O Barquinho Cultural

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Estado de zumbi

Meu corpo anda me pregando peças incríveis. Tenho sono nas horas menos recomendáveis e falta dele nas necessárias. Isso já me causou constrangimentos e perdas irreparáveis. Uma delas, que me recordo com tristeza, foi ter dormindo profundamente  no teatro, em 2007, assistindo a O Avarento, com Paulo Autran, sua última atuação antes de morrer, em 12/10 daquele mesmo ano. Foi lamentável, pois era a primeira vez que via o grande Autran no teatro - e, claro, a última. Houve outros episódios semelhantes, em que dormi profundamente em espetáculos musicais, teatrais, cinema, em frente à TV, na mesa de bar, e, até, na cama... 

Deve ser algum distúrbio criado após os anos a fio em que venho invertendo o relógio biológico para trabalhar. Fiz até um exame específico, polissonografia, que, segundo o médico, não acusou nada de anormal, mas me receitou um remediozinho natural para ajudar a dormir. Mas é chato viver assim, as pessoas acabam por achar que está sendo enfadonho para mim estar ao lado delas, quando na realidade não é nada disso.

Às vezes dou pescadas inevitáveis na mesa de trabalho, chegando a quase cair da cadeira. Certa vez, dormi ao volante, indo para casa, quando ainda morava em São Bernardo. Foi apenas um cochilo rápido, mas o suficiente para perder a direção; sorte que despertei a tempo de desvir o carro, que ia direto para embaixo de um caminhão; mas a manobra rápida em pista molhada pela chuva me fez derrapar e só parar ao bater no guard-rail. Foi a gota d'água que me levou a me mudar para perto do local de trabalho poucos meses depois. Hoje, vou a pé para o serviço, mas o sono ainda me persegue.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

... e la nave va...

Vida que segue - Isto é incrível. Estamos nos aproximando de mais um fim de ano, Natal, 2012 na soleira. Hora de fazer balanço? Perspectivas para o ano que virá? Muito óbvio. Ontem (15/12), em evento no trabalho, the boss disse que 2011 parece que durou 18, 24 meses, todos doidos para logo terminar. É. Tirando as razões específicas pelas quais ele isso comentou, diria que, sob minha perspectiva, este ano passou ligeiro. Escrevi muito pouco aqui, porque fiz pouco, mas também muito. Voltei a estudar, a malhar, emagreci muito, mudei de casa e de cidade. Vi algumas convicções ruírem, incorporei outras, iludi-me e desiludi-me com a mesma velocidade. Conheci um monte de gente, e isto é uma grande dádiva. Revi pessoas, e outras nunca mais vi - acho que nem verei mais. Profissionalmente também encarei desafios interessantes, e pessoalmente outros igualmente árduos. Que esperar de mais um ano? Nada, afinal, não é o calendário que rege a vida, que segue indiferente ao dia, mês e ano que giram. Mas gosto de pensar que evolução virá, porque as cabeçadas que damos nos fazem rever procedimentos e tentar melhorar. É. Isso com certeza vai rolar. A principal creio que será ter mais cuidado para evitar dissabores vividos.

Grata surpresa - Quarta-feira, 14/12, conheci O Café. Papo ótimo, em local agradável. Pessoa interessante. Gosto de conhecer pessoas, e esta me veio de uma forma inédita e inusitada. Legal saber quem está atrás das personas criadas no mundo virtual. Isso tem me acontecido com alguma frequência. E há surpresas, e, claro, decepções. Neste caso, valeu a pena. Desde o almoço com o titular e leitores do Balaio do Kotscho que não saio tão feliz de um encontro. E a razão é que ainda há vida inteligente por aí, ao contrário do que eu vinha pensando, dados tantos infortúnios passados. A lição a tirar é que se deve escolher bem o que fazer na vida, pois o tempo é ligeiro e ela passa rápido, sem chance de retornar e consertar o que saiu errado.

Polêmicas - O livro A Privataria Tucana tem dado o que falar. A mulher que espancou o cachorrinho até a morte também. A doença do Lula gerou reações incríveis. O metrô em Higienópolis, a greve na USP, a morte de bin Laden e de Kadafi, a primavera árabe, queda de ministros de Dilma/Lula, crise europeia, aperto fiscal americano, Rafinha Bastos e muitos outros fatos... As redes sociais serviram como um termômetro do que anda na cabeça das pessoas, cumprindo um papel que os meios tradicionais de comunicação não têm condição de abraçar, mas pincelam, ao gosto do critério editorial. Todos têm o direito de expressar sua opinião, seja ela qual for. E encarar as repercussões - mesmo que não haja nenhuma (caso de algumas que tenho exposto). O legal é que podemos fazê-lo. Lembrei-me, na conversa, com O Café, de quando no então ginásio as coisas eram diferentes, não se podia abrir a boca e exprimir pensamento diverso do aceito pelos fardados que comandavam este país e seus habitantes como a recrutas relapsos. Porém, o que observo, é que parece que o espírito censório e ditatorial ficou impregnado nas mentes e contaminou as gerações seguintes, tamanhas as tentativas de calar a boca de quem anda desviando um tanto do senso comum. Isso é perigoso: revela o quanto de ódio existe na sociedade e que a famosa cordialidade do povo brasileiro, se existiu, anda esquecida.

Lição - Aprendi na marra uma coisa neste ano: quando alguém não se empenha por você, não adianta esperar muito deste. Atenção e dedicação não se obtém de quem não está à disposição. E, como dizia um velho gerente do banco em que trabalhei, não se deve gastar vela com mau defunto. Enterrei.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um dia politicamente correto e incorreto

Cheguei ao North Beer, zona norte de SP, por volta de 14h de sábado, 10/09/11. Mesa reservada, poucas pessoas ainda. Kotscho já lá estava, vi-o entrando quando estava ainda na calçada. Entrei de mansinho, procurei uma cadeira, coincidentemente em frente à do homenageado, ao lado de Ênio. Tímido, me sentindo um estranho no ninho; algumas pessoas me olhando, outras perguntando meu nome, de onde eu era. Marisa, que me avisara do evento e me convidara, ainda não tinha chegado, e fiquei naquelas de imaginar o que estavam pensando de mim ("mas quem será esse cara?").

Foi o terceiro encontro dos leitores do Balaio do Kotscho, blogue do veterano jornalista Ricardo Kotscho, hoje abrigado no portal R7, depois de pouco mais de 3 anos no iG. Aos poucos, mais leitores chegando, puxadas de papo, me soltando, conhecendo as pessoas. Audálio Dantas, outro veterano da imprensa, me cumprimenta. Outras pessoas também. Receptivas. Ouvindo as conversas, reconheço o Ênio ao meu lado, de ler sobre ele no blogue do Renato Rovai. Fazemos os pedidos: a maioria chope, caipirinha (de vodca, mas também pinga), Ênio pede Seleta e discorre sobre a qualidade da cana de Salinas, região mineira produtora das melhores cachaças brasileiras. Diz-se cachacista, apreciador e estudioso da aguardente, uma vez que cachaceiro é o fabricante, explica. Vou de Brahma Black, mas logo depois emendo com uma Seleta também, maravilhado com a cor amarelada observada no copo de meu vizinho de mesa. Saborosa, leve.

Kotscho levanta-se e volta com um prato recheado de tentações e, como diz uma amiga minha, gordices: torresmo, bacon, cupim, costela. Claro, não resisto. Belisco e logo depois pego minha porção também no bufê, acompanhado de um grosso caldinho de feijão. O evento é organizado pelo pessoal do Boteco do Balaio, site criado por pessoas que acompanham o blogue do Kotscho e lá costumam postar comentários e se tornou uma espécie de fórum de discussão. Mais à vontade, vamos conversando. Muito papo à toa, mas também política, claro, cultura, história, jornalismo. Agora começo a me sentir um peixe no aquário, integrado, pessoas com histórias parecidas com a minha, vivências similares, modos de pensar semelhantes.

Precisava disso, contaminado que ando por ambientes pouco a ver comigo, mas que por necessidade preciso frequentar. Nada contra, não podemos nos isolar em nossos feudos. O interessante foi constatar que são pessoas que mantêm o senso crítico, não babam ovo para o povo que está aí no poder, que muitos ajudaram a lá estar. Como mencionei em um post anterior, não me sinto parte deste governo, porque nunca quis isso, e, com esse necessário distanciamento, posso até discordar de algumas coisas que aconteceram nesses oito anos e nove meses de PT no Planalto.

Mas não é sobre isso que quero falar. É sobre a lufada de ar puro que lá respirei, o estar em um ambiente do qual me isolei já há algum tempo e estava me fazendo falta. Sempre falo que os jornalistas hoje estão um tanto caretas. Pelo menos em relação aos da época em que comecei. Não fumam, não tomam pinga, não comem porcarias de botequim... muito politicamente corretos para meu gosto. Muitos nem saem da  redação mais, tudo na base do telefone, e-mail, MSN e outras tecnologias que permitem o cumprimento de vinte pautas em um dia. E lá estavam Kotscho e Audálio, entre outros, de grandes reportagens, de fôlego, como se dizia antes. Quando você podia mandar o repórter para longe e deixá-lo uma semana para voltar com uma grande matéria. O Kotscho, entre tantas outras, veio com uma que popularizou o termo "mordomia". O Audálio descobriu no Canindé a Carolina Maria de Jesus, catadora de lixo, cuja história foi eternizada no livro Quarto de Despejo, que li lá pelos meus vinte anos de idade e me marcou muito.

Sei lá, há ainda grandes reportagens nos meios de comunicação, nada de nostalgia do tipo "no meu tempo era melhor". Apenas os tempos mudaram. E ponto. Digamos que, por vivermos em um período de trevas (outra expressão bem datada), a realidade era meio escondida, e os jornalistas se esforçavam para quebrar esse bloqueio e trazer à luz que o tal milagre brasileiro era coisa para inglês (americano?) ver. Sim. Delfim fez o bolo crescer um pouco, mas já dividir... Lembra uma música que cantávamos no coral da igreja, de uma das Campanhas da Fraternidade da CNBB: "Meu irmão eu vi plantar/ meu irmão nos deu o pão/ mas na hora de jantar/ não chamaram meu irmão" (Esta mesa nos ensina). Comparações com os dias atuais ficam em aberto.

Lá, no almoço, foram feitas muitas, contadas histórias incríveis; eu ouvinte, pouco a contar, deslumbrado? Um pouco, mas mais reverente e respeitoso que aparvalhado. Afinal, em meus 23 anos de profissão, convivi com muitas feras e me orgulho disso; a gente aprende vivendo com os bambambans (e com os babacas também). Mas nem tudo lá era nostalgia, afinal, a gente vive o presente e nosso ofício exige estar sempre atualizado. O bom disso foi eu sair um pouco da toca que me impus, e voltar à rua me deu novo ânimo, vontade de escrever, de fazer coisas. Isso já se desenhou há pouco tempo, quando resolvi voltar a estudar, um curso básico de economia, na Fipe, nada que eu não já tenha visto, mas importante para desembaraçar certos conceitos e, melhor ainda, conviver com colegas e professores. Ouvir pontos de vista diferentes dos meus, discutir, aprender, sonhar com voos mais altos - meu projeto de cursar um mestrado ainda está de pé, quem sabe não consiga ano que vem...

Foi um belo sábado, concluído com a ida ao teatro, ver Trair e Coçar É Só Começar, que imagino ser um dos poucos brasileiros que ainda não a tinha visto, 25 anos que está em cartaz esse texto do global Marcos Caruso. Pena que dormi tanto na apresentação que nem acompanhei adequadamente os quiproquós em cena, mas ao final, já desperto, o ritmo estava mais agitado e permiti-me rir um pouco. Interessante foi ver um grupo de portadores da Síndrome de Down na plateia. Acho que algum instituto ou algo assim os trouxe. São adoráveis. Coincidência, quando me dirigia ao restaurante, ouvi no rádio entrevista com o criador do blogue Mano Down, Leonardo Gontijo, que conta suas experiências com o irmão mais novo, o Dudu. É. As coisas se intercalam, dizem que coincidências não existem, se conectam. O fato é que adorei este sábado. E de quebra ainda descolei uma bela dedicatória do Kotscho em seu livro Do Golpe ao Planalto, que darei de presente a minha filha Isabela, futura colega.

P.S. Por sugestão do leitor Rafael Campos, paragrafei o texto para ficar mais fácil de ler...Agradeço a sugestão.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O ofício de escrever

"Hoje os anos correm muito mais / e as noites já não têm calor / E uma saudade imensa é tudo / quanto resta ao velho trovador"
(Alberto Marino Júnior)
Alguém disse certa vez que escrever é cortar palavras, dizem que é obra de Drummond, mas ele negava. Em tempos de Twitter, com o limite de seus cento e tantos toques - mas nunca respeitados, por causa dos links -, a concisão é regra. Afinal, com a profusão de meios de informação que temos hoje, ninguém tem paciência para ler textos muito longos. De modo que procurarei, nessa retomada de meus escritos, ser econômico. Como eu dizia tempo atrás, sem "nariz de cera de Pinóquio". Pra quem não é do ramo, nariz de cera era (e ainda é por aí) um texto introdutório de uma matéria jornalística sem nenhuma informação relevante.

O motivo de eu voltar a escrever é que ganhei uma nova leitora e por ter encontrado um escrito meu de 30 anos atrás, quando me metia a poeta, mas sem nenhuma técnica, apenas pensamentos livres postos no papel, no afã de expressar o que a mente inquieta elaborava. O texto é enorme, quatro páginas de caderno universitário, em letra de forma. Não me lembro do contexto em que o escrevi, mas era um tempo em que vivia angustiado, conhecendo a realidade do mundo e me indignando com as coisas além dos limites do lar.

Tinha muita vontade de me manifestar, mas a timidez me podava a desenvoltura, e o veículo certo para isso era a escrita, daí ter optado pelo jornalismo, na esperança de pôr meu texto a serviço de alguma causa. Sei lá, passados 23 anos de profissão, se o que escrevi até hoje mexeu com a cabeça de alguém, mas percebi que aquela ideia inicial era fantasiosa, afinal, a imprensa tem um papel bem delimitado na sociedade e, enfim, sempre reflete o pensamento do dono do veículo, não de seus artífices. Como não me tornei nenhuma referência no jornalismo, não tenho o privilégio de escrever, profissionalmente, sobre o que me der na telha.

Mas é o ofício, afinal. Para o resto, esse blogue dá conta do recado (em termos, como disse à minha nova leitora). Mas o texto daquele 7 de agosto de 1981 é caudoloso porque tinha muito o que falar, e pouca coragem de dizer. Tinha um ambiente propício, amizades fortes, mas nem tudo a gente consegue expressar falando. Então escrevia, mas poucos liam. Angústia de quem escreve é a falta de leitor. Exercício solitário.

Imagino que tenha sido uma das minhas últimas tentativas de escrever livremente, a partir de lá, o escrever tornou-se ofício e, pior, muitas vezes reescrever o trabalho dos outros, ou os corrigir, que foi por onde comecei. Mas rever esse texto e outros papeis que encontrei em minhas arrumações de apartamento novo me remeteu àquele tempo de 20 anos de idade. Nelson Rodrigues escreveu que o homem guarda o menino dentro de si. Concordo, mas ando procurando esse jovem dentro de mim e o vejo muito distante.

Nunca senti muito o avanço dos anos, sempre me mantive jovial, com uma alegria de viver e conhecer que não percebia o tempo passar. Só quando se depara com coisas como esta que se dá conta de que o menino acabou ficando lá dentro mesmo, escondido em algum canto do ser. Se naquele tempo escrever solitariamente era meu modo de botar para fora o que me assombrava, hoje o que me assombra é ter visto tanta coisa que a indignação foi substituída por uma sensação de indiferença, de imobilismo, diria até de um certo niilismo, em sua concepção mais ordinária. O escrever tornou-se meio de subsistência, a revolta virou complacência, as relações humanas cada vez mais virtuais, o convívio trocado pela solidão.

Como dizem os versos ali em cima, do pai de minha nova amiga/leitora, a vida hoje está muito acelerada, os valores que prezávamos são postos ao chão a toda hora, e nem sempre conseguimos incorporar os novos. Se fosse reescrever esse texto de 30 anos atrás, talvez muito pouco se aproveitasse, mas o importante é que permanece como retrato de um momento da vida que é sempre bom relembrar, para não me deixar dominar pelo homem mais frio que, se deixar, não reconhece mais o menino de ontem. E gosto dele, apesar de sua tamanha ingenuidade.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Isolamento

Insônia é algo terrível. Pior para quem trabalha à noite, como eu, imagino. Ficar o dia todo acordado, sem nada que preste na TV aberta e na paga. Na internet, ninguém online no MSN, nenhum recado no Face, no Twitter e no Orkut, nenhum e-mail nem torpedo. Nada. Hoje terminei as bolsas da Ásia - minha última tarefa no trabalho - muito cedo, 6h45, e não tenho vontade de ir para casa, já que ainda estou sem sono e temo ficar isolado apesar de toda a festejada sociabilidade que a rede mundial de computadores proporciona, dizem. Telefonema também, nenhum, apenas de uma senhora querendo fazer comigo uma pesquisa sobre investimentos na web, eu que estou longe de me enquadrar nesse perfil. Pior foi atender no domingo à noite uma ligação se dizendo da Claro, informando que uma fatura minha voltou e querendo atualizar meu endereço. Vi que o número recebido era de um celular. Apesar de estranhar esse fato, e o de estar atendendo esse tipo de telefonema em um dia não útil e à noite, e também de ter informado meu novo endereço à operadora quando me mudei para o novo apartamento, acolhi a ligação e dei as informações solicitadas. Dizia que tinha uma fatura em aberto. Não me lembrei que minhas contas caem em débito automático, logo, não haveria fatura em aberto... Não, nada disso me ocorreu naquela noite de domingo, e caí em um golpe, com toda certeza, pois até informei número de documento, além do endereço. Não sei que consequência isso terá, mas já estou me preparando para o pior. É isso. As novas tecnologias não impedem a sensação de isolamento, e ainda te pregam armadilhas que podem dar muita dor de cabeça. Além da sensação de otário que me invade, sinto que as amizades virtuais não preenchem o vazio existencial que me persegue, e que relacionamentos reais ainda são o melhor a cultivar. Sinto saudade dos meus vinte e poucos anos, quando tinha uma turma enorme com quem me relacionava e diversas atividades que ocupavam boa parte de meu tempo, além das próprias da faculdade. Depois, trabalho, casamento, filha, e as amizades foram-se esvaindo, as atividades rareando, concentrando-me em uma nova realidade que também com o passar dos anos foi mudando, para chegar aonde estou agora, isolado na madrugada e no apartamento do Limão. Confesso que me cansei de tudo isso que o mundo novo nos trouxe. Não tive vontade de postar nada novo neste blog, porque não vi nas minhas novidades nada de interessante a relatar. Também enjoei de publicar coisas sem nenhum apelo nas redes sociais. Tantos meios de comunicação com o mundo e nenhum conteúdo, essa é a verdade. Bons tempos em que reuníamos um monte de gente em uma sala e discutíamos como mudar o mundo, com a convicção de que tínhamos esse poder. Mas isso não era o mais importante, mas sim o contato humano, cara a cara, com as novidades sendo passadas de boca a boca, olho no olho. Aquele grupo que representávamos chegou ao poder, mas me sinto excluído dele, não me vejo nele, não me sinto com poder. Porque abdiquei de seguir adiante, para "militar" no jornalismo. Não queria e não quero o poder, nunca me senti atraído por isso, queria mais era discutir a realidade, fazer amigos. Quando um colega veio me comunicar das articulações para a fundação de um partido, nos idos dos anos 80, senti uma coisa estranha, como se pressentisse o fim de tudo aquilo de que eu gostava tanto, porque tudo se concentraria agora na luta institucional, na busca pelo poder oficial - que, afinal se deu. Alijei-me desse processo voluntariamente, apesar de participar dele em duas ocasiões, mas como profissional de comunicação, não como ente político tradicional. A constatação agora é de que não me dediquei a nenhum projeto em particular, fui agindo conforme a necessidade e a eventualidade. Cheguei a um bom patamar profissional, mas a vida social hoje resume-e a isso: um isolamento que dói e do qual não vejo como sair.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A vida como ela é

Woody Allen é engraçado. Sabe fazer filmes engraçados mesmo tratando de temas sérios e delicados. Neste Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos, não lida com nenhum grande tema caro à humanidade, apenas com dramas comuns da atualidade como a busca da felicidade, a expectativa, a frustração, as decepções, os relacionamentos complicados, a recusa em envelhecer, as ilusões (que às vezes são melhores que os remédios, diz em certo momento).

É um emaranhado de situações que vão se costurando para resultar na dissolução de duas famílias e as tentativas de se construir outras mais felizes. No final, a impressão que se tem é a de que não há uma ideia central, um fio condutor, reforçada pela frase de MacBeth (Shakespeare) que o narrador fala no começo ("A vida é cheia de som e fúria e no final não significa nada").

Acho que é isso. Muito barulho por nada. Nenhuma lição de moral, nenhum julgamento. As pessoas cometem as maiores atrocidades morais e não há punição, a não ser as próprias da vida. No fundo todos só querem ser felizes. E alguns conseguem.

É a história de dois casais ingleses, vividos por Anthony Hopkins e Gemma Jones, e a filha e genro deles, por Naomi Watts e Josh Brolin. Hopkins deixa a mulher após 40 anos de casamento ao não admitir que esteja envelhecendo e parte em busca da juventude, malhando, andando de carro esportivo e ao final se envolvendo com uma ex-prostituta (Lucy Punch, mais nova que sua filha).

A mulher (Jones), inconformada com a separação, passa a se consultar com uma vidente (Pauline Collins) pra lá de charlatã, que lhe dá em troca de seus honorários vários chavões, como o que dá título ao filme. Ela ainda reclama do genro (Brolin), um ex-médico que aventurou-se pela literatura mas não emplacou mais nenhum sucesso depois do primeiro, e vive (às suas custas) esperando pelo telefonema de uma editora que o queira publicar.

Watts obviamente não se conforma com a inatividade do marido e vai à luta, empregando-se em uma galeria de arte de Antonio Banderas, por quem irá alimentar depois uma paixão não correspondida.

Enquanto a mãe vive repetindo as "previsões" da cartomante, crendo piamente em suas realizações, Brolin vai se envolvendo com uma vizinha, que só se veste de vermelho (por que será?), vivida por Freida Pinto.

E assim a história segue, com desfechos que às vezes surpreendem (como o de Jones), às vezes enervam (como o de Brolin). Ou seja, não há linearidade, não há maniqueísmo. É a vida como ela é, sem retoques, e pintada em um tom sépia e com uma trilha jazzística que tornam o filme muito belo, com grandes interpretações e a gente sai do cinema com a sensação de que a vida, ao contrário do bardo inglês, tem, sim, algum sentido. O que damos a ela.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma graça de cantora

Vanessa da Mata é uma graça, não consigo achar adjetivo mais apropriado. Poderia dizer que ela é talentosa, excelente cantora, linda, simpática, mas esses servem a qualquer uma. Vanessa, em minha opinião, tem graciosidade, que faz com que todos os outros predicados orbitem em torno desse que elegi como meu preferido.

No show que ela apresentou em São Paulo esse fim de semana (10 e 11 de dezembro), no condenável Citibank Hall, demonstrou uma performance que me fez chegar a essa conclusão. Baseado em seu último CD, Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias, o show foi um primor para mexer com os sentidos.

Com um longo branco todo cheio de babados (não sei se o nome é esse mesmo), com uma flor da mesma cor nos belos e incríveis cabelos, a mato-grossense de voz forte e aveludada iniciou o espetáculo sentada em um praticável, à esquerda do palco, cantando As Palavras, do disco novo, composição sua, em que fala para o amado tomar cuidado com o que diz, porque as palavras, afinal, ferem ("escolha os versos para ser meu bem / e não ser meu mal / reabilite o meu coração").

Em seguida se levanta e vai de O Tal Casal, também dela e do novo CD, falando de uma reconciliação ("voltávamos a ser então o tal casal / apaixonado, apaixonado"). Ela fala de amor de uma maneira muito doce, sem ranços, não se atém a dores de cotovelo e perdas irreparáveis. Canta o amor vivido, puro, bem adequado a sua figura - esguia, mas de um romantismo latente.

Mesmo em uma canção que fala de rompimento, como , dela e de Lokua Kanza, ela coloca um traço de generosidade que a faz uma grande mulher, apesar da firmeza da decisão ("vá se descobrir / vá crescer / entender e saber").

Ela cantou várias outras canções do disco novo - que não me canso de ouvir - e outras mais antigas, como os hits Amado, Vermelho, Boa Sorte, Ai, ai, ai. E ainda uma de Roberto, que, infelizmente não me lembro o nome, revivendo o primeiro CD, quando cantou Nossa Canção, de Luiz Ayrão, mas sucesso na voz do Rei.

A nota negativa fica por conta da casa, que eu detesto, pela péssima mania de juntar o máximo de gente no espaço disponível, o que faz com que fiquemos todos espremidos, e pela plateia sem noção que insiste em fazer pedidos aos garçons no decorrer do espetáculo, atrapalhando a boa audição e visibilidade do show. Fora isso, um show belíssimo de uma artista de quem eu gosto muito.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Imagina, 30 anos sem Lennon

Ontem, 8/12, completaram-se 30 anos que um maluco de nome Mark Chapman, sem motivo aparente, disparou quatro vezes contra o ex-beatle John Lennon, que contava com meros 40 anos e um currículo respeitoso na área musical e comportamental.

Morria uma lenda, um músico que formou simplesmente o mais influente grupo de rock de todos os tempos, ultrapassando inclusive as fronteiras do rock.

Como muitos, eu me lembro muito bem o que estava fazendo e onde estava quando soube da notícia. Ouvi em casa e corri para a rua.

Encontrei Cristina na frente da igreja do bairro e ficamos a falar sobre o que acontecera. O mundo era outro, sem internet, Google, orkut, ainda nos informávamos pelos meios tradicionais: rádio, TV, jornal.

Não me lembro em qual desses veículos soube da notícia. Mas me lembro dos noticiários noturnos da TV, mostrando o choque mundial que tinha sido sua morte. Os rádios tocavam sem parar músicas antigas dele e do disco recém-lançado, Double Fantasy, como (Just Like ) Starting Over, Woman, Beautiful Boy, Watching the Wheels - minhas preferidas.

Esse álbum era seu primeiro desde 1975, quando se deu um tempo para curtir o filho que tivera com Yoko, Sean (hoje um músico que adora os Mutantes, rs), tentando reparar o erro que cometeu com o primeiro filho, Julian, com Cynthia, que praticamente não viu crescer dada a febril rotina de superstar.

Foi um momento de grande tristeza, como se tivesse perdido um ente querido, sentimento compartilhado por milhões mundo afora, tenho certeza. Acabava-se, ali, a esperança de os Beatles tocarem juntos novamente, desejo alimentado nos últimos dez anos, desde a separação do grupo.

Eu aprendi a gostar dos Beatles exatamente no ano que eles se separaram. Claro que quando pequeno ouvia as músicas, principalmente pelos serviços de alto-falantes dos parques de diversão, e pelo rádio que minha mãe mantinha o tempo todo ligado enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Mas em 1970 tive um contato maior, quando meu pai comprou uma loja que vendia discos.

Na época, começaram a sair os compactos simples de cada um deles, todos com a maçã verde no selo Apple, o que me fez identificar de pronto que se tratavam de singles dos ex-integrantes do grupo. Eram eles Mother, de Lennon; Another Day, de McCartney; My Sweet Lord, de Harrison; e Photograph, de Starr (ou It Don't Come Easy, não me lembro muito bem).

O disco Abbey Road, o último deles a ser gravado (mas lançado antes de Let It Be, gravado antes mas lançado depois), me impressionou muito. Primeiro pela capa, aqueles quatro cabeludos atravessando uma faixa de pedrestes da rua que dá nome ao álbum. Desde então quis ter cabelos compridos, o que fiz por vários anos.

Depois as músicas, belíssimas, surpreendentes, diferentes de tudo que eu ouvira, a começar por Come Together, com aquele som surdo no início, cantada por Lennon. Impacto semelhante eu teria ao ouvir Sgt. Pepper's e por aí vai. Incrível a genialidade da dupla Lennon & McCartney.

Poucos anos depois, saíram duas coletâneas, o álbum azul e o álbum vermelho, com as músicas que só tinham saído em compactos, quando então pude conhecer mais sobre a obra do quarteto. Na verdade, só passei a comprar os discos nos anos 90, quando completei a coleção.

E depois os póstumos Past Masters, Live at BBC e  os três volumes de Anthology, depois os DVDs e os shows de Paul. Enfim, contam-se aí 40 anos de admiração a essa grande banda, que, depois da morte de Lennon, ainda viria a perder, em 2001, o guitarrista George Harrison.

É estranho a gente ver um ídolo morrer. Não vivi a época em que foram-se embora Jimy Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Brian Jones, ( os 4 J do rock), mas imagino que o gosto que a geração deles sentiu foi a mesma que a minha, uma sensação de amargor, como se o mundo deixasse um pouco de ser colorido.

P.S: Olha que coincidência, meu post anterior foi sobre Paul McCartney, e agora John Lennon. Mas, como dizem, nada é por acaso, não é?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Obrigado, paulistas

Foram duas horas de deslocamento no trânsito caótico da cidade, mais de uma hora de espera em uma fila quilométrica, uma hora e quarenta de demora para o início do show, tudo isso sob uma chuva inclemente que, por sorte, deu trégua durante o espetáculo. Mas a epopeia valeu.

O show de Paul McCartney, nesta segunda-feira, 22/11, foi demais. Irretocável. Perfeito é a palavra.

Foi logo atacando de Magical Mystery Tour, do disco de mesmo nome, na fase psicodélica dos Beatles. O público veio abaixo. Marmanjos berrando a plenos pulmões. Garotos que nem eram projetos quando o quarteto se extinguiu estavam em profusão igualmente fascinados pelo artista.

Em seguida veio Jet, já da carreira solo, com o Wings. Delícia de música. Rocão. Aí vem All My Loving, do LP "With The Beatles", de 63. Eu em êxtase, os 64 mil ouvintes em coro. Letting Go é a próxima, do disco solo "Venus and Mars".

Mais Beatles, com a acelerada Got to Get You Into My Life, do excelente "Revolver", um de meus favoritos. Vem depois Highway, que eu não conheço, de um projeto eletrônico dele, Fireman, disco "Electric Arguments", de 2007. Let Me Roll, do "Band On The Run", disco ótimo, mantém o pique.

 The Long And Winding Road, de "Let It Be", abaixa a bola, com Macca mantendo o arranjo de cordas de Phil Spector, odiado por muitos, aqui sendo executado nos teclados.

1985, também de "Band On The Run", reacende a galera, seguida de Let'em In, uma canção muito gostosa do mesmo disco. My Love, feita em homenagem à primeira mulher, Linda, é momento romântico. Ele diz, em português, que a fez para sua gatinha Linda. Simpático.

Mais Beatles: I'm Looking Through You, de "Rubber Soul", início da fase psicodélica dos Fab Four, com sua capa enigmática. Aí vem Two Of Us, de "Let It Be", dueto com John, executada com maestria e para me deixar de cabelos em pé.

Blackbird, só ao violão, divino, uma das canções mais lindas dele. Na sequência, Here Today, homenagem ao amigo John Lennon; Bluebird, também do Wings; Dance Tonight, de 2007; e Mrs. Vanderbilt, ótima balada também do "Band".

Volta aos Beatles, com Eleanor Rigby, de "Revolver", arrasador. Depois vem a homenagem a George Harrison, com Something, inicialmente no ukelelê, instrumento havaiano de quatro cordas, depois com a entrada da banda em alta performance, igual à execução no excelente DVD "Concert for George", em que seus amigos lhe prestam homenagem.

Depois Sing The Changes, também do projeto "Fireman"; Band On The Run, com suas três partes distintas, de levantar defunto. Aí vem Ob-la-di Ob-la-da, do "White Album", canção simpática com um pianinho delicioso e oportunidade para a galera entoar o coro.

Mais cacetada, agora com outra do "White", Back In The USSR. Depois vem outra de minhas favoritas do "Let It Be", I've Got a Feeling, em que Paul rasga a voz e, incrível para um homem de 68 anos, não arranha.

Paperback Writer, com solo maravilhoso de guitarra, single de 1966. A Day In The Life, do fenomenal "Sgt. Pepper's", é simplesmente uma das músicas mais sensacionais que conheço; ele a emenda com Give Peace a Chance, manifesto pacifista de Lennon.

Let It Be, do álbum homônimo, é a próxima, sempre uma audição inesgotável. Aí vem o momento bombástico, com Live And Let Die, trilha de filme do 007, com direito a explosão de fogo no palco e show pirotécnico. Catarse absoluta, arrebatador, só se viam faces maravilhadas, a minha inclusive.

Hey Jude foi outro momento para a plateia, enfeitiçada, fazer coro no na-na-na-na. Neste ponto, ele se despede de mentirinha, porque vem o bis com Beatles direto na veia, sem dó: Day Triper, Lady Madonna e Get Back.

Mais uma despedida de mentira e o segundo bis, começando com Yesterday, uma das canções mais regravadas do mundo; Helter Skelter, um rock totalmente fora do padrão beatle, novamente mostrando que os anos parece que não passaram para ele; Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band, a segunda parte, e The End, com riffs de espantar. Aí foi o fim mesmo.

Um show memorável, com um Paul simpaticíssimo, arrasando no português, cantando e tocando muito. Para ficar na memória para sempre. Obrigado, Paul.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Filme leve para um sábado modorrento

Neste sábado, 20/11, assistimos Red - Aposentados e Perigosos, de Robert Schwentke, para não perder a viagem, uma vez que a opção inicial era ver Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos, de Woody Allen, mas a sessão já estava lotada quando lá chegamos. É um filme baseado em uma história em quadrinhos de mesmo nome sobre um ex-agente da CIA que se vê de repente caçado sem saber por qual motivo. O agente aposentado é Bruce Willis, que convoca para ajudá-lo os ex-colegas Morgam Freeman e John Malkovich, aos quais se junta uma atendente do serviço de previdência social, Mary-Louise Parker, e depois uma espiã anciã, Helen Mirren. Willis é caçado por um agente, Karl Urban, que não sabe por que está atrás dele. A trama é meio confusa, como em todos filmes do gênero que já assisti, mas é diversão boa, com muito tiro, muito suspense, perseguição, armadilhas, revelações surpreendentes e até humor, principalmente a cargo do sempre irretocável Malkovich. Após sofrer um atentado em casa, Willis vai atrás de saber por que motivo o perseguem e descobre que se tratam de ex-colegas seus de CIA, em uma operação tipicamente de queima de arquivo. O Red do título é a sigla para Retired Extremely Dangerous - ou aposentado extremamente perigoso, que é como o ex-agente interpretado por Willis é nomeado em seu dossiê. O desfecho não chega a ser surpreendente e o filme não passa mesmo de mera diversão, algo leve para um fim de semana de sol modorrento como foi este.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Em busca da felicidade

Assisti ao novo filme do Arnaldo Jabor, A Suprema Felicidade, seu oitavo longa-metragem após quase 25 anos de ausência na direção. É um filme nostálgico, que relembra um Rio que não existe mais - aliás, bela reconstituição cênica - e emoções que ainda persistem. Eu não posso dizer que gostei, mas também não digo que detestei. Digamos que tolerei, principalmente pela excepcional atuação do grande Marco Nannini, sem falar de Emiliano Queiroz e o sempre bom João Miguel. Devo destacar ainda Elke Maravilha, com uma interpretação correta e longe da fanfarronice que a acompanha.

Meu senão ao filme é pelo fato de ele não dizer bem a que veio, eu realmente não consegui detectar qual a mensagem que Jabor quis passar. Seria a de que a felicidade não existe, o que corresponderia ao seu conhecido sarcasmo? Porque o título não se justifica nas cenas, protagonizadas pelo menino Paulo, apontado em três fases de sua vida: menino de 8 anos, adolescente e aos 19 anos. Por meio de sua vida, vão desfilando os demais personagens: seus pais, seus avós, amigos, padres do colégio, prostitutas...

O mote é a busca da felicidade, mas são poucos os momentos em que ela se manifesta. Creio eu que a ideia é esta mesma, a de que a felicidade, seja suprema ou não, é uma ilusão, como o carnaval que irrompe sem muita explicação. Aliás, essa cena remete também à nostalgia, de um tempo em que o carnaval era essencialmente na rua, coisa que os blocos de hoje parecem querer reviver. Mostra ainda uma Lapa romântica, com Noel Rosa dando o tom, cabarés feéricos e ruas azuladas habitadas por seres há muito extintos, como o comprador de jornais e revistas velhas (será que existiram?) e o pipoqueiro desbocado.

Um filme, sim, bonito, com lindas imagens desse Rio dos anos 40 a 60, mas a sensação ao sair da sala é a de que alguma coisa não está bem  explicada. E que o longa foi longo demais.

Simplesmente Beth - Na sexta, 12, fui ver Simplesmente eu, Clarice Lispector, peça escrita, interpretada e dirigida por Beth Goulart, simplesmente esplêndida em sua atuação, com uma caracterização leve e muita força dramática.

O texto baseia-se em obras, entrevistas, correspondências e depoimentos da escritora e traz suas reflexões sobre os mais variados assuntos, com palavras fortes, que causam bastante impacto. Eu nunca li nada dela, apenas vi o filme A Hora da Estrela, que me causou grande impacto (vi também uma montagem teatral dela), mas o espetáculo incita a vontade de mergulhar em sua obra, objetivo confessado por Beth - o de fazer as pessoas lerem, e não apenas livros de Clarice.

A peça tem uma carpintaria engenhosa, apesar do cenário espartano, mas com forte trabalho de luzes e sonoplastia, além de efeitos visuais em um telão. Beth interpreta a escritora e alguns dos personagens de seus livros e demonstra segurança de arrepiar na interpretação. A força está mesmo no texto, que mostra uma mulher questionadora e que busca o conhecimento e o autoconhecimento e, quem sabe, a felicidade.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Cinco vezes Brasil

Fui nesta segunda-feira, 08/11/2010, assistir ao filme Cinco Vezes Favela - Agora Por Nós Mesmos, composto de cinco episódios dirigidos por vários integrantes de comunidades no Rio de Janeiro, que participaram de oficinas ministradas por grandes diretores do cinema brasileiro, como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Daniel Filho, Walter Salles, Fernando Meirelles, João Moreira Salles e outros.

O filme, coordenado por Cacá Diegues e sua mulher, Renata Magalhães, retoma a ideia de montagem de mesmo nome produzida em 1962 a partir de concepção de Cacá e Leon Hirszman, entre outros, e também com vários diretores, coproduzido pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE.

O filme, muito bom, por sinal, busca retratar o dia a dia nas favelas - hoje chamadas de comunidades - e os conflitos ali estabelecidos, principalmente entre os moradores, os traficantes e a polícia.

Apesar de o tema estar presente em outras produções recentes, como Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002), Tropa de Elite 1 (José Padilha, 2007) e Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro (José Padilha, 2010) e Era Uma Vez (Breno Silveira, 2008), este tem a diferença de ser realizado e encenado por moradores dessas comunidades (apesar de contar com atores profissionais também), mostrando seu olhar sobre a situação que vivem, de forma que o distanciamento crítico que o cinema se impõe às vezes neste fica prejudicado, uma vez que a abordagem é mais intrínseca.

O interessante é que o maniqueísmo é deixado de lado e a realidade nua e crua é exposta sem grandes arroubos sociológicos, sem muita explicação. E o filme não aborda apenas a questão do tráfico e a violência policial, mostra a vida desse pessoal de uma maneira, se não romantizada, de forma realista e com alguma carga de poesia.

Fonte de renda, dirigido por Manaíra Carneiro, aborda a situação de um jovem que conseguiu passar no vestibular de Direito e, agora, precisa arcar com os gastos com livros, transporte e alimentação para realizar seu sonho. As dificuldades acabam por fazê-lo envolver-se com o tráfico. O episódio, longe de justificar o crime, expõe a tênue linha que separa essas duas realidades.

Arroz com feijão, de Cacau Amaral e Rodrigo Felha, conta a história de um menino que quer dar de presente ao pai um frango no dia de seu aniversário, porque a família, às voltas com os gastos da construção de um quarto para ele, tem de comer apenas esse alimento, sem mais nada. O garoto sai, então, à luta de cinco reais para realizar seu desejo e encontra muita dificuldade para tal. E acaba cometendo um roubo, do qual se reabilita no final, mostrando que a ética e a honra não são uma questão de condição social.

Concerto para violino, de Luciano Vidigal, retrata a amizade de três crianças que, ao crescer, tomam caminhos diferentes. Quando pequenos, os dois meninos e a menina fazem pacto de eterna amizade. Adultos, um cai no tráfico, a garota estuda violino e se prepara para uma bolsa de estudos na Europa e o terceiro se torna policial. A vida os faz reencontrarem-se em uma situação limite que terminará em um tragédia. É o mais denso de todos, em minha opinião.

Deixa voar, de Cadu Barcellos, tem como pano de fundo a rixa entre facções nas favelas, mas sem se aprofundar. Coloca mais a questão da coragem em contraste com o medo e a superação dos percalços em nome da realização de um objetivo. Um rapaz deixa voar a pipa de um amigo, que vai cair na comunidade vizinha, onde os que moram do lado de cá não vão, e vice-versa - cada lado acreditando que a incursão no outro lado é arriscado. Acontece que o amigo exige que ele vá buscar o brinquedo.

Acende a luz, de Luciana Bezerra, é o único que não aborda nenhuma espécie de crime, mas lida com o medo que se tem de entrar em uma comunidade dessas. A falta de luz em uma comunidade na véspera do Natal leva funcionários da companhia de eletricidade ao local para o conserto. Uma primeira equipe vai embora sem resolver o problema de uma parte mais distante e de difícil acesso. Vem então outra equipe e um dos técnicos sobe ao local. Lá, a comunidade cai matando, exigindo que ele faça o serviço. Acontece que falta uma peça, e o colega que ficou no carro vai embora. O funcionário é feito refém ali até fazer a luz voltar. O interessante é ver os moradores rirem do medo do coitado, que imagina que está em um covil de traficantes.

Enfim, é um filme de forte conteúdo social e que tem o grande mérito de lançar um olhar despretensioso sobre uma realidade que não é de toda conhecida.

Abaixo, um  vídeo promocional do filme:


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Abaixo o preconceito

Circulou no Twitter e no Facebook logo após a vitória de Dilma posts de uma estudante de Direito chamada Mayara Petruso com ofensas ao povo nordestino, por causa da expressiva votação que a petista teve naquela região. É de lascar, viu. Na foto não dá para ver direito, mas quem se interessar pode visitar o blog de meu amigo Renato Rovai (http://www.blogdorovai.com.br/) que tem farto material, inclusive um vídeo com a "repercussão" dessa iniciativa ridícula.

Ela sugere, entre outras coisas, que se mate um nordestino afogado em favor de São Paulo. Temerário. Esse país realmente tem coisas que mostram que de evoluído e desenvolvido tem muito pouco. Eu adoro o Nordeste, tenho muitos amigos de lá, meu avô era baiano, tinha tio pernambucano, já namorei com nordestinas, os avós de minha filha eram baianos, amo músicas de gente de lá e a contribuição desse povo ao progresso paulista e de todo o Brasil é imensurável. O preconceito e a xenofobia são realmente pragas difíceis de exterminar, precisa-se de anos de boa formação educacional e cultural e de civilidade, que ainda não começou a ser efetivada, nem sei se haverá. De toda forma, fica aqui meu protesto e, acrescento, não basta ela pedir desculpas. Precisa meter-lhe um belo processo para ela deixar de ser besta. E se não quer engolir a Dilma na presidência, que se mande dessa terra. Não vai fazer falta.

DOIS FILMES - Assisti nesse fim de semana a dois filmes da 34ª Mostra Internacional de cinema, que rola até amanhã, 4, em São Paulo. Sábado, 30, vi Uma Família, de Pernille Fischer Christensen, um filme dinamarquês sobre uma família dona de uma padaria há três gerações, os Rheinwalds. O enredo é em volta da filha, Ditte, uma galerista que recebe um convite irrecusável de trabalho em Nova York. Só que ela está grávida e um filho pode inviabilizar o trabalho, já que terá de viajar muito. Então ela e o namorado, Petter, resolvem interromper a gravidez. Quando ela está se preparando para viajar, seu pai, Rikard, descobre que tem câncer no cérebro. Ela decide então - sem consultar o namorado - desistir do emprego para ficar ao lado do pai. O filme trabalha bem as emoções que se irrompem em momentos como esse. O pai é casado em segundas núpcias e há um momento de conflito com essa mulher, mãe de dois filhos com Rikard, que tem, além de Ditte, outra filha do primeiro casamento. O pai, percebendo que seu fim está próximo, quer que a filha assuma a padaria, coisa que ela não quer, pois tem sua carreira. Enfim, um filme delicado, sobre um assunto delicado. Não tem grandes viradas de mesa, apenas lida com o assunto como é cotidiano.

No domingo, assisti a Quebradeiras, documentário brasileiro de Evaldo Mocarzel. Um filme denominado etno-poético sobre mulheres que extraem amêndoas de coco de babaçu na região do Bico do Papagaio, na fronteira entre Maranhão, Tocantins e Pará. Mostra o dia a dia delas, o trabalho de quebrar o coco na floresta de babaçu, as casas em que moram, as cantorias durante o trabalho e nas festas religiosas, os banhos de rio. Um filme quase sem homens e crianças, focado nas quebradeiras mesmo. O interessante do filme é que ele é rodado inteiro com a câmera parada. Assim, o diretor liga a câmera num tripé e a cena acontece no quadro focado por ela. Se a pessoa está caminhando na floresta, aparece ela chegando, indo e sumindo. Aí corta para outra cena. Tem enquadramentos bem inusitados, com muitos closes, detalhes... E não há nenhum diálogo, nem narração. Os únicos sons que se ouve são a música, muito bem elaborada (de Thiago Cury e Marcus Siqueira) e adequada, e as cantorias, como, por exemplo, as que as quebradeiras entoam quando vão ao trabalho, quando quebram o coco (colocam-no em uma machadinha e quebram com um pau) e nas cerimônias religiosas.

É um filme realmente poético, sobre uma realidade que é pouco conhecida. Vi que há uma organização, chamada de Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, que luta contra a tentativa, de empresas estrangeiras que compram terras no Maranhão, de explorar essa força de trabalho de forma quase escrava. Acredito que esse filme seja integrante desse movimento, apesar de em nenhum momento ele colocar a questão. Mas a forma como mostra o trabalho delas, de forma totalmente livre, dá a entender que qualquer interferência capitalista sobre ele só pode ser maléfico. Um belo filme.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

É Dilma

Dilma Vana Rousseff foi eleita presidenta do Brasil com 55.752.092 votos (apurados 99,99%), ou 56% do total, conforme as pesquisas indicaram nos últimos dias de campanha. Eu votei nela nos dois turnos, apesar de concordar com muitos de que se trata de uma pessoa "fabricada" pelo PT, mais precisamente pelo Lula. Considero a nova presidenta uma grande gerente, uma mulher de operação, não de articulação, tarefa que com certeza ela vai delegar a um ou mais ministros. Mas será uma tarefa tranquila, posto que contará com uma boa maioria em suas bases na Câmara e no Senado. Acredito que ela tem condições reais de administrar, conduziu os dois ministérios para os quais foi delegada pelo presidente Lula com eficiência e tem um  perfil administrativo, de fazer as coisas andarem, que ajudará muito. Estou esperançoso de que o País será bem conduzido.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os cinco de Balibó

Assisti neste sábado, 23, ao filme Balibó, de Robert Connolly, integrante da 34ª Mostra Internacional de cinema. O filme conta a história do assassinato de cinco jornalistas - dois britânicos, um neozelandês e dois australianos, a serviço de dois canais de TV australianos - que estavam em Balibó cobrindo o conflito entre as forças do Fretilin - movimento de independência do Timor Leste - e os militares da Indonésia, que logo em seguida invadiriam e dominariam o pequeno país por 25 anos. Com o desaparecimento dos jornalistas, o então ministro de Relações Exteriores e futuro presidente e prêmio Nobel da Paz José-Ramos Horta (Oscar Isaac) contata o jornalista australiano Roger East (Anthony LaPaglia) pedindo que ele investigue o que houve com os jornalistas e conte a história de seu país. Relutante em princípio, East acaba assumindo a tarefa e se envolve na história, indo até as últimas consequências, não apenas como repórter. É um filme impactante, forte, e que aborda uma questão que não é vista com frequência nos jornais.  Impressionou-me muito, porque, apesar de que, quando trabalhava no PT, dar sempre notícias sobre o Timor, não tinha noção do alcance do conflito. Os acontecimentos narrados expõem a crueldade das forças indonésias, longe de respeitar os preceitos da Convenção de Genebra. A morte dos jornalistas foi durante todo esse tempo atribuída pelos invasores como fruto do fogo cruzado entre o Fretilin e os militares, ou seja, morreram por culpa deles mesmo. Investigações posteriores trouxeram à luz a verdade: foram barbaramente assassinados, sem razão aparente. Claro, quando se trata de guerra não podem surpreender histórias como essa, mas o filme consegue levantar a questão para que não se banalizem os crimes de guerra, assim como não se pode banalizar nenhum tipo de violência. Foi um filme difícil de se ver, que duvido que entre em circuito comercial depois da mostra.

Paul, a maratona - Poxa, como tem gente com dinheiro neste país! Os shows do Paul McCartney, dias 7 de novembro em Porto Alegre e 21 e 22 em São Paulo, tiveram os ingressos esgotados praticamente no mesmo dia em que foram postos à venda na internet e nas bilheterias. Eu entrei no site do ingresso.com à 0h38 do dia 15 de outubro e, apesar de as vendas terem começado à meia-noite, já não havia mais bilhetes para a pista premium, que custava R$ 700! Tentei de manhã pelo telefone, e só caía a ligação em todas as tentativas. A compra no site era para quem possui cartões Visa e American Express, porque o Bradesco está patrocinando o evento. Então na segunda, 18, fui na porta do estádio do Pacaembu, onde estava havendo a venda geral. Mas havia uma fila que ia da praça Charles Miler à bilheteria do tobogã, mais de um quilômetro adiante, acho, pode até ser mais. Desisti, pois não podia perder horas de sono ali, e ouvi no rádio relatos de gente que estava na fila havia oito horas e nem estava perto do guichê. À noite, soube que haveria show também no dia 22 - até então era certo que haveria apresentação apenas no domingo. Fui correndo ao site e, surpresa, não tinha mais disponibilidade de pista premium, de R$ 700!! Como tem gente abonada nesse mundo, viu. Acabei optando pela pista comum, sujeito a ser espremido por hordas de fãs alucinados como eu. Bem, pelo menos estarei nessa terceira visita do Paul, já que, por sei lá que motivos, não me lembro mais, não fui na segunda. A primeira, claro, foi inesquecível. Confesso que Macca não é meu beatle preferido, antes dele vêm, nessa ordem, John Lennon e George Harrison, mas é um beatle, e é um cara muito eficiente, bom melodista e, bem, vai tocar muitas músicas dos Fab Four, o que me garante a diversão.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Anos de ouro do rádio

Estou me deliciando com a leitura de Minhas Duas Estrelas, de Pery Ribeiro e Ana Duarte, que comecei a ler neste feriado da Padroeira e dia das crianças.

O livro trata da vida de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, pais do autor, um cantor em quem nunca prestei muita atenção. Soube, pela leitura, o motivo: ele fez uma carreira mais internacional, morando dez anos em Miami.

Já sobre seus pais não sou totalmente ignorante, conhecendo um punhado de músicas de Herivelto e canções interpretadas pela Estrela Dalva, rainha do rádio de 1951. O que mais me está surpreendendo é conhecer a força do rádio nas décadas de 30 a 50. Como não havia TV no período, o rádio era mesmo o principal veículo de divulgação dos artistas e arregimentava multidões.

Claro que eu sabia disso, afinal estudei rádio na faculdade, mas esse relato do Pery e Ana, com pormenores de como funcionava essa indústria, é muito oportuno. Depois a TV veio ocupar esse papel, e é interessante observar como ela, de certa forma, copiou muito os sucessos do rádio. Novelas e programas humorísticos estão aí para comprovar. O livro de Ruy Castro sobre Carmem Miranda também é prolixo em retratar esse assunto, assim como o Café na Cama, de Marcos Rey, que li ainda adolescente e que me encantou.

Mas a história desse casal é por si só muito interessante. Abordada em minissérie recentemente na Globo, a vida de Herivelto e Dalva é destrinchada sem meias palavras pelo filho e sua esposa. Claro que ele aproveita para falar também de si, o que é inevitável.

Eu me lembro de que, quando bem pequeno, 5 ou 6 anos, minha mãe gostava de passar roupa na edícula de nossa casa com o rádio ligado. Membro do coral da igreja, onde meu pai era tocador de bombardino e escrevia as partituras da banda, minha mãe era fascinada por música e vivia com o rádio ligado. E essas músicas abundavam, e bem mais tarde, ao ouvi-las, me lembrava de conhecê-las do radinho da mãe.

Lendo o livro, agora, que traz várias letras das músicas que o Trio de Ouro (Nilo Chagas, Herivelto e Dalva, na foto) cantava, essas imagens me vêm  à lembrança, e fico chateado por não ter prestado atenção nelas antes, talvez por ser criado em um ambiente em que proliferaram outros estilos.

Revendo-as agora, não posso negar que são belíssimas canções, de gente do quilate, além de Herivelto, de Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Pixinguinha, Davi Nasser (um escroto como jornalista, mas letrista de respeito, apesar da campanha sórdida contra Dalva), e outros que até hoje são consagrados.

E as desavenças do casal, que se separou em um tempo em que isso era objeto de férreo preconceito, são muito tristes. É uma bela história mesmo, em um livro muito bem escrito e prazeroso de ler.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O céu e o inferno

Assisti a três filmes no cinema nessas últimas duas semanas. No sábado, 1, vi Nosso Lar, dirigido por Wagner de Assis, baseado em livro de Chico Xavier, pelo espírito de André Luiz, que é o personagem principal da fita. É um filme bonito, bem realizado, e, até onde me lembro, respeita o livro, que li há uns 20 anos. O trabalho, até onde eu possa perceber, não tem o objetivo de fazer cabeças, e aborda um tema que mais de uma novela da Globo já tratou. Se dissociarmos a história da doutrina espírita, podemos encarar a obra como fantasiosa, e nesse aspecto é muito bem feita. Eu gostei, sim, achei um bom trabalho e que até deixa na cabeça um certo questionamento sobre se isso é verídico. Nesta sexta, 8, fui assistir a Tropa de Elite 2, um filme bastante violento e que, no entanto, causou em mim menor impacto que o primeiro - talvez por já estar sabendo do que se tratava. Este entra na questão da corrupção no seio da polícia e da política e trata das milícias armadas que atemorizam as comunidades exigindo dinheiro em troca de proteção e achacando os traficantes para que possam agir em paz. Aborda também a imprensa, tanto a sensacionalista como a séria, aqui reproduzindo o caso Tim Lopes indiretamente. O Nascimento agora é coronel, comandante do Bope, e, por conta de divergências com a cúpula da polícia após rebelião no complexo Bangu 1, acaba em um cargo na Secretaria de Segurança, onde passa a combater a banda podre da corporação. Gostei do filme, apesar de não me surpreender tanto. Destaque para as atuações de Irandhir Santos, como um professor de história militante dos direitos humanos, que acaba enveredando pela política. Seu Jorge também tem ótima atuação, apesar de curta. Gostei ainda do André Mattos, o eterno Dom João VI da minissérie O Quinto dos Infernos, que vive um desses apresentadores metidos a porta-vozes da justiça, tipo Wagner Montes e Datena, que se enreda pelos meandros da política e da corrupção. No sábado, 9, assisti Comer Rezar Amar, de Ryan Murphy, com Julia Roberts, que faz uma escritora, Liz Gilbert, que, entediada com sua vida e sem rumo, resolve se divorciar e ganhar o mundo à busca de si mesma. Assim, na Itália ela se depara com a rica gastronomia (Comer), na Índia aprende os segredos da meditação (Rezar) e em Bali conhece um brasileiro (Javier Bardem, de Mar Adentro, entre outros - mas foi apenas esse que assisti), por quem se apaixona (Amar). Confesso que me cansei um pouco, achei o filme muito longo, mas é bom sim, com belas paisagens. Mas faltou, em minha opinião, um pouco de surpresas, ficou um tanto quanto previsível. Quanto às leituras, comecei na sexta a leitura de Os Ásperos Tempos, primeira parte da trilogia Os Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado, que trata da ditadura Vargas nos anos 30 e a perseguição ao pessoal do antigo PCB. É um livro muito gostoso de ler, sem proselitismo. Será muito bom ler a respeito desse período que eu conheço bem pouco, porque dediquei muito de minhas leituras ao período do golpe de 64 e suas consequências. Leio ainda O Cão dos Baskervilles, de Conan Doyle, com as aventuras do detetive Sherlock Holmes e seu fiel assistente Dr. Watson.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O prazer da leitura

Ontem, 7, terminei de ler A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge Amado, que baixei. Na comparação com o filme assistido em maio e que comentei aqui, há a adição de algumas cenas e a colocação do personagem  principal como narrador do filme. No livro Quincas não cumpre esse papel, mas há nesse um conteúdo fantasioso, fazendo com que o morto fale, mexa os olhos e a cabeça e até fique de pé no barco e de lá se lance para o mar. No filme ainda há uma maior peregrinação pelas ruas de Salvador, quando no livro há apenas uma parada em um botequim antes de o quarteto de amigos carregando o morto ir até o cais, onde se deliciaria com uma moqueca no saveiro de um pescador. Mas na essência o filme é fiel ao texto do livro, por sinal muito bom, como todos os escritos de Jorge Amado. Aliás, desde Tocaia Grande não lia nada do baiano. E agora baixei os três volumes de Subterrâneos da Liberdade, em que ele relata os duros anos da ditadura Vargas e a luta do PCB. Com isso, fico deixando para trás o Economia em Contexto e o Felicidade Autêntica, mas logo os pego. Ainda continuo a ler O Cão dos Baskevilles, de Conan Doyle, que narra aventura de Sherlock Holmes e que também baixei. Li esse livro há muito tempo, ainda na época do colegial. Era sócio da Biblioteca Malba Tahan, em São Bernardo do Campo, e devorava livros de lá. De Sherlock Holmes li todos, pois havia lá a coleção. Eu lia muito quando adolescente, porque não tinha uma turma com quem passar as horas - até tinha, mas não era sempre que me aventura a sair com eles, apreciadores de atividades não muito lícitas. O certo é que lia bastante. Era sócio também do Círculo do Livro, e comprava várias publicações, a um preço honesto. Pena que o que eu lia não era assim de qualidade muito superior. Lia muito livros policiais, de espionagem e faroeste. Os clássicos só os lia por obrigação escolar, mas gostava muito do que era colocado para leitura e futuro trabalho. Jorge Amado eu gostava muito de ler, por causa da enormidade de palavrões, o que para um adolescente é coisa de muito valor. Mas o que me deixou perplexo, nesse particular, foram os livros de Plínio Marcos. O primeiro que li dele, lá pelos 17 anos, foi Querô, Uma Reportagem Maldita, sobre um menino, filho de uma prostituta, que perdeu a mãe assassinada e foi criado na zona, antes de ganhar as ruas e se tornar mais um dos moleques sem-teto que ainda hoje habitam as calçadas. Apesar de gostar do livro pelos palavrões, o texto me incutiu um tanto de consciência social. Alguns anos depois passei a assistir peças dele,  no Teatro São Pedro, após as quais havia um debate com o autor. Eram momentos de grande regozijo. Na época do grupo de teatro Tupi, cogitamos de convidá-lo a dar uma palestra a nós, mas ele não pôde vir por problemas de agenda. Cheguei a vê-lo na faculdade, vendendos seus livros. Li muito Plínio Marcos e acho que isso veio a despertar em mim a sede por justiça social que fui saciar nos anos 80 junto à comunidade da igreja de Vila Palmares, de onde saiu o Tupi. São recordações boas, não nostálgicas, que faço lembrar para não esquecer o que sou e manter em mente o objetivo de mudar algo aí, e não apenas pelo voto. Então, voltemos ao Amado. 

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Tiririca da silva

Estou indignado com o resultado das eleições. Segundo turno para presidente e vitória no primeiro do Alckmin não estavam no cenário que eu montei na cabeça. Claro, não vou ser avestruz e não considerar que essa finalização vinha sendo desenhada nas pesquisas. Mas achei mesmo que o Mercadante pudesse avançar mais um pouco e, somados os votos dos demais candidatos, poderia haver a decisão em 31 de outubro. O petista tinha condições de vencer, tinha que bater mais nos governos tucanos em São Paulo, e não ficar apenas criticando a aprovação automáticas das escolas. Além disso, aquela cara carrancuda não ajudava em nada. Achei legal, no horário eleitoral, ele por as promessas não cumpridas do tucano, mas não foi suficiente. Não vi na postura do Mercadante a de um petista da gema, aguerrido, convicto, argumentativo. Nos debates ele só reclamava que Alckmin não o fazia de interlocutor. Sei lá, acho que tinha condições de haver um segundo turno, mas, enfim, paciência. No caso de Dilma, além do que a imprensa chama de fator Marina, pesaram as denúncias dos últimos dias sobre a quebra de sigilos na Receita e o tráfico de influência na Casa Civil. Penso que o PT se embananou nisso, demitir algumas pessoas não foi o suficiente, acho que ficaram devendo uma explicação mais contundente. É isso que acontece quando o PT se vê envolvo em denúncias, fica todo atrapalhado e acusa o golpe. O resultado do Senado não me surpreendeu. Vi os programas de Aloysio e achei muito bons, o candidato bem articulado, apresentando propostas e com uma história, até onde se sabe, limpa. Eu até pensei em votar nele, porque não me apetecia escolher o Netinho. Para o Legislativo, surpreendeu-me os mais de 126 mil votos do Grana. Sabia que ele tinha condições de vencer, mas não esperava essa votação estupenda, o 20º mais votado no Estado e o quinto no partido. Quanto ao federal, para mim tanto faz, não o conheço e só votei por indicação. O curioso foi o clima. Pelo menos nos locais em que passei  e na escola em que votei, não vi aquela agitação que via em tempos outrora. Será que a fiscalização estava mais firme? Não sei, mas, por exemplo, antes de entrar no colégio, recebi apenas dois santinhos! Dois! Em outros tempos, era cercado por boqueiros ávidos para ganhar meu voto para o candidato deles. Acho que isso é falta de militância aguerrida, porque hoje, parece, esse pessoal vai trabalhar na eleição por dinheiro. Bem, foi mais uma eleição, foi legal, eu gosto de votar, acho que é uma forma de manifestação e de participação, mas não a melhor, claro, porque a política deveria ser um assunto cotidiano, com as pessoas realmente exigindo de seus eleitos a prestação de contas. E acho que isso é culpa também dos políticos. Falta essa classe arrumar um jeito de politizar a população, as secretarias de formação política dos partidos deveriam fazer mais do que formar quadros, deveriam ir à rua ajudar a dar educação política à população. Assim, Tiriricas não seriam surpresas a cada eleição.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Macca no Brasil; eu vou

Paul McCartney, o baixista e compositor dos Beatles, volta ao Brasil em novembro. Estão previstos dois shows, dias 21 e 22, no estádio do Morumbi. Eu vou. Não poderia deixar de ir, como quando ele esteve pela segunda vez e tocou em São Paulo e Curitiba e não fui. Estive no Maracanã em abril de 1990 e me esbaldei. Foi uma grande aventura ir a esse show. Pegamos - fui com amigos da revisão do Diário Popular - um ônibus na sexta à noite e de manhã chegávamos ao Rio. Demos uma volta por lá, almoçamos no Estácio e fomos para a frente do estádio esperar abrir os portões. Estava apinhado de gente. O povo ficou impaciente e começou a bater nos portões, querendo abri-los. Quando eles finalmente foram abertos, pareceu um estouro de boiada, quase fui pisoteado. Mas valeu a pena. Consegui chegar bem perto do palco e me deliciei. A cada canção dos Beatles que ele entoava eu ficava em êxtase. A sequência que ele fez do album Abbey Road foi de deixar qualquer um emocionado, e eu não fui exceção, Terminado o show, na madrugada de domingo, fomos de volta para casa, caminhando pela avenida, até que um taxista parou e pediu para entrarmos, porque era perigoso ficar caminhando naquele local àquela hora da noite. Não sei se era verdade ou esperteza dele para angariar clientes. O certo é que pegamos o táxi até a rodoviária. Depois das seis horas de viagem, fui trabalhar, pois era meu plantão no Dipo. Espero que desta vez não haja tamanho sacrifício. A se basear pela sua atual turnê, Up and Coming, serão executadas 36 músicas,  das quais 23 da era Beatle. Um deleite.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Leituras

O curso da Fipe miou, não sei por quê, mas não recebi nenhum comunicado para efetuar a matrícula. Penso que não conseguiram o número mínimo de participantes. Desta forma, resolvi estudar em casa enquanto não aparece outro curso do qual me interesse. Já li um livro de economia do Cláudio Securato, que foi meu professor no MBA que cursei na FIA, e iniciei a leitura do Economia em Contexto, de Peter Kennedy. É um livro difícil, mas estou dando conta - apenas os exercícios ainda não tentei resolver, mas porque fiz de início uma leitura rápida. Estou retomando as leituras, o que tem me deixado contente. Para espairecer um pouco, li uma série de livros de Darren Shan, chamado O Circo dos Horrores, sobre um menino meio vampiro. É literatura juvenil, mas é bom para passar o tempo e retomar o hábito da leitura. Achei na internet e baixei (trata-se de e-book). Também achei um site que tem a obra completa do Machado de Assis e já li o conto Missa do Galo, que achei muito bom. Aliás, Machado é irrepreensível. Li quase nada dele e pretendo reparar essa falta. Como se diz por aí, Machado é imprescindível para quem tem o escrever como ofício. Eu concordo. Só jornal que estou achando um saco ler, e isso é um grande erro, pois se trata de meu instrumento de trabalho. É que estou achando os jornais muito fracos, pobres de texto e de intenções, ainda mais agora nesse período eleitoral. Vai longe os tempos em que eu lia os jornais com gosto. Mas aos poucos estou readquirindo esse hábito. Fiquei muito tempo sem nada ler por questões de desânimo, mas já estou melhor e meu ânimo está bem superior ao de antes. Estou ainda nos estudos bíblicos, o que tem me agradado muito, se bem que é um estudo bem introdutório, pois a Bíblia é bem difícil de entender, mas é uma lacuna que quero preencher. Bem, este é meu estado atual, e estou gostando muito desse momento.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Inverno das paixões

Quadrilha, Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história


Esse poema de Drummond é citado nos comentários a respeito da peça Inverno da Luz Vermelha, dirigida por Mônica Gardenberg, e que assisti, junto de minha filha e Joana, no teatro Faap. Porque, à semelhança do poema, os personagens da peça de Adam Rapp experimentam as impossibilidades do amor. No texto, dois amigos, David (André Frateschi) e Matheus (Rafael Primot) estão em Amsterdã. O primeiro é um insensível bon vivant, enquanto o outro, roteirista de cinema,  amarga  uma desilusão amorosa (provocada pelo próprio amigo, sabe-se depois). Talvez para tentar amenizar um pouco a traição, David contrata a prostituta francesa Christine (Marjorie Estiano) para que o amigo se divirta. Acontece que Matheus não tem o menor jeito com as mulheres e prefere estabelecer um diálogo com a moça, que acaba tendo que tomar a iniciativa e resolver o assunto. Um ano depois, em São Paulo, a cena se passa no apartamento de Matheus, que recebe a visita de Christine (na verdade a paulista Ana). O rapaz desmaia quando vê a moça, por quem nutriu esse tempo todo uma paixão ao mesmo tempo platônica e fetichista, já que ficou com um casaco que ela esqueceu no apartamento deles na Holanda e transfere ao objeto a paixão pela prostituta. Ela veio no endereço atrás de David, que informou o do amigo quando ela pediu para enviar um CD. Esse pedido - do endereço - já antecipa que Christine/Ana envolveu-se com o cliente mais do que para um simples programa. De fato, na segunda parte vê-se a quadrilha: Matheus que amava Christine que amava David que não amava ninguém. O texto tem grande carga dramática, mas também bastante comicidade. E marca meu retorno às plateias teatrais, que não consigo me lembrar a data em que fui pela última vez. Fui na semana anterior ver o musical Zorro, mas saímos no meio da peça porque a Joana caiu e estava sentindo dores. Gosto muito de teatro, apesar da dificuldade de se encontrar boas peças por aí. Gosto de textos que trazem leveza à alma e fazem refletir. Esse Inverno provocou os dois efeitos, e a boa atuação dos atores, direção segura e cenário adequado, além de iluminação e trilha sonora de grande efeito, levam à conclusão de que se trata de um bom espetáculo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sinais de esperança

Acabei de ler Sinais de Esperança,  de Alejandro Bullón, uma obra adventista a mim dada pelo sobrinho de minha irmã (por parte do meu cunhado). É um livro que trata de provar que tudo o que vem acontecendo nos dias de hoje - intempéries, violência, problemas mentais, desamor - são sinais de que a vinda de Cristo está próxima. A cada capítulo ele termina com uma pergunta e a afirmação de que a resposta é somente sua. Claro, por tratar-se de uma obra ligada a uma igreja, é óbvio que a finalidade é evangelizadora. Não gostei do estilo, achei vagas as justificativas e não me responde a minha questão inicial: por que estamos aqui e por que temos que morrer - muitas vezes com sofrimento - para ter uma vida eterna de ventura. Por isso estou fazendo os estudos bíblicos com esse rapaz. Espero tê-las ou ao menos alguma luz em minhas dúvidas. Quem sabe a fé me leve a certo conforto com relação a isso. Vamos ver. Mas até o momento não decidi me converter, não é essa minha intenção. Acho as regras das igrejas meio castradoras.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Militância

Fui a um comício do PT sábado em Mauá. Fazia tempo não participava de um. Veio à lembrança, claro, meus tempos de militância, quando saía da faculdade e corria para o núcleo do partido de meu bairro, em Santo André, onde organizávamos a campanha. Isso foi em 1982, há muito tempo. Éramos, a maioria, estreantes na atividade política e muito românticos em nossa atuação. Nossos recursos eram escassos. Lembro que, para fazer santinhos, tínhamos uma espécie de carimbo com os  nomes dos candidatos. Carimbávamos folhas de papel e distribuíamos nas feiras e de casa em casa. Para pintar muros, a gente tinha o Hércules, rapaz de grande talento e excelente traço, que fazia cartazes e pinturas diferentes nos muros, todos com autorização dos donos. Lula concorria ao governo do Estado. Ficou em terceiro lugar, sendo eleito Franco Montoro, com Orestes Quércia de vice. Mas emplacamos o Fernando Galvanese como vereador, aliás, duas vezes, mas na segunda ele foi ser secretário de Saúde de Celso Daniel. Naquela eleição, o voto era vinculado, ou seja, o eleitor tinha que escolher todos os candidatos do mesmo partido, o que dificultava as coligações. Ainda não se votava para presidente nem para prefeito de capitais e outros municípios estratégicos. Ainda havia ditadura e a gente às vezes tinha que correr da polícia, porque atividades como panfletagem, pintura de muros, colagem de cartazes eras proibidas. Mesmo assim a gente dava um jeito, e fazíamos as atividades à noite. Por isso saía da faculdade e ia à luta. Fui a muitos outros comícios nessa minha militância. Mas este me surpreendeu pela qualidade do material. É, em 30 anos o partido cresceu, é governo há dois mandatos, governa inúmeras cidades e alguns Estados, e o dinheiro pelo jeito está farto. Um dos amigos da época da primeira campanha hoje é candidato a deputado estadual, o Carlos Grana, que, por uma dessas coisas do destino, fazia na peça A Invasão, que montamos com o grupo Tupi em 1981, o papel de um deputado, mas, na peça, um grande sacana aproveitador e corrupto. Grana não será como ele, sem dúvida. Foi bom ter ido ao comício, e até me dá vontade de militar novamente, entregar panfleto, falar com as pessoas. Vamos ver se me animo a fazer isso.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

De volta à carteira escolar

Resolvi voltar a estudar. Na verdade, essa decisão não é de agora. Tentei três vezes ser aceito como aluno especial no mestrado da USP, mas não consegui. Agora, me matriculei no curso O Pensamento Econômico: Conceitos e Evolução Histórica, na Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), ligada à Faculdade de Administração, Economia e Ciências Contábeis da mesma USP; é um curso rápido, de duas semanas, mas servirá para um melhor embasamento intelectual que me permitirá elaborar um bom projeto para nova tentativa no mestrado. Tenho interesse no jornalismo econômico, a base do noticiário onde trabalho. Estou motivado a fazer o mestrado, porque quero futuramente ingressar em uma carreira acadêmica, e acho que vou gostar e me dar  bem nessa atividade.

O jornalão deu hoje em manchete que o Serra acusou o PT de tentar intimidar e manipular a imprensa. Referia-se a seminários organizados pelo partido sobre comunicação e direitos humanos e por pontos inseridos no programa de Dilma que depois foram retirados, além de um projeto de criação do Conselho Federal de Jornalismo. A falação do candidato tucano foi feita em evento da Associação Nacional de Jornais. Não entendo por que isso deu manchete. Quer dizer, entendo perfeitamente. Mas me causa entranheza, pois a petista também estava no evento e não foi dada uma linha à sua participação. Claro, ouviram-na a respeito das falas do Serra. Entendo que, por tratar-se de algo que, em seu entender, o partido almeja, ou seja, o controle dos meios de comunicação, mas não exerce nem tem-se notícias de que queira implementar não valeria manchete. Até porque ele não falou nada de novo, esse assunto vem sendo explorado pela imprensa há meses. Então. por que tanto destaque? Para piorar o jornalão deu em  um quadro na mesma matéria que está sob censura há 300 e tantos dias. Quem não está ao par do assunto pode fazer a associação e imaginar que o governo censura o jornalão. Lamentável.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fim de semana tranquilo

Não fui ao Rio nem assisti a A Origem. Fui ao cinema, em São Paulo mesmo, mas vi Reflexões de Um Liquidificador, de André Klotzel, diretor do ótimo A Marvada Carne. Reflexões é um filme policial com tons de humor negro, em que o eletrodoméstico cria vida e passa a dialogar com a dona de casa Elvira, papel de Ana Lúcia Torre. A voz do liquidificador é de Selton Mello, que tece reflexões, como diz o título, a respeito da vida e dos homens e, apesar do absurdo, torna-se confidente da dona da casa, que o chama de caco velho, por ser um liquidificador bem antigo. Logo de cara reparei que minha mãe teve um daquele, há muito tempo. O filme é muito bom, se bem que meio arrastado às vezes. Antes, teve um curta sobre um repentista chamado Divino, que proclama seus versos velozmente e nem dá para entender tudo o que ele fala. O filme é o seguinte. Elvira vai na polícia dar queixa do desaparecimento do marido Onofre (Germano Haiut). Ela sai de lá como principal suspeita, sendo perseguida pelo investigador Fuinha (Aramis Trindade). O filme então se desenrola nas reflexões do liquidificador, seus diálogos com Elvira, a visita da vizinha (Fabiula Nascimento, de Estômago, e na investidas de Fuinha, crente de que ela assassinou o marido. Depois da ida à delegacia, o filme faz um flash back para mostrar os antecedentes do desaparecimento. O liquidificador, que seria vendido pelo marido, escapa da troca de lar e comete uma inconfidência: conta que viu o mar e, aí, nasce a dúvida na cabeça de Elvira, que estava estranhando o excesso de horas extras diurnas do marido vigia noturno. Ela descobre, então, que Onofre tem uma amante, a Gorete Milagres (aquela atriz que fazia Oh Coitado na televisão, no papel de uma empregada doméstica). O desfecho é surpreendente, mas não de todo imprevisível. É uma boa diversão, pena que está apenas em uma sala, no Espaço Unibanco da rua Augusta.

Falar em rua Augusta, este sábado resolvi fazer o que tinha resolvido: andar pela avenida Paulista. Desci do metrô na Brigadeiro e fui à Fnac, olhar livros. CDs e DVDs, um ótimo passatempo. Acabei não comprando nada, porque tenho muitos livros em casa sem  ler e quero pôr tudo em dia. Discos e filmes também não estou muito a fim de comprar não, apesar de ter me encantado por uma caixa com a série completa de O Poderoso Chefão, que eu gosto muito. Quem sabe um dia... Também me interessei por Meu Tempo É Agora, um documentário sobre o Paulinho da Viola, que não vi quando estava nos cinemas. Também posso resolver levar algum dia. Quanto a CDs, tirando a reedição dos Beatles, não vi nada que me interessasse.

Antes do cinema, desci até a lanchonete Estadão e comi uma ótima feijoada, nada melhor nesse frio que um prato bem gordo como esse. Estava uma delícia, tracei tudo, não sobrando nada. Fazia muito tempo que não comia no Estadão, que era onde fazia meu lanche quando trabalhava no Diário Popular, de 1989 a 1996. Depois do filme, fui para casa e passei o resto da noite embrulhado em edredon e vendo TV, tomando vinho e comendo queijos. No domingo, acordei tarde, às 14h. Fui depois para a casa de minha irmã mais velha, Vilma, e a acompanhei, junto com a mais nova, Sonia, à igreja adventista. Foi legal, é um ambiente onde a gente se sente muito bem e ouve uma pregação que faz refletir sobre as coisas da vida. Foi um fim de semana tranquilo, que faz com que a semana role na boa, é o que espero.