O Barquinho Cultural

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terça-feira, 7 de abril de 2015

O Segundo Sexo de Vanessa Bumagny


Vanessa começou a cantar em coral nos EUA (foto:  Alessandra Fratus)
“A Vanessa é uma das melhores autoras surgidas nos últimos anos.
Faz melodias muito originais e é uma poeta inspirada.
Neste terceiro CD, ela chega ao seu auge criativo, com canções que poderiam ser hits radiofônicos.”  (Zeca Baleiro, especial para o Blog por Bloga)

Neste texto, vou tentar mostrar que o grande compositor maranhense não está exagerando.

Vanessa Bumagny, paulistana, três CDs lançados, vem ganhando o respeito e a admiração do público e de pessoas insuspeitas do meio musical. Sua voz e o jeito de cantar não deixam dúvidas: ela nasceu para isso.

A voz é límpida, suave (até falando a gente se encanta com seu timbre). Às vezes, lembra Flora Purim; às vezes, Ná Ozzetti, Marisa Monte, mas tem personalidade própria, exala emoção na medida certa, sem arroubos perfeccionistas... Agradável.

As letras são delicadas como a voz. Melodias nada óbvias, arranjos criativos e produções caprichadas. Uma artista que tece com carinho sua obra, com respeito ao público e aos profissionais envolvidos.

Quando não faz ela própria a letra, entrega a parceiros de grande quilate, como Zeca Baleiro, Chico César, Luiz Tatit, ou põe melodia em poemas de Fernando Pessoa, Federico Garcia Lorca, João Cabral de Melo Neto...

Começou a cantar no coral da escola em que fazia intercâmbio na Califórnia (EUA), aos 17 anos e se descobriu cantora, música. De volta ao Brasil, foi estudar canto lírico, montou uma banda de forró, foi vocalista de Chico César, atuou como atriz do grupo teatral Os Satyros.

Em busca de novos horizontes, foi a Barcelona (Espanha), onde viveu quatro anos. Lá, formou bandas, cantou, se apresentou em Paris, participou de um disco com outros artistas brasileiros e começou a gravar seu próprio CD, que não chegou a finalizar.

Quando regressou mais uma vez ao nosso país, já bastante amadurecida como artista, gravou, em 2003, seu primeiro disco, “De Papel”, uma brincadeira com seu sobrenome. São 14 faixas, seis delas composições suas, quatro com parceiros, três poemas (de Adélia Prado, Fernando Pessoa e Garcia Lorca) musicados por ela e uma de Chico Buarque (“Flor da Idade”).
O primeiro CD: personalidade

Sobre “De Papel”, escreveu o músico, linguista e professor universitário Luiz Tatit (Grupo Rumo):

“Vanessa Bumagny prefere esbanjar maturidade e personalidade já no primeiro disco: assina todas as composições, algumas em parceria, trabalha com músicos de excelente qualidade, investe no visual da capa e do encarte e ainda recebe convidados do naipe de Zeca Baleiro e Chico César. Logo na primeira audição de ‘De Papel’, temos vontade de perguntar onde estavam essas canções antes do lançamento do disco. Como podem ser originais e familiares ao mesmo tempo?
Vanessa soube calibrar o ímpeto criador na direção de um repertório acima de tudo atraente. Não há dúvida de que, para isso, contou com o auxílio imprescindível de Alê Siqueira e Dante Ozzetti, músicos e produtores especialistas em extrair boa sonoridade das canções, mas essa atitude da intérprete manifesta-se desde o estágio da composição.
Não há como não admirar a realização bem-sucedida da difícil arte de musicar poesias consagradas.
Por fim, ela dispõe de um belo timbre de voz associado a uma afinação muito precisa.”

Segundo disco: melancólico
Em 2009, grava o segundo trabalho, “Pétala por Pétala”, produção de Zeca Baleiro, que assina com ela duas faixas. Chico César escreveu com ela a canção que dá título ao álbum. O disco conta com a participação linda de Dominguinhos. As demais músicas, à exceção de mais dois poemas por ela musicados (da galega Rosália de Castro e do português Sidônio Muralha), são dela. Este é um trabalho mais melancólico, um clima intimista. Um ótimo disco (pena que esteja esgotado).

“O Segundo Sexo” saiu em 2014. Inspirado na leitura da obra homônima de Simone de Beauvoir, nele ela assina sozinha seis faixas, quatro com parceiros (Zeca Baleiro - que também canta um rap incidental na faixa-título, dela e LuizPinheiro -; Heloiza Ribeiro e Luiz Tatit) e pôs melodia a um poema de João Cabral de Melo Neto, em que o pernambucano homenageia o mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Este terceiro trabalho tem um colorido diferente, dançante em alguns momentos, mais alegre que o “Pétala” (não que este seja triste), e no qual ela, sob sugestão de Zeca Baleiro, diversificou os produtores: Fernando Nunes, Érico Theobaldo (6), Zeca Loureiro e Rogério Bastos (3) e Tuco Marcondes, o que imprime climas diferentes.

Sobre ele, também escreveu Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB-4:

Terceiro álbum: dançante
“’O Segundo Sexo’ é um CD que deve ser ouvido, pois traz à tona uma artista de indiscutíveis predicados. Cantora e compositora de bons recursos, seu trabalho, pleno de musicalidade e personalidade, sem dúvida deve ser apreciado.”

Show e novos projetos

A agenda de Vanessa Bumagny está agora tomada por dois projetos: a gravação de seu primeiro DVD e a produção de um espetáculo infantil. Sobre o DVD, Vanessa diz que quer fazer algo diferente, não limitado ao registro de um show (até pode ser), mas algo como uma história contada em episódios. O espetáculo infantil ela pretende levantar poemas e musicá-los, na linha do “Crianceiras”, projeto de Marcio de Camillo com poesias de Manoel de Barros.

Mas, quem quiser conferir – ou rever – o trabalho de Vanessa, tem a oportunidade no próximo dia 30 de abril. Ela vai se apresentar no projeto Quintas Musicais da Sala Itaú Cultural (avenida Paulista, 149, São Paulo), às 20h, com entrada franca (ingressos distribuídos meia hora antes do show).

No dia 1º de abril, Vanessa concedeu uma entrevista ao Blog por Bloga, em um agradável café e restaurante na Vila Madalena. A seguir, a íntegra:

Ou, se preferir, ouça:


Bloga: Como você começou a cantar, o que lhe influenciou, o que você ouvia. Como foi seu universo até você se tornar cantora e compositora?

Vanessa: Meu universo musical era bem variado, meu pai gostava muito de música, minha mãe também, então em casa tinha Luiz Gonzaga, tinha Chico, Caetano, Gilberto Gil, Bethânia, mas tinha também Jackson do Pandeiro, tinha esse universo mais nordestino, tinha música clássica. Então acho que foi misturado... Beatles, fui descobrindo os discos deles, fui escutando, acho que já comecei com um leque grande de coisas para escutar. E aí quando fui morar nos Estados Unidos, quando era adolescente, para um intercâmbio, cheguei lá e na escola tinha coral, fui cantar no coral e foi aí que eu percebi que eu realmente queria trabalhar com música.

Bloga: Que tipo de música que se cantava lá?

Vanessa: Coisas assim tipo Mozart, tinha alguma coisa de golpel, spirituals, mas era basicamente isso, não tinha música popular, no sentido de, sei lá, Bob Dylan, rock, pop. Spiritual você até pode dizer que é música popular, mas...

Bloga: Quer dizer que era uma coisa mais lírica?

Vanessa: Sim. Aí quando eu voltei para o Brasil fui fazer canto lírico. É o que mais tinha na época: para estudar música era canto lírico, hoje até você acha aula de canto popular.

Bloga: Você acha que isso lhe deu uma sustentação em termos de técnica, de estilo, respiração...  Essas coisas que são apropriadas para quem canta, dá uma boa base?

Vanessa: Dá uma boa base, é essencial, para mim foi essencial. Eu não tinha isso natural, não era uma coisa fácil para mim, então eu precisei fazer aula para aprender realmente a usar as cordas vocais, a respiração...

Bloga: Aí você foi cantar forró...

Vanessa: Pois é, porque tinha essa coisa desde a infância de ouvir bastante forró, aí resolvi que queria fazer uma banda de forró e achei uns loucos que toparam a ideia e a gente teve uma banda de forró em 92, a Segura Essa.

Bloga: E tocavam em casas, onde?

Vanessa: Era bem difícil na verdade; a gente tocava em lugares meio absurdos, como uma casa que tinha no Brooklin, que nem sei se ainda existe, a Inverno e Verão... Mas fiz no Sanja, e um lugar que não lembro o nome... A gente fez bastante shows lá, o Chico César, o Zeca, era Café...

Bloga: Seria O Canto da Ema?

Vanessa: Não, acho que o Canto da Ema nem existia nessa época... Era Café Maravilha. E a gente fazia uns shows em Osasco, também... Não tinha muita facilidade para tocar forró. Até para cantar no Café Maravilha foi bem difícil, porque eles falavam: ‘Ai, forró!’...

Bloga: É na época não tinha essa coisa de forró universitário...

Vanessa: É, não existia...

Bloga: Era naquela formação básica: sanfona, zabumba e triângulo?

Vanessa: Não, a gente tinha baixo, bateria...

Bloga: Então vocês foram meio que precursores do forró universitário...

Vanessa: É, acho que fui mesmo, porque naquela época não tinha nem lugar para tocar. Era muito esquisito tocar forró, era estranho mesmo.

Bloga: Aí depois você foi para a Espanha, Barcelona, fazer o quê lá?

Vanessa: Eu queria viver essa experiência de morar fora do Brasil, já mais velha, com uma ideia de carreira, ver como era o mercado musical em outro lugar sem ser São Paulo, que eu achava muito cheio de panelinha, muito difícil de você ter a oportunidade de mostrar o trabalho e ser reconhecido pela qualidade do trabalho. Eu achava que tinha mais a ver você ser amigo de alguém, que é amigo de alguém... Então fui embora, fiquei quatro anos fora e foi muito bacana. Fiz minha banda  lá...

Bloga: Banda com músicos de lá?

Vanessa: Tinha de tudo era, misturado... Às vezes tinha um brasileiro, às vezes dois, às vezes não tinha nenhum. Fiquei quatro anos e foi muito bacana. Fiz bastante shows na Espanha, em Paris, e aí achei que era melhor voltar para o Brasil.
Decisão de gravar veio na Espanha, mas realizou-se quando voltou ao Brasil

Bloga: E a ideia do disco nasceu lá então? Você já compunha na Espanha, tinha coisa própria que você apresentava?

Vanessa: Comecei a compor mais na Espanha mesmo. A ideia do disco nem surgiu de mim. Na verdade estava fazendo um show e um fã espanhol [NE: esse fã prefere ficar no anonimato] veio pedir para comprar um disco. E eu falei que não tinha disco e ela falou que eu precisava ter e ele mesmo que arrecadou entre os amigos dele uma grana para patrocinar meu primeiro disco.

Bloga; Foi assim outra precursora, a do crowdfunding...

Vanessa: Eu não sei, talvez já existisse, mas não foi um crowdfunding na verdade, porque ele pegou e apareceu com o dinheiro para fazer o disco. Eu nem sabia como fazer um disco... O Chico César estava lá na época, foi fazer um show lá e eu perguntei a ele o que se faz para fazer um disco. E aí ele me disse para conversar com o Mario Manga...Aí, de volta ao Brasil, eu comecei a produzir com o Mario Manga...

Bloga: Mario Manga do Premê...

Vanessa: É, Aí acabou que esse disco eu nem terminei, parei no meio. E aí depois eu comecei a fazer com outro patrocínio, com outra história, que foi realmente meu primeiro disco, o “De Papel”

Bloga: “De Papel” que tem a ver com seu sobrenome...

Vanessa: É, a tradução de meu sobrenome em russo.

Bloga: Mas teve um disco de que você participou quando estava lá na Espanha...

Vanessa: Sim, teve um disco, que foi um projeto de um brasileiro, que aliás acho que até mora lá ainda, Danilo Pinheiro, e ele fez um projeto de pegar cinco brasileiros, cada um gravava duas músicas, e a gente resolveu chamar o projeto de “Pau de Sebo” [NE: Vitrine Brasil, lançado em 1998 pelo selo Regent Music], porque era muito difícil fazer música, como subir num pau de sebo. Eu gravei uma música minha, chamada “Mito”, e uma música da Rita Lee, “Coisas da Vida”.

Bloga: “Coisas da Vida”? Maravilhosa...

Vanessa: Maravilhosa, maravilhosa...

Bloga: E esse disco existe?.

Vanessa: Existe, quer dizer, não sei se ele existe em catálogo. Eu tenho um, mas não sei se ele existe, como está de tiragem atualmente, não faço ideia.

Bloga: Mas foi lançado em Barcelona?

Vanessa: Foi lançado lá, com shows, foi uma coisa muito legal, de começar a juntar pessoas para fazer coisas juntos   ...

Bloga: E quem mais que participou desse disco?

Vanessa: Não lembro agora. Preciso dar uma olhada, isso faz muitos anos. [NE: Além dela e do guitarrista e idealizador do projeto, Danilo Pinheiro, o CD teve a participação de Norberto Farina, Cogumelo Brasil, João Niterói e Nema Plá.]
CD com brasileiros na Espanha

Bloga: Você tem muita parceria com Zeca Baleiro, Chico César, tem uma com Luiz Tatit agora. Como é que você chegou a esse pessoal, como é que eles chegaram até você?

Vanessa: Conheci o Chico César no show da Virginia Rosa, no Sanja, e ele me apresentou para o Zeca e o Luiz Tatit eu conheci muito depois, dez anos depois, quando eu lancei meu primeiro disco. Eu sempre fui muito fã dele e pedi para ele escrever uma resenha sobre o disco para apresentar o disco. E foi assim que eu o conheci.

Bloga: O “De Papel”. E ele escreveu uma resenha...

Vanessa: Escreveu um texto de apresentação.

Bloga: Você já tinha tido aula com ele?

Vanessa: Não, depois disso que eu resolvi ser ouvinte no curso dele na USP.

Bloga: Mas então você arriscou: ‘vou mandar e ver no que dá’...

Vanessa: Eu arrisquei, mandei, ou tinha alguém que conhecia ele e mandou... Não lembro mais como foi. Eu mandei o disco, ele gostou, o convidei para escrever e ele topou.

Bloga: E como é que você compõe, tem as músicas com Zeca, você manda a música para ele ou a letra, vocês se encontram. Como é que são suas parcerias, não só com o Zeca, como é seu processo de composição, de produção?

Vanessa: Eu não tenho muito um método, na verdade, cada música tem uma história meio única. O Zeca, por exemplo, eu já compus de várias maneiras, compus junto, fazendo tudo junto – letra e música, já compus mandando letra para ele; Chico também, mandando letra; Luiz Tatit foi o contrário, eu mandei a música para ele; às vezes eu musico poemas, mas não tenho um método, cada coisa acontece de um jeito.

Bloga: Sobre o último disco, “Segundo Sexo”, no qual você se refere ao trabalho de Simone de Beauvoir... Como você vê esta questão do gênero, do feminismo, do machismo. Você disse que a leitura do livro lhe modificou. Como é que você passa a enxergar essas coisas agora, por que Simone de Beauvoir lhe despertou tanto assim?
Leitura de Simone de Beauvoir transformou sua vida

Vanessa: Eu tinha um professor no colegial que falava que eu tinha que ler esse livro, que ele é incrível e eu sempre pensei que um dia eu ia ler, porque é enorme e aí um dia eu li e achei que me respondeu muitas coisas em relação a ser mulher hoje. Achei um livro revolucionário. E, apesar de ter sido escrito nos anos 1940, 1949, é um livro muito atual e eu achei que esse livro precisava ser discutido, ser homenageado, citado, observado, encomendado e eu percebi que tudo que eu faço, na verdade, tem a ver com isso, com esse lugar, porque você não pode ser mulher assim de uma forma neutra, não existe isso: você é mulher e tudo que você faz, tudo que te afeta no mundo te afeta a partir desse lugar. Então eu pensei que tudo que eu componho, as músicas que eu faço, minha carreira... toda minha vida tem a ver com eu ser mulher. Por isso que o disco chama “Segundo Sexo”.

Bloga: Você diz que o disco tem que ser um objeto que cutuca, que desperta, que instiga. Qual é o papel do artista, ao seu ver, nessa questão de instigar, de provocar, de fazer refletir?

Vanessa: Acho que o artista... Não sei o artista, não vou falar dos outros, cada um tem a sua motivação de fazer o que faz. A minha é essa ânsia de realmente me comunicar, mas me comunicar não de um jeito, digamos, comum, corriqueiro, gostaria que eu trouxesse alguma coisa que fizesse as pessoas pensarem, a partir da sensação, do sentimento, da emoção. Acho que você faz o que você faz para... Eu faço o que eu faço para me comunicar, mas de uma forma profunda, não superficial, não banal. É uma busca minha. Na verdade eu acho que eu só gravo músicas que eu acho que tem esse potencial de instigar; se é uma música que eu acho que não vai mudar nada, não vai tocar em ninguém eu não gravo, não toco.

Bloga: E a resposta, o que você recebe de feedback, as pessoas conversam com você a respeito de suas músicas, como você vê o retorno de seu recado?

Vanessa: Acho o retorno incrível. Ele não tem uma... Ele tem fases diferentes... Agora, por exemplo, o “Segundo Sexo” é um disco que eu acho que não atingiu tantas pessoas, o “De Papel” e o “Pétala por Pétala” atingiram bem mais.

Bloga: Como você vê a cena hoje, concorda com o Luiz Tatit (que disse em entrevista ao 'Gafieiras' que hoje o músico tem mais facilidades para fazer seu trabalho do que antes, mas a concorrência também é maior)?


Vanessa: Tem uma questão que eu acho que, apesar de os meios estarem mais democráticos,  está tudo muito pulverizado, as pessoas precisam cada vez mais de curadoria, de alguém que ouça e fale ‘olha, isso é legal’, porque as pessoas não vão parar para ouvir tudo. Há algumas exceções de gente que tem essa tendência para garimpar, ir atrás, mas a maioria ouve o que cai no colo. Então precisa de alguém que diga o que é legal e o que é lixo e não precisa escutar, senão você vai cair no risco de ficar nas mãos de outra pessoa que vai escolher por você.

Página oficial de Vanessa no Facebook

O canal de Vanessa no Soundcloud

Alguns vídeos de Vanessa no Youtube:


“O Segundo Sexo”, do disco homônimo, dela e Luiz Pinheiro:





“Tristeza Só”, dela, do álbum “O Segundo Sexo”:





“Pétala por Pétala”, dela e Chico César, do CD homônimo:





“Ciúme não Mata”, dela e Zeca Baleiro, do disco “Pétala por Pétala”:






“Árido”, dela, do primeiro CD, “De Papel”:






“Radiografia”, dela e Zeca Baleiro, do disco “De Papel”:


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Mariana Degani: Porque cantar aumenta o mundo



Cantora, compositora, ilustradora, estilista: Mariana usa todos esses recursos em seu trabalho (foto: Carlos Mercuri)


Mariana Degani diz que aprendeu a cantar com Adoniran Barbosa e Cartola, antes mesmo de começar a cantar. A paulistana de Vila Madalena primeiro foi estudar moda, formou-se estilista, mexendo com o vestir. O pano se torna uma das superfícies para seu outro talento, o de ilustradora. Com a parceira de faculdade Verônica Alves, abecediana de Mauá, atualmente radicada em Curitiba, são as Pupillas, duo de ilustradoras que pinta telas, muros, caixas d’água, objetos, peles...

O cantar surge em rodas de samba pela noite, com os amigos, um impulso vindo de dentro, do ouvir nosso som primordial nas vozes de nossos compositores e intérpretes fundamentais. Não deu outra. Lá estava ela à frente de uma banda de oito, o Loungetude46, nome que remete à longitude de São Paulo na carta geográfica, assumindo os vocais. Dois discos, turnês pela Europa, e a ideia, a necessidade de partir para um trabalho solo. Na verdade um duo, com o companheiro Remi Chatain, músico da Trupe Chá de Boldo.

O projeto solo/duo vem com a junção de todas as habilidades dela e de Remi: música, canto, imagens, roupas, cenário... As canções têm um clima intimista, o cantar vem de uma voz suave, aveludada, as letras falam de sensações, observações do cotidiano, de lugares, de fatos... Melhor ela mesmo explicar: “Ilustrar aumenta o mundo” (Verônica Alves e Mariana Degani):




Escrevo,
pra deixar desviar dos ombros meus
O viver peso-pesado ao qual
Eu me destino e invisto

Caso contrário, me ferindo bem fininho
E como mão adormecida eu peso
Ilustro pra saber que quando ardo
Algo vai pra luz
Resfrio, sorrio, curo.

Ela e Remi agora estão produzindo o resultado dessa parceria, o disco “Furtacor”, que deve ficar pronto no começo do ano que vem. Enquanto isso, alguns clipes podem ser vistos/apreciados/degustados. Estão no Youtube:

“Canto às vadias”é resultado da compreensão de Thiago Bandeira, após insistentes tentativas de Mariana, das Marchas das Vadias.




“Ser Tão” veio da viagem dela e de Remi ao Nordeste. Captaram imagens em Canudos, de onde a paisagem desértica remeteu a Fernando Pessoa (Tudo quanto penso/Tudo quanto sou/É um deserto imenso/Onde nem eu estou). A canção veio depois:





Na entrevista concedida em 6 de novembro de 2014, em seu aprazível apartamento em São Paulo, ao blog, Mariana fala de suas origens, inquietações, de política, feminismo, jornadas de junho, viagens e projetos:

Blog por Bloga: Como você se percebeu gostando de música, de cantar, de criar, além da questão da abstração, da questão do visual?

Mariana Degani: Bom, eu gostava já do cantar, então pra mim foi muito prazeroso. Eu não tive uma
educação... No Loungetude, por exemplo, todos os músicos são músicos desde sempre, e eu era... tipo: ‘cheguei agora, vamos lá’, comecei a cantar. Aí é que eu fui buscar um respaldo e fui fazer aula de canto e aí outras coisas. O prazer pelo cantar sempre existiu. Com o Remi, que é produtor musical, a gente começou a fazer umas coisas de produção, de gravar no estúdio. Coisa que aí até saía, mas eu ficava supernervosa...

Bloga: Coisas de vocês...

Mariana: É, trilha... É legal que, assim, a Verônica, que é a outra Pupilla, a gente foi amiga na faculdade, mas nem tanto, e no último ano foi que a gente ficou mais amiga e, embora a gente não tenha feito muitos trabalhos junto, a trilha sonora do desfile dela foi o Remi que fez e eu gravei “Eu sou neguinha”, do Caetano, a gente fez uma viagem, sem marcação de tempo, coisa louca, e foi uma coisa que eu adorei fazer, era uma música que eu gostava, e a gente transformou-a numa outra coisa e isso virou a trilha do desfile da Vero. Foi quando eu comecei a pensar nisso. E foi muito do Remi assim, também, que foi indo, vamos lá, e aí a gente decidiu formar o Loungetude46... Foi legal.
Vocalista no Loungetude46 (foto: Facebook)


Isso já me colocou na frente do Loungetude, como essa frontwoman, porque eu não toco nenhum instrumento. Foi muito legal... No início pra mim foi uma coisa muito doida, porque o palco era algo que me... Sou tímida, supertímida, eu chegava no começo e era um negócio meio forte pra mim. Eu sou aquela que, antes do show você vai me encontrar pendurada, montando, carregando luz, não sei o quê, no último momento é que eu vou, me troco rapidinho, faço maquiagem, uma massagem aqui...

Eu adoro produção, pra mim isso já é parte. E aí o cantar era o final de tudo isso, que tinha uma coisa muito legal, mas no início era meio dolorido. Aí foi muito bom porque o tempo foi passando, a primeira turnê que a gente fez foi pela França, foi quando eu ultrapassei a arrebentação. Tem um vício meu: eu fico às vezes um tempo sem fazer show e vou no show das pessoas e fico querendo estar lá...

Bloga: E como é que pintou esse negócio de Europa, de França?

Mariana: O pai do Remi é francês, então a gente tem essa relação com a França, de amigos, músicos, essa coisa de vez em quando visitar o pai, vó e tal. A gente começou a fazer, sempre foi um trabalho independente, de formiguinha mesmo, entrar em sites, procurar, fazer listas, juntar nomes, lugar, prefeituras, não sei o quê, e fazer esse trabalho, mandar e-mail, tentar fechar show. E dessa forma a gente fez. Na primeira turnê a gente passou dois meses, fez 25 shows...

Bloga: Na França?

Mariana: Na França, em Londres...

Bloga: Isso foi em...

Mariana: 2011. Em 2012 a gente foi de novo e ficou só um mês, na verdade 20 dias, e fez 12 shows. É uma coisa que rola, mas que também rola porque a gente batalha. [Leia aqui texto dela sobre a turnê europeia com o Loungetude46]

Bloga: E como é que foi a receptividade?

Mariana: Demais. O povo francês adora o Brasil e eles conhecem muito a música brasileira. Muitas vezes eles estão acostumados a ouvir essa música brasileira de exportação, o “Garota de Ipanema” [Vinícius de Moraes e Tom Jobim] e eles são muito curiosos pra novidades. Estão muito acostumados a ouvir “Garota de Ipanema”, um monte de banda faz isso lá, então para coisas novas o francês é muito curioso, muito respeitoso. A diferença lá... É engraçado: aqui a gente vê uma banda tocando e o silêncio lá é muito maior do que aqui.

A gente tem alguns lugares, como a Casa de Francisca, que a hora que começa o show o bar para de atender e a gente só assiste à música. Muitas vezes têm shows, mesmo no Mundo Pensante, um lugar superlegal, onde tem shows, muitas vezes a pista, as pessoas dançando, mas já teve a Ná Ozzetti, a família Ozzetti lá tocando e a galera conversando. Foi até um momento muito bonito que aconteceu lá, que teve a intervenção do Remi, que trabalhava lá na época e falou, interveio: ‘A gente está recebendo aqui nada menos que a Família Ozzetti. Eu queria pedir pra quem estivesse a fim de bater papo que vá lá fora; quem quiser ficar aqui dentro, respeito’. E aí foi um momento de as pessoas chorarem e depois ficou silêncio até o fim da noite.

É um negócio que as pessoas nem fazem de propósito, não que elas estejam pouco se fodendo, é uma outra forma de enxergar a cultura. Então é muito legal lá, o retorno é muito bom. Este ano eu estive lá de novo, fomos no meio do ano.

Esse projeto solo a gente lançou em abril, e fez um show no Mundo Pensante, estava cheio. Depois a gente não fez mais aqui e em junho fomos para a França e fez uma turnê, passamos dois meses lá, fizemos uns 14 shows. Pra mim é meio que um ideal desse novo show. Eu tenho projeção, tem cenário, então eu levo tudo o que falo que é meu cirquinho, essa mala aqui, que são os tecidos, os figurinos, tem o projetor...

Bloga: Os figurinos é você também que faz, e as ilustrações, toda a parte de produção musical?

Remi no Estúdio Sofá Vertical (foto: Carlos Mercuri)
Mariana: Sim... A gente produz os vídeos, é algo que a gente faz em dupla, trabalha muito junto, todos os processos. Mesmo minhas músicas, eu componho muita coisa, jogo na mão dele. A gente vai trabalhando junto, tem aqui o estúdio, a gente trabalha muito aqui. Essa ideia de que o trabalho é a dois, a gente viaja e está trabalhando. Esse clipe do “Ser Tão” [Mariana Degani e Fernando Pessoa] que a gente lançou esta semana, a gente fez uma viagem no ano passado pelo Piauí. Fomos até Teresina e alugou um carro e de Teresina a gente foi até Pernambuco, Bahia e voltou. Foi muito legal. E a gente estava lá, olhando para aquela paisagem e resolvemos fazer o vídeo. A gente queria fazer um clipe, mas não tem música, então decidimos fazer um clipe e depois fazer a música. Então muita coisa surge desses processos.

Bloga: Mais assim você perceber o que está ao redor e aí vai saindo. Agora, você está falando de suas inquietações, como você vê o mundo... O que você pensa desse mundo, como é que você se vê nesse universo conturbado?

Mariana: A gente está vivendo, sempre viveu momentos conturbados. Tem momentos em que as coisas estão mais inflamadas. E hoje a gente tem muita coisa pra se chocar, se desesperar, está o Datena [José Luiz Datena, apresentador do ‘Brasil Urgente’, da TV Bandeirantes, de São Paulo, programa que traz reportagens sobre crime e violência] a tarde inteira falando na TV e a gente não vê, por exemplo, um programa falando dos caras que estão fazendo coisas incríveis pelo mundo, pequenas revoluções, esse tipo de coisa a gente não sabe. No Facebook de vez em quando você vê uma imagem de um cara X, mas a gente é muito mais estimulada por esse lado catastrófico da violência...

Bloga: Que é uma coisa que a grande mídia quer levar, mas há outras alternativas...

Mariana: Sim, e eu acredito que, como artista, seja visual, música... Primeiro que eu não separo artista e obra, não consigo me separar, a arte é tão consequência do que se é... Acredito muito na importância do artista como porta-voz seja lá para o que ele achar. Hoje a gente tem o Lobão [João Luiz Woerdenbag Filho, cantor, compositor, escritor; disse que sairia do Brasil se a presidenta Dilma Rousseff fosse reeleita; não saiu], um artista defendendo seus ideais. Enfim, acredito na importância disso, sim. Mas, sobretudo, eu vejo que o meu trabalho, tanto musical quanto visual, penso nele como um processo de cura...

Não é nem falar sobre o amor, sobre o bem, mas propor questionamentos e fazer as pessoas pensarem que existem, sim, muitas outras formas de fazer tudo nesse mundo. E é engraçado porque, ultimamente, eu me posiciono politicamente, e faz muito tempo que eu não quebro pau com ninguém. Esse junho do ano passado me fez muito mal. Ficava lá brigando com as pessoas, umas lá falando umas coisas absurdas, culpando o cara que está cego porque tomou uma bala no olho. Hoje em dia eu busco mais esse diálogo, e de vez em quando você vai dialogar com gente que acha que são mais importantes os juros e o dólar do que a quantidade de pessoas que comem no país. A gente vai o tempo inteiro lidar com isso. Eu busco esse processo de microrrevolução, que acredito que essas são as verdadeiras revoluções que estão acontecendo e as pessoas estão fazendo nas suas casas, independente do candidato delas pra presidente.
Tranquila, mas revoltada: microrrevoluções (foto: Carlos Mercuri)

Bloga: Esse momento foi bastante polarizado, houve até radicalizações de parte a parte, mas acho que há um caminho no meio que não precisa se exaltar. Afinal, o que a gente busca né?

Mariana: Sim, exatamente...

Bloga: Acho que a política, o processo eleitoral, é um meio, mas não é o fim. E você vê a arte por aí também, como uma maneira de você dizer alguma coisa. Porque você parecer ser uma pessoa bastante tranquila...

Mariana: É meio isso. Eu sou supertranquila, mas sou super-revoltada também com um monte de coisa, entendeu?

Bloga: O que lhe revolta?

Mariana: Tantas coisas... As questões sociais, as questões da mulher. De gênero...

Bloga: Como você vê essa questão de gênero? Apesar de não ter sido, tirando a Luciana Genro [candidata a presidente da República nas eleições de 2014 pelo Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, teve 1.612.186 votos, ficando em quarto lugar na disputa] que trouxe a questão, mas a questão passou um pouco (batida no debate eleitoral este ano)...

Mariana: Eu acredito nisso: viva sua vida e deixe-me viver. Se você é contra dar o cu, não dê o cu; se é contra o aborto, não aborte; se é contra o casamento gay, não case com um homem. Pra mim é simples assim o mundo...

Bloga: Viva e deixe viver...

Mariana: Sim. As coisas que me revoltam são essas. Você vê muita gente revoltada, mas a vida dela está boa, mas ela está lá dentro de uma passeata contra o casamento gay, entendeu? Não vai mudar em nada a vida dela. Seja contra isso, seja contra o Bolsa Família. Tem também as pessoas que estão comendo bem, viajando uma, duas vezes por ano fora do Brasil, com seus carros importados sempre novos e que acham um absurdo as pessoas que estão vivendo do Bolsa Família. Elas falam que hoje em dia está difícil arrumar um porteiro que queira trabalhar porque ele é vagabundo e recebe o Bolsa Família. Então, seu salário está baixo, porque o Bolsa Família também não garante quase nada, então repensa aí seu salário, se ele não está querendo trabalhar...

Bloga: Você andou aí pelo sertão, já conhecia essa parte do Brasil?

Mariana: Não conhecia.

Bloga: Foram de carro?

Mariana: A gente foi de avião até Teresina e lá alugamos um carro, e foi legal, fizemos 2.500 quilômetros, que a gente desceu e depois subiu de novo.

Bloga: Chegou a navegar pelo São Francisco? Pegou aquelas gaiolas?

Mariana: Não, na verdade a gente nadou. Inicialmente nossa viagem era para São Raimundo Nonato, na Serra da Capivara, queria ir onde tem aquelas pinturas rupestres, ia ficar uns dias ali, e foi muito doido, porque foi chegando um momento em que eu comecei a ter uma necessidade de água; fomos descendo... Não sei se foi no primeiro ou segundo dia; acho que no primeiro dia a gente fez a viagem até São Raimundo Nonato. Estava meio sem pressa, a gente gosta muito de viajar assim, até dou uma olhada, vejo os lugares, mas a gente não gosta de fazer planejamento. Eu amo o acaso, adoro decidir as coisas na hora, adoro não ter reserva. Chegar e dizer: ‘eu gosto desse hotel’.

Então no meio disso a gente mudou o trajeto e chegou uma hora em que eu falei ‘eu preciso ir pra praia’, porque naquele São Raimundo Nonato você anda... Sabe quando você faz trilha? Eu já fui, por exemplo, para a Chapada dosVeadeiros. Você faz uma trilha de cinco horas e chega numa cachoeira maravilhosa e no Piauí isso nunca acontece, chega num lugar e... nada. Aí chegou uma hora que eu falei ‘vamos para o rio’, e aí a gente decidiu ir para o rio São Francisco e fomos para Petrolina, e ficou por ali, Petrolina, Juazeiro. Foi uma viagem curta, na verdade, passamos oito, dez dias no máximo. E teve esse dia que a gente tirou para ir até Canudos para fazer essa viagem...
Bloga: Então quer dizer que está seco e revelou a comunidade...

Mariana: A Canudos original foi inundada em 1960 para virar uma represa, então mudaram Canudos, que ainda existe, só que falaram: ‘agora é aqui’. Não tem nada, é um lugar que é muito louco, porque é um parque estadual, você paga quatro reais para entrar, pode até chamar um guia pra ir junto, mas não tem por que, eles te dão um mapinha, mas não tem onde se perder, porque é uma coisa desértica, são morros desérticos, tem alguns momentos que você chega aos lugares onde aconteceu alguma coisa, mas é no meio do nada, não tem ninguém e a gente ficou perdida no meio do deserto.

O Brasil está em obras (foto: Carlos Mercuri)

Bloga: Mas tem toda uma sensação que você recebe...

Mariana: É maravilhoso, porque você sente a história ali...

Bloga: É muito interessante porque, quando eu fui fazer essa viagem, quando me casei, e pegamos aquela gaiola a lenha, e ela vai parando nas cidades, e vira atração na cidade... Quando a gaiola chega, vem toda a comunidade dentro dela, os caras vêm lá tocar forró, vender coisas, é muito interessante. Aquelas comunidades distantes, aquele pessoal carente, mas é uma alegria, felicidade...

Mariana: É muito legal, a gente deu carona pra pessoas, elas têm o hábito de pedir carona na estrada. O dia que a gente foi pra Canudos, 250 quilômetros para ir, mais 250 pra voltar... E muitas vezes em estradinhas, que são maravilhosas, as estradas no Piauí... A gente não pegou um pedágio nem um buraco. Pelo menos a hora que você vira à Bahia aí é um negócio que você não acredita, está bem detonado. Mas no Piauí foi muito surpreendente isso. De fato aqui no Sudeste, como classe média, em São Paulo, você não consegue ter uma visão tão clara das coisas mudando. Mas no Piauí foi muito legal fazer essa viagem de carro porque a gente anda nos lugares mais no meio do nada e via um monte de cisternas... [Clique aqui para saber mais sobre o programa ‘Água para Todos’].

O Brasil está em obras, aquele lugar ali está em obras. Mesmo essa cidade, São Raimundo Nonato, de cinco anos pra cá, aumentou em 60% a quantidade de casas que existiam na cidade. As pessoas agora saíram da casa da mãe e construíram a casa do lado. Você percebe esse trabalho que é de formiga, que é mudar uma sociedade, como eu disse, eu acredito em microrrevoluções, porque não adianta chegar a Dilma ou o Aécio ou a madre Tereza de Calcutá porque não vai fazer assim e tudo vai se resolver... Mudar uma sociedade... É claro que todos eles poderiam fazer muito melhor do que já fazem, mas...

Bloga: Tem que ter também o próprio cidadão...

Mariana: É, existe um tempo que é necessário. Mesmo essas questões LGBT... Eu sou muito otimista em relação a isso quando eu vejo essas gerações, essa molecada de 20 anos hoje em dia, que, pra eles, nem é mais uma questão. Então acho que a coisa se transforma... Todo mundo tem um amigo que é gay e adora o amigo que é gay, a amiga que é lésbica. Você vê essas gerações mais novas e é muito legal perceber isso. Claro que, como tudo, têm as melhoras, as pioras...

Bloga: Só que tem gente querendo o retrocesso, que voltem ao militares no poder...

Mariana: É, você vê uma galera de 20 anos gritando loucamente isso. Eu achei ótimo que eu vi uma moça na manifestação pelo impeachment da Dilma que na mesma cartolina ela escreveu ‘intervenção militar’ e ‘liberdade de imprensa’. Achei ótimo, uma pessoa...

Bloga: ...esclarecida...

Mariana: Ela não sabe o que está falando. Eu não sou petista, já acreditei muito mais no PT do que acredito hoje... Podemos falar um monte de coisas, de vários problemas do PT. Agora, uma coisa que eu não consigo entender muito são as pessoas que reclamam de falta de liberdade hoje em dia, falam que não têm liberdade, e eu queria entender pra quê?  Porque talvez elas não tenham liberdade para odiar uma pessoa e para bater numa pessoa; elas não têm liberdade para semiescravizar um empregado morando na casa dela num cubículo desse tamanho, né? Que é muito das reclamações que rondam. Muitas coisas me revoltam, mas eu acredito nas microrrevoluções. Meu trabalho tem a ver com dialogar com isso de várias formas.

Bloga: Falando em trabalho, como é que está o “Furtacor”? Como está sendo, o que você está colocando lá, como está o processo? Gravando? Quando sai?

Mariana: O “Furtacor” começou de algumas composições que a gente começou a criar no começo de 2013, quando a gente deu esse tempo no Loungetude e já começamos a pensar em umas músicas, ‘vamos fazer um projeto’, e o Remi sempre me estimulou muito a ter esse projeto solo, ele que sempre foi muito da produção, sempre falou das minhas ilustrações, de criar esse universo que estou criando o tempo inteiro, que é minha casa, que são todas as coisas que eu faço. E a gente começou a escolher umas músicas. Com o tempo, do final do ano passado para este ano eu comecei um trabalho maior, percebi que a gente tinha algumas músicas de uns, de outros, comecei a sentir necessidade de parar para pensar no que eu estava querendo dizer com meu trabalho, como essas músicas se relacionam.

"Furtacor", projeto solo com Remi, sai ano que vem (Foto: Carlos Mercuri)


Eu acredito que um disco tem que ter músicas diferentes, mas ao mesmo tempo é uma coisa só, então, como construir esse todo. E nisso fui sentindo necessidade de compor outras coisas, outras coisas foram surgindo, a gente foi tirando o que já tinha. Já começou a gravar esse disco no começo deste ano. Como a gente grava aqui, a gravação e o processo vão acontecendo meio juntos, chamamos alguns amigos para participar do disco, embora até então a gente ainda se questionava sobre esse formato, como a gente funciona nos shows; se a gente ia ter uma banda, chamar mais um músico, dois, e nisso a gente já estava fazendo o disco.

A gente foi para a França e lá foi interessante porque chegamos à conclusão que, na verdade, a gente tem que fechar nessa dupla mesmo, nesse formato a dois, porque é mais viável, cabe dentro de um carro, porque eu quero tocar em Pindamonhangaba, em Paris e na Bélgica, e sei lá onde mais. A gente começou a criar novos jeitos de construção da música.

O Loungetude tinha muitos elementos, vários instrumentos, e a gente começou a pensar nesse trabalho como ele poderia ser preenchido, mas já sabendo que ele surge de uma concepção mais minimalista. Eu não toco instrumentos, estou começando agora a me aventurar por conta desse projeto. Até então não estávamos trabalhado com bateria, agora a gente está com uma bateria eletrônica, que a gente grava os ciclos e vai construindo a música ao vivo. Então a gente chegou a essa conclusão que vai ser mais esse formato a dois e quero sempre ter convidados, porque eu adoro.

A gente está agora terminando. Entraram duas músicas recentes, ainda tem que gravar essa parte, mas até o final deste ano eu quero fechar todas as vozes, e aí a gente vai num estúdio legal para gravar. Até então, aqui, a gente está gravando tudo que é em linha: guitarra, o pianinho, mas o violão e voz a gente vai gravar agora em dezembro e a ideia é lançar esse disco no ano que vem.

Bloga: Você pretende lançar disco mesmo, formato CD? Mas também em outros formatos?

Mariana: Sim, eu quero lançar na internet, mas eu adoro pensar nesse grafismo, nesse projeto...

Bloga: É uma coisa que falta nesse mundo digital; a arte você até pode baixar, mas não é a mesma coisa...

Mariana: Não é a mesma coisa.

Bloga: Você gosta de vinil? Tem ideia de botar em vinil também?

Mariana: Eu adoro vinil, eu não tenho vitrola, por isso eu acabo não procurando isso, mas acho que pode ser algo bem interessante, adoro essa ideia, o formato, a sonoridade.

Bloga: Estão resgatando, muita gente está lançando CD e vinil e iTunes...

Mariana: Pois é, eu não tenho toca-discos...

Bloga: Mas lá na Santa Ifigênia você acha... Eu tenho lá, não me desfiz de meus discos, porque muita coisa não saiu em CD, e acho bárbaro. E shows, como você está, apresentações, como está de agenda, você tem alguma coisa fechada para a gente já adiantar para a galera que vai ler?

Mariana: Sim, estou com dois já confirmados, que são agora no dia 15 de novembro, na Vila Madalena, na rua Fidalga, tem um espaço de yoga e ayurveda e a gente vai ocupar a garagem e a calçada e as vagas e eu quero montar o show lá... [ver aqui]
Bloga: Como chama a escola?

Mariana: EspaçoSoma. A gente está terminando de fechar DJ, vai ter DJ, comida, vai ser um evento com entrada gratuita, e o show. Ainda não fechei, mas em breve vai rolar também esse show no centro de São Paulo, no Paiçandu e no largo São Francisco. Até estou indo pra lá depois, tem uma reunião.

Bloga: Será ao ar livre?

Mariana: São essas praças, esses decks que estão no centro, da prefeitura, então também serão abertos, ao ar livre. Meus shows sempre acontecem à noite, porque eu preciso de escuro. E dia 22 de dezembro vai ter a festa no Circo no Beco, não sei se você conhece, na Vila Madalena, o Beco do Grafite, ali perto da Inácio Pereira da Rocha, e é um lugar que há anos toda segunda-feira tem um encontro do circo de rua de São Paulo, é bem conhecido, e aí tem a rua e aí tem o último encontro deles do ano e eu vou tocar lá, vai ser aberto também.

Bloga: Mais alguma coisa que você está planejando em termos de visual? As suas ilustrações você expõe, tem exposto?

Mariana: A gente fez uma exposição agora no meio do ano, em junho, a gente fez a turnê e eu fiz uma exposição em Lyon; a Vero também foi pra França e ficamos numa galeria por lá. O meu trabalho como ilustradora é superamplo. Daqui a duas semanas estou indo pra Curitiba fazer um evento, vamos fazer uma pintura na rua. Faço muita coisa gráfica. A gente voltou dessa exposição na França e está agora buscando lugares para expor. No começo do ano, em maio, a gente participou de um edital e pintou uma caixa d’água no Sesi de Mauá. Enfim,  nosso trabalho acaba acontecendo de muitas formas.
Com Veronica: pintando caixa d'água

Bloga: Pupillas é isso, então, você e a Verônica...

Mariana: Isso, Pupillas é uma dupla e a gente faz vários tipos de coisas, a gente se define como ilustradora e acaba fazendo o trabalho em várias áreas porque a gente faz ilustração de superfícies...

Bloga: Inclusive pele...

Mariana: Inclusive pele.

Serviço:

Próximas apresentações de Mariana Degani e Remi Chatain:

O que: Festa SomAmos: O evento conta com uma exposição da série fotografias “AUE – Amor, União e Espiritualidade”, da fotógrafa Débora Frida, e show de Mariana Degani
Onde: Espaço Soma Yoga & Ayurveda - Rua Fidalga, 373, Vila Mariana
Quando - 15 de novembro de 2014, às 19h30 (ou quando o sol se puser totalmente)
Quanto: Grátis

O que: Festa Circo no Beco
Onde: Beco do Grafite – Rua Belmiro Braga, 186, Vila Madalena
Quando: 22 de dezembro, à noite
Quanto: Grátis

Mariana Degani no Soundcloud: https://soundcloud.com/marianadegani

Ouça abaixo o áudio da entrevista: