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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Só nos resta... Angela RoRo


Foto: Bob Wolfenson

A cantora, compositora e pianista Angela RoRo morreu nesta segunda-feira, 8 de setembro de 2025, aos 75 anos.

Há poucos dias, vi uma postagem dela numa rede social, pedindo doações para seu tratamento. Diz o noticiário que ele teve uma infecção pulmonar e seu apelo é porque não dispunha de recursos para se tratar.

Não sei o quanto isso é verdade. O que sei é que uma artista de sua importância e talento não deveria passar necessidade. Será que nenhum dos seus admiradores poderia fazer algo?

RoRo apareceu pela primeira vez tocando gaita em uma das faixas do álbum "Transa", de Caetano Veloso, lançado em 1972, quando de seu exílio em Londres. A música é "Nostalgia (That's What Rock'n Roll Is All About)".

Caetano compôs para ela "Escândalo", que dá título a seu terceiro álbum, de 1981. Mas seu primeiro LP, homônimo, veio à luz dois anos antes, com 12 composições de sua autoria.

A que ganhou repercussão foi "Amor, Meu Grande Amor", dela e Ana Terra, que está na trilha da novela da Globo "Água Viva", de Gilberto Braga, e "Caminho das Índias", de Glória Perez, mas é um disco repleto de ótimas canções, como "Cheirando A Amor", "Tola Foi Você", "Balada da Arrasada", "Abre o Coração".

Aliás, não faltaram canções em sua voz a entrarem em trilhas de novelas da TV Globo... Busque saber.

Ano seguinte, vem com "Só Nos Resta Viver". O LP tem sua interpretação visceral para "Bárbara", de Chico Buarque e Ruy Guerra, da peça "Calabar - O Elogio da Traição", e "Fica Comigo Esta Noite", de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves, ambas acompanhadas ao bandoneón por Ubirajara Silva.

O LP tem ainda duas faixas que são sua própria essência (além das composições que falam de amores vêm, amores vão): "Meu Mal é a Birita" e "Tango da Bronquite" (também com o bandoneón de Bira, claro).

O disco de 1981, "Escândalo", traz também "Tão Beata, Tão à Toa", de Guto Graça Mello e Naila Skorpio, que, em versão roqueira de Marina Lima, entrou no tema de abertura da novela "Corpo a Corpo", de Gilberto Braga, na Globo. "Vou Lá No Fundo", de Naila Skorpio e Sônia Burnier, é outra de minhas lembranças da artista.

"Simples Carinho", de 1982, abre com a faixa-título, composta pelos mestres Abel Silva e João Donato. Tem ainda uma de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, "Demais" -que parece ter feito sob medida para ela (Todos acham que eu falo demais / E que eu ando bebendo demais / Que essa vida agitada / Não serve pra nada / Andar por aí / Bar em bar, bar em bar...). Vai que, né?

Em "A Vida é Mesmo... Assim", de 1984, ela aparece cândida na capa, com um véu rosa, e apresenta "Fogueira", baita canção que ganhara antes interpretação igualmente intensa de Maria Bethânia em seu álbum "Ciclo", de 1983.

"Eu Desatino" é seu trabalho de 1985, que teve a primeira faixa, "Blue Janis", proibida à execução pública (talvez por se referir à heroína ou à liberdade sexual em seus versos cortantes).

"Prova de Amor", de 1988, traz composições de Bernardo Vilhena e Lobão ('Sempre Uma Dose A Mais'), Tavinho Paes e Arnaldo Brandão ('How Green Was Your Monkey') e outras dez dela - duas em parceria, "Viciado em Regras", com Aleph D. Clic, e "Funk do Negão", com Ari Mendes.

Em 2000, lança "Acertei no Milênio", uma brincadeira com "Acertei no Milhar", samba de Wilson Baptista e Geraldo Pereira gravado em 1940 por Moreira da Silva. Neste CD grava dois standards norte-americanos, "All Of Me", de Seymour Simons e Gerald Marks, e "Don't Let Me Be Misundertood", de Bennie Benjamin, Horace Ott e Sol Marcus. Neste disco RoRo dá sua interpretação para "Gota D'Água", de Chico Buarque.

Em 2006 lança "Compasso", cuja canção título, dela e de Ricardo Mac Cord, é quase um epitáfio: "Vou carregar de tudo vida afora / Marcas de amor, de luto e espora / Deixo alegria e dor / Ao ir embora".

"Selvagem", de 2017, foi seu último disco com canções inéditas, gravado em casa, na realidade no lar de seu tecladista e parceiro Mac Cord. O disco traz repertório variado, que vai do baião ('Parte Com o Capeta'), ao constante blues ('Portal do Amor'), passando pelo samba ('De Todas as Cores' e 'Maria da Penha').

Entre esses últimos, ela lançou dois álbuns com canções consagradas, "Angela RoRo Ao Vivo", de 2006, e "Feliz da Vida"", em 2013. Houve ainda o primeiro ao vivo, "Nosso Amor Ao Armagedon", de 1993, vários singles e compilações.

Vida

Nascida Angela Maria Diniz Gonçalves em 5 de dezembro de 1949, no Rio de Janeiro, ela foi uma das maiores vozes da música brasileira, conhecida por sua voz rouca, letras confessionais e uma presença de palco única.

O interesse pela música começou cedo. Aos 5 anos, já estudava piano clássico e, um ano depois, compunha em seu acordeão. O apelido "RoRo" surgiu na adolescência, por causa da sua voz grave e rouca, uma marca registrada que a acompanharia por toda a carreira.

No início dos anos 1970, Angela RoRo se mudou para Londres, onde trabalhou como faxineira, garçonete e lavadora de pratos. Paralelamente, ela se apresentava em pubs, tocando piano e cantando. Foi nesse período que teve contato com o cineasta Glauber Rocha, que estava em exílio, e chegou a ser convidada pelo empresário Malcolm McLaren (futuro mentor dos Sex Pistols) para gravar um álbum de blues, projeto que não se concretizou.

Ao retornar ao Brasil, Angela RoRo se firmou como uma das figuras mais originais da MPB. Sua autenticidade e a forma como falava abertamente sobre sua sexualidade a tornaram um ícone, especialmente na comunidade LGBTQIAPN+.

Ao longo de sua carreira, Angela RoRo lançou diversos álbuns e teve suas músicas gravadas por grandes nomes da música brasileira, como Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Marina Lima. Uma curiosidade é que a famosa canção "Malandragem", composta por Cazuza, foi oferecida a ela, mas RoRo recusou-se a gravá-la por não gostar da letra, e a música acabou sendo imortalizada na voz de Cássia Eller anos depois.

RoRo, que foi eleita pela revista "Rolling Stone" como a 33ª maior voz da música brasileira, continuou ativa até seus últimos anos, se apresentando em shows e participando de programas de TV, sempre com sua personalidade forte e seu talento inquestionável. Ela deixou um legado de coragem, talento e autenticidade. (Fontes: Discos do Brasil, Discogs, O Globo, G1, Biscoito Fino e Gemini)


domingo, 2 de fevereiro de 2025

O Filho de José e Maria

Imagens: Carlos Mercuri (01/02/25)

O goiano Odair José, 76 anos completados em 16 de agosto, apresentou na Comedoria (antes, Choperia) do Sesc Pompeia, em São Paulo, dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 2025, a ópera-rock "O Filho de José e Maria", com a íntegra de seu polêmico álbum homônimo de 1977 (RCA Victor), além de canções de outros álbuns dele.

Incompreendido em seu lançamento, o LP foi redescoberto e hoje é cultuado, tanto que teve relançamento em vinil 180 gramas e é dissecado no livro "O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria", de Leonardo Vinhas (Editora Barbante, 2024) - ambos à venda no local.

Odair também vem sendo celebrado pelas novas gerações - estou falando desde do fim dos anos 1990 e início dos 2000 até hoje, o que pode ser percebido pela plateia diversa que o estava assistindo na Choperia (!): jovens, hipsteres, terceira idade, LGBTQIAPN+... todes...

Citado no livro de Paulo César de Araújo "Eu Não Sou Cachorro Não" (Ed. Record, 2002) como um dos compositores populares alvos da censura tais como - ou até mais - que os Chicos, Vandrés e Taiguaras da vida, Odair passa a ser reconhecido e valorizado, em um revés às vaias recebidas ao subir ao palco convidado de Caetano Veloso no show Phono 73.

A, digamos, consagração vem em 2005, com o CD "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar: Tributo a Odair José", com algumas de suas obras sendo relidas e interpretadas por gente como Paulo Miklos, Pato Fu, Mombojó, Suzana Flag, Zeca Baleiro e outros.


O maranhense Baleiro, aliás, em 2012, produz o CD "Praça Tiradentes", uma referência ao lugar no Rio de Janeiro em que veio morar aos 17, 18 anos em busca de um lugar ao sol fonográfico. O disco tem participação de Miklos na faixa "Sob Controle" e Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes lhe entregam "Vou Sair do Interior". Baleiro ainda assina com ele "E Depois Volte Pra Mim" e sozinho "Como Um Filme" e Chico César compõe "Você Tem Me Ensinado". Ou seja: ele agora é da "tchurma".


Para Odair, conforme ele relatou em fartas entrevistas, é um período como de renascimento. "O que fiz depois de 1977 é uma merda", disse em uma delas. Ao jornalista André Barcinski, em "Pavões Misteriosos: A Explosão da Música Pop no Brasil - 1974-1983" (Edição do Autor, 2022), Odair afirma que viu muita incompetência nas gravadoras nas décadas de 1980-1990; mas também faz seu mea-culpa: "... em 1979, eu comecei a ficar muito boêmio, eu bebia muito, eu fumava muita maconha, ficava muito no Baixo Leblon, eu deixei de me interessar pelas coisas como elas deviam ser".


Depois vieram "Dia 16" (Saravá Discos) em 2015, "Gatos e Ratos" (Independente) em 2016 - este indicado em 2017 para o Prêmio da Música Brasileira, que lhe conferiu a láurea de melhor cantor e a revista "Rolling Stone Brasil" o elegeu como o 20º melhor álbum brasileiro de 2016; em 2019, veio "Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio", eleito pela Associação Paulista de Críticos de Arte um dos 25 melhores álbuns brasileiros do primeiro semestre de 2019.


Em 2021, Odair compôs seis canções com Arnaldo Antunes para a trilha sonora do filme “Meu Álbum de Amores, dirigido por Rafael Gomes, com Gabriel Leone, Felipe Frazão, Carla Salle e outros (disponível no Prime Vídeo).


Em 2024, lançou "Seres Humanos e a Inteligência Artificial", pela Monstro Discos, com utilização da IA na criação de vozes femininas e instrumentos. O disco traz uma única parceria, com Bárbara Eugênia, na faixa "No Ponto". Eugênia, aliás, que, em 2014, regravou "Por que Brigamos", sucesso de 1972 de Diana, com quem Odair foi casado.

A apresentação de "O Filho de José e Maria" se deu como uma obra em três atos, em ordem diversa à do álbum (seguindo sua ideia original, disse ele), em que as partes abordam os momentos da vida de um casal - o flerte, namoro, casamento, concepção do filho, desentendimentos, briga, separação e, depois, a sina do filho, inseguro com fim do relacionamento e em conflitos próprios quanto à sua sexualidade e lugar no mundo.

À época, a temática do LP chocou Igreja, governo militar e sociedade pela abordagem, digamos, "herege" sobre a história de Jesus, apesar de o nome do Cristo não ser mencionado em nenhuma estrofe. No show, Odair ataca a hipocrisia da sociedade e prega a liberdade de amar, lembrando que em sua carreira ele sempre foi atacado por defender, por exemplo, prostitutas, trabalhadoras domésticas e o direito a fazer do corpo o que quiser.

"Formas de Amar" 


Segue o roteiro do show:


1º Ato

1) Fora da realidade * (Odair José/David Lima)

2) O casamento *

3) Não me venda grilos (Por direito) *

4) Só pra mim, pra mais ninguém *

5) O filho de José e Maria *


2º Ato

6) Agora eu sei (Coisas Simples, 1978)

7) Forma de sentir (Coisas Simples, 1978) [José Messias e Donizete]

8) O sonho terminou *

9) Desejo (Seres Humanos e Inteligência Artificial, 2024)

10) É assim * (Odair José/Maxine)


Ato final

11) Viagem (Odair, 1975)

12) De volta às verdadeiras origens *

13) Que loucura *


Bis

14) A noite mais linda do mundo (Lembranças, 1975) [Donizette]

15) Vou tirar você desse lugar (single, 1972)

16) Cadê você (Odair José, 1973)


Obs.: As músicas com asteriscos (*) referem-se às do álbum "O Filho de José e Maria"; as demais citam entre parêntesis o LP original e ano de lançamento. Todas as composições de Odair José, exceto as indicadas.


Músicos que tocam no LP original:

Odair José: voz, violão e guirarras

Don Charley: arranjos de cordas e metais

Jaime Alem: guitarra e violão

Hyldon: guitarra

José Lanforge: voice-box e harmônica

Robson Jorge: piano Fender Rhodes

Ivan Conti "Mamão": bateria (Azimuth)

Alex Malheiros: baixo (Azimuth)

José Roberto Bertrami: órgão, clarinete e Arp. String (Azimuth)






quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Tony Babalu: um músico à moda antiga

Tony Babalu lança 'Live Sessions II', com seis temas instrumentais (Foto: Lucas Altieri)

Tony Babalu é um desses raros músicos que sabem unir técnica e alma em suas composições, resultando em obras para se ouvir com atenção, calma, sem pressa. Seu mais recente trabalho, o CD “Live Sessions II”, lançado em agosto de 2017, traz seis temas instrumentais que passeiam por vários climas do rock, funk, soul, blues, em um apanhado de suas influências e daquilo que tem escutado desde que decidiu trilhar pelo caminho da música, ainda na adolescência, no início dos anos 1970.

Acompanham Babalu (composições, guitarra e direção geral) o tecladista Adriano Augusto, o baixista Leandro Gusman e o baterista Percio Sapia.
A banda: Leandro, Babalu, Percio e Adriano (Foto: Karen Holtz)

O novo CD sucede o “Live Sessions at Mosh”, de 2014, ambos lançados pelo selo Amellis Records e distribuídos pela Tratore e “construídos a partir de uma atmosfera vintage e orgânica que norteia todas as fases de sua concepção”. Isso se traduz na escolha do estúdio Mosh, de São Paulo, que mantém equipamentos, tecnologia e espírito dos anos 70, analógicos. “Algo que quase ninguém mais tem no mundo”, define.

Mais do que nostalgia, a decisão de gravar à moda antiga deve-se à concepção de seu trabalho atual, explica. “A música que eu faço tem uma raiz no improviso, que depende muito do estado emocional que você está”, adianta. As músicas foram gravadas quase “ao vivo”, para aproveitar a sensação do momento, exigindo perfeito entrosamento dos músicos. Não há emendas, overdubs, o que significa que cada faixa é um momento único.

Nesta entrevista – talvez seja melhor chamar de depoimento – ao Blog por Bloga, Babalu fala sobre como começou a tocar, as bandas de que participou, a cena rock nos anos 70 no icônico bairro paulistano da Pompeia, suas influências, inspirações e como vê a música atualmente.
CD traz na capa detalhe da Stratocaster 1973, presente de Wander Taffo


O começo de tudo

“Comecei com música no finalzinho da década de 60 – 69, 70, por aí. Comecei a aprender a tocar guitarra. Cresci num bairro aqui de São Paulo que é tradicional no rock, Pompeia. Tem muito roqueiro aqui, é até chamada de Liverpool brasileira. Isso facilitou. Daqui saíram Mutantes, Tutti Frutti, Made in Brazil. Sou de 1953, tinha em 1969 15, 16 anos, foi aí que eu comecei mesmo, vi Woodstock, gostava muito já de Beatles e Stones e comecei a pegar gosto pela coisa.

Comecei com violão e aí já peguei uma guitarra, meu negócio era tocar guitarra, todo mundo queria tocar guitarra. A grande influência nessa época era o Jimi Hendrix, o que ele tinha feito em Woodstock jogou definitivamente a importância do rock na guitarra. Apesar de o Jimi Hendrix ter morrido em 70, foi ele, mais outros guitarristas da época – Keith Richards, o próprio George Harrison, o [Eric] Clapton com as bandas dele, a guitarra era (é) o instrumento do rock. Como o piano é o instrumento do pop, a guitarra é do rock.

Aço: primeira banda de Tony Babalu (Foto: Arquivo)
Minha primeira banda profissional foi o Aço, o baterista era Rolando Castello Júnior, do Patrulha do Espaço, que existe até hoje e que existia antes do Arnaldo [Dias Baptista], ele que entrou na Patrulha e ele tinha aquela projeção, era o primeiro trabalho dele em banda fora dos Mutantes, depois dos discos solo que ele fez, então a Patrulha do Espaço ficou associada ao Arnaldo, mas a Patrulha do Espaço mesmo era Júnior, Dudu [Chermont] e Koquinho [Oswaldo Genari], que morava aqui na Pompeia. Dudu Chermont e Koquinho já faleceram. Mas antes disso a gente tinha essa banda, Aço, que tocava hard rock, mais parecido com a Patrulha. Aí nós entramos no Made in Brazil em 74, acabou acontecendo de a gente entrar os dois juntos.”

A cena na Pompeia na época

“Na época não tinham estúdios de ensaio, essa estrutura que tem hoje, essa coisa de ensaiar pagando, você tinha que ensaiar na sua casa, não tem conversa, e os amplificadores eram paredes, enormes, não existia ainda a cultura do cubinho, do amplificador pequeno, portátil. Então você tinha que ensaiar em casas que tinham garagem, incomodava os vizinhos, e tinham focos de ensaios aqui na Pompeia. Tinha a casa onde os Mutantes ensaiavam, a casa do Made, a do Pholhas, ali na Barão do Bananal, a casa do [Roberto Gurgel] Juba, que hoje é batera da Blitz, e as pessoas se encontravam nesses ensaios e tinha muita reunião na casa dos músicos, para ouvir música.

Ouvir música era o programa completo, era suficiente. Por exemplo: chegou um disco importado do Deep Purple, de alguém que não saiu no Brasil ainda, os discos demoravam para sair, uma defasagem de um semestre, isso quando eram fabricados aqui, muitos nem saíam aqui. Um disco novo era o suficiente pra você ter uma noite, chamava os amigos e a gente fazia audições, ouvia o disco faixa por faixa, os músicos comentavam, tentavam tirar, essa era a coisa aqui na Pompeia. Era um bairro efervescente, o assunto era música, tinham muitos músicos, todo mundo escutava música como prato principal.

Hoje, a música é um complemento. Você sai de casa vê um show, um teatro, faz outra coisa. Você precisa de mais de que uma música, ela atua mais como complemento de uma festa, de uma reunião, de uma noitada, um barzinho. Nessa época a música era o principal. Era o assunto, era o tema, eram as coisas que estavam acontecendo. O Brasil também era fechado.”

O rock no contexto da época

“Em termos de comportamento, não só aqui como lá fora, aqui era um reflexo. Como não tinha uma cultura de consumo, uma indústria de consumo, a maneira de se vestir de quem curtia rock and roll por exemplo, era agressiva, cabelo comprido, calça jeans, camiseta, tênis, eram coisas que estavam entrando na cultura do dia a dia, tamancos. Não só na maneira de vestir como na forma de falar, a cultura indiana estava entrando ainda, aquela coisa de incenso, de batas floridas, de macrobiótica, toda essa cultura indiana ainda era muito nova aqui, e era associada com os roqueiros.

Agora o regime político era fechado, era uma ditadura, e tudo que era fora do sistema incomodava. Então você corria o risco de ser hostilizado na rua pelo seu cabelo, você não podia fazer reuniões, juntar dez, 15 pessoas como se faz hoje porque a polícia ia lá ver se ali não tinha um foco subversivo, ou comunista, então as coisas se misturavam. Você veja: o rock é uma cultura da sociedade de consumo americana, ocidental, americana, inglesa, não tinha a ver com a esquerda política, por exemplo, mas no comportamento sim, na atitude, sim, era uma cultura de rebeldia e das artes, em geral.

Tinha, sim, que enfrentar sempre a sociedade, sempre explicar por causa da associação muito forte com o visual, o visual era muito fora do sistema. Você confronta o sistema, mas o que você propõe? Seria a pergunta. E não tinha uma sociedade de consumo.

A coisa começou realmente a abrir, melhorar, no meio da década de 75 para cá, quando o rock começou mesmo a entrar na cultura da música: Rita Lee, com 'Ovelha Negra', foi um dos primeiros discos do Tutti Frutti que rompeu a barreira mesmo, entrou com música em novela, e aí as coisas começaram a acontecer de maneira diferente. Quando eu comecei era bem apertada a coisa.”

O papel do rock na rebeldia jovem


Made in Brazil: grupo que está completando 50 anos de estrada e com o qual Babalu gravou 4 discos (Foto:  Divulgação)


“Desde o movimento da Tropicália, que não era rock, era uma confrontação ao padrão da MPB, desde esse final dos anos 60, do Tropicalismo para cá, o rock and roll era associado com a juventude rebelde, tem aquele fundamento político, mas não política de Estado, de regime, a política familiar, o conflito de gerações, que era o motor, o pavio da irreverência, da maneira de ser (‘eu não quero ser que nem meu pai, não quero fazer 40 anos’), aquela época do movimento da contracultura, hippie, amor livre, uma cultura antiguerra, os ídolos eram Jane Fonda, Peter Fonda, de filmes como “Sem Destino”.

Era tudo uma contracultura, contra aquela cultura estabelecida pelos padrões da sociedade ocidental, principalmente europeus da Inglaterra e dos Estados Unidos: a maneira de se vestir, a obrigatoriedade de você ter uma religião, de casar, todas essas regras rígidas de comportamento da sociedade. Por isso que eu digo que o rock está inserido num contexto de conflito de gerações, entre a moralidade da sociedade conservadora e uma sociedade liberalizante através da música.

Era isso, não tinha a questão política. Embora caminhasse no mesmo rumo das questões políticas, da contracultura na arte, dos regimes políticos alternativos, como o comunismo, o marxismo, o socialismo... toda essa cultura política de esquerda também acontecia na mesma época, mas a coisa da música, do rock, ela estava mais centrada no conflito de gerações: ‘eu não quero ter a vida que meu pai tem, por exemplo’, obedecer à mesma sociedade de consumo, ter a mesma situação, ou eu quero ser livre, entre aspas, viver sozinho, morar com uma pessoa sem casar com ela, romper essas regras de comportamento.

Aí que eu acho que a música, que o rock se insere. Meus pais deram um espaço muito grande, eu conheci Suzi aos 15 anos; eu não sofri internamente o conflito de gerações porque eu tive pais que realmente não se importavam com isso, não eram preconceituosos, conservadores, autoritários, sempre aceitaram as coisas numa boa, mas a música era basicamente uma tentativa de se expressar, de criar um padrão próprio de comportamento que não fosse aquele padrão certinho, politicamente correto que hoje está voltando a ser, mas aquele politicamente correto chato, moralista.”

Aprendendo a tocar

“Eu fui estudar violão com uma professora que era [a professora] da minha irmã, ela comprou um violão e largou mão, aí eu peguei o violão, a professora e comecei a ter aula, ela começou a me dar os primeiros acordes e quando eu comecei a aprender a tocar ela quis me passar ‘Meu limão, meu limoeiro’, aí foi a última aula. ‘Não é por aí’. Mas eu já sabia alguns acordes, a partir daí eu fui sozinho. Autodidata, de ouvir discos, tirar a música, tentar fazer como estava no disco e aí o ouvido ajudando, com amigos, assim que eu aprendi a tocar, com muito pouca teoria.”

Discos que influenciaram


O 'disco da banana': 1º álbum com o Made in Brazil


“Foram vários. ‘Revolver’ (1966), do The Beatles, aos 12, 13 anos; o ‘disco do bolo’ dos [Rolling] Stones – ‘Let it Bleed’ (1969) foi outro, mas aí a coisa realmente começou a ficar forte com o último disco do Jimi Hendrix, chamado “Band of Gypsys” (1970), com Billy Cox (baixo) [mais Buddy Miles, bateria), um disco ao vivo de 1970, e aí eu ouvi aquilo e disse, ‘vou tocar guitarra’, e fui atrás.

Um disco que também me marcou foi do Steppenwolf, na verdade mais uma música em um disco que tem ‘Born To Be Wild’, ‘The Pusher’, um disco de 68, 69. Depois vieram os discos clássicos, mas esses ainda são anteriores àquela famosa trinca que veio nos anos 70 – Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. Esses, mais Grand Funk, Santana, todo o pessoal que tocou em Woodstock – The Who... Isso é tudo a formação básica.

O disco que me fez querer ser músico digamos que tenha sido o “Revolver” e o “Let It Bleed”, e também o “Beggars Banquet” (1968) do Rolling Stones; agora o que me levou a querer ser guitarrista foi o Jimi Hendrix. Eu era muito novo, e não conhecia, tinha 16 anos; quando eu conheci o Hendrix, esse disco, ele já tinha morrido. Woodstock (o filme) nem tinha passado aqui ainda. Ele morreu em 70, quando eu ouvi o disco ele tinha acabado de morrer praticamente, ele morreu em setembro de 70 e o disco saiu aqui no final de 70 começo de 71.”

Na estrada

“O Aço era um trio, não tinha música própria, a gente fazia o repertório dos outros, como The Who, Grand Funk. O primeiro disco que gravei foi com o Made in Brazil, o da banana, tenho até uma música nesse disco, a “Intupitou o Trânsito”, minha única parceira com o Oswaldo e o Celso [Vecchione], as outras músicas que eu tenho no Made são parcerias com o Oswaldo. Foi gravado em 1974.

Aí eu gravei os quatro primeiros discos do Made in Brazil, a fase dele na gravadora RCA: o ‘Made in Brazil’, homônimo, foi o primeiro, o Júnior [Rolando Castello Jr] participou desse disco, Cornelius [Lúcifer] é o cantor, um grande vocalista, que fez muita história, falecido há uns dois, três anos, aí teve ‘Jack, O Estripador’ (1976), ‘Pauliceia Desvairada’ (1978), que foi o disco em que tive mais participação como compositor, e o ‘Minha Vida é Rock ‘n’ Rol’ (1980), que foi o último que o Made fez por uma gravadora grande, convencional, depois viria a fazer outro, o ‘Deus Salva... O Rock Alivia’ (1985).

Eu continuei participando, mas já foi diminuindo de intensidade. Em 1980 eu participei do Festival Shell de MPB, da TV Globo, com a música ‘Cidade Louca’, e uma banda chamada Artigo de Luxo, fiz um disco com o Artigo de Luxo e essa música, mas a gente parou na primeira, não fomos classificados para as finais do festival. Aí entrei no Quarto Crescente, que o Percy [Weiss], ex-vocalista do Made in Brazil me chamou para fazer, tenho um disco com eles de 1981, fiquei até 85, 86, depois fiz outra banda, chamada Bem Nascidos e Mal Criados, que não teve disco, mas tocamos em todos os lugares alternativos, era uma banda com duas cantoras, mais punk rock. Toda essa produção mais tocando, não cantando.”

A fase instrumental

“Resolvi entrar mesmo no instrumental nos anos 2000, mais especificamente depois de 2010, que eu lancei esses dois discos. Nesse tempo eu fiz muita coisa como produtor, continuei tocando com o Made, até hoje eu toco, a banda está fazendo 50 anos e de vez em quando eu vou e faço uns shows.


Entre 2010 e 2012 formamos a Betagrooveband, com a Marina [Abramowicz] na bateria e um baixista que hoje está morando em Portugal, PV Ribeiro; fizemos um show até importante, que foi a comemoração dos 30 anos do Centro Cultural São Paulo, tem três vídeos desse show na internet. É uma banda que tem um repertório muito legal que eu ainda quero gravar em disco. É uma proposta de trio com uma cara mais antiga, mais de Cream, mais pesado, um som mais pulsante, mais para rock mesmo, funk rock, uma coisa mais forte mesmo, diferente dessas duas propostas que eu estou fazendo com o quarteto, que é um som mais maduro, de climas.


Eu sou uma pessoa que escuto de tudo. Eu toco rock and roll, mas gosto de funk, o funk com tradição do soul music, mais black mesmo, sou uma pessoa muito eclética com música, escuto bandas pop, sofisticadas, complexas, como Steve Miller Band, como o trabalho do Sting, o Weather Report, uma banda clássica de instrumental, da mesma forma que eu escuto Stones, Muddy Waters, John Lee Hocker, Chic, do Nile Rodgers, sempre gostei muito.

O Chic é uma disco music com uma proposta dançante, onde a guitarra faz uma coisa rítmica muito particular, e o tipo de coisa que o Nile Rodgers fez foi de romper fronteiras na música, porque com ele os temas começaram a ser feitos para discoteca mesmo nos anos 70, então tem aqueles temas longos, onde fica muito tempo sem acontecer nada, aquela pulsação em cima de um riff de baixo. Tanto é que uma das músicas do Chic da época, 'Good Times', foi uma das primeiras músicas de hip hop, os caras já começaram a fazer colagens, quer dizer, uma coisa influenciou a outra na música.

Então como eu sou uma pessoa de escutar muito, ecleticamente, o que eu mais gosto, que não sai do toca-discos, é o básico do rhythm and blues: Eric Clapton, Stones, e variações do classic rock, ZZ Top. Mas eu gosto de Police, outras coisas, e o resultado disso é que de repente durante muito tempo eu fiz músicas com bandas vocais, com cantor, com letra, e de repente caí na música instrumental assim nos anos 2000 pra cá.

Teve um primeiro disco feito em casa, chamado ‘Balada na Noite’ (2003), sem banda, em casa mesmo, com tudo eletrônico, mas já instrumental. Fiz um show no MIS em um projeto de música instrumental em 2007; a coisa foi meio que naturalmente se encaixando. Em princípio, não era a ideia de ser meu trabalho principal, mas acabou acontecendo de começar a dar certo, começaram a surgir temas instrumentais, em cima de tudo que eu ouvi e tocar como músico, pegar a guitarra e não se preocupar com a letra, com arranjo, com cantor, com a métrica da música, com tocar em rádio. Quando eu dei essa relaxada eu caí na música instrumental e falei ‘aqui é uma delícia, toco o que eu quero, faço o que eu quero’, e estou nessa e acho que vou ficar nessa muito tempo.”

O processo de criação

A Fender sempre por perto para captar a inspiração (Foto: Carlos Mercuri)

“O tema sai aqui em casa, geralmente. Eu mesmo construo uma base para mim mesmo, eletrônica, baixo, batera, teclado num estúdio que eu tenho, das antigas também, monto essa base com esse riff, essa melodia, e começo a fazer a melodia em cima e preparo para os arranjos, faço um arranjo básico da música inteira, fecho a música tudo sozinho, gravo para a banda a minha parte de guitarra tocando e a parte deles sintetizada, bateria eletrônica, baixo, só para eles saberem a harmonia e a grade da música.

Aí que a gente começa a música para valer. Mando aquilo para eles por internet, passo os links, eles ouvem, tiram e vamos ensaiar. Chegamos para ensaiar e aí é outra música. Porque você parte dali e aí cada um começa a pôr suas coisas, seus climas, a música começa a sair lá, mas a massa, a grade, a harmonia saem daqui.

Lá a gente começa a trabalhar e ela cria a forma final. Aqui ela tem três, quatro minutos, às vezes ela tem um minuto, é uma levada, um riff, e lá ela ganha a forma final. Mas como é baseada em improviso, porque eu tenho um sistema de trabalho – que acabou acontecendo naturalmente também – que é muito diferente da grande esmagadora maioria: que é aquela coisa que a música tem muitos trechos em que vale o que tiver na hora, se você tocar duas vezes a mesma música não vai sair o mesmo solo, não vai sair o mesmo teclado exatamente, não vai ser a mesma virada de batera; a gente improvisa e cada hora é uma leitura, tem grades, tem situações, convenções na música, melodias principais, e tem a largada pra solar, aí o que vale é o que acontece.

Tradicionalmente não se faz assim. Se faz um disco como: você vai, grava num estúdio, vai a bateria, aí você vai colocando a guitarra, outro instrumento, volta, faz overdub, põe duas, três guitarras, põe vários efeitos, várias coisas, vai fazendo, é um trabalho de pintura que você não faz em um dia, porque em um dia você grava a base. A minha maneira de gravar é completamente diversa disso, porque a gente já chega com as coisas e grava ao vivo.

Tem aquela coisa de ser uma pintura da hora, daquele momento. Nós fizemos vários takes, para aprovar um deles, não é aquela coisa de teve um erro um take, volta ele inteiro, não é consertar o erro na máquina, então a música tem dez minutos e se fosse fizer um erro, alguma coisa que não passa na guitarra, todo o take vai ser refeito. Quer dizer, um músico depende do outro nessa questão, isso faz com que a banda comece a ter uma integração, vale muito o emocional da hora que você está gravando. Escolheu o take, aí o resto que você mexe é no timbre, não nas notas. Não acrescenta mais nada nem tira mais nada o que está lá.

Essa forma de gravação é uma forma que é inusitada. É simultâneo, ao vivo. Por isso gravamos no Mosh, é um estúdio assim, que tem um equipamento que quase ninguém tem no mundo. Eles têm as máquinas, as mesas, os compressores, é um equipamento ainda dos anos 60, restaurado, com válvulas novas. É toda aquela atmosfera. Eu gravei o disco como se eu estivesse nos anos 70 mesmo. O Mosh tem esse equipamento, ele não acha aquele som no computador, ele acha aquele som no ampli da época, com válvula, com microfone, por isso tem esse sabor, porque o estúdio tem essa cultura também.

Esse que é o conceito dos dois discos, seria analógico. Tem aquela coisa de quem gosta dos discos de vinil ainda. É como se eu estivesse hoje fazendo a música dos anos 70. Isso não é algo que foi pensado para ter um diferencial, isso aconteceu por causa do que eu vivo mesmo.”

Diferenças entre os processos

Eu gosto dos dois [processos de gravação], eu gosto também da tecnologia, muito, para escutar. Mas para fazer, nessa proposta de trabalho, a música que eu crio prefiro fazer na moda antiga. Eu já trabalhei nos dois, tudo que eu fiz de gravação foi mais nesse processo de fazer compartimentadas as coisas, fazer sucessivamente, não simultaneamente.

Eu gosto também, é algo mais cerebral, que não necessariamente é frio, têm muitos resultados que você ouve e tem a impressão de que é vivo, a coisa realmente é quente, não perde a pulsação, mas é uma questão de opção, para eu fazer tocando guitarra prefiro fazer a coisa simultânea porque a música que eu faço tem uma raiz no improviso, que depende muito do estado emocional que você está. Você tem um padrão, obvio, mas, dependendo do estado emocional, do momento de sua vida, você coloca ali uma coisa que tem que ser ali na hora que você está sentindo a música ser executada por todos.

Nesses dois trabalhos que eu fiz no Mosh, pelo conceito do trabalho tem que ser simultâneo, tem que ser ao vivo, não veria de outra forma. Mas isso não quer dizer que eu não possa fazer um trabalho e gostar de fazer um trabalho nesse processo tradicional de gravação, porque é uma obra de arte com um processo de registro diferente, e é legal também. Mas isso pode mudar também.”

A música hoje em dia

“O que eu percebo é que tudo ficou extremamente segmentado, a oferta de música é escandalosamente maior, não só de música, como de informação, e não só em relação à música, mas também às artes, a tudo. A oferta é grande demais, a internet, a velocidade de processamento da informação cresceu tanto, a informação é tão rápida e tão abundante que tudo fica segmentado.

Então se você pegar a música agora tem 15, 20, 30 vertentes sendo consumidas ao mesmo tempo. São zilhões de bandas novas, artistas, trabalhos novos em todas as áreas da música, tudo disponível com qualidade HD, tudo fácil de ser corrigido, se você não canta bem, não toca bem tem um programa de computador que resolve a sua situação, então eu acho que a música caminha para a música ao vivo, para apresentação ao vivo, porque você está vendo a pessoa fazer aquela música na hora, aquilo passa a ser a única maneira autêntica, o resto que você escuta não sabe se é uma máquina que está tocando, se aquilo foi corrigido, se saiu de um ser humano, da cabeça do ser humano.

E a tendência é ficar assim. A própria música está sendo diluída pela oferta muito maior do que a demanda. Tudo é over hoje em dia. O que seria uma novidade? É um produto de consumo que não é só necessariamente a música. Hoje um artista de sucesso, um músico de sucesso tem, além da música, a coreografia, a dança, a imagem, a opinião, a atitude, como ele se expressa, que posição política ele tem, o que ele propõe, ele tem um monte de coisas que não têm a ver com música, que são o componente da indústria em que tudo é vendido, tudo é misturado em um conceito só e a música é um elemento; às vezes a música não é forte, mas o que entorna ela é. Então você vê uma coisa espetacular, mas tudo gira em cima da música.

Tudo ficou muito segmentado, muito compartimentado, e é difícil se encontrar nesse mar de informação para eu dizer o que realmente é uma novidade em conteúdo. Eu acho que o caminho da música, ela tende a ser valorizada quando ao vivo. Você vê o músico executar aquilo na sua frente, tem um contato físico com a música, não através da imagem, nem sequer do que você escuta no fone de ouvido, que passa a ser uma trilha para sua vida. Agora se você quiser ter contato com a música tem que ver o músico ao vivo, é a única forma de você ter um contato com a música na sua raiz pura, música pela música, pela construção, pela expressão da música.

Fora isso você está vendo um produto manipulado, que não necessariamente é ruim, mas que não é autêntico, não é cem por cento música, às vezes não é nem 50% de música. Você está vendo um produto que foi pensado, foi feito e você não sabe até que ponto a parte humana, fisicamente, tem de participação naquele produto. Claro que qualquer produto é humano em última análise, mas o que você está ouvindo, quem fez, foi um músico? Ou foi um músico que pensou e aquilo foi feito por uma máquina E isso já dá uma grande diferença.”

Espaço para música ao vivo

“Os espaços sempre foram o grande problema da música e das artes em geral. Nós estamos ainda em uma época de transição. Por exemplo: em 2008 não existia Facebook, de cinco anos para cá que você começou a ver vídeos, e o que você via no computador passou para o smartphone, isso há três, quatro, cinco anos. E isso praticamente foi um golpe mortal em coisas como fotografia, música. Isso afeta também a coisa do espaço, porque você passa a ter a vida no seu smartphone, então ficou difícil. Você tem alguns espaços alternativos, tradicionais, acho que sempre vai haver espaços, o que eu questiono é se com o tempo vai continuar a ter gente que sai só para ver música.

Por exemplo, hoje em dia a música não se faz mais em teatro. São poucos os espaços tradicionais para você realmente ter aquele contato com a música ao vivo. Isso é realmente um problema, porque os espaços passam a ser espaços onde a música não é o principal, é um complemento, que são os barzinhos, para o dono do bar interessa você entrar lá e consumir, beber e comer, o que ele coloca para você assistir é o gancho para você entrar, comer e beber.

Então tem várias outras coisas que não são música e que lhe atraem lá: o ambiente, a possibilidade de conhecer alguém, a maneira como você é tratado pela casa, a comida... Dentro de todo esse cardápio aparece a música e em muitos lugares nem isso, não tem nem a música. Então a gente não pode considerar isso um espaço para a música. O espaço para música deveria ser só para música, você entrar e assistir a um show.”



Como se ouve música hoje

“A quantidade de informação, do processamento de dados: quanto mais diversidade você tem na mão, mais você pode escolher, zapear, no próprio smartphone, e você está tão acostumado a ter um leque de opções que o tempo se comprime, você não fica em nenhuma, está sempre pulando.

Qualquer coisa que tenha cinco, dez minutos na internet é uma eternidade, não consegue ficar muito tempo numa coisa, porque todo mundo está publicando sempre alguma coisa, você nem precisa ir atrás de informação, elas vêm, sejam elas fake ou não. É tanta informação que acabou aquela coisa de você parar em alguma coisa como você saborear uma taça de vinho, ouvir um disco inteiro se torna raro.

Hoje se você consome na internet uma música, se você gosta de uma música você vai lá no iTunes e baixa a música, se gosta de três, para que você vai ter um disco inteiro se você só ouve no Spotfy. Se você quer ter o disco inteiro você baixa e deixa ali no seu pen drive, no seu iPod, o conceito de um disco, que tem 80 minutos ficou sem sentido.

Então o artista hoje lança músicas, não lança álbuns. Ainda existe o álbum, mas já virou uma espécie de catálogo, de brinde, de currículo do artista, o CD físico. E no futuro vai ser mais ainda, mas as pessoas ainda obedecem ao conceito de álbum mais como eco de que sempre foi assim, mas não tem motivo. O conceito de fazer um CD de 40 minutos - agora acabou de sair o CD do Chico Buarque - é um conceito aprisionado à quantidade de informação que cabe num CD físico.

Então o suporte físico ficou sem razão de ser. Estamos vivendo ainda um eco. Antes o artista tinha que apresentar um trabalho e não tinha essa rapidez. Se você quisesse ter acesso à obra de um artista você tinha que comprar o CD, tenha que ter o aparelho para tocar, hoje você não precisa carregar nada. Se não quero estar sempre conectado pode baixar e guardar em algum arquivo de memória, um MP3, e ouço offline. Então essa coisa física é que ainda dá suporte, e daqui a 50 anos, quem está nascendo dá valor pra CD?

Acho que ondas e ondas retrô [como a volta do vinil] vão existir sempre, mas o que vence no fim é a praticidade. O cara vê o vinil como uma novidade, começa a comprar, mas o vinil ocupa espaço físico e os apartamentos hoje em dia são de 40 metros quadrados.

Já não combina, o mundo segue para pouco espaço, otimização do espaço, nem HD externo, isso está sendo posto em cheque também, as pessoas estão colocando os back ups, as coisas importantes, tudo em nuvem. Nós ainda somos uma geração que viveu o analógico, e daqui a 20 anos? Que mundo que as crianças de hoje vão receber? Estamos ainda numa transição. E as crianças de agora? E daqui a 50 anos?

Eu parei no meu tempo, não é que eu acompanhe, que eu tenha raiva do mundo moderno, acho tudo muito legal, uso as coisas, mas eu acho que o conceito de disco, de álbum, de obra e até mesmo o conceito de artista já é uma coisa misturada no meio de milhares de informações, montanhas que você tem; é difícil você fazer alguém fiel, e vai ser ainda mais difícil daqui pra frente, porque você pega uma garotada aí e onde eles vão se apoiar?

Vejo a garotada aí descobrindo Beatles, achando uma maravilha, baixa toda a coleção, fica seis meses ouvindo, e depois acabou, porque é uma coisa finita, mas que viveu 13, 14 anos sem saber o que era. É muita coisa, e hoje as pessoas não querem perder tempo, é tanta informação que a pessoa é condicionada a escolher toda hora: o que eu faço, onde eu gasto meu tempo.

Fora isso a informação vem atrás de você pelo WhatsUp. Claro que isso – o excesso de informação – vai levar as pessoas a valorizarem, por isso que tem esses movimentos retrô, elas começam a descobrir o valor.”




Links:

Site oficial


Show Instrumental Sesc Brasil


Documentário no SescTV


Canal oficial no Youtube


sábado, 10 de junho de 2017

Gui Moscardini canta a diversidade paulistana em seu primeiro disco

Cantor e compositor lança “Coisa Boa a Gente Espalha” dia 14/06 em show no Teatro Viradalata


Guilherme Moscardini busca transmitir boas energias em seu primeiro trabalho. (Foto: Gabriel Arruda)
Guilherme Moscardini tem 24 anos, nasceu no bairro da Liberdade e vive no Butantã. Quando garoto, sonhava em ser cineasta, mas, ao ouvir o amigo Ari Oliveira tocar violão, ficou encantado e quis aprender. Não tanto pelo tocar, diz o artista em entrevista ao Blog por Bloga, mas mais pelo fato de o amigo estar tocando uma música própria. “Eu sempre tinha coisa pra falar e não sabia como fazer isso e foi na música que consegui”, conta. Ele tinha 8 anos e o pai “exigiu” que fosse estudar violão erudito – “para aprender direito”.

“Foi uma experiência que me assustou um pouco; não esperava aquilo, queria aprender três acordes e sair tocando. Era muito distinto do repertório que eu conhecia, mas fui gostar muito tempo depois, porque é difícil você falar que não gosta de Debussy [o compositor francês Claude Debussy – 1862-1918], sendo que Debussy é cinema; o cinema foi feito por esses compositores e esses compositores foram feitos pelo cinema”, explica, citando a sua primeira paixão.

Gui conta que logo que começou os estudos do instrumento já saiu compondo suas letras e, em pouco tempo, a criar músicas. Aos 13, 14 anos, já gostando do que fazia, começou a mostrar suas composições. “Meu principal professor foi a composição, a coisa de tentar, errar, buscar as coisas no violão”, define. O disco, diz, tem músicas que ele compôs aos 16 anos, meio sem saber o que estava fazendo, mas com uma complexidade que ele se deu conta  assim que passou a entender melhor de música.

Filho de pai fotógrafo e mãe artesã, sempre escutou muita música em casa. A mãe, carioca, cresceu e aprendeu a sambar na Escola de Samba Salgueiro e, por isso, sempre ouviu muito samba e MPB em casa. O pai também era fascinado por música, só que ele também ouvia Beatles, jazz. O irmão, Felipe, produtor executivo do disco, o apresentou ao forró, ritmo pelo qual acabou se apaixonando. “Tanto que hoje meu mestre, que eu tenho como mentor, é Dominguinhos, o cara que eu mais venero musicalmente”, acrescenta. No ambiente doméstico, ainda, havia a presença de André Busic, que ele chama de “tio de consideração”. Busic foi trompetista da Traditional Jazz Band e é pai dos garotos da banda de rock Dr Sin, Andria e Ivan Busic.

À diversidade rítmica que recebia em casa ele adicionou a multiplicidade de estilos que a cidade de São Paulo oferece e que lhe inspira em suas criações. O disco mistura à música popular brasileira ritmos africanos, bolero, samba, salsa, frevo e outros gêneros. “Quando garoto, ouvia muito rock e um dia escutei o Lenine cantando o ‘Jack Sou Brasileiro’ e aí me deu a sensação de que dá pra juntar… E desde então comecei a procurar coisas semelhantes”, lembra. “Essa coisa de colocar ritmos latino-americanos, africanos veio de dentro de casa também, por minha mãe frequentar várias religiões.”

Sobre a influência da cidade em que nasceu e vive, Gui explica: “Muito dessa variedade do disco, dessa diversidade, é por conta da cidade em que vivo. São Paulo é muito tradicional às vezes, mas, se você prestar atenção, acha muita coisa. Aqui tem muita festa, tem a do Boi na Raposo Tavares, no Morro do Querosene, tem o Maracatu na Heitor Penteado… Tem de tudo aqui, muita riqueza”.

Guilherme tem se apresentado em bares, hotéis, hostels, tocando suas composições e a de outros músicos. Como Marcos Valle, João Nogueira, Gilberto Gil, João Bosco, Chico Buarque, entre outros. É formado em produção musical pela Universidade Anhembi Morumbi e estuda canto popular na Emesp Tom Jobim (Escola de Música do Estado de São Paulo) e ministra aulas de violão na Associação Atlética Banco do Brasil.

Participou em 2012 do programa Sr. Brasil, da TV Cultura, comandado por Rolando Boldrin, de show com Nailor Proveta no Auditório Ibirapuera e do Circuito Municipal de Cultura com o show GilJoão&Chico. Criou a trilha sonora do documentário “Toda Reza”, do Coletivo Urucum, exibido em 2015 no Itaú Cultural, compôs e arranjou canções e trilha sonora da peça musicada “Branca de Neve e Zangado”, dirigida por Mira Haar e com direção musical de Renato Bellini, participação na peça musicada “Livro de Ouro”, com direção de Geraldo Rodrigues, e atuou no espetáculo musical “Miranda por Miranda”, de Stella Miranda e Tim Rescala.



Sobre essas atuações no cinema e no teatro, ele diz: “Compor pra mim é um desafio. Fazer as canções da peça musicada foi uma experiência incrível, nunca imaginei que iria cair em musicais; depois de atuar na peça da Stella Miranda caí mais ainda no backstage fazendo as músicas do ‘Branca de Neve…’. Foi um desafio e uma diversão”.

Ele também participou de festivais de música com abrangência nacional apresentando as canções de sua autoria “Coisa de Garoto” e “Coisa Boa a Gente Espalha”, entre os quais o Festival de Canção de Andradas (MG), Festival Internacional de Cantautores de São Luiz de Paraitinga (SP), Festival da Canção de Mogi das Cruzes (SP), CPV Music Festival (SP), Evento Impulso Apresenta (SP), Sofar Sounds (SP), Palco Museu da Imigração (SP), Auditório Ibirapuera (SP).

A respeito do mercado e espaço para o músico independente, ele vê a necessidade de as pessoas se unirem, como crê que seja no universo sertanejo. “A galera do sertanejo deu muito certo porque eles são muito unidos, é o que me parece, eles se ajudam muito. Acho isso muito legal e no tipo de música que eu faço acho que a galera está começando a criar um pouco de consciência nisso e mesmo no independente a galera está conseguindo trabalhar”, afirma.

“O que eu vejo para o mercado é que acho que tinha que ter espaço para todo mundo. Sertanejo, funk, tem que estar aí, mas tem que ter espaço para todo tipo de música. Infelizmente, ao que me parece, as grandes mídias não estão tão interessadas em divulgar isso ainda, mas acho que, se a própria galera da música se juntar e entender que não é uma rivalidade, que o negócio é de fato se um trabalhar vai ter trabalho para o outro, em algum momento vai acontecer”, acredita.

Nesse sentido, ele demonstra que não se prende às exigências do mercado, seguindo com sua criação independente do que o mundo “mainstream” exige. “Se for falar de algo que não é verdade para mim, ou eu saio da música ou vou fazer outro tipo de trabalho, tipo backstage, que não apareça tanto. Se fosse só pelo dinheiro, então não teria por que aparecer, mas também respeito todo mundo que faz, é trabalho, se a pessoa escolheu aquilo, é a verdade dela, eu acho digno, mas não é a minha verdade. Eu adoraria lotar um estádio, mas eu sei onde estou, no começo.”

E seu trabalho, define, já se revela pelo próprio nome do primeiro disco, “Coisa Boa a Gente Espalha”. “Fiquei bem preocupado quando escolhi porque as pessoas poderiam achar que eu estava querendo dizer que meu som é bom, mas depois vi que fazia todo o sentido essa frase, porque quando mentalizo algo, eu eu mentalizo pelo outro, porque eu sei que quando você estiver bem eu vou estar bem; quando eu tiver pensamentos positivos, eu vou atrair coisas positivas”, crê.

O disco, acrescenta, fala de amor de diversas maneiras, e não propriamente o amor de um casal. “Falo do amor que tenho pela minha mãe, e pode ser o amor que você tem pela sua mãe, e falo de sorrir e o amor já está implícito ali, a própria música que eu fiz pra minha parceira, a Jhessica, ‘Plano Contínuo’, é uma música de projeções, é aquela coisa de você estar ali com seu parceiro mas você não sabe o que vai ser amanhã, mas projeta coisas com aquela pessoa, almeja, e tem o lance da compreensão, de sair de minha visão para poder entender o que o outro está enxergando para a gente entrar em um consenso, aquela coisa que o Gil fala: a curva generosa da compreensão.”

Disco tem colaboração de 23 músicas e participações muito especiais


“Coisa Boa a Gente Espalha”

O trabalho de estreia de Gui Moscardini conta com participações especiais da cantora Assucena Assucena, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira; Renato Braz e Maíra da Rosa. O disco tem 12 faixas, sendo dez delas compostas e arranjadas por Gui Moscardini (‘Quando Entrar’ é assinada por Adriano Girelli e ‘Do Alto do Morro’ é de Raphael Cortezi).

Além das participações vocais, “Coisa Boa a Gente Espalha” teve colaboração de 23 músicos. O baixista Sizão Machado colabora na faixa “Sonho”. Os arranjos foram assinados por Raphael Cortezi e Gui executa o violão em todas as faixas. A dupla também assina produção de todo o disco.

O show de lançamento será no dia 14 de junho, quarta-feira, às 21h, no Teatro Viradalata (Rua Apinajés, 1387 – Perdizes). O show terá a participação de Barbara Rodrix. Os ingressos estão à venda a partir de R$ 20 no site do Ingresso Rápido.

O disco digital está disponível gratuitamente nas principais plataformas de música, como Spotify, Deezer, Apple Music, ITunes Store e YouTube. O disco físico também estará disponível na Livraria Cultura e pela Amazon.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Márcio Lugó traz sua “Liberdade Aparente” às vitrolas contemporâneas

Por Patrícia Visconti, de O Barquinho Cultural


Trabalho de Lugó ficou entre os melhores de 2013 (foto: Arquivo pessoal)
O cantor e compositor paulistano Márcio Lugó relançou neste ano de 2015 o seu segundo de álbum, “Liberdade Aparente” (2013), em vinil. O trabalho ficou entre os 100 melhores lançamentos da música contemporânea brasileira de 2013.

Esse disco é o segundo da carreira de Lugó - depois de "Desacelera", de 2010 - e traz a inocência por parte da população em acreditar que é livre vivendo em uma sociedade extremamente limitada em oportunidades para que todos almejem novos voos em sua vida, e não podando asas da imaginação e deixando a sociedade quadrada e cética às mudanças.

Um álbum que faz uma crítica social, mas sútil e sentimental, falando de relacionamentos e do cotidiano da vida em uma megalópole como São Paulo, além de amores não correspondidos ou relâmpagos, que acabam antes mesmo de começarmos a sonhar. Abrangendo seu público e focando-o em uma nova proposta para a carreira do músico.

“Liberdade Aparente” é uma mistura de ritmos e estilos, da música brasileira ao som urbano, com alguns elementos eletrônicos. Um projeto contemporâneo, que traz vida, alma e emociona aquele que escuta, e tem pretensão de mudar ao ser visto e ouvido.
Além de CD e vinil, o álbum também está disponível para download no site oficial de Lugó, basta acessar e adicionar seus dados e baixar gratuitamente o disco.

Confira abaixo a apresentação que Lugó realizou no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista:


sexta-feira, 20 de março de 2015

Ordep leva seu som à festa “Água de Meninos”

Festa 'Água de Meninos' começa hoje e prossegue em abril, maio e junho, no Centro Cultural Rio Verde (Divulgação)

“Água de Meninos chorou
Quem ficou foi a saudade
Da noiva dentro da moça
Vinda de Taperoá
Vestida de rendas,ô
Abre a roda pra passar.”

('Água de Meninos', de Capinam e Gilberto Gil)




Começa hoje, 20 de março, às 23h, com show de Ordep, a festa “Água de Meninos”,  um evento multicultural com apresentações musicais, teatrais e de dança e exposição de artes plásticas. O evento prossegue nos dias 9 de abril, 14 de maio e 11 de junho, sempre às 22h30, no Centro Cultural Rio Verde - Rua Belmiro Braga, 119, Pinheiros, tel: (11) 3459-5321, com ingressos a R$ 30.

Ordep é um músico e multiinstrumentista de Salvador, radicado em São Paulo desde 2006, que lançou recentemente seu primeiro disco solo, batizado com seu nome. Começou a aprender a tocar aos 11 anos, iniciando pelo bandolim. Integrou várias bandas da cena alternativa de Salvador, como Treblinka, Saci Tric, Cumbuca, Utopia e Orelha de Van Vogh.

Em 1998, foi um dos fundadores da banda Lampirônicos, de Salvador, uma das expoentes do que se convencionou chamar de afrobeat regional. Com a Lampirônicos, na qual tocava bateria, gravou dois CDs, “Que Luz é Essa” e “Toda Prece”.

O disco “Que Luz é Essa” projetou a banda mundialmente. A Lampirônicos concorreu na categoria “Revelação”, em 2002, ao prêmio Multishow de Música Brasileira. Participou de alguns festivais no exterior, como o Brazilian Summer, em Londres; Sfinks Festival, na Bélgica; o Festival Afro-Brasil, em Tübingen (Alemanha), e o Montreaux Jazz Festival, na Suíça.
Ordep : diversidade cultural e religiosa 

Depois da dissolução da Lampirônicos, Ordep atuou como instrumentista, tendo tocado com Elza Soares, Davi Moraes, Lucas Santana, Luiz Melodia, Baby do Brasil, entre outros. Juntou-se ao cantor e compositor Kiko Zambianchi, com quem excursionou pelo país. Atualmente, também integra e equipe da produtora musical Comando S.

O seu primeiro trabalho solo traz influências regionais e africanas, pitadas de punk rock, de música latina e de sonoridades afrobrasileiras, com um som mais pesado e muita guitarra e eletrônica. O álbum tem 12 faixas e conta com a participação de Kiko Zambianchi, Artur Ribeiro e dos rappers Rodrigo Tuchê e TiagoRedniggaz.

A festa “Água de Meninos” terá quatro horas de duração e participação especial de Serginho Rezende (instrumentista, compositor e produtor musical), dos rappers Rodrigo Tuchê & Grupo Motim, do DJ Ian Nunes, performance do Azenha de Teatro - calcada na poesia concreta e no teatro do absurdo - e o humorista Márcio Reiff como mestre de cerimônia.


Ordep canta e toca guitarra no show de hoje e estará acompanhado de Anderson Costa (bateria, backing vocal e programações), Adson Gaspar (contrabaixo) e RaphaelCoelho (percussão).



A maior feira ao ar livre do Brasil



O nome do show é uma referência à maior feira ao ar livre do país e que hoje se chama São Joaquim, em Salvador; muito conhecida por vender produtos de candomblé. “O espetáculo é também uma festa, uma manifestação artística, tendo meu show como atração principal, onde recebo convidados das mais diversas expressões”, comenta Ordep. “O cenário também reflete um pouco dessa diversidade cultural e religiosa do Brasil para receber com reverência um pouco da arte feita no Brasil”, finaliza.

Feira Água de Meninos na visão de Carybé

A Água de Meninos, a maior feira ao ar livre de Salvador, que existia desde os anos 30, foi incendiada em 1964, em circunstâncias nunca esclarecidas, mas, conforme depoimentos colhidos por Fabíola Aquino para o documentário “Água de Meninos – Feira do Cinema Novo”, de 2012, há suspeitas de ter sido obra da recém-instalada ditadura militar.

Além da letra de Capinam, musicada e cantada por Gilberto Gil em seu segundo LP, “Louvação”, o local foi cenário e tema de diversos filmes e documentários. Um dos filmes mais importantes tem a feira como palco para retratar as condições de vida de Salvador nos anos 60. “A Grande Feira” - foi dirigido pelo cinema-novista Roberto Pires em 1962, com produção executiva de Glauber Rocha.

Assista ao filme “A Grande Feira”, de Roberto Pires (1962)



Sobre a feira escreveu Vitor, no “Obvious”: “Água de Meninos era uma feira que reunia toda a produção do Recôncavo Baiano, que chegava a Salvador em pequenas embarcações, como saveiros; era um local habitado não só pelo comércio, mas pela vida cultural, pelo sincretismo e pela naturalidade das relações humanas. Ao lado da feira existia, por exemplo, o famoso areal que inspirou aquele de Jorge Amado e seus Capitães da Areia. Muitos anos antes, o local foi palco dos últimos minutos da Revolta Malé, a mais importante rebelião de escravos no Brasil. E dentro da feira, nada mais que o essencial para se entender o que é o espaço inconsciente do baiano, seja por aquilo que era vendido, seja pela forma como se vendia, seja pelos cantadores e cordelistas que rodeavam o local: confluência de vida em cultura e de cultura em vida.”

Confira um vídeo de Ordep – “Crer pra Ver”




Clique aqui para acessar o site oficial do artista

Ouça aqui o CD "Ordep" no Deezer