O Barquinho Cultural

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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Três Pontas



A cidade se desenha do cume do morro, colorida e organizadinha, com seus telhados bonitos e ruas estreitas, muitas calçadas de pedras antigas. Desço por uma alameda ladeada de palmeiras e passo pelo pequeno sambódromo. A cidade transpira música. Contorno várias igrejas e sigo por um córrego seco, mas absolutamente limpo. Aliás, a cidade é limpa. Em uma volta rápida, percebo uma tranquilidade, uma paz, um astral que me fazem falta nas cidades em que moro e trabalho. Passo em frente à casa em que morou Milton. Em frente à praça Travessia. Tem placa e tudo. A cidade cultua seu filho ilustre. Aliás, seus, porque ainda tem Wagner Tiso. Mais tarde, conheço a cidade do alto, e vejo o morro com três pontas que foi estilizado no disco Geraes. E desse altiplano a cidade é ainda mais calma. O desenho regular de suas ruas, suas casas bem cuidadas, tudo isso me dá uma nostalgia de minha cidade de muitos anos atrás. Isabela me diz que a cidade tem seus problemas e deficiências, como todas. Uma delas é não ter um cinema. Quem sabe depois do festival que em setembro homenageará os dois compositores que a puseram no mundo isso não se resolva? Conheço pessoas de muito boas cabeças, antenadas e muito musicais. A cidade respira o Festival Música do Mundo, vi no pouco que me movimentei nela e nas poucas pessoas com quem estive um frenesi por esse evento. Não podia ser diferente mesmo. Hospedo-me em uma fazenda de café, inativa, que remete minha memória aos meus pais, que foram trabalhadores em fazendas assim, como lavradores, meeiros, trabalhavam muito, sofrendo todas as intempéries, como geada, calor, chuva... Mas o aspecto da fazenda é bucólico. Muitas árvores, muito passarinho. A casa grande é um espetáculo à parte, com móveis antigos, bonitos. Assim como a casa de um rapaz que conheci, que era um galpão de café que ele, Beto, transformou em casa. E que casa! Enorme, funcional, bem planejada em seus múltiplos espaços tanto interno quanto extern0. Uma casa impensável na minha cidade, a não ser que seu dono tenha muito dinheiro. Hotel, fazenda, cidade. Três Pontas deixou em mim uma muito boa impressão. Talvez seja por isso que Milton tenha se tornado o artista que é. Inspiração com certeza não faltou.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Deliciosamente romântico

O show de Roberto Carlos em São Paulo, que eu assisti na sexta, 21, foi tudo o que se esperava dele, mas por incrível foi sensacional. Não sei se foi o fato de ser a primeira vez que vejo o Rei ao vivo, ou pelo grande profissionalismo e carisma do artista, o fato é que me emocionei verdadeiramente neste espetáculo no ginásio do Ibirapuera, lotado com mais de 9 mil fãs. Não vou descrever como foi o roteiro, as músicas tocadas, pois isso está em qualquer jornal, e o objetivo desse blog é refletir a vida a partir dos eventos dos quais tomo parte. Para começar, o som me surpreendeu, pois imaginava que aquele ginásio não teria acústica boa, mas estava impecável. E o cenário também estava encantador. Fui envolvido em uma atmosfera romântica que não deu para ignorar. E a presença de Roberto é também envolvente. Ele fala com seu público de uma maneira que ele quer ouvir. Apesar de sabermos que foram falas decoradas, talvez cuidadosamente elaboradas, o impacto delas na platéia é coisa que se vê em poucos espetáculos. Bem, não é à toa que ele está aí há 50 anos, com seus baixos, seus altos, mas sempre em evidência. Tocou músicas representativas de cada época sua, mas com uma leitura homogênea, de modo que as músicas da Jovem Guarda ficaram parecendo como se compostas e lançadas nos anos 80 ou 90. Mas ficou bom. A orquestra foi acrescida de cordas da Osesp, muito chique, e ele simpático e falante como todos gostam que ele seja, e eu tenho certeza de que ele é honesto em sua relação com seus fãs. Falar neles, a platéia é um show à parte: senhoras de todas as idades, gritando "Roberto eu te amo" como se adolescentes fossem, correndo sem se preocupar com as limitações atrás de uma das rosas beijadas por ele ao final do show. Achei muito engraçado. Sabia de tudo isso, mas precisava ver, tinha que ver um show do Roberto, afinal, é um cara que é artista há mais tempo que eu vivo. E que me remete a muitas épocas de minha vida. Não posso negar que cada grande sucesso do Roberto suscita uma pequena recordação de algo na minha vida. Na Jovem Guarda, eu era muito pequeno, mas sentia perfeitamente o clima e ao crescer um pouco passei a curtir muito aqueles cabeludos cantando naquelo ritmo alucinante. Depois que Roberto deixou a JG, foi a época em que meu pai comprou a discoteca. E aí passei a acompanhar sua discografia, pois todo fim de ano essa era uma compra obrigatória. Curti o disco de 1970 e o de 1971. Depois os outros fui gostando de uma música ou outra, até rarear o trabalho que me agradasse. De qualquer forma seu romantismo dos anos iniciais pós-JG puseram no imaginário muitas canções que a gente pode não saber de cor, mas com certeza lembra assim que ouve os primeiros acordes. Uma coisa curiosa: detestei quando ele começou a homenagear mulher de óculos, gordinha e tal. Mas sabe que no show Mulher Pequena saiu muito legal, acompanhada do Caminhoneiro, igualmente tocante. É, Roberto sabe fazer as coisas... Isso de uma certa maneira redime uma falha grave de Roberto. Quando eu era garotinho, todo 28 de julho era aniversário de São Caetano, onde eu morava, e a Prefeitura promovia um grande show, como músicos, palhaços, aqualoucos, e sempre vinha um pessoal da JG. E todo ano esperávamos que RC aparecesse. Mas ele nunca veio, frustrando o sonho de toda uma cidade e de um menino fã em particular. Sem graça, meu pai se desculpava: deve ter outros compromissos, ano que vem ele vem. Chega o ano seguinte, e ele não vinha. Não chegava a chorar, porque ainda não tinha essa consciência de fã, que fui desenvolver só poucos anos depois com os Beatles. Mas ficava decepcionado, pois, como todo mundo, queria ver o Rei de perto. E isso agora se deu. Apesar de ficar na tal cadeira de visão parcial. Deu para ver o cara o tempo todo, mas de costas e com alguns praticáveis na frente, mas não muito longe, mas não posso dizer que não o vi de perto. E que o menino finalmente matou sua vontade. E se fartou. (As fotos eu preciso recuperar, pois minha máquina teve um acidente; se não conseguir, posto as de minha filha.)

domingo, 9 de agosto de 2009

Samba na pick-up, DJ

Na sexta-feira, 07/08, vi o show de Germano Mathias (esq.), sambista paulista, cantando o repertório de Gordurinha (dir.), compositor baiano batizado Waldeck Artur de Macedo, radicado no Rio, onde atuou em diversas rádios. Ele é o autor de pelo menos três músicas razoavelmente conhecidas: Súplica Cearense, Chiclete com Banana e Vendedor de Caranguejo - estas duas últimas gravadas por Gilberto Gil e a primeira por Luiz Gonzaga e agora também na voz de O Rappa. Foi um show muito engraçado, o Germano tem essa característica de zoar com todo mundo e com ele mesmo, e a homenagem que ele faz a Gordurinha foi bastante oportuna. As músicas desse baiano morto há 40 anos são adequadas ao jeito malandro de cantar e de tirar um sarro do Germano. Estava acompanhado de uma quinteto bem competente, com percussão, violão, cavaquinho e sopro. Tirando as três músicas citadas, eu não conhecia nenhuma outra, mas a platéia - lotada, para minha surpresa - sabia muitas de cor. Isso me deixou muito animado, por ver que a memória ainda não está apagada.

No sábado, fui ver um espetáculo já bem diferente. Assisti ao show do BossaCucaNova, que estava comemorando 10 anos e lançando um DVD. O show teve participação de Kátia B, a atriz bailarina, compositora e cantora (segundo o folder) Kátia Bronstein, que mistura trip hop a bossa nova, além de sons judaicos e mantras. (No domingo a participação seria de Wilson Simoninha.) Já a proposta do BossaCucaNova é pegar canções da música popular brasileira, muito de bosssa nova, e dar-lhes um verniz contemporâneo, adicionando ritmos e sons eletrônicos que dão um resultado muito interessante. Gostei, pois levantou possibilidades que essas canções escondiam e que talvez, pelo purismo, não se enxergava. Claro que é um som afeito para as pistas, mas se a galera começar a dançar Tom Jobim e Carlos Lyra nas baladas, isso é muito bom.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

De cigarro em cigarro


Vai ser engraçado observar os pobres fumantes se amontoando nas calçadas para dar suas pitadas. A realidade a partir de hoje, 7, em São Paulo será esta. Proibição total de fumo em locais fechados - exceto a casa e o carro do cidadão e outros locais específicos. Eu concordo com essa determinação. E não é por ser ex-fumante. É por entender mesmo que quem não fuma tem todo o direito de não ficar exposto à fumaça de outros. Quando eu fumava, era possível dar as tragadas em praticamente todos os lugares, menos em ônibus, cinemas e teatros. A primeira redação de jornal em que trabalhei, no Estadão, tinha muitos fumantes, e a névoa que se formava era densa o suficiente para se tocar com as mãos. Aí em seguida começaram a criar os fumódromos. Para mim foi bom, pois foi o incômodo de ir a esse local, enquanto o serviço ia acumulando, que me levou a largar o vício. Tomara que muitos façam o mesmo ao perceber o chato que é ir até sabe-se lá onde para fazer algo que, em princípio, deveria dar prazer. A partir do momento que se percebe o transtorno que é, deixa de ser prazeroso, e se percebe que não passa de um vício, e dos mais agressivos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Pura emoção



A voz que me emocionou fez novamente meus sentimentos estremecerem. Monica Salmaso, desta vez acompanhada do quinteto de clarinetistas Sujeito a Guincho, apresentou-se no Sesc Vila Mariana, onde a vi sexta-feira 31 de julho. Conheci essa cantora de voz singular acompanhada do grupo Pau Brasil, cantando músicas do Chico, que gerou o CD Noites de Gala, Samba na Rua. (Obs. Conforme esclarecimentos de meu colega Eduardo, foi o disco que gerou o show, e não o contrário, como escrevi. Valeu, Edu.) Disco esse que comprei agora nesse novo show e que me fez relembrar as emoções daquela noite, especialmente com sua interpretação de Beatriz, maravilhosa. Nesse show com o Sujeito a Guincho, o repertório foi mais diversificado, indo de Gordurinha a Brahms, de Ataulfo Alves a Hermeto Paschoal. E os arranjos de clarinete são a coisa mais surpreendente que vi nos últimos tempos. Nunca imaginei que pudesse haver. E a voz de Monica sobre esses instrumentos de som tão doce forma um conjunto que, como disse, não dá para não emocionar. Fora isso, o grupo tem um bom humor que torna a apresentação mais espetacular ainda. Eles brincam com os instrumentos, improvisam, desmontam os clarinetes, criam sons, onomatopéias, enfim, tornam a apresentação uma aventura ao mesmo tempo rica em sonoridade e em aprendizado, coisa que é muito importante em um povo que é tão musical. O importante nesse show - além de todas as outras importâncias - é que cantora e instrumentistas estão ali para reverenciar a boa música, a arte maior; não se percebe neles um ranço de busca por "espaço" que se vê em tantas caras novas espalhadas pela cena atual. Eles querem fazer boa música, e querem fazer o seu melhor. E os beneficiados somos nós, ouvintes, extasiados com o que podemos chamar sem medo de nos equivocar de perfeição.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Dois filhos do Brasil


Fui ver dois documentários sexta-feira, 24/07. Um sobre Patativa do Assaré e outro abordando Mestre Verequete. O primeiro a passar foi "Chama Verequete," sobre o Rei do Carimbó lá na Ilha de Marajó, no Pará., dirigido por Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira. Batizado Augusto Gomes Rodrigues, Verequete é uma das maiores expressões desse ritmo creio que tão pouco conhecido no Sul/Sudeste. Lembro que uma vez a Eliana Pittman cantou alguma coisa de carimbó e fez até algum sucesso. Não sei se a Fafá de Belém divulgou o ritmo, mas a banda Calypso me parece que sim, antes de se render ao que mais vende. É um ritmo bem contagiante, acompanhado de instrumentos típicos, como um tambor específico para o carimbó. O curta, "Chama Verequete", é importante para difundir esse ritmo tão brasileiro e um de seus maiores mestres.

Já o longa que conta a vida do poeta cearense Patativa do Assaré joga luzes sobre uma personalidade que tem a dimensão de um mito. "Patativa do Assaré, ave poesia", dirigido por Rosemberg Cariry, foi feito em homenagem ao centenário de nascimento de Antonio Gonçalves da Silva, que ganhou esse nome por cantar semelhante ao passarinho e por causa da cidade em que nasceu, na região do Cariri. Joga os holofotes sobre um personagem de tamanha importância à cultura nordestina e brasileira. Eu confesso que apenas conhecia Patativa por conta das canções "A Triste Partida", gravada por Luiz Gonzaga, um épico sobre os retirantes nordestinos, e "Vaca Estrela e Boi Fubá", levada ao vinil por Fagner e Pena Branca e Xavantinho (que eu saiba), bela canção a respeito da vida pastoril. No filme dá para se conhecer aspectos da vida desse cearense que permite chamá-lo de o verdadeiro artista popular. Cego de um olho logo cedo, com alfabetização irregular (só estudou seis meses), Patativa se autoeducou, aprendendo a ler e a ampliar o vocabulário por conta própria. E sempre viveu em sua roça, com sua companheira de quase 60 anos e seus nove filhos. É um filme que comove e faz a gente questionar: o que é realmente popular? Esses que se dizem porta-voz do povo sem sofrer suas agruras, bem, há de se desconfiar. Patativa, uma grande surpresa.

Ver esses filmes foi possível graças à iniciativa de alunos dos cursos de Cinema e de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, aqui em São Bernardo. Esse pessoal tem projeto de montar no campus um cineclube e, a se considerar esses dois exemplares, tem tudo para se tornar uma grande ideia. E, muito importante, eles querem abrir esse espaço à comunidade local, não restringir ao público universitário, o que acho plenamente louvável. Parabéns, gente.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sofrimento que nos é imposto

Não desejo a ninguém viver a experiência pela qual passei na última terça-feira, 21. Fui ao laboratório para fazer uma ultrassonografia do abdomen e da próstata. O orientação era fazer jejum de 8 horas e, uma hora antes, beber 6 copos de água e manter a bexiga cheia. Pois bem, como na semana anterior tentei fazer o mesmo exame, mas tomei a água e só então fui ao laboratório e não aguentei segurar, resolvi desta vez chegar uma hora antes lá e lá tomar a água. Meia hora antes do exame já estava que não me aguentava. Apertadíssimo. Apresentei-me para eles encaminharem a ficha e toda a burocracia. A chamada demorou e nisso minha agonia aumentava. Despachado, fui ao corredor especificado esperar a chamada. O exame estava marcado para as 10h24. Eram 10h40 e nada de ser chamado. Minha necessidade de ir ao banheiro era algo que eu nunca havia sentido. Tudo bem que o atraso era pequeno, mas para quem está há uma hora apertado cada segundo é sofrível. No dia que tomei toda a água antes de ir ao laboratório, cada semáforo era um sacrifício. E a dor crescia e nada de me chamarem. Pior é que eu tinha certeza de que, quando o médico passasse o tal scanner em minha barriga, aí que não seguraria mesmo. Resultado: não aguentei. Desisti do exame e corri ao banheiro. Atrapalhado em abrir a braguilha, o jato escorreu livre e molhou boa parte de minha calça. Aliviado e envergonhado, fui para casa sem dar baixa no exame ou remarcá-lo. O pior é esse é um exame que, dada a minha idade, terei de repetir todo ano. Mas lhes digo: a enfrentar novamente uma tortura dessa, prefiro o exame de toque.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Um grande passo

Ontem, 20, completaram-se 40 anos em que a missão espacial norte-americana Apollo 11 pousou na Lua. Na foto da Efe, os astronautas que ocuparam aquela nave, Edwin Aldrin, Michael Collins e Neil Armstrong, com Barack Obama, presidente dos EUA (da esq. para a dir.). O nome de Armstrong me é mais familiar, e a memória mais remota que tenho desse dia são imagens na televisão em preto e branco e toda uma mítica criada em torno, já que a conquista do espaço vinha de tempos, e o russo Yuri Gagarin já tinha visto oito anos antes que a Terra era azul. Lembro-me de desenhos de astronaves e astronautas nos livros escolares, recordo-me da música "O Astronauta" do Roberto Carlos, no disco de 1970 dele, tive um foguete de brinquedo, que subia de verdade, acionado por pressão d'água (o único problema foi que, depois do primeiro lançamento, o brinquedo simplestemente sumiu no mato e nunca mais o encontrei). Havia coisas que lembravam astronaves por toda parte. Em dois parques infantis que eu frequentava tinham foguetes em que se subia por escadas e rampas para, lá do alto, descer em um delicioso escorregador. A frase "Um passo pequeno para o homem, mas um grande salto para a Humanidade", de Armstrong, era lida e ouvida em toda parte. Eu, garoto de 8 anos, me extasiava com tudo aquilo, me imaginando pisando o solo lunar, andando em jatos como os dos Jetsons, que eu assistia freneticamente. Aqueles saltos sem a incidência da gravidade que víamos na TV me causavam inveja: eu queria também flutuar no espaço. Mas, surpreendentemente, ao contrário de meus coleguinhas, não queria ser astronauta. Não me lembro agora os motivos, mas meu desejo na época era um pouco mais modesto: queria ser bombeiro, talvez influenciado pelo jipinho imitando os da corporação que eu tinha. Mas ao crescer mais um pouco minhas fantasias foram se ampliando, e a conquista espacial passou a figurar entre meus delírios. Que delírio! Saber que só fui viajar de avião aos 22 anos. Mas eu queria viajar pelo Cosmos, ainda mais quando comecei a aprender geografia na escola. Porém, com o amadurecimento, meu interesse pela aventura espacial foi ficando para trás. Mas não esqueço a sensação que tinha de viver em um tempo em que algo de muito importante fora feito. Poder testemunhar aquilo, mesmo que com olhos incompreensíveis, é realmente uma grande sensação.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Afinal, ele é o Rei


No sábado 11, dia do início das vendas dos ingressos para os shows de Roberto Carlos em São Paulo, compareci ao ginásio do Ibirapuera, para comprar as entradas direto na bilheteria. Eram 14h e a fila já estava enorme, e a chuva não parava de cair. As conversas na fila giravam em torno das dificuldades que as pessoas tiveram para comprar pela Internet e pelo telefone que a empresa Ingresso Rápido (?) pôs à disposição. Elas estavam naquela fila embaixo daquela chuva porque esses meios estavam congestionados. Fica, óbvio, a pergunta: como pode a empresa, sabendo da repercussão de um show de um artista desse porte, com toda a publicidade que vem sendo feita, via Rede Globo, da efeméride dos 50 anos de carreira completados este ano, não reforçar seus sistemas para atender com um pouco mais de conforto - e eu acrescento dignidade - aos fãs do artista? Continuando a história, estava eu na fila já havia 20 minutos quando aparece um sujeito dizendo que acabaram todos os ingressos, à exceção dos de um determinado setor, mas que pela dimensão da fila ele supunha que não seriam suficientes a todos. Sugeriu que tentássemos comprar pelo telefone da empresa. Eu havia tentado pelo celular e não conseguia. Desisti e fui embora. Em casa, tentei inutilmente pela Internet boa parte do dia e da madrugada, até deixar para lá. No domingo, consegui finalmente comprar os ingressos, mas só havia lugares na arquibancada e numa inacreditável cadeira de visão parcial! Fiquei com a primeira opção, apesar de a outra ser o dobro do preço mas ter uma jóia do marketing que é essa tal de visão parcial. Pelo mapa dos assentos, ela fica à diagonal do palco. Provavelmente vai dar para ver o Roberto de costas e meio de lado, e torcer para que ele vire-se para pegar uma água e, assim, talvez, ver uma nesga de seu rosto. Não, preferi arquibancada, porque sei que não vou ao show para ver, mas para ouvir e para estar nesse evento único, que será a minha primeira vez que assistirei a um show do Rei em minha vida. Acho que vai valer a pena, apesar do sacrifício que empresas como esse Ingresso Rápido nos faz passar, mesmo cobrando absurdas taxas de conveniência e de entrega.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sem medo de ser feliz

Esta foto na coluna aí do lado, do Collor de Mello abraçando o Lula, me fez recordar aquele período, da campanha presidencial de 1989. Eu era um jornalista recém-formado e estava trabalhando no Diário Popular (hoje Diário de São Paulo), depois de um breve período no Estadão. O clima era de festa: a real possibilidade de um operário chegar ao poder - aliás, o fato de ele ser candidato já era motivo de comemoração, recém-saídos de uma série de governos militares que éramos. E Collor representava os oligarcas nordestinos, um ser que ninguém sabia de onde tinha saído, uma esperança, sim, mas uma incógnita. Bem, o que importava é que tinha que eleger o Lula, o operário de nove dedos nas mãos. Eu, nessa época, depois de uma militância mais ou menos firme em entidades consideradas à época de esquerda, sentia-me na obrigação de fazer a campanha e de torcer pelo Lula. Tudo bem, eu realmente achava que seria muito bom para o país essa guinada. Mas confesso que não tinha bem claro qual era o programa do PT para o país. Imaginava que seria uma ampliação dos projetos que vinham sendo tocados nas administrações municipais que o partido abraçou, sendo o caso de São Paulo, com Luiza Erundina, o mais emblemático então. Também não me importava em entender o que seria um programa de governo, pois confiava naqueles homens e sabia que a gestão seria popular, voltada às camadas mais pobres da população e muito melhor que qualquer governo militar ou do Sarney. Mas aconteceu tudo que a gente sabe, o Lula perdeu esta e outras três eleições antes de chegar lá e eu vejo com um certa ar de nostalgia essa foto. Antes da foto, vimos a aproximação desta administração com aqueles que no passado recente eram combatidos pelos atuais governantes. Apesar da militância, não posso dizer que entendo muito de política, ou pelo menos da práxis política ou do mero pragmatismo. Mas aprendi que a política e a administração pública se fazem com alianças e que não há inimigos nessa seara, apenas adversários, que o de hoje pode ser seu aliado amanhã. E isso não creio que seja errado. Faz parte do jogo democrático. E permite que a convivência seja cordial na medida do possível, senão seria um tal de se matar inimigos que acabaríamos vivendo numa barbárie, ou numa ditadura. Portanto, se o afago de Collor a Lula de um lado choca, de outro mostra que esse Brasil é justo. E cínico.

domingo, 12 de julho de 2009

Em busca da Rosa

Tive uma grande amiga no primeiro ano do então segundo grau, há mais de 30 anos. Era amiga e confidente, cada um de nós, em sua doce e tenra adolescência, relatando ao outro as paixões e as dificuldades de as expressar e exercer. Eu gostava de uma menina da classe, mas a timidez não deixava eu fazê-la saber disso. Já minha amiga, de nome Rosa, tinha uma veneração mais, digamos, impossível: ela era doida por um cantor de sucesso à época, Glen Michael. Creio que poucos se lembrem dele, um brasileiro que tinha nome artístico e cantava em inglês, comum na época. Tem o áudio de seus principais sucessos no Youtube (imagem não). Além de falarmos sobre nossos amores, conversávamos sobre a vida, nossa visão tão espinhosa da vida. Tímidos ambos, a gente meio que se solidarizava um com o outro e éramos cúmplices recíprocos dos vacilos que cometíamos. Um dia Rosa deixou a classe da tarde, pois precisou trabalhar e transferiu-se para a noite. Deixamos de nos ver, mas passamos a nos corresponder com frequência. Cartas longas, com reflexões sobre o mundo e juras de amizade eterna. Em uma dessas cartas, a menina perguntou se nossa amizade venceria o tempo e o espaço. Não sei. Deixamos de nos escrever depois de algum tempo, não me lembro por quê. Mas eu jamais a esqueci. E neste domingo, lembrando dela, resolvi pegar as cartas, que guardo até hoje, e li algumas. E meu deu vontade de fazer algo que há tempos venho adiando. Um dia, procurei por seu nome no Google. Encontrei um de minha cidade, mas que tinha um sobrenome a mais. Julguei que se tratava do nome de casada que ela estaria adotando. Anotei esse número mas nunca tive coragem de ligar. Pois liguei neste domingo. Uma voz grave de homem atendeu. Depois de confirmar que ali residia uma Rosa, quis saber de quem e do que se tratava. Expliquei e ela chamou a esposa. A voz lembrou-me a dela, mas não posso ter certeza. Depois de explicar meu propósito, perguntei se ela havia estudado em tal escola em 1977. Frustração: ela disse que não se lembrava, fazia muito tempo. Estranhei: como alguém pode se esquecer onde estudou o colegial? Achei que ela não quis estender o papo para o marido não arrumar encrenca. Bem, vendo a pouca disposição dela, acreditei que não se trata da mesma Rosa. Estaca zero. Mas eu não pretendo desistir. Quero encontrar essa Rosa, porque uma amizade como a nossa não deveria sucumbir. E também gostaria muito de resgatar um pouco do jovem que eu fui, porque lá está a raiz de muito do que sou hoje e que tento compreender. Portanto, amiga, eu vou lhe encontrar.
PS.: Localizei outra amiga da classe, essa foi fácil. Liguei. A moça não se lembra de mim. Chato. Será que só eu guardo esse tipo de recordação?


No sábado fui ao cinema assistir a A Era do Gelo 3 em 3D. Diverti-me muito, principalmente porque a tecnologia 3D surpreendeu-me já na primeira vez que vi, lá pelos meus 17, 18 anos. A animação faz uma mistura de eras, a do gelo propriamente e a dos dinos, estes habitando o subterrâneo do mundo dos nossos heróis. Apesar de engraçado, o filme peca por exceder em algumas situações, como fazer o esquilo, agora às voltas com uma fêmea disputando seu avelã, aparecer em cena o tempo todo e com traquinagens que beiram o exagero. Fora isso, há beleza demais nos desenhos, o que o 3D ressalta e engrandece. Há bastante ação, clímax bem elaborados e perfeição em tudo. É uma superprodução que vale a pena, sim, ver.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A dor possível



O funeral de Michael Jackson, dizem, foi visto por mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, devido à transmissão global da cerimônia pela TV. É bem possível que esse número seja real, dada a projeção que 0 artista tinha. É o resultado da comunicação de massa, e lembra, com as devidas proporções e diferenças, a difusão pela BBC, para 26 países, em 1967, da execução da música All You Need Is Love, pelos Beatles. A canção foi ouvida, segundo se diz, por 400 milhões de pessoas e foi a primeira transmissão via satélite da história. E a mensagem, que prega o amor entre os povos, se assemelha à de We Are The World, que Jackson e Lionel Ritchie compuseram e gravaram em 1985 com outros 44 artistas. Imagino que uma audiência dessas tenha sido batida pelos funerais do papa João Paulo II, em 2005, e Lady Diana, em 1997. No Brasil, tivemos momentos de comoção nas mortes de Ayrton Senna, em 1994, Elis Regina, em 1982, e Getúlio Vargas, em 1954, amplamente divulgados pela mídia e acompanhados pela população. Houve ainda John Lennon (1980), Elvis Presley (1977), John F. Kennedy (1963) e Evita Peron (1952), entre outros. Por que certas personalidades atraem tanta comoção, a ponto de as pessoas prantearem sua morte como se parentes delas fossem? O mundo chorou junto com a filha de Jackson, Paris, e cantou junto todas as canções que seus parentes e amigos entoaram na cerimônia. Não sei explicar, mas a mitificação, a idolatria devem ser uma maneira que o homem encontra de compensar suas debilidades e projetar em outro, mais poderoso, aquilo que ele queria fazer. E quando o ídolo morre, não deveria o fã rejeitá-lo, uma vez que o herói retorna à condição ordinariamente humana, como a de qualquer um, afinal, morrer todos podemos? Penso que nessa hora o homem comum se solidariza com o super-homem, exatamente por agora ter a condição de estar perto dele em uma dor que lhe é acessível.Mas penso que o fenômeno Michael Jackson deva ser o último da contemporaneidade. Não sei se vai aparecer outro ídolo que vai arrebanhar tantos fãs pelo mundo todo. Creio que a comunicação de massa hoje se expandiu tanto, com novas mídias e novas formas de divulgação, que vai se fragmentar muito mais, possibilitando que cada aldeia crie seus ídolos, e o conceito de aldeia global de McLuhan talvez tenha que ser revisto. Pode ser. É um assunto a ser estudado.

domingo, 28 de junho de 2009

Cês tão pensando que ele é loki?

Neste sábado assisti ao filme "Loki", documentário dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, produção do Canal Brasil, que conta a vida, a obra e as loucuras do mutante Arnaldo Dias Baptista, cérebro e líder do Mutantes, para mim o primeiro grupo autêntico de rock brasileiro. Tive contato com o grupo em 1971, quando eles lançaram o ótimo A Divina Comédia ou... Ando Meio Desligado. Foi um disco que me pegou na jugular. Acho que ali eu dei os primeiros passos para o gosto musical que tenho hoje. Adorava jovem guarda e músicas que hoje seriam tachadas de populares ou bregas. Mas foi ouvir Mutantes, mais até do que Beatles, que também conheci à época, se bem que já os singles de cada um dos quatro individualmente, que me levou a gostar de um som mais elaborado, cheio de detalhes, de interpretações alucinadas, de distorções, de instrumentações inusitadas e, principalmente, harmonias nada óbvias. Enfim, esse disco fez minha cabeça. Tanto que ele desgastou de tanto que ouvimos - ou tão pouco cuidados tivemos com ele. Aí quando pude comprei outro vinil. Depois com o tempo fui revê-los no festival da Record de 1967 cantando Domingo no Parque, de Gilberto Gil, e comprei outros discos deles. Tinha uma idéia da vida do Arnaldo, coisas pescadas aqui e ali nos jornais, revistas especializadas, mas o filme mostra a história dele com muitos detalhes, e a incrível recuperação dele. Coisa que só iríamos ver novamente com o Herbert Viana. O cara pulou do quarto andar de um hospital psiquiátrico e sobreviveu, com sequelas, claro, mas incrivelmente recuperou sua capacidade cognitiva, tanto que pinta, voltou a tocar e hoje, apesar de ter pulado fora do revival dos Mutantes (com Zélia Duncan), segundo ele porque o pessoal não usa guitarras Gibson nem amplificadores valvulados (o que mostra que está, sim, lúcido), deve estar em plena atividade. Antes disso, em 2004, gravou, com produção do John Ulhoa (Patu Fu) e distribuição pela revista Outracoisa, de Lobão, o ótimo Let It Bed. O filme é excelente, mesmo, com imagens de arquivo surpreendentes, depoimentos sinceros - só faltou o de Rita Lee, o que é incompreensível, passado tanto tempo, mas nos créditos vê-se que ela deu sua contribuição, talvez com material de arquivo que tenha, não sei. Mas a separação da ruivinha, somada ao consumo contumaz de LSD, conforme depreende-se do filme, levou o cara à destruição. Há um trecho muito engraçado em que o artista plástico Antonio Peticov diz que estava na Europa e o Arnaldo o encontra lá, não se sabe como, e vai visitá-lo. Lá, diz que queria contratá-lo como motorista da nave espacial que ele estava construindo... Isso foi antes da primeira internação. Agora, depoimento incrível é do Sean Lennon, filho do beatle John, com quem, aliás, ele tocou num Free Jazz. O garoto é tão fã dele e dos Mutantes que participou da produção de Technicolor, que eles gravaram em Paris nos anos 70 e só foi lançado 20 anos depois. Eu fico imaginando a cabeça do cara: ele, que é fá dos Beatles, ser admirado pelo filho de um deles. E ainda tem Kurt Cobain, do Nirvana, que quando esteve no Brasil quis porque quis se encontrar com Arnaldo. É um filme que realmente emociona, mesmo se o espectador nunca ouviu falar de Mutantes ou Arnaldo. À medida que o filme transcorre, Arnaldo vai pintando um quadro, um mosaico de trechos da história que vai sendo contada. E pode-se perceber ali uma honestidade e um sofrimento comoventes. Acho que o filme vem confirmar que o Mutantes foi realmente a maior banda de rock brasileira de todos os tempos. E esse revival, sinto muito, não tinha porque acontecer, principalmente, e não apenas, pela ausência de Rita Lee, que, compreende-se, com a carreira consolidada, não teria muito o que fazer ali.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Dois mitos que se vão


Hoje morreram dois dos principais ícones de minha adolescência. Michael Jackson ainda tem outro significado, o de estar em meu processo de metropolização. Explico. Até os 9 anos de idade, eu vivi na região do ABC, onde nasci, e, naquela época, isso era quase interior. Não tinha conhecimento de nem acesso a símbolos da "civilização", como coca-cola, hambúrguer, trânsito, apartamento. Em 1970, com a mudança para o bairro do Ipiranga, na capital paulista, porque meu pai comprou uma loja, passei a conhecer esse universo. A loja de meu pai vendia artigos de papelaria e também discos e, assim, conheci o Jackson Five (foto, da AE), do qual a voz era o Michael, um piralho só 3 anos mais velho que eu. Não vou negar: adorava, e, sabe como são essas coisas, me sentia capaz de tornar-me também um ídolo, já que ele, tão pequeno quanto eu, o era. Essa fase do Michael é muito legal. Ele tão pequeno, cantando e dançando muito mais que seus irmãos grandões. Foi também por meio deles que tomei conhecimento da música black (era um termo genérico para música feita por negros, geralmente da gravadora americana Motown) - Tim Maia eu só viria a conhecer bem depois, em 1975. Depois, voltamos para Santo André, a loja foi passada para a frente, e a carreira do Michael e dos Jacksons só acompanhava esporadicamente, se via na TV ou ouvia no rádio. Até que em 1979, aos meus 18 anos, ele aparece com Off The Wall e a canção Don't Stop 'til You Get Enough, uma roupagem diferente para o soul, e fora o figurino, copiado à exaustão por dez entre dez negros nas danceterias. E em 1982 Thriller arrebentou. Aí só dava ele. Eu nunca comprei um disco dele. Na loja de meu pai tinham uns compactos de Ben, I'll Be There e outros que trouxemos para casa quando ela foi vendida e cujo destino não sei. E recentemente baixei uma coletânea na internet, mas ouço pouco. Isso porque não fui necessariamente um fã da fase adulta dele, mas veja que é um cara que fez um estrondoso barulho em uma fase de minha vida que a gente cultiva mitos, e certamente o sucesso que ele fazia mexia com a nossa imaginação. E ver o cara ir embora assim, depois de tudo que se falou sobre ele, de tudo que aconteceu com seu corpo, derruba um pouco o mito, que é tão normal e cheio de defeitos como qualquer outro.




Agora, falar em imaginário, a atriz Farrah Fawcett, que também morreu hoje, essa povoava a minha mente, na época de meus 14, 15 anos, de maneira diferente. Uma das integrantes do trio do seriado As Panteras, Farraw era a loira, olhos azuis, cabelão armado... Nem era minha pantera preferida, eu gostava mais da Kate Jackson, à da direita aí na foto da Reuters. Mas é claro que a loira mexia com minha cabecinha púbere. O seriado era muito chato, como todas as séries daquela época (exceto a do Kung fu, que, por sinal, o ator principal morreu também recentemente): muita marmelada, enredos cheios de buracos, efeitos especiais risíveis. Mas ver as três beldades em situações de perigo, se safando às vezes no minuto final, instigava a imaginação, porque a gente se colocava na cena e ficava querendo ajudá-las, ao mesmo tempo que queria estar em perigo para ser socorrido por elas. Enfim vão-se dois ícones de minha adolescência, e isso me preocupa, porque daqui a pouco vou ficar sem ídolos. Mas será que ainda preciso de um?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Teatro e chope com a blogstar

Fim de semana legal. Vou começar pelo final. Fomos ver sábado a peça O Sétimo Selo, baseado na obra-prima de Ingmar Bergman, pelo Teatro Singular, grupo do qual Isabela minha filha faz parte, com direção de Marcelo Gianini. A montagem trouxe o enredo para os anos 80 do século XX (no filme e peça originais, se passa no século XIV, época das Cruzadas) e a peste do filme é substituída pela aids, troca oportuna, a se lembrar que a doença foi estigmatizada na época como peste gay. A trilha sonora é constituída em sua maioria de canções de Cazuza, a primeira figura pública a expor a doença no país. O jovem grupo mostrou maturidade na montagem, que apresentou ritmo correto e elementos cênicos bem adequados. Falar mais pode parecer que estou lambendo demais a cria, mas posso garantir que o grupo, que há tantos anos acompanho, cresceu e está aparecendo.
Na sexta-feira, estivemos no encontro dos leitores do site Homem É Tudo Palhaço (link aí do lado direito; foto à esq.) com uma de suas criadoras, a carioca Roberta Carvalho, em um bar na Vila Madalena, em São Paulo. Ela promove encontros desses no Rio toda primeira quinta-feira do mês. Aqui em Sampa foi o primeiro. O site, para quem não conhece, foi criado há mais de sete anos por Roberta e outras três amigas para descrever as palhaçadas que os rapazes cometem com as mulheres. Tudo com muito bom humor e sem dedurar ninguém. Ao que sei, o sítio ganhou várias admiradoras - e também admiradores, aos quais me incluo - e foi tema de algumas reportagens de jornais e até na televisão. Roberta é uma jornalista e pesquisadora de cultura popular que se comunica facilmente e o encontro foi bem concorrido.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Nascida para cantar

A cantora paulista Bruna Caram fez a pré-estreia de seu segundo disco, Feriado Pessoal, nesta quarta-feira, véspera de feriado, no Teatro das Artes, dentro do Shopping Eldorado, em São Paulo. Foi um dia terrível para a capital paulista, com quase 300 quilômetros de congestionamento, chuva. E o shopping fica às margens da marginal Pinheiros. Foi terrível chegar. Mas valeu a pena. O show foi ótimo, à exceção do som, que estava abafado, impedindo ouvir as letras com clareza e escondendo timbres. Mas a menina como sempre foi perfeita. Voz, expressões, figurino, simpatia. E as canções do novo álbum, que chega às lojas dia 15, são bem diferentes das do primeiro CD, Essa Menina. O trabalho atual vem mais pop, mais guitarra, baixo, ela arrisca até um folk. Eu gostei. O teatro não estava lotado, talvez por causa da chuva e do trânsito. E, coisa chata, algumas pessoas saíram no meio da apresentação. Pior para elas. Perderam um show que teve momentos de bastante intimismo, principalmente quando cantou algumas músicas do primeiro disco (Essa Menina, Sensações; Palavras do Coração, Um Blues). Incrível como a platéia a acompanhou nessas canções. Ou seja, é uma cantora que tem uma audiência cativa e que tem tudo para crescer. Ela é uma artista que tem domínio de palco, até porque tem experiência quase de berço, pois foi dos Trovadores Mirins e depois dos Trovadores Urbanos, grupo musical do qual participam tios seus e do qual ela fez parte dos 15 aos 19 anos. O novo disco tem, segundo ela, vários parceiros, ao contrário do primeiro, cujas composições todas são de Otávio Toledo e algumas em parceria com José Carlos Costa Netto, o advogado dos artistas, especialista em direito autoral e parceiro de Walter Franco. A faixa título é a única composição dela no trabalho, por conta de seu senso crítico, conforme suas palavras, ou, talvez, a modéstia. Esperemos que ela não fique mascarada quando se tornar mais conhecida. Por enquanto, a vejo como se fosse uma irmã mais nova cantando bem à beça.


Na sexta-feira, 05, fui ver o Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, em show no Sesc Pompéia - Choperia com outra banda, com participação de Paulo Ricardo (ex-RPM). Foi um show em que ele mostrou suas outras vertentes, tocando outros ritmos além do rock pesadão de sua banda original. Tocou até música clássica. É um cara competente, que domina o instrumento e escolheu ótimos músicos para o acompanhar. Nunca ouvi o Sepultura com atenção, mas reconheço sua importância e vou procurar algo deles para conhecer melhor.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A volta dos bons e velhos LPs



Muitos artistas têm lançado seus discos também em vinil. Em algumas lojas, é comum encontrar uma seção com as bolachonas - a preços exorbitantes, registre-se. Numa dela, vi o Yellow Submarine, dos Beatles, a mais de R$ 120! Eu acho, porém, ótima a redescoberta do vinil. E principalmente porque os lançamentos são em 180 gramas, o que dá uma densidade de som bem melhor.

Geralmente o vinil comum já tem uma profundidade maior que os CDs. Mesmo em um aparelho simples como o meu, já dá para perceber. Os graves são bem mais musculosos, dá para sentir as paredes tremendo.

Não sei por que se dá tanto valor aos agudos. É incrível, mas eu gosto dos sons bem equilibrados, para sentir o timbre perfeito de cada instrumento. Se se privilegia um timbre mais que os outros, fica um som artificial. E é essa a maior queixa que se tem contra o som dos CDs. Claro que o disquinho a laser tem suas vantagens. Por exemplo, não tem chiados, não precisa virar, cabem muito mais músicas (e agora com mp3 então dá para pôr a discografia de um artista inteira), ocupa menos espaço...

Mas o vinil tem um charme especial. Sei lá, deve ser porque cresci com eles, então a gente cria mesmo uma relação com as coisas de nossa infância. Os discos de vinil requerem um ritual todo especial, pelo menos eu sou assim: tirar o envelope plástico, que eu sempre deixei para conservar a capa; olhar atentamente as fotos da capa, ou desenhos, ler tudo que está escrito nela, aí tirar o outro envelope plástico com o disco e pegá-lo cuidadosamente, evitando meter os dedos, pegando pela borda; olhar os nomes das músicas, os compositores, o tempo de duração da canção, e outras informações que houver; ligar o toca-discos, pôr o disco com carinho no prato, descer bem devagar a tampa do aparelho e ligar o automático; ver o braço subir verticalmente, caminhar até o início da primeira faixa, descer e aí ouvir aquele barulhinho de coisa sendo delicadamente riscada que eu adoro. Depois começa a sair a música das caixas.

Eu sempre gostei de ouvir a música sentado no chão, em frente às caixas acústicas, para perceber detalhadamente cada instrumento, a voz, as pausas (quando o barulhinho aparece de novo). Se houver encarte com as letras, acompanho, para não perder uma palavra. Vejo quem toca o quê (desde que haja a informação, é claro), procuro me lembrar onde vi aquele nome novamente, que outras músicas ele tocou e de quais participou, aí vou formando minha memória musical. Já quis ser mais metódico nisso, fazer anotações, para ter um catálogo, algo assim. Mas sempre esqueço, tenho preguiça, deixo para depois e nunca fiz. Tudo fica no que a memória registra.

Eu não me desfiz de meus discos de vinil quando comprei meu primeiro aparelho de som com toca-CD. Não, fui à Santa Ifigênia (rua no centro de São Paulo com lojas só de eletroeletrônicos e suprimentos de informática) e procurei uma pick-up (não o carro, mas é como a gente também chamava os toca-discos antes). Achei uma por um bom preço (porque havia diversas para DJs profissionais muito, mas muito caras mesmo) e levei.

Em seguida, como estava no centro mesmo, fui à Discomania, na rua Augusta, procurar uns discos usados. Acabei trazendo, se não me engano, um da Grace Jones, um do Muddy Waters e outro da Nara Leão. Bem baratos e conservados. Talvez agora, com esse revival, possam estar bem mais caros. Qualquer dia passo lá e verifico.

Mas também quero comprar um desses novos vinis para ver se o som é mais bojudo mesmo. Como são caros, terei de escolher bem. E ainda tem o problema da conservação; precisarei rever o local onde deixo meus cento e poucos (apenas) discos. Eles ficam meio inclinados, o que não é recomendável, porque podem empenar. Um dia, quem sabe, criarei coragem e limparei um por um, porque estão meio esquecidos, já que quase nunca os ouço.

Gosto de tê-los, mas quando quero ouvir música pego um CD, ou ouço as que tenho gravadas no computador, ou no iPod. E eu ainda tenho muitas fitas K7 gravadas, do tempo em que CD era caro e então alugava na locadora de videocassete no centro de Santo André e gravava em casa, o que fazia também com empréstimos de amigos e programas de rádio. Essas fitas estão sofríveis, péssima qualidade de som, mas de vez em quando ouço alguma para matar a saudade.

Isso me faz lembrar os discos de 45 e 78 rotações que meu pai tinha. Eram a maioria de músicas instrumentais, de bandas marciais e de igreja, uma vez que ele tocava bombardino (ou baixo tuba) na banda da sua igreja. Ele colocava os discos na horizontal no guarda-roupas, e uma vez eu sentei-me em cima. Resultado: vários discos quebrados e uma bronca que felizmente esqueci como foi.

Hoje temos muitas opções para ouvir música, e até mesmo sem necessidade de pagar por elas, o que provoca muita polêmica. Não se sabe o futuro das mídias e formatos de se produzir e ouvir música, mas com certeza ela sempre haverá, mas, pela facilidade que há para se fazer canções hoje, o filtro terá de ser bem mais forte.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Que Rei sou eu?


Leio na Mônica Bergamo, colunista da Folha de S. Paulo, que o Roberto Carlos reclamou à direção da Globo a exclusão de algumas das cantoras que o homenagearam em show em São Paulo no último dia 26 do especial que a emissora exibiu editado nesta sexta-feira. Não foram mostrados os números de Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Paula Toller, Mart'nália, Rosemary e Celine Imbert. Humilde, o Rei sugeriu que sua participação fosse reduzida no programa para caber as divas. Ao que o diretor Mariozinha Meirelles respondeu que foram usados "critérios artísticos" na edição. Bem, se a Ivete Sangalo tivesse aparecido uma vez no lugar das duas às quais foi contemplada, já haveria espaço para mais uma cantora. Aliás, qual foi o critério artístico sacado para tal decisão? Ivete rende mais ibope? Deve ser. Segundo a coluna, as cantoras também não gostaram das omissões, e a empresária de uma (não é identificada) reclama que só as "globais" apareceram, apontando Ivete e Sandy, "que foi queridinha da Globo durante muito tempo". Bem, a verdade é que a Globo faz o que quer, não é obrigada a atender a nenhum interesse, a não ser aqueles que lhe convêm. Mas o estranho é o próprio Rei se incomodar com isso, o que demonstra que algo aí não saiu bem.

Air France 447

Já comentei outras vezes aqui de meu temor com a quantidade de acidentes aéreos que tem havido. E agora mais este, com uma aeronave considerada a mais moderna e bem equipada que há. São 228 vidas que se vão, provavelmente seus corpos jamais serão resgatados, bem como os restos do avião. O que motivou a queda? Por enquanto, há hipóteses, certezas não sei se teremos. O certo é que a cada episódio desses eu fico mais temeroso de viajar por esse meio de transporte. Não adianta me dizerem que, estatisticamente, ele é o mais seguro, porque o problema é você estar na exceção, como esses 228 que embarcaram num avião, o Airbus A330, sem histórico de acidentes graves. Afora isso, só temos que lamentar essa tragédia e rezar (ou orar, conforme a crença) por essas almas.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Vampiros, tambores e reis

Fim de semana chuvoso em São Paulo. E mais ainda em São Bernardo. Na sexta-feira, fui ao Teatro das Artes, no shopping Eldorado, comprar ingresso para o show de Bruna Caram, uma pré-estreia de seu novo disco, Feriado Pessoal. Será dia 10 de junho, uma quarta, véspera de feriado. Em casa, assisti ao primeiro DVD da minissérie Agosto, baseada em livro de Rubem Fonseca. Quando passou na TV gostei muito, pois gosto de obras policiais. Na juventude, era leitor voraz de livros de bolso de espionagem e policiais. E desde sempre adorei ouvir Gil Gomes no rádio. Cheguei a pensar em fazer meu mestrado sobre esse programa, que está até hoje no ar. Histórias policiais, de espionagem, suspense, terror, mistério, adoro. Acho que é por isso que não criei um hábito de ler poesias. A prosa sempre me cativou mais. Não sei explicar por quê. E, afinal, nem tudo tem que ser explicado, não é? No sábado, decidimos, eu e Ilana, continuar quietinhos em casa, vendo DVD e fazendo comidinhas gostosas. Peguei-a na rodoviária do Tietê às 7h e fomos direto para Santo André, para compras no supermercado. Finalizamos os suprimentos na padaria que fica em frente ao conjunto habitacional em que moro, e finalmente chegamos em casa. Foi um sábado diferente dos últimos que tenho tido, sem rua, sem viagens, sem conhecer nada novo. Apenas os filmes que assistimos: Crepúsculo e O Tambor. O primeiro, uma estória de vampiros moderninha, está muito bem cotado por aí, ganhou 5 prêmios do MTV Movie Awards ontem. A fotografia é muito boa, assim como as locações, aparentemente no Estado de Washington. O filme é baseado em livro de mesmo nome que está causando furor no mundo. Leio que já foram vendidos 5 milhões de exemplares em todo o globo. Bem, não entendo por que, uma vez que a história é velha, apenas "adolescentizada", ambientada em um colégio americano, com teens nos papéis principais. De resto, tudo que se pode esperar de um filme desse gênero. Quanto ao segundo, também baseado em um romance de mesmo nome, tem uma proposta um pouco mais séria, que é discutir a sociedade alemã dos anos 20 a 40 e o florescimento do nacional-socialismo ali. É uma crítica mordaz à dita burguesia e seus valores, no olhar de um menino que se recusa a crescer ao perceber tanta iniquidade ao seu redor. É um filme muito interessante, que mescla tragédia e comédia em doses equilibradas. Este filme me foi emprestado há tempos por uma tia de minha filha e estava para o ver, o que fiz, creio, em hora bem adequada.
E o fim de semana foi assim. Filmes, pipoca, hot dog, salmão ao molho de maracujá com arroz de brócolis, cocada, cerveja, vitamina, guaraná. Uma passada rápida de olhos nos jornais, recolher o lixo, a cama do quarto da filha que quebrou. Vida doméstica. Fazia tempos que não vivia isso. E o mais incrível: um fim de semana inteiro sem internet (apenas uma conectada rápida para ver a receita do peixe). É possível, sim. Agora, se fosse depender apenas da TV para me divertir, ia sofrer. Nem vale a pena comentar as "atrações" que procuram nos cooptar aos sábados e domingos. Basta dizer que valeu mais a pena dormir ou ouvir uma música. Falar em música, acabei de ouvir uma coleção de mais de 180 músicas do Chico Buarque que meu colega de trabalho Beto me cedeu. Foram três ou quatro dias ouvindo, ao ir para a agência e voltar dela. Puro prazer. Cada canção traz a lembrança de uma época, uma ocasião, às vezes uma pessoa, uma história vivida. É incrível como o compositor sabe transformar em letras sentimentos e sensações que são tão caros à gente. É impressionante como ele lida com temas de alta complexidade com uma simplicidade desconcertante. A minha preferida, de sempre, é Construção, mas Roda Viva também me cativa e, se for lembrando, daqui a pouco vou acabar elencando toda sua obra. Mas essas duas dão a dimensão de seu pensar, de sua poética e de seu modo de fazer canções. Chico é um músico que não mudou, não serviu ao clima de então, não desbundou nem destoou. Está há 40 anos fazendo o que quer e deixando uma grande parcela de seu repertório na galeria das canções eternas. Tenho o Carioca, seu último CD, e confesso que só o ouvi uma vez, e nem apreendi nada dele, a não ser que me parece uma obra despreocupada, relaxada, mais interessado em contemplar o horizonte ao seu redor que meter uma lente de aumento em seus olhos e enxergar algo além. Não sei. Vou ouvir novamente e prestar mais atenção. De repente algo se revela.
Não podia deixar de falar de Roberto. A apresentação do show Elas cantam Roberto, gravação do espetáculo levado ao palco do Teatro Municipal de São Paulo terça-feira, exibida pela Globo neste domingo, não me agradou totalmente. Além das imperdoáveis ausências de Maria Bethânia e Gal Costa, julgo ter havido rasgação de seda demais e um glamour chato, com as ditas divas exibindo modelos feitos talvez para a ocasião. Entraram as poderosas do momento, caso das baianas axezentas Cláudia Leitte e Ivete Sangalo, além da Daniela Mercury, mas essa está em outro patamar. Já quer era pra botar as topo das paradas, deveriam chamar a Joelma, do Calypso. Ah, mas esta não se apresenta sem o Chimbinho, deve ser. Não é o caso de Sandy, que já botou seu mano na cozinha dos Nove Mil Anjos e pode seguir solo. Maríla Pêra e Nana Caymmi, claro, arrasaram, e gostei de estarem lá Wanderlea (imperdoável se não estivesse) e Rosemary, esta deslumbrante. Hebe eu achei esquisito, mas me parece que a proposta do show era mesmo esta: reunir 20 cantoras de diversas épocas, para abraçar um tiquinho da longa carreira de 50 anos do Rei. Eu asseguro uma coisa: eu vou no show dele, ou em São Paulo ou no Rio. Será a primeira vez que verei um espetáculo ao vivo desse cantor que eu curtia muito na minha infância e que gostei até o disco de 1971 - o que tem Detalhes. Depois, ouvia, até porque, como vendia discos na loja de meu pai no Ipiranga, era um dever de ofício, já que o cara era um dos que mais vendiam LPs na época (os outros campeões de venda no começo dos anos 70 eram Martinho da Vila e Clara Nunes). Vou porque ele é, afinal, nosso Rei, influenciou quase todo mundo (se não influenciou, ao menos quase todo mundo o ouviu). E, bem, se Bethânia e até Marisa Monte gravam músicas dele, não podemos desprezar. Eu vou. Podem esperar o post.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A desalambrar

É noticiada hoje a prisão de um dos militares que mataram o chileno Victor Jara durante a ditadura de Pinochet. Aos 16 de setembro de 1973 - exatos cinco dias após o golpe que derrubou Salvador Allende e pôs os militares no poder -, Jara era executado no estádio que depois seria rebatizado com seu nome, diz a notícia que com 44 tiros de fuzil, depois de ter as mãos quebradas com os canos das armas. Quando eu soube da história do compositor de Te Recuerdo Amanda, se dizia que ele teve as mãos quebradas para não fazer mais músicas revolucionárias, ao que teria respondido que fazia música com a cabeça, não com as mãos. Bem, houve até versões que se lhe tinham decepado ambas as mãos. O que importa é terem sido as mãos o objeto da ira e do sadismo dos jovens soldados. Sim, porque esse Adolfo Paredes Márquez que foi preso agora tinha 18 anos na época. E Jara, 40. Quebrar as mãos para que ele não mais tocasse seu violão? Para que não escrevesse suas canções? Ouvi falar de Jara no começo da década de 80, quando comecei a frequentar o grupo de jovens da igreja Nossa Senhora das Dores, na vila Palmares, em Santo André. O padre lá, Rubens Chasseraux, era da linha progressista - era, porque já há mais de 20 anos que ele mudou de lado - e as missas eram povoadas de canções latino-americanas, os trabalhos de base focavam os pobres e despossuídos (o padre tinha um trabalho junto à favela do bairro que se tornou símbolo mundial). Então vivíamos cantando Jara, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Gabino Palomares e outros. E aprendi a admirar esse homem que, antes de se firmar como cantor e compositor, foi ator e diretor teatral de grande brilho, além de jornalista e professor. Suas canções falam da vida do povo, dos trabalhadores, de injustiças. Cantávamos A Desalambrar em nossas reuniões cheias de violões (até eu, na época, meti-me a tentar aprender o instrumento) com um vigor como se o simples cantar derrubasse mesmo as cercas que separavam as propriedades privadas dos campesinos sem terra (o MST iria só surgir, como organização, 4 ou 5 anos depois, mas já havia sementes por aí). Bem, não me tornei um bom revolucionário, como era de esperar. Mas o que aprendi e conheci nessa época constituíram meu pensar e meu agir. E posso hoje ler essa notícia e pensar, com angústia, nesse tempo em que "falar de flores era até um crime pois implicava calar sobre tantos horrores" - conforme Brecht.
Gazeta Mercantil - O "jornal de economia do Brasil desde 1920" informou hoje na capa que esta era a última edição sob a responsabilidade da Editora JB S.A. O dono da editora, Nelson Tanure, devolveu a marca à família Levy, alegando dívidas trabalhistas inadministráveis. Não se sabe, ainda, se o jornal voltará a circular em breve ou algum dia. São 60 jornalistas que estão apreensivos, porque obviamente não serão todos que poderão ser reaproveitados em outros títulos da Cia Brasileira de Mídia. É uma pena, mesmo. Sempre gostei da Gazeta, a qual comecei a ler quando era bancário no Noroeste, nos anos 80. Sempre que os gerentes iam embora, no final da tarde, eu ficava mais um tempo na agência e pegava uma edição abandonada na mesa de um deles e lia, mesmo sem entender muito, mas com curiosidade e aplicação. Acho que foi a Gazeta, junto com a revista Visão, que eu assinava, que me fizeram pegar gosto por temas econômicos, apesar de ir concentrar meu trabalho nessa área apenas 10 anos depois de ter iniciado minha carreira de jornalista. Mas gostava dos textos elegantes e precisos do jornal. E de sua postura sempre tão formal, os desenhos de bico-de-pena antes de a fotografia e a cor tomarem conta do jornal à guiza de modernização. Lembro como se referiam ao então sindicalista Lula como sr. Luiz Inácio da Silva (rs). Tentei trabalhar lá uma vez, mas não deu certo, porém teria sido uma experiência interessante. Conheço muitos profissionais de lá, e fico chateado, mas com certeza a gente vai se encontrando por aí e no fim todos se acomodam. Fica apenas no ar um gosto amargo de ver um grande jornal deixar de existir, depois de anos definhando e sem futuro certo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Uísque e mulher ranzinza

(Este texto é em homenagem à notícia dada pelo Guardian de que jornalistas são os profissionais que mais bebem.)
Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque senão...
- Assim seja! Seja feita a vossa vontade, disse eu, humildemente. E comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.
Tirei a rolha da primeira garrafa è despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo, que bebi.
Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo, que virei.
Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo, que empinei.
Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa, que bebi.
Apanhei a quinta rolha da pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção.
Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.
Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da gar­rafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.
Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas, que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito, de acordo com as ordens da minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem.
Segurei então a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram exatamente trinta e nove. Quando a casa passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para recontar tudo e deu noventa e três, o que confere, já que todas as coisas no momento estão ao contrário.
Para maior segurança, vou conferir tudo mais uma vez, contando todas as pias, rolhas, banheiros, copos, casas e garrafas, menos aquelas duas que escondi e acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca ...

(Barão de Itararé)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Viva o cinema novo



A Folha de S. Paulo traz hoje reportagem informando que o cine Marabá, na avenida Ipiranga, quase esquina com a São João, será reinaugurado nesta sexta-feira, reformado, com sua enorme sala de mais de 1.600 lugares fracionada em cinco salas menores, dentro do conceito multiplex que impera nas salas de exibição há pelo menos uma década. O Marabá é um dos últimos cinemas de rua resistentes na cidade de São Paulo, ao lado de outras salas que decaíram para a programação pornográfica e outras que viraram templos religiosos ou bingos. Fechado em 2007 para a reforma, conduzida por Ruy Ohtake e Samuel Kruchin, tombado pelo patrimônio histórico municipal, este cine sempre me impressionou quando eu andava por essa região. É um prédio de dimensão superlativa mesmo, com suas colunas de mármore, suas franjas na fachada. E o interior. Enorme, em seus áureos tempos com revestimento de ouro, poltronas vermelhas, um saguão interminável. É do tempo em que ir ao cinema era um programa chique, as pessoas iam com suas roupas de gala, como se fossem à ópera ou ao concerto. Bem, claro que eu não vivi esse período, mas nem por isso deixei de me sentir como que ingressando em um santuário ao ir ver algum filme lá. Não me lembro quantas vezes fui ao Marabá, nem quais filmes assisti, porque era mais comum eu ir a algum cinema em minha região mesmo, o ABC, onde também havia bons cinemas de rua na época de minha infância e adolescência. Nada contra cinemas de shopping, que têm o conforto adequado a um público que gosta desses templos de consumo exatamente por isso. Mas esses cinemões faziam a gente ver a sétima arte como isso mesmo, arte, não mero entretenimento. As telas eram enormes, fazendo o filme nos envolver e tornar a experiência algo que mexia com quase todos os sentidos. Nunca me esquecerei de Os Dez Mandamentos, com Charlton Heston no papel de Moisés, no cine Comodoro, da São João, com sua telona de 70 milímetros. A abertura e travessia do Mar Vermelho foi uma visão que duvido que terei outra similar. Assim como o barulhão em perfeito dolby surround do Terremoto - não me lembro em que cinema, talvez no próprio Marabá, ou no Vitória, em São Caetano. Agora outra lembrança boa é a do filme Embalos de Sábado à Noite (sim, eu vi, e quem não viu?), acho que no Comodoro também. Saí do cinema convicto de que eu era o próprio Travolta e no primeiro baile que fui sábado já estava devidamente trajado de camiseta de manguinha arregaçada e cabelo penteado pra trás com topetão. Agora, quanto à dança, melhor nem falar. Era gostoso ir ao cinema em São Paulo, parecia que estávamos recebendo um banho de civilização, um upgrade social, quase caipiras que éramos. E o bom também é que, com um ingresso apenas, a gente podia assistir a quantas projeções quisesse. Eu, às vezes, quando não tinha nada para fazer, entrava no cinema de manhã e só saía à tarde. Quando o filme era bom, claro. E havia ainda as sessões duplas, com dois filmes correlatos, por exemplo, dois western ou dois de aventura. Claro que isso acabou, mas ainda há a possibilidade de se ver o Noitão no HSBC Belas Artes, em uma sexta-feira do mês, com três filmes e ao final um lauto café da manhã. Eu frequentei os noitões que eram realizados pelo antigo cineclube Oscarito, na praça Roosevelt, mas não havia breakfast (porém sempre tinha alguém vendendo café e sanduíches). Assisti lá a uma maratona espetacular de filmes e vídeos dos Beatles, a uma noitada com filmes de vampiros, outra de Hitchcock. Fechado em 1991, o Oscarito hoje abriga o teatro Os Satyros. O Comodoro virou igreja, ou bingo, nem sei. O Vitória é uma casa de shows e baladas. Agora, tristeza mesmo me deu quando fui ver que fim levou o antigo cinema que eu frequentava no bairro do Ipiranga, o Imperador, na rua Brigadeiro Jordão, perto da igreja. Vi uma infinidade de filmes lá, muitas vezes cantando o lanterninha para nos deixar entrar em filmes cuja idade mínima eu não alcançava. Algumas vezes, iniciada a projeção, ele abria a portinha lateral e deixava eu entrar, de graça! Esse cinema, vi recentemente, não teve nem a honra de abrigar um bingo ou um templo religioso. Está vazio, abandonado, sujo, largado, abrigo de sem-teto e depósito de coisas inservíveis que as pessoas insensíveis teimam em largar ali dentro. Leio em um site que chegou a funcionar uma metalúrgica lá, mas dessa fábrica não resta nem um vestígio. Outro cinema que eu frequentava no Ipiranga, o Anchieta, na rua Silva Bueno, onde assisti ao primeiro A Fantástica Fábrica de Chocolate, virou um estacionamento. Portanto, dentro dessa realidade tão triste dos antigos cinemas de rua, o renascimento do Marabá, ainda que sob o estilo multiplex, merece ser muito comemorado. Com certeza estarei lá. Uma Noite no Museu 2 é uma boa opção, não?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Fratura exposta

Assistimos à montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, sob a direção de Gabriel Villela, em São Paulo. Este é um texto clássico, de 1943, que marca o início do teatro moderno brasileiro, graças também à direção revolucionária de Ziembinski. A atual montagem, se não se pode dizer que seja revolucionária, ao menos inova na solução para os três planos indicados por Rodrigues: a alucinação, a realidade e a memória. Villela optou por fundir as três dimensões e trabalhar com luzes, interpretações e figurinos para demarcá-las, mas há momentos em que nada se distingue, e é, a meu ver, proposital, pois estamos vendo uma protagonista - Alaíde, de Leandra Leal - atropelada e entre a vida e a morte. É um bom teatro, com atuações corretas de Marcello Antony (Pedro), Vera Zimmermann (Lúcia) e Luciana Carnieli (Madame Clessi), além dos demais atores do elenco. Os figurinos estilo brechó e a trilha sonora (de Daniel Maia) povoada de tangos e boleros antigos dão um aspecto meio barroco à montagem - quiçá rococó. O cenário também impressiona: um portal que ora serve de altar ora de sepultura, acrescentado, conforme a cena, de praticáveis e cadeiras que os atores levam e trazem. Ou seja, não há os três níveis da montagem de 1943, e isso o diretor defende que não se há necessidade de ser explícito, pois o público, hoje, está acostumado com a complexidade. Concordo, até porque espero que nunca o teatro se renda à poética da televisão, que tudo pasteuriza e simplifica, nada contribuindo para a formação de um público de artes cênicas. É bom, pois, que atores de novelas façam teatro e o façam bem, e que ao menos as pessoas que vão ao teatro atraídas pelos atores globais criem o hábito de ver e entender outras linguagens. Nelson Rodrigues é um autor que eu admiro e tenho lido há algum tempo. Confesso que sou mais leitor de suas crônicas - inclusive de futebol - do que de sua obra teatral, mas essa é uma lacuna que pretendo preencher logo. O livro de crônicas A menina sem estrela, com textos recolhidos por Ruy Castro dos jornais para os quais Nelson escreveu, é de uma beleza ímpar, textos de uma força e uma precisão que impressionam e nos fazem ficar com boa inveja e desejar escrever de tal maneira, tão simples e tão profunda. Lê-se no Anjo Pornográfico, do mesmo Ruy Castro, que o jornalista, dramaturgo e escritor era prolífico, trabalhava muito, e teve uma vida cheia de tragédias - talvez venha daí sua facilidade de descrever tantas desgraças em seus textos. E esse Vestido de Noiva é cara dele. Dizem que é seu primeiro texto freudiano. Bem, isso não sei, mas é um texto carregado de culpas, complexos, repressões, hipocrisias, ou seja, bem rodrigueano. Ler - ou ver - Nelson Rodrigues é deparar-se com a sordidez humana e ter uma reação qualquer, seja um sorriso amarelo, ou um rubor na face, nunca a indiferença.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Eu quero a esperança de óculos


A lembrança mais remota que tenho de Zé Rodrix, que se foi hoje para o destino que não nos é dado saber, é do lançamento da música Soy latinoamericano, por volta de 1975, 76, creio.

Meu pai ainda tinha a papelaria e discoteca no bairro do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, e achei muito engraçada aquela letra, a voz aguda daquele cara de bigodão e óculos que eu botava no círculo dos cantores-humoristas, ou melhor, dos que tinham letras bem-humoradas.

Teve depois Quando Será, igualmente de forma humorada para abordar temas sérios. Mal sabia eu na época a história do cara, que vim a saber depois, da parceria com Luiz Carlos Sá e Gutemberg Guarabyra, do Momento Quatro dos festivais, do Som Imaginário, da canção que Elis eternizou (Casa no Campo) e mais tarde com os punks do Joelho de Porco.

E também os jingles - alguns a gente identificava, outros nem imaginava. Sempre o achei um bom sujeito, um músico de respeito e de talento. Fico chateado com sua morte, sinal de que os meus ídolos começam a ir embora. Isso é muito chato de pensar.


segunda-feira, 18 de maio de 2009

A vida tem dessas coisas

A semana não começou bem. Acho que meu inferno astral começa depois do aniversário, não antes, como dizem ser normal - a se acreditar em coisas como essa. Sou incrédulo para um monte de coisas, mas também não deixo de dar uma pensadinha a respeito. Afinal, há mistérios para todos os gostos nesse mundo. Já passei por situações que nem sei como, depois de passada fiquei matutando: que força estranha que me livrou do pior ou que me proporcionou o melhor?? Bem, o importante é que devo fazer algo para que a semana não seja um fracasso, ao contrário dessa que terminou, que foi coroada de êxitos. Mas depois eu penso nisso. Agora quero mais é ir para casa e dormir muito. Se der, acordo mais cedo para as pedaladas, se não, fico devendo.

Black night


Já estou em Sampa. Foi um bom fim de semana no Rio, apesar da garoa e do frio que peguei lá, ora vejam! No sábado, almoçamos na Confeitaria Manon, na rua do Ouvidor, e tomamos uns chopes no Bar Luiz, na rua da Carioca. O garçon gentilmente me pediu que assinasse o livro de visitas do bar, inaugurado em 1887 (!). Escrevi meu testemunho e assinei, e vi na página anterior o do ministro Joaquim Barboza, do STF. À noite, fomos mesmo ao Estrela da Lapa assistir ao show do Gerson King Combo com a SuperGroove. Showzaço, sonzaço. E ainda teve a participação luxuosa de Carlos Dafé ("Não quero mais saber de ti; vou me recuperar quero sorrir, quero sorrir; esquecendo a quem amei; pra que vou recordar o que chorei"; "Era lindo, era lindo"). Foi um ótimo show, com clássicos da black music nacional e internacional. Antes, caldinho de feijão no Brazooca. Bom, mas caro (R$ 12). Essa parada nos fez perder uma hora do show, pois não contávamos que fosse começar rigorosamente às 23h. Mas a banda é muito boa, com duas vocalistas, guitarra, teclados, bateria, baixo, saxofone (tocado por uma negra linda) e trombone de vara. Lá encontrei a Roberta, uma das criadoras do site Homem é tudo palhaço, divertidos relatos das sacanagens que nós homens cometemos com as mulheres. A moça é bastante simpática, mas o local não era propício para papos mais profundos. Sendo assim, o negócio foi dançar a bela trilha sonora executada na casa.
O domingo estava nublado, sem graça, mas até que tinha um solzinho dando as caras, mas não deu praia. Comemos um galetinho na Tijuca, segundo Ilana o melhor do Rio (muito apetitoso realmente, mas o ambiente é bem simples). Depois fomos a um churrasco de aniversário de uma amiga dela, Ana. Foi no morro de São Carlos. Uma operação tática para subir e descer. E o que vimos no caminho é melhor nem narrar. Uau! Mas foi bom, a galera do churrasco foi bem receptiva e simpática. Pena que tive que me ausentar por umas duas horas para tirar um cochilo, já que teria de encarar 450 km dirigindo e depois 8 horas de trabalho na madrugada.

sábado, 16 de maio de 2009

Vinho gelado?

Estou no Rio, e por incrível que pareça está chovendo. Aliás, a viagem praticamente toda peguei chuva. Já era o programa da praia. Pretendia ver o show do Pedro Luís e a Parede no Circo Voador, mas ficamos sem pique. Fomos comer uma pizza na Cobal. Pedimos uma muito boa com palmito e linguiça de javali. O problema é que o garçon trouxe o vinho tinto gelado! Estranho. Mas valeu. Vai ver carioca toma assim mesmo, por causa do calor. Neste sábado estou a fim de ver o Gerson King Combo com o Carlos Dafé. Vamos ver.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Blue noite


Como adiantei aí embaixo, nesta quinta-feira (14/05/2009) fui à abertura do Bridgestone Music Festival 2009, em sua segunda edição em São Paulo. A primeira, ano passado, foi dedicada à world music e, esta, ao jazz e ao soul, em três noites no Citibank Hall. A noite de ontem, 14, teve o Robert Glasper Trio e a Jimmy Cobb's So What Band, homenageando os 50 anos de lançamento do visceral álbum Kind of Blue, de Miles Davis.

O pianista Robert Glasper, acompanhado de Vicente Archer (baixo) e Chris Dave (bateria), mostrou por que é chamado de "astro do piano em ascensão". O cara tem 29 anos, toca desde os 12 e é senhor de uma técnica impressionante. Passeia os dedos pelo teclado como se nascesse fazendo aquilo. E o som é límpido, pulsante, bem balançado. Flerta com vários ritmos e casa com perfeição com seu acompanhantes, que também têm seus momentos solo para brilhar em particular. É um rapaz muito simpático e moderno, que deve escrever seu nome no panteão dos grandes músicos de jazz e quem sabe até fazer escola. Ambição e ousadia para tal ele tem.
O sexteto de James Cobb já trouxe uma formação mais veterana, a começar pelo próprio baterista que participou da gravação do Kind of Blue e é o único músico vivo daquele disco. Aos 80 anos, mostrou total vigor e pleno domínio do instrumento, o qual executa com precisão e elegância.

Os outros músicos, na casa dos 40 a 60 anos, também demonstraram ser feras em sua arte. As músicas do cinquentenário disco foram executadas bem mais aceleradas que na gravação original, e com muito improviso, o que não é de estranhar, em se tratando de jazz. É incrível como eles levantaram a galera, como o suingue que saía de seus instrumentos fazia a gente vibrar. A hora passou e nem me dei conta; quando vi era o fim, aí o bis e a consagração final.

Eles se comunicaram pouco com a platéia, mas a performance foi de verdadeiros lordes, e a audiência respondeu com a devida reverência e o respeito que músicos dessa categoria merecem. O trompete de Wallace Roney não envergonharia Davis. Um sopro doce e preciso, com nuances sutis que até faziam às vezes lembrar o grande Miles, mas havia ali a personalidade desse garoto de Philadelphia.

Acompanhando-o na cozinha estavam Vincent Herring, no sax alto, e Javon Jackson, no sax tenor. Os três se revezavam nos solos, às vezes os três juntos, ou aos pares, costurando as frases perfeitas de Larry Willis, mestre no piano, e Buster Williams, no baixo personalíssimo. Realmente, uma noite para não esquecer. E um autopresente bem escolhido.