Em 1990, eu trabalhava no Diário Popular - o vlheo Dipo -, como revisor. Lá conheci o Belo, um ex-seminarista, baiano, muito inteligente e desencanado. Homossexual assumido, tivemos uma interação intelectual muito interessante. Ele mais vivido que eu, então nem chegado aos 30, e ele já pelos 50.
Uma noite, depois do expediente, fomos lanchar no famoso bar Estadão, em frente ao jornal. Aí esticamos para o bar A Gruta, ali do lado. Após muitas brejas, eu sem condições de ir para casa em cima da moto que então pilotava, deixei-a no jornal e fomos ao apartamento dele, no vale do Anhangabaú, um muquifo decrépito que em nada combinava com a imensidão do seu cérebro.
Lá, Belo acendeu um beque e compartilhei com um pouco de medo, pois minhas experiências com a erva nunca foram memoráveis (só no mau sentido).
Aí ele colocou na vitrola esse derradeiro disco de Cazuza... E... Sob efeito de tanta cevada e depois do fumacê, essa "Bruma" (Cazuza e Arnaldo Brandão) me soou como a canção do abismo, do fim do mundo, e do paraíso, paradoxalmente...
Claro que Belo quis mais do que ouvir música, mas não estava no clima, nem era o que eu queria. Mas aquela noite me deixou menos ingênuo.
Cazuza morreria pouco depois. E Belo, soube anos depois, também pereceria vítima da Sida..
