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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Minha vinilteca (3): O Banquete dos Mendigos

 

MINHA VINILTECA


Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.

Em homenagem a Jards Macalé

Como o disco chegou a mim

O álbum duplo  "O Banquete dos Mendigos" apareceu no apartamento onde eu morava com minha então companheira Joana em São Bernardo do Campo (SP), creio que por volta de 1991. Não sei quem o esqueceu lá, já estava na estante antes de me casar com ela. Quer dizer, imagino quem o deixou lá, mas não digo, sob risco de a pessoa querer de volta (risos).

À época não tinha muitas informações sobre o disco, além daquelas disponíveis na capa, contracapa e encarte. O repertório e os intérpretes, de primeira grandeza, me chamaram a atenção de imediato, assim como a ilustração da capa, uma reprodução da "Última Ceia" de  Leonardo da Vinci (1452-1519). E também a tarja ao alto do canto esquerdo: "LIBERADO".

Eu me lembro de sentir uma certa angústia ao ouvi-lo inteiro na primeira vez. É um disco gravado ao vivo, com meus artistas preferidos de sempre, com plateia aplaudindo, gritando, mas não me pareceu clima de festa: era como uma impossibilidade de se irradiar alegria, dado o período de trevas em que foi gravado. E a voz forte do poeta e futuro imortal da ABL Ivan Junqueira lendo artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos acrescentava tensão ao clima.

O contexto de produção


Contava Jards Macalé (1943-2025) que, em 1973, ele estava duro e puto. Comendo da farinha do desprezo. Após dirigir em Londres o álbum "Transa", de Caetano Veloso,  no ano anterior, e não receber os devidos créditos, e de seu LP homônimo de 1972 ser um fracasso de vendas, resolveu promover um espetáculo beneficente - em benefício próprio, bem entendido -, seguindo uma onda da época de se realizar shows para ajudar os artistas que enfrentavam a barra pesada da ditadura.

A ideia foi bem recebida e obteve adesões de nomes de peso como Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Edu Lobo, Gal Costa e de debutantes como Raul Seixas e Luiz Melodia. Agora faltava encontrar um local para as apresentações. Foi quando o então diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), Cosme Alves Neto, lhe contou que estava sendo organizada uma mostra em homenagem aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e sugeriu que o espetáculo fizesse parte do evento. Jards topou na hora: farinha do desejo!

Assim, em 10 de dezembro (mesma data em que, em 1948, foi assinada a Declaração) de 1973, os músicos e intérpretes reuniram-se no MAM para um espetáculo cuja parte da divulgação ficou a cargo de meninos de favelas do Morro do Pinto e da Comunidade São Lourenço, que distribuíram pela cidade panfletos convidando para o evento. Mas, claro, se falar de direitos humanos em plena ditadura, governo Médici, não passaria batido.

Diz-se que a plateia, de cerca de 4 mil pessoas, estava coalhada de agentes da polícia à paisana (como se possível fosse algum disfarce) e os censores estavam na primeira fila do auditório. Soldados do Exército cercavam o prédio do museu. Não houve, contudo, repressão física, mas, como Chico Buarque fez questão de frisar, nem tudo era permitido. Em sua apresentação, Chico falou que seu repertório estava desfalcado e algumas canções foram proibidas de se executar, como "Vai Trabalhar, Vagabundo" (tema de filme homônimo de Hugo Carvana). No lugar dela, ele cantou trechos de "Jorge Maravilha", de Julinho de Adelaide, pseudônimo que usou à época para driblar a censura.

Detalhes técnicos


O show foi gravado de maneira sorrateira, driblando os olhares dos agentes da repressão, que chegaram a confiscar fitas de gravação, mas que, espertamente, foram enviadas a local seguro antes e os meganhas acabaram levando foram fitas virgens. Foi o primeiro desafio coletivo de artistas brasileiros à ditadura depois do Ato Institucional n° 5 (AI-5), no final do governo do general Médici (fonte: Memorial da Democracia).

A direção geral do espetáculo foi de Jards Macalé, com Ana Maria Miranda como assistente; coordenação geral de Xico Chaves e Lula, com assistência de Flor Maria e Beto; Mauricio Hughes e Ray como técnicos de som e Etiny de contrarregra.

A gravadora RCA produziu e lançou o LP em 1974, mas a censura o proibiu e recolheu os exemplares das lojas. O álbum só seria liberado em 1979, com capa diferente (o original era uma foto da plateia, e não a reprodução da obra de Da Vinci). O encarte de 12 páginas traz as fotos e textos da primeira versão recolhida.

O disco teve coordenação artística e direção de estúdio de Jards Macalé; mixagem de Paulo Frazão e Luis Carlos; fotos de Alexandre Koester, Cleber Cruz e Ivan Klingen e direção de arte por Ney Tavora. O texto do encarte menciona e agradece o espanhol Antonio Muiño Loureda, diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), um dos idealizadores da mostra; Ivan Junqueira, assessor de Imprensa do Centro de Informações das Nações Unidas no Brasil, que fez a leitura de artigos da Declaração; Heloisa Lustosa, diretora do MAM-RJ; o já citado Cosme Alves Neto; e Newton Anet, advogado e assessor jurídico.

O texto do encarte afirma que os artistas, gravadora e equipe abriram mão de seus direitos artísticos e fonográficos  "em função de outros Direitos que se tornaram urgentes: o Direito à Vida, à Sobrevivência". Diz ainda que metade dos ganhos com as vendas seria destinada ao Centro das Nações Unidas no Brasil para ser entregue ao Special Sahelian Office, escritório especial da Divisão dos Direitos Humanos, em benefício de populações da África Central assoladas pela seca, como o oeste da Mauritânia e leste da Etiópia.

O disco é dedicado ao poeta piauiense Torquato Neto, morto um ano antes.

Os músicos e as faixas dos LPs


Não há informações disponíveis sobre os músicos que acompanharam os intérpretes das faixas do álbum, supondo-se que alguns se acompanharam ao violão ou piano. Mas alguns chegam a mencionar seus acompanhantes. Edu Lobo e Milton Nascimento mencionam Danilo Caymmi na flauta; Bituca também apresenta Paulo, Claudio, Maurício e Toninho Horta (guitarra). O MPB4 sola e acompanha Chico, mas sem Magro.

O Grupo Soma, que toca neste LP uma faixa chamada PF (prato feito? Polícia federal?) era formado pelo baixista norte-americano Bruce Henry, Tomás Improta (teclados), Áureo de Souza (bateria) e o inglês Ritchie "Menina Veneno" (flauta). No show, o grupo tocou outras duas músicas: "Albuquerque Woman" e " Um Dia".



O LP duplo de 1979 contém 23 faixas, intercaladas pela leitura de 17 dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em junho de 2015, o selo Discobertas lançou uma caixa com 3 CDs (foto à esq.) contendo o show na íntegra - disponível no Spotfy (abaixo) -, com 43 faixas e a leitura integral do texto da Declaração, mas em faixa única ao final das apresentações.

A versão de 1974/1979 nunca foi editada em CD.



Disco 1

Lado A

1) Introdução
Art. 1º
2) "No Pagode do Vavá" (Paulinho da Viola) - Com Paulinho da Viola (voz e violão)
"Roendo As Unhas" ( Paulinho da Viola ) - Com Paulinho da Viola (voz e violão)
3) "Percussão" (Pedro dos Santos) - Com Pedro dos Santos
Art. 2 e 3
4) Art. 5
5) "Samba dos Animais" (Jorge Mautner) - Com Jorge Mautner (voz) e Nelson Jacobina (violão)
6) Art. 6 e 8
7) "Pra Dizer Adeus" (Edu Lobo/Torquato Neto) - Com Edu Lobo (voz e violão) e Danilo Caymmi (flauta)
Art. 9
"Viola Fora de Moda" (Edu Lobo/Capinam) - Com Edu Lobo (voz e violão) e Danilo Caymmi (flauta)

Lado B

1) "Palavras" (Luiz Gonzaga Jr.) - Com Luiz Gonzaga Jr. (voz e violão)
Art. 11 e 12
2) "Eu E A Brisa" (Johnny Alf) - Com Johnny Alf (voz e piano)
Art. 13 e 14
"Ilusão À Toa" (Johnny Alf) - Com Johnny Alf (voz e piano)
3) "Cachorro Urubu" (Raul Seixas/Paulo Coelho) - Com Raul Seixas
Art. 18
4) "P. F." (Bruce/Shields) - Com Grupo Soma
Art. 19
5) "Nanã das Águas" (João Donato/Geraldo Carneiro) - Com Edison Machado e Grupo
Art. 20 e 21

Disco 2

Lado A

1) "Pesadelo" (Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro) - Com MPB4
"Quando O Carnaval Chegar" (Chico Buarque) - Com Chico Buarque e MPB4
"Bom Conselho" (Chico Buarque) - Com Chico Buarque e MPB4
"Jorge Maravilha" (Julinho da Adelaide) -  Com Chico Buarque e MPB4
2) "Abundantemente Morte" (Luiz Melodia) - Com Luiz Melodia
Art. 23 (a)
3) "Cais" (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos) - Com Milton Nascimento (voz e violão)
Art. 23 (b)
"A Felicidade" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) - Com Milton Nascimento (voz e violão)

Lado B

1) "Anjo Exterminado" (Jards Macalé/Waly Salomão) - Com Jards Macalé (voz e violão)
"Rua Real Grandeza" (Jards Macalé/Waly Salomão) - Com Jards Macalé (voz e violão)
Art. 23 (c)
2) "Asa Branca" (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) - Com Dominguinhos (voz e acordeon)
"Lamento Sertanejo" (Dominguinhos/Gilberto Gil) - Com Dominguinhos (voz e violão)
3) Art. 30
4) "Oração de Mãe Menininha" (Dorival Caymmi) - Com Gal Costa


Ouça a íntegra no Spotfy


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Minha vinilteca (2): Lô Borges...

MINHA VINILTECA

Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.


Esta postagem homenageia Lô Borges 

Salomão Borges Filho, o Lô Borges, parceiro de Clube da Esquina de Milton "Bituca" Nascimento, morreu neste domingo, 02/11/2025, Dia de Finados, aos 73 anos, por "falência múltipla de órgãos", segundo o boletim médico divulgado pelo Hospital Unimed de Belo Horizonte, onde estava internado desde 18 de outubro, com um quadro de intoxicação por medicamentos.

Nesta postagem da série "Minha Vinilteca", fujo da regra que eu mesmo determinei, de intercalar LPs nacionais e internacionais, em ordem alfabética, avançando algumas letras para prestar minha homenagem sentida e dolorida a esse artista mineiro de imensa qualidade e sensibilidade. Falo aqui dos primeiros álbuns do compositor que adquiri: "A Via Láctea" e "Clube da Esquina", este com Milton Nascimento.

Este Blog já cobriu um festival em Três Pontas (MG), onde nasceu Wagner Tiso e cresceu Bituca, evento este que reuniu ainda Lô e uma galera muito da pesada. Acesse aqui.

A VIA LÁCTEA

A surpresa 

"A Via Láctea" foi lançado em 1979, sete anos depois do famoso "disco do tênis", que fora colocado no mercado no mesmo ano do "Clube da Esquina". Eu o ganhei em 20/12/1985, creio que como presente de amigo secreto do banco em que eu trabalhava. Dentro da embalagem (descobri somente hoje, 40 anos depois!), há um cartão de boas festas, assinado por Eliete. Peço mil desculpas, Eliete, não me lembro de você. Mas agradeço imensamente o presente. No disco há carimbo da loja São Bento Discos, de São Paulo.

À época, eu era admirador de Bituca, de quem comprava todas as fitas K7 que encontrava. Chegar a Lô foi um percurso natural, uma vez que nos discos de Milton o garoto estava sempre presente. Como era praxe para mim, eu sempre indicava nos amigos secretos o que queria ganhar, para não haver erros. Então devo ter recomendado a Eliete que me desse um disco do Lô. Assim que o pus para rodar, já me apaixonei. É o único LP individual de Lô que tenho.

Ficha técnica

O LP foi lançado pela EMI Odeon Fonográfica, com direção de produção de Mariozinho Rocha, e produção executiva de Milton Nascimento. Os técnicos de gravação são Roberto Castro, Mayrton Bahia e Dacy Rodrigues; a mixagem é de Franklin Garrido e Nivaldo Duarte, com corte de Osmar Furtado. A concepção da capa é de Kélio Rodrigues e Márcio Borges, com fotos de José Roberto e Henrique Leiner, com coordenação gráfica de Tadeu Valério e Kélio Rodrigues. A ficha traz ainda agradecimentos a seu Nonato pelo cafezinho.

Os músicos

Acompanham Lô Borges (que canta e toca guitarra, violão, piano e viola de 12) os músicos Paulinho Carvalho (baixo, guitarra e violão), Telo Borges (violão, piano, piano elétrico), Fernando Oly (viola de 12 cordas), Hely Rodrigues (bateria), Robertinho Silva (bateria e percussão, Aleuda Chaves (percussão), Cláudio Venturini (guitarra), Wagner Tiso (orquestração, regência, ARP Omni, piano, sintetizador, órgão, acordeon), Toninho Horta (orquestração, regência, piano, guitarra, percussão), Luiz Alves (baixo acústico), Copinha (Nicolino Cópia), Celso Woltzenlogel, Jorginho (Jorge Ferreira da Silva) e Jaime (flautas), Flávio Venturini (piano e sintetizador), Vermelho (José Geraldo de Castro Moreira, órgão e sintetizador).

Ainda acompanham Giancarlo, Vidal, Alves, Daltro, Eduardo, Murilo, Faini, Aizik, Lana, Paschoal, Walter e Piersantino (violino spalla), Penteado, Stephany, Macedo, Linderburgo (violas), Marcio, Alceu, Watson e Ana (cellos).

A mana Solange Borges divide os vocais em duas faixas e Rick, Alexandre e Bituca reforçam as palmas na vinheta que fecha o lado A.

As faixas do LP

Lado A

1) "Sempre Viva" (Lô e Márcio Borges)

2) "Ela" (Lô e Márcio Borges)

3) "A Via Láctea" (Lô e Ronaldo Bastos)

4) "Clube da Esquina Nº 2" (Lô, Milton Nascimento e Márcio Borges) - com Solange

5) "A Olho Nu" (Lô e Márcio Borges)

Lado B

1) "Equatorial" (Lô, Beto Guedes e Márcio Borges)

2) "Vento de Maio" (Telo e Márcio Borges) - com Solange

3) "Chuva na Montanha" (Fernando Oly)

4) "Tudo Que Você Podia Ser" (Lô e Márcio Borges)

5) "Olha O Bicho Livre" (Paulinho Carvalho e Rodrigo Leste)

6) "Nau Sem Rumo" (Lô e Márcio Borges)


CLUBE DA ESQUINA

O contexto da compra

Na época da compra desse LP duplo (um luxo para poucos em 1972), eu já tinha adquirido um respeitável conjunto CCE com toca-discos, duplo K7 e sintonizador AM/FM e passei então a comprar discos de vinil, em vez dos cassetes que ouvia no toca-fitas do carro de meu pai. Não sei se este foi o primeiro LP que comprei, mas foi certamente o primeiro de Bituca. Um clássico, em todos os sentidos.

A compra foi feita em 20/11/1987, no Jumbo Eletro de Santo André, e tem até uma etiqueta com o preço dentro da capa: 59000 (eu não sei se eram 590,00 cruzados, ou 59.000 cruzados!). Lembro que ficava horas olhando aquela capa interna dupla cheia de fotos, tentando descobrir quem eram as personagens lá. Dá pra identificar de cara Dori e Dorival Caymmi, Bituca, Lô Borges, Paulinho da Viola, Beto Guedes, Norma Bengel, Toninho Horta e Miles Davis. Os demais, só pesquisando.

Ficha técnica

O LP foi lançado em 1972 pela EMI Odeon. A edição que tenho é de 1985, e não traz encarte nem qualquer outra informação, além daquelas disponíveis nos selos (nome das músicas e compositores). Mas uma edição especial em CD de outubro de 2007, da Trama, produzida por João Marcelo Bôscoli, que tem também o "Clube da Esquina 2", de 1978, oferece as informações.

O disco foi gravado nos Estúdios EMI-Odeon do Rio de Janeiro em 1972. A produção é de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. A direção de produção é de Milton Miranda, a direção musical, de Lindolfo Gaya, com supervisão de Bituca. Os orquestradores são Wagner Tiso e Eumir Deodato, com regência de Paulo Moura. O diretor técnico é Z. J. Merky. Os técnicos de gravação são Nivaldo Duarte, Jorge Teixeira e Zilmar Rodrigues. O técnico de laboratório é Reny |R. Lippi. A concepção da capa é de Cafi, com colaboração de Ronaldo Bastos. As fotos da capa, da contracapa e da nuvem são de Cafi e as internas de Cafi e Juvenal Pereira.

Os músicos

Como se sabe, o "Clube da Esquina" faz referência à turma que se reunia na confluência das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Belo Horizonte (MG), para tocar e trocar ideias. Aí, em meados de 1971, Bituca levou a galera para Niterói para compor e gravar o celebrado álbum homônimo duplo meses depois, à revelia dos protestos da gravadora, que achava um LP duplo absurdo. Mas Bituca bateu o pé, ameaçou trocar de firma e o disco saiu como ele quis. No estúdio, cada um tocava o que havia à disposição, e a ficha disponível dos músicos participantes é esta, com os instrumentos na ordem das faixas:

Milton Nascimento (voz, piano, violão) Lô Borges (voz, violão, guitarra, percussão, surdo, piano, bateria), Tavito (guitarra 12 cordas, guitarra 6 cordas, violão, percussão), Wagner Tiso (órgão, piano, piano elétrico), Beto Guedes (voz, baixo, guitarra 12 cordas, percussão, piano, carrilhão), Toninho Horta (guitarra, percussão, baixo, violão, voz), Robertinho Silva (bateria e percussão), Luiz Alves (caxixi, percussão, baixo com arco), Rubinho (tumbadora, bateria), Nelson Angelo (guitarra, percussão, surdo, piano), Paulinho Braga (percussão), Luiz Gonzaga Jr. (coro).   

As faixas dos LPs

Disco 1

Lado A

1) "Tudo Que Você Podia Ser" (Lô e Márcio Borges) - Voz: Bituca

2) "Cais" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) - Voz: Bituca

3) "O Trem Azul" (Lô Borges e Ronaldo Bastos) - Voz: Lô Borges

4) "Saídas e Bandeiras Nº 1" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Voz: Bituca e Beto Guedes

5) "Nuvem Cigana" (Lô Borges e Ronaldo Bastos) - Voz: Bituca

6) "Cravo e Canela" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) - Vozes: Bituca e Lô

Lado B

1) "Dos Cruces" (Carmelo Larrea Carricarte) - Voz: Bituca

2) "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo" (Lô e Márcio Borges) - Vozes: Lô e Beto Guedes

3) "San Vicente" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Vozes: Bituca e Tavito

4) "Estrelas" (Lô e Márcio Borges) - Voz: Lô

5) "Clube da Esquina Nº 2" (Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges) - Instrumental

Disco 2

Lado A

1) "Paisagem na Janela" (Lô Borges e Fernando Brandt) - Voz: Lô Borges

2) "Me Deixa em Paz" (Monsueto e Ayrton Amorim) - Voz: Alaíde Costa e Bituca

3) "Os Povos" (Milton Nascimento e Márcio Borges) - Voz: Bituca

4) "Saídas e Bandeiras Nº 2" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Vozes: Bituca e Beto Guedes

5) "Um Gosto de Sol" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) - Voz: Bituca

Lado B

1) "Pelo Amor de Deus" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Voz: Bituca

2) "Lilia" (Milton Nascimento) - Instrumental

3) "Trem de Doido" (Lô e Márcio Borges) - Voz: Lô Borges

4) "Nada Será Como Antes" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) - Vozes: Bituca e Beto Guedes

5) "Ao Que Vai Nascer" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Voz: Bituca


Ouçam os discos no Spotfy:

  

quarta-feira, 26 de março de 2025

Vinicius de Moraes


Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Em janeiro de 1961, o diplomata, poeta e letrista Vinicius de Moraes (1913-1980) estreava nos discos com sua própria voz. A obra inaugural foi um 78 rotações lançado pela Philips, em que o Poetinha cantava, com acompanhamento de conjunto e coro, dois sambas de sua autoria, em parceria com Tom Jobim.

No lado A, “Lamento no Morro”, composição dos dois para a peça “Orfeu da Conceição”, marco inicial da parceria deles, em 1956. No lado B estava a primeira gravação de um dos grandes sucessos da parceria de Vinicius com Tom Jobim, “Água de Beber”, feita em junho de 1960.

O local da composição foi Brasília, onde os dois passaram dez dias a convite do então presidente da República, Juscelino Kubitschek, que os havia incumbido de compor uma obra sinfônica dedicada à nova capital.

A incumbência resultou no repertório que o público conheceria no LP “Brasília: Sinfonia da Alvorada”, lançamento da Columbia em 1961 (já abordado aqui).

Água de beber” não entrou no disco em homenagem à nova capital federal e se tornou uma das músicas mais regravadas da parceria Tom e Vinicius, lançada inclusive por grandes intérpretes estrangeiros, como Frank Sinatra (1967) e Ella Fitzgerald (1981), ambos cantando versos em inglês escritos pelo nova-iorquino Norman Gimbel.

“Lamento no morro” também foi muito regravada, por nomes como Lucio Alves (1961), Maria Bethânia (2005) e Sérgio Mendes com o Quarteto Maogani (2006), além do próprio Tom Jobim (1970), em grande arranjo do alemão Claus Ogerman.

Vinicius cantaria nos anos seguintes em vários outros discos, gravados com o parceiro Toquinho, com a portuguesa Amália Rodrigues (1978), com Odete Lara (1963) e registros de inúmeros shows – entre eles um com Dorival Caymmi e o Quarteto em Cy (1965) e outro com Miúcha e os próprios Tom Jobim e Toquinho (1977). (Fontes: Discografia Brasileira, IMMuB).



sexta-feira, 14 de março de 2025

Alcides Geraldi

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

O cantor e compositor João Alcides Gerardi (1918-1978) nasceu em Porto Alegre, mas ainda criança mudou-se para o Rio de Janeiro.

Trabalhou no comércio ao lado do pai até 1935, quando começou a carreira de cantor, como crooner.

Em 1939, participou do grupo Namorados do Luar como vocalista. Nesse mesmo ano, realizou uma gravação particular do samba "Não Faça Vontade a Ela", de Nelson Cavaquinho (1911-1986).

Dois anos depois, formou o conjunto Os Três Marrecos, com Marília Batista (1918-1990) e Henrique Batista (1908-?), irmão da cantora.

Em 1944, atuou como crooner da orquestra de danças do maestro Simon Bountman (1900-1977) e foi convidado para trabalhar na Rádio Transmissora.

Seu primeiro disco comercial foi lançado pela Odeon em 1945, trazendo a música "Lourdes" (George Brasse e Mário Rossi). Três anos mais tarde foi contratado pela Rádio Tupi, onde permaneceu até 1953, quando foi para a Rádio Nacional.

Gravou dezenas de discos, especialmente na Odeon e na CBS, e foi também letrista de canções como "Filha do Coronel" (com Irani de Oliveira), tendo parceiros como Ernani Campos e Othon Russo.

Obteve grande êxito com gravações como "Antonico" (Ismael Silva), "Brotinho Maluco" (Aníbal Cruz), "Cabecinha no Ombro" (Paulo Borges), "Saudades do Passado", "Você Pensa", "Só Resta Lágrima", "Castelo de Areia" (Geraldo Jacques, Isaías Freitas e Meirinha), "E Eu Sem Maria" (Dorival Caymmi e Alcyr Pires Vermelho), entre outras.

Alcides morreu por complicações decorrentes de um acidente de carro, quando voltava de um show pela Via Dutra.

Em 1961, lançou pela Columbia o LP "Palavras de Amor", um disco de repertório romântico incluindo a canção título, de Paulo Borges. (Fontes: Last FM, Dicionário Cravo Albin da MPB, Toque Musical, IMMuB.)


quarta-feira, 12 de março de 2025

Fafá Lemos


Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

O violinista carioca Rafael Lemos Júnior (1921-2004), ou Fafá Lemos, começou a estudar o instrumento aos 7 anos de idade e, aos 9, apresentou-se como solista de um concerto de Antônio Vivaldi (1678-1741), acompanhado pela Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, sob regência do maestro Walter Burle-Marx (1902-1990).

É considerado um dos precursores da bossa-nova e teve influência do violinista francês Stephane Grappelli (1908-1997) no modo de tocar, sendo um dos poucos a utilizar o instrumento na música popular nas décadas de 1940 e 1950.

Em 1940, fez parte do naipe de violinos da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e depois foi convidado a participar da Orquestra de Carlos Machado (1908-1992) e seus "Brazilians Serenaders", onde tocou por seis anos.

Desse grupo fizeram parte o violonista Laurindo de Almeida (1917-1995) e o pianista e cantor Dick Farney (1921-1987), entre outros.

Logo depois, passou a tocar na boate Casablanca. Em 1950, a Rádio Nacional o contratou como um dos solistas da orquestra de Radamés Gnattali (1906-1988).

Tocou no LP da cantora Linda Batista (1919-1998) com as músicas "Vingança" (Lupicínio Rodrigues), "Risque" (Ary Barroso) e "Duas Contas" (Garoto).

Gravou seu primeiro disco em 1951, pela RCA Victor, interpretando o baião "Cigano no Baião", de Garoto, e a quadrilha "Saudades do Texas", de sua autoria.

Em 1952, foi para os EUA, onde apresentou-se por diversas vezes e, acompanhado por Laurindo de Almeida, gravou a trilha sonora do filme da Metro "Meu Amor Brasileiro", de Mervyn Le Roy (1900-1987), com Lana Turner (1921-1995) e Fernando Lamas (1915-1982).

Realizou inúmeras apresentações em cidades norte-americanas atuando ao lado de Carmen Miranda (1909-1955).

Ainda em 1952, gravou um LP na RCA Victor americana e integrou o Trio Surdina, com Garoto (1915-1955) ao violão e Chiquinho do Acordeom (1928-1933), que gravou quatro LPs, sendo um com obras de Ary Barroso (1903-1964) e outro, de Noel Rosa (1910-1937) e Dorival Caymmi (1914-2008).

O trio, registra Cravo Albin, foi precursor do sambalanço e da bossa-nova.

Após a morte de Carmem Miranda e de Garoto, retornou ao Brasil, dirigiu a RCA e atuou na Rádio Nacional.

Foi o violinista da gravação da trilha sonora da peça "Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes (1913-1980), lançada em disco pela Odeon em 1956.

Mudou-se para Los Angeles em 1961, trabalhando com Laurindo de Almeida, só retornando ao Brasil em 1985.

Em 1989, a convite da gravadora Eldorado, voltou aos estúdios para gravar um LP com a pianista Carolina Cardoso de Menezes (1913-2000), "Fafá & Carolina".

Seu LP de 1961, "Dó Ré Mi Fá-Fá Lemos", pela RCA Victor, traz uma das poucas composições de João Gilberto (1931-2019), "Hoba-Lá-Lá".

(Fontes: Toque Musical, Isaac Gonçalves Raimundo [UFG], Dicionário Cravo Albin da MPB, IMMuB.)



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Caterina Valente

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

A cantora, violonista, atriz e dançarina Caterina Valente (1931-2024) visitou o Brasil pela primeira vez em abril de 1961. Nascida em Paris, filha de italianos, era à época um dos nomes mais proeminentes da música pop europeia. Cantava em italiano, francês, alemão, espanhol e até em português.

No Brasil, cantou no Teatro Record, na rua da Consolação, em São Paulo, onde se apresentou todas as noites durante seis dias seguidos. Nos sábados e domingos, Caterina se apresentou em dois horários diferentes e fez mais algumas apresentações extras no restaurante Fasano.

Foi uma das maiores divulgadoras da bossa-nova na Europa no começo dos anos 1960. Seu vídeo no YouTube com Dean Martin (1917-1995) cantando "One Note Samba" (Samba de Uma Nota Só, de Newton Mendonça e Antônio Carlos Jobim) teve mais de 11 milhões de visualizações, segundo seu site oficial.

A cantora esteve também no Rio de Janeiro (sem cantar) e o "Diário de Notícias" relatou assim a visita, sob a manchete:

Catarina Valente viu bossa-nova e gostou: vai gravar na Europa!.

Revelando ser apreciadora da música brasileira, especialmente do gênero bossa-nova, Caterina Valente, 'a mulher mais musical do mundo', estêve, ontem à tarde (19 April 1961), no Copacabana Palace, contando as peripécias de sua longa vida de artista, que se inciou aos 5 anos de idade, quando acompanhava seus pais em tournées artísticas pela Europa.

Ela retornou ao Brasil em junho de 1968 para duas apresentações em São Paulo. Em 1979, esteve novamente aqui, quando foi produzido o documentário "Caterina Valente apresenta música brasileira", no qual ela canta com Luiz Bonfá (1922-2001) - com quem gravou um LP em 1963 -, Sebastião Tapajós (1943-), Tom Jobim (1927-1994), Vinícius de Moraes (1913-1980), Gilberto Gil (1942-), Edu Lobo (1943-), Quarteto em Cy, MPB-4, Clementina de Jesus (1902-1987), Luiz Gonzaga (1912-1989), Martinho da Vila (1938-), Dorival Caymmi (1914-2008)e Waldir Azevedo (1923-1980).

Morreu em 9 de setembro de 2024 em Lugano, na Suíça.


sábado, 15 de fevereiro de 2025

Miltinho

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.

Em 1961, Milton Santos de Almeida (1928-2014), o Miltinho, saiu da RCA Victor, onde lançara o LP "Miltinho", e se transferiu para a RGE, lançando o 78 rpm com o samba "A canção que virou você" e o samba-canção "Poema do adeus", ambas de Luiz Antônio.

A carreira solo de Miltinho havia começado um ano antes, ele que, na década de 1940, participou como ritmista e vocalista de quatro importantes grupos musicais: Cancioneiros do Luar, Namorados da Lua, Anjos do Inferno (que chegou a viajar aos EUA acompanhando Carmen Miranda) e Quatro Ases e Um Coringa.

De 1950 a 1957, foi crooner da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo (1917-2012), e do grupo Milionários do Ritmo, de Djalma Ferreira (1913-2004), com quem chegou a gravar como crooner.

"Poema do Adeus" entrou na trilha do filme "O Vendedor de Linguiça" produzido e estrelado por Amacio Mazzaropi (1912-1981) e dirigido por Glauco Mirko Laurelli (1930-2013).

Gravou, ainda nos anos 1960 e 1970, com Elza Soares (1930-2022) e Dóris Monteiro (1934-).

Sai de cena e retorna, em 1997, com o LP "Miltinho Convida", pela Columbia, com participações de Luiz Melodia (1951-2017), Nana Caymmi (1941-), João Nogueira (1941-2000), João Bosco (1946-), Elza Soares, Martinho da Vila (1938-), MPB-4 (1964-) e Chico Buarque (1944-), entre outros.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

João Gilberto

Nasci em 1961: Esta série de publicações apresenta músicas lançadas ou que tiveram destaque no ano de meu nascimento.


"João Gilberto" foi o terceiro LP solo gravado pelo baiano de Juazeiro. Lançado em 1961 pela Odeon, sucede "Chega de Saudade" (1959, Odeon) e "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960, Odeon).

As 12 faixas alternam o acompanhamento de Walter Wanderley e seu conjunto e a orquestra conduzida por Tom Jobim.

Traz dois clássicos de Dorival Caymmi ('O Samba da Minha Terra' e 'Saudade da Bahia), o hit "O Barquinho" (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli), duas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes ('Amor em Paz' e 'Insensatez'), duas de Carlinhos Lyra e Vinícius ('Você e Eu' e 'Coisa Mais Linda') e obras de outros autores como Geraldo Pereira ('Bolinha de Papel'), Marçal e Bidê ('A Primeira Vez'), Lauro Maia ('Trem de Ferro') e Nelcy Noronha ('Presente de Natal').

A faixa escolhida fecha o disco e inaugura um estilo que o acompanharia a vida toda depois: ele acompanhando-se apenas pelo violão. E que violão!

"Este seu Olhar", de Tom Jobim.



sábado, 12 de fevereiro de 2022

Bodas de ouro: "Cicatrizes", MPB-4

2022: Ano em que muitos discos essenciais completam 50 anos de lançamento. Eu, com 60, me lembro de muitos deles. E vou relembrar alguns que foram importantes - pelo menos para mim.

Começo com esse do MPB-4, "Cicatrizes", lançado pela Philips/Phonogram, com produção de Mazzola/Roberto Menescal. Magro, Ruy, Miltinho e Aquiles Rique Reis cantam aqui gente de alto quilate, como os hoje esquecidos Tom e Dito ('Agiborê'), Sidney Miller ('O Navegante'), o já clássico "San Vicente", de Fernando Brant e Milton Nascimento, lançado em Clube da Esquina, outro cinquentão que logo será aqui resenhado; Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho ('Desalento'); Murilo Antunes, outro expoente do pessoal da esquina de Minas, com Sirlan ('Viva Zapátria'); a faixa título, do mestre Paulo César Pinheiro em parceira com Miltinho; Chico Buarque, que comparece com "Partido Alto" - esta a que me marcou profundamente na época, que me lembro de ouvi-la comendo uma boa feijoada no boteco da esquina da Silva Bueno, onde o pai tinha papelaria que vendia discos; Jorge Ben (ante do sufixo Jor), com "Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite"; a angustiante (e, incrivelmente, ignorada pela censura) "Pesadelo", de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós; tem ainda Caymmi ('Canto de Nanã'); mais PC Pinheiro com Baden Powell ('Última Forma'); uma dos portelenses Cabana e Norival Reis, "Ilu Ayê (Terra da Vida)", e novamente PC Pinheiro com Tapajós, "Faz Tempo". Um disco de grande qualidade, de um tempo de um Brasil que se julgava enterrado e esquecido teima em voltar...

"E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí..."

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Diana Marinho toca no Projeto Puleiro do Rock, em Itapuã


A cantora e compositora baiana Diana Marinho se apresenta nesta sexta-feira, 6, no Projeto Puleiro do Rock, na praia de Itapuã, em Salvador. O show será no  Clube Cassas da Aeronáutica, na Vila Militar da Aeronáutica (rua Sargento Waldir Xavier de Lima, s/nº), das 19h às 23h, com participações das bandas Água Suja e Contato Perdido e do músico argentino radicado em Londres Brujas Blues na gaita. O couvert artístico é R$ 10.

O projeto Puleiro do  Rock é mais uma iniciativa para manter viva a cena rock baiana, que é o celeiro de nomes já consolidados como Raul Seixas, Camisa de Vênus, Novos Baianos, Pitty e  tantos outros. Enfim, na terra de Caymmi, o rock e o pop resistem, apesar de muitos ainda imaginarem que ali só se cultiva axé, arrocha e outras manifestações.

Segundo a jornalista Riane Rio, uma das organizadoras e assessora do Puleiro, o projeto nasceu em 2012, quando alguns amigos, que no momento se encontravam morando em Itapuã, resolveram “fazer um som e divertir-se na noite baiana”. As primeiras reuniões aconteceram no restaurante Puleiro do Bideira, especializada em frango assado. A casa cedeu o espaço para apresentações de bandas amigas, como Contato Perdido, Motif e outras.

A partir de 2013, a iniciativa, já batizada como Puleiro do Rock – em homenagem ao lugar que os acolheu no início - passou a ter como sede principal o Clube Cassas da Aeronáutica, localizado na Vila Militar no mesmo bairro de Itapuã, com o apoio da força militar.

Conforme Riane, “neste momento o projeto passa a atuar de forma itinerante, realizando shows em diversos pontos de Itapuã e adjacências, sempre levando sua estrutura própria, a exemplo de aparelhagem de som, produção e bandas associadas ao Puleiro”.

“O projeto fecha o ano de 2015 com uma filosofia que consiste em trazer artistas renomados, como Diana Marinho, Água Suja, Brujas Blues, a Célula, Marconi Lins, e novas bandas também, como Donattita, Instinto Dissonante e outras que apoiam o Puleiro. Sempre mesclando estas apresentações com bandas novas, que estão iniciando na cena rocker da Bahia”, explica Riane.

E, para 2016, diz a jornalista, o Puleiro do Rock tem como objetivo intensificar mais os eventos, em parceria com clubes de motos nas suas respectivas sedes. Há a perspectiva também de realizar eventos em bares, praias e demais ambientes alternativos da capital soteropolitana, “encorpando, assim, o cenário rock’n’roll de Salvador e proporcionando espaços para que bandas e artistas novos possam mostrar a sua arte”, acrescenta Riane.

Janis da Bahia

Diana Marinho durante tributo ao Raul Seixas, em São Paulo, no show 'O Dia Em Que a Terra Parou' (foto: Carlos Pupo)
Na edição desta sexta-feira, a atração é Diana Marinho, uma cantora com mais de 20 anos de estrada, autodidata, que já foi considerada a “Janis Joplin da Bahia”, dado o sucesso que obteve ao interpretar as canções de uma de suas maiores influências, logo que se desvencilhou da Timbalada, levada por Carlinhos Brown.

Diana apresenta-se regularmente em casas de Salvador e na Praia do Forte. Também vem atuando no interior da Bahia, com destaque para o evento Cidade Feliz, em Caetité, onde abriu para Roberto Frejat. Cantou também nos 10 anos do Trio do Rock no carnaval e, em julho deste ano voltou a Caetité, na última Festa de Santana, fechando a noite após a apresentação de Vanessa da Mata.

Com sua banda de Salvador, "Os Ecléticos", vem tocando projeto de resgate de clássicos do rock de todos os tempos, apresentando-se ainda em eventos motociclísticos por todo o interior da Bahia. Participou também da abertura e fechamento do projeto Sons e Cores da Cidade do Conde.

Este ano, fez sua estreia em São Paulo, onde se apresentou com a banda Dendê na Garoa (com músicos baianos e paulistas, daí o nome) em várias casas, prestou homenagem aos 70 anos de nascimento de Raul Seixas e depois realizou novo tributo ao Maluco Beleza – agora em celebração aos 26 anos de sua morte, homenagem que se repetiu na Praia do Forte.

O show de Diana terá a participação da Banda Água Suja, formada por Jerry Marlon no baixo, o guitarrista e vocal Oyama Bittencourt, o tecladista Jelber Oliveira e o americano Brian Knave, na bateria. Com um repertório que vai do blues tradicional, passando pelo R&B, o soul music, o jazz, o country e o rock’n’roll.

Haverá ainda a participação especial do gaitista e cantor Brujas Blues, um blues man que mora atualmente em Londres, tendo tocado durante muito tempo nos Estados Unidos, Argentina, Espanha, Tailândia e vindo há pouco tempo de uma temporada em Palma de Mallorca. Brujas fez participações em discos dos também argentinos Charly Garcia (ver vídeo abaixo) Fito Paez e tocou com gente como Rolling Stones, Joe Cocker, Bee Gees e muitos outros. Já tocou em São Paulo com o baixista Oswaldo “Cokinho” Gennaro, que foi da Patrulha do Espaço, banda de hard  rock e progressivo criada em 1977 pelo ex-Mutantes Arnaldo Baptista.




A noite ainda traz a banda de blues e rock clássico Contato Perdido, formada por controladores de tráfego aéreo apaixonados pelo bom e velho rock’n’roll, com Fonte no vocal, Márcio da Silva  na guitarra; Gustavo Franco no baixo e Alex na batera. A banda tem canções autorais e tocam também sucessos dos anos 70 e 80 e em breve lançam seu primeiro CD com composições inéditas.




Serviço

Diana Marinho no Puleiro do Rock

Quando: Sexta-feira, dia 06/11, a partir das 19h

Local: Clube Cassas – Rua Valdir Xavier da Lima, sn/ Vila Militar da Aeronáutica, Itapuã (Orla)

Quanto: Couvert artístico R$ 10

Informações e reservas: (71) 9 9132-3617/ (71) 9 8837- 3208

Contato: assessoria.puleirodorock@gmail.com


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Vampiros, tambores e reis

Fim de semana chuvoso em São Paulo. E mais ainda em São Bernardo. Na sexta-feira, fui ao Teatro das Artes, no shopping Eldorado, comprar ingresso para o show de Bruna Caram, uma pré-estreia de seu novo disco, Feriado Pessoal. Será dia 10 de junho, uma quarta, véspera de feriado. Em casa, assisti ao primeiro DVD da minissérie Agosto, baseada em livro de Rubem Fonseca. Quando passou na TV gostei muito, pois gosto de obras policiais. Na juventude, era leitor voraz de livros de bolso de espionagem e policiais. E desde sempre adorei ouvir Gil Gomes no rádio. Cheguei a pensar em fazer meu mestrado sobre esse programa, que está até hoje no ar. Histórias policiais, de espionagem, suspense, terror, mistério, adoro. Acho que é por isso que não criei um hábito de ler poesias. A prosa sempre me cativou mais. Não sei explicar por quê. E, afinal, nem tudo tem que ser explicado, não é? No sábado, decidimos, eu e Ilana, continuar quietinhos em casa, vendo DVD e fazendo comidinhas gostosas. Peguei-a na rodoviária do Tietê às 7h e fomos direto para Santo André, para compras no supermercado. Finalizamos os suprimentos na padaria que fica em frente ao conjunto habitacional em que moro, e finalmente chegamos em casa. Foi um sábado diferente dos últimos que tenho tido, sem rua, sem viagens, sem conhecer nada novo. Apenas os filmes que assistimos: Crepúsculo e O Tambor. O primeiro, uma estória de vampiros moderninha, está muito bem cotado por aí, ganhou 5 prêmios do MTV Movie Awards ontem. A fotografia é muito boa, assim como as locações, aparentemente no Estado de Washington. O filme é baseado em livro de mesmo nome que está causando furor no mundo. Leio que já foram vendidos 5 milhões de exemplares em todo o globo. Bem, não entendo por que, uma vez que a história é velha, apenas "adolescentizada", ambientada em um colégio americano, com teens nos papéis principais. De resto, tudo que se pode esperar de um filme desse gênero. Quanto ao segundo, também baseado em um romance de mesmo nome, tem uma proposta um pouco mais séria, que é discutir a sociedade alemã dos anos 20 a 40 e o florescimento do nacional-socialismo ali. É uma crítica mordaz à dita burguesia e seus valores, no olhar de um menino que se recusa a crescer ao perceber tanta iniquidade ao seu redor. É um filme muito interessante, que mescla tragédia e comédia em doses equilibradas. Este filme me foi emprestado há tempos por uma tia de minha filha e estava para o ver, o que fiz, creio, em hora bem adequada.
E o fim de semana foi assim. Filmes, pipoca, hot dog, salmão ao molho de maracujá com arroz de brócolis, cocada, cerveja, vitamina, guaraná. Uma passada rápida de olhos nos jornais, recolher o lixo, a cama do quarto da filha que quebrou. Vida doméstica. Fazia tempos que não vivia isso. E o mais incrível: um fim de semana inteiro sem internet (apenas uma conectada rápida para ver a receita do peixe). É possível, sim. Agora, se fosse depender apenas da TV para me divertir, ia sofrer. Nem vale a pena comentar as "atrações" que procuram nos cooptar aos sábados e domingos. Basta dizer que valeu mais a pena dormir ou ouvir uma música. Falar em música, acabei de ouvir uma coleção de mais de 180 músicas do Chico Buarque que meu colega de trabalho Beto me cedeu. Foram três ou quatro dias ouvindo, ao ir para a agência e voltar dela. Puro prazer. Cada canção traz a lembrança de uma época, uma ocasião, às vezes uma pessoa, uma história vivida. É incrível como o compositor sabe transformar em letras sentimentos e sensações que são tão caros à gente. É impressionante como ele lida com temas de alta complexidade com uma simplicidade desconcertante. A minha preferida, de sempre, é Construção, mas Roda Viva também me cativa e, se for lembrando, daqui a pouco vou acabar elencando toda sua obra. Mas essas duas dão a dimensão de seu pensar, de sua poética e de seu modo de fazer canções. Chico é um músico que não mudou, não serviu ao clima de então, não desbundou nem destoou. Está há 40 anos fazendo o que quer e deixando uma grande parcela de seu repertório na galeria das canções eternas. Tenho o Carioca, seu último CD, e confesso que só o ouvi uma vez, e nem apreendi nada dele, a não ser que me parece uma obra despreocupada, relaxada, mais interessado em contemplar o horizonte ao seu redor que meter uma lente de aumento em seus olhos e enxergar algo além. Não sei. Vou ouvir novamente e prestar mais atenção. De repente algo se revela.
Não podia deixar de falar de Roberto. A apresentação do show Elas cantam Roberto, gravação do espetáculo levado ao palco do Teatro Municipal de São Paulo terça-feira, exibida pela Globo neste domingo, não me agradou totalmente. Além das imperdoáveis ausências de Maria Bethânia e Gal Costa, julgo ter havido rasgação de seda demais e um glamour chato, com as ditas divas exibindo modelos feitos talvez para a ocasião. Entraram as poderosas do momento, caso das baianas axezentas Cláudia Leitte e Ivete Sangalo, além da Daniela Mercury, mas essa está em outro patamar. Já quer era pra botar as topo das paradas, deveriam chamar a Joelma, do Calypso. Ah, mas esta não se apresenta sem o Chimbinho, deve ser. Não é o caso de Sandy, que já botou seu mano na cozinha dos Nove Mil Anjos e pode seguir solo. Maríla Pêra e Nana Caymmi, claro, arrasaram, e gostei de estarem lá Wanderlea (imperdoável se não estivesse) e Rosemary, esta deslumbrante. Hebe eu achei esquisito, mas me parece que a proposta do show era mesmo esta: reunir 20 cantoras de diversas épocas, para abraçar um tiquinho da longa carreira de 50 anos do Rei. Eu asseguro uma coisa: eu vou no show dele, ou em São Paulo ou no Rio. Será a primeira vez que verei um espetáculo ao vivo desse cantor que eu curtia muito na minha infância e que gostei até o disco de 1971 - o que tem Detalhes. Depois, ouvia, até porque, como vendia discos na loja de meu pai no Ipiranga, era um dever de ofício, já que o cara era um dos que mais vendiam LPs na época (os outros campeões de venda no começo dos anos 70 eram Martinho da Vila e Clara Nunes). Vou porque ele é, afinal, nosso Rei, influenciou quase todo mundo (se não influenciou, ao menos quase todo mundo o ouviu). E, bem, se Bethânia e até Marisa Monte gravam músicas dele, não podemos desprezar. Eu vou. Podem esperar o post.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

ÚLTIMO DESEJO

E como é a vida, não!? Há poucos dias, foi-se Dorival Caymmi, dizem que a doença de sua amada Stella agravou a própria, do que não duvido, porque morre-se de amor e de saudade também; eu admiro casamentos longevos, e o deles durou mais de 60 anos (68 para ser exato). Imagina, o casal, se se dá bem e se respeita e se ama, torna-se uma só pessoa. Admiro e, por que não dizer, almejo um relacionamento duradouro assim. Bem, o que eu estava comentando é que eles foram embora com a pequena diferença de 11 dias. Stella (aliás, Adelaide) estava em coma desde abril e racionalmente pode nem ter sabido do desaparecimento de seu amado, mas duvido que sua alma não sentiu e não se esforçou para lhe fazer companhia. Agora, sim, a jangada voltou só. Pensava nesse post ontem à noite dirigindo ao trabalho ouvindo um CD com canções na voz de Maria Bethânia quando começa a tocar a faixa "Último desejo", de Noel Rosa. Poxa, essa foi a canção que, na voz de Stella, em um programa de calouros em uma rádio do Rio, fez Dorival se apaixonar por ela...

sábado, 16 de agosto de 2008

Morrer é gostoso


Foi isso que meu pai disse pouco antes de ir embora. Não sei por que ele disse isso, mas a frase me vem à cabeça agora que escrevo a respeito da morte de Dorival Caymmi, hoje, por volta de 6h, no Rio. Yemanjá o levou (como nessa ilustração, do mestre Elifas Andreatto) para as profundezas do mar,que ele cantou tanto e tão bem. Caymmi sempre me emocionou, desde a primeira vez que o ouvi, nem me recordo mais quando. Mas me lembro de cantar muito a Suíte do Pescador quando nos reuníamos para discutir os fatos da vida e refleti-los à luz dos Evangelhos. Nem é necessário me alongar muito sobre o mestre, porque ele é reconhecidamente um grande compositor e sua importância para nossa cultura é imensurável. Mas quero registrar que seu desaparecimento me deixou triste e constatei que ele é mais um que se vai antes que eu o possa ver ao vivo, como já foram Zappa, Lennon, Harrison, Renato Russo, Cazuza, Elis, Adoniran... tantos... Também, ver um show, nos dias de hoje, é um exercício complicado. O show business está cada vez mais voraz, e os artistas têm que se submeter a uma indústria que, não sei não, mas me parece muito mais interessada em lucro rápido que em difundir arte e cultura. Vide o show de João Gilberto agora, a confusão que a empresa encarregada de vender os ingressos proporcionou. A pessoa comprava, quando conseguiu acessar o site, e, dizem, não tinha garantia da compra nem determinado o lugar em que se sentaria. Fora os preços (até R$ 360). Assim, prefiro nem ir. Bons tempos quando a gente via show até em sociedade amigos de bairro, em ginásio de esportes, em teatros, não em casas em que os responsáveis não têm escrúpulos e não interrompem o serviço de bar quando o espetáculo começa. Pior os espectadores, que pedem sua bebida e petisco em plena cena aberta. Vil! Bem, sobre a morte ser gostosa, acho que meu pai deve ter dito isso porque talvez percebeu que ia se livrar da dor ou do desespero de ver sua vida fugir-lhe do controle. Se foi assim, foi bom para ele, e deve também ter sido para Caymmi. E que ele e sua jangada sigam tranqüilos para o mar...