O Barquinho Cultural

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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Minha vinilteca (1): Adoniran Barbosa & Convidados

 MINHA VINILTECA

Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.


Por que comprei este disco

Em 1981, eu participei de um grupo de teatro amador na paróquia de meu bairro, Vila Palmares, em Santo André. Nós montamos a peça "A Invasão", de Dias Gomes, escrita 20 anos antes. O texto trata de famílias expulsas de seus barracos em uma favela por causa de uma enchente que ocupam um hospital inacabado para ter um teto.

Ali, são submetidos à exploração de um malandro que cobra deles para manter a polícia longe; ao oportunismo de um deputado que os ludibria em busca de votos e popularidade; à fome, falta de emprego, humilhações de toda sorte. Para resumir, no texto original, os sem-teto se organizam e expulsam todos os exploradores do prédio, tomando posse definitiva.

O final de Dias Gomes, um autor de esquerda, trazia a mensagem de que era possível o poder popular por meio da organização, da luta, da solidariedade. Mas a peça foi escrita em  1962... Veio 1964 e achamos - nós do Grupo Tupi - que esse final não condizia com a realidade. E, no nosso desfecho, a polícia sentava o pau e todos eram expulsos do edifício.

Esse final precisava de uma música apropriada. E "Despejo na Favela", indicação de nosso orientador, Tim Urbinati, do Grupo Forja, veio a calhar.

Essa história já foi contada em termos mais resumidos aqui neste blog. Acesse clicando aqui.

O momento de compra

Encontrei este LP, "Adoniran Barbosa & Convidados", não me lembro em que loja, e o comprei em 20 de agosto de 1981. O disco foi produzido por Mariozinho Rocha, gravado nos estúdios da EMI-Odeon em maio de 1980, para comemorar os 70 anos de Adoniran, nascido João Rubinato em 6 de agosto de 1910.

A faixa "Despejo na Favela", de Adoniran, tem o acompanhamento de Gonzaguinha (Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, 1945/1991) e versos que casavam esplendidamente com nossa montagem:

"Quando o oficial de justiça chegou

Lá na favela e, contra seu desejo

Entregou pra seu Narciso

Um aviso, uma ordem de despejo


Assinada, seu doutor

Assim dizia a petição

Dentro de dez dias quero a favela vazia

E os barracos todos no chão


É uma ordem superior

Oh, oh, oh, oh, meu senhor

É uma ordem superior

Oh, oh, oh, oh, meu senhor

É uma ordem superior


Não tem nada, não, seu doutor, não tem nada, não

Amanhã mesmo vou deixar meu barracão

Não tem nada, não, seu doutor

Vou sair daqui pra não ouvir o ronco do trator


Pra mim não tem problema

Em qualquer canto me arrumo

De qualquer jeito me ajeito

Depois o que eu tenho é tão pouco


Minha mudança é tão pequena

Que cabe no bolso de trás

Mas essa gente aí, hein, como é que faz?

Mas essa gente aí, hein, como é que faz?


Oh, oh, oh, oh, meu senhor

Essa gente aí como é que faz?

Oh, oh, oh, oh, meu senhor

Essa gente aí como é que faz?


Oh, oh, oh, oh, meu senhor

Essa gente aí.."


Os detalhes técnicos

O LP tem produção executiva de Fernando Faro (1927/2016), que assina um belo texto no encarte, com fotos de brinquedos construídos pelo compositor. O encarte traz ainda uma ilustração do gigante Elifas Andreato:


"E ali do lado, cigarro na boca, ele trabalha.

Como vem fazendo durante boa parte desses 70 anos de vida.

Buscando fundo na memória, ouvindo de vez em quando os amigos, e percorrendo ruas e bares, ele vai refazendo pedaço a pedaço, sem muita ordem, utilizando o metal, a madeira, os fios, e também a palavra e o samba, a humana e muito doce paisagem dessa cidade - uma cidade que muda a cada minuto, e se deforma e se reforma, e se transfigura. É São Paulo que ele constrói. Ou reconstrói."



A direção de produção é de Mariozinho Rocha, com arranjos e regência do Maestro José Briamonte. Foram técnicos de gravação Guilherme Reis e Dacy; mixagens Franklin e Nivaldo Duarte; corte Osmar Furtado; capa de Elifas Andreato; fotos de Alexandre Sarda; arte final de Alexandre Huzak; coordenação gráfica Tadeu Valério e revisão gráfica Hagnea Mazetto. O produtor fonográfico é EMI-Odeon Fonográfica, Industrial e Eletrônica S.A.


As participações especiais e músicos convidados

Os Amigos que o acompanham nessa belíssima homenagem são Clementina de Jesus, Clara Nunes, Carlinhos Vergueiro, Djavan, Elis Regina, Luiz Gonzaga Jr., MPB4, Conjunto Nosso Samba, Roberto Ribeiro, Talismã e Seu Conjunto e Vania Carvalho.

Os músicos são Dino Sete Cordas (violão 7 cordas), Cesar Faria (violão 6 cordas), Carlinhos Antunes (cavaquinho), Marçal Filho, Nilton Marçal, Elizeu Félix, Luna, Jorginho e Geraldo (ritmo), Netinho e José Nogueira (saxofone), Nelsinho (trombone), Maurílio (piston), Jorginho (flauta), As Gatas e Cristina Buarque (coro).

As faixas do LP


As faixas, todas com arranjo de José Briamonte. Composições de Adoniran Barbosa (exceto as indicadas)

Lado A

1) "Fica Mais Um Pouco Amor"

2) "Tiro ao Álvaro" (Adoniran e Oswaldo Molles), com Elis Regina

3) "Bom Dia, Tristeza" (Adoniran e Vinícius de Moraes), com Roberto Ribeiro

4) "O Casamento do Moacir" (Molles e Adoniran), com Talismã e Seu Conjunto

5) "Viaduto Santa Efigênia" (Adoniran e Alocin), com Carlinhos Vergueiro

6) "Aguenta a Mão, João" (Adoniran e Hervé Cordovil), com Djavan

7) "Acende o Candieiro", com Nosso Samba

Lado B

1) "Apaga o Fogo, Mané"

2) "Prova de Carinho" (Adoniran e Cordovil), com Vania Carvalho

3) "Vila Esperança" (Adoniran e Marcos Cesar), com MPB4

4) "Iracema", com Clara Nunes

5) "No Morro do Piolho" (Peteleco, Jacob de Brito e Carlos Silva)

6) "Despejo na Favela", com Gonzaguinha

7) "Torresmo à Milanesa" (Adoniran e Carlinhos Vergueiro), com Clementina de Jesus e Carlinhos Vergueiro

E você? Já conhece esse LP? Deixe nos comentários sua faixa favorita ou uma memória com Adoniran.

Ouça no Spotfy:

sábado, 12 de agosto de 2017

Peça discute a violência sexual contra a mulher

Espetáculo “Nunca mais... Coração de mulher” fica em cartaz aos sábados no teatro Maria Della Costa até 30/09

A peça “Nunca mais... Coração de mulher” está em temporada até 30 de setembro no teatro Maria Della Costa, no bairro Bela Vista, na capital paulista. As apresentações são sempre aos sábados, às 19h, com ingressos a 50 reais (e 25 a meia-entrada). O espetáculo teve pré-estreia em março deste ano em um teatro no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo, passou por uma sala na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo, e está desde o último dia 5 de agosto neste espaço no Bixiga.


O texto de Ilder Miranda trata da violência sexual contra a mulher, de uma forma sensível e contundente, nas palavras de seus realizadores, a Companhia O Tom da Graça. Segundo a diretora do espetáculo, Rita Ivanoff, a personagem, Paula, vítima de violência sexual, “vai em busca de sua autoestima, de sua autoafirmação, de renovar sua capacidade de enfrentar o mundo, de olhar esse mundo de novo com alegria, com prazer, e de tomar sua vida com as próprias mãos”, disse a diretora em entrevista recente.


“Um dos objetivos de trazer um tema pesado como esse é falar mesmo sobre isso. A gente acredita que, quanto mais se falar sobre isso, mais vai deixar de ser um tabu e as pessoas vão conseguir denunciar mais, entender que têm outras pessoas iguais por perto, e que têm uma certa força para lutar por direitos, por leis, e para que a sociedade, de maneira geral, fale mais sobre o assunto”, afirma Rita na entrevista.

De acordo com Lize Nascimento, que divide o palco com Julieta Nóbrega, a peça busca “fomentar a reflexão sobre a cultura do estupro, que atinge homens e mulheres, e buscar o empoderamento feminino a partir dessa reflexão.”

Sinopse:

"O espetáculo Nunca mais...Coração de mulher retrata o universo feminino, propondo uma reflexão sobre a violência sexual contra a mulher, e de forma sensível e tocante, leva o público a interação com a personagem. Paula se desdobra em reflexão e emoções provindas de acontecimentos que deixaram marcas profundas em sua alma. Calou-se por instinto de preservação e, após anos de segredo, surgem memórias carregadas de medo, vergonha, nojo, raiva, prazer e ódio. O que fazer com essas lembranças remotas? Esquecer não é possível. Ciente disso, entre a ferida e a possibilidade da cura, vem a coragem, que surge da fragilidade do coração de uma mulher, fazendo com que a protagonista reviva esse passado sombrio, angariando força necessária para expurgar as dores que a acompanharam silenciosamente por quase toda a vida. É chegada a hora de libertar-se dos fantasmas e angústias com os quais conviveu, empoderar-se e dar um novo significado para sua história."


Espetáculo: Nunca Mais... Coração de Mulher
Todos os Sábados às 19h
De 5 de agosto a 30 de setembro de 2017
Local: Teatro Maria Della Costa - Rua Paim, 72 - Bela Vista, São Paulo
Telefone: (11) 3256-9115
Inteira: R$ 50,00
Meia: R$ 25,00
Duração: 45 minutos
Classificação: 14 anos


sábado, 22 de junho de 2013

A pauta necessária

Fonte da foto: http://www.bancariospb.com.br/index.php/notcias-mainmenu-138/notcias-do-sindicato-mainmenu-92/16703-cut-divulga-nota-em-defesa-da-democracia-e-repudia-acoes-violentas

Tenho 52 anos, comecei a me interessar por política - no sentido amplo, não a sua prática institucional, qual seja, a atividade partidária - tardiamente, lá pelos 18, 19 anos, ainda prestando o serviço militar. Acho que já comentei aqui, se não, vale a pena mencionar. À época, 1980, o país vivia um momento turbulento, com o último dos generais-presidentes, João Baptista Figueiredo, enfrentando uma sucessão de greves, desencadeadas dois anos antes, devido ao fracasso do tal "milagre econômico", recessão, inflação. A resposta do general foi, mesmo sob o manto da "abertura lenta, segura e gradual", iniciada por Geisel, reprimir esses movimentos, intervindo em sindicatos, destituindo diretorias e prendendo dirigentes.

Pois bem. Os metalúrgicos, com o sindicato tomado, sem receber salários por causa das paralisações, constituíram, em São Bernardo do Campo, o Fundo de Greve, que previa angariar contribuições para os trabalhadores sustentarem suas famílias durante as greves, mas acabou também se tornando um lugar para discussão e organização, uma vez que o espaço físico do sindicato havia sido subtraído da categoria. A paróquia em frente à minha casa era um desses espaços, mas, aos 18 anos, eu pouco me interessava pelo que estava acontecendo ali, apesar de meu pai e vários tios e primos serem operários das montadoras do ABC.

Estava eu uma vez por ali, à toa, quando dois sujeitos saem de um carro e me abordam. Como estava com o cabelo raspado ao estilo reco, penso que os caras, sem dúvida agentes de algum órgão policial, imaginaram que eu teria o dever cívico e patriótico de colaborar com a repressão. Fizeram-me perguntas a respeito de que tipo de movimentação eu vinha observando ali na igreja, se havia reuniões, que tipo de gente frequentava etc. Respondi que não sabia de nada, que não prestava atenção ao que acontecia ali, pois nem católico eu sou. Eles disseram para eu ficar de olho e anotar qualquer coisa, pois eles voltariam para saber. Nunca mais os vi. Mas algo ali não me cheirou bem e me deixou inquieto.

Pouco depois, com a greve dos metalúrgicos intensificada, passamos pelo Paço de São Bernardo, onde os trabalhadores faziam assembleia. Estava em um caminhão do Exército, repleto de recos, em direção ao local onde treinávamos tiro. Ao passarmos pela multidão, senti a tensão, o ar pesado, os trabalhadores temendo que estivéssemos ali para descer o pau. Não era isso, mas, no quartel, o comando avisou que a tropa deveria estar em estado de alerta, pois poderia ser requisitada a qualquer momento para agir, se a situação devida ao movimento grevista degringolasse. Isso significava, em termos práticos, ficar com a farda passadinha e as botas brilhando de lustre ao lado da cama, pois, se fôssemos convocados, era preciso ir logo.

Minha sensação era esquisita. Imaginava-me tendo de pegar o fuzil e ir para cima dos trabalhadores, o que significava reprimir a mim mesmo e a meus pares, pois a maioria de minha família, como citei, era metalúrgica. É algo complicado para a cabeça. Torci para não haver necessidade disso. E, realmente, não houve. Parece que a Polícia Militar deu conta sozinha. Mas penso que brotou desses episódios o que se convencionou chamar de consciência política.

Minha militância nunca foi acirrada, quis mais entender o mundo em que vivia sob o prisma das questões sociais, econômicas e a compreensão da nossa história sob uma ótica diferente daquela que a escola nos enfiava goela abaixo. O campo em que começamos a atuar foi a luta dos moradores de favelas por melhores condições de habitação e fim da repressão. A partir daí, várias outras atividades foram se inserindo. E minha mente mudou.

Nunca fui preso, não apanhei da polícia, não respondi a inquéritos, nem depus, enfim, nossas atividades seguiam a onda de tudo aquilo que estava acontecendo no efervescente ABC dos anos 80, mas não na ponta, pelo menos a minha parte. Fizemos teatro, e depois fui cuidar de ser jornalista, enquanto o PT começava a se organizar e disputar eleições.

Participei, claro, de campanhas eleitorais, mas sempre na base, aquela coisa de distribuir “santinhos”, pintar muros, estender faixas, colar cartazes nos postes. Aí, sim, algumas vezes tivemos que correr da polícia, mas sem maiores consequências, além de ver o trabalho de uma madrugada ser desfeito pelos soldados.

Mais de trinta anos depois, o que vejo nas ruas nas últimas semanas me deixa atônito. Não posso dizer com precisão o que mobiliza tanta gente. Fora das redações compulsoriamente, sem ânimo para sair nas passeatas, sem conversar com quem está ali participando, minha análise se baseia no que tenho lido na imprensa e nas redes sociais, em comentários de várias vertentes, e o que percebo é que há uma geleia geral por aí. Um movimento denominado MPL, que, soube, está organizado há bem uns oito anos, consegue mobilizar milhares de pessoas por vários dias, a fim de reduzir a tarifa do transporte público.

Outras bandeiras são hasteadas, pois a revogação do aumento em várias cidades não interrompeu o movimento. O caldo engrossa e cada qual vem com uma palavra de ordem, uma reivindicação, desde temas específicos, como a não aprovação da PEC 37, até assuntos que requerem maior reflexão e outras formas de luta, como o fim à corrupção. Entram lemas estranhos ao móvel inicial da mobilização, como o impeachment da presidente da República, contra o aborto e por aí vai. A sensação é de que o negócio agigantou-se e tomou rumos inesperados. Sem falar nas ações criminosas, como vandalismo, saques e até um atropelamento com vítima fatal, com sinais claros de dolo.

Como disse, não posso dizer com propriedade, mas a sensação é de que a fagulha da insatisfação com a vida que vivemos foi acesa, e muitos, talvez, sem elaborar precisamente contra o que lutar, entraram para mostrar indignação, exigir que a política seja praticada em seu sentido real, que é zelar pelo bem-estar de todos, pelo bem comum. Não sei quantos dessa multidão podem dizer por que, afinal, estão na rua, mas tenho certeza de que o que pretendem é dizer que não estão felizes, que falta alguma coisa – ou muitas coisas -, que não se sentem representados pela maioria dos que estão aí governando, que querem ser ouvidos.

Tirando, evidentemente, a fração oportunista e mal-intencionada, essa juventude, que parece que percebeu que tem a força, tem condições de elaborar uma pauta, mesmo que seja a mais utópica, e fazer nascer em nossa nação aquilo que é o ideal na prática política, a democracia participativa, além da mera representativa. Como sempre fui da “base”, posso dizer, aí sim com conhecimento de causa, que prefiro ser liderado e guiado por meus ideais, conviver com o contraditório e fazer política de baixo para cima, de dentro para fora, como dizia um velho bordão revolucionário.

terça-feira, 12 de março de 2013

A propósito de papas e conclaves

Foto: Johannes Eisele/AFP


Nesses dias de reencontro com amigas que havia anos não tinha contato, uma reflexão me vem à cabeça, e tem a ver com essa eleição que hoje se iniciou para o próximo papa da Igreja Católica. Não professo essa religião, nem batizado e crismado sou; primeira comunhão a tive já aos 19 anos, e sem ter passado pelos procedimentos que me parecem necessários para ingerir o corpo e o sangue do Cristo. Porque minha família é de origem protestante, não esses neopentecostais de agora, que conseguiram até introduzir um membro cheio de preconceitos em uma comissão importante da Câmara dos Deputados. O fato é que, nessa igreja de meus pais, não se batiza recém-nascidos, e, quando atingi a idade de o ser, eles tinham saído da religião, não por vontade própria, mas por algo que eu nunca soube direito. Enfim: sou pagão. Vou para o inferno ao morrer, dizem.

Mas, no começo de 1980, fui atraído à paróquia de meu bairro para participar de um grupo de jovens que se reunia para discutir religião, ensaiar para o coral da missa e fazer algum trabalho pastoral junto às favelas da região. Confesso que o argumento que meu amigo usou para eu lá ir foi o de que havia muitas meninas bonitas participando. Eu, aos 19 anos, reco (para quem não sabe, o garoto que está prestando o serviço militar obrigatório), achei a ideia interessante e lá fui. Ele tocava violão e logo se tornou popular na comunidade (nome que dávamos ao grupo).

Para mim, foi uma virada total. Tinha, nesse tempo, algo de errado na mente, uma insatisfação com o rumo da vida, um passo em falso e cairia para um campo que nenhum pai sonhou em ver o filho seguir. Essa comunidade foi um tipo de redenção: encontrei lá pessoas que comungavam das mesmas expectativas, sonhos, frustrações, desejos de dar algum sentido à existência. E entender esse Deus que, na religião de meus pais e avós, era tão opressor, tão regulador, regrado, controlador...

Em pouco tempo houve eleição para a coordenação do grupo e me incentivaram a me candidatar. Foi a primeira (e única) vez que postulei a um “cargo” eletivo. Fiquei em segundo lugar e assumi a vice-coordenação do Juba (era esse o nome que deram à comunidade, sigla de “Juventude Unida Baseada no Amor”). Minhas tarefas eram, entre outras, escolher o tema de discussão da reunião semanal, procurar na Bíblia alguma passagem que tivesse a ver com o assunto, redigir a ata da reunião e substituir o coordenador em sua ausência.

Gostei da coisa. O grupo era acompanhado pelos seminaristas da paróquia, uma galerinha que lá se preparava para ser padre um dia, em um seminário meio fora do comum, organizado pelo pároco, um sujeito de origem francesa que tinha um trabalho junto aos moradores de favelas e seguia o que se denominou Teologia da Libertação, com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) atuando junto à população em um sentido de tornar a Igreja Católica mais voltada aos “oprimidos”, com a premissa de que foi a esse povo que Jesus se dirigia quando aqui esteve.

Até cheguei a cogitar a possibilidade de entrar nesse seminário, me tornar padre. Mas a paixão arrebatadora por uma menina linda do grupo frustrou meus planos. Não rendeu nada com a garota e a vocação acabou não se manifestando. E o resto é história.

O que importa aqui é o fato de eu ter, nesses últimos dias, me reencontrado com pessoas que participavam desse grupo naquela época, pessoas que fiquei muito tempo sem ver e ter notícias, e revê-los foi muito intenso, foi um resgate de uma pessoa que julgava esquecida lá dentro de mim, que perdeu um pouco da ilusão, da ingenuidade, dos sonhos. Que teve que encarar a realidade, sem desistir, contudo, de acreditar na possibilidade de o mundo ficar melhor, mais justo, mais igualitário.

Éramos fãs dos papas Paulo VI e João XXIII; este promoveu o Concílio Vaticano II, trazendo a Igreja para mais perto dos pobres, e aquele deu continuidade a esse trabalho (posso estar falando besteira, mas escrevo de memória, sem pesquisa; se alguém contestar e esclarecer, agradeço).

Depois de mais de um ano de atividades no Juba, resolvemos montar um grupo de teatro amador, o Tupi (Teatro Unido Popular Independente – gostávamos de meter “unidos” em tudo [rs]), para fazer um trabalho mais lúdico e provocar discussão junto aos expectadores. Montamos a peça “A Invasão”, de Dias Gomes, mas mudando o final, para melhor condizer com os fatos pós 31 de março de 1964. Levamos a montagem por um ano a favelas, comunidades de bairro, sindicatos, clubes, onde houvesse gente a fim de debater a realidade (!).

O grupo extinguiu-se com o surgimento do PT, o padre mudou sua postura e voltou à antiga prática católica de promover encontros de casais, catequização, grupos de estudos bíblicos e de corte e costura, enfim, largou um pouco a mão daquele trabalho social. E a Igreja também, com João Paulo II, seguiu esse rumo. Pouco depois, em 1985, o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (coisa que remonta à Inquisição), Joseph Ratzinger, condenou ao silêncio o frei Leonardo Boff, um dos teóricos da Teologia da Libertação, por causa de seu livro “Igreja, Carisma e Poder”.  A Igreja Católica mudava, e Ratzinger, depois papa Bento XVI, parece que levou essa “nova” doutrina ao paroxismo. Ele que renunciou ao cargo no último dia de fevereiro deste ano.

Agora, os cardeais estão a escolher seu sucessor. Não tenho tido interesse em acompanhar o processo. Há muito deixei de me importar com os rumos dessa igreja, mas pelo que tenho ouvido e lido, essa religião continua distante dos tempos atuais, das questões fundamentais que importam ao seu rebanho, em nome, talvez, de igual opressão, regulação, regras e  controle da igreja de minha infância. Assim, fico com meu Deus, e a ele me dirijo sem intercessão de algum de seus pastores. Se me ouve, não sei. Mas imaginar que alguém zela por você em algum canto dá um certo conforto.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um dia politicamente correto e incorreto

Cheguei ao North Beer, zona norte de SP, por volta de 14h de sábado, 10/09/11. Mesa reservada, poucas pessoas ainda. Kotscho já lá estava, vi-o entrando quando estava ainda na calçada. Entrei de mansinho, procurei uma cadeira, coincidentemente em frente à do homenageado, ao lado de Ênio. Tímido, me sentindo um estranho no ninho; algumas pessoas me olhando, outras perguntando meu nome, de onde eu era. Marisa, que me avisara do evento e me convidara, ainda não tinha chegado, e fiquei naquelas de imaginar o que estavam pensando de mim ("mas quem será esse cara?").

Foi o terceiro encontro dos leitores do Balaio do Kotscho, blogue do veterano jornalista Ricardo Kotscho, hoje abrigado no portal R7, depois de pouco mais de 3 anos no iG. Aos poucos, mais leitores chegando, puxadas de papo, me soltando, conhecendo as pessoas. Audálio Dantas, outro veterano da imprensa, me cumprimenta. Outras pessoas também. Receptivas. Ouvindo as conversas, reconheço o Ênio ao meu lado, de ler sobre ele no blogue do Renato Rovai. Fazemos os pedidos: a maioria chope, caipirinha (de vodca, mas também pinga), Ênio pede Seleta e discorre sobre a qualidade da cana de Salinas, região mineira produtora das melhores cachaças brasileiras. Diz-se cachacista, apreciador e estudioso da aguardente, uma vez que cachaceiro é o fabricante, explica. Vou de Brahma Black, mas logo depois emendo com uma Seleta também, maravilhado com a cor amarelada observada no copo de meu vizinho de mesa. Saborosa, leve.

Kotscho levanta-se e volta com um prato recheado de tentações e, como diz uma amiga minha, gordices: torresmo, bacon, cupim, costela. Claro, não resisto. Belisco e logo depois pego minha porção também no bufê, acompanhado de um grosso caldinho de feijão. O evento é organizado pelo pessoal do Boteco do Balaio, site criado por pessoas que acompanham o blogue do Kotscho e lá costumam postar comentários e se tornou uma espécie de fórum de discussão. Mais à vontade, vamos conversando. Muito papo à toa, mas também política, claro, cultura, história, jornalismo. Agora começo a me sentir um peixe no aquário, integrado, pessoas com histórias parecidas com a minha, vivências similares, modos de pensar semelhantes.

Precisava disso, contaminado que ando por ambientes pouco a ver comigo, mas que por necessidade preciso frequentar. Nada contra, não podemos nos isolar em nossos feudos. O interessante foi constatar que são pessoas que mantêm o senso crítico, não babam ovo para o povo que está aí no poder, que muitos ajudaram a lá estar. Como mencionei em um post anterior, não me sinto parte deste governo, porque nunca quis isso, e, com esse necessário distanciamento, posso até discordar de algumas coisas que aconteceram nesses oito anos e nove meses de PT no Planalto.

Mas não é sobre isso que quero falar. É sobre a lufada de ar puro que lá respirei, o estar em um ambiente do qual me isolei já há algum tempo e estava me fazendo falta. Sempre falo que os jornalistas hoje estão um tanto caretas. Pelo menos em relação aos da época em que comecei. Não fumam, não tomam pinga, não comem porcarias de botequim... muito politicamente corretos para meu gosto. Muitos nem saem da  redação mais, tudo na base do telefone, e-mail, MSN e outras tecnologias que permitem o cumprimento de vinte pautas em um dia. E lá estavam Kotscho e Audálio, entre outros, de grandes reportagens, de fôlego, como se dizia antes. Quando você podia mandar o repórter para longe e deixá-lo uma semana para voltar com uma grande matéria. O Kotscho, entre tantas outras, veio com uma que popularizou o termo "mordomia". O Audálio descobriu no Canindé a Carolina Maria de Jesus, catadora de lixo, cuja história foi eternizada no livro Quarto de Despejo, que li lá pelos meus vinte anos de idade e me marcou muito.

Sei lá, há ainda grandes reportagens nos meios de comunicação, nada de nostalgia do tipo "no meu tempo era melhor". Apenas os tempos mudaram. E ponto. Digamos que, por vivermos em um período de trevas (outra expressão bem datada), a realidade era meio escondida, e os jornalistas se esforçavam para quebrar esse bloqueio e trazer à luz que o tal milagre brasileiro era coisa para inglês (americano?) ver. Sim. Delfim fez o bolo crescer um pouco, mas já dividir... Lembra uma música que cantávamos no coral da igreja, de uma das Campanhas da Fraternidade da CNBB: "Meu irmão eu vi plantar/ meu irmão nos deu o pão/ mas na hora de jantar/ não chamaram meu irmão" (Esta mesa nos ensina). Comparações com os dias atuais ficam em aberto.

Lá, no almoço, foram feitas muitas, contadas histórias incríveis; eu ouvinte, pouco a contar, deslumbrado? Um pouco, mas mais reverente e respeitoso que aparvalhado. Afinal, em meus 23 anos de profissão, convivi com muitas feras e me orgulho disso; a gente aprende vivendo com os bambambans (e com os babacas também). Mas nem tudo lá era nostalgia, afinal, a gente vive o presente e nosso ofício exige estar sempre atualizado. O bom disso foi eu sair um pouco da toca que me impus, e voltar à rua me deu novo ânimo, vontade de escrever, de fazer coisas. Isso já se desenhou há pouco tempo, quando resolvi voltar a estudar, um curso básico de economia, na Fipe, nada que eu não já tenha visto, mas importante para desembaraçar certos conceitos e, melhor ainda, conviver com colegas e professores. Ouvir pontos de vista diferentes dos meus, discutir, aprender, sonhar com voos mais altos - meu projeto de cursar um mestrado ainda está de pé, quem sabe não consiga ano que vem...

Foi um belo sábado, concluído com a ida ao teatro, ver Trair e Coçar É Só Começar, que imagino ser um dos poucos brasileiros que ainda não a tinha visto, 25 anos que está em cartaz esse texto do global Marcos Caruso. Pena que dormi tanto na apresentação que nem acompanhei adequadamente os quiproquós em cena, mas ao final, já desperto, o ritmo estava mais agitado e permiti-me rir um pouco. Interessante foi ver um grupo de portadores da Síndrome de Down na plateia. Acho que algum instituto ou algo assim os trouxe. São adoráveis. Coincidência, quando me dirigia ao restaurante, ouvi no rádio entrevista com o criador do blogue Mano Down, Leonardo Gontijo, que conta suas experiências com o irmão mais novo, o Dudu. É. As coisas se intercalam, dizem que coincidências não existem, se conectam. O fato é que adorei este sábado. E de quebra ainda descolei uma bela dedicatória do Kotscho em seu livro Do Golpe ao Planalto, que darei de presente a minha filha Isabela, futura colega.

P.S. Por sugestão do leitor Rafael Campos, paragrafei o texto para ficar mais fácil de ler...Agradeço a sugestão.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Em busca da felicidade

Assisti ao novo filme do Arnaldo Jabor, A Suprema Felicidade, seu oitavo longa-metragem após quase 25 anos de ausência na direção. É um filme nostálgico, que relembra um Rio que não existe mais - aliás, bela reconstituição cênica - e emoções que ainda persistem. Eu não posso dizer que gostei, mas também não digo que detestei. Digamos que tolerei, principalmente pela excepcional atuação do grande Marco Nannini, sem falar de Emiliano Queiroz e o sempre bom João Miguel. Devo destacar ainda Elke Maravilha, com uma interpretação correta e longe da fanfarronice que a acompanha.

Meu senão ao filme é pelo fato de ele não dizer bem a que veio, eu realmente não consegui detectar qual a mensagem que Jabor quis passar. Seria a de que a felicidade não existe, o que corresponderia ao seu conhecido sarcasmo? Porque o título não se justifica nas cenas, protagonizadas pelo menino Paulo, apontado em três fases de sua vida: menino de 8 anos, adolescente e aos 19 anos. Por meio de sua vida, vão desfilando os demais personagens: seus pais, seus avós, amigos, padres do colégio, prostitutas...

O mote é a busca da felicidade, mas são poucos os momentos em que ela se manifesta. Creio eu que a ideia é esta mesma, a de que a felicidade, seja suprema ou não, é uma ilusão, como o carnaval que irrompe sem muita explicação. Aliás, essa cena remete também à nostalgia, de um tempo em que o carnaval era essencialmente na rua, coisa que os blocos de hoje parecem querer reviver. Mostra ainda uma Lapa romântica, com Noel Rosa dando o tom, cabarés feéricos e ruas azuladas habitadas por seres há muito extintos, como o comprador de jornais e revistas velhas (será que existiram?) e o pipoqueiro desbocado.

Um filme, sim, bonito, com lindas imagens desse Rio dos anos 40 a 60, mas a sensação ao sair da sala é a de que alguma coisa não está bem  explicada. E que o longa foi longo demais.

Simplesmente Beth - Na sexta, 12, fui ver Simplesmente eu, Clarice Lispector, peça escrita, interpretada e dirigida por Beth Goulart, simplesmente esplêndida em sua atuação, com uma caracterização leve e muita força dramática.

O texto baseia-se em obras, entrevistas, correspondências e depoimentos da escritora e traz suas reflexões sobre os mais variados assuntos, com palavras fortes, que causam bastante impacto. Eu nunca li nada dela, apenas vi o filme A Hora da Estrela, que me causou grande impacto (vi também uma montagem teatral dela), mas o espetáculo incita a vontade de mergulhar em sua obra, objetivo confessado por Beth - o de fazer as pessoas lerem, e não apenas livros de Clarice.

A peça tem uma carpintaria engenhosa, apesar do cenário espartano, mas com forte trabalho de luzes e sonoplastia, além de efeitos visuais em um telão. Beth interpreta a escritora e alguns dos personagens de seus livros e demonstra segurança de arrepiar na interpretação. A força está mesmo no texto, que mostra uma mulher questionadora e que busca o conhecimento e o autoconhecimento e, quem sabe, a felicidade.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O prazer da leitura

Ontem, 7, terminei de ler A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge Amado, que baixei. Na comparação com o filme assistido em maio e que comentei aqui, há a adição de algumas cenas e a colocação do personagem  principal como narrador do filme. No livro Quincas não cumpre esse papel, mas há nesse um conteúdo fantasioso, fazendo com que o morto fale, mexa os olhos e a cabeça e até fique de pé no barco e de lá se lance para o mar. No filme ainda há uma maior peregrinação pelas ruas de Salvador, quando no livro há apenas uma parada em um botequim antes de o quarteto de amigos carregando o morto ir até o cais, onde se deliciaria com uma moqueca no saveiro de um pescador. Mas na essência o filme é fiel ao texto do livro, por sinal muito bom, como todos os escritos de Jorge Amado. Aliás, desde Tocaia Grande não lia nada do baiano. E agora baixei os três volumes de Subterrâneos da Liberdade, em que ele relata os duros anos da ditadura Vargas e a luta do PCB. Com isso, fico deixando para trás o Economia em Contexto e o Felicidade Autêntica, mas logo os pego. Ainda continuo a ler O Cão dos Baskevilles, de Conan Doyle, que narra aventura de Sherlock Holmes e que também baixei. Li esse livro há muito tempo, ainda na época do colegial. Era sócio da Biblioteca Malba Tahan, em São Bernardo do Campo, e devorava livros de lá. De Sherlock Holmes li todos, pois havia lá a coleção. Eu lia muito quando adolescente, porque não tinha uma turma com quem passar as horas - até tinha, mas não era sempre que me aventura a sair com eles, apreciadores de atividades não muito lícitas. O certo é que lia bastante. Era sócio também do Círculo do Livro, e comprava várias publicações, a um preço honesto. Pena que o que eu lia não era assim de qualidade muito superior. Lia muito livros policiais, de espionagem e faroeste. Os clássicos só os lia por obrigação escolar, mas gostava muito do que era colocado para leitura e futuro trabalho. Jorge Amado eu gostava muito de ler, por causa da enormidade de palavrões, o que para um adolescente é coisa de muito valor. Mas o que me deixou perplexo, nesse particular, foram os livros de Plínio Marcos. O primeiro que li dele, lá pelos 17 anos, foi Querô, Uma Reportagem Maldita, sobre um menino, filho de uma prostituta, que perdeu a mãe assassinada e foi criado na zona, antes de ganhar as ruas e se tornar mais um dos moleques sem-teto que ainda hoje habitam as calçadas. Apesar de gostar do livro pelos palavrões, o texto me incutiu um tanto de consciência social. Alguns anos depois passei a assistir peças dele,  no Teatro São Pedro, após as quais havia um debate com o autor. Eram momentos de grande regozijo. Na época do grupo de teatro Tupi, cogitamos de convidá-lo a dar uma palestra a nós, mas ele não pôde vir por problemas de agenda. Cheguei a vê-lo na faculdade, vendendos seus livros. Li muito Plínio Marcos e acho que isso veio a despertar em mim a sede por justiça social que fui saciar nos anos 80 junto à comunidade da igreja de Vila Palmares, de onde saiu o Tupi. São recordações boas, não nostálgicas, que faço lembrar para não esquecer o que sou e manter em mente o objetivo de mudar algo aí, e não apenas pelo voto. Então, voltemos ao Amado. 

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Inverno das paixões

Quadrilha, Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história


Esse poema de Drummond é citado nos comentários a respeito da peça Inverno da Luz Vermelha, dirigida por Mônica Gardenberg, e que assisti, junto de minha filha e Joana, no teatro Faap. Porque, à semelhança do poema, os personagens da peça de Adam Rapp experimentam as impossibilidades do amor. No texto, dois amigos, David (André Frateschi) e Matheus (Rafael Primot) estão em Amsterdã. O primeiro é um insensível bon vivant, enquanto o outro, roteirista de cinema,  amarga  uma desilusão amorosa (provocada pelo próprio amigo, sabe-se depois). Talvez para tentar amenizar um pouco a traição, David contrata a prostituta francesa Christine (Marjorie Estiano) para que o amigo se divirta. Acontece que Matheus não tem o menor jeito com as mulheres e prefere estabelecer um diálogo com a moça, que acaba tendo que tomar a iniciativa e resolver o assunto. Um ano depois, em São Paulo, a cena se passa no apartamento de Matheus, que recebe a visita de Christine (na verdade a paulista Ana). O rapaz desmaia quando vê a moça, por quem nutriu esse tempo todo uma paixão ao mesmo tempo platônica e fetichista, já que ficou com um casaco que ela esqueceu no apartamento deles na Holanda e transfere ao objeto a paixão pela prostituta. Ela veio no endereço atrás de David, que informou o do amigo quando ela pediu para enviar um CD. Esse pedido - do endereço - já antecipa que Christine/Ana envolveu-se com o cliente mais do que para um simples programa. De fato, na segunda parte vê-se a quadrilha: Matheus que amava Christine que amava David que não amava ninguém. O texto tem grande carga dramática, mas também bastante comicidade. E marca meu retorno às plateias teatrais, que não consigo me lembrar a data em que fui pela última vez. Fui na semana anterior ver o musical Zorro, mas saímos no meio da peça porque a Joana caiu e estava sentindo dores. Gosto muito de teatro, apesar da dificuldade de se encontrar boas peças por aí. Gosto de textos que trazem leveza à alma e fazem refletir. Esse Inverno provocou os dois efeitos, e a boa atuação dos atores, direção segura e cenário adequado, além de iluminação e trilha sonora de grande efeito, levam à conclusão de que se trata de um bom espetáculo.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O bem escrachado

Assisti a O Bem Amado sábado, filme de Guel Arraes baseado na obra de Dias Gomes. Como na novela, que passou nos anos 1970 na TV Globo, o roteiro baseou-se em duas peças de Dias Gomes: Zeca Diabo e O Bem-Amado. Tenho uma simpatia antiga por José Alfredo de Dias Gomes, de quem montamos, nos tempos do Tupi, teatro amador de que participei, em Santo André, a peça A Invasão. Tenho um livro com várias peças dele, e penetrar em seu universo me abriu a mente para as mazelas deste país. O filme é bom, grandes atuações do elenco, mas para quem viu a novela é inevitável as comparações. Achei o Nanini meio caricato demais, bem distante da naturalidade de Paulo Gracindo. Aliás o filme todo parece que optou pelo escracho, pelo exagero, quase pantomima. Isso não é defeito, é escolha. Como disse para minha filha, quem não teve oportunidade de ver a novela ou a minissérie tem a vantagem de não fazer a comparação. Claro que as exibições antigas são outra coisa, não dá para comparar novela com filme, assim como não dá para fazer o mesmo entre peça e filme. Mas eu gostei do filme, apesar de achar um tanto arrastado às vezes, muito centrado no núcleo do Odorico e com poucas cenas paralelas. Acho que se se explorasse um pouco mais os outros núcleos o filme ganharia em agilidade. Por exemplo: o "romance" entre a filha de Odorico, Violeta, e Neco, interpretados por Maria Flor e Caio Blat, poderia ser mais abordado. Senti que ficou vazio, não gerou o conflito que seria de esperar. O personagem de Tonico Pereira, Vladimir, dono do jornal A Trombeta, ficou por demais caricato, o mesmo a dizer das irmãs Cajazeiras, muito bem levadas por Zezé Polessa, Drica Moraes e Andréa Beltrão, que na novela eram mais sutis. Dou o desconto de que, no curto espaço de um filme, fica difícil explorar melhor a complexidade de todos os personagens e que talvez o caricato foi opção para fazer um filme engraçado sem muito compromisso com as entrelinhas do texto de Dias Gomes. O filme ainda busca relacionar o enredo da trama com acontecimentos do país, como o golpe de 64 e depois a luta pelas Diretas, em 84. Ficou meio estranho, parece que só serviu para mostrar que o jornalista Neco (Blat) seguiu na profissão. O Dirceu Borboleta de Matheus Nachtergaele está impagável, mas bem distante do vivido na telinha por Emiliano Queiroz; só uma obervação importante: em nenhum momento ele é mostrado caçando suas borboletas, e sua consciência política é mais ressaltada no filme do que na novela, em que, ao que me lembro, ele é bem mais ingênuo e totalmente subserviente. O Zeca Diabo de José Wilker está irretocável, e é uma atuação que não lembra a de Lima Duarte, no que em minha opinião lhe rende muitos pontos em originalidade. Enfim, o filme, apesar de fiel na maior parte do tempo aos textos de Gomes, consegue se distanciar da novela, o que é muito bom. E, outro ponto a favor, mantém o tom político, sem proselitismo, que o autor imprimiu, atualizando e contextualizando, se bem que de uma forma ligeira sem aprofundamento, talvez para alcançar um público bem maior.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Teatros em shoppings



Ontem, indo para casa, ouvi no rádio o anúncio da inauguração de um shopping center na Vila Olímpia, e me chamou a atenção a informação de que em breve o centro de compras contaria com um teatro. Aí me lembrei de outro shopping recém-inaugurado, o Bourbon, no bairro da Pompéia. Lá tem o Teatro Bradesco; no Frei Caneca, na rua de igual nome, também tem teatro - foi onde assisti ao espetáculo O Mistério de Irma Vap. Aí pensei: será uma tendência? Fui pesquisar e o bom e velho Google deu-me outros endereços: Teatro das Artes, no Eldorado; Teatro Folha, no Pátio Higienópolis; Teatro do Shopping Parque Dom Pedro, em Campinas. Deve haver mais por aí, mas fiquei com preguiça de passar da página 1. O importante é que parece mesmo se tratar de uma tendência. Como os cinemas, que invadiram os templos de consumo há pouco mais de 10 anos, espero que não pereçam os teatros de rua, como os cinemas definharam impossibilitados de competir com a praticidade do shopping. Já imaginaram o Teatro Municipal de São Paulo (foto), do Rio, o Amazonas, de Manaus, o José de Alencar, de Fortaleza, virando templos da Universal ou da Renascer? Ou passarem a exibir peças pornográficas ao vivo? Seria o fim da cultura. Eu não sei se a intenção dos empresários que constroem esses empreendimentos é difundir a cultura, apostando em montagens importantes. Ou se nesses teatros reina o besteirol (nem me preocupei em pesquisar o que está em cartaz, porque não saberia que tipo de peças são antes de assistir ou buscar referências). Um teatro costuma até se tornar uma referência, seja do local onde está seja do tipo de espetáculo que apresenta. É impossível que alguém não saiba onde é o Municipal de São Paulo, ou que não se refira a algum endereço no Centro sem falar: "Ah, é perto do Municipal". A outra referência, a do repertório, aponta a fama que a sala ganha ao longo do tempo baseada no tipo de peça que se assenta em seu palco. Durante os anos 50 e 60, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), Major Diogo, era sinônimo de sofisticação, de textos clássicos; nos 60, queria espetáculos contundentes, revolucionários, ia-se ao Teatro Oficina, na rua Jaceguai; hoje, peças de vanguarda, humorísticas têm lugar nas salas da Praça Roosevelt, musicais da Broadway têm sempre vez no Teatro Abril, na Brigadeiro Luiz Antônio. Como será que vamos nos referir aos novos teatros nos shoppings no futuro? Será que vamos ao teatro ou fazer umas comprinhas, jantar e, se der tempo, ver a peça que estiver passando, caso a fila do cinema esteja grande demais? Nada contra, em princípio, afinal, a modernidade é assim mesmo e, com tanta violência por aí, estar protegido naqueles oásis pode até fazer o gosto pelo teatro renascer, ou aumentar. Mas eu fico pensando que teatro Zé Celso (diretor do Oficina) faria dentro de um shopping, lembrando de encenações do grupo que extrapolavam o teatro e iam à rua! E, curiosamente, há anos ele vem brigando com o grupo Silvio Santos, que quer derrubar o teatro (pois parece que a empresa é dona do quarteirão em que está o Oficina) e construir um... shopping.