derrubasse mesmo as cercas que separavam as propriedades privadas dos campesinos sem terra (o MST iria só surgir, como organização, 4 ou 5 anos depois, mas já havia sementes por aí). Bem, não me tornei um bom revolucionário, como era de esperar. Mas o que aprendi e conheci nessa época constituíram meu pensar e meu agir. E posso hoje ler essa notícia e pensar, com angústia, nesse tempo em que "falar de flores era até um crime pois implicava calar sobre tantos horrores" - conforme Brecht.
Gazeta Mercantil - O "jornal de economia do Brasil desde 1920" informou hoje na capa que esta era a última edição sob a responsabilidade da Editora JB S.A. O dono da editora, Nelson Tanure, devolveu a marca à família Levy, alegando dívidas trabalhistas inadministráveis. Não se sabe, ainda, se o jornal voltará a circular em breve ou algum dia. São 60 jornalistas que estão apreensivos, porque obviamente não serão todos que poderão ser reaproveitados em outros títulos da Cia Brasileira de Mídia. É uma pena, mesmo. Sempre gostei da Gazeta, a qual comecei a ler quando era bancário no Noroeste, nos anos 80. Sempre que os gerentes iam embora, no final da tarde, eu ficava mais um tempo na agência e pegava uma edição abandonada na mesa de um deles e lia, mesmo sem entender muito, mas com curiosidade e aplicação. Acho que foi a Gazeta, junto com a revista Visão, que eu assinava, que me fizeram pegar gosto por temas econômicos, apesar de ir concentrar meu trabalho nessa área apenas 10 anos depois de ter iniciado minha carreira de jornalista. Mas gostava dos textos elegantes e precisos do jornal. E de sua postura sempre tão formal, os desenhos de bico-de-pena antes de a fotografia e a cor tomarem conta do jornal à guiza de modernização. Lembro como se referiam ao então sindicalista Lula como sr. Luiz Inácio da Silva (rs). Tentei trabalhar lá uma vez, mas não deu certo, porém teria sido uma experiência interessante. Conheço muitos profissionais de lá, e fico chateado, mas com certeza a gente vai se encontrando por aí e no fim todos se acomodam. Fica apenas no ar um gosto amargo de ver um grande jornal deixar de existir, depois de anos definhando e sem futuro certo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Uísque e mulher ranzinza

(Este texto é em homenagem à notícia dada pelo Guardian de que jornalistas são os profissionais que mais bebem.)
Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque senão...
- Assim seja! Seja feita a vossa vontade, disse eu, humildemente. E comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.
Tirei a rolha da primeira garrafa è despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo, que bebi.
Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo, que virei.
Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo, que empinei.
Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa, que bebi.
Apanhei a quinta rolha da pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção.
Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.
Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da gar­rafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.
Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas, que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito, de acordo com as ordens da minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem.
Segurei então a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram exatamente trinta e nove. Quando a casa passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para recontar tudo e deu noventa e três, o que confere, já que todas as coisas no momento estão ao contrário.
Para maior segurança, vou conferir tudo mais uma vez, contando todas as pias, rolhas, banheiros, copos, casas e garrafas, menos aquelas duas que escondi e acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca ...

(Barão de Itararé)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Viva o cinema novo



A Folha de S. Paulo traz hoje reportagem informando que o cine Marabá, na avenida Ipiranga, quase esquina com a São João, será reinaugurado nesta sexta-feira, reformado, com sua enorme sala de mais de 1.600 lugares fracionada em cinco salas menores, dentro do conceito multiplex que impera nas salas de exibição há pelo menos uma década. O Marabá é um dos últimos cinemas de rua resistentes na cidade de São Paulo, ao lado de outras salas que decaíram para a programação pornográfica e outras que viraram templos religiosos ou bingos. Fechado em 2007 para a reforma, conduzida por Ruy Ohtake e Samuel Kruchin, tombado pelo patrimônio histórico municipal, este cine sempre me impressionou quando eu andava por essa região. É um prédio de dimensão superlativa mesmo, com suas colunas de mármore, suas franjas na fachada. E o interior. Enorme, em seus áureos tempos com revestimento de ouro, poltronas vermelhas, um saguão interminável. É do tempo em que ir ao cinema era um programa chique, as pessoas iam com suas roupas de gala, como se fossem à ópera ou ao concerto. Bem, claro que eu não vivi esse período, mas nem por isso deixei de me sentir como que ingressando em um santuário ao ir ver algum filme lá. Não me lembro quantas vezes fui ao Marabá, nem quais filmes assisti, porque era mais comum eu ir a algum cinema em minha região mesmo, o ABC, onde também havia bons cinemas de rua na época de minha infância e adolescência. Nada contra cinemas de shopping, que têm o conforto adequado a um público que gosta desses templos de consumo exatamente por isso. Mas esses cinemões faziam a gente ver a sétima arte como isso mesmo, arte, não mero entretenimento. As telas eram enormes, fazendo o filme nos envolver e tornar a experiência algo que mexia com quase todos os sentidos. Nunca me esquecerei de Os Dez Mandamentos, com Charlton Heston no papel de Moisés, no cine Comodoro, da São João, com sua telona de 70 milímetros. A abertura e travessia do Mar Vermelho foi uma visão que duvido que terei outra similar. Assim como o barulhão em perfeito dolby surround do Terremoto - não me lembro em que cinema, talvez no próprio Marabá, ou no Vitória, em São Caetano. Agora outra lembrança boa é a do filme Embalos de Sábado à Noite (sim, eu vi, e quem não viu?), acho que no Comodoro também. Saí do cinema convicto de que eu era o próprio Travolta e no primeiro baile que fui sábado já estava devidamente trajado de camiseta de manguinha arregaçada e cabelo penteado pra trás com topetão. Agora, quanto à dança, melhor nem falar. Era gostoso ir ao cinema em São Paulo, parecia que estávamos recebendo um banho de civilização, um upgrade social, quase caipiras que éramos. E o bom também é que, com um ingresso apenas, a gente podia assistir a quantas projeções quisesse. Eu, às vezes, quando não tinha nada para fazer, entrava no cinema de manhã e só saía à tarde. Quando o filme era bom, claro. E havia ainda as sessões duplas, com dois filmes correlatos, por exemplo, dois western ou dois de aventura. Claro que isso acabou, mas ainda há a possibilidade de se ver o Noitão no HSBC Belas Artes, em uma sexta-feira do mês, com três filmes e ao final um lauto café da manhã. Eu frequentei os noitões que eram realizados pelo antigo cineclube Oscarito, na praça Roosevelt, mas não havia breakfast (porém sempre tinha alguém vendendo café e sanduíches). Assisti lá a uma maratona espetacular de filmes e vídeos dos Beatles, a uma noitada com filmes de vampiros, outra de Hitchcock. Fechado em 1991, o Oscarito hoje abriga o teatro Os Satyros. O Comodoro virou igreja, ou bingo, nem sei. O Vitória é uma casa de shows e baladas. Agora, tristeza mesmo me deu quando fui ver que fim levou o antigo cinema que eu frequentava no bairro do Ipiranga, o Imperador, na rua Brigadeiro Jordão, perto da igreja. Vi uma infinidade de filmes lá, muitas vezes cantando o lanterninha para nos deixar entrar em filmes cuja idade mínima eu não alcançava. Algumas vezes, iniciada a projeção, ele abria a portinha lateral e deixava eu entrar, de graça! Esse cinema, vi recentemente, não teve nem a honra de abrigar um bingo ou um templo religioso. Está vazio, abandonado, sujo, largado, abrigo de sem-teto e depósito de coisas inservíveis que as pessoas insensíveis teimam em largar ali dentro. Leio em um site que chegou a funcionar uma metalúrgica lá, mas dessa fábrica não resta nem um vestígio. Outro cinema que eu frequentava no Ipiranga, o Anchieta, na rua Silva Bueno, onde assisti ao primeiro A Fantástica Fábrica de Chocolate, virou um estacionamento. Portanto, dentro dessa realidade tão triste dos antigos cinemas de rua, o renascimento do Marabá, ainda que sob o estilo multiplex, merece ser muito comemorado. Com certeza estarei lá. Uma Noite no Museu 2 é uma boa opção, não?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Fratura exposta

Assistimos à montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, sob a direção de Gabriel Villela, em São Paulo. Este é um texto clássico, de 1943, que marca o início do teatro moderno brasileiro, graças também à direção revolucionária de Ziembinski. A atual montagem, se não se pode dizer que seja revolucionária, ao menos inova na solução para os três planos indicados por Rodrigues: a alucinação, a realidade e a memória. Villela optou por fundir as três dimensões e trabalhar com luzes, interpretações e figurinos para demarcá-las, mas há momentos em que nada se distingue, e é, a meu ver, proposital, pois estamos vendo uma protagonista - Alaíde, de Leandra Leal - atropelada e entre a vida e a morte. É um bom teatro, com atuações corretas de Marcello Antony (Pedro), Vera Zimmermann (Lúcia) e Luciana Carnieli (Madame Clessi), além dos demais atores do elenco. Os figurinos estilo brechó e a trilha sonora (de Daniel Maia) povoada de tangos e boleros antigos dão um aspecto meio barroco à montagem - quiçá rococó. O cenário também impressiona: um portal que ora serve de altar ora de sepultura, acrescentado, conforme a cena, de praticáveis e cadeiras que os atores levam e trazem. Ou seja, não há os três níveis da montagem de 1943, e isso o diretor defende que não se há necessidade de ser explícito, pois o público, hoje, está acostumado com a complexidade. Concordo, até porque espero que nunca o teatro se renda à poética da televisão, que tudo pasteuriza e simplifica, nada contribuindo para a formação de um público de artes cênicas. É bom, pois, que atores de novelas façam teatro e o façam bem, e que ao menos as pessoas que vão ao teatro atraídas pelos atores globais criem o hábito de ver e entender outras linguagens. Nelson Rodrigues é um autor que eu admiro e tenho lido há algum tempo. Confesso que sou mais leitor de suas crônicas - inclusive de futebol - do que de sua obra teatral, mas essa é uma lacuna que pretendo preencher logo. O livro de crônicas A menina sem estrela, com textos recolhidos por Ruy Castro dos jornais para os quais Nelson escreveu, é de uma beleza ímpar, textos de uma força e uma precisão que impressionam e nos fazem ficar com boa inveja e desejar escrever de tal maneira, tão simples e tão profunda. Lê-se no Anjo Pornográfico, do mesmo Ruy Castro, que o jornalista, dramaturgo e escritor era prolífico, trabalhava muito, e teve uma vida cheia de tragédias - talvez venha daí sua facilidade de descrever tantas desgraças em seus textos. E esse Vestido de Noiva é cara dele. Dizem que é seu primeiro texto freudiano. Bem, isso não sei, mas é um texto carregado de culpas, complexos, repressões, hipocrisias, ou seja, bem rodrigueano. Ler - ou ver - Nelson Rodrigues é deparar-se com a sordidez humana e ter uma reação qualquer, seja um sorriso amarelo, ou um rubor na face, nunca a indiferença.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Eu quero a esperança de óculos


A lembrança mais remota que tenho de Zé Rodrix, que se foi hoje para o destino que não nos é dado saber, é do lançamento da música Soy latinoamericano, por volta de 1975, 76, creio.

Meu pai ainda tinha a papelaria e discoteca no bairro do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, e achei muito engraçada aquela letra, a voz aguda daquele cara de bigodão e óculos que eu botava no círculo dos cantores-humoristas, ou melhor, dos que tinham letras bem-humoradas.

Teve depois Quando Será, igualmente de forma humorada para abordar temas sérios. Mal sabia eu na época a história do cara, que vim a saber depois, da parceria com Luiz Carlos Sá e Gutemberg Guarabyra, do Momento Quatro dos festivais, do Som Imaginário, da canção que Elis eternizou (Casa no Campo) e mais tarde com os punks do Joelho de Porco.

E também os jingles - alguns a gente identificava, outros nem imaginava. Sempre o achei um bom sujeito, um músico de respeito e de talento. Fico chateado com sua morte, sinal de que os meus ídolos começam a ir embora. Isso é muito chato de pensar.


segunda-feira, 18 de maio de 2009

A vida tem dessas coisas

A semana não começou bem. Acho que meu inferno astral começa depois do aniversário, não antes, como dizem ser normal - a se acreditar em coisas como essa. Sou incrédulo para um monte de coisas, mas também não deixo de dar uma pensadinha a respeito. Afinal, há mistérios para todos os gostos nesse mundo. Já passei por situações que nem sei como, depois de passada fiquei matutando: que força estranha que me livrou do pior ou que me proporcionou o melhor?? Bem, o importante é que devo fazer algo para que a semana não seja um fracasso, ao contrário dessa que terminou, que foi coroada de êxitos. Mas depois eu penso nisso. Agora quero mais é ir para casa e dormir muito. Se der, acordo mais cedo para as pedaladas, se não, fico devendo.

Black night


Já estou em Sampa. Foi um bom fim de semana no Rio, apesar da garoa e do frio que peguei lá, ora vejam! No sábado, almoçamos na Confeitaria Manon, na rua do Ouvidor, e tomamos uns chopes no Bar Luiz, na rua da Carioca. O garçon gentilmente me pediu que assinasse o livro de visitas do bar, inaugurado em 1887 (!). Escrevi meu testemunho e assinei, e vi na página anterior o do ministro Joaquim Barboza, do STF. À noite, fomos mesmo ao Estrela da Lapa assistir ao show do Gerson King Combo com a SuperGroove. Showzaço, sonzaço. E ainda teve a participação luxuosa de Carlos Dafé ("Não quero mais saber de ti; vou me recuperar quero sorrir, quero sorrir; esquecendo a quem amei; pra que vou recordar o que chorei"; "Era lindo, era lindo"). Foi um ótimo show, com clássicos da black music nacional e internacional. Antes, caldinho de feijão no Brazooca. Bom, mas caro (R$ 12). Essa parada nos fez perder uma hora do show, pois não contávamos que fosse começar rigorosamente às 23h. Mas a banda é muito boa, com duas vocalistas, guitarra, teclados, bateria, baixo, saxofone (tocado por uma negra linda) e trombone de vara. Lá encontrei a Roberta, uma das criadoras do site Homem é tudo palhaço, divertidos relatos das sacanagens que nós homens cometemos com as mulheres. A moça é bastante simpática, mas o local não era propício para papos mais profundos. Sendo assim, o negócio foi dançar a bela trilha sonora executada na casa.
O domingo estava nublado, sem graça, mas até que tinha um solzinho dando as caras, mas não deu praia. Comemos um galetinho na Tijuca, segundo Ilana o melhor do Rio (muito apetitoso realmente, mas o ambiente é bem simples). Depois fomos a um churrasco de aniversário de uma amiga dela, Ana. Foi no morro de São Carlos. Uma operação tática para subir e descer. E o que vimos no caminho é melhor nem narrar. Uau! Mas foi bom, a galera do churrasco foi bem receptiva e simpática. Pena que tive que me ausentar por umas duas horas para tirar um cochilo, já que teria de encarar 450 km dirigindo e depois 8 horas de trabalho na madrugada.

sábado, 16 de maio de 2009

Vinho gelado?

Estou no Rio, e por incrível que pareça está chovendo. Aliás, a viagem praticamente toda peguei chuva. Já era o programa da praia. Pretendia ver o show do Pedro Luís e a Parede no Circo Voador, mas ficamos sem pique. Fomos comer uma pizza na Cobal. Pedimos uma muito boa com palmito e linguiça de javali. O problema é que o garçon trouxe o vinho tinto gelado! Estranho. Mas valeu. Vai ver carioca toma assim mesmo, por causa do calor. Neste sábado estou a fim de ver o Gerson King Combo com o Carlos Dafé. Vamos ver.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Blue noite


Como adiantei aí embaixo, nesta quinta-feira (14/05/2009) fui à abertura do Bridgestone Music Festival 2009, em sua segunda edição em São Paulo. A primeira, ano passado, foi dedicada à world music e, esta, ao jazz e ao soul, em três noites no Citibank Hall. A noite de ontem, 14, teve o Robert Glasper Trio e a Jimmy Cobb's So What Band, homenageando os 50 anos de lançamento do visceral álbum Kind of Blue, de Miles Davis.

O pianista Robert Glasper, acompanhado de Vicente Archer (baixo) e Chris Dave (bateria), mostrou por que é chamado de "astro do piano em ascensão". O cara tem 29 anos, toca desde os 12 e é senhor de uma técnica impressionante. Passeia os dedos pelo teclado como se nascesse fazendo aquilo. E o som é límpido, pulsante, bem balançado. Flerta com vários ritmos e casa com perfeição com seu acompanhantes, que também têm seus momentos solo para brilhar em particular. É um rapaz muito simpático e moderno, que deve escrever seu nome no panteão dos grandes músicos de jazz e quem sabe até fazer escola. Ambição e ousadia para tal ele tem.
O sexteto de James Cobb já trouxe uma formação mais veterana, a começar pelo próprio baterista que participou da gravação do Kind of Blue e é o único músico vivo daquele disco. Aos 80 anos, mostrou total vigor e pleno domínio do instrumento, o qual executa com precisão e elegância.

Os outros músicos, na casa dos 40 a 60 anos, também demonstraram ser feras em sua arte. As músicas do cinquentenário disco foram executadas bem mais aceleradas que na gravação original, e com muito improviso, o que não é de estranhar, em se tratando de jazz. É incrível como eles levantaram a galera, como o suingue que saía de seus instrumentos fazia a gente vibrar. A hora passou e nem me dei conta; quando vi era o fim, aí o bis e a consagração final.

Eles se comunicaram pouco com a platéia, mas a performance foi de verdadeiros lordes, e a audiência respondeu com a devida reverência e o respeito que músicos dessa categoria merecem. O trompete de Wallace Roney não envergonharia Davis. Um sopro doce e preciso, com nuances sutis que até faziam às vezes lembrar o grande Miles, mas havia ali a personalidade desse garoto de Philadelphia.

Acompanhando-o na cozinha estavam Vincent Herring, no sax alto, e Javon Jackson, no sax tenor. Os três se revezavam nos solos, às vezes os três juntos, ou aos pares, costurando as frases perfeitas de Larry Willis, mestre no piano, e Buster Williams, no baixo personalíssimo. Realmente, uma noite para não esquecer. E um autopresente bem escolhido.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Segundo aniversário blogado


Neste dia 14 completo 48 anos, e é a segunda vez que faço aniversário depois que criei esse blog. Mas isso não tem importância. O que importa é o carinho das pessoas que me ligaram ou mandaram mensagem por algum meio para me cumprimentar, o almoço que minha filha fez sábado, comemorando junto o dia das mães, o abraço dos amigos. Eu me dei de presente assistir hoje ao show em que se comemora os 50 anos do disco Kind of Blue, de Miles Davis, que será tocado na íntegra por uma banda liderada pelo baterista original da gravação, Jimmy Cobb, hoje aos 80 anos, chamada So What Band (So What é a primeira faixa do disco, para quem não sabe). Confesso que não sei distinguir, dentro do espectro da história do jazz, a mudança que esse disco representa. Leio que ele é muito importante, pelas novas estruturas que trouxe, mal comparando um Sgt Peppers do jazz (exagero?). Sei que ouvi-lo é um prazer, um som muito elegante, minimalista, sem arroubos megalomaníacos, sem virtuosismo, um disco econômico mas fundamental. E muito bem executado, sem dúvida. Estou ansioso para a audição de hoje logo mais, à noite.

domingo, 10 de maio de 2009

Uma noite de reverência ao Mestre


Não foi um show. Não. Foi um culto. A reverência a um mito e a sua extraordinária obra. A apresentação de Ike Willis e a Central Scrutinizer, banda-tributo a Frank Zappa (1940-1993), na madrugada deste domingo, 10/05/2009, na Aldeia Turiassu, representou a catarse coletiva - aristotelicamente falando - de não fãs, mas fiéis seguidores dessa quase religião que se tornou o Zappa.

E isso não é crítica, porque eu estava lá nessa mesma condição, mimeticamente me sentindo como em um show do próprio mestre, a figura de Ike, que com ele tocou durante 15 anos e voz forte e inconfundível em tantas canções, ajudando bastante a me sentir como se diante do próprio Zeus Zappa.

Foi uma noite dedicada às guitarras, o repertório foi pinçado dentre as obras escritas e executadas nesse instrumento por meio do qual o grande músico se tornou o que se tornou. Faltou, para meu gosto, Watermelon in Easter Hay, imperdoável para um grupo com esse nome, afinal, refere-se ao personagem da ópera Joe's Garage, da qual Watermelon faz parte (e que é interpretado pelo próprio Ike).

Bem, não se pode ter tudo mesmo. Mas acha que vou reclamar? Afinal, foram quatro (!) horas de puro deleite, as músicas que não me canso de ouvir, executadas ao vivo por uma banda talentosíssima, elogiada, pregam, pelo próprio mestre. E com Ike Willis, em pessoa!

Depois de os perder na Virada, não podia ter recompensa melhor. Foi um show-culto para ficar na memória para sempre. É impressionante como eles executam à perfeição as músicas por si só já bastante complexas, e estão lá nota por nota, cada instrumento reproduzindo como se fosse o disco que estivesse sendo executado.

Claro que isso não é assim muito louvável, mas o propósito de bandas cover, tributo e similares é esse mesmo: reproduzir com fidelidade as músicas do artista homenageado. Mas o interessante dessa Central Scrutinizer é que eles se preocupam apenas com a música, não tem ninguém lá de bigodão e pera quadrada no queixo, até porque, até onde eu sei, ninguém faz o papel de Zappa na banda. Ainda bem. O negócio deles é o som.

Alguns deles também formaram a base do Karnak, a banda que acompanhou o André Abujamra tempos atrás.

Segundo eles contam, mandaram dois vídeos para o Zappa e, conforme garante um assessor, o mestre viu e elogiou. Bem, se o Ike os aprecia - e isso pude testemunhar domingo -, não há por que duvidar.

Já tinha visto a Central há alguns anos, mas não pude ver o show até o final, porque era no meio da semana e tinha de ir trabalhar. Mas desta vez, como se diz no interior, lavei a égua. E quero mais.

As fotos, na sequência (esq. p/ dir): galera fiel; Mano Bap; Rainer Tankred Pappo; Juliano Beccari; Ike, Cadu Bap e Hugo Hori; Ike Willis e Caio Goes (se errei a identificação depois corrijo)

sábado, 9 de maio de 2009

Asfalto selvagem

Hoje, sábado, eu resolvi fugir do traçado original para minhas pedaladas. Peguei a Anchieta sentido litoral no intuito de ir até a barraca de pamonha que tem lá perto da entrada do Estoril. Ui, já vi que quem não é de Sampa está boiando. Eu explico. Anchieta é a rodovia que liga a capital de SP a Santos e demais cidades do litoral. Estoril é um parque aquático que tem aqui em São Bernardo, onde moro, e onde quando eu era bem pequeno a família frequentava sempre. Não tem nada de mais, é um parque ao lado da represa Billings, que abastece de água boa parte da Grande São Paulo, incluindo essa mancha que se convencionou chamar de Grande ABC, berço das montadoras de veículos e incubadora do líder sindical Lula que todos conhecem - pelo menos deveriam conhecer. E a pamonha é uma iguaria que é vendida em todo o percurso até o litoral. Proliferaram ranchos da pamonha pela estrada toda e sempre foi uma boa pedida, ao descer ao litoral ou voltar da praia, parar em um dos ranchos e deliciar-se com esse doce delicioso de milho. A versão salgada e frita, que conheci em Pirenópolis (GO), ainda não vi. Será que há? É igualmente deliciosa. Bem, voltando à bicicleta, hoje eu fiz o caminho contrário. Cheguei na barraca após 50 minutos de pedaladas. Comi uma pamonha e segui caminho de volta. Mas fiquei chateado com o que vi. Os derivados de milho nessa barraca não são a atração principal. Tem de tudo lá: cocadas, batatas chips, esfihas, cervejas, refrigerantes. Quer dizer, a pamonha, curau, bolo de milho e suco de milho parece que já não sustentam o negócio. Isso faz a infância ficar ainda mais distante, e confirmar um pensamento que eu estava tendo hoje de manhã e até cheguei a comentar com minha amiga goiana Sandra: hoje você tem opções demais, é muita coisa pra escolher. O que conta nesses dias globalizados é a tal agregação de valor. É um tormento ir ao supermercado. Era bem mais fácil quando você tinha no máximo duas opções: a mais barata e a de grife. Hoje, perceba bem. Além de várias marcas, entre elas ainda há diversas variedades que a gente nem sabe na verdade qual a diferença entre uma e outra. Bem, deixando a divagação de lado, voltei pela estrada e penei viu, porque havia trechos da Anchieta sem acostamento, o que me empurrava rente ao guard-rail e me deixava em perigo real. Poxa, essa cidade não tem ciclovias, não tem simplesmente! E não é só em São Bernardo, não, várias outras cidades simplemente ignoram o pobre do ciclista, que seria um excelente aliado ao controle da poluição. Eu já disse: vou me mudar para perto do meu trabalho e só vou usar o carro em dias de chuva, isso se não tiver ônibus fácil. Nesse trecho da Anchieta está em construção o trecho Sul do Rodoanel Metropolitano pelo governo do Estado de SP. O rodoanel é uma via circular que liga as principais rodovias que cruzam a Grande São Paulo e tem como meta desafogar o trânsito de caminhões do centro da cidade, deixando as ruas da metrópole apenas para os carros e ônibus. Acho que pode ajudar a tirar os caminhões das ruas da cidade, mas não penso que seja a melhor solução para melhorar o tráfego e a poluição. O transporte coletivo fica sempre neglicenciado em nome da facilitação para o transporte individual, que cada vez é mais individual, porque raramente se vê um carro com alguma outra pessoa além do motorista. E os pobres ciclistas então ninguém pensa neles. Eu quero ir trabalhar de bicicleta, tenho background (vide o post Pedaladas) porque carro está me dando problema demais? É trânsito, multas, manutenção, estacionamento. Não sei se o conforto que proporciona vale o preço que se paga. Adoraria viver sem carro, sinceramente. Mas bem ou mal, esses meus dois primeiros dias de ciclista me deixaram bem animado. Lembro que quando ganhei a berlineta, lá nos meus 10 anos, eu ficar o dia todo pedalando, voltava para casa tarde da noite, não queria outra coisa da vida. Hoje, no momento, tenho de lutar contra o cansaço, a falta de fôlego, a preguiça, mas tenho certeza que depois de alguns dias de prática isso vai ser batata. Mas penso sinceramente em usar a ciclovia do Parque Central de Santo André, coisa que pelo que sei não tem em São Bernardo. E olha que tem um espaço ótimo, na praça Salvador Arena, basta fazer.

Quarenta e cinco minutos


Meu primeiro dia de treino nas pedaladas foi bom, diria, apesar de não ter parâmetros para comparar. Mas fiz o trajeto de 10 km em 45 minutos, considerando ida e volta. A ida foi mais rápida, 20 minutos e 19 segundos; mas na volta peguei vento contra e mais ladeiras. Mas acho que foi um bom tempo. Não em cansei muito também, apesar de ter sentido sede, e esqueci de levar uma garrafinha de água. Também fizeram falta os óculos e um par de luvas. A bicicleta está boa, macia, com o câmbio funcionando bem e os freios em cima. Espero que a preguiça não me impeça de manter essa rotina. E pensar em voos mais altos, trajetos mais ousados, para conhecer esse Brasilzão de bike, deve ser uma delícia.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Pedalando

Mandei minha bicicleta ao conserto ontem, hoje deve ficar pronta e já vou iniciar meu mais novo projeto: 10 quilômetros diários de pedaladas. Acho que bastam, vamos ver meu tempo. Se for muito fraco, aumento. É a maneira de fazer exercício e manter meu colesterol em níveis de segurança, conforme recomendação médica. Cansei de academia. Se é para fazer tudo sozinho, não preciso pagar por isso. Espero manter a disciplina e, se não chover, fazer todo dia o trajeto que escrevi. Eu gosto muito de bicicleta. Tive, se não me engano, quatro, contando o primeiro triciclo Bandeirante. Aos 10, ganhei uma berlineta dobrável, da Caloi, comprada na então Eletroradiobrás, hoje incorporada ao grupo Pão de Açúcar. Fiz o diabo com aquela magrela pelas ruas movimentadas do Ipiranga. Uma vez, passei em frente a um ônibus a milhão. Meu pai trancou a bicicleta com corrente e cadeado. Ah, nem titubeei: arranjei uma serra e libertei meu brinquedo, agora um pouco mais atento. Com ela fiz a primeira grande merda de minha vida. Quebrou o cabo do freio e a besta aqui, seguindo os conselhos imbecis dos colegas, tirou o conjunto todo (manoplas, acionador, sapatas) e jogou no bueiro. Lógico que meu pai não o repôs e fiquei o resto da vida com um freio só. Minha irmãzinha Sônia aprendeu a andar (a Vilma, mais velha, nunca se interessou) e não a largava. Eu tinha escandalosos pitis quando a via na bicicleta. Tadinha. Não sei o destino que teve aquela minha segunda magrela - na verdade, a primeira de duas rodas. Aliás, vale lembrar como aprendi a andar. Tinha um amigo a quem chamávamos de Carioca, apesar de ser natural da Bahia. Ele tinha uma bicicleta bem veloz e cismou de me ensinar a pedalar. Eu não conseguia de jeito nenhum me equilibrar. Até que um dia o baiano/carioca me empurra ladeira abaixo. Desci feito louco, atravei um cruzamento perigosíssimo e logo depois tomei um homérico tombo, de arrancar cabelos e tudo. Levantei-me, sacudi a poeira e, sabe-se lá por quê, montei na magrela e saí andando na boa... Vai entender... Ah, agora me lembro, meu pai reformou e deu (ou vendeu) para um primo meu um pouco mais novo, de quem eu viria a ser padrinho de casamento anos depois, o Dagoberto.
Mais tarde, eu viria a comprar minha Caloi 10. Eu tinha uns 22 ou 23 anos e trabalhava no banco Noroeste do Ipiranga (olha o destino aí). Mas morava em Santo André (11 km de distância) e todos os dias praticamente eu chegava atrasado, porque perdia a hora e não pegava o ônibus no horário que me permitia chegar as 9h. E aí outro ônibus só depois de 40 minutos. Aquilo começou a me chatear e resolvi comprar uma bicicleta para ir trabalhar. Não me lembro em que loja foi, mas fiz em prestações na certeza de que pagaria as parcelas apenas com o que economizaria de passagens. E dito e feito. Causou um certo espanto eu chegar em cima de uma bicicleta para trabalhar, mas não me importava. Na agência havia um armário onde eu deixava camisas sociais para a semana toda; a calça eu trazia na mochila. Chegava, me limpava e trocava de roupa. Depois do trabalho, ia para a faculdade com ela, deixava amarrada na grade de frente do prédio e pronto. Foram momentos mágicos também, pois andar de bicicleta dá uma sensação de liberdade indescritível. E fui juntando grana ainda, até que tive o suficiente para dar entrada em uma moto e aí abandonei a Caloi 10 num canto do banco. Ficou lá esquecida até que eu resolvi levar para casa. Um amigo meu do banco com carro me ajudou. E ela também teve como destino final algum outro parente. Depois disso tive outras duas motos, as duas primeiras igualmente roubadas, e a terceira que me proporcionou belos tombos, que me levaram a fazer vendê-la, até porque estávamos agora grávidos e eu tinha que preservar minha vida. Depois comecei a comprar e andar de automóvel até que, há cerca de dois anos, comprei esta bicicleta que deixei ontem na oficina. Comprei e andei se muito cinco vezes nela. Preguiça pura. Mas desta vez eis-me retornando a ela, não por lazer, como na juventude, ou economia, razão da mocidade. Mas por saúde! Pois é, cada idade sua necessidade!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Jornada Cultural em Sampa


Nunca vi tanta gente à noite em Sampa: a 5ª edição da Virada Cultural, neste sábado e domingo em vários pontos da cidade, extrapolou; segundo os jornais, foram mais de 4 milhões de pessoas a prestigiar as mais diversas atrações artísticas em 24 horas ininterruptas. E que atrações! Eu particularmente fiz minha programação e esperava ter ao menos umas 12 horas de puro prazer. Deixei o carro em frente ao Jardim da Luz, onde estavam expostas as esculturas de fogo da companhia francesa Carabosse. Muito bonitas as instalações. Fomos andando até a praça da República para ver se pegávamos o finalzinho do show do Camisa de Vênus. Qual o quê! Chegamos por volta de 2 da manhã e o Camisa já tinha terminado. Aí esperamos para tentar ver as Velhas Virgens no mesmo local. Mas a multidão não nos permitiu enxergar nada e o som também não estava nada bom do ponto em que estávamos. Desistimos. Passamos no Arouche e vimos um pouco do Reginaldo Rossi, que estava cantando uma das canções em italiano que o Roberto gravou no disco San Remo 1968, lançado em 1976. Depois fomos molhar a garganta em um bar e, no palco montado na avenida São João, assistimos ao final da apresentação do disco Racional, de Tim Maia, com uma galera muito boa (BNegão, Carlos Dafé, o coletivo Instituto e Thalma de Freitas). Este um show que valeria a pena ter visto inteiro, mas a cachaça né... Queria esperar até as 9h15 para ver as Velhas tocarem o Abre-te Sésamo, de Raul, na Luz, mas estávamos cansados e com sono. Passamos por lá, estavam tocando Os 20 Maiores Sucessos do Rock de Todos Os Tempos, mas era extremamente chato e fomos embora. Pegamos o carro - que, milagrosamente estava ali, apesar de, constatei na hora, o ter deixado destrancado e com alarme desligado - e fomos comer algo no bar Estadão (eu de pernil, Ilana de americano). E cama. Bem, o comentário é o seguinte: foi um dia espetacular mesmo, shows que valeriam sempre a pena ver, e imagina tudo em um mesmo dia e no mesmo perímetro! Os espetáculos do Municipal são para ficar na história. Pena que não vi nenhum, afinal, a fila era de pelo menos três horas, e havia tanta coisa boa também para ver em outros pontos que era uma questão de escolha: decidir-se por um palco/local e ficar lá. Ou aventurar-se em penetrar na multidão para deslocar-se de local em local atrás das melhores atrações. Saldo: ainda não foi desta vez que curti a virada como quis. O consolo foi que pude ver ao show da Maria Rita no conforto de meu quarto, em alta definição, pois a TV Cultura o exibiu. Valeu.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Amor e sexo (não é Jabor)

Assisti ontem (terça, feriado de Tiradentes) ao filme Divã, de José Alavarenga Jr. baseado em peça homônima, ambos interpretados pela global Lilia Cabral. Diverti-me bastante, dei boas risadas, e até derrubei umas lágrimas, pois como todo filme que se preze tem comédia e drama. Não é um grande texto, um argumento um tanto confuso, mas a Lilia salva o filme, ela é muito boa atriz, e tem pleno domínio de sua arte. Foi um filme descompromissado para se ver em um feriado um tanto frio. Mas tem uma frase na boca da atriz - cuja personagem se chama Mercedes - que me intrigou. Ela diz em certo momento, depois de dar a primeira pulada de cerca de sua vida, que sexo com amor é bom, mas sem amor é muito melhor... É um tema que dá um bom pano pra manga, principalmente se a discussão for rasteira, baseada em conceitos preestabelecidos. O machista pode concordar com isso e deixar as moças furiosas, principalmente se considerarmos as mulheres aquelas donzelas casadoiras de antanho. Eu não sei, as coisas mudaram muito, os conceitos são outros. As relações estão muito diferentes das que eram quando comecei minha vida romântica. Hoje há coisas como ficantes, beijantes, peguetes, acho que alguns até namoram. Agora, noivar, duvido que ainda haja. E casamentos duram pouco, e muitos estão no terceiro, quarto. Eu por enquanto só me casei, oficialmente, uma vez. Mas gostaria, como disse outro dia, de celebrar bodas de prata com uma mulher. Sim, porque bodas de ouro creio ser difícil, mas não impossível. Mas a discussão é sobre o sexo sem amor ou com. Eu ainda prefiro amar uma mulher, porque o amor deixa a gente mais livre para se entregar e ser o que realmente somos, e é muito melhor você dar e receber amor, porque o sexo cru, apenas o prazer, é impessoal, não deixa marcas, dia seguinte se esquece. Enquanto quando se ama se vive eternamente nas nuvens, e a sensação é de que nada pode nos destruir porque estamos amando. Eu acho que a personagem estava se referindo ao descompromisso do sexo sem amor, da aventura que é a entrega apenas ao prazer, uma vez que ela, no filme, tem um casamento sem empolgação, e o sexo é aquela obrigação, aquele bater o ponto, tipo 20 anos depois do casamento o amor ter virado algo insosso. Acho que deixa o casamento virar isso quem quer, quem não se esforça em tornar cada dia único. Já ouvi uma vez que uma mulher deve ser conquistada todos os dias (nós homens também, viu mulheres!). E penso que esse é mesmo o segredo. E, acima de tudo, respeitar e tratar muito bem seu amor. Como diz aquela canção dos Doces Bárbaros: O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar/ ir aonde quiser/ brincar/ correr/ cansar/ dormir em paz/ ser o que ele é...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Minha alma canta...

No fim de semana de 17 a 19 de abril voltei ao Rio. Comecei a epopéia etílico-gastronômica pela cacharia Mangue Seco, na rua do Lavradio. Lá matei a sede da viagem com uma Original e uma dose de Corisco Branco, aguardente de Minas bem ardida mesmo. Depois que Ilana saiu do trabalho, voltamos a esse lugar e comemos uma bela caldeirada de frutos do mar de lamber os beiços. No andar de cima rolava um samba dos antigos. Subimos antes de chegar a comida e ainda deu para ensaiar uns passos tímidos. Ilana disse que sou duro. Claro, falta o gingado, mas um dia aprendo, viu? A foto tá escura, mas o samba estava bem iluminado. Bem alimentados, fomos à Lapa. Isso já era bem depois de meia-noite. O bairro fervia. Lotado. Gente para todos os lados e cantos. Todas as tribos. Confesso que esperava outra coisa da famosa e afamada Lapa. Acho que é como disse o Chico mesmo, a tal malandragem não existe mais. O que vi ali foi muita bagunça, sujeira, marreteiros de todo tipo, gente vendendo todo tipo de petisco e bebida, um som em cada birosca, uma zona total. Acho que é um mundo que de repente até tem a ver para quem é de lá, mas para mim não funciona. Detesto multidão, gosto de lugares calmos e monotemáticos. Acabamos em um bar chamado Borracha para o último drink da noite. Estava já meio caído o lugar, afinal eram 4 da madruga. Tomamos e saímos logo. Para fechar a noite, acabei me estressando com a hostess ou segurança da casa, que me viu com a piña colada da Ilana em um copo descartável, que ela pediu pq não tomou toda, e achou que eu trouxera de fora. Essa moça disse que eu não poderia beber drinks de fora da casa lá e eu respondi que tinha comprado lá. Mas ela muito má educadamente duvidou. Aí engrossei, porque detesto que digam que estou mentindo.Pedi para ela perguntar para o garçon que nos atendeu se não era verdade. Se ela duvidasse, que perguntasse. Mas preferiu bater boca comigo. Pois não me fiz de rogado e discuti mesmo, até ela sair fora. Bem, isso não estragou minha noite, ainda bem.

No sábado, após o café, fomos à rua da Uruguaiana, no centro, onde tem uma feira popular que lembra o Promocenter da Paulista misturado com 25 de Março. Comprei lá uns CDs de funk irados e um Match 3 que espero não me prejudicar a cútis (rs). Em seguida, fomos na rua do Ouvidor, de tanta importância na epoca do Império e da República Velha. Hoje está lotada de lojas do tipo Casas Bahia, Insinuante. Mas tomamos um chá e comemos madrilenãs na Confeitaria Manon, uma casa dos anos 1940 bem charmosa e que deu para sentir-me um pouquinho no Rio antigo. De lá rumamos para o estação dos bondes que fica atrás da sede da Petrobras. É onde se pega o bondinho que leva a Santa Teresa. Que viagem incrível! Ver a Lapa de cima é uma visão magnifíca. O bairro de Santa Teresa é um charme também. Um grande morro cheio de barzinhos e restaurantes e construções antigas que dá gosto de ver. E o bondinho é, claro, uma grande atração. E o curioso é que é uma condução mesmo para os moradores do lugar. Não é só para turista não. A passagem é 60 centavos. Voltamos e almoçamos uma carnuda feijoada no Cantinho do Senado, na Lavradio com a rua do Senado.

No domingo, após fechar a conta do Ibis, pegamos a ponte e rumamos para Niterói. A primeira parada foi no Museu de Arte Contemporânea (MAC). Uma construção bem interessante, projetada por Niemeyer. Parece um disco voador, como bem lembrou Ilana. Pena que não havia nenhuma exposição no dia. Mas entramos na galeria e a visão de lá é muito legal. Toda envidraçada em 360 graus de vista. O interior é bem legal também, onde se vê a paixão de Niemeyer pelas curvas e linhas sinuosas. Dia 26 agora começa uma exposição lá, quem sabe não estarei lá de novo para ver. Saindo de lá, seguimos rumo à praia de São Francisco, onde há vários restaurantes. Queria um peixe e entramos no Botequim Informal. Uma Original para refrescar, bolinhos de aipim com carne seca para abrir o apetite e esperar a tilápia com arroz de açafrão, que veio divina, se bem que muito puxado na manteigza, o arroz, mas tudo bem, o peixe veio crocante e farto. Vimos um pouco da final da Taça Rio entre Flamengo e Botafogo mas, antes do gol contra do Fogão, saímos e subimos o morro da Viração, em cima do qual se encontra o Parque da Cidade. Vista magnífica da cidade e do Rio de lá, onde há duas rampas para saltos de asa delta e para-pente. Assistimos ao pôr do sol, que se esconde na baía ao longe em mil cores. Depois desse espetáculo, hora de terminar a visita e pegar a Dutra, porque a noite é de trabalho. E, mais uma vez, vou embora com vontade de ficar. E voltar. Rio você foi feito pra mim.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"É sol, é sal, é sul"



Esse verso da canção Rio, de Menescal e Bôscoli, não me saía da cabeça, além de tantos outros trechos de tantas canções, nesta minha quarta visita à cidade maravilhosa. A diferença é que desta vez fui mesmo a passeio e pude conhecer alguns pontos muito lindos e com um astral para lá de alto. Fui no fim de semana de 27 a 29 de março e no de 4 e 5 de abril e fiquei no Formule 1, uma opção econômica no centro sem frescura. Fica ao lado da praça Tiradentes, por sua vez cercada de sebos onde vi muito livro esotérico e de autoajuda. Infelizmente. A rua da Carioca sai da praça e termina no largo da Carioca, onde há estação do metrô (e onde havia uma roleta para se jogar, conforme Pelo Telefone, de Donga, que Eduardo disse que não é dele, mas o malandro se apropriou de um samba de rua). A rua é cheia de lojas de instrumentos musicais, o que remete de imediato à Teodoro Sampaio lá de Pinheiros. Aliás, o centro do Rio lembra bastante o centro velho de São Paulo, parecem ter sido traçados pelo mesmo arquiteto. Deve ser por causa dos prédios antigos. Após uma boa caminhada por esses arredores, onde acabei adentrando locais não muito recomendáveis, pausa para uma cerveja no café Thalia, onde a Skol gelada veio em uma charmosa garrafa de 630 ml (até onde sei essa embalagem não chegou a SP ainda; o litrão de 1l que tomei na Ilha do Mel, sim, vi no Carrefour de São Bernardo e agora está tendo comercial na TV).


No dia seguinte, conheci a famosa Lapa, de tantos sambas e tantas histórias. Ao contrário do Chico, não perdi a viagem, porque pude conhecer todo o charme daquele local, pena que durante o dia, pois se sabe que é à noite que ela fervilha. Dei uma circulada por ela para ver suas coisas, como os Arcos, por cima dos quais vi circular o bondinho de Santa Tereza, o Circo Voador, a Fundição Progresso, e tantas outras casas que nem dá pra lembrar (mas se quiser ver, tem um site excelente: http://www.lanalapa.com.br/, onde há ligeira descrição dos bares, restaurantes e outros estabelecimentos do bairro e sua extensa programação cultural). Neste dia não almoçamos, fomos ao restaurante Manoel e Juaquim na intenção de traçar uma feijoada, mas o bolinho de bacalhau que pedimos de entrada para acompanhar o chope estava divino. Completamos com a batata à moda do Manoel da Lapa: com quadradinhos de calabresa e mozarela derretida por cima. Para finalizar, uma cachacinha de fabricação própria com a devida canequinha levada de lembrança (antes que pense que foi roubada, não, paga-se mais 2,60 e leva-se a simpática peça). O chope estava realmente um espetáculo: uma temperatura excelente e um colarinho perfeito, em uma tulipa cristalina.


O almoço de domingo foi no restaurante Nova Capela, onde comemos um belo cabrito com arroz de brócolis e uma Original bem gelada. Esse prato me parece que é meio tradicional no Rio, talvez nem tanto quanto a feijoada, mas a se considerar a canção Cabritada Mal Sucedida, de Geraldo Pereira e Jorge Gebara, dos anos 1950, acho que é isso mesmo. É um prato saboroso e farto, e nesse restaurante, que tem quase 80 anos, ainda tem gosto de reverência. De estômago devidamente forrado, fomos fazer um tour básico pelas praias. Parada na Praia Vermelha para ver o bondinho do Pão de Açúcar (está R$ 44 para turista e metade para os cariocas), depois de ver a bela enseada do Flamengo do Mirante do Pasmado (dá realmente pra ficar pasmado com a visão - é a da foto aí em cima). Termino o passeio, porque precisava subir para trabalhar, em Copacabana, um último chope no quiosque (ou barraca, como queira) do Bar Luiz (cuja matriz é na rua da Carioca). Copa é realmente incrível: uma aura inexplicável, um clima de boa vida que acho seja típico do carioca. Mas não dá, realmente, para se queixar da vida com um cenário daquele, e a princesinha do mar pude perceber o que significa ao ver duas pequeniníssimas crianças brincando na areia pertinho da nossa mesa. Uma singela alegria que manifesta na gente uma vontade danada de fazer o mesmo: cair com tudo na maciez das areias e tomar um abraço das águas do mar como se a vida se resumisse a isso. E assim ficar pelo tempo que o desejo quiser, todo sorriso, todo felicidade.


Semana seguinte voltei, desta vez vim pela Rio-Santos. Uma beleza de viagem, que passa por paisagens deslumbrantes, mas muito demorada, porque entra em várias cidades e os trechos urbanos atrasam a corrida. Levei oito horas para chegar ao centro, ao passo que pela Dutra gasta-se de quatro a seis, dependendo do trânsito na zona leste de Sampa e na avenida Brasil, no Rio. Ao chegar, suado, outra cerveja no café Thalia. Mas desta vez só havia Itaipava. Paciência. Estava gelada o suficiente para eu manter meu humor, apesar do desgaste de tantas horas para uma viagem que se faz pela metade do tempo. Meu objetivo era ir no sábado ao show do Jorge Ben Jor no Circo Voador, mas o cansaço me impediu de acordar e dormi até a hora do café. Antes, porém, passada na rua do Lavradio, onde estava sendo realizada a Feira Rio Antigo, com peças as mais variadas. Comprei uma escultura das máscaras de teatro para minha filha e um perfil feminino para Joana. O local estava apinhado e rolavam performance teatral e roda de samba. O almoço foi novamente no Nova Capela e mais uma vez o cabrito com arroz de brócolis. Coisa boa é para se repetir mesmo. Em seguida um passeio pela Lapa, onde conheci a Escadaria Selarón, obra de um chileno radicado no Brasil desde 1983. O sujeito arranjou azulejos de diversas partes do mundo e montou na escadaria que liga os bairros da Lapa e Santa Tereza diversos mosaicos, com desenhos singulares, que, inclusive, chegam a revestir também as paredes dessa passagem, também conhecida como Escadaria do Convento de Santa Tereza. Curioso que nos mosaicos das paredes e floreiras predomina o vermelho e, na escada, o verde e amarelo. O artista estava lá, pintando algo, mas na hora não sabia que era ele, imaginei alguém aproveitando o local para se inspirar. Assim como um sujeito sentou-se na escada e começou a verborrar uma falatório político para uma câmera de vídeo operada por um rapaz.


A parada seguinte foi o bairro de Santa Tereza, mas subimos de carro mesmo, e não deu para ver o bondinho, apenas uma de suas paradas, a de Curvelo. Conhecemos o Parque das Ruínas, que foi outrora o Palacete Murtinho Nobre, onde morava Laurinda Santos Lobo, uma espécie de agitadora cultural da Santa Tereza do início do século XX. O local abriga sala de exposições, auditório e café, mas no domingo estava fechado, restando subir ao mirante de onde se tem uma visão deslumbrante da orla carioca, avistando-se o centro, a catedral metropolitana, o aeroporto Santos Dumont, os Arcos da Lapa, a marina da Glória, a Urca e até o Cristo Redentor, se apurando a vista. Com o céu anil e o sol que fazia naquele domingo, a visão era realmente de perder o fôlego.


Almoçamos no Dom Galeto, no bairro de Fátima, aos pés de Santa Tereza, onde comemos um galeto com batatas divino. E, claro, com uma bela acompanhante loira e gelada. De sobremesa, um Chicabon! Desde que li Nelson Rodrigues pela primeira vez tenho vontade de chupar um Chicabon no Rio. Pronto! Vontade satisfeita. Rumamos para Ipanema, onde fui conhecer o famoso prédio na Nascimento Silva 107, onde Tom Jobim morou nos anos 1950/60 e onde ele e Vinícius ensinaram a Elizete Cardoso as canções da Canção do Amor Demais. Dizem que Garota de Ipanema também foi escrita lá. Corcovado foi composta lá, devido a paisagem que se via da janela do apartamento, visão que pouco depois da gravação deixou de existir, com as construções que se ergueram. Olhando o prédio não se pode imaginar o que ele já abrigou e que foi cenário de tanta maravilha. É um edificiozinho bem simples, adequado ao padrão de vida do maestro naquela época, creio. A foto que ilustra aqui eu peguei da internet, porque não consegui achar lugar para estacionar e fazer o meu registro, mas é só para mostrar o quão simples é esse prédio que abrigou nosso Antônio Brasileiro. A Lagoa Rodrigo de Freitas foi a próxima parada, onde tomei água de coco. Não tão boa como as de Salvador, mas valeu.

Depois, passada pelo Jardim Botânico, onde fomos tomar uma Brahma Black no Boteco Belmonte, que tem seis filiais espalhadas pelo Rio, com matriz no Flamengo. O chope escuro da Brahma realmente é muito gostoso. Acompanhou-o uns pasteizinhos bem apetitosos, se bem que pequenos demais para o preço cobrado. Lugar aconchegante, sofisticado, mas com um clima de botequim mesmo que deixa a gente bem à vontade. Detalhe interessante: eu deixei o carro estacionado em um canal um pouco afastado do bar, mas não o travei nem liguei alarme, por esquecimento. Ao voltar, o veículo estava intacto. Depois dizem que o Rio é perigoso.

Bem, claro que há muito a se conhecer no Rio, e essa minha aventura de dois fins de semana não contemplou quase nada. Mas foi o suficiente para eu entendesse por que tantas músicas cantam tanto a beleza dessa cidade verdadeiramente maravilhosa. E acho que eleger um verso dessa música para titular esse post foi realmente uma excelente escolha, dado que o Rio

"É sol, é sal, é sul
São mãos se descobrindo em tanto azul
Por isso é que meu Rio da mulher beleza
Acaba num instante com qualquer tristeza
Meu Rio que não dorme porque não se cansa
Meu Rio que balança
sorrio, sorrio, sorrio, sorrio, sorrio"

segunda-feira, 23 de março de 2009

Sábado insano

Sábado fui com minha filha assistir ao espetáculo Terça Insana, em São Caetano. Eles estão comemorando oito anos de existência e trouxeram novos quadros e personagens. Nunca os tinha visto e achei bastante divertido, se bem que em alguns momentos senti enfado. São piadas despretenciosas, sem conteúdo político, por exemplo, mas com tiradas que realmente fazem a gente rir. No U-Tube há vários vídeos de shows antigos, e pude ver alguns realmente engraçados, como o seu Merda, que acabou indo para o Zorra Total, devidamente renomeado para seu Banana. Ou o da irmã Selma, bastante bem bolado. Dos novos, o Homem Ímã de Pessoas Chatas é bem gozado, assim como o Açougueiro e a mulher com tpm. Já o Boliviano eu dormi e não sei se é legal. O intelectual baiano metido a francês (Salvador L'evi Strauss) achei chato (deve ser minha perrenga com franceses). Mas a Margarida foi muito inteligente. Enfim, foi uma boa diversão para um sábado. Eles se apresentam no Avenida Clube toda terça, e no resto da semana viajam, por isso os vi sábado no Paulo Machado de Carvalho.

Na sexta fui conhecer os bares da Engenheiro Caetano Álvares, na zona norte de SP, um point que vem crescendo na noite. Entrei no Caetano's, lotado, mas logo conseguimos mesa. Cerveja na temperatura correta, boa caipirinha e uma porção de petiscos realmente porção, no aumentativo e superlativo. Pedimos o tal bandejão, e o garçon, honestamente, disse que a porção inteira era muito para dois, e sugeriu meia. Assim mesmo sobrou uns pastéis, bolinhos e croquetes. Uma delícia, apesar de ser tudo fritura (ai, meu colesterol). O ruim é que no final da noite, portas já fechadas, uns clientes um tanto altos acharam que tinham pago o que o garçon disse que não tinham e saiu discussão, empurra-empurra e até uma doida loira que deu de jogar o que viu no balcão no chão. Foram expulsos. Ainda bem.

domingo, 22 de março de 2009

Um reencontro com a paz e a natureza


Conheci Pirenópolis, em Goiás. Adorei. Uma cidade muito bucólica, um point no meio do cerrado para se curtir a natureza e a noite. Claro que um fim de semana é pouco demais para conhecer e usufruir tudo que a cidade e os arredores têm de bom. Fui em uma cachoeira, a Nossa Senhora do Rosário, a 33 km da cidade. O lugar é maravilhoso. Tem um restaurante de pedra muito zen, com diversas esculturas - na verdade, pedras empilhadas de uma maneira que só o cara que fez deve saber por quê -, um quarto cheio de redes onde vi um pôr-do-sol divino, depois de tirar uma soneca como há muito tempo não tirava. De lá, após descer um morro bem íngreme, se chega a um mirante, de onde se pode ver o cerrado, aquela vegetação tão especial, com cada flor incrível. Mais para baixo há uma piscina natural com uma água límpida, que revela um fundo de pedras e folhas caídas das muitas árvores ao redor que remete a uma paz incrível. Como me senti bem naquele lugar. Mas a água estava fria demais, e o sol, encoberto pela copa das árvores, não ajudava a aquecer. Resultado: nem entrei na água, do que me arrependo, porque deveria estar maravilhosa. Descendo outro tanto, em uma escadinha a quase 90 graus, chega-se à cachoeira, que cai em um laguinho repleto de pedras redondas fazendo um leito muito bonito. Bem, aí tive coragem de entrar na água, e por isso me arrependi de não entrar na piscina, porque a água é gelada, mas depois de dentro dela o corpo se acostuma e fica até quente. É muito bom mesmo sentir o jorro daquela queda d'água nas costas, na cabeça. Depois o almoço naquela casa de pedra, onde um tucano, de nome Obama, faz voos rasantes e vem pousar em nosso braço à espera de algum pedaço de comida. O almoço foi tudo de bom também, comida feita em fogão de lenha, muitos legumes da horta dos donos. Um local bem integrado à natureza, e onde se dá vontade de ficar muito tempo, sem querer ir embora.

A pousada é outro destaque. De nome Quintas de Santa Bárbara, é instalada em um terreno enorme repleto de árvores, jardins, onde se pode deparar de repente com famílias de cotias e micos muito graciosos. Redes na varanda dos quartos onde se pode render-se à preguiça sem a menor culpa. Aliás, lá se esquece de qualquer problema e vive-se apenas integrado à natureza, convivendo com pássaros de todos os tipos - vi uma dupla de periquitos comendo coquinhos que foi um espetáculo. A gente que é do asfalto muitas vezes nem se dá conta de como isso é importante. À noite, em uma volta pela cidade, dá para se ver como fervilha. Inúmeros barzinhos, onde pude experimentar o famoso empadão goiano, uma delícia, um sorvete de capim santo (erva cidreira) surpreendente. Antes de ir embora, almoço no restaurante Pedreira, onde comi uma pamonha frita que nunca imaginei existir. Que delícia! Nossa, é um lugar muito gostoso, de um astral incrível, com uma riqueza cultural que ainda há muito a se explorar. O ponto negativo são as inúmeras pedreiras ao redor, que parece que tornam a extração de pedras a principal atividade econômica da região. Isso é que nem garimpo, sabe, degrada muito a natureza. Ah, em outra pousada conheci um trecho do rio das Almas, que me fez definitivamente tomar a decisão de nunca mais na vida chamar o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí de rios. Uma beleza de paisagem também, que havia muito tempo não vislumbrava. Lembrei-me de quando era menino de 5, 6 anos, que morava em um lugar, em São Caetano, em que havia ainda rios límpidos, matas virgens, natureza mesmo. Pena que o progresso terminou com tudo isso. Mas o bom é que ainda há muitos lugares assim neste país, basta viajar um pouco e se depara com o verde, o céu cravejado de estrelas, uma lua redondinha e um sol benfeitor a banhar todo o cenário e dar-nos o espetáculo de seu nascer e seu pôr.
Destaque especial à minha amiga Sandra, que me revelou esse esplêndido lugar e confirmou a impressão que já tivera dela na Ilha do Mel, uma pessoa agradabilíssima e excelente companhia, com que tive conversas maravilhosas e momentos inesquecíveis.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Pirenópolis


Amanhã irei a Pirenópolis, em Goiás. Minha amiga Sandra me encheu de vontade ao descrever o que encontrarei ali: cachoeiras, natureza, cidadezinhas antigas, trilhas, boa comida, boa diversão. Como confio no seu julgamento, espero que realmente me divirta muito. Quero conhecer a natureza, a cultura, a gente, a comida. As festas. Neste fim de semana, coincidentemente, haverá uma mostra de vídeo socioambiental, além de oficinas diversas, shows e no sábado uma baladinha imperdível. Gostaria de fazer também uma das caminhadas, mas acho que um fim de semana é pouco para explorar plenamente o local. O interessante também será conhecer o Cerrado, um bioma dos mais importantes, a savana com a maior biodiversidade do planeta. Enfim, segunda-feira relato tudo, ilustrado com muitas fotos.