O Barquinho Cultural

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quinta-feira, 26 de março de 2026

The Beatles: Please Please Me

Em 22 de março de 1963, "The Beatles" lançavam na Inglaterra seu primeiro Long Playing (LP), "Please Please Me". Eu, nem dois anos de idade completados, pirei com aquele som.

No colo de mamãe Hirde, dando aquela mamada matinal, ouvi estupefato: "One, two, three, four... Well, she was just seventeen / You know what I mean"...


Não entendi nada, claro, mas aquela voz que mais tarde soube ser de Sir James Paul McCartney causou um colapso em minha pueril mente que, de pronto, me fez largar o bico do peito maternal e balançar as ainda frágeis e arqueadas ancas.


"Misery" veio arrebatar meus ouvidos ao conhecer um dueto em perfeita harmonia. Mas "Anna (Go To Him)" me mostrou que Lennon tinha uma dor no peito que só muitos anos depois, ao conhecer sua história, pude vislumbrar entender.


"Chains" me apresenta a voz miúda e os dedos ágeis de George, que se tornaria algum tempo depois meu Beatle favorito. Aí vem Ringo com "Boys", o narigudo da batera que, muitos anos depois, é celebrado ligeiramente em um episódio da série "Outlander".


"Ask me why" encantou meus ouvidos com aqueles "ai, ai, ai" pronunciados por John e emoldurados pelo coro de Paul e George...


Aí vem a faixa-título, já lançada anteriormente em single (no meu tempo, compacto simples): "Come on, come on, come on..." Aquele eu bebê nunca mais quis saber de leite depois disso... Por favor, me agrade... com algo mais... Rs...


Papai vira o disco e vem "Love me Do"... Esse o primeiro sucesso dos Fab4. Eu me lembro! Já ficava fascinado com a voz aveludada de Macca, que muitos anos após minha pequena Iracema também apreciaria. Aquela gaita (harmônica) de John pontuando tudo.


"P.S. I Love You" tem um ritmo quente, mostrando que Ringo sabia das coisas. E a harmonização das vozes? Uma criança não podia ficar indiferente. Eu não fiquei. Quis pouco depois imitar aquilo com minhas irmãs, sem sucesso.


Aí vem "sha-lá-lá"... "Baby, It's You", mostrando o puta cantor que Lennon é.. E dizem ainda que o cara estava com um baita resfriado! Volta George, meio fanho, com "Do You Want to Know a Secret", com um balanço que me acompanharia pouco tempo depois nos bailinhos em que eu mais gostava de ouvir do que de dançar...


Aquele gosto de mel, com Paul, me soava estranho... Muito Macca anos 1970 para meu gosto (quando John o chamou de compositor de 'tolas canções de amor'). Mas tem uns momentos legais...


"There's a Place" é animada, fazia o bebê aproveitar e liberar aquele xixi básico só pra se livrar da fralda chata e a mamãe passar o talquinho fresquinho...


Para fechar a obra, "Twist and Shout". Nossa! Quando John, na frente da rainha Bete, mandou a ricaiada balançar as joias, e quando, tempos depois, Matthew Broderick fez aquele cover em "Curtindo a Vida Adoidado", firmou essa canção como o arquétipo de Beatles de sua época.


Eu ao ouvir isso bebê me tornei um menino, jovem, homem e ancião feliz.


P.S. I love you, Beatles...



sábado, 7 de março de 2015

LP Massacre, do Made in Brazil, vetado em 77 pela ditadura, volta em versão original

LP teve 9 de suas 16 faixas proibidas ainda na pré-produção
1967. Da Inglaterra, os Beatles sacudiram o mundo e causaram perplexidade com o lançamento do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Na Bolívia, o revolucionário argentino-cubano Ernesto “Che” Guevara é executado por ordem dos serviços secretos norte-americanos. O colombiano Gabriel García Márquez chegava ao paroxismo do “realismo mágico” com seu “Cem Anos de Solidão”. O médico sul-africano Christian Barnard realiza o primeiro transplante de coração do mundo. Em São Francisco, começam a pipocar os “hippies”.

No Brasil, o 3º Festival de Música Popular Brasileira fazia o público conhecer o rompimento estético e a antropofagia de Caetano e Gil, com “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, respectivamente, ao lado da metafórica “Roda Viva”, de Chico, e a vencedora, a guerreira “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam.

No teatro, o grupo Oficina resgatava um velho texto do modernista Oswald de Andrade, “O Rei da Vela”, e fazia uma montagem alucinante. Glauber Rocha botava nas telas “Terra em Transe”, desafiando o regime militar, que publicara, poucos meses antes, uma Constituição que engessaria muito mais as liberdades no país.

Nesse cenário de muitas novidades, mudanças comportamentais impondo-se, e ainda um clima muito pesado no Brasil, uns garotos do bairro de Pompeia, na zona oeste da capital paulista, resolvem se juntar para tocar rock and roll. Oswaldo e Celso Vecchione e amigos de escola criam o Made in Brazil.

Mais que uma banda, um coletivo (conceito que hoje em dia faz muito sentido), uma vez que, segundo os pioneiros criadores, já teve mais de 190 formações diferentes e, por ela, tocaram mais de 110 músicos. E, conforme eles próprios, passou por todos os modismos ditados pelo mercado sem nunca se vergar a ele e sem se afastar do rock.

O performático Cornélius Lúcifer (foto: Flavia Lobo) 
No começo faziam covers do rock mundial, até que, por volta de 1973, passam a cantar e compor letras em português e lançam, no ano seguinte, o primeiro LP, com o mesmo nome do grupo, e saem em turnê pelo Brasil. O vocalista era o carismático Cornélius Lúcifer, morto em julho de 2013. O grupo reivindica o pioneirismo em usar no corpo maquiagem artística em shows, antes do Kiss e do Secos & Molhados.
Grupo se orgulha de se manter rock e não se vergar ao mercado 

Em 1977, são surpreendidos com a censura ao disco que estavam gravando, “Massacre”, o terceiro da carreira. Conta a banda que, ainda nas gravações de pré-produção do estúdio B da RCA Victor, a censura do regime militar proibia nove de suas dezesseis faixas. As gravações são suspensas e o disco não saiu.

O show baseado nas músicas do disco também teve problemas. Na estreia, no Teatro Aquarius, no bairro do Bixiga, a polícia federal e o Dops – o Departamento de Ordem Política e Social, a polícia política do regime -, fecharam a rua e interditaram o teatro, confiscaram o equipamento da banda e ela só conseguiu realizar as apresentações depois de fazer várias alterações no roteiro e no repertório, inclusive o tanque de guerra, símbolo do disco, foi suprimido.

Em sua declarada 196ª formação, banda de rock com mais tempo de atividade no país
O disco só seria lançado, em CD, em 2005, após serem localizadas as fitas originais de 1977. Mas a versão original, em vinil, foi produzida no final do ano passado e será lançada oficialmente neste sábado, 7 de março, com um show-festa no Gillan´s Inn Rock Bar - Rua Marques de Itu, 284, Vila Buarque. O Made fará duas entradas de 50 minutos, a primeira às 23h, com ingressos a R$ 30.

O vinil “Massacre”, produzido pela Mafer Records, tem tiragem limitada de 300 cópias, ou seja, para colecionadores e fãs. Depois de quase ser morto pelo CD e este pelo MP3, o vinil retorna aos toca-discos, em edições caprichadas em com uma qualidade bem superior, com 180 gramas de peso. O preço, porém, é ainda bem salgado, pela escala reduzida de produção.

Além do lançamento do "Massacre" original, ainda no primeiro semestre será lançado o documentário "Made in Brazil, o Filme", do cineasta paranaense Egler Cordeiro.  E a banda, agora em sua 196ª formação, segue em turnês, consolidando-se como o grupo de rock & blues com mais tempo de atividade do Brasil.

Os participantes da gravação original foram:

Vocal: Percy Weiss, Roberto Gourgel “Juba”, Rubens Nardo “Rubão” e  Oswaldo “Rock” Vecchione 
Baixo & violão: Oswaldo “Rock” Vecchione, Tony Babalu
Guitarras: Tony Babalu, Oswaldo “Rock” Vecchione, Celso “Kim” Vecchione
Guitarra solo: Eduardo Depose, Wander Taffo, Dudu Chermont
Bateria: Beto Gavioto, Franklin Paolillo, Roberto Gourgel “Juba”
Flauta - Tony Osanah
Teclados: Rubens Diniz “Rubinho”

No show, a formação é esta:

Oswaldo “Rock” Vecchione: vocal, baixo, guitarra, violão e gaita
Celso “Kim” Vecchione: guitarra, violão, baixo, teclado e back vocals
Octavio Lopez Garcia “Bangla”: sax
Rick “Monstrinho” Vecchione: bateria
Guilherme “Ziggy” Mendonça: guitarra, violão
Tiago T. Fernandes, o “Mineiro”: teclados
Ivani “Janis” Venancio: backing vocals
Participações especiais
João Bosco Ferreira - bateria (1994,95)
Roberta “Rock’N’Roll” Abreu  -  backing vocals (desde 2009)


 Alguns vídeos:




(Fonte das informações: assessoria de imprensa, site oficial, Oswaldo e algo da vida vivida)