O Barquinho Cultural

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domingo, 10 de março de 2013

Sobre meninos e lobos


“Como se fossem arrastados pelas águas turvas do rio Mystic, três amigos se veem conduzidos de volta ao passado.” O livro de Dennis Lehane, filmado por Clint Eastwood, junta, 25 anos depois, três amigos por ocasião do assassinato da filha adolescente de um deles. É um filme incrível, o livro não li. Mas lembrei-me dele por causa do reencontro, ontem, de três amigos creio que 25 anos depois também da última vez que nos vimos. E o lobo tem tudo a ver.

Ontem, ainda, antes da reunião, um telefonema. Pessoa que há 30 anos não vejo. O passado vem me visitar. Passado por quê? O vivido é presente, porque forjou o que sou hoje. E um reencontro é, mais que um reviver, é um perceber que as pessoas que nos são caras assim o são independentemente do quanto nos afastamos. Um amigo o é sempre, basta um rever para perceber.

Saber o que andamos fazendo nesse tempo, relembrar o que vivemos, rir dos episódios engraçados que na época pareceram tão trágicos. Descobrir que o tempo não prejudicou o carinho mútuo, não apagou nem diminuiu o amor intenso. E ter a certeza de que outros encontros virão, projetos poderão ser tocados, e algo pode ser construído. O tempo é relativo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Cada dia sua agonia

Charge: Bira (http://professorjcesar.blogspot.com.br)


Hoje acordei cedo, mais do que de costume, como se ainda tivesse o compromisso. O calor, talvez... Seguindo a recomendação de mais um guru que a mídia vem incensando, deixo a janela aberta para despertar com o clarear do dia, o sol vir beijar minha face e fazer o corpo despertar de seu repouso. Gostoso foi logo ao abrir os olhos poder trocar duas ou três palavras com minha filha, maravilhas do fuso horário. E saber de mais uma morte: a de Chorão, o garotão de 42 anos da banda Charlie Brown Jr., de Santos. Ontem, morrera o presidente da Venezuela desde 1999, Hugo Chávez. Semana começando muito ruim.

Uma passada de olhos pelas redes sociais e mais notícias ruins: amigos que deixaram seus empregos, creio que da mesma maneira que eu. Ontem, ainda, mais fatos chatos a me proporcionar uma rusga na alma. Para espairecer, assisti a um DVD, “Argo”, vencedor do Oscar de melhor filme, dirigido (e protagonizado) por Ben Affleck. Um bom filme, mas não espetacular. Houve alguma polêmica pelo prêmio, como sempre acontece com o resultado das votações da academia de cinema americana. Eu votaria em outro, como “Django Livre”, de Quentin Tarantino.

Enfim. Dormi. Ouvindo rádio. A emissora a que acostumo ouvir (e que é uma das poucas noticiosas que pega em meu quarto). O grosso eram notícias sobre futebol. Coisa chata (vide post de ontem). Nada de Chávez, de Joaquim Barbosa e seus arroubos autoritários contra um jornalista, nada de nada, só futebol... Chato... Acordo 6h50, vou ouvir outra emissora, em que uma amiga querida está atuando. Bem melhor. Preparo meu café, como algo para não deixar o corpo sem alimento. Sinto-me triste. Não sei por quê. Soma, talvez, de tudo, quem sabe algo específico. Não sei precisar. Acho que, se o espírito está meio acabrunhado, os fatos são enxergados com um tanto mais de pessimismo.

Mas o dia está só começando. Muito ainda a acontecer. Melhor preparar o espírito para que tudo seja enfrentado com vigor, com tranquilidade. A vida não espera você estar bem para acontecer.

Queria dizer muito mais, mas contenho esse impulso. Não é bom falar tudo que vem à mente, sob o risco de se arrepender depois. No mais, está tudo bem. Basta um banho frio (morno, talvez). E ir aos compromissos do dia. Muitos, hoje. As respostas que espero quem sabe venham, ou não. Isso não importa.

Vou devagar, sem criar expectativas demais. Percebo muitas mudanças em mim, frutos, talvez, da maturidade. Decisões tomadas com sobriedade. Avaliações mais ponderadas da realidade. Lições da vida.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A razão da idade

Não me incomodo quando me chamam de velho. Primeiro, porque quem o faz em tom pejorativo revela preconceito, e para a opinião de pessoas preconceituosas não dou o menor valor. Segundo porque pessoas com mais idade têm, sim, lugar no mundo, são os guardiões de nossa história e podem ser a lanterna na popa e na proa (lembrando livro do economista Roberto Campos) para os que têm a curiosidade necessária de ouvi-los para entender um pouco as coisas. Terceiro porque o passar dos anos nos dá de presente o ensinamento, a experiência, coisas que ninguém pode tirar de nós e que podemos passar de graça a quem se interessar; portanto, antes de tentar ofender alguém chamando de velho, é melhor refletir um pouco sobre o significado da vida e como a idade é algo relativo.

Conheci esta semana uma pessoa de quase 100 anos, senhor Pedro, de uma lucidez incrível. Um homem gentil, educado, interessado, a quem ouvir é um prazer inigualável. Muitas vezes a gente bate a cabeça por aí, errando, hesitando, perdido sobre o que fazer, e esquece que o que podemos estar vivendo neste momento tem um peso que podemos estar exagerando em sua dimensão. Ouça alguém mais experiente, vai ver que isso já foi vivido por essa pessoa e que pode ter muito menos importância do que parece.

Convivi com pessoas que sofriam demasiadamente por causa dos problemas que vêm lhe atormentar, e chegaram ao cúmulo de achar que não têm mais lugar neste mundo, tamanha a carga de agruras por que acham que passam. Ora, problemas sempre os teremos, a diferença está em sabermos encará-los com tranqüilidade e coragem, não os deixar crescer demais, porque aí sim eles nos engolem.

A juventude é uma delícia, claro, o vigor, a capacidade quase ilimitada de realizar as coisas, o descobrir. Mas cada fase da vida tem seu encanto, e quem tem filho sabe bem disso. Penso que não é legal a gente se vangloriar por ser jovem, bem disposto e com muito mais competência para certas atividades que os mais idosos. Quando eu era adolescente, sofria muito pela dificuldade de compreender muitas coisas, e clamava pela experiência que agora tenho. Mas nem por isso deixei de viver cada ano de minha vida com a plenitude que pude...  e nunca maltratei ou humilhei ninguém de qualquer idade.

Novo ciclo – Estou percebendo que uma etapa nova se inicia em minha vida. Meio que por acaso, as coisas foram acontecendo e, ao me dar conta, vi que a vida nos reserva sempre surpresas – boas e ruins. Nada foi planejado, as decisões foram ao sabor das oportunidades, dos desejos que surgiam. O importante é que tive a destreza de perceber a mudança e a coragem de abraçar o novo sem medo de ousar. Eis aí mais uma importância da experiência: antes o novo me assustava e me deixava hesitante, pé no chão por demasia que sou. Agora, vamos encarar, e seja o que Deus quiser.

Deixo para trás dissabores que quase me fizeram perder a razão, e o faço sem ressentimento, pois isso só entorpece os sentidos e diminui nosso valor. A tendência, após ter vivido experiências tenebrosas, é ficar batendo a cabeça se perguntando como pude ser tão burro, ingênuo. Ora, ninguém está imune a se enganar, nem toda experiência do mundo nos livra de cair em armadilhas da vida, afinal, a gente tem boa fé e isso por vezes impede que sejamos desconfiados o suficiente para evitar que o mal nos atinja.

Como disse recentemente a uma pessoa, o fato de ter sido ludibriado em várias ocasiões não significa que todos são ruins e que vou me ferrar novamente. Se fosse assim, não poderia mais sair de casa, conhecer pessoas, experimentar novas sensações. Ainda tenho fé nas pessoas de bem, que há em abundância por aí. E continuo acreditando que  viver vale a pena e o importante é seguir em frente.