O Barquinho Cultural

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domingo, 26 de janeiro de 2025

Rumo ao futuro

Grupo Rumo em 1983: Ciça, Luiz, Zecarlos, Akira, Ná, Gal, Paulo, Hélio, Geraldo e Pedro


Surgido em 1974, a maior parte dos integrantes alunos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), o Grupo Rumo propunha um jeito inovador de compor, cantar, arranjar, interpretar.

Meio canto falado às vezes, explorando sonoridades que davam valor tanto à prosódia quanto às possibilidades harmônicas dos instrumentos, o grupo logo se viu congregado - voluntária ou involuntariamente - ao que se denominou, no fim dos anos 1970, Vanguarda Paulista, da qual se identificavam (ou eram identificados) Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Premeditando o Breque, Língua de Trapo, entre outros, trupe que "acontecia" em shows concorridos no teatro Lira Paulistana, na Teodoro Sampaio, em Pinheiros.

Em 1981, o grupo lança, de forma independente, dois LPs: "Rumo" e "Rumo aos Antigos", este último relendo clássicos pouco lembrados da música brasileira dos anos 1920 e 1930, como Noel Rosa, Sinhô, Lamartino Babo.

Seguiram-se "Diletantismo" (1983), "Caprichoso" (1985), o infantil "Quero Passear" (1988), vencedor do Prêmio Sharp; a compilação "O Sumo do Rumo" (1989); "Rumo ao Vivo" (1991); "Sopa de Concha" (2010), com nova visita aos compositores do passado; e "Universo" (2019).

Em show no Sesc Vila Mariana neste 25 (aniversário de São Paulo) e 26 de janeiro, o Rumo apresentou, em 22 canções em hora e meia de espetáculo, um belo apanhado desse meio século de vida, já sem Ciça Tuccori, morta em 2003, e Hélio Ziskind, que segue carreira solo, e com o ingresso de Danilo Penteado, no piano.

Playlist 25/01/25 (música, compositor, disco original):

"Ah!" (Luiz Tatit) - Rumo (1981) "Paulista" (Akira Ueno, Pedro Mourão) - Universo (2019) "Pro Bem da Cidade" (Luiz Tatit) - Rumo aos Antigos (1981) "Esboço" (Luiz Tatit) - Rumo Ao Vivo (1991) "Ladeira da Memória" (Zecarlos Ribeiro) - Diletantismo (1983) "O Apito" (Zecarlos Ribeiro) - Caprichoso (1986) "Trem das Onze" (Adoniran Barbosa) - Rumo Ao Vivo (1991) "Trio de Efeitos" (Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik) - Rumo Ao Vivo (1991) "Esperança Ribeiro" (Zecarlos Ribeiro) - Caprichoso (1986) "Canção do Carro" (Woody Guthrie/versão: Pedro Mourão) - Quero Passear (1988) "A Pulga e a Daninha" (Pedro Mourão) - Rumo (1981) "Falta Alguma Coisa" (Zecarlos Ribeiro) - Diletantismo (1983) "Cheio de Saudade" (Mario Travassos de Araújo) "Único Legado" (Pedro Mourão) - Universo (2019) "Você Só... Mente" (Hélio Rosa, Noel Rosa) - Rumo Aos Antigos (1981) "Bem Baixinho" (Luiz Tatit) - Rumo (1981) "Felicidade" (Luiz Tatit) - Rumo Ao Vivo (1991) "Delírio, Meu!" (Luiz Tatit) - Caprichoso (1986) "Toque o Tambor" (Luiz Tatit) - Universo (2019) BIS "Carnaval do Geraldo" (Luiz Tatit) - Rumo (1981) "Essa É Pra Acabar" (Luiz Tatit) - Rumo ao Vivo (1991) Integrantes Luiz Tatit, voz e violão Ná Ozzetti, voz e percussão Akira Ueno, baixo, violão e percussão Paulo Tatit, voz, guitarra, violão e baixo Pedro Mourão, voz e violão Gal Oppido, bateria Zecarlos Ribeiro, voz e percussão Geraldo Leite, voz e percussão Danilo Penteado, piano



sábado, 14 de março de 2015

A música sem fronteiras da sergipana Héloa

Atriz, cantora, compositora, contadora de histórias (foto: Divulgação)
Essa bela morena de 26 anos, natural de Aracaju, está surpreendendo o Nordeste com seu primeiro trabalho, o EP “Solta”, lançado em 2013, e, quando esteve em terras bandeirantes, não passou despercebida. Sua música é igualmente surpreendente. Tem lá uma sonoridade contemporânea, guitarras potentes, uma eletrônica bem colocada, mas, de repente, a música pega um atalho e nos remete a uns tempos que ficaram registrados na memória de quem tem uns anos a mais que ela.

Ouço um órgão típico do rock setentão, aí entra uma guitarra com efeitos que os chamados bregas adoravam... Um trompete irrequieto. Outra mudança de caminho e lá estão ritmos latinos, jamaicanos, entram coisas do Norte, carimbó, sonoridades diversas que são harmonizadas perfeitamente, sem soar como aquelas misturebas sem noção que muitos fazem para parecer ecléticos. Aí você ouve a voz...

A voz de Héloa merece um parágrafo à parte. Afinadíssima, quente, sem arroubos de virtuosismo. Mas com alcances perfeitos. Ela navega com tranquilidade nos momentos de romantismo, quando se exige aquela tonalidade mais intimista; mas arrebenta nos lances mais agitados, sem perder a pose nem o fôlego. Uma menina que leva um forró tão na boa quanto o mais doido rock.

As letras das músicas de seu EP parecem um recado a... quem sabe... Ela diz que suas composições se inspiraram em fatos de sua vida, em amores e desamores. Mas se há bronca, ela é feita com delicadeza, com aquele tom de “quem perdeu foi você, playboy”. Justo. A fila vai andar, como diz em “Sai deste corpo” (que tem a participação de sua ídola Andrea Dias), que termina com umas risadas que, acredito, o infeliz que se identificar com a canção terá muita unha para roer.

“Entra na dividida” me lembra aquelas músicas de Diana, Nalva Aguiar, aquele orgãozinho tão típico da época, mas mesclado com uma guitarra distorcida modernosa. Palmas... Um luxo. Aí vem a frase falada em timbre de radinho de pilha. Pobre do cara. Nunca mais unir as meias.

“Nós dois” é um diálogo de um casal, também em rádio, na certa remetendo às radionovelas, das quais ela é fã – apesar de ter nascido muitos anos depois de essa modalidade de entretenimento sair do ar.

“Solta” começa com uma voz que lembra um pouco Vanessa da Mata, mas na segunda parte entra outra modalidade, mais ácida, na onda da letra. Que desamores essa menina andou vivendo? Solta porque ninguém a segura. “Me deixou? Agora segura... Não quero mais voltar... Ainda bem que foi assim”. Não tem como não se apaixonar...

Héloa Rocha é filha do músico e folclorista Jorge Ducci, que a incentivou a estudar canto aos 14
Héloa faz teatro desde os 17 anos (foto: Divulgação)
anos, mas acabou se formando em Artes Visuais e se dedicou ao teatro. Mas a música a chamou de volta e desde 2009 vem trilhando seu caminho, perseguindo uma linguagem própria. Apresentou-se no ano passado, com ótima  repercussão, na 13ª edição da Feira da Música de Fortaleza, um evento que busca dar visibilidade e viabilidade à cadeia musical do Brasil.

Atualmente, além de cantar, leva uma oficina de teatro para treinar a desinibição e melhorar a performance de quem tem que lidar com o público e ainda faz um trabalho de contação de histórias para crianças.

Nesta semana, seguia em turnê de dez dias por cinco cidades dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, em evento que faz parte do Circuito Cultural Banco do Nordeste e do projeto Arte Retirante, que leva shows de artistas nacionais para cidades do sertão nordestino.

No segundo semestre deste ano, entra com tudo na produção de seu CD. E, notícia das mais alvissareiras: fará a produção aqui em São Paulo, e com a promessa de nos brindar com algumas apresentações.

Na sexta-feira 13, depois de contar histórias a crianças em Sousa, na Paraíba, Héloa concedeu, por telefone, uma entrevista ao Blog por Bloga. Seguem trechos desse bate-papo:

Bloga: Conte um pouco sobre você, sua formação, sua vida...

Héloa: Sou formada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Sergipe e trabalho com teatro já há 13 anos, e tenho o trabalho paralelo em música, um trabalho autoral. Lancei o EP “Solta” em 2012 e estamos circulando. Já estivemos em São Paulo, pelo Nordeste, e no segundo semestre deste ano vamos parar para gravar o disco. Ao lado disso tenho esse trabalho com crianças, de contação de histórias, e tenho também um trabalho de oficinas de teatro, no qual trabalho com crianças e adultos, que é o Teatro Funcional, que trabalha a postura, um pouco de psicologia. Mas a música é o que tenho focado mais nesses últimos tempos, e tento conciliar com as outras atividades.
EP "Solta" é de 2012 (foto: Reprodução)


Bloga: Você tem formação em teatro. Como acabou entrando no meio musical, como cantora e compositora? Quem é seu pai?

Héloa - Meu pai é músico, Jorge Ducci, tem o projeto Sulanca, em Sergipe, que é uma banda que trabalha com o folclore sergipano, e minha formação tem muito a ver com ele. Comecei a estudar canto por influência dele, aos 14 anos, e também por conta de minha mãe, minha avó, todos muito ligados à música, todos lá em casa gostam muito de cantar, então a minha formação foi muito dentro de minha casa.

Bloga - O que você ouvia em sua infância, juventude?

Héloa - Ouvia muito Dalva de Oliveira, as cantoras do rádio com minha avó, sempre gostei muito de MPB, ouvia muito rock dos anos 70, e também outros ritmos regionais, porque sempre viajei muito com meu pai em seu trabalho com o folclore, além dos ritmos africanos, porque minha mãe é ialorixá, é do candomblé há mais de 15 anos, e os ritmos afro também influenciaram muito nosso projeto. Então é basicamente este mistura de ritmos regionais com os universais e faz essa referência do antigo, a garotada da década de 60 e também da década de 20, fazemos a referência das radionovelas.  No CD a gente talvez vá em outra vertente, explorar mais o amadurecimento que veio de nossa caminhada, mas dando continuidade ao que a gente já fez até agora.

Bloga - Você disse que ouve muito as novas cantoras. Quem você admira delas?

Héloa - Eu ouço muito, admiro muito a Andreia Dias. Quando comecei, eu a ouvia muito, e foi uma das primeiras cantoras com quem fiz amizade, foi uma grande inspiração para mim. A gente se conheceu, ela fez um show comigo em Aracaju. Gosto também da Céu, da Tulipa Ruiz, e essa nova MPB é uma das grandes influências para mim. E tenho trocado bastante figurinhas com elas e com os novos cantores e esses contatos todos servem de inspiração para o nosso trabalho.  

Bloga - Como é a cena musical em Sergipe, no Nordeste: há um público cativo para as novas experiências? Há espaços que valorizam, chamam para tocar?


Héloa - Nessa Feira da Música, que é um evento grande em Fortaleza, que foi agora em novembro, fomos selecionados por edital, foi um show bem bacana. Esta é a primeira vez que a gente faz uma turnê pelo Nordeste. Já fomos para São Paulo, logo depois de lançar o EP, e agora estamos nessa turnê no Nordeste. Acho que o cenário musical do Nordeste é bem rico, particularmente em Sergipe temos muitos artistas que já estão no cenário nacional, como a Coutto Orquestra, a The Baggios, que se apresentaram no projeto Prata da Casa , do Sesc Pompeia, e a gente está sempre em contato. Particularmente eu acho que, apesar de Sergipe ser o menor estado do Brasil, proporcionalmente tem uma gama de artistas interessante. E são bandas que fazem muita mistura. A Coutto mistura muitos ritmos sergipanos, a The Baggios, por exemplo, trabalha algumas histórias do interior do estado, e servem de inspiração. Em meu trabalho eu também trago isso, eu trago referências religiosas, como as festas de Santo Antônio, e percebo que nessa turnê pelo Nordeste as pessoas se identificam muito com esse tipo de acontecimento. E também há coisas que a gente traz e as pessoas vão ver por curiosidade, acabam conhecendo as novidades, o que é muito interessante fazer essa troca de culturas

Bloga - Qual é a ideia por trás de toda essa mistura dos ritmos tradicionais com os novos, tem bossa nova também, rock...

Héloa - A gente costuma dizer que é uma música sem fronteiras. Eu busco construir muito em cima de minha experiência de vida, do meu teatro, de minha família, essas referências são muito ligadas à minha construção pessoal, não é à toa que é um disco autobiográfico, que reflete histórias que eu vivi, problemas de amores, coisas que passaram na minha construção. Então esse primeiro EP é baseado muito na minha construção pessoal e mostra um pouco quem é Héloa. O CD já virá com todo esse amadurecimento, trará as vivências das turnês que a gente fez, já vem com outra cara. A gente busca não rotular nosso trabalho. No show a gente leva um repertório todo autoral, de 15 canções, outras que não estão no EP. A gente trabalha com muitos ritmos, como o forró, que é uma referência muito grande, e a gente mistura o forró com o reggae.

Com a nova banda, começa a gravar em agosto o 1º CD (foto: Divulgação) 

Bloga - E sua banda: quem são, o que cada um toca? É sua banda de apoio ou sua banda mesmo?

Héloa - Estamos juntos desde o ano passado, e é uma banda com quem tenho realmente me firmado, são cinco pessoas comigo, a formação é baixo, guitarra, bateria e teclados. Vinicius Bigjohn, que é o produtor e toca sanfona e teclados; Alexandre Marreta, na guitarra; Rodrigo Antônio, na bateria, e Iolanda Cristina, no baixo. É uma formação pequena para poder viajar e a gente usa um pouco de samplers, umas bases eletrônicas nos shows. Mas as canções nos shows a gente já mudou algumas coisas, fazemos releituras de nossas próprias músicas.

Bloga - Seu figurino é você que desenha? Qual é a inspiração para sua roupa, os adereços? Tem uma coisa bem folclórica, remete até a espiritualidade...

Héloa - Esse figurino a gente usou mais no lançamento do EP, no show. E a ideia era justamente me deixar mais solta e a cor branca é porque no show a gente fazia umas projeções, que tem a ver com a capa do disco, que também foi feita com projeções. O artista visual Bruno Sousa, que fez a capa, ouviu cada canção e a cada uma ele fez um mosaico de figuras, e essas figuras, essas montagens, foram projetadas no meu corpo, e aí o fotógrafo Arthur Soares registrou as imagens e foi para o encarte do disco. E a foto da capa, com turbante, flores, aqueles elementos todos, foi justamente para representar essa mistura, as referências que a gente tem no Nordeste, então eu quis trazer isso para a minha cabeça, e acaba também fazendo essa referência religiosa, e é também misturada, em algum momento remete ao candomblé, aos orixás, em outros a Santo Antônio, algo da mística católica, então não tem a ver com uma religião específica.

Espetáculo também visual (Foto: Melissa Warwick)

Bloga - Você já se apresentou em São Paulo, cantou com Otto, como foi aqui, como você sentiu a receptividade aqui na cidade?


Héloa - Essa apresentação com Otto foi muito através de nossos contatos, eu apresentei meu disco a ele e aí calhou de eu estar indo para São Paulo e ele me convidou para fazer uma participação em seu show, que para mim foi uma honra muito grande, porque eu sou fã de Otto desde criança, meu pai sempre ouvia muito ele, e ele sempre foi uma grande inspiração para mim. Então foi incrível essa participação, começamos uma amizade, a gente conversa. E a repercussão e a receptividade lá no show foram muito bacana, o público vibrou muito com essa coisa de ele estar abraçando mais uma artista do Nordeste, que ele e nós gostamos tanto. E foi ótimo também pelos contatos que fizemos aí, com a Tulipa, o Gustavo Ruiz, irmão dela, a gente tem conversado, falado sobre projetos, sobre produção, pois ele é um grande produtor. E fizemos uns shows em São Paulo, foi bem legal, tive a oportunidade de conhecer de perto alguns ícones, como o Carlos Miranda (produtor musical), uma pessoa que me acrescentou muito, o Gui Amabis, que me deu umas dicas para o trabalho, para o CD, que eu quero começar a produção no segundo semestre. Então esse primeiro momento em São Paulo foi muito bacana, para inclusive estreitar esses contatos, que são muito importantes para a gente, e agora no segundo semestre estou indo para aí, passar uma temporada para agilizar a produção do CD e fazer alguns shows também. No EP teve muita coisa autoral, e no CD já quero mesclar, colocar composições de Otto, de outros compositores de que eu gosto bastante, então vai ser um disco autoral, mas não só com músicas minhas, vamos também fazer algumas releituras.

Abaixo, alguns videoclipes da Héloa:


Com Otto, no Festival Cultura Livre de São Paulo




"Barquinho", faixa do EP "Solta"




Ouça o EP "Solta" no SoundCloud:




Acesse aqui o site oficial de Héloa:

Veja mais vídeos em seu canal no Youtube.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Catarina Dee Jah: Vem de Olinda a surpresa!

“Cata, cata, cata, cata, cata, Catarina / Eu bem que te falei pra não bulir com estricnina” (Amufinada)

Ela vem de Olinda. A surpresa. Frevo? Caboclinho? Não, mas sim! É isso, não há como não notar nas entrelinhas, entretons, algum sinal. Influência. Mas, só que não. A fonte dela é o mundo. Lusamérica latim em pó. Mangue beat de Chico Science e Mundo Livre S/A. É pop, mas também é coco, é cumbia, xote, reggae, e brega. Sim!

Ao ouvi-la pela primeira vez, na Festa da Shana, na Saravejo, a mistura bem misturada, as bases criativas, a postura... Senhora de si. Bradando contra o feminazi. Ela canta, aí faz a festa. Traz vinis (sim, em plena era i-tudo, ela vem com seus bolachões) de todo o Norte, todo o Nordeste, relembra Eliana Pittman e seu carimbó, sirimbó.

Traz de Olinda a surpresa. Pra nosso deleite, nós, paulistanos, cansados da mesmice, da mediana média que sem medida nos mede qual medíocres. Ela não. Traz alegria, essa alegria quente, regada a caldinho de codorna. Com cachaça. Mas não se presta a ser apenas mulher tira-gosto. Postura.
Catarina Dee Jah, ou MC Ririca, ou Riddin... Ela agora está de vez em São Paulo. Vem cavar seu espaço, que já o tem.

A agenda está boa. Apresenta-se agora três vezes no evento da Prefeitura de São Paulo Mês da Cultura Independente. Toca em outros points também. É ir ver, ouvir, dançar e pirar.
Catarina, somsual. Vulvas em fúria. Agora, take it easy. Se você a incomodar, ela manda você se ferrar e tomar no ...

Quer saber a biografia dela? Dê um Google, veja seu charmoso site. Lá tem o Mulher Cromaqui – seu primeiro trabalho (em sua definição, ‘um trocadilho, uma ironia com toda essa exaltação e frenesi às mulheres frutas, as aberrações do mundo onde tudo é manipulável e efêmero’) -  para baixar. Aqui, a entrevista que ela, carinhosamente, concedeu ao blog. Vamos conhecer um pouquinho de seu pensamento, de seus planos.

BLOG POR BLOGA - Você está se estabelecendo de vez em SP? Quais suas expectativas em relação à cidade?

CATARINA DEE JAH – Eu já conheço a cidade, desde 1998 que eu venho pra cá, uma cidade que eu sinto que as pessoas... a praia do paulista é a cultura, e eu trabalho com cultura, então eu sinto que há um feed back maravilhoso aqui e, além de tudo, uma valorização do trabalho. Se você vem focado em trabalhar de maneira honesta você se desenvolve. A cidade te dá essa oportunidade. Eu vim de uma cidade menor, uma cidade pequena, de muro baixo, onde o profissionalismo não fala tão alto, na verdade eu acho que as relações são mais importantes do que o profissionalismo, e o que eu gosto em São Paulo é que ele sempre me dá um choque, uma maturidade muito boa, eu dou uma crescida muito grande. Tem muitas oportunidades aqui, eu estou a fim disso neste momento.

BLOGA - O que pretende fazer aqui: mais festas, discotecando e cantando? Promover seu CD?

CATARINA – Eu lancei um disco independente (Mulher Cromaqui), e foi um disco que foi bem recebido, e eu acho bem louco porque os dados são bem díspares assim, um disco que teve 13 mil downloads nos primeiros seis meses, eu não avaliei ainda com o cara que agenciou o site para saber como é que está, mas foi um disco lançado totalmente independente e atingiu essa casa dos 13 mil downloads em seis meses, eu acho louvável, você, sem pagar uma estrutura de assessoria de imprensa e coisa e tal. E aí o que eu faço? Não estava conseguindo trabalhar lá em Pernambuco, porque é uma cidade que é distante desse eixo, e os festivais estão muito morgados, no Brasil os editais estão muito caretas, então eu resolvi vir pra cá e refazer esse começo que eu vivenciei, que era da Milícia dos Radicais Livres, que era uma milícia musical, músicos que tocam comigo, e é sempre um recomeço você readaptar as músicas, sair um pouco dessa zona de conforto. Além desse formato com a banda, eu estou com um formato digital, que é a MC Ririca, que é mais baile e bases eletrônicas, e tem o Riddin, que eu eu chamo de ‘Riddinculous’. São bases que eu produzi com amigos da Argentina, de alguns selos de lá, também são produzidos com um cara do Equador aqui de São Paulo, e algumas bases que eu reeditei com meu DJ, que ficou em Recife. Fora isso, tem também o trabalho de pesquisa musical, eu tenho um acervo de vinis, tenho discotecado aqui em algumas festas e também trabalho com MP3, eu estou  pra tudo, estou fazendo jardinagem... Só não sei bater laje (ela não falou, mas me mostrou: também desenha, faz ilustrações, um traço muito bom).

'Tem que haver mais amor e compreensão'


BLOGA - Como vê a cena independente atual? Você criticou em uma entrevista a “lenda urbana dos editais”, o investimento maciço em “arenas”, que chamou de retrocesso, a subutilização de espaços, só ocupados em época de carnaval... O artista tem que cavar seu próprio espaço? A coisa está muito “mainstream”?

CATARINA – Cara, dizem que a indústria das gravadoras está em ruína, mas eu acho que na verdade se apropriaram dessa revolução digital, se apropriaram de algumas coisas, de alguns canais de divulgação que a gente tem hoje em dia e as coisas não mudaram pouco. Os editais, que antigamente eram fomento, estão sustentando e sub-sustentando artistas que eram de gravadoras até então. E as pessoas que estão começando e que realmente têm um trabalho independente não têm muita vez. Fora que há uma nova MPB, não sei, que eu acho que são pessoas extremamente competentes, tocam bem, cantam bem, tem estrutura, mas que não emocionam, parece que fazem uma música no formato para tocar na Nova Brasil FM, e é uma rádio que de nova não tem nada, porque toca o quê? Música de 20, 30 anos atrás ou releituras dessas músicas. Então a gente ainda tem essa deficiência do rádio. E eu acho que em São Paulo, apesar disso, você tem muito acesso a investimentos da iniciativa privada, que é uma coisa que falta lá no Nordeste, e existe uma cena independente que consegue se sustentar também. Tem estúdios aqui que você pode ensaiar e tocar e tirar uma grana com a bilheteria. Tem casas que têm uma estrutura profissional; é só uma postura de você saber também criar uma estrutura profissional para lhe acompanhar, não abrir mão muitas vezes de um técnico de som, está entendendo? Ensaiar bem, ter bons músicos, parceiros. Tem a estrutura do Sesc, que é um grande diferencial aqui em São Paulo, a estrutura do Sesc em outras cidades é subutilizada, o único lugar que eu vejo que acontece isso no Brasil é aqui. Ao mesmo tempo, o Sesc de São Paulo fica com a arrecadação quase toda do Nordeste. A gente estar tocando aqui não é nenhum favor também.

BLOGA - O que quer dizer com “feminismo bem-humorado e passional”? O que quer dizer isso? Alguma observação a respeito do tom do movimento feminista?

CATARINA – Na verdade eu acho que tanto o feminismo como o machismo está numa crise de identidade imensa. Eu adoro regalia que o machismo me dá, por exemplo, o cara pagar a conta do motel, do jantar, abrir a porta, puxar a cadeira para eu sentar, eu acho o galanteio uma coisa maravilhosa, e isso é confundido com machismo. Ao mesmo tempo, as mulheres adoram gozar do direito de pagar menos pra entrar numa balada. Eu fiz uma festa em que homem entrava de graça até meia-noite, e foram pouquíssimos homens, porque falaram que ia só dar homem. Foi engraçado... Eu gosto de brincar com esses comportamentos. Eu não me identifico nem com o movimento feminista, que às vezes fica um ‘feminazi’ muito grande, parece que é uma raiva do homem, sabe, eu adoro os homens, adoro meu marido, meu filho, meu pai, e acho que há uma opressão também, acho que as mulheres têm também que baixar um pouco a guarda e entender seu coração, suas próprias necessidades, sua sensibilidade. Acho que não é essa onda de direitos iguais... Direito igual importa direito ao voto, à escolha do trabalho, à escolha profissional, do que vai estudar, várias escolhas, mas existem diferenças entre os homens e as mulheres, de sensibilidade e de condições físicas mesmo, que acho que têm que ser respeitadas, tem que ter equidade, na verdade, acho que a gente está caminhando pra isso, mas acho que ambas as partes têm que relaxar mais, a gente está passando por uma era meio extrema e acho que tem que haver mais amor e compreensão. As pessoas têm que aprender a ceder mais, ambas as partes.

BLOGA - Vc tem opiniões firmes, posicionamentos. Integrou-se ao movimento Ocupação Estelitahoje (16/09) comentou sobre essa desocupação de um prédio na praça da República, criticou a nossa era, altamente empresarial, perda de valores. Como vê o atual momento político? Estamos a poucos dias da eleição e Pernambuco está no centro, com a morte de Eduardo Campos. Você acredita em transformações por meio do voto? Como se define politicamente?

CATARINA – Eu acho que, por exemplo, hoje a gente tem visto muito essa mistura de religião com política, essa luta pelo Estado laico. Acho que tanto na religião como na política você tem que ter coerência, você tem que olhar para seu próprio umbigo, não adianta você fazer discursos e não ter a prática. E existem práticas que a gente tem que exercer diariamente, isso é ser cidadão. O problema é que o povo brasileiro anda revoltado porque a gente tem uma carga onerosa imensa nas nossas costas e os serviços são muito ruins, principalmente no Nordeste, que a gente vê que o custo de vida está muito alto e os serviços estão muito ruins. E isso vai gerando revolta, realmente. Eu acho que a gente está passando por um momento político muito complicado, mas acho que a política tem que ser exercida além das urnas. O povo está na rua exigindo seus direitos, essas ocupações têm que ser melhor assistidas. Tem um monte de gente entediada aí que está acabando de se formar em Ciências Sociais, tem que estar engajada nessa história toda. A gente está vivendo um momento muito punk também, além do ‘lobby’, por exemplo, a gente vê a história do Brasil, o ‘lobby’ que teve dos Estados Unidos em cima da ditadura e da indústria do petróleo, que fodeu com todo nosso sistema ferroviário, a gente está vivenciando agora um caos, que é produto disso tudo. As cidades criaram nós, os carros ainda estão de maneira defasadíssima sendo exaltados, essa indústria automobilística, que eu acho que é uma coisa que já devia ser refreada... Existem consequências? Existem, mas é a nova ordem, tem que investir muito em mobilidade, em mobilidade pública... A questão da especulação imobiliária é terrível também. Eu vejo isso tanto em Olinda, uma cidade que é um centro histórico, onde eu vivo, a cidade está fantasmagórica, porque as pessoas que eram realmente colonos, que viviam lá, estão abrindo mão de estar nas casas porque não têm grana nem acesso a crédito barateado e facilitado para restaurar suas casas da maneira correta, então se torna uma vida onerosa, precária, elas estão vendendo essas casas para mecenas que as utilizam simplesmente no carnaval para camarote de empresas e a gente não vê mais uma vida espontânea como se tinha na cidade da maneira que existia mesmo, de pessoas que vivem lá e que são agitadores culturais, que vivem a boemia da cidade, que utilizavam os serviços da cidade. A gente vê isso em micro e macroescala. O problema do Estelita foi porque eles sucatearam a área ferroviária de lá, existem aqueles galpões que são mausoléus da indústria da monocultura do açúcar, que ainda perdura... O boia-fria até pouco tempo ganhava 13 reais por uma tonelada e meia de cana. Ao mesmo tempo ele tem força e reação para fazer o maracatu rural, tomar azougue, que é a cachaça com pólvora... Como dizia  Glauber Rocha: ‘ a cultura popular é o grito primal de resistência de um povo’. E esse leilão lá foi fraudulento, eles querem construir um paredão de prédios na beira-rio do canal. Após todo esse clamor e esse grito da população, dos ativistas, o projeto se readaptou, a gente ainda não está satisfeita, porque é praticamente uma Dubai em Recife. É uma pena que a elite que detém o poder e o dinheiro no Brasil seja tão cafona e tão colonizada, que imita modelos ruins e fadados à falência. A gente ainda vivencia a questão do cabresto, do crivo à educação, à saúde, ao povo, e isso atravanca, as pessoas se tornam massa de manobra ainda para votar no cabresto, e isso reverbera em tudo, até na adoração que o oprimido tem ao opressor, como falava Paulo Freire. Então a gente precisa mudar as coisas de maneira muito brusca em atitudes realmente assim de foco e de informação. Parem de ler tanto a internet, tanto a Wikipedia, e vão ler livros, porque acalma, informa, está entendendo? E faz dormir gostoso.
'Parem de ler tanto a internet, a Wikipedia; leiam livros'

BLOGA - Qual sua agenda? Tem as apresentações do Mês da Cultura Independente da Prefeitura, a festa no Pratododia, e que mais? O que SP pode esperar de você?

CATARINA – Eu cheguei agora, ontem dia 15, aqui, e já estou ensaiando com a banda nova, esta semana será toda de ensaios Dia 18 vou tocar no boteco Pratododia, uma honra tocar naquele lugar que eu gostei muito, é um respeito ao DJ de vinil, vai ser com meu companheiro de pesquisa Maurício Fleury, que eu tenho a maior admiração por ele; na sexta (19) eu tenho o Terminal Nova Cachoeirinha, que é o formato “MC Ririca”, junto com o DJ Ad Ferrera, que é outro parceiro; na mesma noite eu toco no Zé Presidente, participo como MC Ririca também dividindo o palco com a Camila Garófalo; no sábado (20) eu toco na Festa Mel, que é na Dom José Gaspar, também por esse festival de cultura independente; nesse mesmo dia tem o show da Academia da Berlinda, no Belenzinho, talvez eu dê uma pintada lá pra tocar com os meninos;  semana que vem, dia 27, vai ter também no Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro, com Maria Alcina e Lurdes da Luz, vai ser um show bem especial pra mim, e tem mais data em outubro, muita coisa configurando na agenda, já está batendo um monte de coisa. É isso, estou superfeliz de estar me desenrolando nesta cidade.

BLOGA – Aí você fica atualizando no site para as pessoas acompanharem. E essa banda é toda lá de Olinda?


Catarina e os novos Radicais Livres: Faraco, Índio, Lelinho e Carranca

CATARINA – É gente de toda parte. O Faraco (Felipe Faraco, teclados) é de Porto Alegre, Lelinho (Lello Bezerra, guitarra) é de Caruaru, Carranca (Hugo Carranca, bateria), é das Olinda, e Índio (David Índio, baixo) é de São José do Rio Preto, onde eu toquei, no Sesc.

SERVIÇO:

Festa El Delírio -  Boteco Pratododia – Rua Barra Funda, 34, Barra Funda. Quinta, 18/09, a partir de 21h

TerminalNova Cachoeirinha – Sexta, 19/09, a partir de 17h. Grátis

Espaço Zé Presidente – Rua Cardeal Arcoverde, 1.545, Vila Madalena. Sexta, 19/09, a partir de 21h

FestaMel – Edição especial Ilha das Flores – Praça Dom José Gaspar, República. Sábado, 20/09, a partir das 19h. Grátis

Academia da Berlinda -  Sesc Belenzinho – Rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho. Sábado, 20/09, a partir das 20h

CentroCultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso. Com Lurdez da Luz e Maria Alcina. Sábado, 27/09, a partir de 19h. Grátis

Ouça aqui o áudio da entrevista (com direito a palhinha de 'Peba na Pimenta'):
 



Ouçam e vejam seu mais recente vídeo, "Vem que vem":