O Barquinho Cultural

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Minha vinilteca (5): "Atlantic Blues: Guitar"

Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.




O contexto da compra


Como já mencionado aqui, em meados dos anos 1980 eu estava fissurado pelo violão. E, por algum motivo que me foge agora à lembrança, comecei a ouvir blues-raiz. Este LP veio atender plenamente a meus propósitos: guitarristas de blues em gravações originais e antológicas!

O disco foi adquirido em 4 de julho de 1987 (a coincidência com o 'Independence Day' dos EUA é mera coincidência). Não me lembro em que loja, mas à época era comum se encontrar bons discos em magazines como Mappin, Jumbo-Eletro, Mesbla.

Pode ter sido em uma delas, ou em especializadas como Merci, Museu do Disco, Bruno Blois... Não sei. A capa traz apenas um selo ('Dê Discos de Presente'), com um símbolo que não consigo identificar.

A coleção "Atlantic Blues"


Fundada em 1947, em Nova Iorque, por Ahmet Ertegun e Herb Abramson, a Atlantic Records desde o começo apostou na música criada e executada por afro-americanos, como o blues, o jazz, o rhythm & blues, soul. Revelou, entre outros gigantes, o astro Ray Charles.

Em 1967, foi adquirida pela Warner Music Group, passando a investir em gêneros como o rock e mais tarde o pop. A partir daí, abrigou artistas e grupos como Led Zeppelin, Cream, Yes e, mais recentemente, Bruno Mars, Coldplay, Ed Sheeran, entre outros.

A coleção "Atlantic Blues" consiste em quatro álbuns duplos: "Guitar", "Chicago", "Vocalists" e "Piano", compilando até então cerca de 40 anos de gravações de ícones de seu cast. Eu tenho apenas o de guitarristas. Quem sabe um dia né...

Detalhes técnicos & conteúdo


O disco traz 18 artistas principais em 24 faixas, abrangendo um período de 1949 a 1982, com fonogramas originais. Duas faixas não haviam sido lançadas antes deste LP: "Tall Pretty Woman", com Stick McGhee, e "Bongo Boogie", com Texas Johnny Brown. As demais foram lançadas anteriormente em álbuns ou singles.


Dizem os fundadores no texto do encarte que eles foram os pioneiros na gravadora a difundir o "blues guitar". À época, dizem, não era comum os guitarristas de jazz gravarem o gênero desenvolvido no sul dos Estados Unidos.

A guitarra, escrevem Ertegun e Abramson, "aparecia comumente apenas como uma coisa incidental nos clássicos da Atlantic, de blues, por gente como Ray Charles e Big Joe Turner".

A reedição dos fonogramas foi dirigida por Bob Porter, com produção executiva de Ahmet Ertegun. Steve Innocenzi cuidou da transferência digital; Sam Feldman, da masterização; a direção de arte é de Carol Babolts; e as fotografias, de Robin Nedboy.

O LP foi lançado em 1986 pelo selo Atlantic da WEA. No Brasil, o LP foi fabricado e distribuído pela BMG Ariola em 1987.

Faixas & músicos


Disco 1


Lado A

1) "Broke Down Engine", com Blind Willie McTell (composição, guitarra e vocal). Gravada em Atlanta no outono de 1949. Produção:  Ahmet Ertegun e Herb Abramson

2) "Shake 'Em On Down", com Mississippi Fred McDowell (guitarra, vocal, adaptação e arranjo), Miles Pratcher (guitarra) e Fannie Davis (comb = pente fazendo som de gaita). Gravada em 1959 no Mississippi. Produção: Alan Lomax

3) "My Baby Don't Love Me", com John Lee Hooker (composição, guitarra e vocal). Gravada em Cincinatti em 1953. Produção: Henry Stone

4) "Guitar Lovin' Man", com John Lee Hooker (composição, guitarra e vocal) e Eddie Kirkland (guitarra e vocal). Gravada em Cincinatti em 1953. Produção: Henry Stone

5) "Tall Pretty Woman", com Stick McGhee (guitarra e vocal), Gene Ramey (baixo), Brownie McGhee (guitarra) e Big Chief Ellis (piano). Gravada em Nova Iorque em 14 de fevereiro de 1949 (não lançado antes). Produção: Ahmet Ertegun e Herb Abramson

6) "The Blues Rock", com Texas Johnny Brown (composição, guitarra, vocal), Amos Milburn (piano), sax tenor, baixo, bateria congas não identificados. Gravada em Nova Iorque em 6 de abril de 1949. Produção: Ahmet Ertegun e Herb Abramson

7) "There Goes The Blues", com Texas Johnny Brown (composição, guitarra, vocal), Amos Milburn (piano), sax tenor, baixo, bateria congas não identificados. Gravada em Nova Iorque em 6 de abril de 1949. Produção: Ahmet Ertegun e Herb Abramson

8) "Bongo Boogie", com Texas Johnny Brown (composição, guitarra, vocal), Amos Milburn (piano), sax tenor, baixo, bateria congas não identificados. Gravada em Nova Iorque em 6 de abril de 1949 (não lançado antes). Produção: Ahmet Ertegun e Herb Abramson

Lado B

1) "Two Bones And A Pick", com T-Bone Walker (composição e guitarra), Barney Kessel e R.S. Rankin (guitarras), Joe Comfort (baixo), Earl Palmer (bateria), Ray Johnson (piano), Plas Johnson (sax tenor). Gravada em Los Angeles em 27 de dezembro de 1957. Produção: Nesuhi Ertegun

2) "Mean Old World", com T-Bone Walker (composição, guitarra, vocal), Billy Hadnott (baixo), Oscar Bradley (bateria), Lloyd Glenn (piano), Gravada em Los Angeles em 14 de dezembro de 1954. Produção: Nesuhi Ertegun

3) "Let Me Know", com Chuck Norris (composição e guitarra), demais músicos não identificados. Gravada em Nova Iorque em 26 de fevereiro de 1953. Produção: Ahmet Ertegun

4) "It Hurts To Love Me", com Guitar Slim (guitarra e vocal), demais músicos não identificados. Gravada em Nova Iorque em 25 de fevereiro de 1957. Composição: Eddie Jones. Produção: Herb Abramson

5) "Down Through The Years", com Guitar Slim (guitarra e vocal), demais músicos não identificados. Gravada em Nova Iorque em março de 1956. Composição: Renald Richards. Produção: Herb Abramson

6) "Okie Dokie Stomp", com Cornell Dupree (guitarra), Richard Tee (teclados), Chuck Rainey (baixo), Bernard Purdie (bateria), Ralph McDonald (percussão), Ernie Royal e Joe Newman (trompetes), Garnett Brown (trombone), David Newman e Joe Farrell (sax tenor), Seldon Powell (sax barítono). Gravada em Nova Iorque em 20 de novembro de 1973. Arranjos de sopros: Richard Tee. Composição: Plummer Davis. Produção: Mark Myerson e Michael Cuscuna

7) "Blues Nocturne", com Cornell Dupree (guitarra), Richard Tee (teclados), Chuck Rainey (baixo), Bernard Purdie (bateria), Ralph McDonald (percussão), Ernie Royal e Jon Faddis (trompetes), Garnett Brown (trombone), Trevor Koehler (sax barítono), Seldon Powell (sax tenor). Gravada em Nova Iorque em 20 de novembro de 1973. Arranjos de sopros: Chuck Rainey. Composição: Curtis Ousley. Produção: Mark Myerson e Michael Cuscuna

Disco 2


Lado C

1) "TV Mama", com Big Joe Turner  (vocal), Sonny Cohn (trompete), Grady Jackson (sax ternor), Mack Easton (sax barítono), Johnny Jones (piano), Elmore James (guitarra), Jimmy Richardson (baixo), Red Saunders (bateria). Gravada em Chicago em 7 de outubro de 1953. Composição: Lou Willie Turner. Produção: Ahmet Ertegun e Jerry Wexler

2) "Reconsider Baby", com Al King (vocal), Johnny Heartsman (guitarra), demais músicos não identificados. Gravada em Los Angeles em 30 de março de 1964. Composição: Lowell Fulson. Produção: Johnny Heartsman e Ron Badger

3) "Midnight Midnight", com Mickey Baker (composição e guitarra líder), Everett Barksdale (guitarra rítmica), Herman Foster (piano), Abie Baker (baixo), Sticks Evans (bateria). Gravada em Nova Iorque em 4 de junho de 1959. Produção: Nesuhi Ertegun

4) "I Smell Trouble", com Tina Turner (vocal), Ike Turner (guitarra), demais músicos não identificados. Gravada em Acra (Gana), em 6 de março de 1971. Composição: Don Robey. Produção: Tom Dowd

5) "Why I Sing The Blues", com B.B. King (composição, guitarra e vocal), Ed Rowe (trompete), Joseph Burton (trombone), Earl Turbinton (sax alto), Bobby Forte (sax tenor), Louis Hubert (sax barítono), Ron Levy (piano), Milton Hopkins (guitarra), Wilbert Freeman (baixo), Sonny Freeman (bateria). Gravada em Porto Rico em abril de 1972. Produção: Tunc Erim

Lado D

1) "Crosscut Saw", com Albert King (guitarra e vocal), Booker T. Jones (teclados), Duck Dunn (baixo), Al Jackson (bateria). Gravado em Memphis em 2 de novembro de 1966. Composição:  R.G. Fond. Produção: Stax Staff.

2) "Born Under A Bad Sign", com Albert King (guitarra e vocal), Booker T. Jones (teclados), Duck Dunn (baixo), Al Jackson (bateria), The Memphis Horns (sopros). Gravada em Memphis em 1967. Composição: Jones & Bell. Produção: Stax Staff

3) "Shake For Me", com John Hammond Jr (guitarra), Duane Allman e Eddie Hinton (guitarras), Barry Beckett (teclados), David Hood (baixo), Roger Hawkins (bateria). Gravada em Muscle Shoals, Alabama, em 21 de novembro de 1969. Composição: Willie Dixon. Produção: John Hammond Jr e Marlin Greene

4)  "Flood Down In Texas", com Stevie Ray Vaughan (guitarra e vocal), Tommy Shannon (baixo), Chris Layton (bateria). Gravada em Montreaux (Suíça), em 17 de julho de 1982. Composição: Joseph W. Scott e Larry C. Davis. Produção: Philippe Rault



O disco na íntegra não está disponibilizado em plataformas como Spotify, Amazon Music e Deezer, apenas em playlists, e ainda incompletas (se alguém achar em alguma outra plataforma, cartas à redação). No YouTube Music tem o disco na íntegra, também na forma de playlist.

No YouTube, encontrei uma reprodução completa, mas está identificada errado, como "Atlantic Blues: Chicago (Guitar CD 2)" - uma salada mista (rs). Veja abaixo:



segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Só nos resta... Angela RoRo


Foto: Bob Wolfenson

A cantora, compositora e pianista Angela RoRo morreu nesta segunda-feira, 8 de setembro de 2025, aos 75 anos.

Há poucos dias, vi uma postagem dela numa rede social, pedindo doações para seu tratamento. Diz o noticiário que ele teve uma infecção pulmonar e seu apelo é porque não dispunha de recursos para se tratar.

Não sei o quanto isso é verdade. O que sei é que uma artista de sua importância e talento não deveria passar necessidade. Será que nenhum dos seus admiradores poderia fazer algo?

RoRo apareceu pela primeira vez tocando gaita em uma das faixas do álbum "Transa", de Caetano Veloso, lançado em 1972, quando de seu exílio em Londres. A música é "Nostalgia (That's What Rock'n Roll Is All About)".

Caetano compôs para ela "Escândalo", que dá título a seu terceiro álbum, de 1981. Mas seu primeiro LP, homônimo, veio à luz dois anos antes, com 12 composições de sua autoria.

A que ganhou repercussão foi "Amor, Meu Grande Amor", dela e Ana Terra, que está na trilha da novela da Globo "Água Viva", de Gilberto Braga, e "Caminho das Índias", de Glória Perez, mas é um disco repleto de ótimas canções, como "Cheirando A Amor", "Tola Foi Você", "Balada da Arrasada", "Abre o Coração".

Aliás, não faltaram canções em sua voz a entrarem em trilhas de novelas da TV Globo... Busque saber.

Ano seguinte, vem com "Só Nos Resta Viver". O LP tem sua interpretação visceral para "Bárbara", de Chico Buarque e Ruy Guerra, da peça "Calabar - O Elogio da Traição", e "Fica Comigo Esta Noite", de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves, ambas acompanhadas ao bandoneón por Ubirajara Silva.

O LP tem ainda duas faixas que são sua própria essência (além das composições que falam de amores vêm, amores vão): "Meu Mal é a Birita" e "Tango da Bronquite" (também com o bandoneón de Bira, claro).

O disco de 1981, "Escândalo", traz também "Tão Beata, Tão à Toa", de Guto Graça Mello e Naila Skorpio, que, em versão roqueira de Marina Lima, entrou no tema de abertura da novela "Corpo a Corpo", de Gilberto Braga, na Globo. "Vou Lá No Fundo", de Naila Skorpio e Sônia Burnier, é outra de minhas lembranças da artista.

"Simples Carinho", de 1982, abre com a faixa-título, composta pelos mestres Abel Silva e João Donato. Tem ainda uma de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, "Demais" -que parece ter feito sob medida para ela (Todos acham que eu falo demais / E que eu ando bebendo demais / Que essa vida agitada / Não serve pra nada / Andar por aí / Bar em bar, bar em bar...). Vai que, né?

Em "A Vida é Mesmo... Assim", de 1984, ela aparece cândida na capa, com um véu rosa, e apresenta "Fogueira", baita canção que ganhara antes interpretação igualmente intensa de Maria Bethânia em seu álbum "Ciclo", de 1983.

"Eu Desatino" é seu trabalho de 1985, que teve a primeira faixa, "Blue Janis", proibida à execução pública (talvez por se referir à heroína ou à liberdade sexual em seus versos cortantes).

"Prova de Amor", de 1988, traz composições de Bernardo Vilhena e Lobão ('Sempre Uma Dose A Mais'), Tavinho Paes e Arnaldo Brandão ('How Green Was Your Monkey') e outras dez dela - duas em parceria, "Viciado em Regras", com Aleph D. Clic, e "Funk do Negão", com Ari Mendes.

Em 2000, lança "Acertei no Milênio", uma brincadeira com "Acertei no Milhar", samba de Wilson Baptista e Geraldo Pereira gravado em 1940 por Moreira da Silva. Neste CD grava dois standards norte-americanos, "All Of Me", de Seymour Simons e Gerald Marks, e "Don't Let Me Be Misundertood", de Bennie Benjamin, Horace Ott e Sol Marcus. Neste disco RoRo dá sua interpretação para "Gota D'Água", de Chico Buarque.

Em 2006 lança "Compasso", cuja canção título, dela e de Ricardo Mac Cord, é quase um epitáfio: "Vou carregar de tudo vida afora / Marcas de amor, de luto e espora / Deixo alegria e dor / Ao ir embora".

"Selvagem", de 2017, foi seu último disco com canções inéditas, gravado em casa, na realidade no lar de seu tecladista e parceiro Mac Cord. O disco traz repertório variado, que vai do baião ('Parte Com o Capeta'), ao constante blues ('Portal do Amor'), passando pelo samba ('De Todas as Cores' e 'Maria da Penha').

Entre esses últimos, ela lançou dois álbuns com canções consagradas, "Angela RoRo Ao Vivo", de 2006, e "Feliz da Vida"", em 2013. Houve ainda o primeiro ao vivo, "Nosso Amor Ao Armagedon", de 1993, vários singles e compilações.

Vida

Nascida Angela Maria Diniz Gonçalves em 5 de dezembro de 1949, no Rio de Janeiro, ela foi uma das maiores vozes da música brasileira, conhecida por sua voz rouca, letras confessionais e uma presença de palco única.

O interesse pela música começou cedo. Aos 5 anos, já estudava piano clássico e, um ano depois, compunha em seu acordeão. O apelido "RoRo" surgiu na adolescência, por causa da sua voz grave e rouca, uma marca registrada que a acompanharia por toda a carreira.

No início dos anos 1970, Angela RoRo se mudou para Londres, onde trabalhou como faxineira, garçonete e lavadora de pratos. Paralelamente, ela se apresentava em pubs, tocando piano e cantando. Foi nesse período que teve contato com o cineasta Glauber Rocha, que estava em exílio, e chegou a ser convidada pelo empresário Malcolm McLaren (futuro mentor dos Sex Pistols) para gravar um álbum de blues, projeto que não se concretizou.

Ao retornar ao Brasil, Angela RoRo se firmou como uma das figuras mais originais da MPB. Sua autenticidade e a forma como falava abertamente sobre sua sexualidade a tornaram um ícone, especialmente na comunidade LGBTQIAPN+.

Ao longo de sua carreira, Angela RoRo lançou diversos álbuns e teve suas músicas gravadas por grandes nomes da música brasileira, como Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Marina Lima. Uma curiosidade é que a famosa canção "Malandragem", composta por Cazuza, foi oferecida a ela, mas RoRo recusou-se a gravá-la por não gostar da letra, e a música acabou sendo imortalizada na voz de Cássia Eller anos depois.

RoRo, que foi eleita pela revista "Rolling Stone" como a 33ª maior voz da música brasileira, continuou ativa até seus últimos anos, se apresentando em shows e participando de programas de TV, sempre com sua personalidade forte e seu talento inquestionável. Ela deixou um legado de coragem, talento e autenticidade. (Fontes: Discos do Brasil, Discogs, O Globo, G1, Biscoito Fino e Gemini)


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Bobby Lewis

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Robert (Bobby) Alan Lewis (1925–2020) nasceu em Indianápolis e foi criado em um orfanato. Aprendeu a tocar piano aos 6 anos.

Adotado aos 12, se mudou para Detroit, Michigan, mas fugiu de lá aos 14 anos.

Cresceu em meio a músicos de blues e depois do rock and roll.

Lewis começou a construir uma carreira musical na década de 1950 e fez suas primeiras gravações para o selo Spotlight, quando gravou "Mumbles Blues" (Lewis) para a Chess Records em 1952.

Mudou-se para Nova York, e sua gravação de 1960 de "Tossin' and Turnin'" ( Ritchie Adams e Malou Rene) no selo Beltone ficou em primeiro lugar por sete semanas na parada da Billboard no verão de 1961. Vendeu mais de um milhão de cópias e ganhou um disco de ouro.

Outro sucesso, também em 1961, foi "One Track Mind" (Malou Rene e Bobby Lewis). As gravações seguintes tiveram menos sucesso.

Em uma entrevista de 2011, Lewis disse que viveu em Newark, New Jersey, desde cerca de 1980, e ficou quase cego, mas ainda se apresentava ocasionalmente.

Morreu em 28 de abril de 2020, aos 95 anos, após contrair pneumonia.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Etta James


Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.


Etta James, nascida Jamesetta Hawkins (1938-2012) em Los Angeles (EUA), começou a estudar música aos 5 anos, em uma escola da igreja batista.

Em 1952, já morando em São Francisco, formou o trio de doo-wop The Creolettes com duas amigas, chamando a atenção de Johnny Ottis (1921-2012), um músico, instrumentista e líder de banda de blues e rhythm and blues, que mudou o nome dela invertendo as letras.

Seguiu em excursão com Ottis e banda, chegando a gravar alguns singles.

Grava seu primeiro LP, "At Last", em 1960, pela Argo, um selo da Chess Records. O disco emplacou três músicas nas paradas: a faixa-título, de Mack Gordon e Harry Warren; "All I Could Do Was Cry" (Billy Davis, Gwen Fuqua, Berry Gordy Jr.) e "Trust in Me" (Milton Ager, Jean Schwartz e Ned Weaver).

"At Last", escrita por 1941 para o filme musical "Orchestra Wives" (no Brasil 'Serenata Azul'), dirigido por Archie Mayo, se tornou o grande sucesso de Etta.



sábado, 7 de março de 2015

LP Massacre, do Made in Brazil, vetado em 77 pela ditadura, volta em versão original

LP teve 9 de suas 16 faixas proibidas ainda na pré-produção
1967. Da Inglaterra, os Beatles sacudiram o mundo e causaram perplexidade com o lançamento do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Na Bolívia, o revolucionário argentino-cubano Ernesto “Che” Guevara é executado por ordem dos serviços secretos norte-americanos. O colombiano Gabriel García Márquez chegava ao paroxismo do “realismo mágico” com seu “Cem Anos de Solidão”. O médico sul-africano Christian Barnard realiza o primeiro transplante de coração do mundo. Em São Francisco, começam a pipocar os “hippies”.

No Brasil, o 3º Festival de Música Popular Brasileira fazia o público conhecer o rompimento estético e a antropofagia de Caetano e Gil, com “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, respectivamente, ao lado da metafórica “Roda Viva”, de Chico, e a vencedora, a guerreira “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam.

No teatro, o grupo Oficina resgatava um velho texto do modernista Oswald de Andrade, “O Rei da Vela”, e fazia uma montagem alucinante. Glauber Rocha botava nas telas “Terra em Transe”, desafiando o regime militar, que publicara, poucos meses antes, uma Constituição que engessaria muito mais as liberdades no país.

Nesse cenário de muitas novidades, mudanças comportamentais impondo-se, e ainda um clima muito pesado no Brasil, uns garotos do bairro de Pompeia, na zona oeste da capital paulista, resolvem se juntar para tocar rock and roll. Oswaldo e Celso Vecchione e amigos de escola criam o Made in Brazil.

Mais que uma banda, um coletivo (conceito que hoje em dia faz muito sentido), uma vez que, segundo os pioneiros criadores, já teve mais de 190 formações diferentes e, por ela, tocaram mais de 110 músicos. E, conforme eles próprios, passou por todos os modismos ditados pelo mercado sem nunca se vergar a ele e sem se afastar do rock.

O performático Cornélius Lúcifer (foto: Flavia Lobo) 
No começo faziam covers do rock mundial, até que, por volta de 1973, passam a cantar e compor letras em português e lançam, no ano seguinte, o primeiro LP, com o mesmo nome do grupo, e saem em turnê pelo Brasil. O vocalista era o carismático Cornélius Lúcifer, morto em julho de 2013. O grupo reivindica o pioneirismo em usar no corpo maquiagem artística em shows, antes do Kiss e do Secos & Molhados.
Grupo se orgulha de se manter rock e não se vergar ao mercado 

Em 1977, são surpreendidos com a censura ao disco que estavam gravando, “Massacre”, o terceiro da carreira. Conta a banda que, ainda nas gravações de pré-produção do estúdio B da RCA Victor, a censura do regime militar proibia nove de suas dezesseis faixas. As gravações são suspensas e o disco não saiu.

O show baseado nas músicas do disco também teve problemas. Na estreia, no Teatro Aquarius, no bairro do Bixiga, a polícia federal e o Dops – o Departamento de Ordem Política e Social, a polícia política do regime -, fecharam a rua e interditaram o teatro, confiscaram o equipamento da banda e ela só conseguiu realizar as apresentações depois de fazer várias alterações no roteiro e no repertório, inclusive o tanque de guerra, símbolo do disco, foi suprimido.

Em sua declarada 196ª formação, banda de rock com mais tempo de atividade no país
O disco só seria lançado, em CD, em 2005, após serem localizadas as fitas originais de 1977. Mas a versão original, em vinil, foi produzida no final do ano passado e será lançada oficialmente neste sábado, 7 de março, com um show-festa no Gillan´s Inn Rock Bar - Rua Marques de Itu, 284, Vila Buarque. O Made fará duas entradas de 50 minutos, a primeira às 23h, com ingressos a R$ 30.

O vinil “Massacre”, produzido pela Mafer Records, tem tiragem limitada de 300 cópias, ou seja, para colecionadores e fãs. Depois de quase ser morto pelo CD e este pelo MP3, o vinil retorna aos toca-discos, em edições caprichadas em com uma qualidade bem superior, com 180 gramas de peso. O preço, porém, é ainda bem salgado, pela escala reduzida de produção.

Além do lançamento do "Massacre" original, ainda no primeiro semestre será lançado o documentário "Made in Brazil, o Filme", do cineasta paranaense Egler Cordeiro.  E a banda, agora em sua 196ª formação, segue em turnês, consolidando-se como o grupo de rock & blues com mais tempo de atividade do Brasil.

Os participantes da gravação original foram:

Vocal: Percy Weiss, Roberto Gourgel “Juba”, Rubens Nardo “Rubão” e  Oswaldo “Rock” Vecchione 
Baixo & violão: Oswaldo “Rock” Vecchione, Tony Babalu
Guitarras: Tony Babalu, Oswaldo “Rock” Vecchione, Celso “Kim” Vecchione
Guitarra solo: Eduardo Depose, Wander Taffo, Dudu Chermont
Bateria: Beto Gavioto, Franklin Paolillo, Roberto Gourgel “Juba”
Flauta - Tony Osanah
Teclados: Rubens Diniz “Rubinho”

No show, a formação é esta:

Oswaldo “Rock” Vecchione: vocal, baixo, guitarra, violão e gaita
Celso “Kim” Vecchione: guitarra, violão, baixo, teclado e back vocals
Octavio Lopez Garcia “Bangla”: sax
Rick “Monstrinho” Vecchione: bateria
Guilherme “Ziggy” Mendonça: guitarra, violão
Tiago T. Fernandes, o “Mineiro”: teclados
Ivani “Janis” Venancio: backing vocals
Participações especiais
João Bosco Ferreira - bateria (1994,95)
Roberta “Rock’N’Roll” Abreu  -  backing vocals (desde 2009)


 Alguns vídeos:




(Fonte das informações: assessoria de imprensa, site oficial, Oswaldo e algo da vida vivida)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Soam como trovões



Domingo, nuvens negras ameaçadoras no céu. A tarde prometia ser molhada, como têm sido esses últimos dias em Sampa. Mas isso não me preocupou. Fui determinado ao Parque da Independência, no Ipiranga, a assistir ao show de Dianne Reeves e Buddy Guy, promovido por uma operadora de telefonia. A cantora eu não tinha ouvido, ainda mas Buddy já é velho conhecido, inclusive estive em seu clube em Chicago, o Legend's, quando viajamos aos EUA com a turma do MBA, e tive direito a autógrafo no CD Damn Right I’ve Got The Blues, comprado lá mesmo, e foto - que simplesmente sumiu, alguém da turma do MBA clicou mas não achei quem foi (se é que tiraram a foto mesmo). Dianne me surpreendeu com seu repertório (recheado de temas brasileiros) e sua voz, de registro bem extenso. Veio com um guitarrista brasileiro, Romero Lubambo, excepcional. Ela começou com uma versão em inglês de Triste, de Jobim, e em seguida cantou diversas canções com tempero brazuca, inclusive com temas de candomblé, com um suíngue contagiante. A platéia delirou muito. Muita gente bastante nova, o que surpreende e anima (nem todos gostam apenas de micaretas, enfim). Cantava junto, aplaudia, sob o sol inclemente. Durou uma hora. Intervalo, troca de equipamento. E entra Buddy. Camisa branca de bolinhas pretas, boina branca, e a Fender Stratocaster cor creme pendurada no pescoço. Na hora e pouco que ele vai tocar, a guitarra passeia por seu corpo todo; ela a toca com a barriga, com os dentes, nas costas, com o braço direito debaixo dela, com uma mão só. E como toca! O público, se foi ao delírio com Dianne, com Buddy vai ao êxtase. Um mestre, que desce e toca no meio da multidão, que joga as palhetas ao público, que canta Feels Like Rain, única vez que toca com Dianne, meio que ironizando a chuva que cai grossa, meio que mostrando que isso (a chuva) nada importa. Ponto positivo na galera: alguns abriram os guarda-chuvas, tirando a visão de quem estava atrás. Mas, após protestos, fecharam, e todos tomaram a benfazeja chuva. Guy terminou com Hendrix e Cream. Demais. Espetacular. Quem não foi perdeu.