O Barquinho Cultural

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domingo, 10 de março de 2013

Sobre meninos e lobos


“Como se fossem arrastados pelas águas turvas do rio Mystic, três amigos se veem conduzidos de volta ao passado.” O livro de Dennis Lehane, filmado por Clint Eastwood, junta, 25 anos depois, três amigos por ocasião do assassinato da filha adolescente de um deles. É um filme incrível, o livro não li. Mas lembrei-me dele por causa do reencontro, ontem, de três amigos creio que 25 anos depois também da última vez que nos vimos. E o lobo tem tudo a ver.

Ontem, ainda, antes da reunião, um telefonema. Pessoa que há 30 anos não vejo. O passado vem me visitar. Passado por quê? O vivido é presente, porque forjou o que sou hoje. E um reencontro é, mais que um reviver, é um perceber que as pessoas que nos são caras assim o são independentemente do quanto nos afastamos. Um amigo o é sempre, basta um rever para perceber.

Saber o que andamos fazendo nesse tempo, relembrar o que vivemos, rir dos episódios engraçados que na época pareceram tão trágicos. Descobrir que o tempo não prejudicou o carinho mútuo, não apagou nem diminuiu o amor intenso. E ter a certeza de que outros encontros virão, projetos poderão ser tocados, e algo pode ser construído. O tempo é relativo.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A melhor profissão do mundo

Charge: Beck (http://controversasreportagem.blogspot.com.br)

Adoro a profissão que escolhi. E agradeço à minha professora de PIP (Programa de Informações Profissionais) do terceiro ano do ensino médio, de cujo nome infelizmente não me lembro, mas recordo que era uma garota motociclista muito linda e que fazia a imaginação adolescente voar, ter me dado a dica. A disciplina visava orientar os jovens na escolha do curso superior. Nem sei se há ainda algo assim nas escolas hoje. Mas naquele tempo havia.

Um dia, ela chamou um a um para uma conversa particular. Perguntou se eu já tinha escolhido o que fazer para o resto da vida. Eu não sabia. Já tivera algumas opções. Gostava das aulas de química no primeiro ano e pensei em seguir por aí. Mas depois tive aulas de edificações e desenhar plantas baixas me encantou e tendi para a engenharia civil. Mas no ano seguinte o governo mudou a grade curricular e o colégio voltou a ser mais de formação geral, sem especificar uma área determinada. Cheguei a cursar desenho mecânico no Senai e não segui em frente. Gostava de desenhar.

Como tinha dúvidas, a professora perguntou do que eu mais gostava. Escrever e ler, disse. E também me interessava por política, uma vez que militava em movimentos sociais e fazia teatro amador meio engajado. Ela, então, juntou as coordenadas e sugeriu jornalismo... Nunca tinha pensado nisso. E comecei a amadurecer a ideia.

Um dia, na paróquia de meu bairro, aparece a Sandra Passarinho, que era da TV Globo na época (não sei por onde ela anda hoje). Foi lá entrevistar o padre, que tinha um trabalho social junto aos moradores de favela reconhecido internacionalmente. Perguntei a ela sobre a profissão, o que estudar, coisas assim. Ela me disse que um jornalista tem que estudar sempre, ela mesmo nem era formada em jornalismo, o importante era estar por dentro do máximo possível de assuntos. Disse outras coisas, mas o fundamental e que se fixou em minhas lembranças foi isso.

Fiz a faculdade, me formei e, por sorte, entrei na área em seguida. E nela estou até hoje. Sem arrependimento. Apesar de tudo que se fala hoje a respeito de nossa profissão, considero o jornalismo fundamental, uma necessidade quase básica. O que falta discutir, talvez, seja apreender o que o consumidor de notícias quer, o que espera do meio de comunicação que acompanha.

Segui o conselho de Sandra e estudei o que pude, me interessando por  quase tudo (até futebol, rs). Porque não sei de outra profissão que lhe faz um dia ouvir um presidente da República (ouvi um vice, apenas, mas falei muito com um que o seria depois...),  no outro um executivo de uma grande empresa, no seguinte um sujeito que matou a família e foi ao cinema. Portanto, você vive situações no dia a dia das redações que quase sempre são inesperadas.

Outra sensação boa é, no dia seguinte, ver no ônibus, trem, metrô alguém lendo a matéria que você escreveu, ouvir comentários, ler as cartas enviadas à redação. De uma notinha de rodapé a uma reportagem de capa, tudo é válido. E ainda tem o fato de ficar na história, como registro de um tempo. Lembro-me, com um certo orgulho, confesso, de quando soube que um cara usou matérias minhas em sua tese de doutorado em economia.

Enfim, apesar de todo estresse que a profissão traz, de condições muitas vezes insuportáveis de trabalho, de remuneração nem sempre compensadora, não sei se saberia fazer outra coisa. De tudo que já fiz na vida, esta é a que me deu mais satisfação até hoje. E gostaria de nela continuar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O prazer da leitura

Ontem, 7, terminei de ler A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge Amado, que baixei. Na comparação com o filme assistido em maio e que comentei aqui, há a adição de algumas cenas e a colocação do personagem  principal como narrador do filme. No livro Quincas não cumpre esse papel, mas há nesse um conteúdo fantasioso, fazendo com que o morto fale, mexa os olhos e a cabeça e até fique de pé no barco e de lá se lance para o mar. No filme ainda há uma maior peregrinação pelas ruas de Salvador, quando no livro há apenas uma parada em um botequim antes de o quarteto de amigos carregando o morto ir até o cais, onde se deliciaria com uma moqueca no saveiro de um pescador. Mas na essência o filme é fiel ao texto do livro, por sinal muito bom, como todos os escritos de Jorge Amado. Aliás, desde Tocaia Grande não lia nada do baiano. E agora baixei os três volumes de Subterrâneos da Liberdade, em que ele relata os duros anos da ditadura Vargas e a luta do PCB. Com isso, fico deixando para trás o Economia em Contexto e o Felicidade Autêntica, mas logo os pego. Ainda continuo a ler O Cão dos Baskevilles, de Conan Doyle, que narra aventura de Sherlock Holmes e que também baixei. Li esse livro há muito tempo, ainda na época do colegial. Era sócio da Biblioteca Malba Tahan, em São Bernardo do Campo, e devorava livros de lá. De Sherlock Holmes li todos, pois havia lá a coleção. Eu lia muito quando adolescente, porque não tinha uma turma com quem passar as horas - até tinha, mas não era sempre que me aventura a sair com eles, apreciadores de atividades não muito lícitas. O certo é que lia bastante. Era sócio também do Círculo do Livro, e comprava várias publicações, a um preço honesto. Pena que o que eu lia não era assim de qualidade muito superior. Lia muito livros policiais, de espionagem e faroeste. Os clássicos só os lia por obrigação escolar, mas gostava muito do que era colocado para leitura e futuro trabalho. Jorge Amado eu gostava muito de ler, por causa da enormidade de palavrões, o que para um adolescente é coisa de muito valor. Mas o que me deixou perplexo, nesse particular, foram os livros de Plínio Marcos. O primeiro que li dele, lá pelos 17 anos, foi Querô, Uma Reportagem Maldita, sobre um menino, filho de uma prostituta, que perdeu a mãe assassinada e foi criado na zona, antes de ganhar as ruas e se tornar mais um dos moleques sem-teto que ainda hoje habitam as calçadas. Apesar de gostar do livro pelos palavrões, o texto me incutiu um tanto de consciência social. Alguns anos depois passei a assistir peças dele,  no Teatro São Pedro, após as quais havia um debate com o autor. Eram momentos de grande regozijo. Na época do grupo de teatro Tupi, cogitamos de convidá-lo a dar uma palestra a nós, mas ele não pôde vir por problemas de agenda. Cheguei a vê-lo na faculdade, vendendos seus livros. Li muito Plínio Marcos e acho que isso veio a despertar em mim a sede por justiça social que fui saciar nos anos 80 junto à comunidade da igreja de Vila Palmares, de onde saiu o Tupi. São recordações boas, não nostálgicas, que faço lembrar para não esquecer o que sou e manter em mente o objetivo de mudar algo aí, e não apenas pelo voto. Então, voltemos ao Amado. 

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

De volta à carteira escolar

Resolvi voltar a estudar. Na verdade, essa decisão não é de agora. Tentei três vezes ser aceito como aluno especial no mestrado da USP, mas não consegui. Agora, me matriculei no curso O Pensamento Econômico: Conceitos e Evolução Histórica, na Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), ligada à Faculdade de Administração, Economia e Ciências Contábeis da mesma USP; é um curso rápido, de duas semanas, mas servirá para um melhor embasamento intelectual que me permitirá elaborar um bom projeto para nova tentativa no mestrado. Tenho interesse no jornalismo econômico, a base do noticiário onde trabalho. Estou motivado a fazer o mestrado, porque quero futuramente ingressar em uma carreira acadêmica, e acho que vou gostar e me dar  bem nessa atividade.

O jornalão deu hoje em manchete que o Serra acusou o PT de tentar intimidar e manipular a imprensa. Referia-se a seminários organizados pelo partido sobre comunicação e direitos humanos e por pontos inseridos no programa de Dilma que depois foram retirados, além de um projeto de criação do Conselho Federal de Jornalismo. A falação do candidato tucano foi feita em evento da Associação Nacional de Jornais. Não entendo por que isso deu manchete. Quer dizer, entendo perfeitamente. Mas me causa entranheza, pois a petista também estava no evento e não foi dada uma linha à sua participação. Claro, ouviram-na a respeito das falas do Serra. Entendo que, por tratar-se de algo que, em seu entender, o partido almeja, ou seja, o controle dos meios de comunicação, mas não exerce nem tem-se notícias de que queira implementar não valeria manchete. Até porque ele não falou nada de novo, esse assunto vem sendo explorado pela imprensa há meses. Então. por que tanto destaque? Para piorar o jornalão deu em  um quadro na mesma matéria que está sob censura há 300 e tantos dias. Quem não está ao par do assunto pode fazer a associação e imaginar que o governo censura o jornalão. Lamentável.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O segundo debut da filha


Minha filha fez sua estreia no movimento estudantil. Os alunos de sua universidade - parte deles, claro - estão reclamando professores, equipamentos, ampliação do restaurante e da creche, entre outros itens, e há mais de uma semana estão em greve, tendo ocupado a Reitoria. A foto mostra ela empunhando um cartaz em passeata no campus, quando se dirigiam à sala da reitora. É engraçado vê-la nesse agito, a gente inevitavelmente se lembra da mesma época, dos valores que tinha, e remete ao agora, o que ficou para trás e o que criou raízes. Acho ótimo ela ter suas visões, convicções, creio que vai consolidando sua opinião, seu modo de pensar, e assim ela ingressa no mundo adulto, onde passa a ser uma cidadã. Acho que está na hora de emprestar-lhe uns livros (rs).

Tirando isso, vale um post pra dizer que não tem novidade, que não fiz nada, que a vida seguiu modorrenta como um caravançarai no deserto? A única novidade é que voltei à cidade de Praia Grande pela primeira vez desde que meu pai, que morava lá, morreu, há quase 10 anos. Está tudo bastante diferente, e a casinha dele continua lá, agora habitada pelos enteados, acho. Fiquei triste de passar por lá, claro, mas foi bom também recordar momentos felizes passados naquele lugar, os churrascos, a casa cheia de gente, as caminhadas pelo calçadão. Frequentamos a Praia Grande desde muito pequenos e a transformação foi realmente radical, apesar de ainda não ter confiança de entrar no mar de lá. Mas ficou bonito, sim. Tomei umas cervejas mordiscando iscas de peixe com minha nova amiga e o sábado foi passado dessa forma. Já o domingo foi sem muita atividade. Fui embora à tarde para poder trabalhar à noite. No feriado do dia 21 também não fiz nada que merecesse registro.

Não me decidi ainda a abandonar a terapia; fui segunda e quinta e mais uma vez a ladainha do sono. Gostava mais quando fazia umas terapias alternativas, que incluíam florais, acupuntura, cromoterapia, aromaterapia, massagem... Saía de lá muito leve e achando o mundo uma maravilha. Mas tinha que fazer minha parte, qual seja, não me estressar à toa, mesmo que tomasse uma bela fechada de um carro. Estar naquelas sessões correspondia a sair um pouco do mundo e levitar em uma esfera superior, onde tudo era leve e as preocupações ficavam lá embaixo. Podia ser um mero paliativo, mas o bem-estar proporcionado era muito legal.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Maioridade

Não me lembro muito bem de quando completei 18 anos. Recordo-me vagamente de que me alistei, tirei documentos (título de eleitor, identidade, CPF) e estava procurando emprego, inutilmente. Era 1979. Época da discoteca, e eu era frequentador de algumas pistas, onde tentava dançar à la Travolta (ridículo, eu). Não tirei carteira de motorista de imediato, sonho de todo moleque que atingia a maioridade. Não tinha grana para isso, nem carro. Eu era um cara muito diferente do que viria a me tornar depois. Meio vagabundo, apesar de ralar os parcos músculos carregando carrocerias de caminhões na transportadora São Thomé para descolar uns trocados que garantiam a balada, o cigarro e a calça Levi's comprada na loja de fábrica, na longínqua Vila Leopoldina, zona oeste da capital, onde o preço era inferior porque havia um defeito ou outro que tirava a peça das lojas. Meu pai vivia me cobrando uma ocupação, mas idade de serviço militar era ruim para conseguir emprego, só esses bicos na transportadora. Também não ia bem na escola; fiquei em recuperação em Matemática Aplicada, no terceiro colegial, dois anos seguidos, o que, somado à reprovação da 6ª série, iria me atrasar e fazer entrar na faculdade somente aos 21 anos. Minha filha entrou com 17! Tinha uma turma de amigos ótima, mas pouco chegada a estudos. A maioria pensava em cursar Senai e ser operária. Eu mesmo cheguei a fazer o curso de aprendizagem industrial, de desenho mecânico, mas abandonei quase no final, porque não tinha como comprar o caro material. Eu queria fazer faculdade - e, claro, fiz. No 1º colegial, quando completei 18 anos, me encantei com as aulas de Química e pensei em seguir essa profissão. No ano seguinte a matéria complicou e já fiquei motivado a ser desenhista de plantas, por causa das aulas de Edificações. O problema é que essa matéria deixou de existir no ano seguinte porque o governo mudou o plano educacional e tirou a ênfase na profissionalização para manter o foco anterior na formação intelectual. E o material caríssimo todo que meu pai teve de comprar a muito custo? O mesmo material que me fez desistir do Senai, ironia do destino (pelo jeito, não era para eu ser desenhista mesmo, apesar de adorar rabiscar umas coisas...) No último ano já não sabia mais o que gostaria de ser, mas me apaixonei pela professora de PIP (Programas de Informação Profissional), uma loira que ia à escola de moto com roupas justas de couro preto que me deixava louco, eu com todos meus hormônios dos 20 anos... Em conversas vocacionais com ela, chegamos à conclusão que meu condão era para a escrita, pois ia bem em Português e Redação e adorava ler e escrever. E também já estava metido com a observação da realidade por um prisma um pouco mais político, devido às novas atividades de que comecei a participar em 1980 e que foram uma reviravolta em minha vida e no meu modo de pensar. Pois então as opções principais seriam Letras ou Jornalismo. Havia ainda Arte Dramática, pois na época fazia teatro amador. E acabei fazendo isso mesmo,  me inscrevi na Metodista de São Bernardo para Comunicação e na Fatea, de Santo André, para Educação Artística, que nem cheguei a terminar as provas porque o resultado da Metô saiu antes. Nem tentei USP porque estava afastado dos estudos havia dois anos por conta das reprovações em Matemática Aplicada (detesto matrizes até hoje). Bem, para quê estou dizendo (escrevendo) tudo isso? Porque ontem, 8 de abril, minha filha completou 18 anos, uma data importante e marcante para qualquer pessoa. Ela chega na maioridade em um contexto completamente diferente do meu. Morando em outro Estado, dividindo apartamento com uma prima, cursando uma universidade federal, em breve terá seu carrinho, mas estudando o mesmo que eu, o que eu jamais poderia imaginar que fosse acontecer, mas do que me orgulho muito, porque, apesar de tudo adoro minha profissão e acho que ela leva muito jeito para isso sim. A sensação, claro, é de que ela continua uma garotinha e morro de medo de vê-la solta nesse mundo, como já descrevi aqui. Mas a realidade é que ela está maior de idade e cada vez mais construindo sua própria vida, pavimentando seu próprio caminho nesse mundo. E precisa disso. E eu tenho mais é que ficar quieto e dar todo apoio de que ela precisar, pois assim ela vai longe, tenho certeza disso.
Ah, uma coisa engraçada: apesar de eu ter título de eleitor desde os 18 anos, só aos 21 fui usá-lo. Isabela participou de sua primeira eleição aos 16.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Tempos de estudante

Caramba, aqui na redação está um calor de 26,4 graus (sei porque tem um termômetro bem à minha frente). Não sei por que desligam o ar-condicionado bem na hora que estamos trabalhando. Falei com minha filha três vezes esta semana e ela está muito contente em sua nova vida. Já está às voltas com livros, xerox de partes dos mesmos, seminários, aquilo tudo que um universitário enfrenta e está achando um barato. O que é ótimo. Quer dizer, até o momento só curtição: cuidar de casa, pegar ônibus pra facu, conhecer gente nova... claro, lembrar-me de quando estava nesse tempo é inevitável. O curioso é ela entrar na faculdade (de jornalismo) no mesmo ano que minha turma completa 25 anos de formatura (eu só fui me formar três anos depois, por conta de reprovações em algumas matérias, mas sou da turma e vou comemorar também, ora!). O bom é que muitos dessa turma estão perto, alguns até trabalhando no mesmo grupo que eu. Agora parece que universidade que cursamos se interessou pela nossa festa e andou fazendo umas perguntas... quem sabe o que pode rolar, um patrocínio? Um livro? Espero que algo saia. Quando a faculdade de Comunicação de lá completou 30 anos houve festa e foi editado um livro, com depoimentos de ex-alunos. Uma boa idéia. Afinal, fomos de uma época boa, a da redemocratização, e a faculdade fervilhava. Foi a primeira eleição da qual Lula participou, como candidato a governador, em 1982, vencida por Franco Montoro. Lembro que houve debates entre os candidatos no salão nobre da instituição. O espírito da época era contestador, fazíamos muita agitação, greve, conseguimos até substituir o reitor, depois da ocupação da reitoria por vários dias, o que suscitou até mesmo envolvimento da polícia. Eu participava daquilo tudo, mas na manha (como se dizia na época), quer dizer, eu não era do diretório acadêmico, nem de nenhum tipo de movimento estudantil organizado, legal ou ilegal. Nesse período ainda estava nos estertores do grupo de teatro Tupi e começávamos a fazer campanha política, pois militávamos em um núcleo do PT em meu bairro e nosso esforço era para eleger os candidatos de uma chapa ampla, que ia de vereador a governador. Emplacamos apenas o vereador, pelo que me lembro. Mas o agito estudantil foi importante, acabamos criando uma cumplicidade entre a turma e outras de outros cursos na instituição e as turmas de 1982 com certeza têm um registro nos anais da universidade. Brigávamos por tudo: reclamamos do diretor da faculdade de Comunicação, queixamo-nos do valor da mensalidade, protestávamos contra a proibição do filme "Je Vous Salue, Marie", de Godard, que foi exibido em uma das salas da faculdade, à revelia (acho que foi esse, mas pode ter sido outro, não me lembro mais), o que provocou uma grande celeuma, pois a instituição é ligada a uma igreja - ah, tô evitando dizer, mas é besteira, é a Metodista, ora, todo mundo sabe onde fiz faculdade. Ah, relatar aqui tudo o que vivi nos tempos de estudante de jornalismo é trabalho para vários posts. Não sei como são os estudantes hoje, mas conhecendo minha filha sei que logo ela estará em alguma aí, pois é pessoa que não se cala ante alguma injustiça ou coisa errada.

domingo, 12 de julho de 2009

Em busca da Rosa

Tive uma grande amiga no primeiro ano do então segundo grau, há mais de 30 anos. Era amiga e confidente, cada um de nós, em sua doce e tenra adolescência, relatando ao outro as paixões e as dificuldades de as expressar e exercer. Eu gostava de uma menina da classe, mas a timidez não deixava eu fazê-la saber disso. Já minha amiga, de nome Rosa, tinha uma veneração mais, digamos, impossível: ela era doida por um cantor de sucesso à época, Glen Michael. Creio que poucos se lembrem dele, um brasileiro que tinha nome artístico e cantava em inglês, comum na época. Tem o áudio de seus principais sucessos no Youtube (imagem não). Além de falarmos sobre nossos amores, conversávamos sobre a vida, nossa visão tão espinhosa da vida. Tímidos ambos, a gente meio que se solidarizava um com o outro e éramos cúmplices recíprocos dos vacilos que cometíamos. Um dia Rosa deixou a classe da tarde, pois precisou trabalhar e transferiu-se para a noite. Deixamos de nos ver, mas passamos a nos corresponder com frequência. Cartas longas, com reflexões sobre o mundo e juras de amizade eterna. Em uma dessas cartas, a menina perguntou se nossa amizade venceria o tempo e o espaço. Não sei. Deixamos de nos escrever depois de algum tempo, não me lembro por quê. Mas eu jamais a esqueci. E neste domingo, lembrando dela, resolvi pegar as cartas, que guardo até hoje, e li algumas. E meu deu vontade de fazer algo que há tempos venho adiando. Um dia, procurei por seu nome no Google. Encontrei um de minha cidade, mas que tinha um sobrenome a mais. Julguei que se tratava do nome de casada que ela estaria adotando. Anotei esse número mas nunca tive coragem de ligar. Pois liguei neste domingo. Uma voz grave de homem atendeu. Depois de confirmar que ali residia uma Rosa, quis saber de quem e do que se tratava. Expliquei e ela chamou a esposa. A voz lembrou-me a dela, mas não posso ter certeza. Depois de explicar meu propósito, perguntei se ela havia estudado em tal escola em 1977. Frustração: ela disse que não se lembrava, fazia muito tempo. Estranhei: como alguém pode se esquecer onde estudou o colegial? Achei que ela não quis estender o papo para o marido não arrumar encrenca. Bem, vendo a pouca disposição dela, acreditei que não se trata da mesma Rosa. Estaca zero. Mas eu não pretendo desistir. Quero encontrar essa Rosa, porque uma amizade como a nossa não deveria sucumbir. E também gostaria muito de resgatar um pouco do jovem que eu fui, porque lá está a raiz de muito do que sou hoje e que tento compreender. Portanto, amiga, eu vou lhe encontrar.
PS.: Localizei outra amiga da classe, essa foi fácil. Liguei. A moça não se lembra de mim. Chato. Será que só eu guardo esse tipo de recordação?


No sábado fui ao cinema assistir a A Era do Gelo 3 em 3D. Diverti-me muito, principalmente porque a tecnologia 3D surpreendeu-me já na primeira vez que vi, lá pelos meus 17, 18 anos. A animação faz uma mistura de eras, a do gelo propriamente e a dos dinos, estes habitando o subterrâneo do mundo dos nossos heróis. Apesar de engraçado, o filme peca por exceder em algumas situações, como fazer o esquilo, agora às voltas com uma fêmea disputando seu avelã, aparecer em cena o tempo todo e com traquinagens que beiram o exagero. Fora isso, há beleza demais nos desenhos, o que o 3D ressalta e engrandece. Há bastante ação, clímax bem elaborados e perfeição em tudo. É uma superprodução que vale a pena, sim, ver.