O Barquinho Cultural

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sábado, 22 de junho de 2013

A pauta necessária

Fonte da foto: http://www.bancariospb.com.br/index.php/notcias-mainmenu-138/notcias-do-sindicato-mainmenu-92/16703-cut-divulga-nota-em-defesa-da-democracia-e-repudia-acoes-violentas

Tenho 52 anos, comecei a me interessar por política - no sentido amplo, não a sua prática institucional, qual seja, a atividade partidária - tardiamente, lá pelos 18, 19 anos, ainda prestando o serviço militar. Acho que já comentei aqui, se não, vale a pena mencionar. À época, 1980, o país vivia um momento turbulento, com o último dos generais-presidentes, João Baptista Figueiredo, enfrentando uma sucessão de greves, desencadeadas dois anos antes, devido ao fracasso do tal "milagre econômico", recessão, inflação. A resposta do general foi, mesmo sob o manto da "abertura lenta, segura e gradual", iniciada por Geisel, reprimir esses movimentos, intervindo em sindicatos, destituindo diretorias e prendendo dirigentes.

Pois bem. Os metalúrgicos, com o sindicato tomado, sem receber salários por causa das paralisações, constituíram, em São Bernardo do Campo, o Fundo de Greve, que previa angariar contribuições para os trabalhadores sustentarem suas famílias durante as greves, mas acabou também se tornando um lugar para discussão e organização, uma vez que o espaço físico do sindicato havia sido subtraído da categoria. A paróquia em frente à minha casa era um desses espaços, mas, aos 18 anos, eu pouco me interessava pelo que estava acontecendo ali, apesar de meu pai e vários tios e primos serem operários das montadoras do ABC.

Estava eu uma vez por ali, à toa, quando dois sujeitos saem de um carro e me abordam. Como estava com o cabelo raspado ao estilo reco, penso que os caras, sem dúvida agentes de algum órgão policial, imaginaram que eu teria o dever cívico e patriótico de colaborar com a repressão. Fizeram-me perguntas a respeito de que tipo de movimentação eu vinha observando ali na igreja, se havia reuniões, que tipo de gente frequentava etc. Respondi que não sabia de nada, que não prestava atenção ao que acontecia ali, pois nem católico eu sou. Eles disseram para eu ficar de olho e anotar qualquer coisa, pois eles voltariam para saber. Nunca mais os vi. Mas algo ali não me cheirou bem e me deixou inquieto.

Pouco depois, com a greve dos metalúrgicos intensificada, passamos pelo Paço de São Bernardo, onde os trabalhadores faziam assembleia. Estava em um caminhão do Exército, repleto de recos, em direção ao local onde treinávamos tiro. Ao passarmos pela multidão, senti a tensão, o ar pesado, os trabalhadores temendo que estivéssemos ali para descer o pau. Não era isso, mas, no quartel, o comando avisou que a tropa deveria estar em estado de alerta, pois poderia ser requisitada a qualquer momento para agir, se a situação devida ao movimento grevista degringolasse. Isso significava, em termos práticos, ficar com a farda passadinha e as botas brilhando de lustre ao lado da cama, pois, se fôssemos convocados, era preciso ir logo.

Minha sensação era esquisita. Imaginava-me tendo de pegar o fuzil e ir para cima dos trabalhadores, o que significava reprimir a mim mesmo e a meus pares, pois a maioria de minha família, como citei, era metalúrgica. É algo complicado para a cabeça. Torci para não haver necessidade disso. E, realmente, não houve. Parece que a Polícia Militar deu conta sozinha. Mas penso que brotou desses episódios o que se convencionou chamar de consciência política.

Minha militância nunca foi acirrada, quis mais entender o mundo em que vivia sob o prisma das questões sociais, econômicas e a compreensão da nossa história sob uma ótica diferente daquela que a escola nos enfiava goela abaixo. O campo em que começamos a atuar foi a luta dos moradores de favelas por melhores condições de habitação e fim da repressão. A partir daí, várias outras atividades foram se inserindo. E minha mente mudou.

Nunca fui preso, não apanhei da polícia, não respondi a inquéritos, nem depus, enfim, nossas atividades seguiam a onda de tudo aquilo que estava acontecendo no efervescente ABC dos anos 80, mas não na ponta, pelo menos a minha parte. Fizemos teatro, e depois fui cuidar de ser jornalista, enquanto o PT começava a se organizar e disputar eleições.

Participei, claro, de campanhas eleitorais, mas sempre na base, aquela coisa de distribuir “santinhos”, pintar muros, estender faixas, colar cartazes nos postes. Aí, sim, algumas vezes tivemos que correr da polícia, mas sem maiores consequências, além de ver o trabalho de uma madrugada ser desfeito pelos soldados.

Mais de trinta anos depois, o que vejo nas ruas nas últimas semanas me deixa atônito. Não posso dizer com precisão o que mobiliza tanta gente. Fora das redações compulsoriamente, sem ânimo para sair nas passeatas, sem conversar com quem está ali participando, minha análise se baseia no que tenho lido na imprensa e nas redes sociais, em comentários de várias vertentes, e o que percebo é que há uma geleia geral por aí. Um movimento denominado MPL, que, soube, está organizado há bem uns oito anos, consegue mobilizar milhares de pessoas por vários dias, a fim de reduzir a tarifa do transporte público.

Outras bandeiras são hasteadas, pois a revogação do aumento em várias cidades não interrompeu o movimento. O caldo engrossa e cada qual vem com uma palavra de ordem, uma reivindicação, desde temas específicos, como a não aprovação da PEC 37, até assuntos que requerem maior reflexão e outras formas de luta, como o fim à corrupção. Entram lemas estranhos ao móvel inicial da mobilização, como o impeachment da presidente da República, contra o aborto e por aí vai. A sensação é de que o negócio agigantou-se e tomou rumos inesperados. Sem falar nas ações criminosas, como vandalismo, saques e até um atropelamento com vítima fatal, com sinais claros de dolo.

Como disse, não posso dizer com propriedade, mas a sensação é de que a fagulha da insatisfação com a vida que vivemos foi acesa, e muitos, talvez, sem elaborar precisamente contra o que lutar, entraram para mostrar indignação, exigir que a política seja praticada em seu sentido real, que é zelar pelo bem-estar de todos, pelo bem comum. Não sei quantos dessa multidão podem dizer por que, afinal, estão na rua, mas tenho certeza de que o que pretendem é dizer que não estão felizes, que falta alguma coisa – ou muitas coisas -, que não se sentem representados pela maioria dos que estão aí governando, que querem ser ouvidos.

Tirando, evidentemente, a fração oportunista e mal-intencionada, essa juventude, que parece que percebeu que tem a força, tem condições de elaborar uma pauta, mesmo que seja a mais utópica, e fazer nascer em nossa nação aquilo que é o ideal na prática política, a democracia participativa, além da mera representativa. Como sempre fui da “base”, posso dizer, aí sim com conhecimento de causa, que prefiro ser liderado e guiado por meus ideais, conviver com o contraditório e fazer política de baixo para cima, de dentro para fora, como dizia um velho bordão revolucionário.

terça-feira, 12 de março de 2013

A propósito de papas e conclaves

Foto: Johannes Eisele/AFP


Nesses dias de reencontro com amigas que havia anos não tinha contato, uma reflexão me vem à cabeça, e tem a ver com essa eleição que hoje se iniciou para o próximo papa da Igreja Católica. Não professo essa religião, nem batizado e crismado sou; primeira comunhão a tive já aos 19 anos, e sem ter passado pelos procedimentos que me parecem necessários para ingerir o corpo e o sangue do Cristo. Porque minha família é de origem protestante, não esses neopentecostais de agora, que conseguiram até introduzir um membro cheio de preconceitos em uma comissão importante da Câmara dos Deputados. O fato é que, nessa igreja de meus pais, não se batiza recém-nascidos, e, quando atingi a idade de o ser, eles tinham saído da religião, não por vontade própria, mas por algo que eu nunca soube direito. Enfim: sou pagão. Vou para o inferno ao morrer, dizem.

Mas, no começo de 1980, fui atraído à paróquia de meu bairro para participar de um grupo de jovens que se reunia para discutir religião, ensaiar para o coral da missa e fazer algum trabalho pastoral junto às favelas da região. Confesso que o argumento que meu amigo usou para eu lá ir foi o de que havia muitas meninas bonitas participando. Eu, aos 19 anos, reco (para quem não sabe, o garoto que está prestando o serviço militar obrigatório), achei a ideia interessante e lá fui. Ele tocava violão e logo se tornou popular na comunidade (nome que dávamos ao grupo).

Para mim, foi uma virada total. Tinha, nesse tempo, algo de errado na mente, uma insatisfação com o rumo da vida, um passo em falso e cairia para um campo que nenhum pai sonhou em ver o filho seguir. Essa comunidade foi um tipo de redenção: encontrei lá pessoas que comungavam das mesmas expectativas, sonhos, frustrações, desejos de dar algum sentido à existência. E entender esse Deus que, na religião de meus pais e avós, era tão opressor, tão regulador, regrado, controlador...

Em pouco tempo houve eleição para a coordenação do grupo e me incentivaram a me candidatar. Foi a primeira (e única) vez que postulei a um “cargo” eletivo. Fiquei em segundo lugar e assumi a vice-coordenação do Juba (era esse o nome que deram à comunidade, sigla de “Juventude Unida Baseada no Amor”). Minhas tarefas eram, entre outras, escolher o tema de discussão da reunião semanal, procurar na Bíblia alguma passagem que tivesse a ver com o assunto, redigir a ata da reunião e substituir o coordenador em sua ausência.

Gostei da coisa. O grupo era acompanhado pelos seminaristas da paróquia, uma galerinha que lá se preparava para ser padre um dia, em um seminário meio fora do comum, organizado pelo pároco, um sujeito de origem francesa que tinha um trabalho junto aos moradores de favelas e seguia o que se denominou Teologia da Libertação, com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) atuando junto à população em um sentido de tornar a Igreja Católica mais voltada aos “oprimidos”, com a premissa de que foi a esse povo que Jesus se dirigia quando aqui esteve.

Até cheguei a cogitar a possibilidade de entrar nesse seminário, me tornar padre. Mas a paixão arrebatadora por uma menina linda do grupo frustrou meus planos. Não rendeu nada com a garota e a vocação acabou não se manifestando. E o resto é história.

O que importa aqui é o fato de eu ter, nesses últimos dias, me reencontrado com pessoas que participavam desse grupo naquela época, pessoas que fiquei muito tempo sem ver e ter notícias, e revê-los foi muito intenso, foi um resgate de uma pessoa que julgava esquecida lá dentro de mim, que perdeu um pouco da ilusão, da ingenuidade, dos sonhos. Que teve que encarar a realidade, sem desistir, contudo, de acreditar na possibilidade de o mundo ficar melhor, mais justo, mais igualitário.

Éramos fãs dos papas Paulo VI e João XXIII; este promoveu o Concílio Vaticano II, trazendo a Igreja para mais perto dos pobres, e aquele deu continuidade a esse trabalho (posso estar falando besteira, mas escrevo de memória, sem pesquisa; se alguém contestar e esclarecer, agradeço).

Depois de mais de um ano de atividades no Juba, resolvemos montar um grupo de teatro amador, o Tupi (Teatro Unido Popular Independente – gostávamos de meter “unidos” em tudo [rs]), para fazer um trabalho mais lúdico e provocar discussão junto aos expectadores. Montamos a peça “A Invasão”, de Dias Gomes, mas mudando o final, para melhor condizer com os fatos pós 31 de março de 1964. Levamos a montagem por um ano a favelas, comunidades de bairro, sindicatos, clubes, onde houvesse gente a fim de debater a realidade (!).

O grupo extinguiu-se com o surgimento do PT, o padre mudou sua postura e voltou à antiga prática católica de promover encontros de casais, catequização, grupos de estudos bíblicos e de corte e costura, enfim, largou um pouco a mão daquele trabalho social. E a Igreja também, com João Paulo II, seguiu esse rumo. Pouco depois, em 1985, o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (coisa que remonta à Inquisição), Joseph Ratzinger, condenou ao silêncio o frei Leonardo Boff, um dos teóricos da Teologia da Libertação, por causa de seu livro “Igreja, Carisma e Poder”.  A Igreja Católica mudava, e Ratzinger, depois papa Bento XVI, parece que levou essa “nova” doutrina ao paroxismo. Ele que renunciou ao cargo no último dia de fevereiro deste ano.

Agora, os cardeais estão a escolher seu sucessor. Não tenho tido interesse em acompanhar o processo. Há muito deixei de me importar com os rumos dessa igreja, mas pelo que tenho ouvido e lido, essa religião continua distante dos tempos atuais, das questões fundamentais que importam ao seu rebanho, em nome, talvez, de igual opressão, regulação, regras e  controle da igreja de minha infância. Assim, fico com meu Deus, e a ele me dirijo sem intercessão de algum de seus pastores. Se me ouve, não sei. Mas imaginar que alguém zela por você em algum canto dá um certo conforto.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A melhor profissão do mundo

Charge: Beck (http://controversasreportagem.blogspot.com.br)

Adoro a profissão que escolhi. E agradeço à minha professora de PIP (Programa de Informações Profissionais) do terceiro ano do ensino médio, de cujo nome infelizmente não me lembro, mas recordo que era uma garota motociclista muito linda e que fazia a imaginação adolescente voar, ter me dado a dica. A disciplina visava orientar os jovens na escolha do curso superior. Nem sei se há ainda algo assim nas escolas hoje. Mas naquele tempo havia.

Um dia, ela chamou um a um para uma conversa particular. Perguntou se eu já tinha escolhido o que fazer para o resto da vida. Eu não sabia. Já tivera algumas opções. Gostava das aulas de química no primeiro ano e pensei em seguir por aí. Mas depois tive aulas de edificações e desenhar plantas baixas me encantou e tendi para a engenharia civil. Mas no ano seguinte o governo mudou a grade curricular e o colégio voltou a ser mais de formação geral, sem especificar uma área determinada. Cheguei a cursar desenho mecânico no Senai e não segui em frente. Gostava de desenhar.

Como tinha dúvidas, a professora perguntou do que eu mais gostava. Escrever e ler, disse. E também me interessava por política, uma vez que militava em movimentos sociais e fazia teatro amador meio engajado. Ela, então, juntou as coordenadas e sugeriu jornalismo... Nunca tinha pensado nisso. E comecei a amadurecer a ideia.

Um dia, na paróquia de meu bairro, aparece a Sandra Passarinho, que era da TV Globo na época (não sei por onde ela anda hoje). Foi lá entrevistar o padre, que tinha um trabalho social junto aos moradores de favela reconhecido internacionalmente. Perguntei a ela sobre a profissão, o que estudar, coisas assim. Ela me disse que um jornalista tem que estudar sempre, ela mesmo nem era formada em jornalismo, o importante era estar por dentro do máximo possível de assuntos. Disse outras coisas, mas o fundamental e que se fixou em minhas lembranças foi isso.

Fiz a faculdade, me formei e, por sorte, entrei na área em seguida. E nela estou até hoje. Sem arrependimento. Apesar de tudo que se fala hoje a respeito de nossa profissão, considero o jornalismo fundamental, uma necessidade quase básica. O que falta discutir, talvez, seja apreender o que o consumidor de notícias quer, o que espera do meio de comunicação que acompanha.

Segui o conselho de Sandra e estudei o que pude, me interessando por  quase tudo (até futebol, rs). Porque não sei de outra profissão que lhe faz um dia ouvir um presidente da República (ouvi um vice, apenas, mas falei muito com um que o seria depois...),  no outro um executivo de uma grande empresa, no seguinte um sujeito que matou a família e foi ao cinema. Portanto, você vive situações no dia a dia das redações que quase sempre são inesperadas.

Outra sensação boa é, no dia seguinte, ver no ônibus, trem, metrô alguém lendo a matéria que você escreveu, ouvir comentários, ler as cartas enviadas à redação. De uma notinha de rodapé a uma reportagem de capa, tudo é válido. E ainda tem o fato de ficar na história, como registro de um tempo. Lembro-me, com um certo orgulho, confesso, de quando soube que um cara usou matérias minhas em sua tese de doutorado em economia.

Enfim, apesar de todo estresse que a profissão traz, de condições muitas vezes insuportáveis de trabalho, de remuneração nem sempre compensadora, não sei se saberia fazer outra coisa. De tudo que já fiz na vida, esta é a que me deu mais satisfação até hoje. E gostaria de nela continuar.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Meu primeiro Chico


Dois de março de 2012, uma sexta-feira, eu e Isabela fomos assistir ao show de Chico Buarque no HSBC. “Hoje é o dia da graça 1”. Primeira vez em nossas vidas vendo esse ícone ao vivo em um palco. Emoção. Alegria. “Abro meus braços pra você 2”. Momento raro. Vejo em seu site que este foi o sexto espetáculo que ele apresentou em 36 anos. Não podia perder.

Tinha visto Chico uma vez no Rio, acho que em 1996, em uma partida de futebol entre seu time, o Polytheama, e uma seleção de barrigudos do PT. Após a partida (esqueci quem ganhou), ele, arisco, safou-se do batalhão de jornalistas que o queriam bombardear de perguntas como quem se livra de um ataque de abelhas. “E a gente vai ficando pra trás 3”. Não respondeu à minha pergunta (nem me lembro mais qual foi). Na verdade, respondeu a uma ou duas e sumiu, atravessando perigosamente a avenida Brasil rumo a sei lá onde, correndo o risco de “morrer na contramão atrapalhando o tráfego 4”.

Outra vez, em 1997, o vi no lançamento do projeto “Terra”, com livro contendo fotos de Sebastião Salgado, texto de José Saramago e um CD com quatro músicas dele. Mas também inacessível.

Desta vez não, estava lá no palco, roupas escuras, cenário com reproduções de telas de Portinari e desenho de Niemeyer e outro desenho geométrico, iluminação quente. “Eu não queria jogar confete, mas tenho de dizer, ‘cê’ tá de lascar, ‘cê’ tá de doer 5.” Uma turnê longa, iniciada em novembro em Belo Horizonte e que aqui, em São Paulo, está estendida até abril.

Começou com O Velho Francisco. Entremeou canções do último disco, “Chico”, que não conheço, com outras de várias fases de seus 45 anos de carreira. Algumas de que consigo me lembrar: Desalento, Bastidores, Teresinha, Ana de Amsterdam, Anos Dourados, Sob Medida,Tereza da Praia (que dividiu os vocais com o baterista Wilson das Neves, de quem ficou com o chapéu da foto), Cálice (homenageando o rapper Criolo) e, surpresa, Geni e o Zeppelin!

Esta merece um destaque: foi a música que me fez prestar atenção nele, lá nos meus 16, 17 anos. Claro que sabia de sua existência pelos festivais, dos quais eu era espectador interessado pela TV. Conhecia A Banda e  Sabiá, mas nesta época, 78, 79, meu gosto musical era duvidoso, sem muito critério, “à toa na vida 6”.

E essa música, por causa do verso “joga bosta na Geni”, chamou minha atenção – e a de todo o país, imagino -, pois vivíamos um regime militar que censurava tudo e tornava a vida muito careta, “tanta mentira, tanta força bruta 7”. Pouco tempo depois, em 1980/81, já participando do movimento de jovens da paróquia de meu bairro, virei seu fã incondicional e de tantos outros bambas da dita MPB.  

Eu montaria outro repertório para o show. Eliminaria muitas das músicas novas, que não me empolgaram (o penúltimo disco dele, “Carioca”, comprei e ouvi apenas uma vez), e acrescentaria muitas mais antigas e  conhecidas. Difícil escolher. “Tem samba de sobra pra gente sambar 8.” Mas valeu assim mesmo. Um espetáculo que fez brotar emoções “à flor da pele 9”. “Deus lhe pague 10”, Chico.

Canções referenciadas:

1 - Caçada (1973)
2 - Com Açúcar Com Afeto (1966)
3 - Pedro Pedreiro (1966)
4 - Construção (1971)
5 - Deixe a Menina (1980)
6 - A Banda (1966)
7 - Cálice (1973)
8 -Olê Olá (1966)
9 - O Que Será (À Flor da Pele) (1976)
10 - Deus Lhe Pague (1971) 










terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vizinhos indesejáveis

Foto: Raul Machado (site SRZD)
Desde meus 13 anos que venho convivendo com o problema de morar ao lado ou perto de vizinhos inoportunos, que se acham no direito de perturbar o sossego dos outros impunemente. É o fenômeno do adensamento urbano, que põe um monte de gente em espaços exíguos e faz da convivência algo meio complicado. Tivesse eu recursos moraria em uma ilha deserta, ou em palacete protegido por um terreno imenso, que afastaria os barulhos das cercanias. Mas meus parcos rendimentos me permitem no máximo instalar vidros antirruído nas janelas. É uma opção a estudar.

Quando nos mudamos para Santo André, em 1974, na casa que meu pai construiu quase com as próprias mãos em terreno que sua mãe comprara assim que voltou do interior de São Paulo, ganhamos de presente um vizinho que promovia cultos de umbanda toda sexta-feira à noite, e o batuque rolava até alta madrugada. Não foram poucas vezes que o velho Chico chamou a polícia e nem menos as que ele próprio foi tomar satisfação do seu Brás, o dono do lugar e pai-de-santo que promovia a "baderna". Para piorar, aos domingos, logo cedo, a igreja católica em frente começava a "tocar" os sinos (na verdade, era um disco com sons de carrilhões, já que o templo não tinha campanário). Às 18h, a coisa se repetia.

Casado, fui morar em São Bernardo do Campo, em um bairro pouco afastado do centro, bem aprazível. Mas logo em seguida foi aberto um boteco que à noite reunia um monte de motoqueiros e jovens motorizados que gostavam de ligar um som bem alto e ficar na algazarra horas a fio. Com a Isabela pequena em casa, a coisa era difícil. Queixas da vizinhança não adiantaram, e as noitadas acontecem até hoje. Por que será que o poder público não dá atenção a esses delitos, preferindo centrar fogo em nossos deslizes no trânsito apenas?

Depois, separado, fui morar em outro bairro da mesma cidade. E aí a encrenca era um pátio de veículos onde as transportadoras (donas das famosas "cegonhas") deixavam os veículos antes de os levar para toda parte do país ou ao porto de Santos. No caso nem era o barulho, mas o trânsito daquelas carretas na via de acesso ao meu condomínio tornava o ir e vir um tormento diário. E mais: pouco acima do prédio, uma oficina que atende às empresas, esta sim, fazia um barulho infernal de marreta no aço, serra, furadeira e sei lá mais que sons desagradáveis que acabavam com o sossego.

Morei em seguida um tempo no Jabaquara, enquanto meu apartamento novo não era entregue, bem vizinho ao aeroporto de Congonhas. O som dos aviões e suas turbinas malucas o tempo todo impedia que se visse (e entendesse) algo que se estava vendo na TV ou se ouvisse uma música que se tentava escutar. Ler, então, era um exercício de paciência, inúmeras as vezes que era necessário reler o que acabava de ler porque o raciocínio tinha sido interrompido por nova chegada de aeronave.

Agora, aqui na capital paulista, além dos vizinhos de prédio que, insatisfeitos com o que acabaram de comprar, vivem em obras, tenho bem em frente a minha janela a escola de samba Mocidade Alegre. Seus ensaios e festas são para pôr à prova o nível de tolerância de qualquer cidadão de bem. O baticum começa logo após sair o resultado da apuração do carnaval. Claro, acabado o desfile do ano, é hora de se pensar no do ano seguinte, pois a festa pagã, de tanta fama aqui e no mundo, não pode parar. Incrível é a voz do tal puxador de samba da escola, potente a tal ponto que nem precisaria de microfone, amplificador e caixas acústicas. Mas o sacripanta faz questão de usar o equipamento e o faz no volume máximo, talvez porque os foliões que ali estão sejam surdos de tanto frequentar o ambiente. Mas nós, vizinhos, não somos. E sofremos.

Morar bem realmente é privilégio de poucos. A solução, em meu caso - enquanto não coto as tais janelas indevassáveis -, é deixar o volume do que estou ouvindo bem alto e dormir com fones nos ouvidos, apreciando uma boa música ou programas de rádio. O problema é que posso sofrer precocemente de problemas auditivos (já percebo uma diferença entre a audição do ouvido direto e o do esquerdo).

Mas garanto que não tenho absolutamente nada a ver com o incêndio no barracão desta escola, embaixo do viaduto Pompeia, ontem (09/01/12), que destruiu algumas de suas alegorias...

Reparação - Quero reparar uma injustiça cometida em meu último post (Decepção). Apesar do infortúnio por que passei no revéillon, minha virada de ano foi ótima, com minha família, irmãs, cunhado e sua mãe, sobrinhos, sobrinhos-netos (entre os quais a pequena Nathália, que vem se desenvolvendo a contento, graças a Deus). Depois do Natal também perfeito com minha filha e sua família, só posso agradecer ter gente tão boa ao meu lado, o que apequena ainda mais o episódio chato que me aconteceu.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fim de semana tranquilo

Não fui ao Rio nem assisti a A Origem. Fui ao cinema, em São Paulo mesmo, mas vi Reflexões de Um Liquidificador, de André Klotzel, diretor do ótimo A Marvada Carne. Reflexões é um filme policial com tons de humor negro, em que o eletrodoméstico cria vida e passa a dialogar com a dona de casa Elvira, papel de Ana Lúcia Torre. A voz do liquidificador é de Selton Mello, que tece reflexões, como diz o título, a respeito da vida e dos homens e, apesar do absurdo, torna-se confidente da dona da casa, que o chama de caco velho, por ser um liquidificador bem antigo. Logo de cara reparei que minha mãe teve um daquele, há muito tempo. O filme é muito bom, se bem que meio arrastado às vezes. Antes, teve um curta sobre um repentista chamado Divino, que proclama seus versos velozmente e nem dá para entender tudo o que ele fala. O filme é o seguinte. Elvira vai na polícia dar queixa do desaparecimento do marido Onofre (Germano Haiut). Ela sai de lá como principal suspeita, sendo perseguida pelo investigador Fuinha (Aramis Trindade). O filme então se desenrola nas reflexões do liquidificador, seus diálogos com Elvira, a visita da vizinha (Fabiula Nascimento, de Estômago, e na investidas de Fuinha, crente de que ela assassinou o marido. Depois da ida à delegacia, o filme faz um flash back para mostrar os antecedentes do desaparecimento. O liquidificador, que seria vendido pelo marido, escapa da troca de lar e comete uma inconfidência: conta que viu o mar e, aí, nasce a dúvida na cabeça de Elvira, que estava estranhando o excesso de horas extras diurnas do marido vigia noturno. Ela descobre, então, que Onofre tem uma amante, a Gorete Milagres (aquela atriz que fazia Oh Coitado na televisão, no papel de uma empregada doméstica). O desfecho é surpreendente, mas não de todo imprevisível. É uma boa diversão, pena que está apenas em uma sala, no Espaço Unibanco da rua Augusta.

Falar em rua Augusta, este sábado resolvi fazer o que tinha resolvido: andar pela avenida Paulista. Desci do metrô na Brigadeiro e fui à Fnac, olhar livros. CDs e DVDs, um ótimo passatempo. Acabei não comprando nada, porque tenho muitos livros em casa sem  ler e quero pôr tudo em dia. Discos e filmes também não estou muito a fim de comprar não, apesar de ter me encantado por uma caixa com a série completa de O Poderoso Chefão, que eu gosto muito. Quem sabe um dia... Também me interessei por Meu Tempo É Agora, um documentário sobre o Paulinho da Viola, que não vi quando estava nos cinemas. Também posso resolver levar algum dia. Quanto a CDs, tirando a reedição dos Beatles, não vi nada que me interessasse.

Antes do cinema, desci até a lanchonete Estadão e comi uma ótima feijoada, nada melhor nesse frio que um prato bem gordo como esse. Estava uma delícia, tracei tudo, não sobrando nada. Fazia muito tempo que não comia no Estadão, que era onde fazia meu lanche quando trabalhava no Diário Popular, de 1989 a 1996. Depois do filme, fui para casa e passei o resto da noite embrulhado em edredon e vendo TV, tomando vinho e comendo queijos. No domingo, acordei tarde, às 14h. Fui depois para a casa de minha irmã mais velha, Vilma, e a acompanhei, junto com a mais nova, Sonia, à igreja adventista. Foi legal, é um ambiente onde a gente se sente muito bem e ouve uma pregação que faz refletir sobre as coisas da vida. Foi um fim de semana tranquilo, que faz com que a semana role na boa, é o que espero.