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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Minha vinilteca (3): O Banquete dos Mendigos

 

MINHA VINILTECA


Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.

Em homenagem a Jards Macalé

Como o disco chegou a mim

O álbum duplo  "O Banquete dos Mendigos" apareceu no apartamento onde eu morava com minha então companheira Joana em São Bernardo do Campo (SP), creio que por volta de 1991. Não sei quem o esqueceu lá, já estava na estante antes de me casar com ela. Quer dizer, imagino quem o deixou lá, mas não digo, sob risco de a pessoa querer de volta (risos).

À época não tinha muitas informações sobre o disco, além daquelas disponíveis na capa, contracapa e encarte. O repertório e os intérpretes, de primeira grandeza, me chamaram a atenção de imediato, assim como a ilustração da capa, uma reprodução da "Última Ceia" de  Leonardo da Vinci (1452-1519). E também a tarja ao alto do canto esquerdo: "LIBERADO".

Eu me lembro de sentir uma certa angústia ao ouvi-lo inteiro na primeira vez. É um disco gravado ao vivo, com meus artistas preferidos de sempre, com plateia aplaudindo, gritando, mas não me pareceu clima de festa: era como uma impossibilidade de se irradiar alegria, dado o período de trevas em que foi gravado. E a voz forte do poeta e futuro imortal da ABL Ivan Junqueira lendo artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos acrescentava tensão ao clima.

O contexto de produção


Contava Jards Macalé (1943-2025) que, em 1973, ele estava duro e puto. Comendo da farinha do desprezo. Após dirigir em Londres o álbum "Transa", de Caetano Veloso,  no ano anterior, e não receber os devidos créditos, e de seu LP homônimo de 1972 ser um fracasso de vendas, resolveu promover um espetáculo beneficente - em benefício próprio, bem entendido -, seguindo uma onda da época de se realizar shows para ajudar os artistas que enfrentavam a barra pesada da ditadura.

A ideia foi bem recebida e obteve adesões de nomes de peso como Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Edu Lobo, Gal Costa e de debutantes como Raul Seixas e Luiz Melodia. Agora faltava encontrar um local para as apresentações. Foi quando o então diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), Cosme Alves Neto, lhe contou que estava sendo organizada uma mostra em homenagem aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e sugeriu que o espetáculo fizesse parte do evento. Jards topou na hora: farinha do desejo!

Assim, em 10 de dezembro (mesma data em que, em 1948, foi assinada a Declaração) de 1973, os músicos e intérpretes reuniram-se no MAM para um espetáculo cuja parte da divulgação ficou a cargo de meninos de favelas do Morro do Pinto e da Comunidade São Lourenço, que distribuíram pela cidade panfletos convidando para o evento. Mas, claro, se falar de direitos humanos em plena ditadura, governo Médici, não passaria batido.

Diz-se que a plateia, de cerca de 4 mil pessoas, estava coalhada de agentes da polícia à paisana (como se possível fosse algum disfarce) e os censores estavam na primeira fila do auditório. Soldados do Exército cercavam o prédio do museu. Não houve, contudo, repressão física, mas, como Chico Buarque fez questão de frisar, nem tudo era permitido. Em sua apresentação, Chico falou que seu repertório estava desfalcado e algumas canções foram proibidas de se executar, como "Vai Trabalhar, Vagabundo" (tema de filme homônimo de Hugo Carvana). No lugar dela, ele cantou trechos de "Jorge Maravilha", de Julinho de Adelaide, pseudônimo que usou à época para driblar a censura.

Detalhes técnicos


O show foi gravado de maneira sorrateira, driblando os olhares dos agentes da repressão, que chegaram a confiscar fitas de gravação, mas que, espertamente, foram enviadas a local seguro antes e os meganhas acabaram levando foram fitas virgens. Foi o primeiro desafio coletivo de artistas brasileiros à ditadura depois do Ato Institucional n° 5 (AI-5), no final do governo do general Médici (fonte: Memorial da Democracia).

A direção geral do espetáculo foi de Jards Macalé, com Ana Maria Miranda como assistente; coordenação geral de Xico Chaves e Lula, com assistência de Flor Maria e Beto; Mauricio Hughes e Ray como técnicos de som e Etiny de contrarregra.

A gravadora RCA produziu e lançou o LP em 1974, mas a censura o proibiu e recolheu os exemplares das lojas. O álbum só seria liberado em 1979, com capa diferente (o original era uma foto da plateia, e não a reprodução da obra de Da Vinci). O encarte de 12 páginas traz as fotos e textos da primeira versão recolhida.

O disco teve coordenação artística e direção de estúdio de Jards Macalé; mixagem de Paulo Frazão e Luis Carlos; fotos de Alexandre Koester, Cleber Cruz e Ivan Klingen e direção de arte por Ney Tavora. O texto do encarte menciona e agradece o espanhol Antonio Muiño Loureda, diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), um dos idealizadores da mostra; Ivan Junqueira, assessor de Imprensa do Centro de Informações das Nações Unidas no Brasil, que fez a leitura de artigos da Declaração; Heloisa Lustosa, diretora do MAM-RJ; o já citado Cosme Alves Neto; e Newton Anet, advogado e assessor jurídico.

O texto do encarte afirma que os artistas, gravadora e equipe abriram mão de seus direitos artísticos e fonográficos  "em função de outros Direitos que se tornaram urgentes: o Direito à Vida, à Sobrevivência". Diz ainda que metade dos ganhos com as vendas seria destinada ao Centro das Nações Unidas no Brasil para ser entregue ao Special Sahelian Office, escritório especial da Divisão dos Direitos Humanos, em benefício de populações da África Central assoladas pela seca, como o oeste da Mauritânia e leste da Etiópia.

O disco é dedicado ao poeta piauiense Torquato Neto, morto um ano antes.

Os músicos e as faixas dos LPs


Não há informações disponíveis sobre os músicos que acompanharam os intérpretes das faixas do álbum, supondo-se que alguns se acompanharam ao violão ou piano. Mas alguns chegam a mencionar seus acompanhantes. Edu Lobo e Milton Nascimento mencionam Danilo Caymmi na flauta; Bituca também apresenta Paulo, Claudio, Maurício e Toninho Horta (guitarra). O MPB4 sola e acompanha Chico, mas sem Magro.

O Grupo Soma, que toca neste LP uma faixa chamada PF (prato feito? Polícia federal?) era formado pelo baixista norte-americano Bruce Henry, Tomás Improta (teclados), Áureo de Souza (bateria) e o inglês Ritchie "Menina Veneno" (flauta). No show, o grupo tocou outras duas músicas: "Albuquerque Woman" e " Um Dia".



O LP duplo de 1979 contém 23 faixas, intercaladas pela leitura de 17 dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em junho de 2015, o selo Discobertas lançou uma caixa com 3 CDs (foto à esq.) contendo o show na íntegra - disponível no Spotfy (abaixo) -, com 43 faixas e a leitura integral do texto da Declaração, mas em faixa única ao final das apresentações.

A versão de 1974/1979 nunca foi editada em CD.



Disco 1

Lado A

1) Introdução
Art. 1º
2) "No Pagode do Vavá" (Paulinho da Viola) - Com Paulinho da Viola (voz e violão)
"Roendo As Unhas" ( Paulinho da Viola ) - Com Paulinho da Viola (voz e violão)
3) "Percussão" (Pedro dos Santos) - Com Pedro dos Santos
Art. 2 e 3
4) Art. 5
5) "Samba dos Animais" (Jorge Mautner) - Com Jorge Mautner (voz) e Nelson Jacobina (violão)
6) Art. 6 e 8
7) "Pra Dizer Adeus" (Edu Lobo/Torquato Neto) - Com Edu Lobo (voz e violão) e Danilo Caymmi (flauta)
Art. 9
"Viola Fora de Moda" (Edu Lobo/Capinam) - Com Edu Lobo (voz e violão) e Danilo Caymmi (flauta)

Lado B

1) "Palavras" (Luiz Gonzaga Jr.) - Com Luiz Gonzaga Jr. (voz e violão)
Art. 11 e 12
2) "Eu E A Brisa" (Johnny Alf) - Com Johnny Alf (voz e piano)
Art. 13 e 14
"Ilusão À Toa" (Johnny Alf) - Com Johnny Alf (voz e piano)
3) "Cachorro Urubu" (Raul Seixas/Paulo Coelho) - Com Raul Seixas
Art. 18
4) "P. F." (Bruce/Shields) - Com Grupo Soma
Art. 19
5) "Nanã das Águas" (João Donato/Geraldo Carneiro) - Com Edison Machado e Grupo
Art. 20 e 21

Disco 2

Lado A

1) "Pesadelo" (Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro) - Com MPB4
"Quando O Carnaval Chegar" (Chico Buarque) - Com Chico Buarque e MPB4
"Bom Conselho" (Chico Buarque) - Com Chico Buarque e MPB4
"Jorge Maravilha" (Julinho da Adelaide) -  Com Chico Buarque e MPB4
2) "Abundantemente Morte" (Luiz Melodia) - Com Luiz Melodia
Art. 23 (a)
3) "Cais" (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos) - Com Milton Nascimento (voz e violão)
Art. 23 (b)
"A Felicidade" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) - Com Milton Nascimento (voz e violão)

Lado B

1) "Anjo Exterminado" (Jards Macalé/Waly Salomão) - Com Jards Macalé (voz e violão)
"Rua Real Grandeza" (Jards Macalé/Waly Salomão) - Com Jards Macalé (voz e violão)
Art. 23 (c)
2) "Asa Branca" (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) - Com Dominguinhos (voz e acordeon)
"Lamento Sertanejo" (Dominguinhos/Gilberto Gil) - Com Dominguinhos (voz e violão)
3) Art. 30
4) "Oração de Mãe Menininha" (Dorival Caymmi) - Com Gal Costa


Ouça a íntegra no Spotfy


segunda-feira, 17 de março de 2025

Zé Kéti

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

No ano de 1961, Zé Kéti compôs, com Carlos Lyra (1933-2023), o "Samba da Legalidade".

A música integrava movimento de resistência ao golpe pretendido pelos ministros militares para evitar a posse de João Goulart (1919-1976), vice-presidente de Jânio Quadros (1917-1992), que havia renunciado em 25 de agosto daquele ano.

A canção só foi gravada em 1965, por Nara Leão (1942-1989), no disco "O Canto Livre de Nara". 

José Flores de Jesus, o Zé Kéti (1921-1999), foi compositor e cantor carioca. Na infância, eram frequentes as rodas de samba - seu pai, o marinheiro Josué Vale de Jesus, tocava cavaquinho e seu avô, João Dionísio de Santana, era flautista e pianista -, com presença de músicos como Cândido (Índio) das Neves (1899-1934) e Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho, 1897-1973).

Em 1924, com a morte do pai, passa a morar com o avô. Além do interesse pela música, na infância ganha um apelido, Zé Quieto, que é encurtado para Zé Quéti, e, grafado com um K, torna-se o nome artístico.

Aos 13 anos, é levado para assistir aos ensaios da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. É esse o seu primeiro contato com a música do morro.

Em fins da década de 1930, ele compõe suas primeiras marchinhas de carnaval. Em 1939, passa a frequentar o Café Nice, onde estabelece contatos fundamentais para sua carreira.

No início dos anos 1950, compõe o samba que se torna um dos seus maiores sucessos, "A Voz do Morro". A música é gravada pelo cantor Jorge Goulart (1926-2012), em 1955, com arranjo de Radamés Gnattali (1906-1988). No mesmo ano, a composição é tema do filme "Rio 40 Graus", de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018).

Surge no Rio de Janeiro o Zicartola, em 1963. O bar inaugurado por Cartola (1908-1980) e sua mulher, Dona Zica (Euzébia Silva do Nascimento, 1913-2003) é um ponto de encontro dos artistas cariocas nesse início dos anos 1960.

Zé Kéti é um representante do samba tradicional do morro carioca e uma referência para os músicos que vêm da bossa nova, como Nara Leão e Carlos Lyra.

Das conversas entre os frequentadores do bar, surge a ideia de realização de uma apresentação musical. O resultado é a peça "Opinião", de autoria de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), nomeada a partir do samba homônimo de Zé Kéti, que estreia no ano de 1964 em um pequeno teatro de Copacabana, com direção de Augusto Boal (1931-200) e participação de João do Vale (1934-1996), Ruy Guerra (1931-), Nara Leão, Carlos Lyra, Edu Lobo (1943-), Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) e Maria Bethânia (1946), que substitui Nara.

Kéti participa ainda de outras produções cinematográficas, como "O Boca de Ouro" (1962), também de Nelson Pereira; "A Falecida" (1965), de Leon Hirszman (1937-1987), e "A Grande Cidade" (1966), de Carlos "Cacá" Diegues (1940-2025).

Em 1965, lançou "Acender as Velas", considerada uma de suas melhores composições, que se inclui entre as músicas de protesto da fase posterior a 1964, com letra que desmistifica a beleza do morro e relata seus dramas.

Em 1967, a marcha "Máscara Negra", gravada por ele mesmo e também por Dalva de Oliveira (1917-1972), foi vencedora do carnaval, tirando o 1º lugar no 1º Concurso de Músicas para o Carnaval, criado naquele ano pelo Conselho Superior de MPB do Museu da Imagem e do Som e fazendo grande sucesso nacional.

No início da década de 1970, fazia parte da Ala dos Compositores da Portela ao lado de Monarco (Hildemar Diniz, 1933-2021), Candeia (Antônio Candeia Filho, 1935-1978), Paulinho da Viola (1942-), João Nogueira (1941-2000), Wilson Moreira (1936-2018), entre outros.

Em 1976, mudou-se para São Paulo, onde frequentemente apresentava-se em shows e gravou vários discos.

Voltou para o Rio em 1994. Em 1996, lançou o CD "75 Anos de Samba", com participação de Zeca Pagodinho (Jessé Gomes da Silva Filho, 1959-), Monarco, Wilson Moreira e Cristina Buarque (1950-).

Em 1997, completou 60 anos de carreira e foi homenageado com o show "Na Casa de Noca", na Gávea (RJ) e recebeu da Escola de Samba Portela um troféu em reconhecimento pelo seu trabalho.

Em 1998, ganhou o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra: mais de 200 músicas.

Em janeiro de 1999, recebeu a placa pelos 60 anos de carreira na roda de samba da Cobal do Humaitá. 

presentou-se ao lado da Velha Guarda da Portela e teve várias músicas regravadas.

Morreu de falência múltipla dos órgãos aos 78 anos em 1999. (Fontes: Enciclopédia Itaú Cultural, Dicionário Cravo Albin da MPB.) 


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Caterina Valente

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

A cantora, violonista, atriz e dançarina Caterina Valente (1931-2024) visitou o Brasil pela primeira vez em abril de 1961. Nascida em Paris, filha de italianos, era à época um dos nomes mais proeminentes da música pop europeia. Cantava em italiano, francês, alemão, espanhol e até em português.

No Brasil, cantou no Teatro Record, na rua da Consolação, em São Paulo, onde se apresentou todas as noites durante seis dias seguidos. Nos sábados e domingos, Caterina se apresentou em dois horários diferentes e fez mais algumas apresentações extras no restaurante Fasano.

Foi uma das maiores divulgadoras da bossa-nova na Europa no começo dos anos 1960. Seu vídeo no YouTube com Dean Martin (1917-1995) cantando "One Note Samba" (Samba de Uma Nota Só, de Newton Mendonça e Antônio Carlos Jobim) teve mais de 11 milhões de visualizações, segundo seu site oficial.

A cantora esteve também no Rio de Janeiro (sem cantar) e o "Diário de Notícias" relatou assim a visita, sob a manchete:

Catarina Valente viu bossa-nova e gostou: vai gravar na Europa!.

Revelando ser apreciadora da música brasileira, especialmente do gênero bossa-nova, Caterina Valente, 'a mulher mais musical do mundo', estêve, ontem à tarde (19 April 1961), no Copacabana Palace, contando as peripécias de sua longa vida de artista, que se inciou aos 5 anos de idade, quando acompanhava seus pais em tournées artísticas pela Europa.

Ela retornou ao Brasil em junho de 1968 para duas apresentações em São Paulo. Em 1979, esteve novamente aqui, quando foi produzido o documentário "Caterina Valente apresenta música brasileira", no qual ela canta com Luiz Bonfá (1922-2001) - com quem gravou um LP em 1963 -, Sebastião Tapajós (1943-), Tom Jobim (1927-1994), Vinícius de Moraes (1913-1980), Gilberto Gil (1942-), Edu Lobo (1943-), Quarteto em Cy, MPB-4, Clementina de Jesus (1902-1987), Luiz Gonzaga (1912-1989), Martinho da Vila (1938-), Dorival Caymmi (1914-2008)e Waldir Azevedo (1923-1980).

Morreu em 9 de setembro de 2024 em Lugano, na Suíça.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma noite em 67

O filme Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, que assisti neste sábado, tem a grata qualidade de trazer na íntegra a execução dos cinco primeiros colocados no Festival da Música Popular Brasileira, levado pela TV Record em 21 de outubro de 1967, além do destempero de Sérgio Ricardo, que arrebentou seu violão e o jogou para a plateia por não resistir às vaias ininterruptas que levou enquanto tentava defender sua canção. Eu vi essas apresentações inúmeras vezes desde o ano de sua aparição, mas nunca tinha visto todas em sua totalidade. O filme resgata essas apresentações, além de entrevistas da época e atuais. É muito interessante ver a sinceridade dos compositores e intérpretes ao puxar da memória o evento e até, em alguns casos, dar pouca importância a ele. As canções são, pela ordem crescente de classificação, Maria Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná, defendida por Roberto Carlos; Roda Viva, de Chico Buarque, com ele e MPB4; Alegria Alegria, de Caetano Veloso, por ele mesmo e Beat Boys; Domingo no Parque, de e com Gilberto Gil e Mutantes; e Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, com Edu e Maria Medalha. Eu li muito sobre os festivais, e o filme veio adicionar, além das exibições na íntegra, os depoimentos de seus principais participantes que de certa forma tentam desmistificar a importância daquilo. Caramba: os festivais foram, em certa medida, uma tomada de posição, um grito em um tempo em que a ditadura estava brava, e viria a engrossar ainda mais menos de um ano depois. Havia canções ingênuas, sim, havia, mas ali certas posturas eram um claro confronto ao regime, mesmo que não fosse essa a intenção. Mas eu cresci considerando os festivais - e este em particular ficou mais explícito - uma baforada de oxigênio novo sobre o que existia, um divisor de águas, e isso se percebe na richa que houve entre os defensores de uma MPB pura (sem guitarras, ou seja, anti-ianque) e os que buscavam novas linguagens, uma reformulação na música brasileira, com a aglutinação do que havia lá fora e o nascimento de uma coisa diferente - o que o Tropicalismo, que ali nasceu, faria depois. De qualquer forma estava tudo ali. Eu gosto muito de Roda Viva, acho uma obra-prima do Chico, mas ganhou Ponteio, que não deixa de ser uma bela canção. É um excelente documentário que com certeza eu pretendo ter quando sair em DVD.