O Barquinho Cultural

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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Domingo no parque com Gil

Gil Black Gil: aquele abraço a Sampa (foto: Nathália Bernardo)
O domingo de 14 de setembro de 2014 estava ensolarado. Bem seco, com tem sido nos últimos tempos. Ótimo para praia, montanha, rio... Mas uma multidão preferiu não encarar as estradas e o inevitável trânsito para ver Gilberto Gil no Parque do Ibirapuera. Sim, teve trânsito, fila no estacionamento, mas nada insuportável. E o parque, o enorme Ibirapuera, acolhe a todos, e é uma opção de passeio do qual o paulistano e outros cidadãos não abdicam.

O local estava repleto, mas a dimensão do parque, com seu mais de 1,5 milhão de metros quadrados de área, faz com que nem se sinta a lotação. Exceto na hora do show de Gil. Horas antes das 18h30, quando o baiano subiu ao palco externo do Auditório, já havia centenas de pessoas, sentadas em todo canto. Muitos fazendo piquenique, toalhas abertas no gramado seco, todo tipo de quitutes e bebidas. Famílias com bebês de colo e crianças de todas as idades, cães de todas as raças, casais homo e hetero se curtindo numa boa.

Horas antes, Gil e os gaúchos do General Bonimores passaram o som, e pude ficar perto do palco e fazer umas fotos mais próximas. Esse grupo ganhou um festival promovido por uma empresa coreana e, como um dos prêmios, pôde tocar junto com o astro tropicalista, ex-ministro, que ali fazia uma espécie de comemoração de seus 50 anos de carreira, no parque que recentemente completou 60 anos de inauguração.
Com os gaúchos do General Bonimore, canta "Back in Bahia", do seminal álbum Expresso 2222, de 1972


Os gaúchos tocaram duas músicas antes de Gil, “Dia Feliz”, que ganhou o concurso de novos talentos promovido pela Samsung, e outra que não me lembro do nome. Um som bacana, com sotaque sulista, acentos dos ritmos folclóricos de sua terra na batida. Talvez se deem bem, vamos ver.

Aí entrou Gil com sua banda: Fábio Lessa (baixo), Jorginho Gomes, irmão de Pepeu (bateria), seu filho Bem Gil (guitarra), Claudio Andrade (teclados), Gustavo de Dalva (percussão) e Sérgio Chiavazzolli (guitarras).

Começou com “Tempo Rei”, depois “A Novidade”. Foi de Bob Marley, com a versão “Não Chore Mais”, depois “Is This Love?” e “Three Little Birds”.

Fez referência a comentário de Dominguinhos sobre o reggae, que dizia ser um baião sem-vergonha, e atacou de “Esperando na Janela”. Depois “A Paz” e “Drão”. Apresentou em seguida três sambas, mostrando que é um ritmo presente em todo o país: “Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira Castilho; “Aquele Abraço” e “Andar com Fé”, dele.

Apresentou a banda e foi de “Palco”, que conheci antes com A Cor do Som, lá nos anos 70. “Vamos Fugir”, com o sotaque reggae explícito até na letra (“flores que a gente regue”, “que você me carregue”, “onde a gente escorregue”, “outra banda de reggae”).

Aí cantou “Punk da Periferia”, que fala da Freguesia do Ó, bairro da zona norte de São Paulo, perto de onde moro. Homenagem à cidade? Fez o gesto obsceno já visto em outras apresentações (o dedo médio apontado em riste no verso “aqui pra vocês!”). Emendou a temática agressiva com “Nos Barracos da Cidade” – “gente hipócrita, gente estúpida” -, e finalizou com “Toda Menina Baiana”, para se despedir.

Ibira ficou lotado (Foto: Manuela Scarpa/Photo Rio News)
O bis veio logo. Com o General Bonimores – de quem, com sinceridade, disse não se lembrar do “nome difícil” -, cantou “Back in Bahia”, do seminal LP Expresso 2222, de 1972. Fez “Realce”, da fase disco – último da quadrilogia “Re”, iniciada com Refazenda, Refavela e ainda Refestança, com Rita Lee -, e terminou com “Aquele Abraço”, subvertendo o sentido original da letra e dando um agradecimento aos que lá estávamos (“pra você que ‘não’ me esqueceu”; “todo povo brasileiro ‘de Sampa’”).

Um show de grande energia, alegria. Um Gil elétrico, simpaticíssimo, dançando, rebolando, dando beijinhos na plateia, um menino de 72 anos que não deixa o pique cair e demonstra a todo instante que adora o que faz. O rei da brincadeira. Sem confusão.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Meu primeiro Chico


Dois de março de 2012, uma sexta-feira, eu e Isabela fomos assistir ao show de Chico Buarque no HSBC. “Hoje é o dia da graça 1”. Primeira vez em nossas vidas vendo esse ícone ao vivo em um palco. Emoção. Alegria. “Abro meus braços pra você 2”. Momento raro. Vejo em seu site que este foi o sexto espetáculo que ele apresentou em 36 anos. Não podia perder.

Tinha visto Chico uma vez no Rio, acho que em 1996, em uma partida de futebol entre seu time, o Polytheama, e uma seleção de barrigudos do PT. Após a partida (esqueci quem ganhou), ele, arisco, safou-se do batalhão de jornalistas que o queriam bombardear de perguntas como quem se livra de um ataque de abelhas. “E a gente vai ficando pra trás 3”. Não respondeu à minha pergunta (nem me lembro mais qual foi). Na verdade, respondeu a uma ou duas e sumiu, atravessando perigosamente a avenida Brasil rumo a sei lá onde, correndo o risco de “morrer na contramão atrapalhando o tráfego 4”.

Outra vez, em 1997, o vi no lançamento do projeto “Terra”, com livro contendo fotos de Sebastião Salgado, texto de José Saramago e um CD com quatro músicas dele. Mas também inacessível.

Desta vez não, estava lá no palco, roupas escuras, cenário com reproduções de telas de Portinari e desenho de Niemeyer e outro desenho geométrico, iluminação quente. “Eu não queria jogar confete, mas tenho de dizer, ‘cê’ tá de lascar, ‘cê’ tá de doer 5.” Uma turnê longa, iniciada em novembro em Belo Horizonte e que aqui, em São Paulo, está estendida até abril.

Começou com O Velho Francisco. Entremeou canções do último disco, “Chico”, que não conheço, com outras de várias fases de seus 45 anos de carreira. Algumas de que consigo me lembrar: Desalento, Bastidores, Teresinha, Ana de Amsterdam, Anos Dourados, Sob Medida,Tereza da Praia (que dividiu os vocais com o baterista Wilson das Neves, de quem ficou com o chapéu da foto), Cálice (homenageando o rapper Criolo) e, surpresa, Geni e o Zeppelin!

Esta merece um destaque: foi a música que me fez prestar atenção nele, lá nos meus 16, 17 anos. Claro que sabia de sua existência pelos festivais, dos quais eu era espectador interessado pela TV. Conhecia A Banda e  Sabiá, mas nesta época, 78, 79, meu gosto musical era duvidoso, sem muito critério, “à toa na vida 6”.

E essa música, por causa do verso “joga bosta na Geni”, chamou minha atenção – e a de todo o país, imagino -, pois vivíamos um regime militar que censurava tudo e tornava a vida muito careta, “tanta mentira, tanta força bruta 7”. Pouco tempo depois, em 1980/81, já participando do movimento de jovens da paróquia de meu bairro, virei seu fã incondicional e de tantos outros bambas da dita MPB.  

Eu montaria outro repertório para o show. Eliminaria muitas das músicas novas, que não me empolgaram (o penúltimo disco dele, “Carioca”, comprei e ouvi apenas uma vez), e acrescentaria muitas mais antigas e  conhecidas. Difícil escolher. “Tem samba de sobra pra gente sambar 8.” Mas valeu assim mesmo. Um espetáculo que fez brotar emoções “à flor da pele 9”. “Deus lhe pague 10”, Chico.

Canções referenciadas:

1 - Caçada (1973)
2 - Com Açúcar Com Afeto (1966)
3 - Pedro Pedreiro (1966)
4 - Construção (1971)
5 - Deixe a Menina (1980)
6 - A Banda (1966)
7 - Cálice (1973)
8 -Olê Olá (1966)
9 - O Que Será (À Flor da Pele) (1976)
10 - Deus Lhe Pague (1971) 










segunda-feira, 12 de abril de 2010

Um domingo de ócio total

Nossa, que domingo tive! Fiquei ele todo praticamente na cama, só levantei poucas vezes para as refeições, banheiro, essas coisas. No mais, TV, sono, filminho, internetadas. Pior é que acordei muito cedo, por volta de 8h, e assisti ao programa rural da Globo. Depois, Inezita e Boldrin na Cultura. Gosto desses programas que tocam músicas regionais, nada a ver com esses sertanejos de hoje - nada contra, até ouço, e algumas são até bem feitas, mas a música caipira é, no meu ponto de vista, muito boa. Teve show da Central Scrutinizer no Centro Cultural São Paulo, mas não fui; era às 18h, e acordei às 16h morrendo de preguiça de sair. Também não fui na festa de lançamento da Devassa, sexta, em Jundiaí. Sábado churrasqueei com a família, depois de andar pelo shopping resolvendo problemas de celulares e impressoras, rs... Sexta Isabela voltou pra casa dela. Foi um sufoco no aeroporto de Congonhas. Chegamos uma hora antes da saída do avião, como recomenda a companhia. Mas a fila estava imensa e bateu o desespero de perder o voo. Felizmente deu tempo, na correria. Mas aprendi a lição: estar no check in pelo menos com hora e meia de antecedência, porque o que se anda de avião hoje não é brincadeira. Aliás, estacionar lá está cada vez pior, um estacionamento tão grande e sempre cheio. Pois é, parece que a crise está mesmo passando longe daqui. Bem, voltando ao domingo. Assisti a um filminho em DVD meio bobinho, mas, sei lá, devia estar carente, e me emocionei muito. Chama-se Sete Vidas, com Will Smith como principal personagem. Ele sofreu um acidente tempos atrás que causou a morte de sete pessoas, porque foi ver recado no celular enquanto dirigia e não viu seu carro ir em direção a uma van cheia de gente. Sua mulher também morre no desastre. Aí sabemos que ele é agente fiscal da Receita e escolhe sete pessoas que estão com dificuldades para ajudá-las de alguma maneira. É um modo de ele compensar as sete vidas que fez ceifar. Ele acaba se apaixonando por uma de suas beneficiadas e o que ele faz por ela é realmente comovente, apesar de a crítica ter achado um tanto piegas. Sei lá, esses críticos é que são meio piegas às vezes. Claro, é um filme feito mesmo para comover, é do mesmo diretor de À Procura da Felicidade, com o mesmo Smith (Gabriele Muccino), mas gosto de filmes assim, me comovo e dane-se se pareço babaca. Estava, porém, especialmente sensível este domingo e o desprendimento do cara, apesar de fruto de um remorso imenso, me deixou pensativo. Faria eu algo assim por pessoas que nem sequer conheço, apenas porque elas merecem? Outra coisa, precisa de uma  motivação forte assim (expiar uma culpa) para se fazer o bem às pessoas? Tem uma cena em que ele doa medula óssea a um garotinho com câncer que é muito forte. A extração é feita sem anestesia e a dor é muito bem representada por Smith, bem como a hora que ele comete o suicídio (não estou estragando o prazer de ninguém porque o filme começa com ele anunciando que vai se matar), de uma forma assustadora. Eu acho que só as boas interpretações valem o filme, apesar de ser um tanto arrastado, lento, de não promover o crescendo necessário para esperarmos ansiosamente pelo clímax. Acabei de vê-lo com um certo espírito de solidariedade e me achando pouco empenhado em ajudar quem precise. E a gente vê na TV esse desastre que houve no Rio e fica comovido, revoltado, mas faz o quê? Depois de notícias de que muitas doações não chegaram ao Haiti dá mais raiva ainda, vontade de mandar tudo para aquele lugar. Sabe, tem dias que sinto muita raiva da humanidade, apesar de que generalizar não é boa ideia. Mas egoísmo e individualismo são pragas que vicejam por aí, e sacanagem com os outros, mais ainda. Assusta-me muito isso aí. A gente precisa de uma boa crosta grossa nas costas para poder sobreviver nessa selva, e também de tolerância, senão sai brigando toda hora. Depois do filme, papeei um pouco no MSN e dormi gostoso até cerca de 17h, já no final do jogo Santos 3 x São Paulo 2. Meu cunhado e sobrinho tricolores devem estar putos... Vi Faustão, cheio de celebridades desfilando demagogia com a desgraça alheia e depois Fantástico, que trouxe cenas de um resgate no morro do Bumba, em Niterói (RJ). É impressionante como a Globo consegue essas coisas: em plenas operações arriscadíssimas no local da tragédia, mete uma equipe toda lá. Não sei se outras emissoras também puderam acompanhar o resgate do homem. Lembrou-me demais do filme A Montanha dos Sete Abutres, com Kirk Douglas, guardadas as devidas diferenças, quer dizer, não estou dizendo que, tal qual o personagem de Kirk, um jornalista inescrupuloso, a Globo esteja explorando a desgraça alheia; só me encano um pouco por certa exclusividade que ela muitas coisas consegue, à custa sabe-se de que expediente. Mas, se for esforço de reportagem, como parece que é, parabéns a ela, como sempre. Terminado o show da vida, fui trabalhar, esperando que esta seja uma semana boa e de realizações. O bom é que o próximo final de semana já está garantido. Depois eu conto.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Soam como trovões



Domingo, nuvens negras ameaçadoras no céu. A tarde prometia ser molhada, como têm sido esses últimos dias em Sampa. Mas isso não me preocupou. Fui determinado ao Parque da Independência, no Ipiranga, a assistir ao show de Dianne Reeves e Buddy Guy, promovido por uma operadora de telefonia. A cantora eu não tinha ouvido, ainda mas Buddy já é velho conhecido, inclusive estive em seu clube em Chicago, o Legend's, quando viajamos aos EUA com a turma do MBA, e tive direito a autógrafo no CD Damn Right I’ve Got The Blues, comprado lá mesmo, e foto - que simplesmente sumiu, alguém da turma do MBA clicou mas não achei quem foi (se é que tiraram a foto mesmo). Dianne me surpreendeu com seu repertório (recheado de temas brasileiros) e sua voz, de registro bem extenso. Veio com um guitarrista brasileiro, Romero Lubambo, excepcional. Ela começou com uma versão em inglês de Triste, de Jobim, e em seguida cantou diversas canções com tempero brazuca, inclusive com temas de candomblé, com um suíngue contagiante. A platéia delirou muito. Muita gente bastante nova, o que surpreende e anima (nem todos gostam apenas de micaretas, enfim). Cantava junto, aplaudia, sob o sol inclemente. Durou uma hora. Intervalo, troca de equipamento. E entra Buddy. Camisa branca de bolinhas pretas, boina branca, e a Fender Stratocaster cor creme pendurada no pescoço. Na hora e pouco que ele vai tocar, a guitarra passeia por seu corpo todo; ela a toca com a barriga, com os dentes, nas costas, com o braço direito debaixo dela, com uma mão só. E como toca! O público, se foi ao delírio com Dianne, com Buddy vai ao êxtase. Um mestre, que desce e toca no meio da multidão, que joga as palhetas ao público, que canta Feels Like Rain, única vez que toca com Dianne, meio que ironizando a chuva que cai grossa, meio que mostrando que isso (a chuva) nada importa. Ponto positivo na galera: alguns abriram os guarda-chuvas, tirando a visão de quem estava atrás. Mas, após protestos, fecharam, e todos tomaram a benfazeja chuva. Guy terminou com Hendrix e Cream. Demais. Espetacular. Quem não foi perdeu.