O Barquinho Cultural

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Envelhecer...


Vilma, Carlos, Sônia
Hoje (16/09) é aniversário de minha irmã caçula, Sônia. 64 anos. Idade que completei ano passado. A irmã mais velha, Vilma, não está mais entre nós, e sua ausência dói muito, principalmente nestas datas em que quase sempre a gente se reunia para uma comemoração com muita comida, risada, dança... Ela teria completado 67 anos em 19 de agosto. Ou seja: nós três sexagenários, a caminho dos 70.

Mas nunca nos vimos como velhinhos; sempre mantivemos um tanto da infância e juventude em nós quando nos encontrávamos, coisa proporcionada pelo festival de lembranças que essas reuniões inevitavelmente traziam. Sem a "mana véia", o peso da idade cai de pronto nos ombros e as tais recordações deixam de ser motivo de alegria para se revestir de nostalgia.

Desde que minha irmã se foi, em julho de 2026, uma sombra se formou diante de meus pensamentos, turvando minha visão e encurtando o panorama de futuro que costumava traçar. Sim, tenho uma menina de dez anos para garantir seu futuro, e planos não me faltavam para que sua trajetória fosse tão bem-sucedida quanto à da irmã, minha filha mais velha. Por bem-sucedida não me refiro a sucesso material somente, mas às condições para que viva sem dificuldades e com prazer e alegria.

Agora, temo que minhas forças, energia e disposição venham a se esvair e eu não seja mais capaz de prover o necessário a ela. Ainda tenho, sim, gana de trabalhar, de preencher o dia com afazeres que não me tornem um inútil, de resolver as pendengas que toda hora se apresentam, e ainda ter um sorriso no rosto para não deixar a vida dos que me são próximos pior.

Mas aos poucos os limites vão se apresentando. Os físicos, claro. Mas também os de não conseguir mais me integrar aos tempos de hoje. É difícil compreender, com meus olhos de Século XX, o que esse mundo complexo apresenta. Se tivesse, por exemplo, hibernado quando completei 18 anos e acordasse agora, ia me sentir num cenário de ficção científica.

É isso. A natureza é sábia. A gente se extingue quando o ambiente deixa de nos ser favorável. Em tempos de IA, que importância têm a experiência, o conhecimento, os saberes dos antigos? O próprio organismo se encarrega de aos poucos ir desacelerando; a mente, afetada por frustrações, decepções, em muitos vai se apagando, se mergulhando em seu mundo interior, uma vez que ao ambiente externo não mais pertencemos... 

"And in the end
The love you take
Is equal to
The love you make"

(Lennon/McCartney)

"E, no fim,
o amor que você recebe
é igual ao amor
que você dá."