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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Os 25 anos de "A.I. - Inteligência Artificial": O que Spielberg e Kubrick acertaram sobre o futuro?

Haley Joel Osment no filme IA Inteligencia Artificial de Steven Spielberg
Q
uem se lembra de "Inteligência Artificial" (AI), longa dirigido por Steven Spielberg em 2001, a partir de roteiro de Stanley Kubrick, baseado no conto "Supertoys Last All Summer Long" (1969), de Brian Aldiss? À época, o termo Inteligência Artificial, apesar de já circular nos meios científicos desde os anos 1950, parecia coisa de ficção.


Naqueles tempos, Spielberg (de quem já escrevi aqui)e Kubrick (mencionado de passagem aqui) imaginavam que o grande salto da IA seria fazer máquinas que se comportassem como seres humanos. No longa, David (Haley Joel Osment), um menino-robô programado para amar incondicionalmente sua mãe, Frances O'Connor, é adotado por um casal cujo filho biológico está gravemente doente. Quando o menino se recupera, porém, David passa a ser visto como uma ameaça e é abandonado.


Da ficção dos anos 2000 à IA Generativa de hoje


Vinte e cinco anos depois, aconteceu algo um pouco diferente. A IA Generativa que temos hoje consegue conversar, escrever, traduzir, programar, analisar imagens, produzir música e raciocinar sobre problemas complexos. Mas está longe daquilo que é central para David: consciência, sentimentos ou desejo próprio.


Ironicamente, o filme "AI" foi lançado no ano de 2001, que remete ao título de "2001 - Uma Odisseia no Espaço", que Kubrick produziu em 1968, a partir de livro de Arthur C. Clarke, e revolucionou o mundo da ficção científica. Não se sabe se isso foi proposital ou apenas coincidência.


A passagem do bastão: De Kubrick para Spielberg


Kubrick não quis filmar "AI", apesar de ter adquirido os direitos do conto nos anos 1980, porque a tecnologia da época não permitiria que pusesse suas ideias nas telas. Com o lançamento de "Jurassic Park", de Spielberg, em 1993, Kubrick considerou que a computação gráfica havia atingido o nível adequado às suas intenções.


Mas, em vez de ele próprio rodar, ofereceu a Spielberg, porque acreditava que o colega iria imprimir o tom de humanidade que achava necessário ao robô David, dado o tratamento que o diretor imprimira a "ET - O Extraterrestre", de 1982.


Kubrick, diretor de clássicos como "Dr. Fantástico" (1964), "Laranja Mecânica" (1971), "O Iluminado" (1980) e "Nascido para Matar" (1987), entre outros, considerava a história sentimental e humanista demais para o seu estilo caracteristicamente frio, analítico e filosófico.


Em 1995, Spielberg não aceitou dirigir a obra, envolvido que estava em outros projetos. Após a morte de Kubrick, em 1999, a família do diretor e o produtor Jan Harlan procuraram Spielberg para que ele concretizasse o projeto. Spielberg aceitou e dirigiu o longa em 2001 usando o tratamento de roteiro, os esboços conceituais e as anotações deixadas por Kubrick, dedicando a obra à sua memória.


Aquecimento global e o alerta climático do filme


O longa ainda trata de um assunto que hoje está cada vez mais na ordem do dia: o aquecimento global. No enredo de "IA",  a trama se passa no Século XXII (logo ali), quando o fenômeno climático provoca aumento do nível do mar, inundando cidades costeiras e tornando a vida mais difícil. Assim, nações mais desenvolvidas criaram robôs humanóides (Mecha) para desempenhar vários papéis na sociedade.


Para quem ainda não viu, está na Netflix. Quem já viu, vale rever!


(Obs.: Algumas informações deste texto foram obtidas com ajuda da IA, mas o coração dele é meu...rs)


Assista o trailer clicando aqui.


domingo, 22 de junho de 2025

A solidão é fera



 "Vitória" (Andrucha Waddington), no GloboPlay, e "A Baleia" (Darren Aronofsky), na Netflix, a que assisti neste feriado, são, à primeira vista, filmes distintos. Mas, para mim, o que os conecta é que tratam de pessoas solitárias, às voltas com seus fantasmas e traumas com relação à sua descendência.

No primeiro, Fernanda Montenegro, do alto de seus 95 anos, dá um show de interpretação, como não podia ser diferente, vivendo a história real de uma mulher que se arriscou para fazer as autoridades cumprirem seu dever.

No segundo, o galã Brendan Fraser, vencedor do Oscar®  de melhor ator em 2023 por essa atuação, sentindo a proximidade da morte, busca se redimir de erros do passado, e, nesse processo, conclui que "as pessoas são incríveis" (talvez até ele...).

Apesar de o personagem Charlie pesar mais de 300 quilos, a Baleia do título não se refere à sua obesidade mórbida, mas ao clássico da literatura norte-americana "Moby Dick", de Herman Melville (1851) - e a revelação disso é um dos pontos altos do filme.

São filmes que abordam a solidão, a procura pelo sossego de estar bem consigo mesmo, mas que a necessidade de mexer algo no tabuleiro social e existencial leva a mudanças radicais e imprevistas.

Também revi "Tubarão" (Steven Spielberg), no Telecine, para comemorar os 50 anos de seu lançamento.

Um filme que impactou significativamente o conceito de cinema para multidões, inovou a linguagem e a arquitetura do suspense.

Nele, temos um tubarão-branco solitário que surge na fictícia cidade balneária de Amity Island, na costa de Nova York.

Após devorar a primeira banhista, acende o alerta no xerife Brody (Roy Scheider), um sujeito da cidade grande que não gosta de água nem de barco...

Mas que acaba sucumbindo à pressão do prefeito Vaughn (Murray Hamilton), temeroso da perda de receita do turismo com a interdição da praia por segurança.

Após mais uma morte, desta vez de uma criança, a comunidade se une no afã de capturar o bicho e receber a recompensa de 3 mil dólares.

O xerife, solitário em suas apreensões, chama um especialista, Hooper (Richard Dreyfuss), que consegue convencer todos de que a missão não será moleza.

Aí é que entra o pescador, ou melhor, caçador de tubarões Quint (Robert Shaw), que, por 10 mil dólares, uma caixa de conhaque e uma TV em cores (não é piada!) promete trazer o monstro esticado como sardinha...

Só que o veterano quer enfrentar a fera sozinho, no que é desencorajado pelo delegado e pelo acadêmico.

E lá vão os 3 mar adentro, a bordo do Orca (baleia predadora natural dos tubarões... olha a cetáceo aí de novo), exterminar a ameaçadora criatura de dentes e mandíbula (daí a opção do diretor por 'Jaws' no título em vez de 'Shark').

Enfim: 3 filmes em princípio tão díspares, mas que trazem em suas entrelinhas a comovente e divina comédia humana, onde nada é eterno.