O Barquinho Cultural

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Demetrius

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Demétrius, nome artístico de Demétrio Zahra Netto (1942–2019), nasceu no Rio de Janeiro, mas sua família se mudou para São Paulo quando ele tinha seis meses.

Iniciou a carreira no fim da década de 1950 quando gravou, pelo selo Young, rocks de sua autoria, como "Hold me so tight".

Transferiu-se para a Continental em 1961, fazendo sucesso com sua versão de "Corrine Corrina", um blues gravado em 1928 por Bo Chatman e Charles McCoy, mas que ficou mais conhecido em 1960 na voz de Ray Peterson (1939-2005).

Estourou em 1964 com "O ritmo da chuva", versão de "Rhythm of the Rain" (John Gummoe), lançado em 1962 pelo grupo vocal norte-americano The Cascades.

Em 1965, assinou com a RCA Victor e gravou a versão de sua autoria para a música de Estelle Levitt "Somehow it got to be tomorrow today", com o nome de "Ternura".

Essa versão virou eterno sucesso após 1966 na voz de Wanderlea (1946-), que recebeu então o apelido de "Ternurinha".

Em 1967, ganhou de Roberto Carlos (1941-) a composição "Eu não presto, mas eu te amo". Em 1970, foi a vez de O Rei gravar uma composição de Demétrius, "Preciso lhe encontrar".

Demétrius deixou de atuar em meados da década de 1970, voltando a se apresentar 20 anos depois em revivals de sua carreira e da Jovem Guarda.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Ronnie Cord

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.


Em 1960, o cantor norte-americano Brian Hyland (1943-) cantou pela primeira vez a canção “Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka Dot Bikini”, escrita pelos conterrâneos Paul Vance (1929-2022) e Lee Pockriss (1924-2011), pelo selo Leader da gravadora Kapp.

Um mês depois do lançamento, a canção já era a primeira na lista do Top 100 da Billboard.

A música chegou ao Brasil um ano depois, em 1961, na versão original, em inglês, com o cantor Ronnie Cord (1943-1986), que gravava no início da carreira músicas em inglês.

Ronnie lançou a versão em português, escrita por seu pai, o maestro Hervé Cordovil (1914-1979), em 1964, com o nome de "Biquíni de Bolinha Amarelinho", aproveitando a onda da Jovem Guarda.

No Brasil, vários artistas gravaram a canção, mas as mais famosas interpretações foram de Celly Campello (1942-2003) e da banda Blitz.

O mineiro Ronnie Cord (Ronald Cordovil) começou a gravar em 1960, contratado pela Copacabana. Seu maior sucesso, além de "Biquíni", foi "Rua Augusta", em 1964, com letra também de Hervé.

Em 1965, formaria com os irmãos Norman e Hervé Jr. os conjuntos The Cords e Os Cords, lançando alguns compactos pela RCA Victor.

Participou também como contratado do programa Jovem Guarda, exibido pela Record.

Interrompeu sua carreira no início dos anos 1970, apresentando-se apenas em ocasiões comemorativas com outros pioneiros do rock brasileiro.

Morreu prematuramente aos 42 anos. (Fontes: Guia dos Curiosos e Dicionário Cravo Albin da MPB)


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Núbia Lafayette

Pouco lembrada hoje em dia, a potiguar Idenilde Araújo Alves da Costa (1937-2007) veio para o Rio de Janeiro aos 3 anos de idade.

A vocação para cantar manifestou-se cedo e, no final da década de 1950, participou do programa de calouros "A voz de ouro ABC", da TV Tupi, interpretando canções da época.

Sua performance chamou a atenção do jurado Jordão Magalhães, dono na boate Cave, em São Paulo, onde estreou cantando músicas de Dalva de Oliveira (1917-1972), com o nome artístico de Nilde Araújo.

O compositor Joel de Almeida (1913-1993), então diretor artístico da gravadora Polydor, a levou para gravar seu primeiro 78 rpm, com as músicas "Vai de Vez" (Paulo Tito e Ricardo Galeno) e "Sou Eu" (Waldir e Rubens Machado), lançado em 1959.

Mas o impulso vem por intermédio do compositor Adelino Moreira (1918-2002) - autor de "A Volta do Boêmio", sucesso na voz de Nelson Gonçalves (1919-1998). Adelino levou-a à gravadora RCA Camden, onde, em 1960, lançou seu primeiro disco com o nome artístico de Núbia Lafayette, sugerido por Adelino, com duas composições dele, o samba-canção "Devolvi" e o samba-choro "Nosso amargor".

Em 1961, gravou mais quatro composições de Adelino, os sambas-canção "Solidão", "Preciso chorar" e "Prece à lua" e o samba "Não jures mais".

Foi quando alcanço sucesso nacional, que perdurou até o advento da Jovem Guarda, quando os boleros e sambas-canções ficaram para trás no gosto popular.

Continuou gravando e se apresentando esporadicamente e experimentou novo reconhecimento em 1972, quando gravou o LP "Casa e Comida", pela CBS, com composições de Rossini Pinto (1937-1985).

Neste disco também canta a música "Jamais estive tão segura de mim mesma", de Raulzito, nome artístico usado no começo da carreira por Raul Seixas (1945-1989), então produtor da gravadora.

Manteve-se em atividade até sofrer um AVC, que a levou em 18 de junho de 2007.



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Dion

                                         ₢ Site do Artista

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Segundo LP lançado por Dion DiMucci após ter sido "convidado a sair" do grupo ítalo-americano de rock and roll Dion and The Belmonts, “Runaround Sue” saiu em setembro de 1961 pela gravadora Laurie e chegou ao primeiro lugar nas paradas americanas e o transformou em uma estrela de primeira grandeza.

Era a época em que Elvis Presley foi servir no Exército e ainda não havia começado a invasão britânica no rock. Aí o cara brilhou mesmo.

Ainda está na ativa, aos 85 anos, e gravou em 2020 "Blues With Friends", um disco com feras como Jeff Beck, Van Morrison, Paul Simon e Bruce Springsteen, com texto de Bob Dylan no encarte.

No vídeo, "The Wanderer", de Ernest Maresca, aqui conhecida pela versão feita por Hamilton Di Giorgio e gravada por Roberto Carlos em seu LP "Jovem Guarda", de 1965, sob o título "Lobo Mau" .


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Morte de Vanusa resgata e sepulta o 'eu' menino


Não imaginava que a notícia da morte da cantora e compositora Vanusa fosse me impactar tanto. Uma insuficiência respiratória a levou no dia 8 de novembro de 2020, aos 73 anos, em seu leito em um lar para idosos na cidade de Santos, litoral de São Paulo.

Não vou dizer que acompanhava sua carreira nos últimos anos. Havia muito tempo que não ouvia nada dela, nem me dei conta de que Zeca Baleiro havia produzido seu último CD, que leva seu nome de batismo, "Vanusa Santos Flores", de 2015. Mas quando menino eu era apaixonado pela loira.

Sua imagem me remete à casa de São Caetano do Sul, onde vivi até cerca de 9 anos de idade. À prima loira de lábios carnudos que me encantava, à professora do primeiro ano de primário que se parecia um pouco com ela. Às canções que ouvia no rádio enquanto a mãe passava roupas na edícula em frente ao jardim onde eu enterrava seus talheres e ferramentas do pai.

A mesma São Caetano do Sul onde, na data de aniversário da cidade, 28 de julho, meu pai nos levava ao estádio municipal, então chamado Lauro Gomes de Almeida, hoje Anacleto Campanella, para os shows promovidos pela prefeitura para marcar a efeméride.

Não me lembro se Vanusa chegou a cantar em um desses shows de aniversário da cidade, provavelmente sim. Ia toda a galera da Jovem Guarda - menos Roberto... ele nunca foi. Tinha shows dos Aqualoucos, o calhambeque que se desmanchava enquanto andava, o globo da morte com as motos, os campeonatos esportivos e... os shows!

Era minha hora favorita: ouvir aqueles cantores que eu via no Show do Dia Sete, na TV Record, ou no quadro Os Galãs Cantam e Dançam, do programa do Silvio Santos. Chacrinha acho que ainda não me chamava a atenção.

Mas a Vanusa me causava uma coisa diferente. Gostava de Wanderlea, Rosemary, Waldirene, Martinha, depois Rita Lee, mas a Vanusa era diferente. Não sei explicar. Nos meus sete, oito anos sua voz, sua imagem, seu jeito, seu olhar me elevavam a universos oníricos então inexplorados por tão jovem pessoa.

E também seu repertório diferia das músicas dos demais artistas populares de então. Ela cantou Belchior antes de Elis, gravou Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc, Luiz Melodia, Carlinhos Vergueiro, Caetano Veloso, Raul Seixas, Zé Rodrix, até Hermeto Paschoal, vinhetava Beatles... E com uma dignidade e leveza...

Poucos anos depois, com acesso a revistas de fofocas como InTerValo, Sétimo Céu, Melodias, que minha mãe, tias e primas liam, ficava chateado com as histórias tristes que contavam sobre suas crises no casamento com Antônio Marcos, este um cara que sempre me incomodava por seu ar ao mesmo tempo rebelde e depressivo.

Depois nos mudamos de São Caetano e nunca mais fomos aos shows de aniversário e Vanusa começou a ser substituída por outras artistas, conforme ia ampliando meu universo para além dos programa televisivos, por causa da loja de discos que meu pai comprou.

Quando ela reapareceu no vexaminoso episódio do Hino Nacional, em 2009, soube que andava doente, e fiquei chocado. Não ri da tropeçada. Para falar a verdade, nem procurei ouvir o episódio.

Mas hoje, após sua partida me resgatar aquele menino, ouvi tudo que pude de seus tempos gloriosos. E esse último disco está divino. A voz já denunciando o passar do tempo, mas ainda firme e linda. O repertório impecável: Angela Ro Ro, Nô Stopa, Zé Ramalho, Vander Lee, entre outros, e a produção de Zeca tão delicada...

Da mesma forma que essa sua passagem trouxe de volta à memória o garotinho de calças curtas de São Caetano, seus sonhos e devaneios, também o sepultou. Não há mais essas ilusões, aquela ingenuidade, aquele resplendor que a descoberta do mundo favorecia...

Agora, mais de 50 anos depois, o menino de outrora habita o asilo desse corpo idoso que mantém em uma caixa dourada da memória as lembranças de uma vida que desabrochava e não sabia o quanto isso ia doer um dia...


"Vou tentar salvar esse pouco que ainda resta

Da minha juventude"

(Mistérios, Zé Geraldo e Mario Marcos)


quarta-feira, 28 de março de 2012

A lenda ganha história


“Lenda não tem história.” É o que diz Paulo Coelho em determinado momento do filme “O início, o fim e o meio”, documentário de Walter Carvalho e Eduardo Mocarzel sobre o mito Raul Seixas, a que assisti nesta segunda-feira, 26/03/12, em uma sessão das 16h20 quase vazia no Espaço Unibanco (Itaú?) do Shopping Bourbon.

Sim, apesar da resistência do místico escritor e parceiro do Maluco Beleza em dar seu depoimento ao filme, sua presença é bem constante na fita, dando até leve impressão de que o homenageado lá parece ser ele, e não o retratado. Tudo bem. O filme é ótimo, bem pesquisado, com cenas inéditas e recheado de canções sempre boas de ouvir.

Começa com imagens de “Easy Rider” (aqui, “Sem Destino”), o grande filme dirigido por Dennis Hopper, lançado em 1969, que aborda o movimento hippie, a contracultura e a liberdade. E introduz Raul como o cara que fez a fusão do rock com a música popular brasileira, misturando guitarras e triângulo e atabaques, atacando até de bossa-nova em alguns momentos.

Sim. Raulzito inovou o rock brazuca, até então ingênuo e careta na Jovem Guarda e depois desafiador com os tropicalistas e os Mutantes. Ele queria dizer algo libertário, em uma época em que a ditadura procurava calar vozes dissonantes e a censura extirpava letras de Chico Buarque e afins.

Vários depoimentos importantes traçam um perfil bem honesto do baiano, desde a mãe,  irmão, amigos de infância, primeiros parceiros, as mulheres, filhas, produtores, jornalistas, outros artistas, enfim, um painel aparentemente completo da vida do cara. Sua paixão por cinema, que o levou a conhecer outro mito, Elvis Presley, que o fez dedicar-se ao rock o resto de sua vida.

Faltou o depoimento de Jerry Adriani, que aparece apenas em uma foto esmaecida, ele que levou Raul ao Rio e o introduziu em uma gravadora, onde trabalhou como produtor, compôs para vários artistas do cast (inclusive para Adriani) e acabou lançando seus próprios discos. Injustiça. Talvez tenha se recusado, não sei.

É um filme importante por documentar um artista da estatura de Raul, porém um tanto comovente demais para meu gosto, feito para chorar, coisa que destoa do espírito do nosso roqueiro maior. Preferia um documentário mais doidão, que acompanhasse em estética fílmica o pensamento e atitudes do músico. Mas não deixa a desejar, o retrato é bem detalhado.

Em 1973, a loja de discos de meu pai recebe o Krig-ha, bandolo!, primeiro trabalho solo de Raul, com os clássicos “Ouro de tolo”, “Mosca na sopa”, “Metamorfose ambulante”, “Al Capone” – esta em parceria com Coelho. Um disco memorável,  que eu ouvia à exaustão e me fez abandonar de vez as breguices que escutava até então (exceção aos Beatles, que curtia desde pequenino).

Foi uma época muito legal o início da década de 1970. Acho que a encheção de saco que o AI-5 trouxe fez o pessoal das artes ficar mais criativo, e desse período surgem artistas que fizeram acontecer durante muitos anos e outros que caíram no ostracismo rapidamente. Normal. Eu, aos 12, 13 anos, assistia a aquilo tudo com enorme curiosidade e refinava meu gosto, além de me motivar a ser cantor também, objetivo, contudo, que nunca persegui.

O filme faz a lenda virar história, e isso é importante em um tempo em que muitos, absurdamente, não sabem de sua existência. Sim, ouvi de uma menina de seus 20 e poucos anos que estuda fotografia comigo não o conhecer! Isso apesar de o bordão “toca Raul” já ter se tornado um clássico nos botecos. Talvez seja melhor ele permanecer mesmo como mito.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Jovens tardes de domingo

Estou lendo "Minha fama de mau", autobiografia de Erasmo Carlos, e descobrindo que o sujeito é engraçado, tem bom humor e um grande talento para rir de si próprio. O livro é uma delícia, se bem que às vezes ele incensa demais o seu amigo Roberto Carlos. Mas está recheado de boas histórias da Jovem Guarda e primórdios. Bem, estou na metade do livro e ainda nem chegou propriamente nas jovens tardes de domingo - está começando agora, na minha leitura. Eu gostava muito da Jovem Guarda, costumava assistir aos caras na TV (não exatamente o programa do Roberto, pois eu era muito pequeno, mas os que vieram depois), lia as Revistas do Rádio, Melodias, Fatos e Fotos e outras que apareciam - isso bem lá na frente já, alfabetizado, e ouvia no rádio e na TV as músicas. Como já postei aqui, quando fui ao show do Roberto pela primeira vez em minha vida, costumava ver os galãs e as galãs nos shows de aniversário de minha cidade, São Caetano do Sul. Não chegava a ser um fanático, desses que se vestem igual ao ídolo e tem tudo deles, mas o ritmo me agradava muito (talvez venha daí minha preferência, anos depois, pelo bom rock and roll, a partir de Beatles). O livro está sendo importante para resgatar essa etapa ingênua (nem tanto, apreende-se da leitura) de nossa história musical. A escrita (texto final de Leonardo Lichote) é ligeira, gostosa de ler, com orações bem concatenadas e histórias saborosas. Mas até aqui (pg. 152 de 343) dá a impressão de que o Erasmo está um tanto superficial, talvez ocultando passagens não muito nobres de sua trajetória, optando por lances engraçados ou comoventes, e valorizando demais as parcerias com o Rei. Eu esperava ler episódios obscuros que certamente a carreira de um artista tem, os trambiques, maracutaias, as puxadas de tapete... Têm algumas coisas assim, mas muito por cima. Erasmo parece que se preocupa mais em relatar suas aventuras sexuais (ou desventuras) do que em detalhar sua trajetória. Numa página ele é o moleque aprontando nas ruas de Tijuca, zona norte do Rio; noutra. já toca violão e canta no The Snacks; vem outra e já compôs a versão para Splish, Splash. Pode ser que mais à frente ele amarre essas pontas soltas, mas até o momento dá uma certa agonia, uma sensação de amadorismo, que imagino ele cometeria se tivesse escrito a obra sozinho. Vamos dar um desconto. Ao final do livro dou uma impressão final (sem trocadilho).