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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Minha vinilteca (3): O Banquete dos Mendigos

 

MINHA VINILTECA


Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.

Em homenagem a Jards Macalé

Como o disco chegou a mim

O álbum duplo  "O Banquete dos Mendigos" apareceu no apartamento onde eu morava com minha então companheira Joana em São Bernardo do Campo (SP), creio que por volta de 1991. Não sei quem o esqueceu lá, já estava na estante antes de me casar com ela. Quer dizer, imagino quem o deixou lá, mas não digo, sob risco de a pessoa querer de volta (risos).

À época não tinha muitas informações sobre o disco, além daquelas disponíveis na capa, contracapa e encarte. O repertório e os intérpretes, de primeira grandeza, me chamaram a atenção de imediato, assim como a ilustração da capa, uma reprodução da "Última Ceia" de  Leonardo da Vinci (1452-1519). E também a tarja ao alto do canto esquerdo: "LIBERADO".

Eu me lembro de sentir uma certa angústia ao ouvi-lo inteiro na primeira vez. É um disco gravado ao vivo, com meus artistas preferidos de sempre, com plateia aplaudindo, gritando, mas não me pareceu clima de festa: era como uma impossibilidade de se irradiar alegria, dado o período de trevas em que foi gravado. E a voz forte do poeta e futuro imortal da ABL Ivan Junqueira lendo artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos acrescentava tensão ao clima.

O contexto de produção


Contava Jards Macalé (1943-2025) que, em 1973, ele estava duro e puto. Comendo da farinha do desprezo. Após dirigir em Londres o álbum "Transa", de Caetano Veloso,  no ano anterior, e não receber os devidos créditos, e de seu LP homônimo de 1972 ser um fracasso de vendas, resolveu promover um espetáculo beneficente - em benefício próprio, bem entendido -, seguindo uma onda da época de se realizar shows para ajudar os artistas que enfrentavam a barra pesada da ditadura.

A ideia foi bem recebida e obteve adesões de nomes de peso como Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Edu Lobo, Gal Costa e de debutantes como Raul Seixas e Luiz Melodia. Agora faltava encontrar um local para as apresentações. Foi quando o então diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), Cosme Alves Neto, lhe contou que estava sendo organizada uma mostra em homenagem aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e sugeriu que o espetáculo fizesse parte do evento. Jards topou na hora: farinha do desejo!

Assim, em 10 de dezembro (mesma data em que, em 1948, foi assinada a Declaração) de 1973, os músicos e intérpretes reuniram-se no MAM para um espetáculo cuja parte da divulgação ficou a cargo de meninos de favelas do Morro do Pinto e da Comunidade São Lourenço, que distribuíram pela cidade panfletos convidando para o evento. Mas, claro, se falar de direitos humanos em plena ditadura, governo Médici, não passaria batido.

Diz-se que a plateia, de cerca de 4 mil pessoas, estava coalhada de agentes da polícia à paisana (como se possível fosse algum disfarce) e os censores estavam na primeira fila do auditório. Soldados do Exército cercavam o prédio do museu. Não houve, contudo, repressão física, mas, como Chico Buarque fez questão de frisar, nem tudo era permitido. Em sua apresentação, Chico falou que seu repertório estava desfalcado e algumas canções foram proibidas de se executar, como "Vai Trabalhar, Vagabundo" (tema de filme homônimo de Hugo Carvana). No lugar dela, ele cantou trechos de "Jorge Maravilha", de Julinho de Adelaide, pseudônimo que usou à época para driblar a censura.

Detalhes técnicos


O show foi gravado de maneira sorrateira, driblando os olhares dos agentes da repressão, que chegaram a confiscar fitas de gravação, mas que, espertamente, foram enviadas a local seguro antes e os meganhas acabaram levando foram fitas virgens. Foi o primeiro desafio coletivo de artistas brasileiros à ditadura depois do Ato Institucional n° 5 (AI-5), no final do governo do general Médici (fonte: Memorial da Democracia).

A direção geral do espetáculo foi de Jards Macalé, com Ana Maria Miranda como assistente; coordenação geral de Xico Chaves e Lula, com assistência de Flor Maria e Beto; Mauricio Hughes e Ray como técnicos de som e Etiny de contrarregra.

A gravadora RCA produziu e lançou o LP em 1974, mas a censura o proibiu e recolheu os exemplares das lojas. O álbum só seria liberado em 1979, com capa diferente (o original era uma foto da plateia, e não a reprodução da obra de Da Vinci). O encarte de 12 páginas traz as fotos e textos da primeira versão recolhida.

O disco teve coordenação artística e direção de estúdio de Jards Macalé; mixagem de Paulo Frazão e Luis Carlos; fotos de Alexandre Koester, Cleber Cruz e Ivan Klingen e direção de arte por Ney Tavora. O texto do encarte menciona e agradece o espanhol Antonio Muiño Loureda, diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), um dos idealizadores da mostra; Ivan Junqueira, assessor de Imprensa do Centro de Informações das Nações Unidas no Brasil, que fez a leitura de artigos da Declaração; Heloisa Lustosa, diretora do MAM-RJ; o já citado Cosme Alves Neto; e Newton Anet, advogado e assessor jurídico.

O texto do encarte afirma que os artistas, gravadora e equipe abriram mão de seus direitos artísticos e fonográficos  "em função de outros Direitos que se tornaram urgentes: o Direito à Vida, à Sobrevivência". Diz ainda que metade dos ganhos com as vendas seria destinada ao Centro das Nações Unidas no Brasil para ser entregue ao Special Sahelian Office, escritório especial da Divisão dos Direitos Humanos, em benefício de populações da África Central assoladas pela seca, como o oeste da Mauritânia e leste da Etiópia.

O disco é dedicado ao poeta piauiense Torquato Neto, morto um ano antes.

Os músicos e as faixas dos LPs


Não há informações disponíveis sobre os músicos que acompanharam os intérpretes das faixas do álbum, supondo-se que alguns se acompanharam ao violão ou piano. Mas alguns chegam a mencionar seus acompanhantes. Edu Lobo e Milton Nascimento mencionam Danilo Caymmi na flauta; Bituca também apresenta Paulo, Claudio, Maurício e Toninho Horta (guitarra). O MPB4 sola e acompanha Chico, mas sem Magro.

O Grupo Soma, que toca neste LP uma faixa chamada PF (prato feito? Polícia federal?) era formado pelo baixista norte-americano Bruce Henry, Tomás Improta (teclados), Áureo de Souza (bateria) e o inglês Ritchie "Menina Veneno" (flauta). No show, o grupo tocou outras duas músicas: "Albuquerque Woman" e " Um Dia".



O LP duplo de 1979 contém 23 faixas, intercaladas pela leitura de 17 dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em junho de 2015, o selo Discobertas lançou uma caixa com 3 CDs (foto à esq.) contendo o show na íntegra - disponível no Spotfy (abaixo) -, com 43 faixas e a leitura integral do texto da Declaração, mas em faixa única ao final das apresentações.

A versão de 1974/1979 nunca foi editada em CD.



Disco 1

Lado A

1) Introdução
Art. 1º
2) "No Pagode do Vavá" (Paulinho da Viola) - Com Paulinho da Viola (voz e violão)
"Roendo As Unhas" ( Paulinho da Viola ) - Com Paulinho da Viola (voz e violão)
3) "Percussão" (Pedro dos Santos) - Com Pedro dos Santos
Art. 2 e 3
4) Art. 5
5) "Samba dos Animais" (Jorge Mautner) - Com Jorge Mautner (voz) e Nelson Jacobina (violão)
6) Art. 6 e 8
7) "Pra Dizer Adeus" (Edu Lobo/Torquato Neto) - Com Edu Lobo (voz e violão) e Danilo Caymmi (flauta)
Art. 9
"Viola Fora de Moda" (Edu Lobo/Capinam) - Com Edu Lobo (voz e violão) e Danilo Caymmi (flauta)

Lado B

1) "Palavras" (Luiz Gonzaga Jr.) - Com Luiz Gonzaga Jr. (voz e violão)
Art. 11 e 12
2) "Eu E A Brisa" (Johnny Alf) - Com Johnny Alf (voz e piano)
Art. 13 e 14
"Ilusão À Toa" (Johnny Alf) - Com Johnny Alf (voz e piano)
3) "Cachorro Urubu" (Raul Seixas/Paulo Coelho) - Com Raul Seixas
Art. 18
4) "P. F." (Bruce/Shields) - Com Grupo Soma
Art. 19
5) "Nanã das Águas" (João Donato/Geraldo Carneiro) - Com Edison Machado e Grupo
Art. 20 e 21

Disco 2

Lado A

1) "Pesadelo" (Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro) - Com MPB4
"Quando O Carnaval Chegar" (Chico Buarque) - Com Chico Buarque e MPB4
"Bom Conselho" (Chico Buarque) - Com Chico Buarque e MPB4
"Jorge Maravilha" (Julinho da Adelaide) -  Com Chico Buarque e MPB4
2) "Abundantemente Morte" (Luiz Melodia) - Com Luiz Melodia
Art. 23 (a)
3) "Cais" (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos) - Com Milton Nascimento (voz e violão)
Art. 23 (b)
"A Felicidade" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) - Com Milton Nascimento (voz e violão)

Lado B

1) "Anjo Exterminado" (Jards Macalé/Waly Salomão) - Com Jards Macalé (voz e violão)
"Rua Real Grandeza" (Jards Macalé/Waly Salomão) - Com Jards Macalé (voz e violão)
Art. 23 (c)
2) "Asa Branca" (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) - Com Dominguinhos (voz e acordeon)
"Lamento Sertanejo" (Dominguinhos/Gilberto Gil) - Com Dominguinhos (voz e violão)
3) Art. 30
4) "Oração de Mãe Menininha" (Dorival Caymmi) - Com Gal Costa


Ouça a íntegra no Spotfy


sexta-feira, 23 de maio de 2025

Morre Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos do mundo

O fotógrafo Sebastião Salgado morreu nesta sexta-feira, 23/05/25, aos 81 anos, vítima de complicações de uma malária.

Sebastião Ribeiro Salgado Júnior nasceu em Vila de Conceição do Capim, distrito do município de Aimoré (MG), no Vale do Rio Doce, em 8 de fevereiro de 1944. Mas vivia em Paris desde o fim da década de 1960.

Em 1969, a partir do endurecimento do regime militar, ele e a esposa, Lélia Wanick Salgado, decidiram deixar o Brasil e se exilar na França.

Antes de ser fotógrafo, ele obteve o mestrado em Economia pela Universidade de São Paulo, em 1968, e se tornou doutor pela Université de Paris, em 1971.

Sebastião Salgado trabalhou como secretário da Organização Internacional do Café, em Londres, entre 1971 e 1973, antes de retornar a Paris e passar a fotografar profissionalmente para a agência Sygma, em 1974.

Transferiu-se no ano seguinte para a agência Gamma, iniciando a documentação sobre as condições de vida dos camponeses e índios latino-americanos. Esse trabalho o tornaria mundialmente conhecido.

Em 1979, deixou a Gamma pela agência Magnum, que chegou a presidir e onde permaneceu até 1994. No mesmo ano, criou a Amazonas Imagens com sua esposa.

Era especializado na cobertura dos deslocamentos humanos, da degradação tanto dos seres humanos como dos ambientes, de olhar único e estilo inconfundível, com suas imagens em preto e branco captadas em sua indefectível Laika analógica (só recentemente aderiu ao digital, por praticidade).

Em 30 de março de 1981, enviado da Magnum, trabalhava em uma reportagem do "New York Times" sobre os 100 dias de governo do presidente americano Ronald Reagan. Ele se preparava para fotografar Reagan saindo de um hotel em Washington quando ouviu tiros: o presidente fora baleado e Salgado registrou tudo com suas objetivas.

O fotógrafo documentou o caos que se seguiu ao ataque, desferido por John Warnock Hinckley Jr., um rapaz de 25 anos que disse ter atirado no presidente para chamar atenção da atriz Jodie Foster. 


Em abril de 1997, ele lança o livro "Terra", com 137 fotografias retratando gentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

O livro trazia ainda um CD com 4 músicas de Chico Buarque ('Assentamento', 'Brejo da Cruz', 'Levantados do Chão' - com Milton Nascimento -, e 'Fantasia'). O prefácio do livro é do escritor português José Saramago (1922-2010).


Os três estiveram no lançamento da obra na sede do MST em São Paulo e eu estava lá.

Vi algumas exposições de Salgado e não há como negar: suas fotografias falam por si e, mais do que a beleza técnica que expõem, perturbam nossa zona de conforto ao revelar as entranhas deste mundo em que vivemos.

Veja os vídeos de "Assentamento", "Levantados do Chão", "Brejo da Cruz" e "Fantasia":





(Com informações de Agência Brasil, O Globo e ptnotícias)

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Miltinho

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Em 1961, Milton Santos de Almeida (1928-2014), o Miltinho, saiu da RCA Victor, onde lançara o LP "Miltinho", e se transferiu para a RGE, lançando o 78 rpm com o samba "A canção que virou você" e o samba-canção "Poema do adeus", ambas de Luiz Antônio.

A carreira solo de Miltinho havia começado um ano antes, ele que, na década de 1940, participou como ritmista e vocalista de quatro importantes grupos musicais: Cancioneiros do Luar, Namorados da Lua, Anjos do Inferno (que chegou a viajar aos EUA acompanhando Carmen Miranda) e Quatro Ases e Um Coringa.

De 1950 a 1957, foi crooner da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo (1917-2012), e do grupo Milionários do Ritmo, de Djalma Ferreira (1913-2004), com quem chegou a gravar como crooner.

"Poema do Adeus" entrou na trilha do filme "O Vendedor de Linguiça" produzido e estrelado por Amacio Mazzaropi (1912-1981) e dirigido por Glauco Mirko Laurelli (1930-2013).

Gravou, ainda nos anos 1960 e 1970, com Elza Soares (1930-2022) e Dóris Monteiro (1934-).

Sai de cena e retorna, em 1997, com o LP "Miltinho Convida", pela Columbia, com participações de Luiz Melodia (1951-2017), Nana Caymmi (1941-), João Nogueira (1941-2000), João Bosco (1946-), Elza Soares, Martinho da Vila (1938-), MPB-4 (1964-) e Chico Buarque (1944-), entre outros.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Doris Monteiro

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Adelina Doris Monteiro (1934-2023) começou a cantar no rádio aos 15 anos e, no começo dos anos 1950, foi crooner da orquestra da Rádio Guanabara.

Logo depois, aos 16 anos, foi contratada na rádio Tupi, depois de uma temporada como crooner no Copacabana Palace.

Gravou seu primeiro 78 rpm em 1951, pela gravadora Todamérica. O primeiro LP vem em 1954, pela Continental, após estrear no cinema, em "Agulha no Palheiro", de Alex Viany. Teve um programa na TV Tupi, "Encontro com Doris Monteiro".

Por influência de Billy Blanco (1924-2011), passou a cantar músicas mais animadas que os sambas-canção e boleros de seu repertório. Foi eleita Rainha do Rádio em 1956.

Nos anos 1960, abandona o antigo estilo e canta músicas mais modernas. Em 1961, na Philips, lança o LP "Doris Monteiro", com o qual emplaca mais dois grandes sucessos: "Palhaçada" e "Fiz o Bobão", ambas de Luís Reis e Haroldo Barbosa.

Em 1962, grava "Gostoso é Sambar", trazendo os compositores da bossa-nova Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, com "Nós e o Mar"; e Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, que assinam "Você e Eu".

Em 1966, já na Odeon, é uma das primeiras cantoras de prestígio a gravar o iniciante Chico Buarque, de quem grava "Meu refrão".

Nos anos 70, grava de Sílvio Cesar e João Roberto Kelly a Jorge Ben Jor e Carlos Imperial, além de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

O último LP dela de que se tem registro foi lançado em 1981. A cantora, no entanto, continuou se apresentando em shows, tendo feito temporada com Johnny Alf no Japão, em 1990.

Participou, em 2019, do espetáculo "As Divas do Sambalanço", junto com as cantoras Claudette Soares e Eliana Pittman. Em 2020 o show “Divas do Sambalanço” foi lançado como álbum ao vivo, também em CD, pelo selo Discobertas. Em novembro de 2022 “Divas do Sambalanço” foi lançado também em vinil.



domingo, 9 de fevereiro de 2025

Elizeth Cardoso


Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.


"A Divina" Elizeth Cardoso (1920-1990) já era uma artista consagrada em 1961. Descoberta por um adolescente Jacob do Bandolim (1918-1969) ao ouvi-la cantar na festa de seus 16 anos, levou-a para um teste na Rádio Guanabara.

Apresentou-se em 18 de agosto de 1936 no Programa Suburbano, ao lado de Vicente Celestino, Aracy de Almeida, Moreira da Silva, Noel Rosa e Marília Batista.

Na semana seguinte foi contratada para um programa semanal da mesma rádio.

Prosseguiu se apresentando em rádios, circos, clubes e cinemas, mas complementando a baixa renda trabalhando até como taxista.

Até que, em 1950, apadrinhada por Ataulfo Alves (1909-1969), gravou seu primeiro 78 rpm, pela gravadora Star, com "Braços Vazios (Acir Alves e Edgard G. Alves) e "Mensageiro da Saudade" (Ataulfo Alves e José Batista).

O disco não aconteceu, e até chegou a ser recolhido por defeito técnico.

O sucesso veio na segunda gravação, realizada na Todamérica em 1950, com a música "Canção de Amor" (Chocolate e Elano de Paula) e o samba "Complexo" (Wilson Batista). Esse trabalho lhe abriu várias portas de gravadoras, rádios, TV, inclusive no cinema.

Em 1958, gravou pela Copacabana o LP "Canção do Amor Demais", disco considerado inaugural da bossa nova, pois era todo dedicado a músicas de Tom Jobim (1927-1994) e Vinícius de Moraes (1913-1980), além do acompanhamento ao violão de João Gilberto (1931-2019) em "Chega de Saudade" e "Outra Vez".

Um dos 78 rpm lançados em junho de 1961 traz "Balão apagado" (Noel Rosa/Marília Batista) e, no lado B, "Notícia de Jornal" (Haroldo Barbosa-Luiz Reis), esta resgatada por Chico Buarque em seu LP de 1975 ao vivo com Maria Bethânia.



sábado, 21 de setembro de 2019

Ponha um arco-íris na sua moringa

O título é de uma velha canção do pernambucano Paulo Diniz, anos 70. Cara anda meio sumido -  meio, não, totalmente. Música alto-astral, solar, litorânea. Há quem veja aí algo alienante, dada a época barra-pesada em que surgiu...

Deviam ser assim mesmo aqueles tempos. A turma da MPB puta com os cabeludos e suas guitarras. Mas aí eram anos 60. Nos 70, eu já adolescendo, os que partiram para a luta armada presos, exilados ou mortos.

A música brasileira com outros contornos. Gente fingindo ser gringa, cantando em inglês. Mas os fodões - Caetano, Gil, Chico - voltam do "passeio" involuntário ao exterior e fazem coisas ótimas. E começam a surgir outros grandes compositores: Luiz Melodia, Walter Franco, Jards Macalé, Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Djavan, Gonzaguinha, Tim Maia...

Eu me lembro bem dos anos 70. Estava na cidade grande, São Paulo, e acompanhava bastante o que a indústria fonográfica estava fazendo, pois comprava e vendia discos. Na TV, aquela coisa: Chacrinha, Silvio Santos, Raul Gil, Nelson Motta, Big Boy.

Paulo Diniz estourou com "Quero voltar pra Bahia", em 1970, creio, dele e de Obidar. Confessadamente escrita para homenagear Caetano, à época em Londres. Ouvia-a muito por aí: nas rádios, TV, nos serviços de alto-falantes dos parques. Eu tinha 9 anos, gostava do ritmo, do jeito de Paulo cantar. Não entendia o sentido da letra. Parece que nem os censores.

No começo da década de 70, o general-presidente era Médici, falava-se em Milagre Brasileiro. A vida parecia boa. O moral da nação buscava ser erguido com coisas como Dom e Ravel cantando aqueles ufanismos todos ("Eu te amo, meu Brasil"); nos para-brisas dos carros o adesivo dizia: Brasil: Ame-o ou Deixe-o - aliás, quantos carros tinha, hein! Nunca vira tantos, e fabricados aqui, lá no ABC.

Mas, por que escrevo sobre essa música de Paulo Diniz?

Porque está complicado botar um arco-íris na moringa ultimamente. Qualquer tentativa de relaxar, viver um pouco a vida de maneira leve, corre-se o risco de ser chamado de alienado, conformista, ou, pior, cúmplice - por omissão - de "tudo que está aí".

Tipo uma obrigação de tomar posição, de opinar, de marcar posição, de se pronunciar, mostrar indignação, preferencialmente nas ditas redes sociais virtuais. Enche, sabe! Quando o que muitas vezes quero é, sim, tomar uma geladinha em frente à TV ou à beira da piscina. Ou brincar com minha pequena filha, tomar um picolé, ou mesmo ver um desenho de que ela goste em casa.

Errado isso? Não, mas aí você olha o celular e vê zilhões de postagens altamente "engajadas" comentando, protestando, criticando a última medida tomada ou bobagem dita pelo governante ou um de seus asseclas - ou filho...

Ou então seu "feed" é entupido com milhões de textos, vídeos, áudios com opiniões fundamentadas, dizendo aquilo que você quer dizer mas não consegue elaborar com tanta inteligência...

É a dose de opinião fundamentada necessária para seu vício em tomar posição. Sem ela, você pode se sentir isolado, sozinho nesse mundo em que: será que sou o único a me indignar com isso?

Cada dia, ou cada hora, ou minuto... uma nova polêmica. É preciso dizer algo a respeito, mostrar o quanto estou puto com isso, marcar minha posição, se possível, ganhar alguns "likes", melhor ainda se alguns compartilharem essa posição, sinal de que "mandei bem". Mundo estranho esse.

Eu estou fora. Evito isso aí. Até porque não estou com saco para entrar em polêmicas, em discussões - provavelmente com robôs - que inevitavelmente surgirão.

Prefiro, sim, botar um arco-íris em minha moringa e ficar lelé da cuca sem medo de ser feliz...

Vai o link da música.

https://youtu.be/7su1j7lnO0o

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ela tem o dom: Juliana Lima

Ela era Gyulyana. Tinha 14 anos em 1997 e procurava um amor. Esse era o título de seu primeiro disco, e da música de abertura, “Procuro um Amor”. Pela leveza e emoção que transmite em suas canções, parece ter encontrado. Pelo menos o amor de seu fiel público ela alcançou. E me incluo nele.

Infelizmente, nós, pobres seus admiradores, não temos acesso a essa primeira obra, nem às duas seguintes, “Raios de Sol”, de 2002, ainda como Gyulyana, e “Tudo & Mais”, de 2004, já como Juliana Lima. Isso porque ela quer corrigir alguns detalhes técnicos dessas gravações antes de levar de volta ao mercado.

Mas temos “O Dom”, de 2007, e “Aquariana”, de 2013, aí para conferir a sua voz suave, a delicadeza de suas composições, os arranjos precisos, a emoção brotando de uma voz singular, um timbre que a diferencia e a identifica. Esses discos estão disponíveis nas apresentações que ela faz nos bares e casas de São Paulo e do ABC, em seu site, no i-Tunes e no SoundCloud.

Juliana cresceu ouvindo o pai, seu Elias, tocando violão em casa e, como toda criança, gostava de cantar, brincar de música... Mas ela tem o dom. Estudou instrumentos lá pelos dez anos. E, depois de uma apresentação na escola, um trabalho rotineiro que ela e seus amigos resolveram fazer em forma de show, alguém sensível compreendeu que ali estava bem mais do que uma simples diversão. Havia talento...

Assim nasceu, em Santo André, a cantora e compositora, agora autora de mais de 350 canções, cinco discos gravados, muitas outras ideias já transformadas em músicas, aguardando o momento certo para levar ao público.

Muito nova para sair em apresentações com a banda que integrou nesses verdes anos, parou um tempo com a música e foi trabalhar em uma ótica. Não durou um ano para que a música falasse mais alto e ela resolvesse que seria disso que faria sua vida. E não parou mais. Já são 17 anos de estrada, de palcos, e agora ganha o mundo. Com apresentações agendadas pela América do Sul e Central.

Estudou musicoterapia. Interessada em dominar todo o processo de criação, foi atrás de aprender a gravar suas obras, estudou gestão de projetos culturais e vai agora mexer com técnicas de estúdio. Enfim, quer ser senhora de sua produção.

Ouvi-la é mergulhar em um universo onírico, é ouvir falar de amor sem rancor, com algum sofrimento, mas sem o edulcorado falso dos que querem enganar a si e aos outros com a ilusão de que não se pode rimar amor e dor.

“Hoje eu quero devaneios, amanhã não sei”

“O Dom” é um disco espontâneo, que passeia por vários ritmos e estilos. A voz dela está cálida, forte, projeta e transmite algum sentimento preso que não se manifesta senão pelo cantar. As letras falam de coisas duras, de solidão, desamores... Coisas que só ela pode saber.

“Mais valeria ser louca / Por que a vida é tão corriqueira”.

“Teremos paz / ou seremos inconstantes?”

“O mundo anda tão complicado”,

“No vazio da casa sei que não estás”

“Morre um amor / Hoje e para sempre”

“Estou cercada por montanhas de concreto / Que impõem um veto em meu mirar”

“Esse mundo me assusta”

“Será que vale a pena / Viver sem existir”...

Mas há ternura em versos esculpidos nas pedras perenes do coração:

“O que faço para não me perder / Por esses passos?”

“Flores são belas / Mas é fria a mais bela das flores”

“Em meio à ventania parto”

“Olhe, já escureceu /Mas teu sorriso não sai da lembrança”...

E alguma revolta:

“Tô de saco cheio dessa massa de bananas”

“Estou farta das orgias / Não era essa a vida que eu queria”...

Até fechar com o recado e o pedido para a entrega total:

“Pensa em não fazer mais nada / Esquece a hora esquece tudo”.


“Percorri teu corpo com o meu”




Dois anos após o lançamento de “O Dom”, uma música dela, que não está nesses discos, entra na trilha de um curta-metragem, “Ópera de Arame”, uma produção da Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André. “Mesmo sem te ver”, a canção, traz uma interpretação arrebatadora, um arranjo com cordas que traz um clima que nos leva a mergulhar de cabeça e olhos fechados em uma paixão...

Mesmo sem te ver, decifrei teu corpo / num momento febril e louco / não pude conter / minha sede de te ter completamente / e entender perfeitamente / que palavras podem negar”.


“Ser feliz é um mar”

“Aquariana” é lançado seis anos depois de “O Dom”, e nos apresenta Juliana em uma fase de voos mais altos, como ela mesma define. A voz está mais cristalina, as músicas são mais alegres. O amor que procurava desde os 14 entrou em seu coração? O título remete ao seu signo zodiacal, caracterizado por pessoas “com a mente no futuro, desencanadas, que adoram a liberdade”.

Os temas não deixam de tratar de amor, mas amor vivido com alegria, que permite ver a felicidade em elementos simples como uma “brisa leve”, o “velejar nas ondas da imensidão”, na certeza de que “o amor chega no dia e na hora marcada”. Há espaço para lembrar da infância, do tempo em que ela “queria ser apenas uma menina sem ter que crescer”. E repete “O Dom”, também em espanhol: “Põe de lado / Pressas, medos e receios / Mas pare, pense, ouça e sinta”.

Cita nossas escritoras impagáveis: “Quero Adélia, Hilda e Clarice / Essas mulheres em mim”, e pergunta na faixa-título: “Será que há uma maneira de a rotina não virar tédio? / Ou uma chance de o tédio não sufocar a paixão?”.

Mas há a decisão de romper com o que não traz felicidade: “E a partir de agora eu pulo até mesmo do abismo / Até sentir a brisa do infinito”. Porque “enquanto não sonhava / Eu não era nada”, e, como sonho que se sonha junto não é sonho, é realidade, “Venha comigo e me dê a mão / Cante comigo mais esta canção”.

Volta ao mergulho na paixão, na certeza de que o amor não precisa razão: “Em ti vou me perder / Sem medo e sem pudor / E hoje sei que sem você / O céu já não tem cor”.


“Confie em mim”


“Aquariana” será registrado em DVD, com gravação marcada para o dia 31 de outubro, no Ton Ton Jazz (alameda dos Pamaris, 55, Moema, São Paulo). Quem quiser fazer parte dessa apresentação pode obter os ingressos em suas apresentações nas casas em que ela toca ou pelos telefones (11) 97258-1676 e (11) 2829-3935.

Juliana Lima toca com alguma frequência em lugares como o Bricabraque, S.A Clube, Forneria Itália, Benedita’s... É só acompanhar a agenda em seu site.

E ainda tem a nova proposta, o trio “Beijo de Moça”, com AnaWick e Cacá Molgora. As meninas levam o mais puro som regional, com xote e baião, em um formato que vem ganhando fãs a cada apresentação.

Aqui, a íntegra da entrevista que Juliana concedeu ao blog, em uma sexta-feira chuvosa, no charmoso bar e restaurante Benedita’s. Com direito a uma palhinha de uma canção inédita, “Bala de Canhão”, um toque de revolta por esse mundo violento (complicado?) e uma certa comodidade de todos nós. Sim, Juliana tem sangue na veias. E o dom de nos fazer chorar sem sentir dor...





Blog por Bloga – Como você se descobriu música, conte um pouco de seu início de carreira.

Juliana Lima - Quando fiz 10 anos comecei a estudar música numa escola próxima de casa, uma escola de bairro, fui estudar piano, mas acabei estudando órgão popular, paralelamente eu fui aprendendo a tocar o violão autodidata, vendo meu pai tocar, e aí, pelas aulas que eu tinha, a teoria foi fazendo sentido e eu acabei aprendendo a tocar o violão. Desde então não parei mais. Com dez, 12 anos eu comecei a compor e com 14 anos gravei o primeiro disco e nunca mais parei...

Bloga - Você gravou o primeiro disco aos 14 anos de maneira independente...

Juliana - Eu fiz uma apresentação na escola e de lá fiz uma entrevista em uma rádio, dessa rádio me levaram para um estúdio, gravei uma fita demo na época e um dos produtores do estúdio gostou das músicas e me convidou para gravar o primeiro disco. A gente gravou um disco independente e totalmente autoral, com 14 anos.

Bloga - Quer dizer eram composições suas, mas você aos 13, 14 anos o que você escrevia, o que lhe inspirava para fazer música, falava sobre o quê?

Juliana – Eu faço música sobre o cotidiano da vida das pessoas, eu lembro que na época tinha umas amigas e elas viviam suas histórias de primeiro amor, daqueles conflitos de adolescente e lembro que fiz uma música para contar a história de cada uma. A gente se reunia em festinhas e cantava as músicas, elas sabiam as letras de todas as músicas. Eu sempre que me impressionei com algo, alguma coisa me chamou muito a atenção sempre transformei isso em música, mas não de uma forma consciente. Quando eu via já estava fazendo a música sobre aquele determinado tema. Muitas coisas que eu vivi, mas muitas coisas que eu vi as pessoas viverem também. Coisas que eu assisti. Uma amiga uma vez tinha um grande amor que a família não aceitava, mas que ela amava o cara e ele teve um acidente e morreu, então foi um amor interrompido bruscamente. Fiz uma música para essas duas pessoas [“Espero”, do CD “Raios de Sol”, de 2002]. Enfim, eu falo sobre o cotidiano mesmo.

Bloga – O que você ouvia na sua infância, cresceu ouvindo o quê? O que acha que mais lhe influenciou em termos de estilo, de poética?

Juliana – Eu cresci escutando essas referências que lhe falei, a música popular brasileira principalmente. Em casa sempre rolou Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina, Caetano Veloso, Lulu Santos, Rita Lee, Roberto Carlos, enfim, a música brasileira como um todo. Mas quando eu cresci um pouco mais, quando fui fazer faculdade (musicoterapia) entrei em contato com uma música brasileira mais antiga, fui pesquisar como nasceu o samba e me apaixonei por Noel, Cartola, Lupicínio Rodrigues, gosto muito disso, até tenho um pouco disso no meu repertório também. Mas no geral o que sempre me fascinou foi a música brasileira, a diversidade da música brasileira, a música do Nordeste, a música do Luiz Gonzaga.

Bloga – Eu percebo que seus discos têm bastante variações de ritmos, você gosta de mexer com um pouquinho de tudo...

Juliana – Exatamente. É porque, enfim, o Brasil é um país multicultural, a gente tem muita coisa boa e eu acabo passeando um pouco por cada uma dessas coisas com as quais tive contato.

Bloga – Quer dizer você quer passar uma mensagem assim de tranquilidade... Suas letras são bem suaves. Você tem uma visão de mundo assim mais suave, intimista, romântica, por que não?

Juliana – Sim, mas eu tenho algumas canções de protesto também, não muitas, mas tem...

Bloga – Aquela que rasga a identidade (“Boa Sorte”, dela e de Del Cestal, do CD “O Dom”)...

Juliana – É, sim, o protesto que eu faço é da época que estou vivendo, então a gente tem uma inquietação com a sociedade, com o comodismo das pessoas, com o conformismo das pessoas em relação à política, à educação, a tudo... Tem uma música que eu não gravei, mas pretendo gravar, que chama “Bala de Canhão”, que eu fiz [em parceria com Talita Lopes] no dia que roubaram meu carro. Era um carrinho velho, tinham carros zero na rua e roubaram o meu! Eu fiquei muito revoltada e a forma que eu usei para canalizar aquela revolta foi uma música. E ela fala sobre essa fragilidade da sociedade, de você... Vou tocar um pedacinho pra você entender:

‘É melhor pagar o cara que não é dono da rua
Do que levarem o seu carro, estupidez humana, realidade crua
Eles vêm como raio com seus ferros, covardes levam sua carteira
Sequestram seu filho, assombram a cidade sem piedade
Põe Car System, aciona o alarme, deixa o seguro pago
Sobe o vidro, aperta a trava, põe G5 ou blindado
Todos parecem estar à beira da loucura
Justiça lenta e fraca e eu não vejo a cura
Ninguém está livre dessa escravidão
Não entrega o que é teu
Pra ver se não leva bem na cara
Bala de canhão’


Bloga – Muito boa..

Juliana – Então é mais retratar o que se vive mesmo, a ideia é essa.

Bloga – Você acha que as pessoas estão muito acomodadas, conformadas, não vale a pena lutar?

Juliana – O Brasil é um país que, pelo menos hoje, as pessoas vivem meio que, não sei se egoisticamente falando, elas não estão contentes, mas também não fazem nada para mudar. É um país que precisava se politizar mais, ter mais consciência de seus deveres e seus direitos. Falta isso: atitude ao povo brasileiro. Teve o ano passado as manifestações, mas muita gente não sabia muito bem o que estava fazendo, houve uma manipulação de mídia muito grande. Acho que precisaria de muito mais. Agora este ano, por exemplo, com as eleições seria um momento de protestar e realmente fazer alguma coisa... Quem sou eu... E também nem tem tantas opções assim...  o buraco é mais embaixo.

Bloga –  E como você vê qual é o papel do artista nesse complexo cenário todo? É só levar a arte?

Juliana – O artista em toda a história da humanidade sempre refletiu a sociedade da qual ele foi gerado. Na época da ditadura a gente tanta música maravilhosa no Brasil, mas porque o período instigava isso dos artistas. Você até mencionou que eu tenho uma coisa mais linda, poética, romântica...

Bloga - ... suave...

Juliana - ...suave, mas talvez por refletir esse conformismo da minha geração, não que eu não tenha consciência do que está acontecendo, mas a minha é uma geração que pouco lutou, talvez isso se reflita na música, na arte que a gente faz. Mas eu tenho bastante consciência de que as coisas poderiam melhorar bastante, mas isso só depende de nós, né?

Bloga – Quais são seus planos? Vai gravar agora o DVD do “Aquariana”...

Juliana – A gente vai gravar o DVD no dia 31 de outubro no Ton Ton Jazz. Agora em novembro a gente faz uma primeira miniturnê fora do Brasil que vai ser entre La Plata, Buenos Aires e Montevidéu, com o projeto “Aquariana”...

Bloga – Você já montou a banda, a equipe?

Juliana – A gente vai fazer apresentações intimistas... No começo do ano eu recebi uma cantora argentina, a Gisela Magri, e ela tem um projeto que mistura samba com tango, e a produtora que trouxe ela me convidou para fazer esses shows lá e a gente vai levar o projeto “Aquariana” para esses palcos. Ano que vem, em março, vou participar de um festival chamado “Cantaré”, um festival em prol de crianças com fome no mundo. Vão participar 30 artistas do mundo todo, de alguns países, e a gente vai fazer sete apresentações pela América Central: Jamaica, República Dominicana, Ilhas Virgens e mais alguns outros países. Todo dinheiro que for arrecadado neste festival vai ser doado para uma associação que alimenta crianças no mundo, crianças com fome no mundo. A gente tem esse projeto de sair espalhando música por onde passar.

Bloga – Aqui em São Paulo você toca em alguns bares...

Juliana – Em São Paulo tem um circuito de lugares que a gente toca, de casas. Têm os festivais que estamos sempre indo. Agora a gente vai fazer em outubro um festival em Jundiaí... A gente não para, está sempre em movimento. Se você for ver eu tenho há alguns anos todo mês a gente faz uma média de 15, 20 shows todo mês...

Bloga – E tem um projeto de um novo disco, ou ainda vai trabalhar bastante o “Aquariana”?

Juliana – Vamos trabalhar o “Aquariana”, mas, paralelamente... projeto de gravar disco a gente sempre tem e canções pra isso também. Talvez a gente faça para o ano que vem um registro do projeto “Beijo de Moça”, que está tendo uma aceitação muito bacana do público. É um trio formado por mim, na voz e violão, a Ana Wick nos vocais e percussão e a Cacá Molgora também na percussão. É um projeto de música regional, a gente canta e toca xote e baião, coisas de Luiz Gonzaga, Alceu Valença. Em todo lugar que a gente leva esse projeto está sendo muito bem aceito, então talvez a gente faça um registro em disco para esse projeto.

Vídeos de Juliana Lima disponíveis no YouTube. Aqui, dois para aguçar a vontade:

Trio Beijo de Moça:





Videoclipe "O Dom"



quarta-feira, 28 de março de 2012

A lenda ganha história


“Lenda não tem história.” É o que diz Paulo Coelho em determinado momento do filme “O início, o fim e o meio”, documentário de Walter Carvalho e Eduardo Mocarzel sobre o mito Raul Seixas, a que assisti nesta segunda-feira, 26/03/12, em uma sessão das 16h20 quase vazia no Espaço Unibanco (Itaú?) do Shopping Bourbon.

Sim, apesar da resistência do místico escritor e parceiro do Maluco Beleza em dar seu depoimento ao filme, sua presença é bem constante na fita, dando até leve impressão de que o homenageado lá parece ser ele, e não o retratado. Tudo bem. O filme é ótimo, bem pesquisado, com cenas inéditas e recheado de canções sempre boas de ouvir.

Começa com imagens de “Easy Rider” (aqui, “Sem Destino”), o grande filme dirigido por Dennis Hopper, lançado em 1969, que aborda o movimento hippie, a contracultura e a liberdade. E introduz Raul como o cara que fez a fusão do rock com a música popular brasileira, misturando guitarras e triângulo e atabaques, atacando até de bossa-nova em alguns momentos.

Sim. Raulzito inovou o rock brazuca, até então ingênuo e careta na Jovem Guarda e depois desafiador com os tropicalistas e os Mutantes. Ele queria dizer algo libertário, em uma época em que a ditadura procurava calar vozes dissonantes e a censura extirpava letras de Chico Buarque e afins.

Vários depoimentos importantes traçam um perfil bem honesto do baiano, desde a mãe,  irmão, amigos de infância, primeiros parceiros, as mulheres, filhas, produtores, jornalistas, outros artistas, enfim, um painel aparentemente completo da vida do cara. Sua paixão por cinema, que o levou a conhecer outro mito, Elvis Presley, que o fez dedicar-se ao rock o resto de sua vida.

Faltou o depoimento de Jerry Adriani, que aparece apenas em uma foto esmaecida, ele que levou Raul ao Rio e o introduziu em uma gravadora, onde trabalhou como produtor, compôs para vários artistas do cast (inclusive para Adriani) e acabou lançando seus próprios discos. Injustiça. Talvez tenha se recusado, não sei.

É um filme importante por documentar um artista da estatura de Raul, porém um tanto comovente demais para meu gosto, feito para chorar, coisa que destoa do espírito do nosso roqueiro maior. Preferia um documentário mais doidão, que acompanhasse em estética fílmica o pensamento e atitudes do músico. Mas não deixa a desejar, o retrato é bem detalhado.

Em 1973, a loja de discos de meu pai recebe o Krig-ha, bandolo!, primeiro trabalho solo de Raul, com os clássicos “Ouro de tolo”, “Mosca na sopa”, “Metamorfose ambulante”, “Al Capone” – esta em parceria com Coelho. Um disco memorável,  que eu ouvia à exaustão e me fez abandonar de vez as breguices que escutava até então (exceção aos Beatles, que curtia desde pequenino).

Foi uma época muito legal o início da década de 1970. Acho que a encheção de saco que o AI-5 trouxe fez o pessoal das artes ficar mais criativo, e desse período surgem artistas que fizeram acontecer durante muitos anos e outros que caíram no ostracismo rapidamente. Normal. Eu, aos 12, 13 anos, assistia a aquilo tudo com enorme curiosidade e refinava meu gosto, além de me motivar a ser cantor também, objetivo, contudo, que nunca persegui.

O filme faz a lenda virar história, e isso é importante em um tempo em que muitos, absurdamente, não sabem de sua existência. Sim, ouvi de uma menina de seus 20 e poucos anos que estuda fotografia comigo não o conhecer! Isso apesar de o bordão “toca Raul” já ter se tornado um clássico nos botecos. Talvez seja melhor ele permanecer mesmo como mito.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Meu primeiro Chico


Dois de março de 2012, uma sexta-feira, eu e Isabela fomos assistir ao show de Chico Buarque no HSBC. “Hoje é o dia da graça 1”. Primeira vez em nossas vidas vendo esse ícone ao vivo em um palco. Emoção. Alegria. “Abro meus braços pra você 2”. Momento raro. Vejo em seu site que este foi o sexto espetáculo que ele apresentou em 36 anos. Não podia perder.

Tinha visto Chico uma vez no Rio, acho que em 1996, em uma partida de futebol entre seu time, o Polytheama, e uma seleção de barrigudos do PT. Após a partida (esqueci quem ganhou), ele, arisco, safou-se do batalhão de jornalistas que o queriam bombardear de perguntas como quem se livra de um ataque de abelhas. “E a gente vai ficando pra trás 3”. Não respondeu à minha pergunta (nem me lembro mais qual foi). Na verdade, respondeu a uma ou duas e sumiu, atravessando perigosamente a avenida Brasil rumo a sei lá onde, correndo o risco de “morrer na contramão atrapalhando o tráfego 4”.

Outra vez, em 1997, o vi no lançamento do projeto “Terra”, com livro contendo fotos de Sebastião Salgado, texto de José Saramago e um CD com quatro músicas dele. Mas também inacessível.

Desta vez não, estava lá no palco, roupas escuras, cenário com reproduções de telas de Portinari e desenho de Niemeyer e outro desenho geométrico, iluminação quente. “Eu não queria jogar confete, mas tenho de dizer, ‘cê’ tá de lascar, ‘cê’ tá de doer 5.” Uma turnê longa, iniciada em novembro em Belo Horizonte e que aqui, em São Paulo, está estendida até abril.

Começou com O Velho Francisco. Entremeou canções do último disco, “Chico”, que não conheço, com outras de várias fases de seus 45 anos de carreira. Algumas de que consigo me lembrar: Desalento, Bastidores, Teresinha, Ana de Amsterdam, Anos Dourados, Sob Medida,Tereza da Praia (que dividiu os vocais com o baterista Wilson das Neves, de quem ficou com o chapéu da foto), Cálice (homenageando o rapper Criolo) e, surpresa, Geni e o Zeppelin!

Esta merece um destaque: foi a música que me fez prestar atenção nele, lá nos meus 16, 17 anos. Claro que sabia de sua existência pelos festivais, dos quais eu era espectador interessado pela TV. Conhecia A Banda e  Sabiá, mas nesta época, 78, 79, meu gosto musical era duvidoso, sem muito critério, “à toa na vida 6”.

E essa música, por causa do verso “joga bosta na Geni”, chamou minha atenção – e a de todo o país, imagino -, pois vivíamos um regime militar que censurava tudo e tornava a vida muito careta, “tanta mentira, tanta força bruta 7”. Pouco tempo depois, em 1980/81, já participando do movimento de jovens da paróquia de meu bairro, virei seu fã incondicional e de tantos outros bambas da dita MPB.  

Eu montaria outro repertório para o show. Eliminaria muitas das músicas novas, que não me empolgaram (o penúltimo disco dele, “Carioca”, comprei e ouvi apenas uma vez), e acrescentaria muitas mais antigas e  conhecidas. Difícil escolher. “Tem samba de sobra pra gente sambar 8.” Mas valeu assim mesmo. Um espetáculo que fez brotar emoções “à flor da pele 9”. “Deus lhe pague 10”, Chico.

Canções referenciadas:

1 - Caçada (1973)
2 - Com Açúcar Com Afeto (1966)
3 - Pedro Pedreiro (1966)
4 - Construção (1971)
5 - Deixe a Menina (1980)
6 - A Banda (1966)
7 - Cálice (1973)
8 -Olê Olá (1966)
9 - O Que Será (À Flor da Pele) (1976)
10 - Deus Lhe Pague (1971) 










segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma noite em 67

O filme Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, que assisti neste sábado, tem a grata qualidade de trazer na íntegra a execução dos cinco primeiros colocados no Festival da Música Popular Brasileira, levado pela TV Record em 21 de outubro de 1967, além do destempero de Sérgio Ricardo, que arrebentou seu violão e o jogou para a plateia por não resistir às vaias ininterruptas que levou enquanto tentava defender sua canção. Eu vi essas apresentações inúmeras vezes desde o ano de sua aparição, mas nunca tinha visto todas em sua totalidade. O filme resgata essas apresentações, além de entrevistas da época e atuais. É muito interessante ver a sinceridade dos compositores e intérpretes ao puxar da memória o evento e até, em alguns casos, dar pouca importância a ele. As canções são, pela ordem crescente de classificação, Maria Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná, defendida por Roberto Carlos; Roda Viva, de Chico Buarque, com ele e MPB4; Alegria Alegria, de Caetano Veloso, por ele mesmo e Beat Boys; Domingo no Parque, de e com Gilberto Gil e Mutantes; e Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, com Edu e Maria Medalha. Eu li muito sobre os festivais, e o filme veio adicionar, além das exibições na íntegra, os depoimentos de seus principais participantes que de certa forma tentam desmistificar a importância daquilo. Caramba: os festivais foram, em certa medida, uma tomada de posição, um grito em um tempo em que a ditadura estava brava, e viria a engrossar ainda mais menos de um ano depois. Havia canções ingênuas, sim, havia, mas ali certas posturas eram um claro confronto ao regime, mesmo que não fosse essa a intenção. Mas eu cresci considerando os festivais - e este em particular ficou mais explícito - uma baforada de oxigênio novo sobre o que existia, um divisor de águas, e isso se percebe na richa que houve entre os defensores de uma MPB pura (sem guitarras, ou seja, anti-ianque) e os que buscavam novas linguagens, uma reformulação na música brasileira, com a aglutinação do que havia lá fora e o nascimento de uma coisa diferente - o que o Tropicalismo, que ali nasceu, faria depois. De qualquer forma estava tudo ali. Eu gosto muito de Roda Viva, acho uma obra-prima do Chico, mas ganhou Ponteio, que não deixa de ser uma bela canção. É um excelente documentário que com certeza eu pretendo ter quando sair em DVD.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Saramago, um desafio

Em  1997, eu trabalhava no Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, onde iniciara um ano antes como assessor de comunicação no Grupo de Trabalho Eleitoral para o pleito municipal. Foi nessa época que tive a incubência de divulgar o projeto "Terra", que reunia um livro com textos de José Saramago, fotos de Sebastião Salgado e um CD com músicas de Chico Buarque. Os três estiveram em São Paulo para divulgar o projeto, que tinha vínculo com o MST. Foi o primeiro contato que tive com o escritor português morto sexta-feira, 18, aos 87 anos. Dele só li "O Evangelho segundo Jesus Cristo", um texto que me surpreendeu pelo estilo e pela ousadia. Não li mais nada desde então, afora alguns escritos na imprensa esporádicos. Tenho em minha estante "Ensaio Sobre a Cegueira", e também o DVD com o filme dirigido pelo Fernando Meirelles, mas ainda não os apreciei. Confesso que a leitura é complicada, é preciso às vezes reler os imensos parágrafos para se ter ideia do conteúdo, mas achei o "Evangelho" espetacular. Fica o desafio de mergulhar no universo desse escritor tão peculiar para, no mínimo, entender sua ótica do mundo e, quem sabe, apreender sua importância, que, pela repercussão de sua morte, era enorme.

A seguir, um texto de Saramago:

A mentalidade antiga se formou em uma grande superfície que se chamava catedral;
agora se forma em outra grande superfície que se chama Centro Comercial.
O Centro Comercial não é só a nova igreja, a nova catedral, é também a nova Universidade.
O Centro Comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana.
Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio.
O Centro Comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade.
Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora o que temos? A crise.
Será que vamos voltar a praça ou a Universidade? A filosofia?

José Saramago

Sobre Copa - Não costumo escrever sobre esportes, porque não é minha atividade predileta na vida, todos que me conhecem sabem. Mas estou, por falta mesmo do que fazer, assistindo a vários jogos e, mesmo não entendendo nada do que está rolando ali, tenho me divertido. Copa é legal por isso: até quem não entende e não gosta de futebol acaba entrando no clima e quiçá torcendo. Vou fazer uma confissão: torci mais para ver meu palpite nos bolões acertados do que para a vitória do time do Dunga. Rá, rá, rá! Deu certo, mas tenho a meu favor que torci pelas vitórias até agora havidas, ao passo que muita gente vem torcendo contra. Tudo bem, direito delas. Acho que a seleção terá uma boa campanha e até aposto que traz o caneco. Pelo menos é o que diz minha intuição, já que de táticas e quetais não entendo nadinha. A única coisa chata é a baderna que se faz antes, durante e depois dos jogos. Fico até com medo de sair às ruas. E a tal corneta, que insistem em chamar de vuvuzela, tem me tirado o sono dia após dia, como era previsível. Fazer o quê! Parece que o cidadão precisa de um estímulo desses para extravasar suas angústias que o cotidiano traz, uma alegria fugaz, como diria Chico a respeito do carnaval, outra festa de imensa falta de respeito ao próximo. Posso parecer chato, mas acho que sou mesmo. Pão que é bom...