Estou lendo "Minha fama de mau", autobiografia de Erasmo Carlos, e descobrindo que o sujeito é engraçado, tem bom humor e um grande talento para rir de si próprio. O livro é uma delícia, se bem que às vezes ele incensa demais o seu amigo Roberto Carlos. Mas está recheado de boas histórias da Jovem Guarda e primórdios. Bem, estou na metade do livro e ainda nem chegou propriamente nas jovens tardes de domingo - está começando agora, na minha leitura. Eu gostava muito da Jovem Guarda, costumava assistir aos caras na TV (não exatamente o programa do Roberto, pois eu era muito pequeno, mas os que vieram depois), lia as Revistas do Rádio, Melodias, Fatos e Fotos e outras que apareciam - isso bem lá na frente já, alfabetizado, e ouvia no rádio e na TV as músicas. Como já postei aqui, quando fui ao show do Roberto pela primeira vez em minha vida, costumava ver os galãs e as galãs nos shows de aniversário de minha cidade, São Caetano do Sul. Não chegava a ser um fanático, desses que se vestem igual ao ídolo e tem tudo deles, mas o ritmo me agradava muito (talvez venha daí minha preferência, anos depois, pelo bom rock and roll, a partir de Beatles). O livro está sendo importante para resgatar essa etapa ingênua (nem tanto, apreende-se da leitura) de nossa história musical. A escrita (texto final de Leonardo Lichote) é ligeira, gostosa de ler, com orações bem concatenadas e histórias saborosas. Mas até aqui (pg. 152 de 343) dá a impressão de que o Erasmo está um tanto superficial, talvez ocultando passagens não muito nobres de sua trajetória, optando por lances engraçados ou comoventes, e valorizando demais as parcerias com o Rei. Eu esperava ler episódios obscuros que certamente a carreira de um artista tem, os trambiques, maracutaias, as puxadas de tapete... Têm algumas coisas assim, mas muito por cima. Erasmo parece que se preocupa mais em relatar suas aventuras sexuais (ou desventuras) do que em detalhar sua trajetória. Numa página ele é o moleque aprontando nas ruas de Tijuca, zona norte do Rio; noutra. já toca violão e canta no The Snacks; vem outra e já compôs a versão para Splish, Splash. Pode ser que mais à frente ele amarre essas pontas soltas, mas até o momento dá uma certa agonia, uma sensação de amadorismo, que imagino ele cometeria se tivesse escrito a obra sozinho. Vamos dar um desconto. Ao final do livro dou uma impressão final (sem trocadilho).
O Barquinho Cultural
sexta-feira, 30 de abril de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
O segundo debut da filha
Minha filha fez sua estreia no movimento estudantil. Os alunos de sua universidade - parte deles, claro - estão reclamando professores, equipamentos, ampliação do restaurante e da creche, entre outros itens, e há mais de uma semana estão em greve, tendo ocupado a Reitoria. A foto mostra ela empunhando um cartaz em passeata no campus, quando se dirigiam à sala da reitora. É engraçado vê-la nesse agito, a gente inevitavelmente se lembra da mesma época, dos valores que tinha, e remete ao agora, o que ficou para trás e o que criou raízes. Acho ótimo ela ter suas visões, convicções, creio que vai consolidando sua opinião, seu modo de pensar, e assim ela ingressa no mundo adulto, onde passa a ser uma cidadã. Acho que está na hora de emprestar-lhe uns livros (rs).
Tirando isso, vale um post pra dizer que não tem novidade, que não fiz nada, que a vida seguiu modorrenta como um caravançarai no deserto? A única novidade é que voltei à cidade de Praia Grande pela primeira vez desde que meu pai, que morava lá, morreu, há quase 10 anos. Está tudo bastante diferente, e a casinha dele continua lá, agora habitada pelos enteados, acho. Fiquei triste de passar por lá, claro, mas foi bom também recordar momentos felizes passados naquele lugar, os churrascos, a casa cheia de gente, as caminhadas pelo calçadão. Frequentamos a Praia Grande desde muito pequenos e a transformação foi realmente radical, apesar de ainda não ter confiança de entrar no mar de lá. Mas ficou bonito, sim. Tomei umas cervejas mordiscando iscas de peixe com minha nova amiga e o sábado foi passado dessa forma. Já o domingo foi sem muita atividade. Fui embora à tarde para poder trabalhar à noite. No feriado do dia 21 também não fiz nada que merecesse registro.
Não me decidi ainda a abandonar a terapia; fui segunda e quinta e mais uma vez a ladainha do sono. Gostava mais quando fazia umas terapias alternativas, que incluíam florais, acupuntura, cromoterapia, aromaterapia, massagem... Saía de lá muito leve e achando o mundo uma maravilha. Mas tinha que fazer minha parte, qual seja, não me estressar à toa, mesmo que tomasse uma bela fechada de um carro. Estar naquelas sessões correspondia a sair um pouco do mundo e levitar em uma esfera superior, onde tudo era leve e as preocupações ficavam lá embaixo. Podia ser um mero paliativo, mas o bem-estar proporcionado era muito legal.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Sono óbvio; insônia ululante
Parece piada. O homem que pago para me ouvir passou uma sessão quase inteira falando dos benefícios de uma boa noite de sono (para mim dia), de ter alguma rotina, horários certos e tal. Bem, nunca fui um cara regrado, sempre dormi, acordei e comi nos mais variados horários e chegar atrasado nos compromissos para mim é que é uma rotina. Poderia contar casos hilários aqui de meus atrasos, mas quero focar nesse negócio de sono. É claro que sei dos benefícios do sono, cara pálida! Dar uma grana pro sujeito me dizer isso me faz sentir-me lesado, roubado mesmo, é a palavra. Tudo bem, vamos ser condescendentes. Concordei e resolvi seguir um ritual para dormir bem. Desligar todos os telefones, TV, rádio, luzes, fechar bem as janelas, deixar o quarto bem aconchegante e dormir o mais cedo que puder. Foi o que fiz nesta quinta-feira, após a consulta-mesmice. Às 11h em ponto deitei-me, e dormi em seguida, sem dificuldade. Mas, apesar de todo esse cuidado, acordei meio-dia e meia, assim do nada, sem nenhum barulho a me despertar ou pesadelo a me afligir. Acordei, chateado, levantei-me, tomei água, fui ao banheiro, chequei o celular (tinha uma mensagem, respondi) e voltei à cama. Fiquei entre dormindo e acordando até 15h30. Aí vi que não tinha jeito e fui almoçar. Comi bem e resolvi assistir a um filme, O Sequestro do Metrô, baseado em um livro que li nos anos 70, quando era assinante do Círculo do Livro. Com Denzel Washington como o mocinho do controle do metrô, e John Travolta como o bandido assaltante. Bom filme, boas cenas de ação, apesar de clichês, diálogos interessantes, humor, ironia, alguma crítica política ingênua (ah, quando fala de corrupção, prefeito sacana e tal). Roteiro, no entanto, repleto de falhas, mas não chega a comprometer a obra como boa diversão. O resultado é que passei o tempo e, ao final dele, consegui dormir até 22h. Aí fiquei com preguiça de levantar, o que só acabei fazendo por volta de 23h, já no meio da Grande Família. Então a piada de que falava é essa: esta semana toda dormi bem, com TV e computador ligado, celular e telefone tocando, e, na hora que resolvo me isolar, o sono não vem. E olha que disse para o ouvidor que estava dormindo bem, mas parece que o cara não tem um plano B, sempre tem que seguir o que programou para mim independente do que eu lhe diga. Estou seriamente inclinado a deixar esse sujeito ouvindo o silêncio de minha ausência e investir essa grana em bons filmes e livros, coisas que talvez me permitam compreender um pouco melhor as coisas da vida que me afligem.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Um domingo de ócio total
Nossa, que domingo tive! Fiquei ele todo praticamente na cama, só levantei poucas vezes para as refeições, banheiro, essas coisas. No mais, TV, sono, filminho, internetadas. Pior é que acordei muito cedo, por volta de 8h, e assisti ao programa rural da Globo. Depois, Inezita e Boldrin na Cultura. Gosto desses programas que tocam músicas regionais, nada a ver com esses sertanejos de hoje - nada contra, até ouço, e algumas são até bem feitas, mas a música caipira é, no meu ponto de vista, muito boa. Teve show da Central Scrutinizer no Centro Cultural São Paulo, mas não fui; era às 18h, e acordei às 16h morrendo de preguiça de sair. Também não fui na festa de lançamento da Devassa, sexta, em Jundiaí. Sábado churrasqueei com a família, depois de andar pelo shopping resolvendo problemas de celulares e impressoras, rs... Sexta Isabela voltou pra casa dela. Foi um sufoco no aeroporto de Congonhas. Chegamos uma hora antes da saída do avião, como recomenda a companhia. Mas a fila estava imensa e bateu o desespero de perder o voo. Felizmente deu tempo, na correria. Mas aprendi a lição: estar no check in pelo menos com hora e meia de antecedência, porque o que se anda de avião hoje não é brincadeira. Aliás, estacionar lá está cada vez pior, um estacionamento tão grande e sempre cheio. Pois é, parece que a crise está mesmo passando longe daqui. Bem, voltando ao domingo. Assisti a um filminho em DVD meio bobinho, mas, sei lá, devia estar carente, e me emocionei muito. Chama-se Sete Vidas, com Will Smith como principal personagem. Ele sofreu um acidente tempos atrás que causou a morte de sete pessoas, porque foi ver recado no celular enquanto dirigia e não viu seu carro ir em direção a uma van cheia de gente. Sua mulher também morre no desastre. Aí sabemos que ele é agente fiscal da Receita e escolhe sete pessoas que estão com dificuldades para ajudá-las de alguma maneira. É um modo de ele compensar as sete vidas que fez ceifar. Ele acaba se apaixonando por uma de suas beneficiadas e o que ele faz por ela é realmente comovente, apesar de a crítica ter achado um tanto piegas. Sei lá, esses críticos é que são meio piegas às vezes. Claro, é um filme feito mesmo para comover, é do mesmo diretor de À Procura da Felicidade, com o mesmo Smith (Gabriele Muccino), mas gosto de filmes assim, me comovo e dane-se se pareço babaca. Estava, porém, especialmente sensível este domingo e o desprendimento do cara, apesar de fruto de um remorso imenso, me deixou pensativo. Faria eu algo assim por pessoas que nem sequer conheço, apenas porque elas merecem? Outra coisa, precisa de uma motivação forte assim (expiar uma culpa) para se fazer o bem às pessoas? Tem uma cena em que ele doa medula óssea a um garotinho com câncer que é muito forte. A extração é feita sem anestesia e a dor é muito bem representada por Smith, bem como a hora que ele comete o suicídio (não estou estragando o prazer de ninguém porque o filme começa com ele anunciando que vai se matar), de uma forma assustadora. Eu acho que só as boas interpretações valem o filme, apesar de ser um tanto arrastado, lento, de não promover o crescendo necessário para esperarmos ansiosamente pelo clímax. Acabei de vê-lo com um certo espírito de solidariedade e me achando pouco empenhado em ajudar quem precise. E a gente vê na TV esse desastre que houve no Rio e fica comovido, revoltado, mas faz o quê? Depois de notícias de que muitas doações não chegaram ao Haiti dá mais raiva ainda, vontade de mandar tudo para aquele lugar. Sabe, tem dias que sinto muita raiva da humanidade, apesar de que generalizar não é boa ideia. Mas egoísmo e individualismo são pragas que vicejam por aí, e sacanagem com os outros, mais ainda. Assusta-me muito isso aí. A gente precisa de uma boa crosta grossa nas costas para poder sobreviver nessa selva, e também de tolerância, senão sai brigando toda hora. Depois do filme, papeei um pouco no MSN e dormi gostoso até cerca de 17h, já no final do jogo Santos 3 x São Paulo 2. Meu cunhado e sobrinho tricolores devem estar putos... Vi Faustão, cheio de celebridades desfilando demagogia com a desgraça alheia e depois Fantástico, que trouxe cenas de um resgate no morro do Bumba, em Niterói (RJ). É impressionante como a Globo consegue essas coisas: em plenas operações arriscadíssimas no local da tragédia, mete uma equipe toda lá. Não sei se outras emissoras também puderam acompanhar o resgate do homem. Lembrou-me demais do filme A Montanha dos Sete Abutres, com Kirk Douglas, guardadas as devidas diferenças, quer dizer, não estou dizendo que, tal qual o personagem de Kirk, um jornalista inescrupuloso, a Globo esteja explorando a desgraça alheia; só me encano um pouco por certa exclusividade que ela muitas coisas consegue, à custa sabe-se de que expediente. Mas, se for esforço de reportagem, como parece que é, parabéns a ela, como sempre. Terminado o show da vida, fui trabalhar, esperando que esta seja uma semana boa e de realizações. O bom é que o próximo final de semana já está garantido. Depois eu conto.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Maioridade
Não me lembro muito bem de quando completei 18 anos. Recordo-me vagamente de que me alistei, tirei documentos (título de eleitor, identidade, CPF) e estava procurando emprego, inutilmente. Era 1979. Época da discoteca, e eu era frequentador de algumas pistas, onde tentava dançar à la Travolta (ridículo, eu). Não tirei carteira de motorista de imediato, sonho de todo moleque que atingia a maioridade. Não tinha grana para isso, nem carro. Eu era um cara muito diferente do que viria a me tornar depois. Meio vagabundo, apesar de ralar os parcos músculos carregando carrocerias de caminhões na transportadora São Thomé para descolar uns trocados que garantiam a balada, o cigarro e a calça Levi's comprada na loja de fábrica, na longínqua Vila Leopoldina, zona oeste da capital, onde o preço era inferior porque havia um defeito ou outro que tirava a peça das lojas. Meu pai vivia me cobrando uma ocupação, mas idade de serviço militar era ruim para conseguir emprego, só esses bicos na transportadora. Também não ia bem na escola; fiquei em recuperação em Matemática Aplicada, no terceiro colegial, dois anos seguidos, o que, somado à reprovação da 6ª série, iria me atrasar e fazer entrar na faculdade somente aos 21 anos. Minha filha entrou com 17! Tinha uma turma de amigos ótima, mas pouco chegada a estudos. A maioria pensava em cursar Senai e ser operária. Eu mesmo cheguei a fazer o curso de aprendizagem industrial, de desenho mecânico, mas abandonei quase no final, porque não tinha como comprar o caro material. Eu queria fazer faculdade - e, claro, fiz. No 1º colegial, quando completei 18 anos, me encantei com as aulas de Química e pensei em seguir essa profissão. No ano seguinte a matéria complicou e já fiquei motivado a ser desenhista de plantas, por causa das aulas de Edificações. O problema é que essa matéria deixou de existir no ano seguinte porque o governo mudou o plano educacional e tirou a ênfase na profissionalização para manter o foco anterior na formação intelectual. E o material caríssimo todo que meu pai teve de comprar a muito custo? O mesmo material que me fez desistir do Senai, ironia do destino (pelo jeito, não era para eu ser desenhista mesmo, apesar de adorar rabiscar umas coisas...) No último ano já não sabia mais o que gostaria de ser, mas me apaixonei pela professora de PIP (Programas de Informação Profissional), uma loira que ia à escola de moto com roupas justas de couro preto que me deixava louco, eu com todos meus hormônios dos 20 anos... Em conversas vocacionais com ela, chegamos à conclusão que meu condão era para a escrita, pois ia bem em Português e Redação e adorava ler e escrever. E também já estava metido com a observação da realidade por um prisma um pouco mais político, devido às novas atividades de que comecei a participar em 1980 e que foram uma reviravolta em minha vida e no meu modo de pensar. Pois então as opções principais seriam Letras ou Jornalismo. Havia ainda Arte Dramática, pois na época fazia teatro amador. E acabei fazendo isso mesmo, me inscrevi na Metodista de São Bernardo para Comunicação e na Fatea, de Santo André, para Educação Artística, que nem cheguei a terminar as provas porque o resultado da Metô saiu antes. Nem tentei USP porque estava afastado dos estudos havia dois anos por conta das reprovações em Matemática Aplicada (detesto matrizes até hoje). Bem, para quê estou dizendo (escrevendo) tudo isso? Porque ontem, 8 de abril, minha filha completou 18 anos, uma data importante e marcante para qualquer pessoa. Ela chega na maioridade em um contexto completamente diferente do meu. Morando em outro Estado, dividindo apartamento com uma prima, cursando uma universidade federal, em breve terá seu carrinho, mas estudando o mesmo que eu, o que eu jamais poderia imaginar que fosse acontecer, mas do que me orgulho muito, porque, apesar de tudo adoro minha profissão e acho que ela leva muito jeito para isso sim. A sensação, claro, é de que ela continua uma garotinha e morro de medo de vê-la solta nesse mundo, como já descrevi aqui. Mas a realidade é que ela está maior de idade e cada vez mais construindo sua própria vida, pavimentando seu próprio caminho nesse mundo. E precisa disso. E eu tenho mais é que ficar quieto e dar todo apoio de que ela precisar, pois assim ela vai longe, tenho certeza disso.
Ah, uma coisa engraçada: apesar de eu ter título de eleitor desde os 18 anos, só aos 21 fui usá-lo. Isabela participou de sua primeira eleição aos 16.
terça-feira, 6 de abril de 2010
A noite
Sábado, bar Metrópolis, avenida Paulista, cerca de 23h. Hesito à porta, medo de entrar. Dou uma volta pela Doutor Arnaldo, contorno, pego a Consolação, viro na Fernando, subo a Haddock, retorno à Consolação e, decidido, resolvo entrar. Vou ao estacionamento, dezoito paus! Mas a chave pode ficar comigo. Na porta do bar, alguns frequentadores, mais jovens que eu, diversidade de roupas. Acho que estou adequado com minha camisa de mangas curtas de padrão xadrez, verde, e o jeans, harmonizando com meu sapato preto confortável presente de aniversário de minha filha. Entro, vinte e cinco paus de cara, sem direito a consumação. Quarenta e três paus gastos até agora sem um pingo de diversão, fora o combustível. Lugar quase lotado, mas o som bem bacana, a cargo da banda Almanak, tocando rocão básico dos 70, 80. Assim que entro, percebo olhares em minha direção, curiosos apenas. Creio que não abafei. Vou para o fundo procurar minha amiga. Não a encontro. Fico perto do bar. Curto o som, vejo a fauna local. Pessoal na casa dos 30, nada de meninada. Olho o cardápio. Preços, como era de esperar, exorbitantes. Seis reais uma simples Cerpa. Dezesseis um Red Label. Decido por um Jack Daniels, já que estou na chuva. Pancada de mais de dezessete pilas! Mas tomo com gosto, já ao lado de minha amiga e a amiga dela, com quem já dividimos outras pistas. A ideia era aproveitar o ambiente e curtir a night. Mas não me dou bem nesses lugares, e em pouco tempo já estava querendo ir embora. Ainda mais que a amiga, com quem já fomos um pouco mais do que amigos, parecia que queria que eu deixasse o caminho livre e fosse tentar a sorte em outra freguesia. Tomei uma Cerpa e a conversa com ela foi fluindo e em pouco tempo mudou de direção. Duas da manhã, já sem esperança de que o desfecho fosse outro, aconteceu o previsível. Fomos embora (a conta fechou em 59,95), tomar um lanche no Osnir, lá na Jabaquara. Comi um hipercalório xis bacon egg salada com fritas acompanhadas de maionese. Ela comeu um xis com muito tártaro e a amiga, um sanduba de frango. Despedidas e para casa. Acabei a noite na solidão das salas de bate-papo, em busca de algum diálogo noturno para afastar a sensação de que a noite fora desperdiçada. No fundo, mesmo, a noite foi boa, como me disse depois aquele que eu pago para me ouvir: pelo menos saiu de casa, já é um bom começo.
Domingo chuvoso. Após churrasquear com minha família, e de ter ligado para minha filha e sabido que ela havia chegado bem de sua programação, vou para o centro deixar encomenda para prima de minha filha, em um hotel perto da estação Júlio Prestes. Erro o caminho, como sempre, e me embrenho na Cracolândia. Aquilo é impressionante. Quem ainda não viu, não pode imaginar o que seja. Aquelas pessoas maltrapilhas amontoadas nas calçadas, no meio de toneladas de lixo, queimando as pedras de crack e entrando na mais profunda e perigosa nóia que um sujeito pode entrar. Seres perdidos, abandonados, esquecidos, nenhuma política pública parece que chega perto deles. Ultimamente tenho ouvido na imprensa vozes se erguendo contra essa verdadeira epidemia que é o vício do crack, mas não sei o que tem sido feito pelos órgãos públicos, se é que algo há a ser feito. Sei que dá pena de ver aqueles jovens, meninos, meninas, moços de todas as idades, naquela situação deplorável, minando seus corpos a cada tragada dessa droga maldita, vivendo como urubus - foi essa a imagem que me veio à mente ao vê-los ali no meio daquela imundície - sob a fina chuva daquela noite. Depois dessa visão, só posso achar que minha noite de sábado foi realmente maravilhosa.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Um reencontro emocionante
Sábado, 20/03, fui a um encontro com ex-jornalistas do antigo Diário Popular, hoje Diário de São Paulo, meu segundo emprego como jornalista (o primeiro foi na revisão do Estadão, por três meses, em 1988). Foi uma reunião emocionante. Revi pessoas que há 14 anos não tinha mais contato, já que saí desse jornal em 1996, depois de sete anos atuando como revisor e copidesque. Aliás, a reflexão que faço desse encontro é no sentido de como a tecnologia mudou a forma como se faz jornal. Revisão, que foi por onde comecei, nem existe mais. Como comentei com alguns colegas lá, creio que fomos a última geração de jornalistas que usou lauda e máquina de escrever para elaborar os textos (matérias, se preferirem). Lá no Dipo (apelido pelo qual o Diário era conhecido), fazíamos as matérias em três laudas, com papel carbono (isso ainda existe?). Porque uma cópia ia para o diretor de redação, outra para o secretário e outra para o chefe de reportagem (imagino que eram esses os destinatários, esqueci mesmo). Se o texto voltava com correções a fazer, a emenda era feita a caneta mesmo, em cima do que estava escrito, nada de reescrever... o ritmo alucinante não permitia esse capricho. Quando se tinha de juntar duas ou mais matérias, apelava-se para a cola. E se torcia para que o pessoal da linotipia (que montava as páginas com os tipos de chumbo) entendesse os garranchos da gente. Imagino que minha filha, ao ler isso, nem faça ideia do que eu estou falando. Bem, máquina de escrever ela conhece porque a minha velha Lettera eu dei para ela, que escreve às vezes nela. Um dos colegas lá na festa, o Luizinho, disse que certa vez uma repórter recém-formada (foca, como se diz) foi orientada a escrever uma lauda de determinada matéria. A pobre ficou boiando, até que o amigo a socorreu, informando que isso significava que ela deveria escrever 20 linhas. As redações daquela época eram muito diferentes das que conheci depois. Uma diferença é que hoje ninguém mais fuma na mesa enquanto escreve. Uma cena como aquelas que se vê em fotos de Nelson Rodrigues seria impensável nos dias atuais: o jornalista e dramaturgo em frente à máquina de escrever, cigarro na boca, cinzeiro lotado ao lado. O Dipo foi a última redação de jornal em que fumei enquanto trabalhava; nas seguintes, já havia um fumódromo bem longe do ambiente de trabalho, e hoje ainda está pior, os fumantes precisam ir pitar na área externa. Bem, isso não me serve para nada, já que parei de fumar há um bom tempo. Aliás, cada dia vê-se menos jornalistas fumantes, o que é muito bom. Reza a lenda que uma das garrafas térmicas da redação, em tempos passados, trazia algo bem diferente de café, uma vez que a chefia proibiu o pessoal de descer toda hora para o boteco (Estadão, Dipo ou Mutamba). Mas as coisas evoluem mesmo, e sou muito orgulhoso e feliz de ter compartilhado experiências no velho Dipo, onde fiz amigos e mantive excelentes relacionamentos, pessoas que, se não as vejo com frequência, pelo menos estão na memória e sei que representaram muito na época que dividimos o mesmo teto profissional, com quem aprendi muito. Esse encontro de sábado talvez tenha sido o primeiro de outros, que se estabeleça uma rotina, porque mais do que uma rede de relacionamentos, expressão tão em voga e do gosto dos experts em recursos humanos, temos de cultivar as boas amizades que vamos criando ao longo de nossa trajetória. E, pelo que senti nesse reencontro, a chama do companheirismo ainda está viva. Basta mantê-la acesa. Em breve, haverá o encontro de 25 anos de formatura de minha turma de faculdade, momento em que também poderemos rever amigos, contar boas histórias, dar risadas e comparar o jornalismo que se faz hoje com o que fizemos no início de nossa carreira e aquele que imaginávamos que íamos fazer, quando ainda nos bancos escolares.
quinta-feira, 11 de março de 2010
Tempos de estudante
Caramba, aqui na redação está um calor de 26,4 graus (sei porque tem um termômetro bem à minha frente). Não sei por que desligam o ar-condicionado bem na hora que estamos trabalhando. Falei com minha filha três vezes esta semana e ela está muito contente em sua nova vida. Já está às voltas com livros, xerox de partes dos mesmos, seminários, aquilo tudo que um universitário enfrenta e está achando um barato. O que é ótimo. Quer dizer, até o momento só curtição: cuidar de casa, pegar ônibus pra facu, conhecer gente nova... claro, lembrar-me de quando estava nesse tempo é inevitável. O curioso é ela entrar na faculdade (de jornalismo) no mesmo ano que minha turma completa 25 anos de formatura (eu só fui me formar três anos depois, por conta de reprovações em algumas matérias, mas sou da turma e vou comemorar também, ora!). O bom é que muitos dessa turma estão perto, alguns até trabalhando no mesmo grupo que eu. Agora parece que universidade que cursamos se interessou pela nossa festa e andou fazendo umas perguntas... quem sabe o que pode rolar, um patrocínio? Um livro? Espero que algo saia. Quando a faculdade de Comunicação de lá completou 30 anos houve festa e foi editado um livro, com depoimentos de ex-alunos. Uma boa idéia. Afinal, fomos de uma época boa, a da redemocratização, e a faculdade fervilhava. Foi a primeira eleição da qual Lula participou, como candidato a governador, em 1982, vencida por Franco Montoro. Lembro que houve debates entre os candidatos no salão nobre da instituição. O espírito da época era contestador, fazíamos muita agitação, greve, conseguimos até substituir o reitor, depois da ocupação da reitoria por vários dias, o que suscitou até mesmo envolvimento da polícia. Eu participava daquilo tudo, mas na manha (como se dizia na época), quer dizer, eu não era do diretório acadêmico, nem de nenhum tipo de movimento estudantil organizado, legal ou ilegal. Nesse período ainda estava nos estertores do grupo de teatro Tupi e começávamos a fazer campanha política, pois militávamos em um núcleo do PT em meu bairro e nosso esforço era para eleger os candidatos de uma chapa ampla, que ia de vereador a governador. Emplacamos apenas o vereador, pelo que me lembro. Mas o agito estudantil foi importante, acabamos criando uma cumplicidade entre a turma e outras de outros cursos na instituição e as turmas de 1982 com certeza têm um registro nos anais da universidade. Brigávamos por tudo: reclamamos do diretor da faculdade de Comunicação, queixamo-nos do valor da mensalidade, protestávamos contra a proibição do filme "Je Vous Salue, Marie", de Godard, que foi exibido em uma das salas da faculdade, à revelia (acho que foi esse, mas pode ter sido outro, não me lembro mais), o que provocou uma grande celeuma, pois a instituição é ligada a uma igreja - ah, tô evitando dizer, mas é besteira, é a Metodista, ora, todo mundo sabe onde fiz faculdade. Ah, relatar aqui tudo o que vivi nos tempos de estudante de jornalismo é trabalho para vários posts. Não sei como são os estudantes hoje, mas conhecendo minha filha sei que logo ela estará em alguma aí, pois é pessoa que não se cala ante alguma injustiça ou coisa errada.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Falta de sono, calor, saudade
Estou dormindo muito mal esta semana, média de duas a quatro horas de sono antes de acordar e não conseguir mais dormir. Deve ser o calor. Ou a saudade antecipada de minha filha. Não sei. O que sei é que estava ouvindo umas rádios na Internet e tocaram muitas músicas que me lembraram momentos com ela, de filmes que vimos juntos por exemplo. Deu nostalgia, lembranças de quando ela era pequena e vinha em fins de semana em minha casa e víamos DVDs, ou mesmo filmes na TV, ou íamos ao cinema, ao teatro, a parques, clubes, hotéis, sempre um programa bacana, para não ficar no tédio em casa. Mas mesmo lá procurávamos algo legal para fazer: um almoço bacana, jogos de tabuleiro, brincadeiras como carregá-la como porco e aquela que nunca lembro o nome, que se dá a letra e a pessoa escreve fruta, carro, artista, música. Ou então íamos a mais um show de Sandy & Júnior (perdi as contas de a quantos fomos). Bem, mas não é disso que pensei em escrever, mas de minha falta de sono, que está me fazendo mal, me deixa fraco e feio. Não quero tomar remédio para dormir porque não quero criar dependência. Já sei que vão dizer que é porque fico muito tempo na net e aí não durmo, mas não foi o caso. Esta semana realmente quis dormir direto ao chegar em casa mas não consegui. Vai ver que é porque quebrei a rotina (rs). Bem, capaz que seja o calor mesmo, que faz tomar banho toda hora, e vontade de deitar no chão - mas até o piso esquenta. Para piorar, ainda tem alguém fazendo uma obra em algum apartamento vizinho e o barulho do martelo atrapalha. Para abafá-lo, boto música no último volume. Pelo menos é um barulho suportável. Achei na net uma rádio que só toca Beatles e coisas relacionadas (músicas de cada um em carreira solo e outras que os mencionam), a Beatles A-Rama. E agora só ouço ela, muito boa. Pena que não entendo muito o que os locutores dizem... tenho de voltar ao inglês, caramba. Acho que uma atividade física ajudaria. Mas estou em dúvida entre musculação e yoga. Se bem que muitas academias agora têm os dois. Estou pensando ainda. Tenho medo de começar de novo e em pouco tempo desistir, como tem sido praxe. Bem, hoje já está chovendo, deve refrescar um pouco, isso se não alagar a cidade toda de novo, atrapalhando minha volta para casa. É, preciso resolver logo essa mudança para perto do trabalho, mas está demorando vender meu apartamento. Enfim, nada animador por aqui. Mas a vida continua.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Longe da folia
Se tem uma coisa que eu não aprendi a apreciar tanto quanto futebol é carnaval; simplesmente não consigo me empolgar por essa festa que acho cada vez mais menos criativa e mais comercial - vide a campeã do Grupo Especial de São Paulo, a Rosas de Ouro, que trouxe à passarela um enredo sobre o cacau com patrocínio de uma fábrica de chocolate. Nem vou me estender em considerações, por achar perda de tempo. Ano passado fui a um show das Velhas Virgens que adorei; eles tocaram, além de suas composições safadas, clássicos de velhos carnavais. Foi um show delicioso. O resto dos dias foi em casa mesmo, longe da muvuca. Falar em muvuca, em anos anteriores estive em Salvador e, falem o que quiser, não vi graça naquilo de trio elétrico, achei um som muito repetitivo, um mundaréu de gente a fim de encher a cara e sabe-se lá mais o quê. Sempre preferi viajar, apesar do sofrimento que é pegar uma estrada nesse período. Este ano fui para uma cidadezinha fincada na Serra da Mantiqueira, em Minas, chamada Gonçalves. Ficamos em um charmoso chalé em meio a araucárias, num clima de retiro, com direito a lareira (que não consegui acender - talvez culpa da lenha, verde demais, ou de minha imperícia mesmo), vinho, fondue, violãozinho, muitos DVDs (emprestados de minha filha) e longe de axés, sambas-enredo, poluição, trânsito. Só barulho de sapos, pássaros, vento nas folhagens e de cachoeiras e riachos. Claro que a cidade propriamente dita não fugiu à regra e trouxe seu carnaval, com baile em plena rua, caminhada alcoológica, desfile de homens vestidos de mulher, footbicha (idem, mas jogando bola). E um carro de som botando tudo que não presta que se toca em baladas e carnavais pelo Brasil afora. Enfim, um pequeno sacrifício em nome de não ficar o tempo todo preso entre quatro paredes. Foi um momento de tranquilidade a poucos quilômetros de São Paulo, mas que, confesso, me deu a certeza de que sou mesmo um ser ubano, que não curte muito viver no mato. Ainda bem que havia a cidade para ver um pouco de movimento e gente. Quanto à natureza, adoro, mas para contemplar. As opções de divertimento lá são passeios pela mata para atingir montanhas, cachoeiras ou esportes radicais pelos rios e quedas d'água, além de andar a cavalo ou aventurar-se de moto ou carros 4x4 pelas estradinhas de terra do local. Visitamos quatro cachoeiras, nas quais, por medo de água fria, não nadei, mas gostei de ver e tirar fotos para lembrar. Enfim, um carnaval longe da folia, perto da natureza, para ter a certeza de que é bom sair de vez em quando da civilização, mas com a certeza de que pode-se voltar à ela. E isso também é bom.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Trinta anos da estrela
- Nesse último dia 10 de fevereiro o Partido dos Trabalhadores completou 30 anos de fundação. Eu não poderia deixar de fazer um registro a respeito, uma vez que vivenciei sua formação e até trabalhei para uma administração e para seu diretório nacional. Estávamos nós, do grupo Tupi (Teatro Unido Popular Independente), em plena atividade, na temporada de nossa única montagem, A Invasão, de Dias Gomes (adaptada pelo grupo), quando o Grana, o mais novo da rapaziada, veio me falar da ideia de o "movimento" organizar um partido político, aproveitando a abertura que permitia o fim do bipartidarismo (até então, havia apenas a Arena e o MDB).
- Eu estranhei aquilo, não fui a favor, achei que ia desmobilizar todos os movimentos sociais que havia, canalizados todos para a atividade partidária. Bem, se isso aconteceu ou não, não posso dizer com certeza, mas no microcosmo do qual eu participava vi o teatro desaparecer, e nossos integrantes passarem a ser militantes do partido. Mais tarde, na primeira eleição, em 1982, eu fiz fileira no núcleo que se formou no meu bairro, a Vila Palmares, em Santo André, e fizemos campanha.
- Foi uma campanha bem diferente, com as ilustrações bonitas de Hércules nos muros em vez de pichações comuns, com abordagens de "conscientização" em vez de apenas jogar santinhos e panfletos nas ruas, trazendo pessoas para debates e conversas no núcleo.
- Foi um tempo muito bom; saía da faculdade e ia lá para as atividades, geralmente sempre de noite, para a polícia não pegar (lembre-se, era 1982, a ditadura ainda estava de plantão). Algumas vezes tivemos mesmo de correr das baratinhas (os fuscas da polícia) e largar baldes de cola e cartazes pela calçada.
- Da chapa que apoiávamos, que ia de governardor (Lula) a vereador, conseguimos eleger o vereador do bairro, o médico sanitarista Fernando Galvanese, que viria a ser secretário de Saúde assim que foi eleito prefeito o Celso Daniel, em 1988. Antes, fizemos novamente a campanha de reeleição do Galvanese e ele foi novamente ocupar a cadeira na Câmara.
- Era um tempo até meio ingênuo, pelo menos para mim, novato em política, e recém-saído do Exército, onde a doutrina era de ser contrário a tudo que cheirasse a oposição. O partido, nesse período, era um ambiente de formação política, onde conversávamos com pessoas mais experientes e tarimbadas nos meandros da política, que sabiam tudo de campanha, sementes ali plantadas que depois germinaram e deram no que deu.
- Eu confesso que nunca imaginei que o partido fosse chegar à Presidência, não por incompetência de seus quadros, mas por achar que a ordem estabelecida não permitiria, afinal, estavam aí 20 anos de golpe militar para desanimar. Mas o pessoal era aguerrido e teimoso e realmente acreditava nessa possibilidade.
- 1985 veio confirmar essa possibilidade, com a conquista da prefeitura de Fortaleza, e, em 1988, de outros governos importantes, como os de São Paulo, Santo André, São Bernardo, Campinas e Porto Alegre, entre outros.
- Em 1989 vou trabalhar na Prefeitura de Santo André, na Assessoria de Comunicação, atendendo diretamente a Secretaria de Saúde, cujo titular era, como disse, o Galvanese. Foi uma ótima oportunidade de ver como funciona um governo por dentro e de poder pôr em prática alguma coisa que a militância tanto clamava.
- Foi e é difícil. As forças que atuam na sociedade são muitas vezes antagônicas e nem sempre basta boa vontade para conseguir implementar uma boa ideia. Deu para ver o que é realmente a política na prática, eu que a conhecia até então apenas no discurso e na teoria, apesar de ver como as coisas eram na realidade, no dia a dia.
- Apesar disso, os dois mandatos do Celso consecutivos tiveram muitos êxitos. Em 1995, com a derrota do PT na prefeitura, acabei exonerado, num esforço da administração do PTB em anular o concurso que eu tinha feito e que permitiu minha contratação.
- Voltei a ter contato direto com o partido em 1996, quando fui trabalhar no seu diretório nacional, para atuar no grupo de trabalho eleitoral. Passadas as eleições, trabalhei no projeto de um jornal nacional, o ptnotícias, que acabou saindo quinzenal, quatro páginas em formato standard. Acho que esse jornal nem existe mais, mas foi bom fazê-lo, apesar de todas as dificuldades que enfrentávamos, de falta de pessoal, de recursos. Mas o pior era atender a todas as tendências agrupadas no partido, sempre havia alguém que reclamava da linha de determinada matéria, por mais isento que eu procurava ser. Até o dia que me enchi e saí de lá, em 1998.
- Três anos depois o PT conquistaria a Presidência. Não lamento. Acho que de fora eu pude até acompanhar melhor o partido. O curioso, e que aí sim lamento, é que muitas vezes eu tentava ouvir algum dirigente para uma matéria e era uma dificuldade. O próprio Lula nunca consegui entrevistar lá. Agora, quando fui trabalhar num jornal comercial, esse pessoal falava comigo sem frescura. Até com o Lula cheguei a ter rápida entrevista. É... santo de casa não faz mesmo milagre.
- Bem, a sensação que tenho, passados esses 30 anos, é que o PT que vi nascer e esse que está aí há oito anos no comando do País guardam muitas diferenças, mas também bastante semelhanças. Mas eu também mudei muito minha cabeça, minha maneira de pensar. Nunca fui um radical, sempre um moderado, e esse PT está mais para o que eu sou hoje do que aquele que cresceu com um discurso feroz e visceral, gritando contra coisas que eu nem entendia direito, como Fora FMI.
- Mas, de maneira geral, não me sinto partícipe desse projeto, porque em determinado momento de minha vida optei por guardar certa distância, por não me sentir dentro do perfil de um militante típico ou um quadro partidário.
- Acho que é porque sempre preferi a liberdade de pensar da maneira que quisesse e tinha pouca vontade de defender meu ponto de vista. Ou seja, fui coerente com meu pensamento inicial, quando o amigo falou-me desse projeto que completa agora a terceira década. Então, feliz aniversário, companheiros!
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
She's leaving home
Minha filha vai estudar em outro Estado. Um bem longe. São vários os sentimentos que me invadem, vários contraditórios. O principal deles, contudo, é a sensação de que ela cresceu, criou asas, pode andar com as próprias pernas e todos os chavões do gênero.
Isso é bom, mas dói também, porque os pais nunca admitem serem menos importantes para seus filhos que o mundo que os cerca. Quer dizer, ela cresceu faz tempo, mas agora, com essa sua decisão, a ficha cai mais pesada e desnorteia.
Apesar de eu e a mãe e muitas outras pessoas apoiarem, um gosto de tristeza e um amargo na boca são inevitáveis. A gente quer ter por perto sempre, porque quer poder proteger, quer cuidar, quer tomar conta. Não terá mais a comida pronta, casa e roupas limpas. Isso será responsabilidade delas (vai morar com a prima-irmã-melhor-amiga).
Claro que isso é importante para o crescimento, para sua formação para a vida que terá de enfrentar. A gente sabe de tudo isso, mas isso é razão, o emocional não pensa, ele sente. E o sentimento é de que ela vai ganhar o mundo, e espero que a tenhamos preparado o bastante para esse desabrochar. E que o mundo não seja muito cruel com ela.
Fiquei já com essa sensação ao buscar os documentos de inscrição de uma faculdade dela. Ela já às voltas com uma das piores coisas desse mundo injusto, que é a horrenda burocracia. Ela debutando nesse mundo que não dá moleza para ninguém. A sensação de que a gente não a poderá proteger de tudo nesse mundo é angustiante.
Por mais que tenhamos dado a ela todas as condições de enfrentar as agruras que há, no fundo queríamos sempre mantê-la na redoma indevassável, imune à selvageria que há lá fora. Mas sabemos que é necessário esse crescimento, esse enfrentamento para que aprenda a viver. E, claro, sempre estaremos por perto e a postos para qualquer necessidade mais difícil, ensinando a pescar (outro chavão inevitável).
Mas eu tenho certeza de que essa sua experiência fará dela uma cidadã mais consciente ainda do que é, que agregará conhecimentos, fortalecerá seu espírito, endurecerá o couro, ganhará muito mais do que aquilo que poderíamos dar, porque os pais nunca podem dar tudo. Damos as oportunidades, agora cabe a ela agarrá-las e fazer o melhor que puder. Nunca esquecendo de ser justa com todos, de ser honesta, de ser amável, tudo isso que ela já é e que vai saber dosar para que não seja ludibriada pelas más intenções que imperam por aí.
A gente cresce sempre às próprias custas, mas o aprendizado é sempre melhor quando há quem acredite na gente e não há empecilhos. Nesse ponto, julgo que estamos, eu e a mãe, agindo certo: jogando-a no mundo sem rede de proteção, mas com a certeza de lhe ter dado musculatura e equilíbrio suficientes para agarrar o trapézio e dar seu show, pois o aplauso é garantido. Boa sorte meu bebê.
Isso é bom, mas dói também, porque os pais nunca admitem serem menos importantes para seus filhos que o mundo que os cerca. Quer dizer, ela cresceu faz tempo, mas agora, com essa sua decisão, a ficha cai mais pesada e desnorteia.
Apesar de eu e a mãe e muitas outras pessoas apoiarem, um gosto de tristeza e um amargo na boca são inevitáveis. A gente quer ter por perto sempre, porque quer poder proteger, quer cuidar, quer tomar conta. Não terá mais a comida pronta, casa e roupas limpas. Isso será responsabilidade delas (vai morar com a prima-irmã-melhor-amiga).
Claro que isso é importante para o crescimento, para sua formação para a vida que terá de enfrentar. A gente sabe de tudo isso, mas isso é razão, o emocional não pensa, ele sente. E o sentimento é de que ela vai ganhar o mundo, e espero que a tenhamos preparado o bastante para esse desabrochar. E que o mundo não seja muito cruel com ela.
Fiquei já com essa sensação ao buscar os documentos de inscrição de uma faculdade dela. Ela já às voltas com uma das piores coisas desse mundo injusto, que é a horrenda burocracia. Ela debutando nesse mundo que não dá moleza para ninguém. A sensação de que a gente não a poderá proteger de tudo nesse mundo é angustiante.
Por mais que tenhamos dado a ela todas as condições de enfrentar as agruras que há, no fundo queríamos sempre mantê-la na redoma indevassável, imune à selvageria que há lá fora. Mas sabemos que é necessário esse crescimento, esse enfrentamento para que aprenda a viver. E, claro, sempre estaremos por perto e a postos para qualquer necessidade mais difícil, ensinando a pescar (outro chavão inevitável).
Mas eu tenho certeza de que essa sua experiência fará dela uma cidadã mais consciente ainda do que é, que agregará conhecimentos, fortalecerá seu espírito, endurecerá o couro, ganhará muito mais do que aquilo que poderíamos dar, porque os pais nunca podem dar tudo. Damos as oportunidades, agora cabe a ela agarrá-las e fazer o melhor que puder. Nunca esquecendo de ser justa com todos, de ser honesta, de ser amável, tudo isso que ela já é e que vai saber dosar para que não seja ludibriada pelas más intenções que imperam por aí.
A gente cresce sempre às próprias custas, mas o aprendizado é sempre melhor quando há quem acredite na gente e não há empecilhos. Nesse ponto, julgo que estamos, eu e a mãe, agindo certo: jogando-a no mundo sem rede de proteção, mas com a certeza de lhe ter dado musculatura e equilíbrio suficientes para agarrar o trapézio e dar seu show, pois o aplauso é garantido. Boa sorte meu bebê.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Tocando em frente
Acho que estou melhorando. A vida me exigiu um pouco esses últimos dias e resisti bravamente. Em outras épocas, cairia de quatro, mas agora estou, além de erguido, com toda a esperança e otimismo que uma pessoa pode acumular. Sinal de que estou fortalecido, o que é muito bom, para mim e para os que estão ao meu redor. Aos que provocaram dissabores em minha vida, sinto muito, mas seu objetivo não foi alcançado. Estou feliz e pronto para tocar em frente. E é só, por hoje. Bebeia, meu anjo, você é demais, seu brilho estará sempre além de tudo. Grande beijo do papai. Sábado matamos a saudade.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
O espírito de uma nação
Não sou crítico de cinema, nem literário, nem teatral, tampouco comentarista político, econômico ou de qualquer outra área. Sou apenas um editor que tenta fazer bem seu trabalho e que tem curiosidade pelas coisas, como todo jornalista tem de ser. Esse blogue foi criado para expor minhas impressões sobre as coisas que me passam diante dos olhos, uma maneira de ter um registro dos meus pensamentos, dividindo essas impressões com quem porventura venha a ler esse site, possibilitando uma troca de ideias. Então não sei analisar quando um filme que assisto tem qualidades técnicas ou artísticas "x" ou "y". Até poderia arriscar tecer algum comentário nesse sentido, acho que talento para tal todos temos, pois senso crítico é artigo comum em mentes que pensam. Bem, depois desse narigão de cera vamos ao que interessa. Assisti a "Invictus" nesse fim de semana. O filme, dirigido por Clint Eastwood, trata do trabalho do então presidente da África do Sul Nelson Mandela (Morgan Freeman) de tentar unificar o país por meio da canalização das paixões para o time local de rúgbi, torcendo para sua vitória no campeonato mundial da modalidade em 1995. Para isso ele leva sua experiência de tenacidade, tolerância, capacidade de perdoar e de liderança ao capitão do time, François Pienaar (Matt Damon), que acaba levantando o moral da equipe, superando o ainda presente preconceito e levando-os à vitória, após dura partida contra os maoris da Nova Zelândia. Bem, não vou ser condenscendente. O filme tem falhas, a principal dela é o tom piegas e triunfante dado, o que o deixa até um pouco panfletário. Mas, como não sou crítico, como disse, me deixo levar pela emoção e destaco o excelente trabalho de ator de Freeman, encarnando de fato Mandela, um personagem complexo e emblemático. Damon também se sai muito bem e transmite emoção, se bem que pouco se vê das nunces de seu trabalho de liderança. O pano de fundo são os primeiros anos de administração de Mandela, que dão uma ideia mas não aprofunda muito as questões fundamentais da transição do apartheid para o regime de convivência sem hostilidades. Há, claro, cenas que dão uma ideia de como eram as coisas, mas senti falta de uma abordagem mais detalhada. O importante é que o filme traz à cena essa figura importante na nossa história, que deve ser conhecida por todos. Agora, se houve alguma estratégia por conta da Copa do Mundo, a ser realizada na África do Sul este ano, não sei. Pode ser exagero de minha parte.
Outra reflexão que o filme me traz é sobre a importância do esporte para grandes parcelas da humanidade. Eu, como todos que me conhecem sabem, não me ligo muito em futebol e outras modalidades esportivas. Sigo a Copa do Mundo por uma questão de espírito coletivo, talvez patriotismo. Mas não entendo nada de regras, jogadas, os termos específicos, nada. Só tenho vaga ideia. Quando tinha de fazer plantão na editoria de Esportes no Diário do Grande ABC sofria, passava apuros, mas no final a matéria saía, pois, afinal, sou pago para isso. Mas chega a me surpreender como esse negócio empolga multidões, gera paixões exacerbadas, move até vidas, além de ser um empreendimento muito lucrativo. Mas tudo isso para mim é mistério, pois não tenho dentro de mim o sentimento de amor que invade um torcedor e que o faz agir como um alucinado a cada movimento de seu time de coração. Por isso me tocou como um país inteiro mobilizou-se para levar seu time adiante e vê-lo conquistar a taça. E Mandela sabia disso e viu aí uma forma de levar adiante seu projeto de unificar o país, superando o odioso preconceito que por anos perdurou no país. Assim vejo como esse tal de esporte é coisa séria, mas daí a eu sair torcendo e indo a estádios tem um longo caminho, talvez nem queira dar o primeiro passo. No entanto, ganha meu respeito.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Um grande amigo, uma grata surpresa
Mencionei em um post recente minha dúvida se esse blog teria algum leitor. Recebi, com alegria, manifestações de leitores fieis, que me deixaram bastante feliz. Agora, depois disso, soube de outros tantos, minha filha Isabela inclusive, e isso dá uma felicidade e uma responsabilidade, que é a de manter a coerência e alimentar periodicamente esse site, o que tento, mas muitas vezes falta assunto, e para mim falta de assunto não é assunto. Agora, não podia imaginar que meu amigo João, que há uns dez anos mora nos States e que não vejo acho que há uns cinco, seria um desses leitores. E não é que ontem ele me encontra no MSN e, logo em seguida, me liga, dizendo que leu o blog? E, para melhorar, se emocionou com a leitura. Eu sei por quê. É que o grande João é protagonista da maioria das histórias que relato aqui, pois no começo dos anos 80 estávamos juntos em todos aqueles movimentos de que comecei a tomar parte. E ele tornou-se, como todos os demais daquela época, grande amigo meu e de todos. Éramos uma verdadeira comunidade, com ideias e ideais comuns, atitudes conjuntas, diversões em parceria. Lembro que, quando ele e Cris se casaram e foram morar em Fortaleza, fomos junto, aproveitar a lua-de-mel deles para conhecer Canoa Quebrada (na foto, ele aparece atrás de mim, sobre meu ombro direito). Foi uma viagem, para mim, triste, pois tive de interrompê-la devido à morte de minha mãe, mas a semana que passamos juntos lá foi inesquecível. João sempre foi um dos mais articulados e curiosos da turma: sua sede de aprender e de conhecer era notável. Uma pessoa determinada e que não se curvava às evidências. Metia-se onde queria e saia-se muito bem em todas as empreitadas que iniciava. Ouvi-lo, depois de tanto tempo, e saber que a nossa história ainda o comove, é um bálsamo e a certeza de que aquilo tudo que fizemos valeu a pena. Se não mudamos o mundo, como queríamos, pelo menos cultivamos amizades que vencem o tempo e o espaço e, mesmo que não nos vejamos mais com tanta frequência como naquela época, o coração está sempre aberto para lembrar de cada um deles e, de repente, pegar no telefone e dar aquele alô. Isso faz um bem!
(P.S.: a amizade com João e todos os outros do Juba, Tupi, PaJu e JOC também está fazendo 30 anos.)
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Zilda Arns: imprescindível
A morte da médica Zilda Arns, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, é um profundo choque, em meio à grande tragédia que já é a calamidade que abateu sobre o pobre Haiti e que vitimou não se sabe ainda quantas pessoas. Dona Zilda estava lá, em missão humanitária, como tantas outras que abraçou em sua vida. Não a conheci pessoalmente, mas todas as vezes que a ouvi ou li na mídia deu para perceber a sua seriedade, sua bondade e desprendimento. Uma pessoa que lutou a vida toda pelos menos favorecidos, e que por isso se torna um dos seres humanos imprescindíveis, como conceitua o poema de Bertold Brecht. O destino realmente é gozado: como que pode essa coincidência de ela estar naquele local exatamente no dia em que acontece esse terrível terremoto? Creio que é a vida, mesmo, que explica. Afinal, o Haiti é um dos países mais pobres do mundo e uma pessoa benemérita como dona Zilda não poderia estar em outro lugar nesse momento. Uma grande perda, sem dúvida.
Um fim de semana agitado
Esse fim de semana foi agitado. Fiz um monte de coisas. Tirando as férias, havia tempo não tinha um fds com tanta programação. Acho que gostei da experiência e pretendo repeti-la: não mais ficar trancado no apartamento, se bem que vez em quando é bom um resguardo, para ler, tocar o violão, ouvir discos novos e antigos, escrever, ou ficar com minha filha contando a ela as histórias que ela quer conhecer. Bem, mas esse fim de semana eu saí com a Ana Isabela. Fomos na sexta-feira ao show do Del Rey no Studio SP, na Augusta. É um pessoal de Pernambuco que toca músicas do Roberto Carlos de uma maneira muito legal, uma pegada bem rock e um ritmo mais frenético. Fica muito bom. A casa estava lotada, difícil de se movimentar lá, mas com jeitinho dava para ir ao banheiro e ao bar pegar uma cerveja (muito cara, aliás, como é nesses locais). Os caras tocaram por mais ou menos duas horas, tendo começado por volta de 2h, apesar de estar programado para a 1h. A baiana Pitty deu o ar da graça e cantou uma música com o China, o vocalista da banda. Muita gente jovem, mas eu não me senti tiozão não, apesar de o ambiente ser meio fora do que eu costumo frequentar. Mas gostei; se rolassem uns eletrônicos sem cérebro eu chiaria, mas a picape soltava só MPB de boa qualidade, coisa interessante pra caramba!
No sábado, uma chuva torrencial desabou sobre São Bernardo (acho que por todo o Estado também) bem na hora que íamos ao cinema. Bom que assim que estacionamos o temporal parou, e só ficou uma chuvinha fina. Depois de degustar um festival de carne em um restaurante rodízio, fomos ver o Lula, O Filho do Brasil. Há algumas coisas a se falar dessa obra de Fábio Barreto. Como cinema, é excelente. Tem uma boa história, personagens marcantes, intérpretes de altíssima qualidade, ótima carga dramática, ou seja, uma história para se assistir e sair de alma lavada. Mas não se pode resumir à discussão cinematográfica. Sem entrar no mérito das críticas que o acham eleitoreiro (só digo uma coisa, não acho; ora, desde quando Lula precisaria de um filme para se eleger para qualquer coisa, e tem ainda que ele não é candidato a nada no momento), pois bem, sem entrar nesse mérito, eu penso que o filme romanceou demais a vida do homem que se tornou o presidente do Brasil e deixou a política um pouco de lado. Eu, sinceramente, preferiria que se fizesse um bom documentário sobre o fenônemo Lula, porque justificaria, afinal, raros são os homens que tiveram ou têm a trajetória dele. As gerações atuais, pessoal na casa dos 20 a 30 anos, talvez não compreendam bem o que significa essa figura, e um bom documentário ajudaria a entender não só o homem, mas também o país. Não é o momento certo? Ora, para cinema, o momento é o da vontade e da oportunidade de seu realizador. Acho que nesse ano final de mandato, quando o correto seria se fazer um bom balanço dos dois mandatos de Lula, o filme vem a calhar, mas, insisto, seria muito melhor um documentário, não uma ficção "baseada em fatos e personagens reais". Mas gostei do filme, porque ele dá uma mostra pequena dos fatos que forjaram esse homem singular. Como não poderia deixar de acontecer, emocionei-me muito com as cenas de fábrica, de greve, as assembléias, passeatas. Lembrei-me, inevitavelmente, das coisas que já mencionei quando falei pela primeira vez do filme: meu tempo de milico, o medo de ter de enfrentar a peãozada, considerando minha família ser constituída por operários, muitos de montadoras e outras metalúrgicas. Aí depois veio à lembrança o período posterior, quando eu já estava metido nesses movimentos, apesar de não ser metalúrgico, mas bancário. Mas participávamos do fundo de greve, que visava arrecadar grana para o pessoal poder comer enquanto estava em greve e o salário não era depositado. Até aprendi, porque quando chegou minha vez, fiz greve com convicção no banco, aliás, uma greve de nove dias vitoriosa, que ganhou até apoio da população, que não imaginava que nós éramos tão explorados (vai ver o pessoal via a gente lá de gravatinha e as meninas todas pintadinhas e bem-vestidas e achava que ganhávamos muito bem!). O chato foi que na segunda greve eu já era cargo de confiança e dancei, mas esta é outra história. Eu vi diversas vezes o Lula nas assembléias da Vila Euclides, e o ator Rui Ricardo Diaz representa direitinho a voz e os trejeitos do líder sindical. Só ficou mal aquela mão meio virada para simular o mindinho decepado. Agora o Lula marido eu sei lá, não posso acreditar em um Lula tão romântico daquele jeito, tão doce com as esposas... Sei lá, a impressão que tenho, das vezes que tive contado pessoal com ele, é de que ele é não grosso, mas um machão como muitos homens de sua geração. E há ainda a omissão de seu envolvimento com a Miriam Cordeiro, aquela usada por Collor em 1989 para desacreditá-lo. Miriam é mãe de Lurian e disse que Lula sugeriu que abortasse, depoimento dado em horário eleitoral que abalou muito a candidatura do Lula. É mesmo incompreensível essa omissão. Quanto ao Lula doce, bem, acho que quiseram mostrar que, diante de um pai como o dele, decidiu ter um comportamento diametralmente oposto com as mulheres. Faz sentido, mas não vejo verosimilhança. Mas faltou explorar mais o lado político, expor a formação política do Lula, porque lá limitou-se a apontar cenas de injustiça que ele presenciou e a gente tem que supor que foi isso que trouxe-lhe a consciência política. Ora, todos sabem que ele era um quase alienado antes de assumir uma diretoria no sindicato, que seu ingresso nesse mundo foi por meio de seu irmão Frei Chico. Ou seja, o filme não explica o fenômeno. Será que é porque não há explicação? Mas é um bom filme, repito, que vale a pena ver e que valeu a pena ter sido feito.
No domingo, novamente no cinema, para ver Avatar, de James Cameron. Vimos a versão em 3D. Uma perfeição, diversão garantida. Um roteiro convencional, a eterna luta dos fracos contra os poderosos gananciosos que querem explorar as riquezas minerais de um planetinha perdido no espaço. Mas os efeitos visuais são de tirar o fôlego. O filme mistura atores com animação e o resultado é de cair o queixo. É diversão pura, cinema hollywoodiano na essência, e um campeão de arrecadação, conforme dizem os jornais. Os efeitos de terceira dimensão também são perfeitos. Ele lembra um pouco do Era do Gelo 3, ao misturar dois mundos, no caso deste, a selva é habitada por seres vindos diretos da nossa (da Terra) pré-história e ETs e seres estranhos, como cavalos com cabeça de tamanduá e seis patas. Aves com quatro olhos.. É engraçado. Valeu o preço do ingresso, e também é altamente recomendável.
No domingo, novamente no cinema, para ver Avatar, de James Cameron. Vimos a versão em 3D. Uma perfeição, diversão garantida. Um roteiro convencional, a eterna luta dos fracos contra os poderosos gananciosos que querem explorar as riquezas minerais de um planetinha perdido no espaço. Mas os efeitos visuais são de tirar o fôlego. O filme mistura atores com animação e o resultado é de cair o queixo. É diversão pura, cinema hollywoodiano na essência, e um campeão de arrecadação, conforme dizem os jornais. Os efeitos de terceira dimensão também são perfeitos. Ele lembra um pouco do Era do Gelo 3, ao misturar dois mundos, no caso deste, a selva é habitada por seres vindos diretos da nossa (da Terra) pré-história e ETs e seres estranhos, como cavalos com cabeça de tamanduá e seis patas. Aves com quatro olhos.. É engraçado. Valeu o preço do ingresso, e também é altamente recomendável.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
A crise dos 30
É estranho, mas aos 48 anos, que completei em maio passado, os 30 anos são constantes em várias coisas na vida. São quase 30 anos que comecei a faculdade de jornalismo, 30 que comecei a trabalhar com constância, 30 que servi à Pátria como soldado, 30 que conheci uma galera e uma ideologia que mudaram minha maneira de ver o mundo, 30 que tive a primeira namorada que se pode chamar disso, quase 30 que perdi minha mãe, 30 que fui tio pela segunda vez, 30 que comprei o primeiro carro. Nossa, quanta coisa a gente faz por volta dos 18 anos! Por isso essa data dizem que é o ingresso na vida adulta. E a garotada parece que resolve tirar o atraso e fazer tudo de uma vez (estou falando de meu tempo; hoje as coisas são bem mais ligeiras). E ao olhar para trás me dá uma certa coisa, não sei explicar. É como se dar-se conta da passagem desse tempo fosse algo que a gente evita. Mas não há mesmo como evitar. O que procuro é não ficar pensando muito nisso. Porque se pensasse ia começar a fazer um balanço, achar que fiz coisas que não deveria, e coisas que deveria e não fiz. Ou seja, a reflexão que todos fazem. Tenho a favor disso que a experiência que se ganha é algo que não há paralelo. E a gente pode compartilhar isso com os mais novos, não para guiá-los, mas para orientar, mostrar se estão indo bem, mas sem impedir que voem com suas próprias asas. Errei muito, claro, e é por isso que posso ensinar. Aliás, é para isso que quis - e ainda quero - fazer mestrado. Acho que ensinar é uma obrigação de qualquer um que aprende algo, que vive uma experiência. Saber guardado é saber perdido. E o saber também se alimenta da retroalimentação (o tal feed back), daquilo que o ensino traz ao próprindo professor (ou mestre, ou orientador, qualquer coisa). Eu quando era vice-coordenador do grupo de jovens da igreja de meu bairro gostava de pegar algum trecho da Bíblia e discutir com o pessoal, para a gente entender junto, não eu vir com meu entendimento pronto e fechado. Sempre gostei de discussão, de debate, de troca de idéias. E acho que assim todos se nutrem do saber. Detesto quem vem com as ideias prontas e não aceitam visões divergentes. Tive muitos professores assim. Acho que dar aula é uma sequência natural de minha carreira. Não que eu saiba muito de jornalismo, mas 30 anos de vida profissional dá uma retaguarda que quem gosta de aprender pode usufruir. O problema é a timidez, mas isso se resolve. Então penso que essa crise dos 30 pode ser melhor resolvida se aproveitar esse tempo de estrada para tornar o fardo das novas gerações mais leve - ou mais pesado, dependendo do que a pessoa, pessoas forem fazer com isso. Espero que em 2011 eu possa estar fazendo aqui um balanço de minha experiência como professor, ou ao menos como aluno de um curso de mestrado. Ou, pelo menos, como escritor, porque essa também é uma forma de expandir o conhecimento. Escrever um livro é um projeto antigo, mas ainda não cheguei a um consenso sobre o tema. Aceito sugestões (sem sacanagem).
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
2009: um balanço
Foi um ano estranho, cheio de reviravoltas, de cair em profundo desânimo e fazer altas loucuras. Rompi um relacionamento longo, iniciei outros, não fiquei sozinho, mas me senti muito solitário. Trabalhei bem, mas estudei pouco; tentei por duas vezes ingressar no mestrado da USP, mas não deu. Mas tive a felicidade de ver minha filha ser aprovada em dois vestibulares e passar para a segunda fase da Fuvest. Viajei muito, muitas vezes de forma até irresponsável, gastei muito mais do que podia, mas me dei conta a tempo da besteira que fazia. Conheci um monte de gente, mas os amigos antigos quase não os vi. Ouvi muita música nova, e ouvi de novo muitas que não canso de ouvir (Beatles e Frank Zappa, principalmente). Fui bastante ao cinema e a shows, mas muito pouco a teatros. Voltei a estudar violão e relaxei bastante na atividade física. Troquei de bicicleta planejando andar mais, mas que nada... Questionei muito meu terapeuta, mas ainda não consegui abandonar o tratamento (??). Dei-me conta de que não sou tão péssimo como sempre achei que era, talvez por perceber que se fosse assim tão ruim algo maligno já teria me acontecido. Mas posso até me considerar abençoado. Sei lá, não sei se no geral o ano 2009 foi bom ou ruim, depende do momento; posso dizer que ele começou muito ruim, tive péssimos momentos e consegui reverter e ter momentos de extrema felicidade, ou pelo menos de fortes emoções, que elevaram minha autoestima e me fizeram sorrir. No balanço geral considero que fiz muitas besteiras, mas não por maldade, talvez por imaturidade ou necessidade de sair do marasmo.
Para este 2010, não faço planos, mas sei que haverá mudanças radicais, porque, em minha vida, todo começo de década marcou uma reviravolta. Foi assim em 1970, quando a mudança para a capital abriu minha cabeça para um mundo novo, para o bem e para o mal. Em 1980, tive uma tomada de consciência e mudança de pensamento que moldaram minha cabeça até hoje. Em 1990, conheci aquela com quem me casaria e com ela seríamos pais de minha adorada Isabela. Em 2000, veio a morte de meu pai e minha separação, e pouco depois nova jornada profissional. Portanto, creio que em 2010 algo haverá, e não faço a mínima ideia do que seja. Ainda bem. Como não sou supersticioso, apenas considero isso coincidências...
A todos os que eu conheci neste ano que passou, e que depois por circunstâncias da vida não vi mais, gostaria de dizer que foram e são pessoas importantes para mim, que marcaram uma etapa de minha vida e que por isso - e por ser quem são - ficarão marcadas na minha mente e no meu coração. Aos amigos que deixei de visitar, alguns há bem mais que um ano, espero revê-los em breve. Aos que porventura eu tenha magoado, peço desculpas e que reconheçam que a gente às vezes comete erros sem estar se dando conta de que o faz. Quero a todos muito bem e gostaria muito mesmo de poder estar sempre rodeado de amigos e pessoas queridas. Pena que isso nem sempre é possível. E, se há uma promessa a ser feita para este ano que está iniciando, diria que é o de cultivar os amigos e não deixá-los no esquecimento. Senti muito falta deles nesse ano terminado, mas não foi culpa deles, claro, mas minha. E esse erro não quero voltar a cometer. E pretendo também escrever mais nesse blogue, mesmo que ninguém o leia.
E feliz ano-novo.
Para este 2010, não faço planos, mas sei que haverá mudanças radicais, porque, em minha vida, todo começo de década marcou uma reviravolta. Foi assim em 1970, quando a mudança para a capital abriu minha cabeça para um mundo novo, para o bem e para o mal. Em 1980, tive uma tomada de consciência e mudança de pensamento que moldaram minha cabeça até hoje. Em 1990, conheci aquela com quem me casaria e com ela seríamos pais de minha adorada Isabela. Em 2000, veio a morte de meu pai e minha separação, e pouco depois nova jornada profissional. Portanto, creio que em 2010 algo haverá, e não faço a mínima ideia do que seja. Ainda bem. Como não sou supersticioso, apenas considero isso coincidências...
A todos os que eu conheci neste ano que passou, e que depois por circunstâncias da vida não vi mais, gostaria de dizer que foram e são pessoas importantes para mim, que marcaram uma etapa de minha vida e que por isso - e por ser quem são - ficarão marcadas na minha mente e no meu coração. Aos amigos que deixei de visitar, alguns há bem mais que um ano, espero revê-los em breve. Aos que porventura eu tenha magoado, peço desculpas e que reconheçam que a gente às vezes comete erros sem estar se dando conta de que o faz. Quero a todos muito bem e gostaria muito mesmo de poder estar sempre rodeado de amigos e pessoas queridas. Pena que isso nem sempre é possível. E, se há uma promessa a ser feita para este ano que está iniciando, diria que é o de cultivar os amigos e não deixá-los no esquecimento. Senti muito falta deles nesse ano terminado, mas não foi culpa deles, claro, mas minha. E esse erro não quero voltar a cometer. E pretendo também escrever mais nesse blogue, mesmo que ninguém o leia.
E feliz ano-novo.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Soam como trovões
Domingo, nuvens negras ameaçadoras no céu. A tarde prometia ser molhada, como têm sido esses últimos dias em Sampa. Mas isso não me preocupou. Fui determinado ao Parque da Independência, no Ipiranga, a assistir ao show de Dianne Reeves e Buddy Guy, promovido por uma operadora de telefonia. A cantora eu não tinha ouvido, ainda mas Buddy já é velho conhecido, inclusive estive em seu clube em Chicago, o Legend's, quando viajamos aos EUA com a turma do MBA, e tive direito a autógrafo no CD Damn Right I’ve Got The Blues, comprado lá mesmo, e foto - que simplesmente sumiu, alguém da turma do MBA clicou mas não achei quem foi (se é que tiraram a foto mesmo). Dianne me surpreendeu com seu repertório (recheado de temas brasileiros) e sua voz, de registro bem extenso. Veio com um guitarrista brasileiro, Romero Lubambo, excepcional. Ela começou com uma versão em inglês de Triste, de Jobim, e em seguida cantou diversas canções com tempero brazuca, inclusive com temas de candomblé, com um suíngue contagiante. A platéia delirou muito. Muita gente bastante nova, o que surpreende e anima (nem todos gostam apenas de micaretas, enfim). Cantava junto, aplaudia, sob o sol inclemente. Durou uma hora. Intervalo, troca de equipamento. E entra Buddy. Camisa branca de bolinhas pretas, boina branca, e a Fender Stratocaster cor creme pendurada no pescoço. Na hora e pouco que ele vai tocar, a guitarra passeia por seu corpo todo; ela a toca com a barriga, com os dentes, nas costas, com o braço direito debaixo dela, com uma mão só. E como toca! O público, se foi ao delírio com Dianne, com Buddy vai ao êxtase. Um mestre, que desce e toca no meio da multidão, que joga as palhetas ao público, que canta Feels Like Rain, única vez que toca com Dianne, meio que ironizando a chuva que cai grossa, meio que mostrando que isso (a chuva) nada importa. Ponto positivo na galera: alguns abriram os guarda-chuvas, tirando a visão de quem estava atrás. Mas, após protestos, fecharam, e todos tomaram a benfazeja chuva. Guy terminou com Hendrix e Cream. Demais. Espetacular. Quem não foi perdeu.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Teatros em shoppings

Ontem, indo para casa, ouvi no rádio o anúncio da inauguração de um shopping center na Vila Olímpia, e me chamou a atenção a informação de que em breve o centro de compras contaria com um teatro. Aí me lembrei de outro shopping recém-inaugurado, o Bourbon, no bairro da Pompéia. Lá tem o Teatro Bradesco; no Frei Caneca, na rua de igual nome, também tem teatro - foi onde assisti ao espetáculo O Mistério de Irma Vap. Aí pensei: será uma tendência? Fui pesquisar e o bom e velho Google deu-me outros endereços: Teatro das Artes, no Eldorado; Teatro Folha, no Pátio Higienópolis; Teatro do Shopping Parque Dom Pedro, em Campinas. Deve haver mais por aí, mas fiquei com preguiça de passar da página 1. O importante é que parece mesmo se tratar de uma tendência. Como os cinemas, que invadiram os templos de consumo há pouco mais de 10 anos, espero que não pereçam os teatros de rua, como os cinemas definharam impossibilitados de competir com a praticidade do shopping. Já imaginaram o Teatro Municipal de São Paulo (foto), do Rio, o Amazonas, de Manaus, o José de Alencar, de Fortaleza, virando templos da Universal ou da Renascer? Ou passarem a exibir peças pornográficas ao vivo? Seria o fim da cultura. Eu não sei se a intenção dos empresários que constroem esses empreendimentos é difundir a cultura, apostando em montagens importantes. Ou se nesses teatros reina o besteirol (nem me preocupei em pesquisar o que está em cartaz, porque não saberia que tipo de peças são antes de assistir ou buscar referências). Um teatro costuma até se tornar uma referência, seja do local onde está seja do tipo de espetáculo que apresenta. É impossível que alguém não saiba onde é o Municipal de São Paulo, ou que não se refira a algum endereço no Centro sem falar: "Ah, é perto do Municipal". A outra referência, a do repertório, aponta a fama que a sala ganha ao longo do tempo baseada no tipo de peça que se assenta em seu palco. Durante os anos 50 e 60, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), Major Diogo, era sinônimo de sofisticação, de textos clássicos; nos 60, queria espetáculos contundentes, revolucionários, ia-se ao Teatro Oficina, na rua Jaceguai; hoje, peças de vanguarda, humorísticas têm lugar nas salas da Praça Roosevelt, musicais da Broadway têm sempre vez no Teatro Abril, na Brigadeiro Luiz Antônio. Como será que vamos nos referir aos novos teatros nos shoppings no futuro? Será que vamos ao teatro ou fazer umas comprinhas, jantar e, se der tempo, ver a peça que estiver passando, caso a fila do cinema esteja grande demais? Nada contra, em princípio, afinal, a modernidade é assim mesmo e, com tanta violência por aí, estar protegido naqueles oásis pode até fazer o gosto pelo teatro renascer, ou aumentar. Mas eu fico pensando que teatro Zé Celso (diretor do Oficina) faria dentro de um shopping, lembrando de encenações do grupo que extrapolavam o teatro e iam à rua! E, curiosamente, há anos ele vem brigando com o grupo Silvio Santos, que quer derrubar o teatro (pois parece que a empresa é dona do quarteirão em que está o Oficina) e construir um... shopping.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Viajar é preciso
"Vai, Carlos, ser gauche na vida." Esse verso do poema de Drummond não me foi dito por nenhum anjo torto, mas por meu médico. O que ele quis dizer? Ele diz isso quando conto-lhe minhas aventuras por esse país, andando de norte a sul com meu peugeotizinho, conhecendo pessoas, me aventurando, sem limites muito definidos. Eu gosto de sair do certo quando me dá na telha, eu gosto de experimentar minhas capacidades. Eu faço, porém, coisas que não são perigosas. É que em boa parte de minha vida fui delimitado, com medo de sair do conforto do conhecido, e sempre orientado a não sair do cabresto me imposto. A busca de novos horizontes é uma forma de quebrar essas correntes, de desbravar, de crescer. Sei que muitas vezes é de uma forma meio destrambelhada, como quando dirigi 18 horas sem parar de Cascavel, no Paraná, a Rondonópolis, no Mato Grosso. Foi uma loucura. Mas eu queria, de alguma forma, testar meu limite. É errado, eu sei, mas eu estava afetado por acontecimentos que me deixaram abalado, e a forma de não pensar muito nisso foi essa sandice. O problema é que adoro dirigir. Quando pequenino, brincava de motorista de ônibus. E não sei como não segui nessa profissão, tamanho era o gosto que eu tinha nesse brinquedo. Adorava carrinhos, jipinhos, triciclos, tudo que pudesse rodar comigo em cima ou dentro. Curiosamente, só fui tirar carteira de habilitação com mais de 20 anos. Além de gostar de andar de carro, gosto de viajar, quero conhecer o Brasil todo, não me importo muito em conhecer o exterior por enquanto, quero ir para o Sul e para o Norte, que ainda não conheço. Então quando é possível eu pego a estrada e vou conhecer novas paisagens, novas pessoas, novas comidas, hábitos, músicas, novas culturas, enfim. Mas o que mais me admira e me deixa encantado são os sotaques que vou conhecendo. Como é rica a diversidade de meu país. Estou agora frequentando mais o sul de Minas por conta de minha namorada Isabela, que mora em Três Pontas. E aquele sotaque mineiro meio cantado é lindo, como gosto de ouvir o povo de lá falando. É uma verdadeira fruição. Ir semanalmente para lá, apesar de cansativo, é estimulante, pois sempre há uma localidade diferente para ir, novas cachoeiras para ver, fazendas. Recentemente estivemos em São Thomé das Letras, um lugar dado como místico, envolto em uma aura esotérica. Confesso que não senti nenhuma energia especial ali, mas o lugar é deslumbrante, com todas aquelas pedras, tão exploradas industrial e comercialmente, e cachoeiras de acesso difícil. São novas visões que superam a melancolia da retina, de sempre ver as mesmas coisas. Então o fato de eu desbravar esses rincões não pode ser considerado irresponsabilidade. Acho que é antes de qualquer coisa fome e sede de conhecimento, porque viajar é conhecer, é crescer. Claro que há maneiras digamos mais seguras de o fazer e eu costumo escolher umas um pouco mais arriscadas. Mas permitem conhecer muito mais e dão bem mais liberdade de fazer o que quero, no momento que desejo. Afinal, como canta o Walter Franco, "o mundo fica imóvel sem você".
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
O filho do Brasil

Invade-me grande curiosidade de assistir ao filme Lula, o filho do Brasil, de Fábio Barreto, que conta a história do líder sindical Luiz Inácio da Silva, o Baiano, desde sua infância em Pernambuco até a primeira prisão nos anos 70/80, com cenas adicionais de sua posse como presidente da República em 2003. O filme foi exibido no Festival de Cinema de Brasília na noite do dia 17 com bastante repercussão e grande número de presentes. Deve ser projetado no conjunto Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, no dia 28, com a presença do próprio biografado. Estreia em circuito comercial (fala-se em 500 salas) em janeiro de 2010. Por que a curiosidade? Porque, além de Lula ser uma figura singular na política brasileira, e que por isso mesmo a exposição de sua história, ainda que com forte carga dramática, como o próprio diretor admite, suscite curiosidade, há aspectos de minha própria vida que têm correlação se não com a trajetória dele, pelo menos com um certo espírito de época, pois em certos momentos bebemos da mesma fonte. Filho de operário do setor automobilístico no ABC paulista, em 1980 eu estava servindo o Exército no Tiro de Guerra de Santo André. Fazíamos treino de tiro em São Bernardo. O clima na época era quente: greves, manifestações, assembleias, piquetes... Eu não entendia daquilo e não me importava muito com o assunto não. Minhas preocupações eram outras: garotas, bailes, roupas de grife, tênis incrementados. Meu pai não era do movimento sindical, e não ia muito com a cara do Lula. Mas havia outros metalúrgicos em minha família, tios, primos, e alguns deles iam às assembleias. E um dia, indo de caminhão ao campo de tiro, passamos pelo Paço Municipal de São Bernarndo bem no momento em que havia uma assembleia. Quando o caminhão passou ao lado da peãozada, a tensão podia ser sentida no ar. E eu pensei: e se tivesse que enfrentar esses trabalhadores? Sim, porque no quartel se falava que a situação estava ficando perigosa e podíamos ser convocados a agir. Imagina eu tendo que atirar em um parente meu que ali porventura pudesse estar? Esta foi a primeira centelha de consciência social de que me lembro ser invadido. Pouco depois já estava totalmente envolvido com o que se denominava então "movimento", por meio de grupo de jovens, depois de teatro, em seguida militando em um partido político e, após muita luta, atuando em um governo municipal, senão como formulador de políticas, ao menos como um trabalhador de comunicação tentando difundir a uma população ainda desacostumada com a democracia o significado de uma gestão cidadã. Hoje não tenho mais nenhuma forma de militância, mas a semente germinou e minha cabeça funciona no sentido de defender a liberdadade e os direitos fundamentais, coisas que nos foram negadas por muito tempo, apesar de eu não ter vivido essa época para testemunhar, mas que, depois de muitas leituras e outras formas de obtenção de informação, sei que não podem retornar. Então ver esse filme será reconstituir a trajetória de quem foi um dia desligado dessas coisas, não por vontade própria, mas porque o regime militar soube ser eficiente, e despertou para a vida democrática e a luta por ela, com a diferença de que o Luiz Inácio fez da luta a sua razão de viver, enquanto eu apenas tomei essa como uma visão de mundo, da qual não me arrependo.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Um evento solene em Três Pontas

Minha roupa nova desfilou intrépida, acompanhada do longo vermelho de Isabela, pelo salão do Clube Literário Recreativo Trespontano, onde 85 personalidades "mineiras" foram homenageadas - Isabela inclusive. Evento glamouroso. Decoração caprichada. Rosas nas mesas. Bufê (do Pedro) generoso. Bebidas de qualidade. Valeram os cem paus do convite. Nota negativa: nossos lugares na mesa estavam ocupados, havendo apenas uma cadeira onde deveriam estar duas. Menos mal: acabamos sozinhos em uma mesa só para nós no mezanino, onde a vista era bem melhor. Comemos, bebemos, conversamos. Serviço eficiente. Chato foi esperar os homenageados seram chamados um a um para receber o certificado, um adesivo de papel que o laureado tem a opção de fazer o que quiser com ele. Por que não uma placa de aço escovado ou mesmo de acrílico? Foram outorgadas as homenagens a personalidades de diversas áreas não só de Três Pontas como de cidades vizinhas, profissionais liberais, empresários, políticos. Tudo sob a organização do colunista social Mauro Bueno, que demonstrou competência e bom gosto. Depois de todos devidamente chamados e homenageados, a Exta'z Banda Show (é, a grafia é esta mesmo, conforme me corrigiu a Renata Duarte) bota pra quebrar, tocando vários estilos, com muitas trocas de figurino e telões com vídeos dos cantores e grupos interpretados. Começam solenes, com Sinatra, Cole Porter e tais, passam por Bee Gees, Madonna e Michael Jackson e, inevitavelmente, enredam pelo pagode, axé e sertaneja. Claro, para agradar a gregos e troianos. Muita vibração. Gente de todas as idades dançando, inebriados pelo espumante Lambrusco, Red Label ou cerveja. Água e refrigerantes também (sodinha não havia). Para o jantar, quatro tipos de escondidinho. Optei pelo de camarão. Muito bom. Em resumo, festa simpática, em cidade pequena, em que todos - ou quase todos - se conhecem. Eu, por ser desconhecido, fui confundido com fotógrafo de coluna social. Saí a fotografar a banda e várias pessoas pediam para serem retratadas. Ao que atendi prontamente, sem explicar que as fotos ficariam apenas em meu computador. Ficamos no evento até as luzes começarem a ser apagadas, por volta de seis da manhã, quando o serviço já havia sido há tempo interrompido. Mas felizes e bem-humorados. Foi uma diversão boa. A roupa nova que o diga, encharcada de suor que ficou.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Minha roupa nova
Comprei um terno novo. Vou a um evento em Três Pontas (MG) sábado e precisava de uma fatiota decente. Minhas roupas sociais, da época que eu trabalhava como repórter de economia, já não servem, estão fora da moda e com um aroma de guarda-roupa que duvido que qualquer lavanderia extraia. É interessante comprar roupa social, um figurino ao qual raramente eu me enquadro, exceção aos casamentos e formaturas eventuais. Eu acho bonito, mas não tenho ambiente para usar esse tipo de roupa. Acho prática, pois não tem muita variedade: é um paletó e uma calça geralmente de mesmos tecido e cor, camisa e gravata. E sapatos, claro. O que não tolero é a pessoa, envolta num costume desses, sentir-se poderosa e prepotente. E exemplos há muitos por aí. Mas há um porquê, afinal, por exemplo, esse evento a que vou, de homenagem a figuras ilustres daquela cidade mineira: a obrigatoriedade do traje social já denota que a roupa é solene e é destinada a destacar a pessoa. Claro, se fossem todos de qualquer jeito, a cerimônia perderia seu glamour, o que é imprescindível, no entender de quem organiza coisas como essas. Aí pressupõe-se que quem usa terno tem importância social, e há muitos que fazem questão de serem tratados com esse respeito. Eu não faço questão de nada, acho a roupa bonita e elegante e prática, apesar de muito quente para nossos trópicos (se bem que há tecidos que os fabricantes prometem não esquentar no calor). E vou usar minha nova roupa com prazer e orgulho, já que uma das homenageadas no evento será Isabela, por seu trabalho como designer. Depois conto tudo.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
A paz necessária

Gostaria de escrever com a habilidade e informalidade da Roberta, de Homem é Tudo Palhaço e Mundo Estranho. Ela consegue imprimir aos textos sobre seu cotidiano uma intensidade que eu não consigo, se bem que nunca tentei. É que não sei se meu dia a dia interessa a alguém além de mim. É legal acompanhar o dela, porque sempre rio muito, do escracho que ela bota e do delicioso mau humor que exala às vezes. Nas duas vezes que a encontrei, uma no Rio e outra em São Paulo, não pudemos conversar muito, porque os locais não permitiam, mas deu para sacar que pessoa interessante ela é. Bem, o texto não é para puxar o saco de Roberta, sobrenome Carvalho, mas para dizer que acho meu texto quadrado demais, sem brilho, pouco criativo e até enfadonho por vezes. Muitas vezes me faltam assuntos, e aí fico semanas sem postar nada. Gosto quando vou a algum espetáculo ou lugar, porque aí dá para comentar minhas impressões, e fica o registro, para quando quiser reviver o momento. Agora estou indo sempre para o sul de Minas, e conhecendo cachoeiras e cidadezinhas bem legais. A última foi Pouso Alegre, que forçosamente lá estive porque meu carro quebrou no caminho e a concessionária mais perto era lá. Passamos o fim de semana ali e Isabela achou uma cachoeira de 15 quedas em Congonhal. Um espanto de bonito. foi lá que a tal borboleta azul de que falo aí na lateral me seguiu. Curioso que semana passada fomos em outras cachoeiras em outra cidade e também lá havia o tal inseto, igualzinho, como se fosse o mesmo, nos rodeando. Vai entender! Pouso Alegre é uma cidade relativamente grande (vejo no Wiki que, com 120 mil habitantes, é a 19ª maior do Estado e segunda maior do sul de Minas, atrás de Poços de Caldas) . Tem bastante indústrias e um comércio estabelecido. Já Congonhal tem 10 mil habitantes e é uma cidade turística, e foi lá que paramos em um boteco de beira de estrada para comer uma tilápia e beber cerveja. E tocamos violão para distrair. Um programa bem ameno. Na semana seguinte, de volta para Três Pontas, mais cachoeiras, galinhada em uma fazenda e haras, e na volta comi cigarrete, um salgado típico dali, com sodinha, um refrigerante de abacaxi em uma garrafinha do tamanho da antiga caçulinha. Deu uma nostalgia. Caçulinha era uma garrafinha de guaraná Antarctica, que existia nos anos 60 e 70. Essa sodinha é muito boa, e o cigarrete é um tipo de enroladinho de presunto e queijo, mas há outros recheios, como franco com catupiry e quatro queijos. Muito gostoso, por sinal. Os trespontanos são muito tranquilos, simpáticos, bem humorados e hospitaleiros. Estou me sentindo muito bem naquele ambiente. Estive novamente na bela casa de Beto e sua mulher Ana, onde passamos a noite cantando com ele ao violão, tomando cerveja e ouvindo os passarinhos. Conheci Eduardo, que trabalha no Rio, com quem fomos conhecer uma cachoeira em Sobradinho, nos arredores da cidade. Tomei uma ducha muito boa lá (foto acima). No outro dia fomos a uma galinhada na fazenda de tios de Isabela, com vários parentes dela lá. Fui muito bem recebido e servido, já que a comida e a bebiba estavam fartas. Essa tranquilidade toda me deixa muito bem, a gente que se estressa tanto na cidade. Volto para a metrópole renovado, e com a paciência em dia, por saber que no fim de semana seguinte posso voltar para lá e tomar mais banhos de cachoeira e de paz. Isso, como diz o comercial, não tem preço.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Adiós, La Negra

A cantora argentina Mercedes Sosa, que morreu neste domingo, 4/10, aos 74 anos, me comoveu à primeira vez que a ouvi. Foi dela o primeiro disco que comprei na vida, na verdade uma fita cassete, com a gravação de um show que ela fez no Ginásio do Ibirapuera, em 1980. Comprei porque era uma época em que o meio que eu frequentava respirava música latino-americana, no sentido de integração dos povos, por conta das inúmeras ditaduras que havia no continente. E celebrar aqueles cantores e compositores hermanos era comum entre os nossos artistas. Chico, Milton, Fagner, entre outros, tinham ligações com colegas argentinos, chilenos, cubanos e se gravavam mutuamente. E nós, lá de nossa comunidade em Santo André, bebíamos dessa fonte e ouvíamos avidamente Violeta Parra, Victor Jara, Pablo Milanés, Atahualpa Yupanqui, Tejada Gómes, compositores dos quais Mercedes Sosa era, decididamente, a intérprete definitiva. Só para se ter uma idéia, havia, nessa época, pelo menos dois grandes grupos brasileiros dedicados a interpretar canções latino-americana: Tarancón e Raíces de América. Mas Mercedes Sosa, ou La Negra como era chamada, por causa dos cabelos pretos, tinha o dom de emocionar quem a ouvisse. Bem, não sei se todos, mas eu me emocionava e ouvi aquela fita cassete sem parar, não sabendo se prestava mais atenção às letras ou à interpretação perfeita e comovida dela. Cantor de Oficio, Gracias a La Vida, Drume Negrita, Canción con Todos, Los Hermanos, La Carta, Volver a Los 17... canções que eu sabia de cor - se forçar um pouco, ainda sei. E a língua não era barreira, conseguia entender perfeitamente a mensagem por trás daquele espanhol, dada a interpretação precisa que Mercedes sabia dar. Infelizmente nunca pude assistir a um show dela, mas ela estava sempre presente, em participações em discos de brasileiros, aparecendo esporadicamente na TV. Por meio dela conhecemos compositores muito importantes para a luta contra os regimes autoritários, que tinham a palavra como arma e que por causa dela sofriam represálias. A própria Mercedes foi presa em seu país e teve de se exilar em Paris e Madri. Lembrar, agora, de Mercedes, é recordar um período, quase 30 anos atrás, que marcou profundamente minha personalidade, que edificou meu caráter e que me tornou o que sou hoje. Claro que muitos sonhos daquela época tornaram-se apenas sonhos, alguns agora, numa retrospectiva, até bastante ingênuos. Posso dizer que meu coração está mais endurecido, estou um tanto quanto cético, mesmo tendo nossa luta de então tido relativo sucesso com o governo que hoje temos, ou seja, as ilusões ficaram para trás. Mas reconheço que fazem falta aqueles sonhos, aquele vigor de fazer alguma coisa, aquela capacidade de sentir-se cidadão latino-americano e se solidarizar com os outros povos, de se emocionar ao ouvir Mercedes cantar que tem tantos irmãos que não se pode contar. Sei que ainda posso me emocionar ao ouvi-la, assim como me invade uma grande tristeza por sua perda. Sei que o tempo não volta, e nem deveria voltar. Mas as emoções de uma época a gente pode sim reviver, e quem sabe tornar-se uma pessoa melhor, porque havia sinceridade naqueles sonhos, e, como disse aí embaixo, os sonhos não envelhecem.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Olha que coisa mais linda
Um mês e pouco de aulas e já há um rebento de que se orgulhar. Aprendi a tocar uma das grandes músicas da bossa nova, a Garota de Ipanema. Claro que ainda sai capengando, os dedos não encontram às vezes a corda certa na casa correspondente, mas está lá, para aperfeiçoar. Quando vi a canção no final do livro pensei: Ih, vai levar tempo até chegar aqui. Mas foi a terceira música que nos foi desafiada, depois de A Paz, de Gil, e Meninos e Meninas, da Legião. A primeira eu toquei até sair sem muito vacilo; a segunda, não consegui. Mas depois de pegar com algum desembaraço os acordes de Garota, senti-me vingado do rock do Renato Russo. E olha que são acordes com bemóis, sustenidos, sétimas e nonas, coisa sofisticada. Mas muito simples mesmo. Claro que não se iguala a João Gilberto, mas dá para reconhecer a harmonia direitinho. Só falta agora ter a coragem de pegar o violão em alguma reunião e tascar meu belo repertório de duas músicas, mas o importante não é isso, mas o fato de que estou vendo que o esforço traz resultado. Eu andava meio esquecido disso, seja porque não tenho me esforçado muito em outras áreas, seja porque não esteja vendo resultado em outras. Assim, o curso tem valido, além de tudo, como uma terapia que se vê funcionar. Porque outra que frequento não estou vendo muita coisa não. Vai ver resolve aquilo a que você se dedica com vontade, e não orientado por outros.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Os sonhos não envelhecem
Peço licença a Milton, Lô e Márcio para usar esse verso de Clube da Esquina 2 no título deste texto, mas não consigo pensar em frase mais adequada para o que vivi neste sábado, 12, em Três Pontas, Minas Gerais, durante o Festival Música do
Mundo, evento que reuniu dezenas de artistas e várias
atividades, tudo em prol de dois de seus filhos diletos, Milton Nascimento e Wagner Tiso. Foi realmente um sonho de muitos anos que estava lá sendo realizado, qual seja, ver juntos cantando tão perto e com tanta emoção artistas que aprendi a amar há tanto tempo, e que por 
circunstâncias da vida ainda não tinha tido a oportunidade de ver e ouvir ao vivo. Milton eu conheci tardiamente, assim como toda a galera do Clube da Esquina, já com 19 anos, por intermédio dos amigos de sempre Paulinho e suas irmãs Cristina e Neuza. As horas passadas
na casa deles ouvindo os LPs no velho 3 em 1 habitam minha memória sempre. Nunca mais deixei de ouvir Milton. Comprava todas as fitas k7 que saíam, depois os vinis, mais tarde os CDs e hoje está no MP3 e no pen drive quase toda a coleção. Faltava ver o Bituca ao vivo. E foi uma graça divina, que eu acho mesmo, que a Isabela, agora minha namorada, cruzou o meu caminho e me fez saber desse festival, ao qual eu não podia faltar. E fui. E a jornada, para mim, começou na sexta, 11, quando em uma praça da
cidade assistimos a apresentações de músicos parte das atividades do festival, que começara na véspera e foi até domingo, 13. Apresentaram-se lá, Pedrinho do Cavaco, com direito a canja de Milton, a dançarina Paula Duarte e Änïmä Minas, entre outros. De repente olho para o lado e está Wagner Tiso, assim, no meio da galera assistindo aos shows. Quando me viro, vejo o próprio Milton, sentado em uma cadeira no palanque montado para as autoridades. E o curioso é que ninguém os importunava; olhares curiosos, sim, mas nada de tietagem explícita. Maravilha. No sábado, o grande dia, que começou às 15, com show de Wilson Sideral, seguido de Lô Borges, Ark 2, Toninho Horta, Ricardo Herz e o violinista francês Didier Lockwood, Ivan Lins, Marco Lobo e galera, Wagner Tiso, Tom Zé, Lenine e a entidade Milton Nascimento, que entrou já com o relógio marcando mais de 3 da manhã. Músicas daqueles tempos e de todos os tempos, dando aos fãs o que eles (nós) queríamos e gostamos. Um sonho mesmo que mantém-se jovem e cristalino. Uma vontade de cantar junto a plenos pulmões. E que Milton, sensível, captou, oferecendo à platéia o microfone para cantar junto. Não sei se há palavras suficientes para descrever o momento e a pessoa desse artista tão especial, que essa cidade ama e respeita tanto. Aliás, como escrevi no post anterior, Três Pontas respira música e ama Milton. Ouvi pessoas de todas as idades cantarem de cor canções bem antigas, que só quem acompanha mesmo a carreira e o adora pode reconhecer. Esse ouvido musical da cidade talvez explique por que tem gerado tantos artistas, esses que conhecemos e tantos outros anônimos - por enquanto, a se considerar o talento deles logo serão conhecidos além dali. Esse festival mobilizou a cidade e reuniu por baixo umas 10 mil pessoas, parecendo em alguns pontos um verdadeiro Woodstock, com seus hippies sentados em seus sarongues - ou algo parecido - coloridos. E foi perfeito, não vi nada que pudesse suscitar má organização. Conheci pessoas maravilhosas nessa cidade e nesse evento, comi coisas incríveis, como o improvável, a nós paulistas, sanduíche de pernil no pão de queijo, o frango com coqueiro - uma espécie de palmito, o cheesburguer de filé do quiosque Sandubas. Enfim, uma cidade que me cativou e que me proporcionou, além do amor de minha adorada Isabela, esses momentos raros de boa música e simpatia singulares, de que, tenho certeza, sempre me lembrarei.
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