O Barquinho Cultural

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Catarina Dee Jah: Vem de Olinda a surpresa!

“Cata, cata, cata, cata, cata, Catarina / Eu bem que te falei pra não bulir com estricnina” (Amufinada)

Ela vem de Olinda. A surpresa. Frevo? Caboclinho? Não, mas sim! É isso, não há como não notar nas entrelinhas, entretons, algum sinal. Influência. Mas, só que não. A fonte dela é o mundo. Lusamérica latim em pó. Mangue beat de Chico Science e Mundo Livre S/A. É pop, mas também é coco, é cumbia, xote, reggae, e brega. Sim!

Ao ouvi-la pela primeira vez, na Festa da Shana, na Saravejo, a mistura bem misturada, as bases criativas, a postura... Senhora de si. Bradando contra o feminazi. Ela canta, aí faz a festa. Traz vinis (sim, em plena era i-tudo, ela vem com seus bolachões) de todo o Norte, todo o Nordeste, relembra Eliana Pittman e seu carimbó, sirimbó.

Traz de Olinda a surpresa. Pra nosso deleite, nós, paulistanos, cansados da mesmice, da mediana média que sem medida nos mede qual medíocres. Ela não. Traz alegria, essa alegria quente, regada a caldinho de codorna. Com cachaça. Mas não se presta a ser apenas mulher tira-gosto. Postura.
Catarina Dee Jah, ou MC Ririca, ou Riddin... Ela agora está de vez em São Paulo. Vem cavar seu espaço, que já o tem.

A agenda está boa. Apresenta-se agora três vezes no evento da Prefeitura de São Paulo Mês da Cultura Independente. Toca em outros points também. É ir ver, ouvir, dançar e pirar.
Catarina, somsual. Vulvas em fúria. Agora, take it easy. Se você a incomodar, ela manda você se ferrar e tomar no ...

Quer saber a biografia dela? Dê um Google, veja seu charmoso site. Lá tem o Mulher Cromaqui – seu primeiro trabalho (em sua definição, ‘um trocadilho, uma ironia com toda essa exaltação e frenesi às mulheres frutas, as aberrações do mundo onde tudo é manipulável e efêmero’) -  para baixar. Aqui, a entrevista que ela, carinhosamente, concedeu ao blog. Vamos conhecer um pouquinho de seu pensamento, de seus planos.

BLOG POR BLOGA - Você está se estabelecendo de vez em SP? Quais suas expectativas em relação à cidade?

CATARINA DEE JAH – Eu já conheço a cidade, desde 1998 que eu venho pra cá, uma cidade que eu sinto que as pessoas... a praia do paulista é a cultura, e eu trabalho com cultura, então eu sinto que há um feed back maravilhoso aqui e, além de tudo, uma valorização do trabalho. Se você vem focado em trabalhar de maneira honesta você se desenvolve. A cidade te dá essa oportunidade. Eu vim de uma cidade menor, uma cidade pequena, de muro baixo, onde o profissionalismo não fala tão alto, na verdade eu acho que as relações são mais importantes do que o profissionalismo, e o que eu gosto em São Paulo é que ele sempre me dá um choque, uma maturidade muito boa, eu dou uma crescida muito grande. Tem muitas oportunidades aqui, eu estou a fim disso neste momento.

BLOGA - O que pretende fazer aqui: mais festas, discotecando e cantando? Promover seu CD?

CATARINA – Eu lancei um disco independente (Mulher Cromaqui), e foi um disco que foi bem recebido, e eu acho bem louco porque os dados são bem díspares assim, um disco que teve 13 mil downloads nos primeiros seis meses, eu não avaliei ainda com o cara que agenciou o site para saber como é que está, mas foi um disco lançado totalmente independente e atingiu essa casa dos 13 mil downloads em seis meses, eu acho louvável, você, sem pagar uma estrutura de assessoria de imprensa e coisa e tal. E aí o que eu faço? Não estava conseguindo trabalhar lá em Pernambuco, porque é uma cidade que é distante desse eixo, e os festivais estão muito morgados, no Brasil os editais estão muito caretas, então eu resolvi vir pra cá e refazer esse começo que eu vivenciei, que era da Milícia dos Radicais Livres, que era uma milícia musical, músicos que tocam comigo, e é sempre um recomeço você readaptar as músicas, sair um pouco dessa zona de conforto. Além desse formato com a banda, eu estou com um formato digital, que é a MC Ririca, que é mais baile e bases eletrônicas, e tem o Riddin, que eu eu chamo de ‘Riddinculous’. São bases que eu produzi com amigos da Argentina, de alguns selos de lá, também são produzidos com um cara do Equador aqui de São Paulo, e algumas bases que eu reeditei com meu DJ, que ficou em Recife. Fora isso, tem também o trabalho de pesquisa musical, eu tenho um acervo de vinis, tenho discotecado aqui em algumas festas e também trabalho com MP3, eu estou  pra tudo, estou fazendo jardinagem... Só não sei bater laje (ela não falou, mas me mostrou: também desenha, faz ilustrações, um traço muito bom).

'Tem que haver mais amor e compreensão'


BLOGA - Como vê a cena independente atual? Você criticou em uma entrevista a “lenda urbana dos editais”, o investimento maciço em “arenas”, que chamou de retrocesso, a subutilização de espaços, só ocupados em época de carnaval... O artista tem que cavar seu próprio espaço? A coisa está muito “mainstream”?

CATARINA – Cara, dizem que a indústria das gravadoras está em ruína, mas eu acho que na verdade se apropriaram dessa revolução digital, se apropriaram de algumas coisas, de alguns canais de divulgação que a gente tem hoje em dia e as coisas não mudaram pouco. Os editais, que antigamente eram fomento, estão sustentando e sub-sustentando artistas que eram de gravadoras até então. E as pessoas que estão começando e que realmente têm um trabalho independente não têm muita vez. Fora que há uma nova MPB, não sei, que eu acho que são pessoas extremamente competentes, tocam bem, cantam bem, tem estrutura, mas que não emocionam, parece que fazem uma música no formato para tocar na Nova Brasil FM, e é uma rádio que de nova não tem nada, porque toca o quê? Música de 20, 30 anos atrás ou releituras dessas músicas. Então a gente ainda tem essa deficiência do rádio. E eu acho que em São Paulo, apesar disso, você tem muito acesso a investimentos da iniciativa privada, que é uma coisa que falta lá no Nordeste, e existe uma cena independente que consegue se sustentar também. Tem estúdios aqui que você pode ensaiar e tocar e tirar uma grana com a bilheteria. Tem casas que têm uma estrutura profissional; é só uma postura de você saber também criar uma estrutura profissional para lhe acompanhar, não abrir mão muitas vezes de um técnico de som, está entendendo? Ensaiar bem, ter bons músicos, parceiros. Tem a estrutura do Sesc, que é um grande diferencial aqui em São Paulo, a estrutura do Sesc em outras cidades é subutilizada, o único lugar que eu vejo que acontece isso no Brasil é aqui. Ao mesmo tempo, o Sesc de São Paulo fica com a arrecadação quase toda do Nordeste. A gente estar tocando aqui não é nenhum favor também.

BLOGA - O que quer dizer com “feminismo bem-humorado e passional”? O que quer dizer isso? Alguma observação a respeito do tom do movimento feminista?

CATARINA – Na verdade eu acho que tanto o feminismo como o machismo está numa crise de identidade imensa. Eu adoro regalia que o machismo me dá, por exemplo, o cara pagar a conta do motel, do jantar, abrir a porta, puxar a cadeira para eu sentar, eu acho o galanteio uma coisa maravilhosa, e isso é confundido com machismo. Ao mesmo tempo, as mulheres adoram gozar do direito de pagar menos pra entrar numa balada. Eu fiz uma festa em que homem entrava de graça até meia-noite, e foram pouquíssimos homens, porque falaram que ia só dar homem. Foi engraçado... Eu gosto de brincar com esses comportamentos. Eu não me identifico nem com o movimento feminista, que às vezes fica um ‘feminazi’ muito grande, parece que é uma raiva do homem, sabe, eu adoro os homens, adoro meu marido, meu filho, meu pai, e acho que há uma opressão também, acho que as mulheres têm também que baixar um pouco a guarda e entender seu coração, suas próprias necessidades, sua sensibilidade. Acho que não é essa onda de direitos iguais... Direito igual importa direito ao voto, à escolha do trabalho, à escolha profissional, do que vai estudar, várias escolhas, mas existem diferenças entre os homens e as mulheres, de sensibilidade e de condições físicas mesmo, que acho que têm que ser respeitadas, tem que ter equidade, na verdade, acho que a gente está caminhando pra isso, mas acho que ambas as partes têm que relaxar mais, a gente está passando por uma era meio extrema e acho que tem que haver mais amor e compreensão. As pessoas têm que aprender a ceder mais, ambas as partes.

BLOGA - Vc tem opiniões firmes, posicionamentos. Integrou-se ao movimento Ocupação Estelitahoje (16/09) comentou sobre essa desocupação de um prédio na praça da República, criticou a nossa era, altamente empresarial, perda de valores. Como vê o atual momento político? Estamos a poucos dias da eleição e Pernambuco está no centro, com a morte de Eduardo Campos. Você acredita em transformações por meio do voto? Como se define politicamente?

CATARINA – Eu acho que, por exemplo, hoje a gente tem visto muito essa mistura de religião com política, essa luta pelo Estado laico. Acho que tanto na religião como na política você tem que ter coerência, você tem que olhar para seu próprio umbigo, não adianta você fazer discursos e não ter a prática. E existem práticas que a gente tem que exercer diariamente, isso é ser cidadão. O problema é que o povo brasileiro anda revoltado porque a gente tem uma carga onerosa imensa nas nossas costas e os serviços são muito ruins, principalmente no Nordeste, que a gente vê que o custo de vida está muito alto e os serviços estão muito ruins. E isso vai gerando revolta, realmente. Eu acho que a gente está passando por um momento político muito complicado, mas acho que a política tem que ser exercida além das urnas. O povo está na rua exigindo seus direitos, essas ocupações têm que ser melhor assistidas. Tem um monte de gente entediada aí que está acabando de se formar em Ciências Sociais, tem que estar engajada nessa história toda. A gente está vivendo um momento muito punk também, além do ‘lobby’, por exemplo, a gente vê a história do Brasil, o ‘lobby’ que teve dos Estados Unidos em cima da ditadura e da indústria do petróleo, que fodeu com todo nosso sistema ferroviário, a gente está vivenciando agora um caos, que é produto disso tudo. As cidades criaram nós, os carros ainda estão de maneira defasadíssima sendo exaltados, essa indústria automobilística, que eu acho que é uma coisa que já devia ser refreada... Existem consequências? Existem, mas é a nova ordem, tem que investir muito em mobilidade, em mobilidade pública... A questão da especulação imobiliária é terrível também. Eu vejo isso tanto em Olinda, uma cidade que é um centro histórico, onde eu vivo, a cidade está fantasmagórica, porque as pessoas que eram realmente colonos, que viviam lá, estão abrindo mão de estar nas casas porque não têm grana nem acesso a crédito barateado e facilitado para restaurar suas casas da maneira correta, então se torna uma vida onerosa, precária, elas estão vendendo essas casas para mecenas que as utilizam simplesmente no carnaval para camarote de empresas e a gente não vê mais uma vida espontânea como se tinha na cidade da maneira que existia mesmo, de pessoas que vivem lá e que são agitadores culturais, que vivem a boemia da cidade, que utilizavam os serviços da cidade. A gente vê isso em micro e macroescala. O problema do Estelita foi porque eles sucatearam a área ferroviária de lá, existem aqueles galpões que são mausoléus da indústria da monocultura do açúcar, que ainda perdura... O boia-fria até pouco tempo ganhava 13 reais por uma tonelada e meia de cana. Ao mesmo tempo ele tem força e reação para fazer o maracatu rural, tomar azougue, que é a cachaça com pólvora... Como dizia  Glauber Rocha: ‘ a cultura popular é o grito primal de resistência de um povo’. E esse leilão lá foi fraudulento, eles querem construir um paredão de prédios na beira-rio do canal. Após todo esse clamor e esse grito da população, dos ativistas, o projeto se readaptou, a gente ainda não está satisfeita, porque é praticamente uma Dubai em Recife. É uma pena que a elite que detém o poder e o dinheiro no Brasil seja tão cafona e tão colonizada, que imita modelos ruins e fadados à falência. A gente ainda vivencia a questão do cabresto, do crivo à educação, à saúde, ao povo, e isso atravanca, as pessoas se tornam massa de manobra ainda para votar no cabresto, e isso reverbera em tudo, até na adoração que o oprimido tem ao opressor, como falava Paulo Freire. Então a gente precisa mudar as coisas de maneira muito brusca em atitudes realmente assim de foco e de informação. Parem de ler tanto a internet, tanto a Wikipedia, e vão ler livros, porque acalma, informa, está entendendo? E faz dormir gostoso.
'Parem de ler tanto a internet, a Wikipedia; leiam livros'

BLOGA - Qual sua agenda? Tem as apresentações do Mês da Cultura Independente da Prefeitura, a festa no Pratododia, e que mais? O que SP pode esperar de você?

CATARINA – Eu cheguei agora, ontem dia 15, aqui, e já estou ensaiando com a banda nova, esta semana será toda de ensaios Dia 18 vou tocar no boteco Pratododia, uma honra tocar naquele lugar que eu gostei muito, é um respeito ao DJ de vinil, vai ser com meu companheiro de pesquisa Maurício Fleury, que eu tenho a maior admiração por ele; na sexta (19) eu tenho o Terminal Nova Cachoeirinha, que é o formato “MC Ririca”, junto com o DJ Ad Ferrera, que é outro parceiro; na mesma noite eu toco no Zé Presidente, participo como MC Ririca também dividindo o palco com a Camila Garófalo; no sábado (20) eu toco na Festa Mel, que é na Dom José Gaspar, também por esse festival de cultura independente; nesse mesmo dia tem o show da Academia da Berlinda, no Belenzinho, talvez eu dê uma pintada lá pra tocar com os meninos;  semana que vem, dia 27, vai ter também no Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro, com Maria Alcina e Lurdes da Luz, vai ser um show bem especial pra mim, e tem mais data em outubro, muita coisa configurando na agenda, já está batendo um monte de coisa. É isso, estou superfeliz de estar me desenrolando nesta cidade.

BLOGA – Aí você fica atualizando no site para as pessoas acompanharem. E essa banda é toda lá de Olinda?


Catarina e os novos Radicais Livres: Faraco, Índio, Lelinho e Carranca

CATARINA – É gente de toda parte. O Faraco (Felipe Faraco, teclados) é de Porto Alegre, Lelinho (Lello Bezerra, guitarra) é de Caruaru, Carranca (Hugo Carranca, bateria), é das Olinda, e Índio (David Índio, baixo) é de São José do Rio Preto, onde eu toquei, no Sesc.

SERVIÇO:

Festa El Delírio -  Boteco Pratododia – Rua Barra Funda, 34, Barra Funda. Quinta, 18/09, a partir de 21h

TerminalNova Cachoeirinha – Sexta, 19/09, a partir de 17h. Grátis

Espaço Zé Presidente – Rua Cardeal Arcoverde, 1.545, Vila Madalena. Sexta, 19/09, a partir de 21h

FestaMel – Edição especial Ilha das Flores – Praça Dom José Gaspar, República. Sábado, 20/09, a partir das 19h. Grátis

Academia da Berlinda -  Sesc Belenzinho – Rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho. Sábado, 20/09, a partir das 20h

CentroCultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso. Com Lurdez da Luz e Maria Alcina. Sábado, 27/09, a partir de 19h. Grátis

Ouça aqui o áudio da entrevista (com direito a palhinha de 'Peba na Pimenta'):
 



Ouçam e vejam seu mais recente vídeo, "Vem que vem":

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Domingo no parque com Gil

Gil Black Gil: aquele abraço a Sampa (foto: Nathália Bernardo)
O domingo de 14 de setembro de 2014 estava ensolarado. Bem seco, com tem sido nos últimos tempos. Ótimo para praia, montanha, rio... Mas uma multidão preferiu não encarar as estradas e o inevitável trânsito para ver Gilberto Gil no Parque do Ibirapuera. Sim, teve trânsito, fila no estacionamento, mas nada insuportável. E o parque, o enorme Ibirapuera, acolhe a todos, e é uma opção de passeio do qual o paulistano e outros cidadãos não abdicam.

O local estava repleto, mas a dimensão do parque, com seu mais de 1,5 milhão de metros quadrados de área, faz com que nem se sinta a lotação. Exceto na hora do show de Gil. Horas antes das 18h30, quando o baiano subiu ao palco externo do Auditório, já havia centenas de pessoas, sentadas em todo canto. Muitos fazendo piquenique, toalhas abertas no gramado seco, todo tipo de quitutes e bebidas. Famílias com bebês de colo e crianças de todas as idades, cães de todas as raças, casais homo e hetero se curtindo numa boa.

Horas antes, Gil e os gaúchos do General Bonimores passaram o som, e pude ficar perto do palco e fazer umas fotos mais próximas. Esse grupo ganhou um festival promovido por uma empresa coreana e, como um dos prêmios, pôde tocar junto com o astro tropicalista, ex-ministro, que ali fazia uma espécie de comemoração de seus 50 anos de carreira, no parque que recentemente completou 60 anos de inauguração.
Com os gaúchos do General Bonimore, canta "Back in Bahia", do seminal álbum Expresso 2222, de 1972


Os gaúchos tocaram duas músicas antes de Gil, “Dia Feliz”, que ganhou o concurso de novos talentos promovido pela Samsung, e outra que não me lembro do nome. Um som bacana, com sotaque sulista, acentos dos ritmos folclóricos de sua terra na batida. Talvez se deem bem, vamos ver.

Aí entrou Gil com sua banda: Fábio Lessa (baixo), Jorginho Gomes, irmão de Pepeu (bateria), seu filho Bem Gil (guitarra), Claudio Andrade (teclados), Gustavo de Dalva (percussão) e Sérgio Chiavazzolli (guitarras).

Começou com “Tempo Rei”, depois “A Novidade”. Foi de Bob Marley, com a versão “Não Chore Mais”, depois “Is This Love?” e “Three Little Birds”.

Fez referência a comentário de Dominguinhos sobre o reggae, que dizia ser um baião sem-vergonha, e atacou de “Esperando na Janela”. Depois “A Paz” e “Drão”. Apresentou em seguida três sambas, mostrando que é um ritmo presente em todo o país: “Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira Castilho; “Aquele Abraço” e “Andar com Fé”, dele.

Apresentou a banda e foi de “Palco”, que conheci antes com A Cor do Som, lá nos anos 70. “Vamos Fugir”, com o sotaque reggae explícito até na letra (“flores que a gente regue”, “que você me carregue”, “onde a gente escorregue”, “outra banda de reggae”).

Aí cantou “Punk da Periferia”, que fala da Freguesia do Ó, bairro da zona norte de São Paulo, perto de onde moro. Homenagem à cidade? Fez o gesto obsceno já visto em outras apresentações (o dedo médio apontado em riste no verso “aqui pra vocês!”). Emendou a temática agressiva com “Nos Barracos da Cidade” – “gente hipócrita, gente estúpida” -, e finalizou com “Toda Menina Baiana”, para se despedir.

Ibira ficou lotado (Foto: Manuela Scarpa/Photo Rio News)
O bis veio logo. Com o General Bonimores – de quem, com sinceridade, disse não se lembrar do “nome difícil” -, cantou “Back in Bahia”, do seminal LP Expresso 2222, de 1972. Fez “Realce”, da fase disco – último da quadrilogia “Re”, iniciada com Refazenda, Refavela e ainda Refestança, com Rita Lee -, e terminou com “Aquele Abraço”, subvertendo o sentido original da letra e dando um agradecimento aos que lá estávamos (“pra você que ‘não’ me esqueceu”; “todo povo brasileiro ‘de Sampa’”).

Um show de grande energia, alegria. Um Gil elétrico, simpaticíssimo, dançando, rebolando, dando beijinhos na plateia, um menino de 72 anos que não deixa o pique cair e demonstra a todo instante que adora o que faz. O rei da brincadeira. Sem confusão.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Independência e morte


Em 1972, enquanto o general-ditador Emílio Garrastazu Médici promovia festa de 150 anos de Independência, com o traslado do corpo de D. Pedro I ao Brasil, pessoas que lutavam contra o regime militar eram mortas e sepultadas em valas clandestinas de cemitérios

Por Carlos Mercuri


Em 22 de abril de 1972, aportava no então Estado da Guanabara uma frota de sete navios brasileiros e portugueses. Em um deles, o da marinha mercante portuguesa Funchal, vinha o esquife com os restos mortais de D. Pedro I, que havia deixado o porto de Lisboa 11 dias antes. Ao chegar à cidade do Rio de Janeiro, desembarca comitiva composta pelo presidente lusitano, almirante Américo Deus Rodriguez Thomaz; o presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, e vários auxiliares. O mandatário português entrega ao colega brasileiro, general Emílio Garrastazu Médici, a urna contendo os despojos do primeiro imperador do Brasil. Era o início das comemorações de 150 anos de proclamação da Independência, que o governo militar brasileiro batizou com o pomposo nome de Sesquicentenário.
A festa prosseguiria pelos próximos cinco meses, culminando, em 7 de setembro, com o depósito do caixão imperial na cripta construída especialmente para este fim no Monumento à Independência, no bairro do Ipiranga, zona sul da capital paulista. Nesse tempo, o féretro passou por todas as unidades da Federação. As comemorações da efeméride ainda incluíram uma minicopa – a Taça Independência -, vencida, claro, pela seleção canarinha, sagrada tricampeã mundial dois anos antes, no México, e o lançamento do filme “Independência ou Morte”, dirigido por Carlos Coimbra e protagonizado pelos astros de novelas Tarcísio Meira, no papel de D. Pedro I; Glória Menezes, como a Marquesa de Santos; Dionísio Azevedo, vivendo José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da Independência, entre outros.
O país vivia o que se convencionou chamar de milagre, com a economia crescendo a dois dígitos anuais, sustentada por fortes investimentos em infraestrutura e na indústria, financiados por endividamento externo. Em contrapartida, a alta concentração de renda e inflação na casa de 15% a 20% ao ano. Mas o terceiro general-presidente da República queria mostrar à sociedade que o então país do futuro tinha ficado para trás: “A Nação tem hoje a tranquila consciência de sua grandeza, em termos realistas, possíveis e viáveis. Temos agora a certeza de que o eterno país do futuro se transformou, afinal, no país do presente”, discursou Médici, no último dia de 1971, em rede nacional de rádio e televisão.
As comemorações dos 150 anos de independência inserem-se, então, nesse espírito de Brasil grande que a ditadura civil-militar queria incutir na população;  e D. Pedro I, transformado em herói nacional, o símbolo da autoridade, nas palavras da historiadora Janaína Martins Cordeiro. A intenção do governo era realizar “um grande espetáculo cívico-patriótico”. “As festas evidenciam a importância do discurso cívico-patriótico como elemento fundamental do diálogo estabelecido entre ditadura e sociedade. Principalmente, demonstram a centralidade do chamado milagre brasileiro – entendido aqui como um fenômeno social e não apenas econômico – para a sustentação do regime”, escreve Cordeiro em sua tese de doutorado em História defendida em 2012 junto à Universidade Federal Fluminense (UFF) (leia entrevista com a professora em box abaixo).
Enquanto o governo Médici fazia a sociedade festejar a vinda dos restos mortais do imperador D. Pedro I, que repousam até hoje em solo brasileiro, nas sombras a ditadura massacrava filhos da Pátria que lutavam contra o regime autoritário. O período presidencial do general Médici entrou para a história como “os anos de chumbo”, de intensificação da repressão, de perseguição aos opositores, de torturas em instalações militares, mortes e desaparecimentos. “Foi o auge da ditadura, do fascismo”, lembra o deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), preso em 1973, quando militava no movimento estudantil.
O parlamentar recorda-se que, na época, a ditadura incutia nas escolas o patriotismo, obrigando os alunos a cantar os hinos nacionais antes das aulas. Acabou-se com o ensino de história e geografia no então colegial, instituindo a disciplina de Organização Social e Política Brasileira (OSPB), a organização católica Tradição, Família e Propriedade (TFP) estava em seu auge e a igreja católica ainda não estava na resistência, era mais ligada aos moralistas, ao tradicionalismo… “Foi o período mais difícil da ditadura”, constata Diogo.
“A comemoração do sesquicentenário permite a você ocultar mais facilmente esse tipo de coisa: enquanto está todo mundo comemorando no Brasil, ninguém sabe que há pessoas sendo torturadas”, comenta o historiador e professor Adjovanes Thadeu Silva de Almeida, autor do livro “O Regime Militar em Festa”, da editora Apicuri, fruto de sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Almeida observa que havia, na época, um questionamento do regime militar, por meio dos que se envolveram na luta armada e na “oposição consentida do MDB”, e um dos propósitos da festa do Sesquicentenário foi “unir o país em torno dos governantes” (leia íntegra da entrevista do professor em box abaixo).

Enquanto isso...
Quatro de setembro de 1990. Três dias antes do Dia da Independência, a então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, cria comissão especial para investigar a descoberta de uma vala clandestina no cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, periferia da capital paulista. No local, foram encontradas 1.049 ossadas, acondicionadas em sacos plásticos, sem nenhuma identificação. O então administrador do cemitério, Antonio Pires Eustáquio, disse que para aquela vala eram levados corpos de indigentes, vítimas do Esquadrão da Morte e da repressão política. A existência da vala veio à tona a partir da busca de familiares de mortos e desaparecidos políticos e de apuração do repórter Caco Barcellos, da TV Globo.
Entre as 1.049 ossadas, foi posteriormente descoberto que pelo menos sete eram de presos políticos mortos nos porões da ditadura: Grenaldo Jesus da Silva, os irmão Dimas e Denis Casemiro, Frederico Eduardo Mayr, Francisco José de Oliveira e Flávio de Carvalho Molina. Outros estavam sepultados sob identidade falsa: os irmãos Iuri e Alex de Paula Xavier Pereira, Gelson Reicher, Luís Eurico Tejera Lisboa e Flávio Carvalho Molina. O fato levou à criação, em 5 de outubro de 1990, de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de São Paulo. “Foi a primeira Comissão da Verdade do país”, conta o jornalista Luiz Hespanha, então assessor parlamentar na Câmara de Vereadores.
“O cemitério Dom Bosco era a última ponta de um novelo que começava no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e na Operação Bandeirante – Oban, uma criação da aliança empresarial e militar, voltada para sustentar as operações de busca, captura, tortura e interrogatório dos subversivos, dos ‘terroristas’, termos martelados à exaustão nas páginas dos jornais e noticiários do rádio e da tevê à época”, escreveu Hespanha no livro “Vala Clandestina de Perus – Desaparecidos Políticos, Um Capítulo Não Encerrado da História Brasileira” , que reúne artigos de pessoas envolvidas na apuração e investigação dos fatos.
“Vários militantes de organizações revolucionárias assassinados pela ditadura foram enterrados em Perus. Antonio Benetazzo, Alexandre Vanucchi Leme, os irmãos Alex de Paula Xavier Pereira e Iuri Xavier Pereira, Antonio Carlos Bicalho Lana, Antonio Sérgio de Matos, Eduardo Antonio da Fonseca, José Milton Barbosa, Luis José da Cunha, Pedro Estevam Ventura Pomar, Ângelo Arroio, Carlos Nicolau Danielli e Joaquim Alencar de Seixas estão entre aqueles que foram localizados pelos familiares, mesmo sofrendo ameaças quando da procura nos arquivos dos cemitérios ou do Instituto Médico Legal, ou na visita dos túmulos”, relata Hespanha. As investigações estenderam-se a outros cemitérios da cidade, como o de Campo Grande, na zona sul, e o de Vila Formosa, na zona leste.
“As mortes violentas sob torturas dentro da Oban, agora chamado DOI-Codi – II Ex, passaram a ser denunciadas, principalmente no exterior, e precisavam ser escondidas ou disfarçadas. Para isso surgiram as falsas versões que as forças de repressão justificavam sua atuação. As mortes sob tortura eram justificadas como sendo ‘resistência à prisão’, ‘suicídios’ ou ‘mortes por atropelamento durante a fuga do preso’. Para confirmar essas versões mentirosas, médicos legistas coniventes com esses crimes passaram a fornecer laudos falsos e o Serviço Funerário Municipal de São Paulo passou a ser usado como instrumento de sepultamento imediato para não permitir a inspeção dos corpos por familiares dos assassinados”, escreve no mesmo livro Ivan Seixas, jornalista, membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e Coordenador da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, da Assembleia Legislativa de São Paulo. Seixas foi preso aos 16 anos e torturado pela ditadura militar junto com seu pai, o operário mecânico Joaquim Alencar Seixas, cujo corpo foi localizado no cemitério de Vila Formosa.
Outras valas clandestinas foram encontradas no Cemitério de Santo Amaro, em Recife (PE), e no Cemitério de Ricardo Albuquerque, localizado na região do Grande Rio (RJ). Na vala clandestina de Ricardo Albuquerque, foram jogados os corpos de pelo menos 13 presos políticos. Tiveram seus nomes trocados para não serem localizados. Comissão instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo em maio de 1991, presidida pelo então deputado Roberto Gouveia, investigou o uso de instituições psiquiátricas para esconder e sumir com desaparecidos políticos. Outra comissão de representação externa foi organizada na Câmara dos Deputados para auxiliar a estadual, em buscas fora do Estado.
“Esse capítulo da história brasileira continua aberto porque ainda há o que ser dito, mostrado, descoberto e, principalmente, julgado, isto porque os atos praticados nas dependências de prédios públicos ou em imóveis clandestinos são crimes de lesa-humanidade, sem prescrição, como determinam as normas do Direito Internacional”, escreveu Ítalo Cardoso, vereador na capital paulista à época da CPI da Vala de Perus, da qual participou.
Assista à reportagem visual “O Corpo do Imperador”, produzida pela equipe do Última Instância:



Entrevista: Advojanes Thadeu Silva de Almeida (*)

Fórum - Por que o governo Médici resolveu comemorar o Sesquicentenário?
Adjovanes Thadeu Silva de Almeida - Objetivo era demonstrar que o Brasil era uma grande potência, era um momento de um discurso ufanista, do Brasil Grande, o Brasil Potência do Século 21 e ao mesmo tempo induzir a juventude a comemorar o próprio regime militar. Por outro lado, estavam tentando transformar D. Pedro I, que era uma figura não tão popular no panteão nacional, em um herói nacional, em um ícone. Então era uma forma de criar um herói que unisse a sociedade em torno das comemorações e em torno do regime militar. Era um momento em que tem um questionamento, ainda que minoritário, desse regime militar. Esse questionamento existia tanto na luta armada como na oposição consentida do MDB e entre diversos artistas e intelectuais. Então você faz aquela festa com o intuito mesmo de unir o país em torno dos governantes.
Fórum - Havia na época um espírito de que o país não compactuava com essa luta, essas críticas contra o regime? Houve, nessas comemorações, algum viés nesse sentido?
Adjovanes - A ideia era justamente manter toda uma coesão em torno do regime. Então vamos ter algumas comemorações, com todos cantando o Hino Nacional juntos no lançamento do Sesquicentenário, inaugurações em que o Médici é muito aplaudido. Por exemplo: quando há a inauguração do Metrô de São Paulo, é preciso que seguranças impeçam as pessoas de entrar no Metrô, porque todo mundo queria estar junto com o Médici; o Médici é aplaudido no Maracanã na final da Mini Copa; então havia, sim, uma tentativa de mostrar que esse governo fazia coisas acontecerem e fazia com que as pessoas o apoiassem. Até porque não tinha muito espaço para criticar. Quem criticava o Sesquicentenário era o “Pasquim” e, em uma crônica, a escritora Rachel de Queiróz.
Fórum - Com essas comemorações, houve uma tentativa de acobertar os excessos do regime, como a repressão à luta armada, as torturas, mortes e desaparecimentos, como se viu posteriormente com a descoberta dos corpos de opositores no cemitério de Perus, em São Paulo?
Adjovanes - Sim, todas as notícias sobre a repressão eram censuradas, o máximo que vai acontecer é você é tirar fotos e ter algumas reportagens de guerrilheiros mortos em combate. Mas os desaparecidos, como no caso das sepulturas de Perus, normalmente sequer era comunicado para sociedade que essas pessoas estavam presas. Há relatos de prisioneiros políticos que são salvos justamente porque aparecem na mídia sendo presos. Então, quando isso acontecia você não podia matar, senão todo mundo ia saber. Então havia uma orquestração política para ocultar essa repressão mais violenta sobre os grupos que faziam oposição armada ao regime militar. Você não vai divulgar, por exemplo, quando você captura um grupo grande, quando estoura um aparelho. Da mesma forma que não se divulgava a espionagem que acontecia sobre as pessoas. Muitas vezes havia agentes infiltrados, eram atores que criavam um certo clima de medo, mas não se pode dizer que era um medo difuso, porque não há pesquisas a esse respeito, você pode supor que as pessoas tinham medo de desaparecer porque as informações circulavam como boato. De fato, a comemoração do sesquicentenário permite a você ocultar mais facilmente esse tipo de coisa: enquanto está todo mundo comemorando no Brasil, ninguém sabe que há pessoas sendo torturadas.
Fórum - E também existia também um tentativa de criar um clima de ufanismo, com a construção da Transamazônica,  Mobral, toda essa ideia de Brasil grande…
Adjovanes - Existia. Então você vai ter, durante o sesquicentenário, a inauguração de diversas obras: a Transamazônica; no Rio de Janeiro vai ser inaugurada finalmente a Cidade Universitária no Fundão… era uma forma de mostrar para a sociedade que o regime militar continuava aquele processo de independência que começou no século 19. As propagandas vão dizer muito isso. Tem várias propagandas de empresas estatais e privadas que falam isso.
Fórum - Por que o governo militar teve a intenção de estabelecer essa relação mais cordial com Portugal – que à época também vivia uma ditadura – ao trazer os restos mortais de D. Pedro I? O que havia por trás disso?
Adjovanes - Tinha uma aproximação com Portugal, um pouco mais antiga. Eram dois países que vinham sofrendo muitas críticas no cenário internacional: Portugal por causa do colonialismo na África, era o momento em que estava havendo guerras em Angola e Moçambique para se libertar de Portugal e o Brasil por causa das torturas. Então era uma forma de estreitar essas relações para resistir com mais facilidade à pressão internacional; existia não uma pressão institucionalizada, mas, por exemplo, nos EUA já existiam vários intelectuais que denunciavam as torturas no Brasil e a opinião pública internacional criticava Portugal e começava a tomar conhecimento das torturas no Brasil. Por outro lado, há o próprio fato de os dois países serem governados por regimes autoritários marcadamente anticomunistas. Isso ajudou a aproximar ainda mais os dois países. Tanto que quando acontece a Revolução dos Cravos (em 25 de abril de 1974), o Marcelo Caetano – que era o chefe de governo e quem realmente mandava em Portugal – vem para o Brasil, e morre aqui (ele morreu no Rio de Janeiro em outubro de 1980). Vários dirigentes da ditadura portuguesa se exilam no Brasil quando acaba o governo salazarista.
Fórum - Pode se considerar D. Pedro I um herói, um libertador? Qual é a imagem dele para o brasileiro, passado todo esse clima de euforia?
Adjovanes - Em relação a D. Pedro I, foi um fracasso: acabou a comemoração (do Sesquicentenário) e as pessoas não o colocaram efetivamente como um herói.  Apesar de ter o filme “Independência ou Morte” (dirigido por Carlos Coimbra, foi lançado em setembro de 1972, como parte das comemorações de 150 anos de Independência), que foi um sucesso de público, quem mais se lembra do Sesquicentenário são as pessoas que eram crianças na época. Os adultos mesmo viram aquilo como algo feito pelo Estado brasileiro. Eu estive alguns anos atrás no Monumento do Ipiranga (onde estão depositados os restos mortais de D. Pedro I, de dona Leopoldina e de dona Amélia) e estava vazio. Foi em janeiro, na semana do aniversário da cidade, e estava vazio, tinha mais gente nos jardins do museu do que visitando o monumento. Então me parece que D. Pedro I, no Brasil, não conseguiu se livrar da pecha de autoritário que foi colada nele por causa de seus atos, principalmente pela República. Ele é lembrado como quem comandou a Independência, mas não é cultuado como a ditadura imaginou que seria.
Fórum - Hoje mesmo (27/05) foi noticiado que a Justiça acatou denúncia contra cinco militares acusados de envolvimento na morte de Rubens Paiva, entendendo que eles não foram alcançados pela Lei da Anistia. O sr. acha que isso é uma sinalização de que se está fazendo um resgate da história?
Adjovanes - Não diria que seja uma revisitação da história, mas certamente a gente precisa lidar com esse período. A Lei da Anistia é extremamente questionada hoje em dia, existe uma articulação política para acabar com ela, que passa pelo Congresso Nacional e também pelo Supremo Tribunal Federal. Os crimes que foram anteriores a 1979, como o caso do Rubens Paiva, certamente os algozes, os envolvidos nesse caso vão apelar à Lei da Anistia, embora isso seja discutível, porque o corpo não foi encontrado até hoje, ou seja, é um crime que não acabou. De todo modo, a Lei da Anistia, é interessante relembrar, não foi um acordo, foi uma imposição do final do governo Geisel e início do Figueiredo, justamente para perdoar principalmente os autores de crimes por parte do Estado, principalmente os torturadores. Hoje em dia, temos um problema muito sério que são as Forças Armadas se recusando a abrir seus arquivos, se recusam a dizer o que há em seus arquivos; dizem que tudo foi destruído. Então mostra o que foi destruído! Uma coisa interessante nas Forças Armadas é que lá tudo é documentado, você não pode destruir um documento sem documentar isso, sem mostrar onde aconteceu, quando aconteceu. Se foi destruído, mostrem o documento da destruição. Por outro lado, as Forças Armadas brasileiras hoje não percebem que, para a imagem delas, é muito ruim não investigar os crimes que aconteceram em suas fileiras. Hoje em dia, quem é capitão, major, não tem nada a ver com esses crimes que aconteceram. Eles podem muito bem dizer ‘eu não estava lá’. Mas há um espírito de corpo, um corporativismo que, nesse caso especificamente, dificulta a apuração desses crimes e acaba fazendo com que a imagem das Forças Armadas seja afetada.
(*) Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor do Colégio Pedro II e da Universidade do Grande Rio (Unigranrio). Autor do livro “O Regime Militar em Festa”, editora Apicuri, baseado em sua tese de doutorado.



Entrevista: Janaína Martins Cordeiro (*):

Fórum - Qual a razão de o governo Médici ter escolhido a figura de D. Pedro I como herói nacional?
Janaína Martins Cordeiro - D. Pedro I era realmente um herói improvável, difícil de ser apropriado: português e não brasileiro, mulherengo, boêmio, autoritário, ríspido e às vezes até agressivo… Dentro do próprio governo, nos setores envolvidos com a organização das festas do Sesquicentenário, não houve consenso sobre quem deveria ser o herói do Sesquicentenário. A AERP, órgão responsável pela propaganda oficial do governo Médici, defendia que as comemorações deveriam concentrar-se na figura do Tiradentes. Mas a CEC, Comissão Executiva Central, que organizou os festejos, insistia na escolha de D. Pedro I. E este acabou prevalecendo porque, de certa forma, D. Pedro I representava bem o Brasil do Milagre. É claro que houve um investimento de sentido, uma ressignificação do herói. Seu caráter boêmio, as infidelidades matrimoniais, tudo isso foi silenciado. O D. Pedro I da ditadura era um homem forte, resoluto, o líder que, com um gesto decidido “deu” ao Brasil sua independência política. E aí é importante dizer que um dos slogans mais repetidos no ano do Sesquicentenário foi que 1822 representou a independência política do Brasil e 1972 representava a independência econômica, fazendo assim, o elo entre o passado e o presente, inserindo a ditadura ou a “Revolução”, para usar o termo utilizado pelo governo, como um desdobramento natural do desenvolvimento histórico brasileiro.
Além disso, é importante dizer, D. Pedro I era um nobre, um príncipe e não um plebeu como Tiradentes. D. Pedro I “fez” a Independência; Tiradentes fracassou neste intento. Era a imagem do “vencedor” e não a do “mártir” que a ditadura, naqueles tempos de Milagre, queria recuperar. É nesse sentido que D. Pedro I expressava o “Brasil do Milagre” e por isso a sua escolha.
Fórum - Em sua tese, a sra. fala em consentimento e coerção. Mas fala também na adesão espontânea às festividades. A sociedade, à época, era dividida quanto ao apoio ao regime militar?
Janaína - Os comportamentos sociais durante a ditadura foram muito diversificados. É certo que a ditadura enfrentou resistências ferozes e é certo também que suscitou apoios militantes. Mas houve também muita indiferença e uma certa “lógica do consentimento”, que se ligava às formas, diversas, encontradas pela sociedade para conviver com aquela situação. Estas formas de convívio foram muito complexas. Inclui o medo do aparelho repressivo, mas, também, certo sentimento de segurança e a certeza de que se você, homem comum, não estava incluído na definição de “inimigo da pátria e do regime”, estava seguro, a salvo. Nesse sentido, não é possível dizer que a sociedade estava “dividida”, mas ela se relacionou de forma complexa com o regime. O que significa que, em muitos momentos, aprovava certas medidas do governo e desaprovava outras. Por exemplo: em geral as pessoas se colocavam contra  a tortura. Mas muitas vezes recorreram à censura como forma de garantir certo padrão de “moralidade” no país (ver trabalho de Carlos Fico, “Prezada Censura”). Por outro lado, ao mesmo tempo em que sofriam com o arrocho salarial, se empolgavam com as vitórias esportivas, com o crescimento da economia, com a expansão das estradas e das redes de telecomunicação, com a construção de obras como a Transamazônica… Não significa também que o povo fosse “alienado” ou que o regime os tenha “comprado”, mas sim que o cotidiano sob a ditadura foi extremamente complexo e que as pessoas agiam e reagiam segundo lógicas e uma experiência histórica muito próprias.
O caso dos anos do Milagre e principalmente do ano de 1972, quando houve as comemorações do Sesquicentenário, é particularmente interessante. Pois, ao mesmo tempo em que estamos falando do período em que a ditadura foi mais repressora, estamos falando do momento em que ela foi mais popular. Como isso foi possível? Em primeiro lugar porque a repressão foi sempre muito seletiva. Em segundo, e aí falo especificamente do contexto do Sesquicentenário, porque a ditadura soube dialogar com tradições brasileiras muito antigas, evocando certos sentimentos de amor e devoção à Pátria. Participar das festas nem sempre significou apoiar o regime, mas sim, apoiar a Pátria. Embora, em muitos casos, as pessoas tenham sim identificado a euforia patriótica ao apoio à ditadura e ao presidente Médici.
Fórum - É possível concluir que, em caso de parcela expressiva da sociedade à época apoiar o regime militar, a repressão aos movimentos oposicionistas, em particular os que aderiram à luta armada, foi justificada?
Janaína - Como eu disse anteriormente, não é possível dizer quem ou quantos apoiaram o regime. As relações sociais com este foram muito complexas e cambiantes. Para algumas pessoas a repressão se justificava, em alguns momentos ou em certos casos, embora condenassem os “excessos”. Em todo caso, o que precisamos hoje é da veemente condenação pública de qualquer tipo de violência, principalmente daquelas cometidas pelo Estado brasileiro, embora seja importante compreender por que a luta armada não suscitou grandes apoios sociais na época.
Fórum - Nesse sentido, a festa do Sesquicentenário não teria a intenção de acobertar os excessos do regime contra os opositores?
Janaína - Pode até ser que sim, em alguma medida… Mas acho que a festa foi muito mais que isso. A festa ocorreu em um momento em que o regime era de fato popular. Nós precisamos começar a enfrentar que a ditadura, especialmente o governo Médici, conseguiu ser popular se quisermos de fato compreender o regime em sua complexidade. Os festejos queriam de fato comemorar o Brasil grande, o Brasil potência. Lembremos que essa ideia da “potência” não foi inventada pela ditadura, apenas potencializada pela euforia desenvolvimentista do Milagre. Médici dizia que finalmente o Brasil havia deixado de ser “o país do futuro” e se tornado o “país do presente”. Eles queriam comemorar isso. E essa ideia mobilizou muitos segmentos da sociedade, porque era uma ideia que não se ligava apenas ao apoio àquele regime, mas à recuperação da autoestima nacional, a um sentimento patriótico e nacionalista já arraigado.
 (*) Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-doutoranda pela mesma instituição. Sua tese de doutorado sobre as comemorações do Sesquicentenário da Independência será publicada ainda em 2014 pela FGV, sob o título “A Ditadura em Tempos de Milagre: Comemorações, Orgulho e Consentimento” 

Sobre esse assunto, leia também:
(Crédito da foto da capa: MarceloVigneron)

(Publicado originalmente na Revista Fórum Semanal, edição 149, em 31 de maio de 2014)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Diana Marinho & Os Kaveras


A cantora baiana Diana Marinho e sua banda Os Kaveras - Jair Soares,(guita) Claudio Baé Japiassu( baixo)   Paulo Sergio Paste (batera) - tocam "Still Loving You", do Scorpions.

Veja o vídeo produzido pela Cinemotion Films e confira:


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Rock de Brasília é homenageado no Anhangabaú

Festival CCBB de Música Urbana mistura músicos remanescentes dos anos 80 e uma galera mais atual

Por Carlos Mercuri


Clemente,  Bonfá e Chuck estão na programação (Reprodução/Youtube)
No começo dos anos 1980, o rock brazuca reapareceu no cenário com nova roupagem, absorvendo as experiências que vinham se observando mundo fora. Depois de escandalizar os puristas da MPB nos anos 60, com as guitarras elétricas dos Mutantes; de flertar com o progressivo nos 70 e misturar tudo com Raul na virada da década, o novo rock que surgia nos 80 buscava uma nova identidade.

O clima de contestação que o país vivia, que culminaria nas manifestações pelas Diretas Já em 1984, somado ao grito contra o establishment que o punk vomitava na Europa, fez a cabeça de vários garotos na capital federal.

“Brasília, famosa pelo tédio que acompanha seu cotidiano e pelas maquinações engenhosas do totalitarismo versão tupiniquim, produz uma música surpreendente. Guerrilha sonora no planalto central? Nada disso, Brasília ainda é o cenário ideal para a ficção científica: o cerrado contra-ataca”, escreveu o jornalista Hermano Vianna, em 1983, para a revista carioca “Mixtura Moderna”.

O rock, ou punk rock, ou seja lá a denominação que se queira dar ao som feito pela garotada brasiliense 30 anos atrás, será homenageado – ou revisto, ou resgatado… – em festival que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo promove neste fim de semana na capital paulista.

O palco será o Vale do Anhangabaú, o mesmo que recebeu mais de 1,5 milhão de pessoas em abril de 1984 exigindo o direito de poder votar para presidente da República, direito esse extirpado pelo regime militar em 1964.

As bandas que se apresentam no Festival CCBB de Música Urbana - a entrada é grátis – mesclam remanescentes do “movimento” com galeras de outras cenas roqueiras brazucas da época e um pessoal mais atual. A abertura, sábado (10), às 15h, será com as Vespas Mandarinas, grupo paulista formado em 2009.

Às 17h, toca Panamericana, banda composta por Dado Villa-Lobos (ex-Legião), Charles Gavin (ex-RPM, Ira! e Titãs), De Palmeira (ex-Barão Vermelho) e Toni Platão (ex-Hojerizah). Em seguida, às 19h, entram os também paulistas do Ultraje a Rigor. A discotecagem fica a cargo de Tatá Aeroplano.

No domingo (11), a festa recomeça, às 15h, com Plebe Rude, uma das bandas brasilienses que surgiram nos 80, agora com Clemente, ex-Inocentes,  nos vocais. Marcelo Bonfá, que conduzia as baquetas no Legião, depois de passar por vários outros grupos de Brasília na época, toca às 17h, acompanhado do ex-RPM Paulo Ricardo e de Carlos Trilha, que produziu os dois discos solo de Renato Russo, entre outros trabalhos. O festival termina às 19h com a apresentação do também ex-Titã Nando Reis e sua banda Os Infernais. Nas picapes, Mauricio Valladares.

No vídeo promocional abaixo, chamada para o festival:



(Texto publicado no SPressoSP em 08/05/2014)

domingo, 30 de março de 2014

Nasci em 1961

Lembro-me de sempre ver tanques na rua em minha infância
Nasci em maio de 1961, poucos meses antes de Janio Quadros renunciar à presidência e abrir uma crise, com a posse do vice, Jango, rejeitado pelos setores conservadores, civis e militares.

Era muito pequeno em 31 de março de 1964, quando as tropas do general Mourão marcharam de Juiz de Fora ao Rio para depor Jango, traído por muitos que juraram apoiá-lo até a morte (algumas valises recheadas de dólares, soube-se depois, demonstraram o alcance da fidelidade desses).

Em 1968, ano do temível Ato Institucional número 5, eu já estava na escola. Via muitos tanques verde-oliva nas ruas, sem entender direito do que se tratava. Mas entrei no que se chamava à época Grupo Escolar já embuído do espírito militar daqueles tempos. Antes das aulas, todos tinham de se perfilar no pátio, uniformizados, e entoávamos o Hino Nacional. Na classe, disciplina rígida. Tínhamos de nos levantar quando a professora ou o diretor (ou diretora) entrava.

Em 1972, o Brasil comemorava o sesquicentenário da Independência. Era o governo do general Médici. Morávamos no Ipiranga, local símbolo do 7 de Setembro. O desfile, lembro-me bem, foi algo arrebatador. Muitas tropas nas ruas, as Forças Armadas mostrando seu poderio, para atemorizar os que postulavam aventurar-se em resistências como a do Araguaia, à esta altura já palco de combate entre os guerrilheiros e os militares.

Estudava em um ginásio que era um verdadeiro quartel. Professores tratavam os pequenos alunos como soldados rasos, exigindo obediência total, castigando os infratores com reguadas nas costas (algumas até na cabeça), gritando com os que não compreendiam a lição. Eu, com temor de ser humilhado perante os colegas, nem ia às provas das matérias que não tinha entendido, preferindo o zero à censura severa dos docentes e à inevitável gozação na saída.

Não tinha conhecimento nessa época de fatos como censura à imprensa e às obras artísticas, exílios, cassações, fechamento do Congresso, tortura, luta armada, sequestros de embaixadores... A TV e o rádio, meios de comunicação aos quais eu mais tinha acesso e apego, traziam um Brasil edulcorado, forte e glorioso, que só o primeiro choque do petróleo, em 1973, veio a abalar. Meu pai quebrou e voltou à fábrica e nós, retornamos ao ABC, onde nasci.

Geisel subiu à presidência em 1974 prometendo abertura lenta, gradual e segura. Foi nesse ano que vi voltar às ruas as campanhas políticas, algo que tinha sumido desde meus 5 ou 6 anos. Um cara estranho, queixudo, narigudo e com enormes costeletas à la Elvis, de nome igualmente esquisito, concorria ao Senado pelo partido da oposição consentida: Orestes Quércia, do MDB. Seu adversário, Carvalho Pinto, da Arena. Quércia foi eleito, junto a vários outros parlamentares emedebistas.

As coisas ficaram piores. Na escola, já no então chamado segundo grau, as aulas de Organização Social e Política Brasileira (OSPB), versão da ginasiana Educação Moral e Cívica, pregavam o potencial de nosso imenso país, com a Transamazônica apresentada como o símbolo máximo do poder de nossa gente. O Brasil tenta enfrentar o poderoso cartel da Opep com o programa Pró-Álcool. O Metrô começa a ser construído em São Paulo. Maluf rasga enormes rodovias pelo estado. Nos porões, porém, morriam Vladimir Herzog, Stuart Angel, Manoel Fiel Filho, Rubens Paiva e tantos outros. Jango e Juscelino morrem em circunstâncias estranhas...

Claro que eu não acompanhei nada disso, mas sentia algo estranho no ar. Em Santo André, conheci um rapaz de minha rua cujo pai vivia na Suíça, autoexilado. Por meio dele, ouço pela primeira vez uma palavra que só saberia o que significava dois anos depois, quando fui servir o Exército: subversivo. Lia livros de Adelaide Carraro, Plínio Marcos, assistia às novelas escritas por Dias Gomes, ouvia músicas de compositores como Chico Buarque... De alguma forma, esses autores driblavam a censura.

Quando prestei o serviço militar, no Tiro de Guerra de Santo André, em 1980, as greves do ABC estavam a todo vapor. O líder sindical Lula despontava na mídia. No quartel, o clima era de apreensão. Podíamos ser acionados a qualquer hora se a situação ficasse tensa. Minha cabeça entrava em parafuso, porque meu pai, tios e vários primos eram operários metalúrgicos e seria demais eu atacar armado a classe à qual eu pertencia. Felizmente, não foi necessária a intervenção.

Antes de ingressar na faculdade, tomei conhecimento da história de nosso país desde meu nascimento, que a escola ocultava. Li muitos livros a respeito, conversei com muita gente que lutou contra a ditadura. Soube, em seguida, que a questão não se limitava ao Brasil: vários países na América Latina passaram também por golpes militares.

O que resta de tudo isso, 50 anos depois, é a sensação de que o regime militar ainda está encruado em muitas mentes, muitos ainda defendem o período e até seu retorno – não se pode subestimá-los, penso.

Acho que o debate é inevitável. Posições políticas diferentes e divergentes são importantes, mas em um clima de democracia, de respeito às opiniões e à vontade da maioria. O erro, creio eu, está em impor, à força, uma postura. Que 1964 não se repita.

domingo, 23 de março de 2014

Sistema Cantareira: 15%; e continua secando…

Comitê alerta que manancial estará esgotado em junho, mês de realização da Copa

Por Carlos Mercuri

Em ano de reeleição, qual governante falará de racionamento? (foto: Associação Cantareira)
As represas do Sistema Cantareira atingiram nesta segunda-feira (17/03) o nível de 15% de sua capacidade de armazenamento. Mesmo com as últimas chuvas, o manancial continua secando, à média de 0,1 ponto porcentual por dia. O comitê anticrise formado para debater soluções para o problema alerta hoje que em junho, quando se realiza em São Paulo e em outras capitais do país os jogos da Copa do Mundo, o sistema estará esgotado. Antes, o grupo dizia que o esgotamento se daria em agosto.

O governo do Estado e a Sabesp, até agora, correm contra o tempo para tentar amenizar a situação. Primeiro, promoveram uma campanha de esclarecimento à população, usando a mídia, para economizar água; quem consegue reduzir em 20% o consumo médio dos últimos 12 meses ganha um desconto de 30% na conta. Depois, tentou fazer chover bombeando as nuvens; a medida até o momento se mostrou inócua.

A próxima alternativa será o uso do chamado “volume morto” das represas: uma reserva que fica abaixo das tubulações, não alcançada pelo sistema de captação tradicional. Para chegar lá, a Sabesp gastou R$ 80 milhões em bombas de sucção e pretende usá-las em maio. Ainda não disse qual será o gasto para tornar essa água potável, uma vez que ela é carregada de lodo e resíduos, que a tornam imprópria para o consumo.

Antes disso, porém, atendendo à determinação da Agência Nacional de Águas (ANA), reduziu a captação no sistema e anunciou que usará o volume de outros mananciais, como o do Alto Tietê e do Guarapiranga. O Sistema Alto Tietê está hoje em 38% de sua capacidade, e também vem diminuindo diariamente. A situação do Guarapiranga é melhor: 75,9% do total que pode armazenar, segundo medição diária da Sabesp.

A medida levou a Sabesp a reduzir a quantidade de água que vende aos 364 municípios que têm serviços autônomos de abastecimento. Um dos atingidos, Guarulhos, na Grande São Paulo, foi avisado do corte por e-mail em cima da hora, sem tempo de planejar e informar adequadamente a população sobre a necessidade de racionamento na cidade. O prefeito Sebastião Almeida (PT) disse sexta-feira (14) que estuda acionar o Estado na Justiça pela quebra contratual.

Em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o especialista em direito ambiental Paulo Affonso Leme Machado disse que é a alegação que os municípios afetados podem recorrer é o desrespeito ao princípio constitucional de equidade, constante também na Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei 9.433/97). Pelo mesmo princípio, as cidades em que estão localizados os rios que formam o Sistema Cantareira têm prioridade de uso sobre a água, o que não está sendo respeitado pela companhia estadual e criado conflitos com Campinas e região.

O problema poderia ter sido resolvido – ou pelo menos amenizado – há bastante tempo. Não faltaram avisos ao governo do Estado e à Sabesp sobre a fragilidade do sistema. Os comitês de bacias hídricas que formam os mananciais de onde a companhia retira água vêm há tempos apontando o que se deveria fazer: investir em novos reservatórios, o que o Estado só vem providenciar agora. Em meio a todo esse embate, o que se sobressai é o calendário eleitoral: em ano de reeleição, qual governante vai ser “doido” de pôr a cabeça a prêmio propondo coisas como “racionamento” de água? Mas, na prática, apesar do discurso contrário de Geraldo Alckmin, é o que está acontecendo.

(Publicado em SPressoSP em 17/03/2014)

terça-feira, 4 de março de 2014

Filiado ao PSol que defende golpe militar será chamado a dar explicações

Executiva estadual do partido pode submeter Toninho da Elétrica a comissão de ética

Por Carlos Mercuri


Toninho quer militares (foto:Facebook)
O presidente da Executiva Estadual do PSol em São Paulo, Paulo Bufalo, disse ao SPressoSP que deve convocar o filiado José Antonio Araújo Pereira – “Toninho da Elétrica” -, ex-candidato a prefeito de Cubatão em 2012, a dar explicações sobre o comentário que postou em sua página no Facebook no último domingo (2) defendendo intervenção militar já no próximo dia 31 de março, “por causa da impunidade e a corrupção”. Bufalo disse que o partido deve emitir nota oficial a respeito. “Essa opinião dele não expressa o posicionamento do PSol, é uma questão individual, pois defendemos a democracia”, disse o dirigente.
Segundo Bufalo, “em um primeiro momento, vamos cobrar explicações do filiado e tomar as providências necessárias”, disse. “Ele terá de responder politicamente e estatutariamente por essa postura”, adiantou o presidente do PSol em São Paulo. Bufalo declarou que Toninho pode ser submetido ao conselho de ética do partido.”É uma postura individual dele, que consideramos equivocada. Os militantes do partido saberão fazer a distinção”, afirmou.
Cartaz da campanha em 2012 (Reprodução)
Toninho da Elétrica foi candidato a prefeito de Cubatão em 2012, obtendo 927 votos (1,28% do total). Em sua postagem, ele defende intervenção militar já no próximo dia 31 de março, “por causa da impunidade e a corrupção”. Em outro post, diz que “acredita que lugar de bandido é na cadeia, não importa se é do PT, do PSDB ou da PQP”.
Procurado pela reportagem do SPressoSP, Toninho da Elétrica não tinha entrado em contato até a publicação desta nota.
Confira a mensagem postada pelo ex-candidato no domingo (na grafia em que foi escrita):
“PELAS REDES SOCIAIS O BRASIL ESTÁ PRESTES A ( PARAR )
COM A MAIOR INTERVENÇÃO MILITAR …
POR CAUSA DA IMPUNIDADE E A CORRUPÇÃO……VEJAMMM
FFAA, INTERVENÇÃO MILITAR JÁ EM 31/MARÇO/2014 (50 anos depois da 1a. grande limpeza Comunista). VAMOS AOS FATOS: EXECUTIVO Corrupção generalizada, CONGRESSO NACIONAL de joelhos para o Executivo, STF desmoralizado c/+54% de Submissão ao Executivo, BNDES Financiando (Comunistas e Narco-Tráfico, Cuba, Bolívia, Venezuela, etc.) e interesses partidários, Finanças Públicas manipuladas a todo momento, Petrobrás desvalorizada no mercado de capitais e Operação Pré-Sal de viabilidade não Convincente, Insegurança Pública c/Impunidade em todas as grandes cidades, Serviço Público em geral péssimo, Custo Financeiro nas alturas, Mídia (TV, Jornais, Revistas, etc.) à serviço da gestão corrupta do Executivo mediante alta remuneração, Urnas Eletrônicas DieBold de sistema manipulável e confiabilidade duvidosa, Bolsa Família é um Assistencialismo eleitoreiro sem qualquer perspectiva de desenvolvimento social, etc., etc., etc.”
A mensagem, até a redação desta nota, contava com 13 curtidas e 42 compartilhamentos. Os comentários, porém, são críticos em relação à contradição entre o conteúdo do post e o que defende o partido.
(Matéria publicada no SPressoSP em 04/03/14)