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quinta-feira, 30 de julho de 2026

A quem pertencem nossos dias?


Foto: Reprodução

Esta pergunta é o ponto crucial da trama do longa "A Graça" (La Grazia), do cineasta italiano Paolo Sorrentino, em cartaz no Mubi.

No filme, Sorrentino aborda a solidão do poder e o crepúsculo da vida. No centro da narrativa está Mariano De Santis (Toni Servillo, foto), um presidente católico e jurista impecável que, nos meses finais de seu mandato como chefe de Estado da Itália, enfrenta um dilema ético e legal sobre a eutanásia e ainda a decisão sobre a concessão (ou não) do perdão (a graça do título) a dois assassinos confessos, uma por se livrar do marido violento e outro por abreviar o sofrimento da esposa com Alzheimer.

Sorrentino materializa esse conflito na figura de um papa negro (Rufin Doh Zeyenouin) que anda de motocicleta pelo Vaticano, mas que permanece estrito aos dogmas milenares da Igreja, não dando refresco a Mariano. Sem clareza entre a ética e o secularismo do poder, o governante assume nos ombros o peso de decidir o destino e aliviar o sofrimento de um povo que ele passa a encarar de forma quase paternal.

Quem foi?


Contudo, a suposta pose de estadista infalível é desmistificada pelas frestas da vida íntima. Paralelamente às macrodecisões do Estado, Mariano vive assombrado pelo fantasma de uma traição conjugal ocorrida há quarenta anos. É na esfera doméstica que o gigante das leis (ele fora juiz antes de se tornar presidente) se revela frágil, vulnerável e analógico — evidenciado na sua tocante incapacidade de lidar com os novos instrumentais do cotidiano contemporâneo - no caso, um fone de ouvido para poder ouvir... rap!

A virada


O verdadeiro ponto de virada moral da trama acontece quando sua filha Dorothea (Anna Ferzetti) implode a paralisia institucional do pai com uma pergunta avassaladora: "A quem pertencem nossos dias?", a respeito das decisões que precisar tomar. Diante do tormento pessoal paterno, ela o confronta com a necessidade de deixar o passado prescrever.

A narrativa se desenrola, então, não como um mero debate jurídico, mas como uma capitulação afetiva. Mariano se vê diante do maior desafio de um homem maduro: o desprendimento de aceitar que o mundo agora pertence às novas gerações.

Essa tensão geracional — que também se reflete na subtrama de seu filho músico, Riccardo (Francesco Martino) — sintetiza-se na provocativa frase de Mariano em sua entrevista à revista Vogue: "Há um tempo em que os filhos devem seguir os pais, e há um tempo em que os pais devem seguir os filhos".

A arte de ceder


Longe do cinismo de seu curta "La Fortuna", que faz parte do longa "Rio, Eu Te Amo", de 2014, onde a velhice rica era tragada pelo interesse, Sorrentino entrega em "La Grazia" um hino sobre a sutil arte de ceder. Ao sugerir que a verdadeira "graça" do título está na capacidade de pacificar os próprios fantasmas e aceitar o presente, o filme se torna um espelho comovente para qualquer um que já se viu desafiado a dar um passo atrás para deixar o futuro caminhar.

Veja trailer do filme: