O Barquinho Cultural

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quarta-feira, 26 de março de 2025

Vinicius de Moraes


Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Em janeiro de 1961, o diplomata, poeta e letrista Vinicius de Moraes (1913-1980) estreava nos discos com sua própria voz. A obra inaugural foi um 78 rotações lançado pela Philips, em que o Poetinha cantava, com acompanhamento de conjunto e coro, dois sambas de sua autoria, em parceria com Tom Jobim.

No lado A, “Lamento no Morro”, composição dos dois para a peça “Orfeu da Conceição”, marco inicial da parceria deles, em 1956. No lado B estava a primeira gravação de um dos grandes sucessos da parceria de Vinicius com Tom Jobim, “Água de Beber”, feita em junho de 1960.

O local da composição foi Brasília, onde os dois passaram dez dias a convite do então presidente da República, Juscelino Kubitschek, que os havia incumbido de compor uma obra sinfônica dedicada à nova capital.

A incumbência resultou no repertório que o público conheceria no LP “Brasília: Sinfonia da Alvorada”, lançamento da Columbia em 1961 (já abordado aqui).

Água de beber” não entrou no disco em homenagem à nova capital federal e se tornou uma das músicas mais regravadas da parceria Tom e Vinicius, lançada inclusive por grandes intérpretes estrangeiros, como Frank Sinatra (1967) e Ella Fitzgerald (1981), ambos cantando versos em inglês escritos pelo nova-iorquino Norman Gimbel.

“Lamento no morro” também foi muito regravada, por nomes como Lucio Alves (1961), Maria Bethânia (2005) e Sérgio Mendes com o Quarteto Maogani (2006), além do próprio Tom Jobim (1970), em grande arranjo do alemão Claus Ogerman.

Vinicius cantaria nos anos seguintes em vários outros discos, gravados com o parceiro Toquinho, com a portuguesa Amália Rodrigues (1978), com Odete Lara (1963) e registros de inúmeros shows – entre eles um com Dorival Caymmi e o Quarteto em Cy (1965) e outro com Miúcha e os próprios Tom Jobim e Toquinho (1977). (Fontes: Discografia Brasileira, IMMuB).



domingo, 16 de março de 2025

Sinfonia da Alvorada


Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

"Brasília: Sinfonia da Alvorada", poema sinfônico composto por Antônio Carlos Jobim (1927-1994) com letra de Vinícius de Moraes (1913-1980) em 1959, pretendia celebrar a inauguração da nova capital do Brasil em 1960.

A ideia da composição surgiu em 1958, idealizada pelo arquiteto de Brasília, Oscar Niemeyer (1907-2012). O arquiteto queria que a obra tivesse estreia no dia 21 de abril de 1960, data da inauguração de Brasília, o que não ocorreu.

“A ideia de escrevermos uma Sinfonia celebrando Brasília não é nova. Em fevereiro de l958, eu acidentado num hospital de Petrópolis, conversei pela primeira vez com Antônio Carlos Jobim sobre o assunto. Ainda no correr desse mesmo ano, alguns dos temas musicais aqui constantes já haviam sido compostos pelo jovem Maestro. (...) Houve logo, é claro, quem falasse em obra ‘encomendada’ e outras tolices do gênero, o que feriu certas suscetibilidades de Jobim. E a tarefa ficou postergada para dias mais inteligentes” escreve Vinícius na capa do LP.

Ficou decidido que a peça teria sua primeira apresentação nas comemorações de 7 de setembro na nova capital, o que também não foi possível devido aos altos gastos que seriam necessários.

A obra teve sua primeira gravação em novembro de 1960, pela Columbia, com o próprio Vinícius recitando o texto. O disco foi lançado em fevereiro de 1961.

A primeira apresentação do poema sinfônico ocorreu apenas em 1966, na TV Excelsior. A peça só veio a estrear em Brasília no ano de 1986, seis anos após a morte de Vinícius, na Praça dos Três Poderes.

A obra é dividida em cinco movimentos, nos quais são discorridos diferentes temas, como a paisagem do planalto central anterior à construção, a chegada do homem a fim de fundar a cidade, a chegada dos trabalhadores, o processo de construção da cidade e, por fim, um canto de exaltação à nova cidade. (Fonte: Museu Virtual Brasília)


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Caterina Valente

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

A cantora, violonista, atriz e dançarina Caterina Valente (1931-2024) visitou o Brasil pela primeira vez em abril de 1961. Nascida em Paris, filha de italianos, era à época um dos nomes mais proeminentes da música pop europeia. Cantava em italiano, francês, alemão, espanhol e até em português.

No Brasil, cantou no Teatro Record, na rua da Consolação, em São Paulo, onde se apresentou todas as noites durante seis dias seguidos. Nos sábados e domingos, Caterina se apresentou em dois horários diferentes e fez mais algumas apresentações extras no restaurante Fasano.

Foi uma das maiores divulgadoras da bossa-nova na Europa no começo dos anos 1960. Seu vídeo no YouTube com Dean Martin (1917-1995) cantando "One Note Samba" (Samba de Uma Nota Só, de Newton Mendonça e Antônio Carlos Jobim) teve mais de 11 milhões de visualizações, segundo seu site oficial.

A cantora esteve também no Rio de Janeiro (sem cantar) e o "Diário de Notícias" relatou assim a visita, sob a manchete:

Catarina Valente viu bossa-nova e gostou: vai gravar na Europa!.

Revelando ser apreciadora da música brasileira, especialmente do gênero bossa-nova, Caterina Valente, 'a mulher mais musical do mundo', estêve, ontem à tarde (19 April 1961), no Copacabana Palace, contando as peripécias de sua longa vida de artista, que se inciou aos 5 anos de idade, quando acompanhava seus pais em tournées artísticas pela Europa.

Ela retornou ao Brasil em junho de 1968 para duas apresentações em São Paulo. Em 1979, esteve novamente aqui, quando foi produzido o documentário "Caterina Valente apresenta música brasileira", no qual ela canta com Luiz Bonfá (1922-2001) - com quem gravou um LP em 1963 -, Sebastião Tapajós (1943-), Tom Jobim (1927-1994), Vinícius de Moraes (1913-1980), Gilberto Gil (1942-), Edu Lobo (1943-), Quarteto em Cy, MPB-4, Clementina de Jesus (1902-1987), Luiz Gonzaga (1912-1989), Martinho da Vila (1938-), Dorival Caymmi (1914-2008)e Waldir Azevedo (1923-1980).

Morreu em 9 de setembro de 2024 em Lugano, na Suíça.


sábado, 15 de fevereiro de 2025

Carminha Mascarenhas

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Carmina Allegretti, nome de batismo da cantora Carminha Mascarenhas (1930-2012), nasceu em Muzambinho (MG) e entrou para o mundo da música em Poços de Caldas, onde também se formou professora primária.

Participou lá do coral da igreja matriz e conheceu o pianista Raul Mascarenhas (1926-1987), com quem se casaria em 1952, gerando o saxofonista Raul Mascarenhas Júnior (1953-).

No ano seguinte, gravou seu primeiro disco com as canções de Hervé Cordovil (1914-1979) "Nossos caminhos Divergem" e "Folha caída". Nessa época, transferiu-se com o marido para Belo Horizonte, apresentando-se com ele na Rádio Inconfidência e em casas noturnas.

Em 1955, estreou como crooner do Copacabana Palace, substituindo Nora Ney (1922-2003). Ainda nesse ano foi eleita, juntamente com Sylvia Telles (1934-1966), "Cantora Revelação do Ano" e contratada para fazer parte do elenco da Rádio Nacional, estreando na emissora no programa "Nada Além de 2 Minutos".

Em 1956, separou-se do marido e viajou para o Uruguai, onde se apresentou na boate Cave e no Cassino de Punta del Este. Seguiu, depois, para Argentina e Paraguai. Gravou vários discos em 78 rpm e participou, com Elizeth Cardoso (1920-1990) e Heleninha Costa (1924-2005), de um LP dedicado à obra de Fernando Lobo (1915-1996), pai de Edu Lobo (1943-).

Em 1959, gravou seu primeiro LP solo, intitulado "Carminha Mascarenhas", em que registra a faixa "Eu Não Existo Sem Você", de Tom Jobim (1927-1994) e Vinícius de Moraes (1913-1980).

Atuou na TV Rio, participou de show de Ary Barroso (1903-1964), compôs músicas, gravou com Marisa Gata Mansa (1933-2003) um LP em homenagem ao compositor Newton Mendonça (1927-1960).

Ainda na década de 60, registrou no LP "A Noite é de Carminha" as canções que apresentava na noite carioca. O LP incluiu "Per Omnia Saecula, Saeculorum" (algo como 'Por Todos os Séculos dos Séculos'), samba de Miguel Gustavo (1922-1972), cuja execução foi proibida pela censura.

Nos anos 80, apresentou-se no Sambão e Sinhá, casa noturna de Ivon Curi (1928-1995), com o espetáculo Carnavalesque, que ela própria escreveu.

Seguiu apresentando-se esporadicamente e, em 2001, atuou ao lado de Ellen de Lima (1938-), Carmélia Alves (1923-2012) e Violeta Cavalcanti (1923-2014) no espetáculo "As Cantoras do Rádio: Estão Voltando as Flores".

Seu último trabalho foi nos anos de 2003 e 2004, quando atuou nos shows "Ninguém me ama?, "Canto para Nora Ney" e "Tra-lá-lá Lamartine é 100", ambos escritos, dirigidos e apresentados por Ricardo Cravo Albin.

Terminou seus dias no Retiro dos Artistas no Rio de Janeiro.



Johnny Mathis

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Johnny Mathis (1935-) é um cantor nascido no Texas (EUA), e desde cedo manifestou talento para o canto, o que levou seu pai a colocá-lo, aos 13 anos, em aulas para aperfeiçoar a técnica.

Mathis também se destacava nos esportes do colégio e ganhou uma bolsa de estudos para atletismo no San Francisco State College (agora San Francisco State University).

Enquanto estava na faculdade, ele começou a cantar em clubes de jazz locais, quando atraiu a atenção de um representante da Columbia Records.

Abandonou o esporte profissional e decidiu seguir uma carreira musical na gravadora - onde é o artista contratado mais longevo.

A primeira gravação de Mathis, "Johnny Mathis: A New Sound in Popular Song" (1956), foi no estilo jazz, com arranjos de Gil Evans e outros.

Não conseguiu impressionar o público, no entanto, e o executivo e produtor da Columbia, Mitch Miller, posteriormente conduziu Mathis para as baladas românticas, o que surtiu efeito e lhe trouxe o sucesso.

Em 1964, Mathis fundou sua própria empresa de gerenciamento e produção, a Rojon Productions. Expandiu seu repertório com canções de Beatles, Burt Bacharach e Antônio Carlos Jobim.

Com o álbum "I’m Coming Home" (1973), Mathis também começou a se envolver com a música soul.

Apesar de não ter mais o destaque de antes, continua gravando e se apresentando regularmente. Em 2016, Mathis celebrou seu 60º aniversário de carreira com uma turnê comemorativa.

Em 1961, seu sucesso foi a música "My love for you" (Abner Silver e Sid Wayne), que alcançou lugares de destaque nas paradas também no Brasil.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Neil Sedaka

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

O cantor, compositor e pianista americano Neil Sedaka (1939-2026) começou na música aos 9 anos de idade, estudando piano clássico.

Aos 16, buscando popularidade no colégio, começou a tocar rock'n'roll e formou o grupo de doo-wop "The Tokens", com o qual gravou dois singles que viriam a ser sucessos regionais.

Mas, quando conheceu o jovem vizinho Howard Greenfield (1936-1986), constituiu uma parceira que vendeu 40 milhões de discos entre 1959 e 1963, segundo informa seu site oficial.

Sedaka e Greenfield se tornaram um dos criadores originais do som “Brill Building” no final dos anos 50 e início dos 60. O "Brill Buiding" era um tipo de subgênero pop da época, identificado com canções para adolescentes, que levou esse nome por causa do edifício homônimo em Nova York onde os produtores Don Kirshner e Al Nevins arregimentavam autores de canções edulcoradas para grupos focados a esse público teen.

O primeiro sucesso de Sedaka foi quando a cantora Connie Francis (1938-) gravou seu "Stupid Cupid", em 1958. Como resultado, Sedaka conseguiu assinar um contrato com a RCA Victor e logo alcançou o topo das paradas com "The Diary", "Oh! Carol", "Stairway to Heaven" (não confundir com a canção homônima do Led Zeppelin), "Calendar Girl", "Little Devil", "Happy Birthday Sweet Sixteen", "Next Door To An Angel" e "Breaking Up Is Hard To Do".

A invasão britânica iniciada em 1964 com The Beatles mudou o panorama musical nos EUA, mas Sedaka conseguiu se manter, compondo para diversos outros artistas, como Frank Sinatra, Elvis Presley, Tom Jones, The Monkees, entre outros.

Sedaka também conseguiu reconhecimento na Inglaterra, chamando a atenção de Elton John, que o contratou para seu selo, Rocket Records, no qual gravou dois álbuns, "Sedaka’s Back", em 1974, e "The Hungry Years", em 1975.

Em 1995, Sedaka parou de compor canções pop e voltou sua atenção para a música clássica. O resultado foi o álbum "Classically Sedaka", onde adaptou melodias clássicas de Chopin, Rachmaninoff, Tchaikovsky, Schummann e Puccini e elaborou letras originais para cada peça.

"I Do It For Applause", de 2016, é o último álbum de estúdio de Sedaka, com doze novas canções.

Em 1961, Sedaka lançou dois LPs, "Circulate" e "Neil Sedaka Sings Little Devil and His Other Hits". O primeiro traz apenas duas músicas dele com Greenfield; as outras são covers, incluindo "A Felicidade", de Vinicius de Moraes e Antônio Carlos Jobim. O segundo é o contrário: são 10 das 12 faixas da autoria da dupla, a maioria lançada anteriormente em singles.

PS: Neil Sedaka morreu nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026, aos 86 anos, de causas não reveladas. O cantor foi indicado a cinco prêmios Grammy durante a carreira. Ele foi incluído no Hall da Fama dos Compositores em 1983 e recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Tim Maia

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.


O ano de 1961 foi particularmente importante para o som que Tim Maia viria a fazer quando retornasse ao Brasil, deportado, em 1964. Morando nos EUA, o então Jimmy, The Brazilian, como era conhecido, conheceu o cantor italiano Felix De Masi e, com outros amigos - Roger Bruno, Paul Mitranga e Bill Adair - formaram o The Ideals, com repertório e estilo focado na então nascente soul music, cuja maior caixa de ressonância era a gravadora Motown, de Detroit.

O quinteto chegou a gravar um acetato, para o qual reza a lenda que Tim conseguiu convencer Milton Banana, que estava lá para a famosa apresentação dos bossa-novistas Tom Jobim e João Gilberto no Carnegie Hall, em 1962, para tocar bateria no disco.

A demo-tape teve "New Love", de Tim e Roger Bruno, no lado A, e “Go Ahead and Cry” no outro lado. O acetato foi gravado no estúdio Ray Cup Records, em Nova York, e, até onde se sabe, nunca foi lançado.

Tim gravou "New Love" em seu quarto LP, de 1973, com uma levada meio bossa-nova, e "Go Ahead...", canção no estilo Doo-Wop, aparece em uma coletânea chamada Crystal Ball Records, onde a faixa é atribuída a Felix & The Ideals. Na gravação, ouve-se nitidamente Tim nos backing vocals.


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Elizeth Cardoso


Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.


"A Divina" Elizeth Cardoso (1920-1990) já era uma artista consagrada em 1961. Descoberta por um adolescente Jacob do Bandolim (1918-1969) ao ouvi-la cantar na festa de seus 16 anos, levou-a para um teste na Rádio Guanabara.

Apresentou-se em 18 de agosto de 1936 no Programa Suburbano, ao lado de Vicente Celestino, Aracy de Almeida, Moreira da Silva, Noel Rosa e Marília Batista.

Na semana seguinte foi contratada para um programa semanal da mesma rádio.

Prosseguiu se apresentando em rádios, circos, clubes e cinemas, mas complementando a baixa renda trabalhando até como taxista.

Até que, em 1950, apadrinhada por Ataulfo Alves (1909-1969), gravou seu primeiro 78 rpm, pela gravadora Star, com "Braços Vazios (Acir Alves e Edgard G. Alves) e "Mensageiro da Saudade" (Ataulfo Alves e José Batista).

O disco não aconteceu, e até chegou a ser recolhido por defeito técnico.

O sucesso veio na segunda gravação, realizada na Todamérica em 1950, com a música "Canção de Amor" (Chocolate e Elano de Paula) e o samba "Complexo" (Wilson Batista). Esse trabalho lhe abriu várias portas de gravadoras, rádios, TV, inclusive no cinema.

Em 1958, gravou pela Copacabana o LP "Canção do Amor Demais", disco considerado inaugural da bossa nova, pois era todo dedicado a músicas de Tom Jobim (1927-1994) e Vinícius de Moraes (1913-1980), além do acompanhamento ao violão de João Gilberto (1931-2019) em "Chega de Saudade" e "Outra Vez".

Um dos 78 rpm lançados em junho de 1961 traz "Balão apagado" (Noel Rosa/Marília Batista) e, no lado B, "Notícia de Jornal" (Haroldo Barbosa-Luiz Reis), esta resgatada por Chico Buarque em seu LP de 1975 ao vivo com Maria Bethânia.



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Isaurinha Garcia

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Isaurinha Garcia (1923-1993) nasceu no italianíssimo bairro paulistano do Brás e foi considerada uma das mais importantes intérpretes de MPB do século XX.

Foi a primeira cantora a receber o título de rainha do rádio paulista, conquistado em 1953.

Era considerada por diversos críticos e jornalistas como a Edith Piaf (1915-1963) brasileira.

Começou a carreira em 1936, após vencer um concurso de calouros na Rádio Record, de quem se torna contratada dois anos depois.

Seu maior sucesso foi "Mensagem", de Aldo Cabral (1912-1994) e Cícero Nunes (1912-1993), lançada em 1946.

Sempre foi fiel ao samba, samba-canção, com pura temática de fossa, em uma interpretação carregada de sentimento. O que não lhe impediu, no início dos anos 1960, de se aproximar dos expoentes da recém-chegada bossa-nova, contato facilitado após conhecer o futuro marido, o organista Walter Wanderley (1932-1986).

Ele traz modernidade e renova a sonoridade dos discos da cantora. Assim, incorpora ao seu repertório canções de Tom Jobim (1927-1994), Vinicius de Moraes (1913-1980), Tito Madi (1929), Johnny Alf (1929-2010) e a dupla Roberto Menescal (1937) e Ronaldo Bôscoli (1928-1994).

Isaurinha Garcia foi uma das primeiras intérpretes a gravar “Água de Beber”, de Vinícius e Jobim. A faixa está no álbum "A pedida é samba", gravado pela Odeon e lançado em 1961.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

João Gilberto

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.


"João Gilberto" foi o terceiro LP solo gravado pelo baiano de Juazeiro. Lançado em 1961 pela Odeon, sucede "Chega de Saudade" (1959, Odeon) e "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960, Odeon).

As 12 faixas alternam o acompanhamento de Walter Wanderley e seu conjunto e a orquestra conduzida por Tom Jobim.

Traz dois clássicos de Dorival Caymmi ('O Samba da Minha Terra' e 'Saudade da Bahia), o hit "O Barquinho" (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli), duas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes ('Amor em Paz' e 'Insensatez'), duas de Carlinhos Lyra e Vinícius ('Você e Eu' e 'Coisa Mais Linda') e obras de outros autores como Geraldo Pereira ('Bolinha de Papel'), Marçal e Bidê ('A Primeira Vez'), Lauro Maia ('Trem de Ferro') e Nelcy Noronha ('Presente de Natal').

A faixa escolhida fecha o disco e inaugura um estilo que o acompanharia a vida toda depois: ele acompanhando-se apenas pelo violão. E que violão!

"Este seu Olhar", de Tom Jobim.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Sir João Bosco

    João Bosco e banda apresentam "Abricó-de-macaco" no Sesc Vila Mariana. Foto: Carlos Mercuri

O mineiro João Bosco fez três apresentações neste meio de janeiro no Sesc Vila Mariana (SP), dias 17, 18 e 19, coincidindo, no caso do sábado, da homenagem que Serginho Groisman lhe dedicou no "Altas Horas", da TV Globo, junto ao ex-titã Nando Reis.

Fui ver João domingo, 19, por coincidência data em que, em 1982, a gaúcha Elis Regina (nascida aos 17 de março de 1945) deixou esse plano. Claro, o mineiro, de cuja histórica parceria de 50 anos com o carioca Aldir Blanc (1946/2000) a Pimentinha apropriou-se e fez suas tantas obras-primas, não poderia deixar de homenagear. O que fez nos derradeiros minutos do show de duas horas no incrível teatro Antunes Filho, de acústica impecável.

Aos 78 anos (nascido em Ponte Nova aos 13 de julho de 1946), João Bosco de Freitas Mucci, cuja primeira gravação foi "Agnus Sei", parceria com Blanc, lado B de "Água de Março", de Tom Jobim, em disco lançado pelo jornal anarco-porraloka" Pasquim em 1972, trouxe ao Sesc um apanhado de pérolas de sua carreira.

O show (falo de domingo, 19, quando fui assistir, mas me parece que o set list foi rígido nos três dias) começa com "Incompatibilidade de Gênios" - dele e Aldir, do LP "Galos de Briga", de 1990, após a qual João apresenta sua banda: o carioca Ricardo Silveira (guitarra) e os gaúchos Guto Wirtti (baixo e backing vocal) e Kiko Freitas (bateria e percussão). Música de uma ironia ímpar, imortalizada por Clementina de Jesus (1901/1987) em 1975.

Em seguida, toca "Bala com Bala", lançado por Elis em seu primeiro álbum em parceria com o futuro marido César Camargo Mariano, "Elis", de 1972, produzido por Roberto Menescal. Bosco gravaria a canção em seu álbum homônimo de 1973.

Aí João dá um salto até o LP "Gagabirô", de 1984, de onde extrai "Prêt-à-Porter de Tafetá", letra de Aldir que mistura coisas de nossa cultura afrobrasileira com um pastiche francês "a nível de" sofisticação. Depois vem  "Abricó-de-Macaco", de João e seu filho Francisco Bosco, de disco de mesmo nome de 2020, que, teoricamente, dá nome ao show, mas de cujo repertório só tocam esta.

A próxima é a aclamada "De Frente para o Crime", do LP "Caça à Raposa", de 1975; três de 1982: "Nação", "Tanajura" e "Coisa Feita" (de Bosco, Blanc e Paulo Emílio), dos álbuns "Comissão de Frente" e "Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão". "Nação" foi gravada por Clara Nunes (1942/1983) em LP homônimo um ano antes de morrer.

A nona do espetáculo é "Odilê, Odilá", do álbum "Cabeça de Nego", de 1978; seguida por "Gênesis (Parto)", de "Tiro de Misericórdia", de 1977; avança para "Ronco da Cuíca", outra do "Galos de Briga"; e termina a temática do sofrimento dos escravizados africanos com "Sinhá", dele e Chico Buarque, que o carioca de "A Banda" gravou em 2011 em álbum homônimo e Bosco em "Mano que Zuera", de 2017.

Agora temos uns momentos de puro romantismo, com "Desenho de Giz", parceria com Abel Silva, gravado em "Ai, Ai, Ai de Mim" de 1986, e "Jade", do disco "Bosco", de 1989. 

A próxima é uma parceria com o ex-titã Arnaldo Antunes, "Ultra Leve", também do "Mano que Zuera", momento em que Bosco desinibe e troca umas ideias com a plateia. Diz que essa música entrou na apresentação anterior, e, apesar de a considerar algo na linha pós-bossa nova, o baterista Kiko viu algo de funk carioca nela.

Momento Elis

Mais descontraído, destaca que era 19 de janeiro e se recorda que, em 1982, estava em uma praia no Espírito Santo sem telefone quando ouve pelo rádio sobre a morte de Elis. Aí em sua homenagem toca "Transversal do Tempo", gravada por ela no álbum "Elis", de 1977, e que intitulou seu LP de 1978 (sem trazer a música). Como a letra fala de alguém preso em um táxi, com sinal amarelo eterno, eles tocam uma introdução instrumental como se fosse algo que estava passando no rádio do táxi.

Emenda com "Corsário", com "Concierto de Aranjuez" (Joaquín Rodrigo) na introdução. Elis cantou esta em especial da TV Bandeirantes em 1976 e foi lançada no álbum póstumo "Luz das Estrelas", de 1984. João a gravou no LP "Bosco", de 1989.

A última (antes do bis), claro, tinha de ser "O Bêbado e a Equilibrista", com a perene introdução de "Smile", de Charles Chaplin, que Elis sacramentou em seu álbum "Essa Mulher", de 1979, e Bosco em "Linha de Passe", do mesmo ano.

A música foi inspirada na morte do cineasta Charles Chaplin, em 25 de dezembro de 1977, mas a letra de Aldir acabou abordando coisas do Brasil da época e se tornou, espontaneamente, uma espécie de hino da anistia, promulgada finalmente em 1979.

Dizem que ela foi tocada por muitos em aeroportos em gravadores portáteis na recepção da volta dos exilados, entre eles o irmão do Henfil (Henrique de Souza Filho, 1944/1988), Betinho (Herbert de Sousa, 1935/1997).

O bis foi a grande "Papel Marchê", de Bosco e do baiano José Carlos Capinam, também do "Gagabirô".  A música ganhou projeção ao ser incluída  na trilha da novela global "Corpo a Corpo", de 1984/1985, tema do personagem de Antônio Fagundes (Osmar).

Foi um espetáculo digno do nome, com uma banda superentrosada e um João Bosco com uma voz firme e um violão singular que não tem como classificar. Bolero, samba-jazz, cabaré, gafieira? Só sei que, em alguns momentos, me parecia estar diante de sir Duke Ellington (1899/1974) conduzindo sua orquestra. 


Set list (música e álbum original):


1) Incompatibilidade de Gênios - "Galos de Briga", 1990

2) Bala com Bala - "João Bosco", 1973

3) Prêt-à-Porter de Tafetá - "Gagabirô", 1984

4) Abricó-de-Macaco (João e Francisco Bosco) - "Abricó-de-Macaco", 2020

5) De Frente pro Crime - "Caça à Raposa", 1975

6) Nação - "Comissão de Frente", 1982

7) Tanajura- "Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão", 1982

8) Coisa Feita (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio) - "Comissão de Frente", 1982

9) Odilê, Odilá- "Cabeça de Nego", 1978

10) Gênesis (Parto) - "Tiro de Misericórdia", 1977

11) Ronco da Cuíca - "Galos de Briga", 1990

12) Sinhá (Chico Buarque e João Bosco) - "Mano que Zuera", 2017

13) Desenho de Giz (João Bosco e Abel Silva) - "Ai, Ai, Ai De Mim", 1986

14) Jade - "Bosco", 1989

15) Ultra Leve (Arnaldo Antunes e João Bosco) - "Mano Que Zuera", 2017

16) Transversal do Tempo - "Galos de Briga", 1990

17) Concierto de Aranjuez (Joaquín Rodrigo) e Corsário - "Bosco", 1989

18) Smile (Charles Chaplin) e O Bêbado e a Equilibrista - "Linha de Passe", 1979

BIS

19) Papel Marchê (João Bosco e Capinam) - "Gagabirô", 1984 


* Exceto as indicadas, todas composições de João Bosco e Aldir Blanc