O Barquinho Cultural

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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Tony Babalu: um músico à moda antiga

Tony Babalu lança 'Live Sessions II', com seis temas instrumentais (Foto: Lucas Altieri)

Tony Babalu é um desses raros músicos que sabem unir técnica e alma em suas composições, resultando em obras para se ouvir com atenção, calma, sem pressa. Seu mais recente trabalho, o CD “Live Sessions II”, lançado em agosto de 2017, traz seis temas instrumentais que passeiam por vários climas do rock, funk, soul, blues, em um apanhado de suas influências e daquilo que tem escutado desde que decidiu trilhar pelo caminho da música, ainda na adolescência, no início dos anos 1970.

Acompanham Babalu (composições, guitarra e direção geral) o tecladista Adriano Augusto, o baixista Leandro Gusman e o baterista Percio Sapia.
A banda: Leandro, Babalu, Percio e Adriano (Foto: Karen Holtz)

O novo CD sucede o “Live Sessions at Mosh”, de 2014, ambos lançados pelo selo Amellis Records e distribuídos pela Tratore e “construídos a partir de uma atmosfera vintage e orgânica que norteia todas as fases de sua concepção”. Isso se traduz na escolha do estúdio Mosh, de São Paulo, que mantém equipamentos, tecnologia e espírito dos anos 70, analógicos. “Algo que quase ninguém mais tem no mundo”, define.

Mais do que nostalgia, a decisão de gravar à moda antiga deve-se à concepção de seu trabalho atual, explica. “A música que eu faço tem uma raiz no improviso, que depende muito do estado emocional que você está”, adianta. As músicas foram gravadas quase “ao vivo”, para aproveitar a sensação do momento, exigindo perfeito entrosamento dos músicos. Não há emendas, overdubs, o que significa que cada faixa é um momento único.

Nesta entrevista – talvez seja melhor chamar de depoimento – ao Blog por Bloga, Babalu fala sobre como começou a tocar, as bandas de que participou, a cena rock nos anos 70 no icônico bairro paulistano da Pompeia, suas influências, inspirações e como vê a música atualmente.
CD traz na capa detalhe da Stratocaster 1973, presente de Wander Taffo


O começo de tudo

“Comecei com música no finalzinho da década de 60 – 69, 70, por aí. Comecei a aprender a tocar guitarra. Cresci num bairro aqui de São Paulo que é tradicional no rock, Pompeia. Tem muito roqueiro aqui, é até chamada de Liverpool brasileira. Isso facilitou. Daqui saíram Mutantes, Tutti Frutti, Made in Brazil. Sou de 1953, tinha em 1969 15, 16 anos, foi aí que eu comecei mesmo, vi Woodstock, gostava muito já de Beatles e Stones e comecei a pegar gosto pela coisa.

Comecei com violão e aí já peguei uma guitarra, meu negócio era tocar guitarra, todo mundo queria tocar guitarra. A grande influência nessa época era o Jimi Hendrix, o que ele tinha feito em Woodstock jogou definitivamente a importância do rock na guitarra. Apesar de o Jimi Hendrix ter morrido em 70, foi ele, mais outros guitarristas da época – Keith Richards, o próprio George Harrison, o [Eric] Clapton com as bandas dele, a guitarra era (é) o instrumento do rock. Como o piano é o instrumento do pop, a guitarra é do rock.

Aço: primeira banda de Tony Babalu (Foto: Arquivo)
Minha primeira banda profissional foi o Aço, o baterista era Rolando Castello Júnior, do Patrulha do Espaço, que existe até hoje e que existia antes do Arnaldo [Dias Baptista], ele que entrou na Patrulha e ele tinha aquela projeção, era o primeiro trabalho dele em banda fora dos Mutantes, depois dos discos solo que ele fez, então a Patrulha do Espaço ficou associada ao Arnaldo, mas a Patrulha do Espaço mesmo era Júnior, Dudu [Chermont] e Koquinho [Oswaldo Genari], que morava aqui na Pompeia. Dudu Chermont e Koquinho já faleceram. Mas antes disso a gente tinha essa banda, Aço, que tocava hard rock, mais parecido com a Patrulha. Aí nós entramos no Made in Brazil em 74, acabou acontecendo de a gente entrar os dois juntos.”

A cena na Pompeia na época

“Na época não tinham estúdios de ensaio, essa estrutura que tem hoje, essa coisa de ensaiar pagando, você tinha que ensaiar na sua casa, não tem conversa, e os amplificadores eram paredes, enormes, não existia ainda a cultura do cubinho, do amplificador pequeno, portátil. Então você tinha que ensaiar em casas que tinham garagem, incomodava os vizinhos, e tinham focos de ensaios aqui na Pompeia. Tinha a casa onde os Mutantes ensaiavam, a casa do Made, a do Pholhas, ali na Barão do Bananal, a casa do [Roberto Gurgel] Juba, que hoje é batera da Blitz, e as pessoas se encontravam nesses ensaios e tinha muita reunião na casa dos músicos, para ouvir música.

Ouvir música era o programa completo, era suficiente. Por exemplo: chegou um disco importado do Deep Purple, de alguém que não saiu no Brasil ainda, os discos demoravam para sair, uma defasagem de um semestre, isso quando eram fabricados aqui, muitos nem saíam aqui. Um disco novo era o suficiente pra você ter uma noite, chamava os amigos e a gente fazia audições, ouvia o disco faixa por faixa, os músicos comentavam, tentavam tirar, essa era a coisa aqui na Pompeia. Era um bairro efervescente, o assunto era música, tinham muitos músicos, todo mundo escutava música como prato principal.

Hoje, a música é um complemento. Você sai de casa vê um show, um teatro, faz outra coisa. Você precisa de mais de que uma música, ela atua mais como complemento de uma festa, de uma reunião, de uma noitada, um barzinho. Nessa época a música era o principal. Era o assunto, era o tema, eram as coisas que estavam acontecendo. O Brasil também era fechado.”

O rock no contexto da época

“Em termos de comportamento, não só aqui como lá fora, aqui era um reflexo. Como não tinha uma cultura de consumo, uma indústria de consumo, a maneira de se vestir de quem curtia rock and roll por exemplo, era agressiva, cabelo comprido, calça jeans, camiseta, tênis, eram coisas que estavam entrando na cultura do dia a dia, tamancos. Não só na maneira de vestir como na forma de falar, a cultura indiana estava entrando ainda, aquela coisa de incenso, de batas floridas, de macrobiótica, toda essa cultura indiana ainda era muito nova aqui, e era associada com os roqueiros.

Agora o regime político era fechado, era uma ditadura, e tudo que era fora do sistema incomodava. Então você corria o risco de ser hostilizado na rua pelo seu cabelo, você não podia fazer reuniões, juntar dez, 15 pessoas como se faz hoje porque a polícia ia lá ver se ali não tinha um foco subversivo, ou comunista, então as coisas se misturavam. Você veja: o rock é uma cultura da sociedade de consumo americana, ocidental, americana, inglesa, não tinha a ver com a esquerda política, por exemplo, mas no comportamento sim, na atitude, sim, era uma cultura de rebeldia e das artes, em geral.

Tinha, sim, que enfrentar sempre a sociedade, sempre explicar por causa da associação muito forte com o visual, o visual era muito fora do sistema. Você confronta o sistema, mas o que você propõe? Seria a pergunta. E não tinha uma sociedade de consumo.

A coisa começou realmente a abrir, melhorar, no meio da década de 75 para cá, quando o rock começou mesmo a entrar na cultura da música: Rita Lee, com 'Ovelha Negra', foi um dos primeiros discos do Tutti Frutti que rompeu a barreira mesmo, entrou com música em novela, e aí as coisas começaram a acontecer de maneira diferente. Quando eu comecei era bem apertada a coisa.”

O papel do rock na rebeldia jovem


Made in Brazil: grupo que está completando 50 anos de estrada e com o qual Babalu gravou 4 discos (Foto:  Divulgação)


“Desde o movimento da Tropicália, que não era rock, era uma confrontação ao padrão da MPB, desde esse final dos anos 60, do Tropicalismo para cá, o rock and roll era associado com a juventude rebelde, tem aquele fundamento político, mas não política de Estado, de regime, a política familiar, o conflito de gerações, que era o motor, o pavio da irreverência, da maneira de ser (‘eu não quero ser que nem meu pai, não quero fazer 40 anos’), aquela época do movimento da contracultura, hippie, amor livre, uma cultura antiguerra, os ídolos eram Jane Fonda, Peter Fonda, de filmes como “Sem Destino”.

Era tudo uma contracultura, contra aquela cultura estabelecida pelos padrões da sociedade ocidental, principalmente europeus da Inglaterra e dos Estados Unidos: a maneira de se vestir, a obrigatoriedade de você ter uma religião, de casar, todas essas regras rígidas de comportamento da sociedade. Por isso que eu digo que o rock está inserido num contexto de conflito de gerações, entre a moralidade da sociedade conservadora e uma sociedade liberalizante através da música.

Era isso, não tinha a questão política. Embora caminhasse no mesmo rumo das questões políticas, da contracultura na arte, dos regimes políticos alternativos, como o comunismo, o marxismo, o socialismo... toda essa cultura política de esquerda também acontecia na mesma época, mas a coisa da música, do rock, ela estava mais centrada no conflito de gerações: ‘eu não quero ter a vida que meu pai tem, por exemplo’, obedecer à mesma sociedade de consumo, ter a mesma situação, ou eu quero ser livre, entre aspas, viver sozinho, morar com uma pessoa sem casar com ela, romper essas regras de comportamento.

Aí que eu acho que a música, que o rock se insere. Meus pais deram um espaço muito grande, eu conheci Suzi aos 15 anos; eu não sofri internamente o conflito de gerações porque eu tive pais que realmente não se importavam com isso, não eram preconceituosos, conservadores, autoritários, sempre aceitaram as coisas numa boa, mas a música era basicamente uma tentativa de se expressar, de criar um padrão próprio de comportamento que não fosse aquele padrão certinho, politicamente correto que hoje está voltando a ser, mas aquele politicamente correto chato, moralista.”

Aprendendo a tocar

“Eu fui estudar violão com uma professora que era [a professora] da minha irmã, ela comprou um violão e largou mão, aí eu peguei o violão, a professora e comecei a ter aula, ela começou a me dar os primeiros acordes e quando eu comecei a aprender a tocar ela quis me passar ‘Meu limão, meu limoeiro’, aí foi a última aula. ‘Não é por aí’. Mas eu já sabia alguns acordes, a partir daí eu fui sozinho. Autodidata, de ouvir discos, tirar a música, tentar fazer como estava no disco e aí o ouvido ajudando, com amigos, assim que eu aprendi a tocar, com muito pouca teoria.”

Discos que influenciaram


O 'disco da banana': 1º álbum com o Made in Brazil


“Foram vários. ‘Revolver’ (1966), do The Beatles, aos 12, 13 anos; o ‘disco do bolo’ dos [Rolling] Stones – ‘Let it Bleed’ (1969) foi outro, mas aí a coisa realmente começou a ficar forte com o último disco do Jimi Hendrix, chamado “Band of Gypsys” (1970), com Billy Cox (baixo) [mais Buddy Miles, bateria), um disco ao vivo de 1970, e aí eu ouvi aquilo e disse, ‘vou tocar guitarra’, e fui atrás.

Um disco que também me marcou foi do Steppenwolf, na verdade mais uma música em um disco que tem ‘Born To Be Wild’, ‘The Pusher’, um disco de 68, 69. Depois vieram os discos clássicos, mas esses ainda são anteriores àquela famosa trinca que veio nos anos 70 – Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. Esses, mais Grand Funk, Santana, todo o pessoal que tocou em Woodstock – The Who... Isso é tudo a formação básica.

O disco que me fez querer ser músico digamos que tenha sido o “Revolver” e o “Let It Bleed”, e também o “Beggars Banquet” (1968) do Rolling Stones; agora o que me levou a querer ser guitarrista foi o Jimi Hendrix. Eu era muito novo, e não conhecia, tinha 16 anos; quando eu conheci o Hendrix, esse disco, ele já tinha morrido. Woodstock (o filme) nem tinha passado aqui ainda. Ele morreu em 70, quando eu ouvi o disco ele tinha acabado de morrer praticamente, ele morreu em setembro de 70 e o disco saiu aqui no final de 70 começo de 71.”

Na estrada

“O Aço era um trio, não tinha música própria, a gente fazia o repertório dos outros, como The Who, Grand Funk. O primeiro disco que gravei foi com o Made in Brazil, o da banana, tenho até uma música nesse disco, a “Intupitou o Trânsito”, minha única parceira com o Oswaldo e o Celso [Vecchione], as outras músicas que eu tenho no Made são parcerias com o Oswaldo. Foi gravado em 1974.

Aí eu gravei os quatro primeiros discos do Made in Brazil, a fase dele na gravadora RCA: o ‘Made in Brazil’, homônimo, foi o primeiro, o Júnior [Rolando Castello Jr] participou desse disco, Cornelius [Lúcifer] é o cantor, um grande vocalista, que fez muita história, falecido há uns dois, três anos, aí teve ‘Jack, O Estripador’ (1976), ‘Pauliceia Desvairada’ (1978), que foi o disco em que tive mais participação como compositor, e o ‘Minha Vida é Rock ‘n’ Rol’ (1980), que foi o último que o Made fez por uma gravadora grande, convencional, depois viria a fazer outro, o ‘Deus Salva... O Rock Alivia’ (1985).

Eu continuei participando, mas já foi diminuindo de intensidade. Em 1980 eu participei do Festival Shell de MPB, da TV Globo, com a música ‘Cidade Louca’, e uma banda chamada Artigo de Luxo, fiz um disco com o Artigo de Luxo e essa música, mas a gente parou na primeira, não fomos classificados para as finais do festival. Aí entrei no Quarto Crescente, que o Percy [Weiss], ex-vocalista do Made in Brazil me chamou para fazer, tenho um disco com eles de 1981, fiquei até 85, 86, depois fiz outra banda, chamada Bem Nascidos e Mal Criados, que não teve disco, mas tocamos em todos os lugares alternativos, era uma banda com duas cantoras, mais punk rock. Toda essa produção mais tocando, não cantando.”

A fase instrumental

“Resolvi entrar mesmo no instrumental nos anos 2000, mais especificamente depois de 2010, que eu lancei esses dois discos. Nesse tempo eu fiz muita coisa como produtor, continuei tocando com o Made, até hoje eu toco, a banda está fazendo 50 anos e de vez em quando eu vou e faço uns shows.


Entre 2010 e 2012 formamos a Betagrooveband, com a Marina [Abramowicz] na bateria e um baixista que hoje está morando em Portugal, PV Ribeiro; fizemos um show até importante, que foi a comemoração dos 30 anos do Centro Cultural São Paulo, tem três vídeos desse show na internet. É uma banda que tem um repertório muito legal que eu ainda quero gravar em disco. É uma proposta de trio com uma cara mais antiga, mais de Cream, mais pesado, um som mais pulsante, mais para rock mesmo, funk rock, uma coisa mais forte mesmo, diferente dessas duas propostas que eu estou fazendo com o quarteto, que é um som mais maduro, de climas.


Eu sou uma pessoa que escuto de tudo. Eu toco rock and roll, mas gosto de funk, o funk com tradição do soul music, mais black mesmo, sou uma pessoa muito eclética com música, escuto bandas pop, sofisticadas, complexas, como Steve Miller Band, como o trabalho do Sting, o Weather Report, uma banda clássica de instrumental, da mesma forma que eu escuto Stones, Muddy Waters, John Lee Hocker, Chic, do Nile Rodgers, sempre gostei muito.

O Chic é uma disco music com uma proposta dançante, onde a guitarra faz uma coisa rítmica muito particular, e o tipo de coisa que o Nile Rodgers fez foi de romper fronteiras na música, porque com ele os temas começaram a ser feitos para discoteca mesmo nos anos 70, então tem aqueles temas longos, onde fica muito tempo sem acontecer nada, aquela pulsação em cima de um riff de baixo. Tanto é que uma das músicas do Chic da época, 'Good Times', foi uma das primeiras músicas de hip hop, os caras já começaram a fazer colagens, quer dizer, uma coisa influenciou a outra na música.

Então como eu sou uma pessoa de escutar muito, ecleticamente, o que eu mais gosto, que não sai do toca-discos, é o básico do rhythm and blues: Eric Clapton, Stones, e variações do classic rock, ZZ Top. Mas eu gosto de Police, outras coisas, e o resultado disso é que de repente durante muito tempo eu fiz músicas com bandas vocais, com cantor, com letra, e de repente caí na música instrumental assim nos anos 2000 pra cá.

Teve um primeiro disco feito em casa, chamado ‘Balada na Noite’ (2003), sem banda, em casa mesmo, com tudo eletrônico, mas já instrumental. Fiz um show no MIS em um projeto de música instrumental em 2007; a coisa foi meio que naturalmente se encaixando. Em princípio, não era a ideia de ser meu trabalho principal, mas acabou acontecendo de começar a dar certo, começaram a surgir temas instrumentais, em cima de tudo que eu ouvi e tocar como músico, pegar a guitarra e não se preocupar com a letra, com arranjo, com cantor, com a métrica da música, com tocar em rádio. Quando eu dei essa relaxada eu caí na música instrumental e falei ‘aqui é uma delícia, toco o que eu quero, faço o que eu quero’, e estou nessa e acho que vou ficar nessa muito tempo.”

O processo de criação

A Fender sempre por perto para captar a inspiração (Foto: Carlos Mercuri)

“O tema sai aqui em casa, geralmente. Eu mesmo construo uma base para mim mesmo, eletrônica, baixo, batera, teclado num estúdio que eu tenho, das antigas também, monto essa base com esse riff, essa melodia, e começo a fazer a melodia em cima e preparo para os arranjos, faço um arranjo básico da música inteira, fecho a música tudo sozinho, gravo para a banda a minha parte de guitarra tocando e a parte deles sintetizada, bateria eletrônica, baixo, só para eles saberem a harmonia e a grade da música.

Aí que a gente começa a música para valer. Mando aquilo para eles por internet, passo os links, eles ouvem, tiram e vamos ensaiar. Chegamos para ensaiar e aí é outra música. Porque você parte dali e aí cada um começa a pôr suas coisas, seus climas, a música começa a sair lá, mas a massa, a grade, a harmonia saem daqui.

Lá a gente começa a trabalhar e ela cria a forma final. Aqui ela tem três, quatro minutos, às vezes ela tem um minuto, é uma levada, um riff, e lá ela ganha a forma final. Mas como é baseada em improviso, porque eu tenho um sistema de trabalho – que acabou acontecendo naturalmente também – que é muito diferente da grande esmagadora maioria: que é aquela coisa que a música tem muitos trechos em que vale o que tiver na hora, se você tocar duas vezes a mesma música não vai sair o mesmo solo, não vai sair o mesmo teclado exatamente, não vai ser a mesma virada de batera; a gente improvisa e cada hora é uma leitura, tem grades, tem situações, convenções na música, melodias principais, e tem a largada pra solar, aí o que vale é o que acontece.

Tradicionalmente não se faz assim. Se faz um disco como: você vai, grava num estúdio, vai a bateria, aí você vai colocando a guitarra, outro instrumento, volta, faz overdub, põe duas, três guitarras, põe vários efeitos, várias coisas, vai fazendo, é um trabalho de pintura que você não faz em um dia, porque em um dia você grava a base. A minha maneira de gravar é completamente diversa disso, porque a gente já chega com as coisas e grava ao vivo.

Tem aquela coisa de ser uma pintura da hora, daquele momento. Nós fizemos vários takes, para aprovar um deles, não é aquela coisa de teve um erro um take, volta ele inteiro, não é consertar o erro na máquina, então a música tem dez minutos e se fosse fizer um erro, alguma coisa que não passa na guitarra, todo o take vai ser refeito. Quer dizer, um músico depende do outro nessa questão, isso faz com que a banda comece a ter uma integração, vale muito o emocional da hora que você está gravando. Escolheu o take, aí o resto que você mexe é no timbre, não nas notas. Não acrescenta mais nada nem tira mais nada o que está lá.

Essa forma de gravação é uma forma que é inusitada. É simultâneo, ao vivo. Por isso gravamos no Mosh, é um estúdio assim, que tem um equipamento que quase ninguém tem no mundo. Eles têm as máquinas, as mesas, os compressores, é um equipamento ainda dos anos 60, restaurado, com válvulas novas. É toda aquela atmosfera. Eu gravei o disco como se eu estivesse nos anos 70 mesmo. O Mosh tem esse equipamento, ele não acha aquele som no computador, ele acha aquele som no ampli da época, com válvula, com microfone, por isso tem esse sabor, porque o estúdio tem essa cultura também.

Esse que é o conceito dos dois discos, seria analógico. Tem aquela coisa de quem gosta dos discos de vinil ainda. É como se eu estivesse hoje fazendo a música dos anos 70. Isso não é algo que foi pensado para ter um diferencial, isso aconteceu por causa do que eu vivo mesmo.”

Diferenças entre os processos

Eu gosto dos dois [processos de gravação], eu gosto também da tecnologia, muito, para escutar. Mas para fazer, nessa proposta de trabalho, a música que eu crio prefiro fazer na moda antiga. Eu já trabalhei nos dois, tudo que eu fiz de gravação foi mais nesse processo de fazer compartimentadas as coisas, fazer sucessivamente, não simultaneamente.

Eu gosto também, é algo mais cerebral, que não necessariamente é frio, têm muitos resultados que você ouve e tem a impressão de que é vivo, a coisa realmente é quente, não perde a pulsação, mas é uma questão de opção, para eu fazer tocando guitarra prefiro fazer a coisa simultânea porque a música que eu faço tem uma raiz no improviso, que depende muito do estado emocional que você está. Você tem um padrão, obvio, mas, dependendo do estado emocional, do momento de sua vida, você coloca ali uma coisa que tem que ser ali na hora que você está sentindo a música ser executada por todos.

Nesses dois trabalhos que eu fiz no Mosh, pelo conceito do trabalho tem que ser simultâneo, tem que ser ao vivo, não veria de outra forma. Mas isso não quer dizer que eu não possa fazer um trabalho e gostar de fazer um trabalho nesse processo tradicional de gravação, porque é uma obra de arte com um processo de registro diferente, e é legal também. Mas isso pode mudar também.”

A música hoje em dia

“O que eu percebo é que tudo ficou extremamente segmentado, a oferta de música é escandalosamente maior, não só de música, como de informação, e não só em relação à música, mas também às artes, a tudo. A oferta é grande demais, a internet, a velocidade de processamento da informação cresceu tanto, a informação é tão rápida e tão abundante que tudo fica segmentado.

Então se você pegar a música agora tem 15, 20, 30 vertentes sendo consumidas ao mesmo tempo. São zilhões de bandas novas, artistas, trabalhos novos em todas as áreas da música, tudo disponível com qualidade HD, tudo fácil de ser corrigido, se você não canta bem, não toca bem tem um programa de computador que resolve a sua situação, então eu acho que a música caminha para a música ao vivo, para apresentação ao vivo, porque você está vendo a pessoa fazer aquela música na hora, aquilo passa a ser a única maneira autêntica, o resto que você escuta não sabe se é uma máquina que está tocando, se aquilo foi corrigido, se saiu de um ser humano, da cabeça do ser humano.

E a tendência é ficar assim. A própria música está sendo diluída pela oferta muito maior do que a demanda. Tudo é over hoje em dia. O que seria uma novidade? É um produto de consumo que não é só necessariamente a música. Hoje um artista de sucesso, um músico de sucesso tem, além da música, a coreografia, a dança, a imagem, a opinião, a atitude, como ele se expressa, que posição política ele tem, o que ele propõe, ele tem um monte de coisas que não têm a ver com música, que são o componente da indústria em que tudo é vendido, tudo é misturado em um conceito só e a música é um elemento; às vezes a música não é forte, mas o que entorna ela é. Então você vê uma coisa espetacular, mas tudo gira em cima da música.

Tudo ficou muito segmentado, muito compartimentado, e é difícil se encontrar nesse mar de informação para eu dizer o que realmente é uma novidade em conteúdo. Eu acho que o caminho da música, ela tende a ser valorizada quando ao vivo. Você vê o músico executar aquilo na sua frente, tem um contato físico com a música, não através da imagem, nem sequer do que você escuta no fone de ouvido, que passa a ser uma trilha para sua vida. Agora se você quiser ter contato com a música tem que ver o músico ao vivo, é a única forma de você ter um contato com a música na sua raiz pura, música pela música, pela construção, pela expressão da música.

Fora isso você está vendo um produto manipulado, que não necessariamente é ruim, mas que não é autêntico, não é cem por cento música, às vezes não é nem 50% de música. Você está vendo um produto que foi pensado, foi feito e você não sabe até que ponto a parte humana, fisicamente, tem de participação naquele produto. Claro que qualquer produto é humano em última análise, mas o que você está ouvindo, quem fez, foi um músico? Ou foi um músico que pensou e aquilo foi feito por uma máquina E isso já dá uma grande diferença.”

Espaço para música ao vivo

“Os espaços sempre foram o grande problema da música e das artes em geral. Nós estamos ainda em uma época de transição. Por exemplo: em 2008 não existia Facebook, de cinco anos para cá que você começou a ver vídeos, e o que você via no computador passou para o smartphone, isso há três, quatro, cinco anos. E isso praticamente foi um golpe mortal em coisas como fotografia, música. Isso afeta também a coisa do espaço, porque você passa a ter a vida no seu smartphone, então ficou difícil. Você tem alguns espaços alternativos, tradicionais, acho que sempre vai haver espaços, o que eu questiono é se com o tempo vai continuar a ter gente que sai só para ver música.

Por exemplo, hoje em dia a música não se faz mais em teatro. São poucos os espaços tradicionais para você realmente ter aquele contato com a música ao vivo. Isso é realmente um problema, porque os espaços passam a ser espaços onde a música não é o principal, é um complemento, que são os barzinhos, para o dono do bar interessa você entrar lá e consumir, beber e comer, o que ele coloca para você assistir é o gancho para você entrar, comer e beber.

Então tem várias outras coisas que não são música e que lhe atraem lá: o ambiente, a possibilidade de conhecer alguém, a maneira como você é tratado pela casa, a comida... Dentro de todo esse cardápio aparece a música e em muitos lugares nem isso, não tem nem a música. Então a gente não pode considerar isso um espaço para a música. O espaço para música deveria ser só para música, você entrar e assistir a um show.”



Como se ouve música hoje

“A quantidade de informação, do processamento de dados: quanto mais diversidade você tem na mão, mais você pode escolher, zapear, no próprio smartphone, e você está tão acostumado a ter um leque de opções que o tempo se comprime, você não fica em nenhuma, está sempre pulando.

Qualquer coisa que tenha cinco, dez minutos na internet é uma eternidade, não consegue ficar muito tempo numa coisa, porque todo mundo está publicando sempre alguma coisa, você nem precisa ir atrás de informação, elas vêm, sejam elas fake ou não. É tanta informação que acabou aquela coisa de você parar em alguma coisa como você saborear uma taça de vinho, ouvir um disco inteiro se torna raro.

Hoje se você consome na internet uma música, se você gosta de uma música você vai lá no iTunes e baixa a música, se gosta de três, para que você vai ter um disco inteiro se você só ouve no Spotfy. Se você quer ter o disco inteiro você baixa e deixa ali no seu pen drive, no seu iPod, o conceito de um disco, que tem 80 minutos ficou sem sentido.

Então o artista hoje lança músicas, não lança álbuns. Ainda existe o álbum, mas já virou uma espécie de catálogo, de brinde, de currículo do artista, o CD físico. E no futuro vai ser mais ainda, mas as pessoas ainda obedecem ao conceito de álbum mais como eco de que sempre foi assim, mas não tem motivo. O conceito de fazer um CD de 40 minutos - agora acabou de sair o CD do Chico Buarque - é um conceito aprisionado à quantidade de informação que cabe num CD físico.

Então o suporte físico ficou sem razão de ser. Estamos vivendo ainda um eco. Antes o artista tinha que apresentar um trabalho e não tinha essa rapidez. Se você quisesse ter acesso à obra de um artista você tinha que comprar o CD, tenha que ter o aparelho para tocar, hoje você não precisa carregar nada. Se não quero estar sempre conectado pode baixar e guardar em algum arquivo de memória, um MP3, e ouço offline. Então essa coisa física é que ainda dá suporte, e daqui a 50 anos, quem está nascendo dá valor pra CD?

Acho que ondas e ondas retrô [como a volta do vinil] vão existir sempre, mas o que vence no fim é a praticidade. O cara vê o vinil como uma novidade, começa a comprar, mas o vinil ocupa espaço físico e os apartamentos hoje em dia são de 40 metros quadrados.

Já não combina, o mundo segue para pouco espaço, otimização do espaço, nem HD externo, isso está sendo posto em cheque também, as pessoas estão colocando os back ups, as coisas importantes, tudo em nuvem. Nós ainda somos uma geração que viveu o analógico, e daqui a 20 anos? Que mundo que as crianças de hoje vão receber? Estamos ainda numa transição. E as crianças de agora? E daqui a 50 anos?

Eu parei no meu tempo, não é que eu acompanhe, que eu tenha raiva do mundo moderno, acho tudo muito legal, uso as coisas, mas eu acho que o conceito de disco, de álbum, de obra e até mesmo o conceito de artista já é uma coisa misturada no meio de milhares de informações, montanhas que você tem; é difícil você fazer alguém fiel, e vai ser ainda mais difícil daqui pra frente, porque você pega uma garotada aí e onde eles vão se apoiar?

Vejo a garotada aí descobrindo Beatles, achando uma maravilha, baixa toda a coleção, fica seis meses ouvindo, e depois acabou, porque é uma coisa finita, mas que viveu 13, 14 anos sem saber o que era. É muita coisa, e hoje as pessoas não querem perder tempo, é tanta informação que a pessoa é condicionada a escolher toda hora: o que eu faço, onde eu gasto meu tempo.

Fora isso a informação vem atrás de você pelo WhatsUp. Claro que isso – o excesso de informação – vai levar as pessoas a valorizarem, por isso que tem esses movimentos retrô, elas começam a descobrir o valor.”




Links:

Site oficial


Show Instrumental Sesc Brasil


Documentário no SescTV


Canal oficial no Youtube


terça-feira, 12 de maio de 2015

Marise Marra: o rock com identidade


Depois dos dois primeiros discos focados no puro rock pesado, a guitarrista, compositora, cantora, multi-instrumentista mineira Marise Marra lança “Funny Love”, um trabalho mais pop e com outros elementos, “mais desencanado”, como ela mesma diz, mas sem deixar de lado a guitarra tocada com maestria e destreza. Ela faz o lançamento desse seu terceiro CD neste domingo, 17 de maio, na 28ª Feira de Artes da Pompeia, às 16h, no Palco Rock, acompanhada dos músicos Daniel Gohn, Raoni Passeto e a participação especial de Paulinho de Almeida. Rua Caraibas, com entrada franca.

Essa mineira decidiu, já na adolescência, ser uma guitarrista de respeito. E conseguiu (foto: Sérgio Kanazawa)

O que dizer de uma menina que decide empunhar uma guitarra e encarar esse universo predominantemente masculino no Brasil? Não estamos falando de uma moça que faz aquela guitarra base, mas de uma instrumentista que sola, que cria riffs, que tem virtuosidade, e o respeito de feras como Tony Babalu, Luiz Carlini e tantos outros? E ainda manda bem em outros instrumentos, compõe, produz e canta uma maravilha?

Esta é Marise Marra, mineira de Uberlândia, desde os 16 anos dedicada a dominar o instrumento e dar seu recado, não se sujeitando a ser mais uma imitadora de bandas consagradas, mas botando a cara para bater com seu próprio repertório. Marruda, enfim (desculpe o trocadilho).

Dez anos desde o primeiro CD gravado, agora no terceiro álbum, todos autorais, muita personalidade, domínio técnico do instrumento e sensibilidade fazem dela um destaque no meio, não apenas para os guitarristas, mas para os apreciadores do bom rock e suas vertentes.

Nesta entrevista exclusiva ao Blog por Bloga, Marise solta o verbo, conta sua trajetória, suas opiniões sobre música, o meio musical, seus projetos, anseios, em um papo de mais de meia hora que você ainda não leu em nenhum outro lugar. Uma conversa franca, espontânea, sem cartas marcadas, no espírito de independência que marca sua trajetória e é o símbolo desse blog.

A obra

Primeiro CD lançado em 2005
O trabalho de estreia, “Noite Proibida”, de 2005, já a alçou ao panteão dxs “guitar heroes”, pela virtuosidade que ela exibe. Marise responde pelas guitarras, violão de aço e voz e pega o baixo nas faixas "Você Pode Me Levar", "Vida de Louco", "Reflexo" e "Estranhos no Ninho". Nas demais, o baixo fica por conta de Róbinson Tóffoli e Cristiano Quinália fica nas baquetas.

O segundo CD, “Arrebatador”, vem mais autoral, no qual ela cuidou da produção e assumiu a gravação das linhas de baixo, violão, violão de 12 cordas e teclado, além de emprestar sua voz a quase todas as canções (e duetar com Dadá Cyrino na faixa “Luta”). Um trabalho pleno de guitarras, densas, poderosas, dando suporte e moldura a uma voz ao mesmo tempo terna e fodaça!

Segundo CD, de 2010: hard rock
“Arrebatador” tem, além da produção, os arranjos assinados por Marise. Foi gravado, mixado e masterizado por Brendan Duffey (Angra, Kiko Loureiro, Dr. Sin e Billy Sheehan, entre outros) e Adriano Daga no Norcal Studios, em São Paulo, em 2010. O disco tem as presenças de Alan Marques nas bateras e o mito Luis Sérgio Carlini comparece com a lap steel e guitarra “solo 1” em “Amarras”; Nenê Silva vem de baixo em “Luta” e Dada Cyrino põe a voz em “Luta” e “Everything”. Gravado e distribuído por Amellis Records/ Tratore.

Agora, temos “Funny Love”. Gravado em São Paulo, o trabalho foi produzido pela própria Marise (que também assina todas as músicas, letras – algumas em parcerias - e arranjos do álbum), em parceria com o produtor canadense Brendan Duffey. Desta vez, o rock avassalador forjado à base de riffs poderosos e virtuosos solos de guitarra ganhou um tempero pop com pitadas de MPB, funk, folk e até elementos da música eletrônica.


A seguir, a entrevista de Marise Marra. Se preferir, ouça o áudio clicando o play abaixo:


   
Bloga: Queria que você falasse um pouco de sua carreira, como você começou, como você se percebeu artista, música, como é que a guitarra entrou na sua vida. Você lançou o primeiro disco em 2005, mas até o primeiro disco o que aconteceu, como é que foi o seu desenvolvimento na parte de música?

Marise Marra: Eu já nasci contaminada, na verdade. Eu sou a caçula numa família de dez irmãos. Todos os irmãos ouviam música na minha casa, sempre teve muita música, todo mundo sempre ouviu música. E quando eu era criança, eles ouviam coisas muito legais; eu nasci já ouvindo Jimi Hendrix, Genesis, Yes, Emerson, Lake & Palmer, Beatles. Então foi uma coisa assim superlegal, somou muito, acho na minha formação musical. E desde criança eu estou ouvindo essas coisas, eu era fã da Rita Lee, e através deles, do que eles ouviam, já deu uma aguçada nesse sentido. Ganhei meu primeiro instrumento aos nove anos, meu primeiro violão, comecei a estudar, em conservatórios... Suportei só uns três meses, porque não queria estudar nada daquilo, comecei a estudar com professores particulares, foi bem legal, isso em Uberlândia,  minha cidade, até que eu ganhei minha primeira guitarra, eu tinha uns 15 para 16 anos, e foi muito legal, comecei a montar meus projetos.

Passei um tempo em Brasília, tive contato com o rock and roll, e foi mágico esse processo, esse tempo que eu passei em Brasília, minha irmã morava lá então eu fiquei com ela alguns meses. Então esse contato foi muito importante, porque eu me deparei com músicos muito bons, os caras tocavam muito bem, eu estava começando, mas eu era metida, me colocava como se eu já tocasse bem, metia a cara, enfim. Adorava desafios. Eu tinha já grande facilidade para tocar.

Então comecei em Brasília, fiz parte de uma banda de rock progressivo, fui convidada, me viram tocando. Fiz uma duas ou três apresentações em Brasília e voltei para Uberlândia, voltei alucinada. Montei um projeto autoral, os primeiros projetos, e comecei a participar de alguns festivais em Uberlândia e região, me renderam matérias e capas em jornais expressivos, tipo o “Estado de Minas”, e fiquei um tempo em Uberlândia tocando e estudando com professores particulares, mas eu senti uma imensa necessidade de sair dali, de buscar coisas novas.

Até que eu tinha alguns amigos que estavam vindo para São Paulo, em Campinas, e eu considerei a possibilidade de vir para Campinas ou São Paulo, tanto fazia na época, mas Campinas rolou melhor. E vim para fazer faculdade de música na Unicamp. Mas quando vim para Campinas eu vi que o curso não era aquilo que eu queria, que eu esperava, eu queria estudar guitarra e muitas matérias no curso não me interessavam.

Conheci pessoas que estavam lá cursando música na Unicamp, conheci diversos músicos em Campinas, me deparei com outro universo, de músicos muito bons. Isso aí foi muito legal para mim e já dei uma superenturmada, interagia muito bem com eles. E foi uma novidade aquilo, uma mulher  tocando guitarra, achei que fosse só lá em Uberlândia que ia chamar tanto a atenção, mas aqui não tinham muitas mulheres tocando guitarra. Quando cheguei aqui foi um a puta surpresa. E eu já tentava fazer aqueles solos e tal.

Em Campinas já conheci pessoas, músicos muito bons, já tive vários convites, já também formei alguns projetos legais para sair tocando por aí. Comecei a estudar bateria e estudar guitarra em Campinas com professores muito bons,  eram músico de jazz, guitarristas excelentes, que já tinham uma carreira legal, tinham tocado com muita gente famosa. Comecei a estudar guitarra com esses caras. Foi muito legal, não fiz a Unicamp, mas continuei estudando, fiz cursos extremamente voltados para o instrumento, que é o que me interessava na época. Tinha uma necessidade grande, uma ansiedade imensa de sair tocando, eu precisava disso. E foi o que aconteceu.

Só que aqui em Campinas eu me deparei também com um universo diferente, que era o do cover. Por exemplo: aqui eu senti que para você conseguir fazer parte de alguns espaços tinha que tocar cover. E lá em Minas, não, eu tocava músicas minhas, o que eu escrevia eu tocava, só tocava som autoral. Mas tudo bem: formei alguns projetos de releituras, nunca toquei cover, igualzinho. E essas releituras sempre foram muito legais porque eu só tocava aquilo que se identificava comigo, eu nunca pensei ‘vou tocar isso aqui para poder tocar em tal lugar’, não, isso nunca existiu.

Então eu reuni músicos legais, bons, para me acompanharem, formei algumas bandas, e fazia algumas releituras de artistas que eu adorava, tocava até Arrigo Barnabé, Rita Lee, Tutti Frutti, Mutantes, coisas que as pessoas não tocavam aqui, onde se tocava o que estava na moda, o que estava rolando na época. Então foram projetos muito legais, toquei bastante, toda semana estava tocando. Eu não tinha um projeto só, formava duas, três bandas e saía tocando.

Marise estuda o instrumento com músicos da pesada e começa a ser notada e convidada (foto: Sérgio Kanazawa)
E comecei a inserir uma música minha ou outra com o tempo, mas tinha um pouco de receio de tocar música minha, sempre pensava que as pessoas não iam gostar, e realmente é uma coisa assim: você vai tocar num bar, que é um espaço de entretenimento, as pessoas vão lá para ouvir cover... Eu tinha esse receio e não era à toa, eu via que outras bandas que tocavam músicas autorais as pessoas nem ligavam, então achei que não iam ligar para mim também.

Mas não, as pessoas deram uma resposta legal, e eu fui colocando cada vez mais, até que em 2000 gravei um EP, com cinco músicas minhas, que era um demo, na verdade. Deu até uma repercutida, tocou em algumas rádios, até, inesperadamente, na Lituânia, Patagônia argentina... O CD foi parar lá e não foi pela internet, porque ainda não existia aquela puta divulgação de internet que a gente faz hoje, alguém que comprou e levou mesmo, porque a gente vendia CDs no show.

Aí em 2005 eu resolvi gravar um disco inteiro, um CD, também autoral. Foi produzido pelo Tony Babalu, um grande produtor e guitarrista, e superamigo meu, e esse CD, “Noite Proibida”, de 2005, foi meu CD com uma característica, uma sonoridade mais ao vivo; não é um disco ao vivo, mas eu digo porque tocamos em trio, um power trio, e a gente quis manter uma sonoridade de power trio.

Então gravei muitas linhas de guitarras, overdubs, eu fiz as guitarras mais cruas, fazia uma base, o solo, poucos overdubs, pouquíssimos, mais para manter uma sonoridade de banda mesmo.  Foi legal, e começou já a abrir portas o “Noite Proibida”.

Aí em 2010 eu gravei o “Arrebatador”, lancei o “Arrebatador”, que é um disco assim que mudou minha carreira, eu acho. Eu gravei com Brendan Duffey, que é um produtor norte-americano, foi demais, gravei  no estúdio Norcal, em São Paulo. E ter conhecido do Brendan mudou muita coisa, porque ele é um cara extremamente experiente, tem um ouvido absurdo para gravar rock, gravou bandas importantíssimas, como Angra, Kiko Loureiro, enfim. Então quando ele veio para o Brasil ele tinha feito várias produções lá fora... Ele é canadense, na verdade, mas nos Estados Unidos ele fez produções maravilhosas, incríveis. Trabalhou com Dream Theater, Linkin Park...

Então trabalhar com Brendon foi muito legal. Foi um disco que eu produzi sozinha, mas eu gravei todos os instrumentos, exceto bateria, toquei baixo, guitarras, fiz as vozes, e produzi, fiz os arranjos, compus as letras também, algumas em parceria, mas todas as músicas minhas. Então foi um disco muito legal, adorei fazer, um disco de hard rock, eu quis fazer um disco de hard rock.

Terceiro CD: o mais desencanado
Agora o “Funny Love” é o meu trabalho mais desencanado, na verdade. Não é um disco de hard rock, ele não está preso a nenhum parâmetro assim, sei lá, de coerência, não é um disco conceitual também. Foi um disco que, do jeito que as músicas vieram, eu fui registrando. Desde que eu fiz “Funny Love”, que foi a primeira música, eu já senti que o disco teria uma cara diferente, seria um disco talvez mais pop, mais suingado, com outros elementos. Eu acho que ele engloba outros elementos, elementos do pop, do funk (não o funk carioca, o funk normal mesmo, o funk gringo), o folk, drum’n’bass, é um disco que tem uma característica da música brasileira também em uma faixa. Foi meu trabalho mais desencanado.

Esse disco eu produzi junto com o Brendon, também toquei todos os instrumentos, exceto bateria, mas é um disco em que eu convidei algumas pessoas também, tem a participação da Dadá Cyrino, que é uma cantora lírica; do Jonas Moncaio no violoncelo, fez uma faixa; do meu próprio baixista, Raoni Passeto, que toca comigo na banda, gravou uma música instrumental. 

Então é um disco que tem uma característica diferente mesmo, tem quatro músicas cantadas em inglês, um disco mais mesclado, e eu encerro ele com uma música instrumental, que gravei para meus fãs guitarristas, “Bird”. (assista abaixo)


 

Bloga:   Você falou que cada um de seus três discos tem uma cara. Você tem mesmo essa característica de estar diversificando, de estar explorando outros universos. Qual é a sua intenção? Você não quer se fixar com uma marca só, como que você pensa a respeito?

Marise: Eu nunca me prendo a nada. Quando estou compondo, criando um disco, eu não penso nada disso, eu tento deixar a coisa fluir naturalmente, não penso no feedback que vai ter esse disco, porque se eu for pensar nisso ele vai ficar muito restrito, não vai sair um disco tão honesto, aquela coisa tão verdadeira. Então o “Funny Love” é o mais desencanado porque se eu tivesse escrito um samba com certeza ele estaria nesse disco.

O “Arrebatador”, por exemplo, foi um disco de hard rock porque as músicas que eu fui compondo na época saíram com essa cara, com essa pegada do hard rock, não que eu tivesse pensado assim: ‘vou fazer um disco de hard rock’. Quando eu comecei a compor “Arrebatador” eu vi que estava com uma cara de hard rock e eu falei ‘legal, então que seja’, aí a coisa rolou, o disco inteiro assim.

O “Noite Proibida” foi um disco de rock, ele tem uma cara do hard também, mas foi também uma coisa que do jeito que veio eu registrei. Agora o “Funny Love”, embora ele tenha outros elementos, vai ver que ele está mais pop, mas tem uma pegada de guitarra muito forte. Eu não me prendi nisso, não pensei ‘puta, eu já fiz dois discos de hard rock, que tinham uma guitarra muito forte, pesada até em alguns deles, mas vou ter que manter isso nesse disco’, não, eu pensei em criar um disco principalmente que soasse bonito. É um trabalho mais melódico, tem outros nuances. Coloquei violoncelo, que é um instrumento com o qual eu sempre quis trabalhar e ficou bonito, tudo se encaixou perfeitamente nesse álbum eu acho.

Bloga: E ele está tendo uma boa receptividade, seu público está aceitando bem, como você está vendo?

Marise: Ah, sim, está. Bem, ele acabou de nascer, o disco chegou recentemente, a gente até agora fez um show de pré-lançamento, a gente fez um pocket na Fnac, agora a gente vai começar a sair, fazer uma turnê, divulgando, inclusive no site as datas nem estão atualizadas, os produtores estão trabalhando e em breve as datas vão estar na agenda do site. As pessoas têm gostado bastante, muita gente tem ressaltado esse tom de ele estar um pouco diferente dos outros álbuns, que eu acho que é legal até, e as pessoas têm gostado, sim, com certeza.

Até o próprio Brendan comentou que é o meu melhor disco. Eu não sei se é o melhor, mas eu estou com aquele cuidado ainda, sabe, aquele amorzinho assim, do filhinho que acaba de nascer e tal? Mas eu acho que a resposta tem sido muito boa. Ele está bem feito, fiz uns overdubs de guitarra, que acho que definem o álbum, não só as bases, mas os próprios overdubs de guitarra mesmo, são outras linhas, violão, enfim, ele está mais dançante, as letras acho que estão bem legais, a resposta tem sido bacana, sim.

Bloga: E como é que está o espaço para você se apresentar, agora que está fechando a agenda...  Tem um espaço legal para tocar rock aqui em São Paulo, Campinas?

Marise: Olha, eu estava conversando isso ontem com uma pessoa: eu acho que hoje a coisa está muito complicada para quem toca rock, principalmente para um artista solo. Eu vou dizer por quê: Uma banda diz: ‘vamos junto, a gente toca ali naquele lugar, os caras não pagam, mas a gente vai porque quer divulgar, vai estar todo mundo na onda’; agora o artista solo tem que pagar os seus músicos, é diferente. É o nome dele que está lá, enfim.

Eu acho que os espaços são muito restritos para quem faz um trabalho autoral, porque os únicos espaços legais para se tocar, não digo em São Paulo, no país, são os Sescs, é bacana, porque são o espaço que paga melhor, quer dizer, são show remunerados, com uma produção boa, em espaços legais. Hoje em dia o artista conta com Sesc e com editais, então você inscreve algum projeto em algum edital, se você for selecionado você toca, se não for, não toca.E tem uma outra questão, porque Sesc não é só para artista independente, os grandes, os famosos também estão disputando uma vaga nas unidades do Sesc. Então é megacomplicado. Eu já toquei bastante em Sesc, foi superlegal.

Para você colocar o bloco na rua, olha, é complicado. Você tem outros espaços, que são casas noturnas, os bares, blá-blá-blá, a maioria toca cover, quer contratar banda cover. Se você chega com um trabalho autoral para tocar num desses espaços pode até tocar, mas não são todos que comportam trabalhos autorais e que pagam bem. A maioria paga bilheteria, você tem que levar um puta público. 

Então a situação é essa. Acho que devia haver mais incentivo das secretarias de cultura, prefeituras, para promoverem mais shows, não uma vez ou outra, tipo Virada Cultural... Já toquei em tudo isso, já fiz Virada Cultural, já fiz Sesc, faço Sesc até hoje, edital, enfim, blá-blá-blá... Mas deveria haver um incentivo maior das secretarias, prefeituras de promoverem mais shows, mas shows remunerados porque, porra, tem que pagar seus músicos, não pode também ficar levando músico para lá e para cá para tocar, você tem um puta trabalho, grava um disco, tem gastos, enfim, está com um disco na área, e você vai ficar tocando de graça!?

Neste vídeo, Marise e Luiz Carlini



É muito complicado isso, quer dizer, tem espaço em que eu nem toco, prefiro não tocar, estão abertos para a gente tocar, eles vão divulgar, mas tem essa questão, poxa, você tem que pagar os músicos, nem todo músico está a fim de ficar tocando sem remuneração. Então eu acho que a situação é essa: se você tem um respaldo legal, tipo assim, eu tenho produtores trabalhando comigo, estão fechando as datas, e até hoje eu tive até sorte, já fiz shows muito legais, em espaços bem legais, mas é claro que eu gostaria de fazer mais e nem sempre existe essa oportunidade.

Eu acho que no Brasil é tudo muito restrito, até porque os veículos fortes acho que música boa eles não digerem muito bem, eles ficam empurrando música ruim goela abaixo das pessoas, o que a massa consome e essa galera está sempre tocando e fazendo show para todo lado, e por aí vai. No Brasil é tudo muito complicado.

Bloga: E apesar de tudo isso você vive apenas de música, ou você tem outras atividades?

Marise: Não vivo de música. Quer dizer, atualmente eu tenho dado aulas, também, mas enfim, eu não vivo só de música, seria impossível. Para viver de música... Eu já toquei cover, como eu te falei. Quando eu fazia esse trabalho, tocava na noite, eu tocava toda semana e fazia show de quarta a domingo. Era um processo extremamente cansativo, eu ficava meio exaurida. Quando eu lancei o primeiro trabalho autoral eu deixei de fazer isso; então eu tive que buscar outras possibilidades, porque realmente...

Quem toca na noite também não ganha muito, rala que nem louco e ganha pouco. Eu não quis isso para minha vida mais. Chegou um ponto que eu falei pra mim: não, pera aí, não vou ficar tocando cover, ir num bar, um monte de gente bêbada ficar ouvindo ali, depois no outro dia nem lembrar de mim, quer dizer, eu ia continuar vivendo  no anonimato e continuar ganhando mal e me acabando, chegou um ponto que eu falei: chega, já era. Não vivo só de música.



Bloga: Você teve seu primeiro disco produzido pelo Tony Babalu, que é um cara respeitado, foi da banda Made in Brazil, e você tocou com o [Luiz Sérgio]Carlini, quer dizer, pelo jeito você tem já um certo respeito no meio do pessoal de guitarra. Como é que você se sente em relação a isso? Você imaginava que chegaria a esse patamar de respeito junto ao meio?

Marise: Ah, eu acho que eu imaginava, sim. Porque na verdade eu sempre levei muito a sério tudo o que eu fiz até hoje. E quando eu comecei a tocar guitarra sempre quis tocar bem assim, pensei em me tornar uma grande guitarrista, legal, competente. Quando eu vim para cá a coisa também aconteceu supernatural. As primeiras matérias que saíram sobre meu trabalho na “GuitarPlayer” (eu tirei tudo do site, por isso que você não viu, devia ter deixado ali, me arrependi, acho que vou voltar tudo para o site), renderam matérias em revistas especializadas, aí começaram a surgir os convites para participar dos festivais da “Guitar Player”.

Conforme Marise vai se sobressaindo, a mídia falando dela, pintas convites para tocar (foto: Divulgação)
Eu fui para Frankfurt, na Alemanha, fiz um som na Musikmesse, e foi muito legal, tudo foi acontecendo naturalmente, toquei na Expo Music algumas vezes, toquei no Music Hall, na Feira (de Artes da Pompeia) duas ou três vezes, muita gente passou a me conhecer , e esses festivais da “Guitar Player”, essas matérias nessas revistas especializadas, tudo foi somando. Agora existe assim um respeito, uma coisa que é legal, mas isso para mim não que eu tivesse buscado, que eu tivesse corrido atrás, isso aconteceu naturalmente mesmo. Mas sempre tentei fazer o trabalho da melhor forma possível, para que isso um dia, de repente, acontecesse, mesmo que eu não tivesse correndo atrás, e foi assim que rolou mesmo.

Bloga: Como você vê a cena rock atual, porque tiveram aí os anos 70, 80, quando surgiu muita gente boa, e, não sei, atualmente parece que o rock é uma coisa mais restrita, até onde eu imagino. Está se fazendo um bom rock atualmente, está tendo criatividade, ou a coisa meio que ficou na mera cópia do que já foi feito, como você enxerga isso?

Marise: Cara, eu acho assim: o que rolou na década de 70 e 80 é algo assim não tem como voltar... Foram os melhores trabalhos, em minha opinião. De 90 para cá, acho que muita coisa mudou. Acho que existem bons trabalhos, até hoje, bem na cena indie, mesmo, aquela coisa mais independente que eu ainda, aquela coisa bem escondida, existem boas bandas, sim, mas não existe expressão, não existe exposição, por mais que a internet facilite esse processo de exposição, divulgação, nada se compara a um veículo forte.

Eu acho que tem muita coisa ruim na área também, e eu acho que o Brasil insiste em colocar essas coisas ruins goela abaixo das pessoas, e são essas coisas ruins que aparecem... Eu não vou ficar citando nomes, enfim. Eu sei que tem muita coisa boa também acontecendo, tem muita banda legal, mas aquele som, aquele rock que a gente gosta, esse trabalho com uma identidade legal, porque trabalho tem também que ter uma identidade, porque muita coisa que eu percebo é assim: os trabalhos que eu tenho curtido ultimamente, que eu acho legal, os que têm identidade, são super mal vistos, não aparecem de jeito nenhum.

Agora tem muita gente que toca, que forma uma banda, você ouve e fala: puta, isso aqui é cópia do Guns N’ Roses, isso aqui é cópia do não sei o quê, isso aqui é cópia não sei de quem. Eu acho que falta também essa identidade mesmo, sabe, essa coisa de o cara achar lá dentro dele, da personalidade dele, colocar uma vibe diferente no som; eu acho que poderia estar melhor, não tem tantas coisas boas acontecendo, tem bandas boas, sim, como eu mencionei, mas não são muitas que você possa dizer que ‘ouvi e adorei’, talvez eu não tenha tido oportunidade de ouvir tantas coisas, mas nada me chama tanto a atenção, não tem me chamado muito a atenção ultimamente, para dizer a verdade.

Cartaz de lançamento de 'Funny Love'
Bloga: E planos para o futuro são divulgar esse disco, fazer as apresentações... E mais pra frente, você tem ideia de fazer, sei lá, um DVD, um quarto álbum, ou você está pensando só no agora?

Marise: Ah, estou pensando só no agora, para dizer a verdade. Eu vou gravar um clipe, não sei se já falei isso pra você, a ideia é lançar esse clipe, será o videoclipe oficial da música “Funny Love”, estaremos lançando no comecinho de junho, e sair em turnê, a Tratore [http://www.tratore.com.br/ ] está distribuindo o disco físico, então o lance é divulgar. Eu já tinha pensado em gravar um disco instrumental, talvez eu até faça isso, mas nem quero pensar, eu tenho algumas composições, algumas músicas instrumentais, mas nem posso pensar nisso agora, acho que tenho que focar nesse disco que está nascendo, que acabou de pintar, e, sei lá, ver o que vai acontecer.

Bloga: E você já tem alguma data fechada para a gente divulgar?

Marise: Tenho, dia 17 de maio, na Feira de Artes da Pompeia, aliás, eu nem coloquei no site porque eles estão ainda decidindo horário,é um festival, então tem várias bandas... 17 de maio, é um domingo. (Nota do Editor: a entrevista foi feita em 29 de abril, quando o evento ainda estava sendo fechado.)

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