O Barquinho Cultural

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terça-feira, 13 de maio de 2025

Morre Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai


O ex-presidente da República Oriental do Uruguai José Alberto “Pepe” Mujica morreu nesta terça-feira, 13/05/2025, aos 89 anos, em Montevidéu. "Don" Pepe, que completaria 90 anos no próximo dia 20, havia anunciado, em abril do ano passado, ter recebido diagnóstico de câncer no esôfago. Desde então, passou a ter uma vida mais reclusa, com raras aparições. Ele vivia em uma chácara nos arredores de Montevidéu. O tumor acabou se espalhando para outras partes do corpo, e Mujica vinha fazendo tratamento paliativo nos últimos tempos, segundo declarou sua esposa, Lucia Topolanksy, ao jornal uruguaio "La Diária". De acordo com ela, o ex-presidente estava em estágio terminal e recebendo conforto por parte da equipe médica.

Mujica presidiu o Uruguai de 2010 a 2015. Ele era conhecido como o “presidente mais pobre do mundo”, por seu estilo de vida simples. Dirigia um fusca dos anos 1970 e doava parte do salário para projetos sociais. Também ficou marcado pelas reflexões políticas com forte teor filosófico.

Nascido em 1935 em uma família de origem humilde, nos arredores de Montevidéu, Mujica entrou para política ao fundar o Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, grupo guerrilheiro urbano que operou nos anos 1960 e 1970 e enfrentou a ditadura civil-militar no Uruguai (1973-1985).

Sua atividade no Tupamaro lhe custou cerca de 14 anos de prisão, tendo sido preso quatro vezes, ferido por seis tiros e escapado da prisão em duas ocasiões.

Com o fim da ditadura, Mujica foi libertado e participou da criação do Movimento de Participação Popular, que compõe a chamada Frente Ampla, grupo de organizações de esquerda e centro-esquerda que levou Mujica à Presidência da República. Antes, foi deputado federal, ministro da Agricultura e senador.

Na Presidência, Pepe Mujica chamou atenção por promover uma legislação considerada progressista com a descriminalização do aborto, a lei do casamento igualitário, que permitiu casais homossexuais adotarem filhos; além da legalização da maconha.

Em 2019, Mujica foi novamente eleito senador, mas renunciou ao cargo em 2020 para evitar o contágio durante a pandemia de covid-19.

Em 5 de dezembro de 2024, durante visita a Montevidéu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condecorou “Pepe” Mujica com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração oferecida pelo Brasil a cidadãos estrangeiros. Na ocasião, o presidente da República referiu-se ao ex-presidente Mujica como “a pessoa mais extraordinária” entre os presidentes com quem conviveu. (Adaptado de Agência Brasil)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um dia politicamente correto e incorreto

Cheguei ao North Beer, zona norte de SP, por volta de 14h de sábado, 10/09/11. Mesa reservada, poucas pessoas ainda. Kotscho já lá estava, vi-o entrando quando estava ainda na calçada. Entrei de mansinho, procurei uma cadeira, coincidentemente em frente à do homenageado, ao lado de Ênio. Tímido, me sentindo um estranho no ninho; algumas pessoas me olhando, outras perguntando meu nome, de onde eu era. Marisa, que me avisara do evento e me convidara, ainda não tinha chegado, e fiquei naquelas de imaginar o que estavam pensando de mim ("mas quem será esse cara?").

Foi o terceiro encontro dos leitores do Balaio do Kotscho, blogue do veterano jornalista Ricardo Kotscho, hoje abrigado no portal R7, depois de pouco mais de 3 anos no iG. Aos poucos, mais leitores chegando, puxadas de papo, me soltando, conhecendo as pessoas. Audálio Dantas, outro veterano da imprensa, me cumprimenta. Outras pessoas também. Receptivas. Ouvindo as conversas, reconheço o Ênio ao meu lado, de ler sobre ele no blogue do Renato Rovai. Fazemos os pedidos: a maioria chope, caipirinha (de vodca, mas também pinga), Ênio pede Seleta e discorre sobre a qualidade da cana de Salinas, região mineira produtora das melhores cachaças brasileiras. Diz-se cachacista, apreciador e estudioso da aguardente, uma vez que cachaceiro é o fabricante, explica. Vou de Brahma Black, mas logo depois emendo com uma Seleta também, maravilhado com a cor amarelada observada no copo de meu vizinho de mesa. Saborosa, leve.

Kotscho levanta-se e volta com um prato recheado de tentações e, como diz uma amiga minha, gordices: torresmo, bacon, cupim, costela. Claro, não resisto. Belisco e logo depois pego minha porção também no bufê, acompanhado de um grosso caldinho de feijão. O evento é organizado pelo pessoal do Boteco do Balaio, site criado por pessoas que acompanham o blogue do Kotscho e lá costumam postar comentários e se tornou uma espécie de fórum de discussão. Mais à vontade, vamos conversando. Muito papo à toa, mas também política, claro, cultura, história, jornalismo. Agora começo a me sentir um peixe no aquário, integrado, pessoas com histórias parecidas com a minha, vivências similares, modos de pensar semelhantes.

Precisava disso, contaminado que ando por ambientes pouco a ver comigo, mas que por necessidade preciso frequentar. Nada contra, não podemos nos isolar em nossos feudos. O interessante foi constatar que são pessoas que mantêm o senso crítico, não babam ovo para o povo que está aí no poder, que muitos ajudaram a lá estar. Como mencionei em um post anterior, não me sinto parte deste governo, porque nunca quis isso, e, com esse necessário distanciamento, posso até discordar de algumas coisas que aconteceram nesses oito anos e nove meses de PT no Planalto.

Mas não é sobre isso que quero falar. É sobre a lufada de ar puro que lá respirei, o estar em um ambiente do qual me isolei já há algum tempo e estava me fazendo falta. Sempre falo que os jornalistas hoje estão um tanto caretas. Pelo menos em relação aos da época em que comecei. Não fumam, não tomam pinga, não comem porcarias de botequim... muito politicamente corretos para meu gosto. Muitos nem saem da  redação mais, tudo na base do telefone, e-mail, MSN e outras tecnologias que permitem o cumprimento de vinte pautas em um dia. E lá estavam Kotscho e Audálio, entre outros, de grandes reportagens, de fôlego, como se dizia antes. Quando você podia mandar o repórter para longe e deixá-lo uma semana para voltar com uma grande matéria. O Kotscho, entre tantas outras, veio com uma que popularizou o termo "mordomia". O Audálio descobriu no Canindé a Carolina Maria de Jesus, catadora de lixo, cuja história foi eternizada no livro Quarto de Despejo, que li lá pelos meus vinte anos de idade e me marcou muito.

Sei lá, há ainda grandes reportagens nos meios de comunicação, nada de nostalgia do tipo "no meu tempo era melhor". Apenas os tempos mudaram. E ponto. Digamos que, por vivermos em um período de trevas (outra expressão bem datada), a realidade era meio escondida, e os jornalistas se esforçavam para quebrar esse bloqueio e trazer à luz que o tal milagre brasileiro era coisa para inglês (americano?) ver. Sim. Delfim fez o bolo crescer um pouco, mas já dividir... Lembra uma música que cantávamos no coral da igreja, de uma das Campanhas da Fraternidade da CNBB: "Meu irmão eu vi plantar/ meu irmão nos deu o pão/ mas na hora de jantar/ não chamaram meu irmão" (Esta mesa nos ensina). Comparações com os dias atuais ficam em aberto.

Lá, no almoço, foram feitas muitas, contadas histórias incríveis; eu ouvinte, pouco a contar, deslumbrado? Um pouco, mas mais reverente e respeitoso que aparvalhado. Afinal, em meus 23 anos de profissão, convivi com muitas feras e me orgulho disso; a gente aprende vivendo com os bambambans (e com os babacas também). Mas nem tudo lá era nostalgia, afinal, a gente vive o presente e nosso ofício exige estar sempre atualizado. O bom disso foi eu sair um pouco da toca que me impus, e voltar à rua me deu novo ânimo, vontade de escrever, de fazer coisas. Isso já se desenhou há pouco tempo, quando resolvi voltar a estudar, um curso básico de economia, na Fipe, nada que eu não já tenha visto, mas importante para desembaraçar certos conceitos e, melhor ainda, conviver com colegas e professores. Ouvir pontos de vista diferentes dos meus, discutir, aprender, sonhar com voos mais altos - meu projeto de cursar um mestrado ainda está de pé, quem sabe não consiga ano que vem...

Foi um belo sábado, concluído com a ida ao teatro, ver Trair e Coçar É Só Começar, que imagino ser um dos poucos brasileiros que ainda não a tinha visto, 25 anos que está em cartaz esse texto do global Marcos Caruso. Pena que dormi tanto na apresentação que nem acompanhei adequadamente os quiproquós em cena, mas ao final, já desperto, o ritmo estava mais agitado e permiti-me rir um pouco. Interessante foi ver um grupo de portadores da Síndrome de Down na plateia. Acho que algum instituto ou algo assim os trouxe. São adoráveis. Coincidência, quando me dirigia ao restaurante, ouvi no rádio entrevista com o criador do blogue Mano Down, Leonardo Gontijo, que conta suas experiências com o irmão mais novo, o Dudu. É. As coisas se intercalam, dizem que coincidências não existem, se conectam. O fato é que adorei este sábado. E de quebra ainda descolei uma bela dedicatória do Kotscho em seu livro Do Golpe ao Planalto, que darei de presente a minha filha Isabela, futura colega.

P.S. Por sugestão do leitor Rafael Campos, paragrafei o texto para ficar mais fácil de ler...Agradeço a sugestão.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Militância

Fui a um comício do PT sábado em Mauá. Fazia tempo não participava de um. Veio à lembrança, claro, meus tempos de militância, quando saía da faculdade e corria para o núcleo do partido de meu bairro, em Santo André, onde organizávamos a campanha. Isso foi em 1982, há muito tempo. Éramos, a maioria, estreantes na atividade política e muito românticos em nossa atuação. Nossos recursos eram escassos. Lembro que, para fazer santinhos, tínhamos uma espécie de carimbo com os  nomes dos candidatos. Carimbávamos folhas de papel e distribuíamos nas feiras e de casa em casa. Para pintar muros, a gente tinha o Hércules, rapaz de grande talento e excelente traço, que fazia cartazes e pinturas diferentes nos muros, todos com autorização dos donos. Lula concorria ao governo do Estado. Ficou em terceiro lugar, sendo eleito Franco Montoro, com Orestes Quércia de vice. Mas emplacamos o Fernando Galvanese como vereador, aliás, duas vezes, mas na segunda ele foi ser secretário de Saúde de Celso Daniel. Naquela eleição, o voto era vinculado, ou seja, o eleitor tinha que escolher todos os candidatos do mesmo partido, o que dificultava as coligações. Ainda não se votava para presidente nem para prefeito de capitais e outros municípios estratégicos. Ainda havia ditadura e a gente às vezes tinha que correr da polícia, porque atividades como panfletagem, pintura de muros, colagem de cartazes eras proibidas. Mesmo assim a gente dava um jeito, e fazíamos as atividades à noite. Por isso saía da faculdade e ia à luta. Fui a muitos outros comícios nessa minha militância. Mas este me surpreendeu pela qualidade do material. É, em 30 anos o partido cresceu, é governo há dois mandatos, governa inúmeras cidades e alguns Estados, e o dinheiro pelo jeito está farto. Um dos amigos da época da primeira campanha hoje é candidato a deputado estadual, o Carlos Grana, que, por uma dessas coisas do destino, fazia na peça A Invasão, que montamos com o grupo Tupi em 1981, o papel de um deputado, mas, na peça, um grande sacana aproveitador e corrupto. Grana não será como ele, sem dúvida. Foi bom ter ido ao comício, e até me dá vontade de militar novamente, entregar panfleto, falar com as pessoas. Vamos ver se me animo a fazer isso.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Trinta anos da estrela

  • Nesse último dia 10 de fevereiro o Partido dos Trabalhadores completou 30 anos de fundação. Eu não poderia deixar de fazer um registro a respeito, uma vez que vivenciei sua formação e até trabalhei para uma administração e para seu diretório nacional. Estávamos nós, do grupo Tupi (Teatro Unido Popular Independente), em plena atividade, na temporada de nossa única montagem, A Invasão, de Dias Gomes (adaptada pelo grupo), quando o Grana, o mais novo da rapaziada, veio me falar da ideia de o "movimento" organizar um partido político, aproveitando a abertura que permitia o fim do bipartidarismo (até então, havia apenas a Arena e o MDB).
  •  Eu estranhei aquilo, não fui a favor, achei que ia desmobilizar todos os movimentos sociais que havia, canalizados todos para a atividade partidária. Bem, se isso aconteceu ou não, não posso dizer com certeza, mas no microcosmo do qual eu participava vi o teatro desaparecer, e nossos integrantes passarem a ser militantes do partido. Mais tarde, na primeira eleição, em 1982, eu fiz fileira no núcleo que se formou no meu bairro, a Vila Palmares, em Santo André, e fizemos campanha.
  •  Foi uma campanha bem diferente, com as ilustrações bonitas de Hércules nos muros em vez de pichações comuns, com abordagens de "conscientização" em vez de apenas jogar santinhos e panfletos nas ruas, trazendo pessoas para debates e conversas no núcleo.
  •  Foi um tempo muito bom; saía da faculdade e ia lá para as atividades, geralmente sempre de noite, para a polícia não pegar (lembre-se, era 1982, a ditadura ainda estava de plantão). Algumas vezes tivemos mesmo de correr das baratinhas (os fuscas da polícia) e largar baldes de cola e cartazes pela calçada.
  •  Da chapa que apoiávamos, que ia de governardor (Lula) a vereador, conseguimos eleger o vereador do bairro, o médico sanitarista Fernando Galvanese, que viria a ser secretário de Saúde assim que foi eleito prefeito o Celso Daniel, em 1988. Antes, fizemos novamente a campanha de reeleição do Galvanese e ele foi novamente ocupar a cadeira na Câmara.
  •  Era um tempo até meio ingênuo, pelo menos para mim, novato em política, e recém-saído do Exército, onde a doutrina era de ser contrário a tudo que cheirasse a oposição. O partido, nesse período, era um ambiente de formação política, onde conversávamos com pessoas mais experientes e tarimbadas nos meandros da política, que sabiam tudo de campanha, sementes ali plantadas que depois germinaram e deram no que deu.
  •  Eu confesso que nunca imaginei que o partido fosse chegar à Presidência, não por incompetência de seus quadros, mas por achar que a ordem estabelecida não permitiria, afinal, estavam aí 20 anos de golpe militar para desanimar. Mas o pessoal era aguerrido e teimoso e realmente acreditava nessa possibilidade.
  •  1985 veio confirmar essa possibilidade, com a conquista da prefeitura de Fortaleza, e, em 1988, de outros governos importantes, como os de São Paulo, Santo André, São Bernardo, Campinas e Porto Alegre, entre outros.
  •  Em 1989 vou trabalhar na Prefeitura de Santo André, na Assessoria de Comunicação, atendendo diretamente a Secretaria de Saúde, cujo titular era, como disse, o Galvanese. Foi uma ótima oportunidade de ver como funciona um governo por dentro e de poder pôr em prática alguma coisa que a militância tanto clamava.
  •  Foi e é difícil. As forças que atuam na sociedade são muitas vezes antagônicas e nem sempre basta boa vontade para conseguir implementar uma boa ideia. Deu para ver o que é realmente a política na prática, eu que a conhecia até então apenas no discurso e na teoria, apesar de ver como as coisas eram na realidade, no dia a dia.
  •  Apesar disso, os dois mandatos do Celso consecutivos tiveram muitos êxitos. Em 1995, com a derrota do PT na prefeitura, acabei exonerado, num esforço da administração do PTB em anular o concurso que eu tinha feito e que permitiu minha contratação.
  •  Voltei a ter contato direto com o partido em 1996, quando fui trabalhar no seu diretório nacional, para atuar no grupo de trabalho eleitoral. Passadas as eleições, trabalhei no projeto de um jornal nacional, o ptnotícias, que acabou saindo quinzenal, quatro páginas em formato standard. Acho que esse jornal nem existe mais, mas foi bom fazê-lo, apesar de todas as dificuldades que enfrentávamos, de falta de pessoal, de recursos. Mas o pior era atender a todas as tendências agrupadas no partido, sempre havia alguém que reclamava da linha de determinada matéria, por mais isento que eu procurava ser. Até o dia que me enchi e saí de lá, em 1998.
  •  Três anos depois o PT conquistaria a Presidência. Não lamento. Acho que de fora eu pude até acompanhar melhor o partido. O curioso, e que aí sim lamento, é que muitas vezes eu tentava ouvir algum dirigente para uma matéria e era uma dificuldade. O próprio Lula nunca consegui entrevistar lá. Agora, quando fui trabalhar num jornal comercial, esse pessoal falava comigo sem frescura. Até com o Lula cheguei a ter rápida entrevista. É... santo de casa não faz mesmo milagre.
  •  Bem, a sensação que tenho, passados esses 30 anos, é que o PT que vi nascer e esse que está aí há oito anos no comando do País guardam muitas diferenças, mas também bastante semelhanças. Mas eu também mudei muito minha cabeça, minha maneira de pensar. Nunca fui um radical, sempre um moderado, e esse PT está mais para o que eu sou hoje do que aquele que cresceu com um discurso feroz e visceral, gritando contra coisas que eu nem entendia direito, como  Fora FMI.
  •  Mas, de maneira geral, não me sinto partícipe desse projeto, porque em determinado momento de minha vida optei por guardar certa distância, por não me sentir dentro do perfil de um militante típico ou um quadro partidário.
  •  Acho que é porque sempre preferi a liberdade de pensar da maneira que quisesse e tinha pouca vontade de defender meu ponto de vista. Ou seja, fui coerente com meu pensamento inicial, quando o amigo falou-me desse projeto que completa agora a terceira década. Então, feliz aniversário, companheiros!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Um fim de semana agitado

Esse fim de semana foi agitado. Fiz um monte de coisas. Tirando as férias, havia tempo não tinha um fds com tanta programação. Acho que gostei da experiência e pretendo repeti-la: não mais ficar trancado no apartamento, se bem que vez em quando é bom um resguardo, para ler, tocar o violão, ouvir discos novos e antigos, escrever, ou ficar com minha filha contando a ela as histórias que ela quer conhecer. Bem, mas esse fim de semana eu saí com a Ana Isabela. Fomos na sexta-feira ao show do Del Rey no Studio SP, na Augusta. É um pessoal de Pernambuco que toca músicas do Roberto Carlos de uma maneira muito legal, uma pegada bem rock e um ritmo mais frenético. Fica muito bom. A casa estava lotada, difícil de se movimentar lá, mas com jeitinho dava para ir ao banheiro e ao bar pegar uma cerveja (muito cara, aliás, como é nesses locais). Os caras tocaram por mais ou menos duas horas, tendo começado por volta de 2h, apesar de estar programado para a 1h. A baiana Pitty deu o ar da graça e cantou uma música com o China, o vocalista da banda. Muita gente jovem, mas eu não me senti tiozão não, apesar de o ambiente ser meio fora do que eu costumo frequentar. Mas gostei; se rolassem uns eletrônicos sem cérebro eu chiaria, mas a picape soltava só MPB de boa qualidade, coisa interessante pra caramba!

No sábado, uma chuva torrencial desabou sobre São Bernardo (acho que por todo o Estado também) bem na hora que íamos ao cinema. Bom que assim que estacionamos o temporal parou, e só ficou uma chuvinha fina. Depois de degustar um festival de carne em um restaurante rodízio, fomos ver o Lula, O Filho do Brasil. Há algumas coisas a se falar dessa obra de Fábio Barreto. Como cinema, é excelente. Tem uma boa história, personagens marcantes, intérpretes de altíssima qualidade, ótima carga dramática, ou seja, uma história para se assistir e sair de alma lavada. Mas não se pode resumir à discussão cinematográfica. Sem entrar no mérito das críticas que o acham eleitoreiro (só digo uma coisa, não acho; ora, desde quando Lula precisaria de um filme para se eleger para qualquer coisa, e tem ainda que ele não é candidato a nada no momento), pois bem, sem entrar nesse mérito, eu penso que o filme romanceou demais a vida do homem que se tornou o presidente do Brasil e deixou a política um pouco de lado. Eu, sinceramente, preferiria que se fizesse um bom documentário sobre o fenônemo Lula, porque justificaria, afinal, raros são os homens que tiveram ou têm a trajetória dele. As gerações atuais, pessoal na casa dos 20 a 30 anos, talvez não compreendam bem o que significa essa figura, e um bom documentário ajudaria a entender não só o homem, mas também o país. Não é o momento certo? Ora, para cinema, o momento é o da vontade e da oportunidade de seu realizador. Acho que nesse ano final de mandato, quando o correto seria se fazer um bom balanço dos dois mandatos de Lula, o filme vem a calhar, mas, insisto, seria muito melhor um documentário, não uma ficção "baseada em fatos e personagens reais". Mas gostei do filme, porque ele dá uma mostra pequena dos fatos que forjaram esse homem singular. Como não poderia deixar de acontecer, emocionei-me muito com as cenas de fábrica, de greve, as assembléias, passeatas. Lembrei-me, inevitavelmente, das coisas que já mencionei quando falei pela primeira vez do filme: meu tempo de milico, o medo de ter de enfrentar a peãozada, considerando minha família ser constituída por operários, muitos de montadoras e outras metalúrgicas. Aí depois veio à lembrança o período posterior, quando eu já estava metido nesses movimentos, apesar de não ser metalúrgico, mas bancário. Mas participávamos do fundo de greve, que visava arrecadar grana para o pessoal poder comer enquanto estava em greve e o salário não era depositado. Até aprendi, porque quando chegou minha vez, fiz greve com convicção no banco, aliás, uma greve de nove dias vitoriosa, que ganhou até apoio da população, que não imaginava que nós éramos tão explorados (vai ver o pessoal via a gente lá de gravatinha e as meninas todas pintadinhas e bem-vestidas e achava que ganhávamos muito bem!). O chato foi que na segunda greve eu já era cargo de confiança e dancei, mas esta é outra história. Eu vi diversas vezes o Lula nas assembléias da Vila Euclides, e o ator Rui Ricardo Diaz representa direitinho a voz e os trejeitos do líder sindical. Só ficou mal aquela mão  meio virada para simular o mindinho decepado. Agora o Lula marido eu sei lá, não posso acreditar em um Lula tão romântico daquele jeito, tão doce com as esposas... Sei lá, a impressão que tenho, das vezes que tive contado pessoal com ele, é de que ele é não grosso, mas um machão como muitos homens de sua geração. E há ainda a omissão de seu envolvimento com a Miriam Cordeiro, aquela usada por Collor em 1989 para desacreditá-lo. Miriam é mãe de Lurian e disse que Lula sugeriu que abortasse, depoimento dado em horário eleitoral que abalou muito a candidatura do Lula. É mesmo incompreensível essa omissão. Quanto ao Lula doce, bem, acho que quiseram mostrar que, diante de um pai como o dele, decidiu ter um comportamento diametralmente oposto com as mulheres. Faz sentido, mas não vejo verosimilhança. Mas faltou explorar mais o lado político, expor a formação política do Lula, porque lá limitou-se a apontar cenas de injustiça que ele presenciou e a gente tem que supor que foi isso que trouxe-lhe a consciência política. Ora, todos sabem que ele era um quase alienado antes de assumir uma diretoria no sindicato, que seu ingresso nesse mundo foi por meio de seu irmão Frei Chico. Ou seja, o filme não explica o fenômeno. Será que é porque não há explicação? Mas é um bom filme, repito, que vale a pena ver e que valeu a pena ter sido feito.

No domingo, novamente no cinema, para ver Avatar, de James Cameron. Vimos a versão em 3D. Uma perfeição, diversão garantida. Um roteiro convencional, a eterna luta dos fracos contra os poderosos gananciosos que querem explorar as riquezas minerais de um planetinha perdido no espaço. Mas os efeitos visuais são de tirar o fôlego. O filme mistura atores com animação e o resultado é de cair o queixo. É diversão pura, cinema hollywoodiano na essência, e um campeão de arrecadação, conforme dizem os jornais. Os efeitos de terceira dimensão também são perfeitos. Ele lembra um pouco do Era do Gelo 3, ao misturar dois mundos, no caso deste, a selva é habitada por seres vindos diretos da nossa (da Terra) pré-história e ETs e seres estranhos, como cavalos com cabeça de tamanduá e seis patas. Aves com quatro olhos.. É engraçado. Valeu o preço do ingresso, e também é altamente recomendável.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O filho do Brasil


Invade-me grande curiosidade de assistir ao filme Lula, o filho do Brasil, de Fábio Barreto, que conta a história do líder sindical Luiz Inácio da Silva, o Baiano, desde sua infância em Pernambuco até a primeira prisão nos anos 70/80, com cenas adicionais de sua posse como presidente da República em 2003. O filme foi exibido no Festival de Cinema de Brasília na noite do dia 17 com bastante repercussão e grande número de presentes. Deve ser projetado no conjunto Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, no dia 28, com a presença do próprio biografado. Estreia em circuito comercial (fala-se em 500 salas) em janeiro de 2010. Por que a curiosidade? Porque, além de Lula ser uma figura singular na política brasileira, e que por isso mesmo a exposição de sua história, ainda que com forte carga dramática, como o próprio diretor admite, suscite curiosidade, há aspectos de minha própria vida que têm correlação se não com a trajetória dele, pelo menos com um certo espírito de época, pois em certos momentos bebemos da mesma fonte. Filho de operário do setor automobilístico no ABC paulista, em 1980 eu estava servindo o Exército no Tiro de Guerra de Santo André. Fazíamos treino de tiro em São Bernardo. O clima na época era quente: greves, manifestações, assembleias, piquetes... Eu não entendia daquilo e não me importava muito com o assunto não. Minhas preocupações eram outras: garotas, bailes, roupas de grife, tênis incrementados. Meu pai não era do movimento sindical, e não ia muito com a cara do Lula. Mas havia outros metalúrgicos em minha família, tios, primos, e alguns deles iam às assembleias. E um dia, indo de caminhão ao campo de tiro, passamos pelo Paço Municipal de São Bernarndo bem no momento em que havia uma assembleia. Quando o caminhão passou ao lado da peãozada, a tensão podia ser sentida no ar. E eu pensei: e se tivesse que enfrentar esses trabalhadores? Sim, porque no quartel se falava que a situação estava ficando perigosa e podíamos ser convocados a agir. Imagina eu tendo que atirar em um parente meu que ali porventura pudesse estar? Esta foi a primeira centelha de consciência social de que me lembro ser invadido. Pouco depois já estava totalmente envolvido com o que se denominava então "movimento", por meio de grupo de jovens, depois de teatro, em seguida militando em um partido político e, após muita luta, atuando em um governo municipal, senão como formulador de políticas, ao menos como um trabalhador de comunicação tentando difundir a uma população ainda desacostumada com a democracia o significado de uma gestão cidadã. Hoje não tenho mais nenhuma forma de militância, mas a semente germinou e minha cabeça funciona no sentido de defender a liberdadade e os direitos fundamentais, coisas que nos foram negadas por muito tempo, apesar de eu não ter vivido essa época para testemunhar, mas que, depois de muitas leituras e outras formas de obtenção de informação, sei que não podem retornar. Então ver esse filme será reconstituir a trajetória de quem foi um dia desligado dessas coisas, não por vontade própria, mas porque o regime militar soube ser eficiente, e despertou para a vida democrática e a luta por ela, com a diferença de que o Luiz Inácio fez da luta a sua razão de viver, enquanto eu apenas tomei essa como uma visão de mundo, da qual não me arrependo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sem medo de ser feliz

Esta foto na coluna aí do lado, do Collor de Mello abraçando o Lula, me fez recordar aquele período, da campanha presidencial de 1989. Eu era um jornalista recém-formado e estava trabalhando no Diário Popular (hoje Diário de São Paulo), depois de um breve período no Estadão. O clima era de festa: a real possibilidade de um operário chegar ao poder - aliás, o fato de ele ser candidato já era motivo de comemoração, recém-saídos de uma série de governos militares que éramos. E Collor representava os oligarcas nordestinos, um ser que ninguém sabia de onde tinha saído, uma esperança, sim, mas uma incógnita. Bem, o que importava é que tinha que eleger o Lula, o operário de nove dedos nas mãos. Eu, nessa época, depois de uma militância mais ou menos firme em entidades consideradas à época de esquerda, sentia-me na obrigação de fazer a campanha e de torcer pelo Lula. Tudo bem, eu realmente achava que seria muito bom para o país essa guinada. Mas confesso que não tinha bem claro qual era o programa do PT para o país. Imaginava que seria uma ampliação dos projetos que vinham sendo tocados nas administrações municipais que o partido abraçou, sendo o caso de São Paulo, com Luiza Erundina, o mais emblemático então. Também não me importava em entender o que seria um programa de governo, pois confiava naqueles homens e sabia que a gestão seria popular, voltada às camadas mais pobres da população e muito melhor que qualquer governo militar ou do Sarney. Mas aconteceu tudo que a gente sabe, o Lula perdeu esta e outras três eleições antes de chegar lá e eu vejo com um certa ar de nostalgia essa foto. Antes da foto, vimos a aproximação desta administração com aqueles que no passado recente eram combatidos pelos atuais governantes. Apesar da militância, não posso dizer que entendo muito de política, ou pelo menos da práxis política ou do mero pragmatismo. Mas aprendi que a política e a administração pública se fazem com alianças e que não há inimigos nessa seara, apenas adversários, que o de hoje pode ser seu aliado amanhã. E isso não creio que seja errado. Faz parte do jogo democrático. E permite que a convivência seja cordial na medida do possível, senão seria um tal de se matar inimigos que acabaríamos vivendo numa barbárie, ou numa ditadura. Portanto, se o afago de Collor a Lula de um lado choca, de outro mostra que esse Brasil é justo. E cínico.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Boas notícias



Hoje sexta-feira, 9 de maio, 9h11. Aula de inglês foi cancelada, professora não pôde vir... e eu me matei para dar conta do calhamaço de exercícios que ela passou para o feriado e eu deixei para os últimos dias... Isso me fez dormir muito pouco ontem, menos de três horas. Mas estou bem, como sempre ocorre às sextas-feiras. Hoje à noite tivemos nova rodada de pizzas, desta vez até a nova diretora participou, ela que aqui veio para falar de projetos novos. Bem, notícias boas nestes dias: o pai e a madrasta de Isabella tiveram a prisão preventiva decretada porque o juiz Mauricio Fossen, do 2º Tribunal do Júri aceitou a denúncia do promotor Francisco Cembranelli se entregaram. Demos cobertura da ida deles ao IML e volta ao DP, material que foi elogiado. Esta madrugada, Anna Carolina foi transferida do Carandiru a uma unidade prisional em Tremembé, porque estava sendo ameaçada pelas outras prisioneiras.
DILMA DÁ BANHO?
Todo mundo - ou quase todo mundo - deu que Dilma Rousseff deu um banho em seu depoimento ao Senado quarta-feira, 7, porque, depois da pergunta infeliz do senador Agripino Maia (DEM-RN), ninguém mais teve moral (ou clima) para pegar no pé da dona. Dora Kramer diz no Estadão de hoje que ela deitou e rolou porque realmente a oposição não estava preparada e a bancada situacionista se fez de morta. Para o jornalzão centenário, ela aproveitou a maré favorável e falou o que quis, do jeito que quis, sobre o tal do PAC, que, segundo o editorial, "é um dos mais robustos engodos que um governo já tentou impingir aos brasileiros". Na carne! Lula vibrou com o "desempenho" da ministra-chefe, e tem-se que a investigação sobre o suposto dossiê dos gastos de FHC é assunto enterrado (se bem que hoje os jornais dêem que a Casa Civil identificou o vazador do documento, uma cria de Zé Dirceu chamada José Aparecido Nunes Pires). Esse assunto, ao que parece, é pão amanhecido, e a bola da vez é o sindicalista Paulinho da Força, suspeito de ser beneficiado com grana desviada do BNDES. Já se fala até em abrir processo de cassação do pedetista na Comissão de Ética da Câmara (que esta semana perdeu seu presidente, Ricardo Izar). Hoje deu que a ONG presidida pela mulher de Paulinho, Elza, a Meu Guri, recebeu R$ 1,199 milhão do banco de fomento. Melhor chamar a ONG de Meu Dindim...
MEIRELLES FORA DO BC?
Assunto que agita o mercado hoje é a possível (ou provável, ou suposta, ou?) saída de Henrique Meirelles do Banco Central para disputar o governo de Goiás em 2010. Até agora, não vi muita repercussão, ontem o Bernardo deu um desmentido. E hoje o Credit Suisse demonstrou preocupação com isso, porque não haveria "sucessor óbvio" para ele. A matéria é do Correio Braziliense, acho que do Vicente. Não sei se rende, mas se for rolar, será no segundo semestre de 2009 ainda, muito tempo para se arrumar as coisas...
O país fez captação externa de US$ 525 milhões, a primeira após o upgrade dado pela Standard & Poor's, a uma taxa a mais baixa que o Brasil já pagou para um título de dez anos. E o assunto que está na pauta é também o tal fundo soberano que o governo estuda criar, para ser um dos canais de financiamento de empresas brasileiras no exterior, processo hoje muito complicado e sujeito a taxações dispendiosas. A coisa deve aparecer até o final de junho. A ver.
E a inflação sobe a montanha. Ontem o IGP-DI já cravou dois dígitos, quando computado o índice acumulado em doze meses, pela primeira vez desde 2005. Hoje o IGP-M apontou a mesma tendência e o IPCA, também em doze meses fechados em abril, deu 5,04%, mais de meio ponto acima do núcleo da meta (4,5%). Dentro ainda da banda (dois pontos acima ou abaixo do núcleo). Mas aponta a pressão dos preços dos alimentos, fator que vem impulsionando a inflação praticamente no mundo todo. Mantega (ministro da Fazenda) disse na TV ontem que não adianta elevar juros, tem é que aumentar a produção de comida. Mais uma estocadinha dele na política monetária do Meirelles e cia.
GO HOME
Hora de pegar a estrada e ir para casa.