O Barquinho Cultural

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os cinco de Balibó

Assisti neste sábado, 23, ao filme Balibó, de Robert Connolly, integrante da 34ª Mostra Internacional de cinema. O filme conta a história do assassinato de cinco jornalistas - dois britânicos, um neozelandês e dois australianos, a serviço de dois canais de TV australianos - que estavam em Balibó cobrindo o conflito entre as forças do Fretilin - movimento de independência do Timor Leste - e os militares da Indonésia, que logo em seguida invadiriam e dominariam o pequeno país por 25 anos. Com o desaparecimento dos jornalistas, o então ministro de Relações Exteriores e futuro presidente e prêmio Nobel da Paz José-Ramos Horta (Oscar Isaac) contata o jornalista australiano Roger East (Anthony LaPaglia) pedindo que ele investigue o que houve com os jornalistas e conte a história de seu país. Relutante em princípio, East acaba assumindo a tarefa e se envolve na história, indo até as últimas consequências, não apenas como repórter. É um filme impactante, forte, e que aborda uma questão que não é vista com frequência nos jornais.  Impressionou-me muito, porque, apesar de que, quando trabalhava no PT, dar sempre notícias sobre o Timor, não tinha noção do alcance do conflito. Os acontecimentos narrados expõem a crueldade das forças indonésias, longe de respeitar os preceitos da Convenção de Genebra. A morte dos jornalistas foi durante todo esse tempo atribuída pelos invasores como fruto do fogo cruzado entre o Fretilin e os militares, ou seja, morreram por culpa deles mesmo. Investigações posteriores trouxeram à luz a verdade: foram barbaramente assassinados, sem razão aparente. Claro, quando se trata de guerra não podem surpreender histórias como essa, mas o filme consegue levantar a questão para que não se banalizem os crimes de guerra, assim como não se pode banalizar nenhum tipo de violência. Foi um filme difícil de se ver, que duvido que entre em circuito comercial depois da mostra.

Paul, a maratona - Poxa, como tem gente com dinheiro neste país! Os shows do Paul McCartney, dias 7 de novembro em Porto Alegre e 21 e 22 em São Paulo, tiveram os ingressos esgotados praticamente no mesmo dia em que foram postos à venda na internet e nas bilheterias. Eu entrei no site do ingresso.com à 0h38 do dia 15 de outubro e, apesar de as vendas terem começado à meia-noite, já não havia mais bilhetes para a pista premium, que custava R$ 700! Tentei de manhã pelo telefone, e só caía a ligação em todas as tentativas. A compra no site era para quem possui cartões Visa e American Express, porque o Bradesco está patrocinando o evento. Então na segunda, 18, fui na porta do estádio do Pacaembu, onde estava havendo a venda geral. Mas havia uma fila que ia da praça Charles Miler à bilheteria do tobogã, mais de um quilômetro adiante, acho, pode até ser mais. Desisti, pois não podia perder horas de sono ali, e ouvi no rádio relatos de gente que estava na fila havia oito horas e nem estava perto do guichê. À noite, soube que haveria show também no dia 22 - até então era certo que haveria apresentação apenas no domingo. Fui correndo ao site e, surpresa, não tinha mais disponibilidade de pista premium, de R$ 700!! Como tem gente abonada nesse mundo, viu. Acabei optando pela pista comum, sujeito a ser espremido por hordas de fãs alucinados como eu. Bem, pelo menos estarei nessa terceira visita do Paul, já que, por sei lá que motivos, não me lembro mais, não fui na segunda. A primeira, claro, foi inesquecível. Confesso que Macca não é meu beatle preferido, antes dele vêm, nessa ordem, John Lennon e George Harrison, mas é um beatle, e é um cara muito eficiente, bom melodista e, bem, vai tocar muitas músicas dos Fab Four, o que me garante a diversão.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Anos de ouro do rádio

Estou me deliciando com a leitura de Minhas Duas Estrelas, de Pery Ribeiro e Ana Duarte, que comecei a ler neste feriado da Padroeira e dia das crianças.

O livro trata da vida de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, pais do autor, um cantor em quem nunca prestei muita atenção. Soube, pela leitura, o motivo: ele fez uma carreira mais internacional, morando dez anos em Miami.

Já sobre seus pais não sou totalmente ignorante, conhecendo um punhado de músicas de Herivelto e canções interpretadas pela Estrela Dalva, rainha do rádio de 1951. O que mais me está surpreendendo é conhecer a força do rádio nas décadas de 30 a 50. Como não havia TV no período, o rádio era mesmo o principal veículo de divulgação dos artistas e arregimentava multidões.

Claro que eu sabia disso, afinal estudei rádio na faculdade, mas esse relato do Pery e Ana, com pormenores de como funcionava essa indústria, é muito oportuno. Depois a TV veio ocupar esse papel, e é interessante observar como ela, de certa forma, copiou muito os sucessos do rádio. Novelas e programas humorísticos estão aí para comprovar. O livro de Ruy Castro sobre Carmem Miranda também é prolixo em retratar esse assunto, assim como o Café na Cama, de Marcos Rey, que li ainda adolescente e que me encantou.

Mas a história desse casal é por si só muito interessante. Abordada em minissérie recentemente na Globo, a vida de Herivelto e Dalva é destrinchada sem meias palavras pelo filho e sua esposa. Claro que ele aproveita para falar também de si, o que é inevitável.

Eu me lembro de que, quando bem pequeno, 5 ou 6 anos, minha mãe gostava de passar roupa na edícula de nossa casa com o rádio ligado. Membro do coral da igreja, onde meu pai era tocador de bombardino e escrevia as partituras da banda, minha mãe era fascinada por música e vivia com o rádio ligado. E essas músicas abundavam, e bem mais tarde, ao ouvi-las, me lembrava de conhecê-las do radinho da mãe.

Lendo o livro, agora, que traz várias letras das músicas que o Trio de Ouro (Nilo Chagas, Herivelto e Dalva, na foto) cantava, essas imagens me vêm  à lembrança, e fico chateado por não ter prestado atenção nelas antes, talvez por ser criado em um ambiente em que proliferaram outros estilos.

Revendo-as agora, não posso negar que são belíssimas canções, de gente do quilate, além de Herivelto, de Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Pixinguinha, Davi Nasser (um escroto como jornalista, mas letrista de respeito, apesar da campanha sórdida contra Dalva), e outros que até hoje são consagrados.

E as desavenças do casal, que se separou em um tempo em que isso era objeto de férreo preconceito, são muito tristes. É uma bela história mesmo, em um livro muito bem escrito e prazeroso de ler.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O céu e o inferno

Assisti a três filmes no cinema nessas últimas duas semanas. No sábado, 1, vi Nosso Lar, dirigido por Wagner de Assis, baseado em livro de Chico Xavier, pelo espírito de André Luiz, que é o personagem principal da fita. É um filme bonito, bem realizado, e, até onde me lembro, respeita o livro, que li há uns 20 anos. O trabalho, até onde eu possa perceber, não tem o objetivo de fazer cabeças, e aborda um tema que mais de uma novela da Globo já tratou. Se dissociarmos a história da doutrina espírita, podemos encarar a obra como fantasiosa, e nesse aspecto é muito bem feita. Eu gostei, sim, achei um bom trabalho e que até deixa na cabeça um certo questionamento sobre se isso é verídico. Nesta sexta, 8, fui assistir a Tropa de Elite 2, um filme bastante violento e que, no entanto, causou em mim menor impacto que o primeiro - talvez por já estar sabendo do que se tratava. Este entra na questão da corrupção no seio da polícia e da política e trata das milícias armadas que atemorizam as comunidades exigindo dinheiro em troca de proteção e achacando os traficantes para que possam agir em paz. Aborda também a imprensa, tanto a sensacionalista como a séria, aqui reproduzindo o caso Tim Lopes indiretamente. O Nascimento agora é coronel, comandante do Bope, e, por conta de divergências com a cúpula da polícia após rebelião no complexo Bangu 1, acaba em um cargo na Secretaria de Segurança, onde passa a combater a banda podre da corporação. Gostei do filme, apesar de não me surpreender tanto. Destaque para as atuações de Irandhir Santos, como um professor de história militante dos direitos humanos, que acaba enveredando pela política. Seu Jorge também tem ótima atuação, apesar de curta. Gostei ainda do André Mattos, o eterno Dom João VI da minissérie O Quinto dos Infernos, que vive um desses apresentadores metidos a porta-vozes da justiça, tipo Wagner Montes e Datena, que se enreda pelos meandros da política e da corrupção. No sábado, 9, assisti Comer Rezar Amar, de Ryan Murphy, com Julia Roberts, que faz uma escritora, Liz Gilbert, que, entediada com sua vida e sem rumo, resolve se divorciar e ganhar o mundo à busca de si mesma. Assim, na Itália ela se depara com a rica gastronomia (Comer), na Índia aprende os segredos da meditação (Rezar) e em Bali conhece um brasileiro (Javier Bardem, de Mar Adentro, entre outros - mas foi apenas esse que assisti), por quem se apaixona (Amar). Confesso que me cansei um pouco, achei o filme muito longo, mas é bom sim, com belas paisagens. Mas faltou, em minha opinião, um pouco de surpresas, ficou um tanto quanto previsível. Quanto às leituras, comecei na sexta a leitura de Os Ásperos Tempos, primeira parte da trilogia Os Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado, que trata da ditadura Vargas nos anos 30 e a perseguição ao pessoal do antigo PCB. É um livro muito gostoso de ler, sem proselitismo. Será muito bom ler a respeito desse período que eu conheço bem pouco, porque dediquei muito de minhas leituras ao período do golpe de 64 e suas consequências. Leio ainda O Cão dos Baskervilles, de Conan Doyle, com as aventuras do detetive Sherlock Holmes e seu fiel assistente Dr. Watson.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O prazer da leitura

Ontem, 7, terminei de ler A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge Amado, que baixei. Na comparação com o filme assistido em maio e que comentei aqui, há a adição de algumas cenas e a colocação do personagem  principal como narrador do filme. No livro Quincas não cumpre esse papel, mas há nesse um conteúdo fantasioso, fazendo com que o morto fale, mexa os olhos e a cabeça e até fique de pé no barco e de lá se lance para o mar. No filme ainda há uma maior peregrinação pelas ruas de Salvador, quando no livro há apenas uma parada em um botequim antes de o quarteto de amigos carregando o morto ir até o cais, onde se deliciaria com uma moqueca no saveiro de um pescador. Mas na essência o filme é fiel ao texto do livro, por sinal muito bom, como todos os escritos de Jorge Amado. Aliás, desde Tocaia Grande não lia nada do baiano. E agora baixei os três volumes de Subterrâneos da Liberdade, em que ele relata os duros anos da ditadura Vargas e a luta do PCB. Com isso, fico deixando para trás o Economia em Contexto e o Felicidade Autêntica, mas logo os pego. Ainda continuo a ler O Cão dos Baskevilles, de Conan Doyle, que narra aventura de Sherlock Holmes e que também baixei. Li esse livro há muito tempo, ainda na época do colegial. Era sócio da Biblioteca Malba Tahan, em São Bernardo do Campo, e devorava livros de lá. De Sherlock Holmes li todos, pois havia lá a coleção. Eu lia muito quando adolescente, porque não tinha uma turma com quem passar as horas - até tinha, mas não era sempre que me aventura a sair com eles, apreciadores de atividades não muito lícitas. O certo é que lia bastante. Era sócio também do Círculo do Livro, e comprava várias publicações, a um preço honesto. Pena que o que eu lia não era assim de qualidade muito superior. Lia muito livros policiais, de espionagem e faroeste. Os clássicos só os lia por obrigação escolar, mas gostava muito do que era colocado para leitura e futuro trabalho. Jorge Amado eu gostava muito de ler, por causa da enormidade de palavrões, o que para um adolescente é coisa de muito valor. Mas o que me deixou perplexo, nesse particular, foram os livros de Plínio Marcos. O primeiro que li dele, lá pelos 17 anos, foi Querô, Uma Reportagem Maldita, sobre um menino, filho de uma prostituta, que perdeu a mãe assassinada e foi criado na zona, antes de ganhar as ruas e se tornar mais um dos moleques sem-teto que ainda hoje habitam as calçadas. Apesar de gostar do livro pelos palavrões, o texto me incutiu um tanto de consciência social. Alguns anos depois passei a assistir peças dele,  no Teatro São Pedro, após as quais havia um debate com o autor. Eram momentos de grande regozijo. Na época do grupo de teatro Tupi, cogitamos de convidá-lo a dar uma palestra a nós, mas ele não pôde vir por problemas de agenda. Cheguei a vê-lo na faculdade, vendendos seus livros. Li muito Plínio Marcos e acho que isso veio a despertar em mim a sede por justiça social que fui saciar nos anos 80 junto à comunidade da igreja de Vila Palmares, de onde saiu o Tupi. São recordações boas, não nostálgicas, que faço lembrar para não esquecer o que sou e manter em mente o objetivo de mudar algo aí, e não apenas pelo voto. Então, voltemos ao Amado. 

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Tiririca da silva

Estou indignado com o resultado das eleições. Segundo turno para presidente e vitória no primeiro do Alckmin não estavam no cenário que eu montei na cabeça. Claro, não vou ser avestruz e não considerar que essa finalização vinha sendo desenhada nas pesquisas. Mas achei mesmo que o Mercadante pudesse avançar mais um pouco e, somados os votos dos demais candidatos, poderia haver a decisão em 31 de outubro. O petista tinha condições de vencer, tinha que bater mais nos governos tucanos em São Paulo, e não ficar apenas criticando a aprovação automáticas das escolas. Além disso, aquela cara carrancuda não ajudava em nada. Achei legal, no horário eleitoral, ele por as promessas não cumpridas do tucano, mas não foi suficiente. Não vi na postura do Mercadante a de um petista da gema, aguerrido, convicto, argumentativo. Nos debates ele só reclamava que Alckmin não o fazia de interlocutor. Sei lá, acho que tinha condições de haver um segundo turno, mas, enfim, paciência. No caso de Dilma, além do que a imprensa chama de fator Marina, pesaram as denúncias dos últimos dias sobre a quebra de sigilos na Receita e o tráfico de influência na Casa Civil. Penso que o PT se embananou nisso, demitir algumas pessoas não foi o suficiente, acho que ficaram devendo uma explicação mais contundente. É isso que acontece quando o PT se vê envolvo em denúncias, fica todo atrapalhado e acusa o golpe. O resultado do Senado não me surpreendeu. Vi os programas de Aloysio e achei muito bons, o candidato bem articulado, apresentando propostas e com uma história, até onde se sabe, limpa. Eu até pensei em votar nele, porque não me apetecia escolher o Netinho. Para o Legislativo, surpreendeu-me os mais de 126 mil votos do Grana. Sabia que ele tinha condições de vencer, mas não esperava essa votação estupenda, o 20º mais votado no Estado e o quinto no partido. Quanto ao federal, para mim tanto faz, não o conheço e só votei por indicação. O curioso foi o clima. Pelo menos nos locais em que passei  e na escola em que votei, não vi aquela agitação que via em tempos outrora. Será que a fiscalização estava mais firme? Não sei, mas, por exemplo, antes de entrar no colégio, recebi apenas dois santinhos! Dois! Em outros tempos, era cercado por boqueiros ávidos para ganhar meu voto para o candidato deles. Acho que isso é falta de militância aguerrida, porque hoje, parece, esse pessoal vai trabalhar na eleição por dinheiro. Bem, foi mais uma eleição, foi legal, eu gosto de votar, acho que é uma forma de manifestação e de participação, mas não a melhor, claro, porque a política deveria ser um assunto cotidiano, com as pessoas realmente exigindo de seus eleitos a prestação de contas. E acho que isso é culpa também dos políticos. Falta essa classe arrumar um jeito de politizar a população, as secretarias de formação política dos partidos deveriam fazer mais do que formar quadros, deveriam ir à rua ajudar a dar educação política à população. Assim, Tiriricas não seriam surpresas a cada eleição.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Macca no Brasil; eu vou

Paul McCartney, o baixista e compositor dos Beatles, volta ao Brasil em novembro. Estão previstos dois shows, dias 21 e 22, no estádio do Morumbi. Eu vou. Não poderia deixar de ir, como quando ele esteve pela segunda vez e tocou em São Paulo e Curitiba e não fui. Estive no Maracanã em abril de 1990 e me esbaldei. Foi uma grande aventura ir a esse show. Pegamos - fui com amigos da revisão do Diário Popular - um ônibus na sexta à noite e de manhã chegávamos ao Rio. Demos uma volta por lá, almoçamos no Estácio e fomos para a frente do estádio esperar abrir os portões. Estava apinhado de gente. O povo ficou impaciente e começou a bater nos portões, querendo abri-los. Quando eles finalmente foram abertos, pareceu um estouro de boiada, quase fui pisoteado. Mas valeu a pena. Consegui chegar bem perto do palco e me deliciei. A cada canção dos Beatles que ele entoava eu ficava em êxtase. A sequência que ele fez do album Abbey Road foi de deixar qualquer um emocionado, e eu não fui exceção, Terminado o show, na madrugada de domingo, fomos de volta para casa, caminhando pela avenida, até que um taxista parou e pediu para entrarmos, porque era perigoso ficar caminhando naquele local àquela hora da noite. Não sei se era verdade ou esperteza dele para angariar clientes. O certo é que pegamos o táxi até a rodoviária. Depois das seis horas de viagem, fui trabalhar, pois era meu plantão no Dipo. Espero que desta vez não haja tamanho sacrifício. A se basear pela sua atual turnê, Up and Coming, serão executadas 36 músicas,  das quais 23 da era Beatle. Um deleite.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Leituras

O curso da Fipe miou, não sei por quê, mas não recebi nenhum comunicado para efetuar a matrícula. Penso que não conseguiram o número mínimo de participantes. Desta forma, resolvi estudar em casa enquanto não aparece outro curso do qual me interesse. Já li um livro de economia do Cláudio Securato, que foi meu professor no MBA que cursei na FIA, e iniciei a leitura do Economia em Contexto, de Peter Kennedy. É um livro difícil, mas estou dando conta - apenas os exercícios ainda não tentei resolver, mas porque fiz de início uma leitura rápida. Estou retomando as leituras, o que tem me deixado contente. Para espairecer um pouco, li uma série de livros de Darren Shan, chamado O Circo dos Horrores, sobre um menino meio vampiro. É literatura juvenil, mas é bom para passar o tempo e retomar o hábito da leitura. Achei na internet e baixei (trata-se de e-book). Também achei um site que tem a obra completa do Machado de Assis e já li o conto Missa do Galo, que achei muito bom. Aliás, Machado é irrepreensível. Li quase nada dele e pretendo reparar essa falta. Como se diz por aí, Machado é imprescindível para quem tem o escrever como ofício. Eu concordo. Só jornal que estou achando um saco ler, e isso é um grande erro, pois se trata de meu instrumento de trabalho. É que estou achando os jornais muito fracos, pobres de texto e de intenções, ainda mais agora nesse período eleitoral. Vai longe os tempos em que eu lia os jornais com gosto. Mas aos poucos estou readquirindo esse hábito. Fiquei muito tempo sem nada ler por questões de desânimo, mas já estou melhor e meu ânimo está bem superior ao de antes. Estou ainda nos estudos bíblicos, o que tem me agradado muito, se bem que é um estudo bem introdutório, pois a Bíblia é bem difícil de entender, mas é uma lacuna que quero preencher. Bem, este é meu estado atual, e estou gostando muito desse momento.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Inverno das paixões

Quadrilha, Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história


Esse poema de Drummond é citado nos comentários a respeito da peça Inverno da Luz Vermelha, dirigida por Mônica Gardenberg, e que assisti, junto de minha filha e Joana, no teatro Faap. Porque, à semelhança do poema, os personagens da peça de Adam Rapp experimentam as impossibilidades do amor. No texto, dois amigos, David (André Frateschi) e Matheus (Rafael Primot) estão em Amsterdã. O primeiro é um insensível bon vivant, enquanto o outro, roteirista de cinema,  amarga  uma desilusão amorosa (provocada pelo próprio amigo, sabe-se depois). Talvez para tentar amenizar um pouco a traição, David contrata a prostituta francesa Christine (Marjorie Estiano) para que o amigo se divirta. Acontece que Matheus não tem o menor jeito com as mulheres e prefere estabelecer um diálogo com a moça, que acaba tendo que tomar a iniciativa e resolver o assunto. Um ano depois, em São Paulo, a cena se passa no apartamento de Matheus, que recebe a visita de Christine (na verdade a paulista Ana). O rapaz desmaia quando vê a moça, por quem nutriu esse tempo todo uma paixão ao mesmo tempo platônica e fetichista, já que ficou com um casaco que ela esqueceu no apartamento deles na Holanda e transfere ao objeto a paixão pela prostituta. Ela veio no endereço atrás de David, que informou o do amigo quando ela pediu para enviar um CD. Esse pedido - do endereço - já antecipa que Christine/Ana envolveu-se com o cliente mais do que para um simples programa. De fato, na segunda parte vê-se a quadrilha: Matheus que amava Christine que amava David que não amava ninguém. O texto tem grande carga dramática, mas também bastante comicidade. E marca meu retorno às plateias teatrais, que não consigo me lembrar a data em que fui pela última vez. Fui na semana anterior ver o musical Zorro, mas saímos no meio da peça porque a Joana caiu e estava sentindo dores. Gosto muito de teatro, apesar da dificuldade de se encontrar boas peças por aí. Gosto de textos que trazem leveza à alma e fazem refletir. Esse Inverno provocou os dois efeitos, e a boa atuação dos atores, direção segura e cenário adequado, além de iluminação e trilha sonora de grande efeito, levam à conclusão de que se trata de um bom espetáculo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sinais de esperança

Acabei de ler Sinais de Esperança,  de Alejandro Bullón, uma obra adventista a mim dada pelo sobrinho de minha irmã (por parte do meu cunhado). É um livro que trata de provar que tudo o que vem acontecendo nos dias de hoje - intempéries, violência, problemas mentais, desamor - são sinais de que a vinda de Cristo está próxima. A cada capítulo ele termina com uma pergunta e a afirmação de que a resposta é somente sua. Claro, por tratar-se de uma obra ligada a uma igreja, é óbvio que a finalidade é evangelizadora. Não gostei do estilo, achei vagas as justificativas e não me responde a minha questão inicial: por que estamos aqui e por que temos que morrer - muitas vezes com sofrimento - para ter uma vida eterna de ventura. Por isso estou fazendo os estudos bíblicos com esse rapaz. Espero tê-las ou ao menos alguma luz em minhas dúvidas. Quem sabe a fé me leve a certo conforto com relação a isso. Vamos ver. Mas até o momento não decidi me converter, não é essa minha intenção. Acho as regras das igrejas meio castradoras.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Militância

Fui a um comício do PT sábado em Mauá. Fazia tempo não participava de um. Veio à lembrança, claro, meus tempos de militância, quando saía da faculdade e corria para o núcleo do partido de meu bairro, em Santo André, onde organizávamos a campanha. Isso foi em 1982, há muito tempo. Éramos, a maioria, estreantes na atividade política e muito românticos em nossa atuação. Nossos recursos eram escassos. Lembro que, para fazer santinhos, tínhamos uma espécie de carimbo com os  nomes dos candidatos. Carimbávamos folhas de papel e distribuíamos nas feiras e de casa em casa. Para pintar muros, a gente tinha o Hércules, rapaz de grande talento e excelente traço, que fazia cartazes e pinturas diferentes nos muros, todos com autorização dos donos. Lula concorria ao governo do Estado. Ficou em terceiro lugar, sendo eleito Franco Montoro, com Orestes Quércia de vice. Mas emplacamos o Fernando Galvanese como vereador, aliás, duas vezes, mas na segunda ele foi ser secretário de Saúde de Celso Daniel. Naquela eleição, o voto era vinculado, ou seja, o eleitor tinha que escolher todos os candidatos do mesmo partido, o que dificultava as coligações. Ainda não se votava para presidente nem para prefeito de capitais e outros municípios estratégicos. Ainda havia ditadura e a gente às vezes tinha que correr da polícia, porque atividades como panfletagem, pintura de muros, colagem de cartazes eras proibidas. Mesmo assim a gente dava um jeito, e fazíamos as atividades à noite. Por isso saía da faculdade e ia à luta. Fui a muitos outros comícios nessa minha militância. Mas este me surpreendeu pela qualidade do material. É, em 30 anos o partido cresceu, é governo há dois mandatos, governa inúmeras cidades e alguns Estados, e o dinheiro pelo jeito está farto. Um dos amigos da época da primeira campanha hoje é candidato a deputado estadual, o Carlos Grana, que, por uma dessas coisas do destino, fazia na peça A Invasão, que montamos com o grupo Tupi em 1981, o papel de um deputado, mas, na peça, um grande sacana aproveitador e corrupto. Grana não será como ele, sem dúvida. Foi bom ter ido ao comício, e até me dá vontade de militar novamente, entregar panfleto, falar com as pessoas. Vamos ver se me animo a fazer isso.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

De volta à carteira escolar

Resolvi voltar a estudar. Na verdade, essa decisão não é de agora. Tentei três vezes ser aceito como aluno especial no mestrado da USP, mas não consegui. Agora, me matriculei no curso O Pensamento Econômico: Conceitos e Evolução Histórica, na Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), ligada à Faculdade de Administração, Economia e Ciências Contábeis da mesma USP; é um curso rápido, de duas semanas, mas servirá para um melhor embasamento intelectual que me permitirá elaborar um bom projeto para nova tentativa no mestrado. Tenho interesse no jornalismo econômico, a base do noticiário onde trabalho. Estou motivado a fazer o mestrado, porque quero futuramente ingressar em uma carreira acadêmica, e acho que vou gostar e me dar  bem nessa atividade.

O jornalão deu hoje em manchete que o Serra acusou o PT de tentar intimidar e manipular a imprensa. Referia-se a seminários organizados pelo partido sobre comunicação e direitos humanos e por pontos inseridos no programa de Dilma que depois foram retirados, além de um projeto de criação do Conselho Federal de Jornalismo. A falação do candidato tucano foi feita em evento da Associação Nacional de Jornais. Não entendo por que isso deu manchete. Quer dizer, entendo perfeitamente. Mas me causa entranheza, pois a petista também estava no evento e não foi dada uma linha à sua participação. Claro, ouviram-na a respeito das falas do Serra. Entendo que, por tratar-se de algo que, em seu entender, o partido almeja, ou seja, o controle dos meios de comunicação, mas não exerce nem tem-se notícias de que queira implementar não valeria manchete. Até porque ele não falou nada de novo, esse assunto vem sendo explorado pela imprensa há meses. Então. por que tanto destaque? Para piorar o jornalão deu em  um quadro na mesma matéria que está sob censura há 300 e tantos dias. Quem não está ao par do assunto pode fazer a associação e imaginar que o governo censura o jornalão. Lamentável.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fim de semana tranquilo

Não fui ao Rio nem assisti a A Origem. Fui ao cinema, em São Paulo mesmo, mas vi Reflexões de Um Liquidificador, de André Klotzel, diretor do ótimo A Marvada Carne. Reflexões é um filme policial com tons de humor negro, em que o eletrodoméstico cria vida e passa a dialogar com a dona de casa Elvira, papel de Ana Lúcia Torre. A voz do liquidificador é de Selton Mello, que tece reflexões, como diz o título, a respeito da vida e dos homens e, apesar do absurdo, torna-se confidente da dona da casa, que o chama de caco velho, por ser um liquidificador bem antigo. Logo de cara reparei que minha mãe teve um daquele, há muito tempo. O filme é muito bom, se bem que meio arrastado às vezes. Antes, teve um curta sobre um repentista chamado Divino, que proclama seus versos velozmente e nem dá para entender tudo o que ele fala. O filme é o seguinte. Elvira vai na polícia dar queixa do desaparecimento do marido Onofre (Germano Haiut). Ela sai de lá como principal suspeita, sendo perseguida pelo investigador Fuinha (Aramis Trindade). O filme então se desenrola nas reflexões do liquidificador, seus diálogos com Elvira, a visita da vizinha (Fabiula Nascimento, de Estômago, e na investidas de Fuinha, crente de que ela assassinou o marido. Depois da ida à delegacia, o filme faz um flash back para mostrar os antecedentes do desaparecimento. O liquidificador, que seria vendido pelo marido, escapa da troca de lar e comete uma inconfidência: conta que viu o mar e, aí, nasce a dúvida na cabeça de Elvira, que estava estranhando o excesso de horas extras diurnas do marido vigia noturno. Ela descobre, então, que Onofre tem uma amante, a Gorete Milagres (aquela atriz que fazia Oh Coitado na televisão, no papel de uma empregada doméstica). O desfecho é surpreendente, mas não de todo imprevisível. É uma boa diversão, pena que está apenas em uma sala, no Espaço Unibanco da rua Augusta.

Falar em rua Augusta, este sábado resolvi fazer o que tinha resolvido: andar pela avenida Paulista. Desci do metrô na Brigadeiro e fui à Fnac, olhar livros. CDs e DVDs, um ótimo passatempo. Acabei não comprando nada, porque tenho muitos livros em casa sem  ler e quero pôr tudo em dia. Discos e filmes também não estou muito a fim de comprar não, apesar de ter me encantado por uma caixa com a série completa de O Poderoso Chefão, que eu gosto muito. Quem sabe um dia... Também me interessei por Meu Tempo É Agora, um documentário sobre o Paulinho da Viola, que não vi quando estava nos cinemas. Também posso resolver levar algum dia. Quanto a CDs, tirando a reedição dos Beatles, não vi nada que me interessasse.

Antes do cinema, desci até a lanchonete Estadão e comi uma ótima feijoada, nada melhor nesse frio que um prato bem gordo como esse. Estava uma delícia, tracei tudo, não sobrando nada. Fazia muito tempo que não comia no Estadão, que era onde fazia meu lanche quando trabalhava no Diário Popular, de 1989 a 1996. Depois do filme, fui para casa e passei o resto da noite embrulhado em edredon e vendo TV, tomando vinho e comendo queijos. No domingo, acordei tarde, às 14h. Fui depois para a casa de minha irmã mais velha, Vilma, e a acompanhei, junto com a mais nova, Sonia, à igreja adventista. Foi legal, é um ambiente onde a gente se sente muito bem e ouve uma pregação que faz refletir sobre as coisas da vida. Foi um fim de semana tranquilo, que faz com que a semana role na boa, é o que espero.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Cotidiano, que chatice

Tive um péssimo dia de sono anteontem. Fui dormir às 10h, mas às 13h perdi o sono e fui para a sala ver TV. Vi até Malhação e depois dormi, só acordando às 20h para desligar o despertador do rádio-relógio e voltar a dormir. Aí acordei mais de meia-noite, atrasado para o trabalho. Me vesti e penteei de qualquer jeito e fui para a agência. Tive sono durante o trabalho. Ontem foi diferente. Dormi das 10h às 23h30, com algumas interrupções (celular, perda de sono), mas passei a noite bem, com algum sono. Teve pizza pelo aniversário de Beto (explico, sempre que há aniversário de alguém da equipe, nos cotizamos e compramos pizza, é o pizzalelê).

Vocês viram: outro acidente com avião, desta vez um táxi aéreo que ia levar Xuxa para o Recife tem problemas e cai no mar perto do aeroporto Santos Dumont. Ainda bem que caiu na água, nenhum dos três ocupantes se feriu e a Xuxa não estava nele (ia ser pega no Galeão). É impressionante como tem havido acidentes de avião. Só este blog já relatou uns cinco, acho. É muito. Dá para ter medo de pegar um voo, mas eu por enquanto não estou com paranoia. Melhor. Mas fico com receio, sempre. Estou morando perto de Congonhas, e passa avião toda hora sobre minha cabeça. Fico sempre lembrando do acidente da TAM e de outros em plena cidade. A Globo está dando muita importância a essa queda do LearJet, talvez por ser o que ia transportar a Xuxa, ou então querem questionar a segurança do aeroporto.

Neste fim de semana devo ir assistir A Origem, que parece estar sendo muito bem recebido pela crítica. Vou porque meu terapeuta disse que vale a pena, tem uns questionamentos sobre a mente e sei lá, vamos ver. Depois conto como foi. Ou então vou ao Rio, onde terá chope com os leitores do blog Homem é Tudo Palhaço, de Roberta Carvalho, Ana Paula Mattos e Nara Franco, do Rio. As meninas escreveram um livro baseado no blog e estão bombando, já foram no Jô, na Ana Maria Braga e em várias publicações. Estão ficando conhecidas em nível nacional, o que me deixa feliz, porque elas merecem, o site é muito divertido. Sei lá, até o meio da tarde decido o que fazer,

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma noite em 67

O filme Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, que assisti neste sábado, tem a grata qualidade de trazer na íntegra a execução dos cinco primeiros colocados no Festival da Música Popular Brasileira, levado pela TV Record em 21 de outubro de 1967, além do destempero de Sérgio Ricardo, que arrebentou seu violão e o jogou para a plateia por não resistir às vaias ininterruptas que levou enquanto tentava defender sua canção. Eu vi essas apresentações inúmeras vezes desde o ano de sua aparição, mas nunca tinha visto todas em sua totalidade. O filme resgata essas apresentações, além de entrevistas da época e atuais. É muito interessante ver a sinceridade dos compositores e intérpretes ao puxar da memória o evento e até, em alguns casos, dar pouca importância a ele. As canções são, pela ordem crescente de classificação, Maria Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná, defendida por Roberto Carlos; Roda Viva, de Chico Buarque, com ele e MPB4; Alegria Alegria, de Caetano Veloso, por ele mesmo e Beat Boys; Domingo no Parque, de e com Gilberto Gil e Mutantes; e Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, com Edu e Maria Medalha. Eu li muito sobre os festivais, e o filme veio adicionar, além das exibições na íntegra, os depoimentos de seus principais participantes que de certa forma tentam desmistificar a importância daquilo. Caramba: os festivais foram, em certa medida, uma tomada de posição, um grito em um tempo em que a ditadura estava brava, e viria a engrossar ainda mais menos de um ano depois. Havia canções ingênuas, sim, havia, mas ali certas posturas eram um claro confronto ao regime, mesmo que não fosse essa a intenção. Mas eu cresci considerando os festivais - e este em particular ficou mais explícito - uma baforada de oxigênio novo sobre o que existia, um divisor de águas, e isso se percebe na richa que houve entre os defensores de uma MPB pura (sem guitarras, ou seja, anti-ianque) e os que buscavam novas linguagens, uma reformulação na música brasileira, com a aglutinação do que havia lá fora e o nascimento de uma coisa diferente - o que o Tropicalismo, que ali nasceu, faria depois. De qualquer forma estava tudo ali. Eu gosto muito de Roda Viva, acho uma obra-prima do Chico, mas ganhou Ponteio, que não deixa de ser uma bela canção. É um excelente documentário que com certeza eu pretendo ter quando sair em DVD.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Despejo na favela

Hoje comemora-se o centenário de nascimento de Adoniram Barbosa, nome artístico de João Rubinato, que nasceu em Valinhos (SP) e morreu em 23 de novembro de 1982 em São Paulo. Tenho uma história singela com esse grande compositor e cronista da cidade de São Paulo. Em 1982, quando montamos a peça A Invasão, de Dias Gomes, precisávamos de uma música para tocar em um dos momentos chave da obra. Joãozinho sugeriu Súplica Cearense, mas não conseguimos encontrar o disco (naquele tempo o mp3 era coisa de filme futurista). Então o Tim, do grupo Forja (grupo de teatro do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema), veio com Despejo na Favela, de Adoniram. Fui atrás e encontrei um LP homenagem, e a música era interpretada por ele e por Gonzaguinha (um de nossos ícones, qualquer dia falo do show que ele fez em São Bernardo contratado pela Associação de Compras Comunitárias do ABC). A canção ilustrou as cenas finais da peça, quando os invasores de um prédio do governo são expulsos pela polícia. Ela serviu direitinho. Melhor reproduzir a letra do que escrever qualquer coisa. Só digo que, se já gostava dele, fiquei mais vidrado depois de ouvir todas aquelas canções tão simples e tão complexas. Adoniram foi um grande poeta dos desvalidos, do amor puro, do cotidiano. Vai a letra:
Quando o oficial de Justiça chegou
Lá na favela
E contra o seu desejo
Entregou pra seu Narciso
Um aviso, uma ordem de despejo
Assinada "Seu Doutor"
Assim dizia a petição:
"Dentro de dez dias quero a favela vazia
E os barracos todos no chão"
É uma ordem superior
ô, ô, ô, ô, meu senhor
É uma ordem superior
Não tem nada não, seu doutor
Não tem nada não
Amanhã mesmo vou deixar meu barracão
Não tem nada não
Vou sair daqui
Pra não ouvir o ronco do trator
Pra mim não tem problema
Em qualquer canto eu me arrume
De qualquer jeito eu me ajeito
Depois, o que eu tenho é tão pouco
Minha mudança é tão pequena
Que cabe no bolso de trás
Mas essa gente aí
Como é que faz?
ô, ô, ô, ô, meu senhor
Essa gente aí
Como é que faz?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A inépcia do Inep

Erro dos mais grosseiros esse do vazamento dos dados de 12 milhões de estudantes que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nos últimos três anos. Minha filha prestou o exame, e não gosto de pensar que dados dela andaram por aí nas mãos de sabe-se lá quem. O aplicador do teste, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), admitiu que o sistema tem fragilidades, corroborando sua inépcia para tratar do certame, que já deu trabalho no começo do ano ao vazar o gabarito das provas. Realmente, a educação não é levada a sério neste País.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Os garotos de Liverpool

Vi no cine Reserva Cultural, onde assisti a A Flor do Deserto (post abaixo), trailer do filme O Garoto de Liverpool, uma cinebiografia de John Lennon, com estreia prevista aqui em 1º de outubro. Vou assistir, com certeza, mesmo que não se revele um bom filme. Desde Os Cinco Rapazes de Liverpool (Backbeat, 1994) e Imagine (idem, 1988) não via no cinema algo sobre os Fab Four, minha banda preferida e ponto final. Os Cinco trata dos primeiros anos dos Beatles, ainda sem Ringo, com Pete Best na batera e Stu Stucliff no baixo, e para exatamente quando o grupo experimenta o primeiro sucesso. Imagine é um filme em homenagem a Lennon. Tem bastante cenas históricas, mas se concentra na carreira solo dele e se encerra, claro, com seu assassinato. Espero que esse novo filme seja mais completo e dê mais informações sobre a carreira da banda. Eu estava com 19 anos quando Mark Chapman matou Lennon, conversava com a amiga Cristina no saguão da igreja de meu bairro quando não me lembro quem falou da morte dele. Naquela época, apesar de gostar dos Beatles - uma paixão cultivada já na infância -, estava meio assim com a música estrangeira, influência do padre antiamericano, e não tinha nada de Beatles nem de nenhum de seus membros. Mas o rádio tocava toda hora músicas do disco Double Fantasy, último de Lennon e o primeiro após autorreclusão de cinco anos. Eu gostei muito das principais músicas do álbum, em especial de Woman e (Just Like) Starting Over. Anos depois fui ver Imagine, já com todos os discos da banda comprados. O filme é muito bom, um documentário bem interessante. Mas o melhor mesmo é The Complete Beatles, que achava o  máximo até conhecer Anthology, uma coleção de três CDs duplos e oito fitas de vídeo (depois seis DVDs) que passou na Globo e aos quais eu gravei - depois comprei os DVDs, claro. Ali está um material realmente inédito, mas não completo, porque sempre haverá algo mais a ser lançado. Minha relação com os Beatles é de idolatria pura, sem nenhum ranço de crítica. Ouços as músicas deles o tempo todo, comprei dois exemplares da nova edição de seus discos oficiais (acho que vou comprar todos, sei lá). Leio e vejo o que posso sobre e fui ao show do Paul McCartney no Maracanã em 1990. Não sou um beatlemaníaco fanático, portanto não faço loucuras, mas acho que gosto da banda pela qualidade de seu trabalho, pela musicalidade e pela beleza das melodias. Espero que o filme faça justiça à grande pessoa que foi Lennon.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Flor do Deserto

Assisti ao filme Flor do Deserto (Desert Flower), de Sherry Horman, baseado em livro da somali Waris Dirie, e sobre sua trajetória e luta. Muito bem interpretado pela atriz e modelo de origem etíope Liya Kebede, o filme comove ao mostrar a vida e depois a batalha de Waris contra a mutilação genital de meninas, um traço da cultura de seu povo. Nisso reside boa parte do diferencial da fita, que não se resume a, à la Hollywood, contar a trajetória de uma africana pobre que conseguiu vencer na vida,  tornando-se top model.

Não. O livro (eu não o li, mas presumo baseado no filme) ela escreveu para denunciar essa atrocidade cometida contra as meninas de seu país, quer por cultura ou por religião, e acabou tornando-se embaixadora honorária da ONU para essa causa. O filme é muito bom e joga luzes a essa questão que a gente só ouve falar de vez em quando e atribui à ignorância de certos povos.

Segundo informa o site da Fundação Waris Dirie, cerca de 150 milhões de meninas sofrem esta mutilação no mundo, em todos os continentes. O importante é que o filme traz essa realidade a nós em um material de grande qualidade. A intérprete de Waris adulta, Liya, tem uma atuação perfeita, em todos os aspectos, e guarda alguma semelhança da somali (foto).

É importante destacar que a questão da mutilação genital é levantada pela própria Waris, que, em entrevista à Marie Claire londrina, diz que cansou de contar a história da retirante que saiu do deserto para as passarelas e capas da principais revistas. Não, ela quer falar da circuncisão que sofrem as meninas em seu país e a história, segundo o filme, comove a editora da revista. Pena que o filme termine aí, sem explorar a luta dela contra tal hábito. Mas não compromete a obra, que leva à vontade de conhecer melhor Waris. Pena que o livro está esgotado.

P.S. A propósito do tema, causa indignação também o caso da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento em seu país por ter cometido adultério. O meio, além de absurdo, é cruel. As mulheres são enterradas até o busto e homens atiram pedras pequenas, para que ela não morra logo e tenha seu sofrimento prolongado. Os homens são enterrados até a cintura e ficam com os braços livres para poderem se defender. Por que essa diferenciação? Casos da Somália e do Irã, além de muitos outros mais, mostram o quanto a mulher é desrespeitada e desvalorizada por esse mundo afora.

Assista ao filme:

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O bem escrachado

Assisti a O Bem Amado sábado, filme de Guel Arraes baseado na obra de Dias Gomes. Como na novela, que passou nos anos 1970 na TV Globo, o roteiro baseou-se em duas peças de Dias Gomes: Zeca Diabo e O Bem-Amado. Tenho uma simpatia antiga por José Alfredo de Dias Gomes, de quem montamos, nos tempos do Tupi, teatro amador de que participei, em Santo André, a peça A Invasão. Tenho um livro com várias peças dele, e penetrar em seu universo me abriu a mente para as mazelas deste país. O filme é bom, grandes atuações do elenco, mas para quem viu a novela é inevitável as comparações. Achei o Nanini meio caricato demais, bem distante da naturalidade de Paulo Gracindo. Aliás o filme todo parece que optou pelo escracho, pelo exagero, quase pantomima. Isso não é defeito, é escolha. Como disse para minha filha, quem não teve oportunidade de ver a novela ou a minissérie tem a vantagem de não fazer a comparação. Claro que as exibições antigas são outra coisa, não dá para comparar novela com filme, assim como não dá para fazer o mesmo entre peça e filme. Mas eu gostei do filme, apesar de achar um tanto arrastado às vezes, muito centrado no núcleo do Odorico e com poucas cenas paralelas. Acho que se se explorasse um pouco mais os outros núcleos o filme ganharia em agilidade. Por exemplo: o "romance" entre a filha de Odorico, Violeta, e Neco, interpretados por Maria Flor e Caio Blat, poderia ser mais abordado. Senti que ficou vazio, não gerou o conflito que seria de esperar. O personagem de Tonico Pereira, Vladimir, dono do jornal A Trombeta, ficou por demais caricato, o mesmo a dizer das irmãs Cajazeiras, muito bem levadas por Zezé Polessa, Drica Moraes e Andréa Beltrão, que na novela eram mais sutis. Dou o desconto de que, no curto espaço de um filme, fica difícil explorar melhor a complexidade de todos os personagens e que talvez o caricato foi opção para fazer um filme engraçado sem muito compromisso com as entrelinhas do texto de Dias Gomes. O filme ainda busca relacionar o enredo da trama com acontecimentos do país, como o golpe de 64 e depois a luta pelas Diretas, em 84. Ficou meio estranho, parece que só serviu para mostrar que o jornalista Neco (Blat) seguiu na profissão. O Dirceu Borboleta de Matheus Nachtergaele está impagável, mas bem distante do vivido na telinha por Emiliano Queiroz; só uma obervação importante: em nenhum momento ele é mostrado caçando suas borboletas, e sua consciência política é mais ressaltada no filme do que na novela, em que, ao que me lembro, ele é bem mais ingênuo e totalmente subserviente. O Zeca Diabo de José Wilker está irretocável, e é uma atuação que não lembra a de Lima Duarte, no que em minha opinião lhe rende muitos pontos em originalidade. Enfim, o filme, apesar de fiel na maior parte do tempo aos textos de Gomes, consegue se distanciar da novela, o que é muito bom. E, outro ponto a favor, mantém o tom político, sem proselitismo, que o autor imprimiu, atualizando e contextualizando, se bem que de uma forma ligeira sem aprofundamento, talvez para alcançar um público bem maior.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Paulistano

Estou na capital, depois de quase 50 anos no ABC, com curto período anterior em que morei no Ipiranga. Acho que não regressarei, pelo menos o que me motivou a ir morar em São Paulo prossegue. Nada é definitivo, claro, mas vir morar bem perto do trabalho foi uma decisão refletida, que veio da reclamação do corpo em se deslocar todos os dias úteis mais de 70 quilômetros. Agora estou alojado um pouco mais perto, mas ainda não no meu endereço definitivo aqui em Sampa, que este será resolvido em  poucos meses, espero. Estou perto do metrô, o que implica não precisar do carro para ir ao trabalho. Ainda não o utilizei, servindo-me do meu veículo mesmo, mas é minha intenção mudar de meio de transporte, porque o trânsito mesmo não anima. Se bem que no horário de pico a estação da Sé vira um formigueiro, mas, como é minha volta para casa, tudo bem esperar passar uns três ou quatro carros antes de embarcar. Ou encarar o aperto. Este próximo será meu primeiro final de semana que poderei curtir a capital. Pegar o metrô, descer na Paulista e curtir um cineminha, ver as novidades na Fnac, tomar um chopinho no Frevo, ou comer um bauru no Ponto Chic, quem saber ir finalmente ver as obras no Masp (vergonha, nunca fui). A cidade é bonita e sem a dependência do carro ela fica mais acessível. Pretendo usufruir. Quem quiser vir comigo ou convidar será bem-vindo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Saramago, um desafio

Em  1997, eu trabalhava no Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, onde iniciara um ano antes como assessor de comunicação no Grupo de Trabalho Eleitoral para o pleito municipal. Foi nessa época que tive a incubência de divulgar o projeto "Terra", que reunia um livro com textos de José Saramago, fotos de Sebastião Salgado e um CD com músicas de Chico Buarque. Os três estiveram em São Paulo para divulgar o projeto, que tinha vínculo com o MST. Foi o primeiro contato que tive com o escritor português morto sexta-feira, 18, aos 87 anos. Dele só li "O Evangelho segundo Jesus Cristo", um texto que me surpreendeu pelo estilo e pela ousadia. Não li mais nada desde então, afora alguns escritos na imprensa esporádicos. Tenho em minha estante "Ensaio Sobre a Cegueira", e também o DVD com o filme dirigido pelo Fernando Meirelles, mas ainda não os apreciei. Confesso que a leitura é complicada, é preciso às vezes reler os imensos parágrafos para se ter ideia do conteúdo, mas achei o "Evangelho" espetacular. Fica o desafio de mergulhar no universo desse escritor tão peculiar para, no mínimo, entender sua ótica do mundo e, quem sabe, apreender sua importância, que, pela repercussão de sua morte, era enorme.

A seguir, um texto de Saramago:

A mentalidade antiga se formou em uma grande superfície que se chamava catedral;
agora se forma em outra grande superfície que se chama Centro Comercial.
O Centro Comercial não é só a nova igreja, a nova catedral, é também a nova Universidade.
O Centro Comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana.
Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio.
O Centro Comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade.
Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora o que temos? A crise.
Será que vamos voltar a praça ou a Universidade? A filosofia?

José Saramago

Sobre Copa - Não costumo escrever sobre esportes, porque não é minha atividade predileta na vida, todos que me conhecem sabem. Mas estou, por falta mesmo do que fazer, assistindo a vários jogos e, mesmo não entendendo nada do que está rolando ali, tenho me divertido. Copa é legal por isso: até quem não entende e não gosta de futebol acaba entrando no clima e quiçá torcendo. Vou fazer uma confissão: torci mais para ver meu palpite nos bolões acertados do que para a vitória do time do Dunga. Rá, rá, rá! Deu certo, mas tenho a meu favor que torci pelas vitórias até agora havidas, ao passo que muita gente vem torcendo contra. Tudo bem, direito delas. Acho que a seleção terá uma boa campanha e até aposto que traz o caneco. Pelo menos é o que diz minha intuição, já que de táticas e quetais não entendo nadinha. A única coisa chata é a baderna que se faz antes, durante e depois dos jogos. Fico até com medo de sair às ruas. E a tal corneta, que insistem em chamar de vuvuzela, tem me tirado o sono dia após dia, como era previsível. Fazer o quê! Parece que o cidadão precisa de um estímulo desses para extravasar suas angústias que o cotidiano traz, uma alegria fugaz, como diria Chico a respeito do carnaval, outra festa de imensa falta de respeito ao próximo. Posso parecer chato, mas acho que sou mesmo. Pão que é bom...


segunda-feira, 14 de junho de 2010

Arraiá no Pontalete

Fim de semana com festa junina no Pontalete, distrito de Três Pontas, Minas Gerais. Fazia tempo não participava de uma festa tão autêntica. Aliás, fazia tempo que não participava de um festejo junino nenhum. Acho que desde os anos 80, quando dançava quadrilha na paróquia de Vila Palmares, em Santo André. Foi muito interessante, com direito a todos os itens alusivos à data, véspera de Santo Antônio. Teve casamento caipira - quadrilha -, fogueira, pratos típicos e regionais, como o delicioso cigarrete, quentão, vinho quente, bandeirolas enfeitando o arraiá. E figuras da região que tornaram o evento bem peculiar. Eu fui à caráter, obra de dona Ana e Isabela (ao meu lado na foto, junto de Leisinho, Márcia e Gustavo). Dancei um pouco, o que minha pouca familiaridade com os passos permitiram, mas não dei vexame, até porque parece que o gozado é dançar errado mesmo. Foi um fim de semana em um lugar bem gostoso, às margens da represa de Furnas, cercado de fazendas de café. Aliás, antes da quermesse, comemos um belo bife com salada na roça do Leisinho, simpático e atencioso como sempre. Apanhei laranja no pé e pisei na terra, coisa meio rara nas cidadonas em que vivo e trabalho. Como sempre a impressão de que viver no interior tem outro sabor, outro ritmo. Não sei se me adaptaria, criado no asfalto que fui. Mas tive na infância grandes vivências com esse clima. O Grande ABC, nos anos 60, era quase interior, tanto que quando fui morar na capital parecia outro mundo, com suas coca-colas, hambúrgueres, sorvetes Kibon e carros para todo lado. Apaixonei-me por automóveis na época. Vivia olhando os estacionados, decorando as marcas, a velocidade máxima que atingiam, os detalhes internos. Pai, na época, teve sempre fuscas, e, fora os poucos modelos antigões que viviam nas ruas de minha São Caetano, não conhecia muitos outros. Também fiquei fascinado por ônibus, coisa esquistia... Brincava de dirigir um em um sofá velho que tinha em casa, ou fazia trajetos com tijolos na areia na obra da casa de meu pai em Santo André. Mas, claro, não segui essa carreira. Era fantasia mesmo. Achava a profissão de motorista de ônibus algo meio mágico, uma responsabilidade grande dirigir um monstro daqueles, cheio de gente, pelas artérias da cidade e dos bairros. Mas além de morar em cidades que ainda guardavam algum aspecto de interior, ainda ia sempre a chácaras e sítios de parentes e adorava ver as árvores, os bichos, provar as comidas feitas na lenha, comer frutas no pé, nadar nas lagoas. Tive, por assim dizer, uma infância quase rural, com quintal com plantas, flores, árvores frutíferas, galinhas, até um porco e um cavalo chegaram a habitar o terreno, proeza de meu tio, já que naquele terreno que até hoje mantemos viviam quatro famílias. Bem diferente da realidade da garotada das cidades de hoje. Ir a um lugar desses me remete a esse tempo e à infância, e me permito uma certa nostalgia, mas nada que me motive a mudar de ares, porque, como disse, não sei se me adaptaria a uma vida no campo, apesar de hoje a zona rural estar tão desenvolvida e com acesso à tecnologia mais moderna como toda área urbana. Celular, internet, TV a cabo são comuns. Mas sei lá... na semana passada estivemos em Bragança Paulista no sítio de amigos de Isabela e confesso que o galo cantando desde a 1 da manhã não foi agradável, apesar de que o barulho dos caminhões-cegonha de meu bairro o tempo todo também não sejam bons sons para se ouvir dormindo. Mas olhar aquele verde todo e conviver com pessoas simples, que têm uma visão tão diferente do mundo é gratificante e um tônus para a alma, que volta bem mais leve para a selva do asfalto e seus bichos bem mais perigosos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

É tempo de Copa

Na próxima semana, como o mundo sabe, começa a Copa do Mundo de Futebol na África do Sul. Não sou o sujeito mais qualificado para falar de futebol ou de qualquer outro esporte, mas sinto necessidade de tecer algumas linhas a respeito desse evento que mobilizará boa parte da população do planeta Terra durante 30 dias. A preocupação - e torcida - é se o Brasil fará bonito e trará o caneco, em sua sexta vitória neste campeonato. Aí o clima é de ufanismo exacerbado. O verde e o amarelo redundam nas janelas das casas, nas antenas dos carros e em todos, ou quase todos, comerciais da mídia. Não entro nesse clima. Assisto à Copa, torço, vibro, afinal, o espírito coletivo ajuda, e não vou dar uma de carrancudo e do-contra. Lembro-me que no tetra, em 1994, fiquei até sem voz de tanto que gritei. Isabela era uma menininha de 2 anos e vibrou tanto quanto a gente. Fomos à rua de carro para comemorar e a festa era geral. Mas perigosa, com muita gente encachaçada fazendo estripulias. A de 1970 eu me lembro bem. Dei nenhuma bola a ela, fiquei aprendendo a empinar - e perder - uma pipa. Mas depois papai nos levou ao centro de São Caetano, onde a galera lotou as ruas e até divertiu-se no espelho d'água da prefeitura, então ainda na avenida Goiás. Em 2002, não me lembro de quase nada, curiosamente. Só me recordo que assisti aos jogos no salão de festas da casa de minha filha, com uma turma bem animada. Então é assim: curto ver os jogos do Brasil, sofro, roo as unhas, mas não consigo me ufanar, porque isso não resolve os problemas do país, apenas enche os bolsos de uma parcela significativa de pessoas. Aliás, todo mundo resolve aproveitar o momento para faturar algum e é interessante como se vê "criatividade" por aí. Qualquer comercial, de qualquer coisa, bota o espírito da Copa no meio, mesmo que não tenha nada a ver com o negócio, caso de uma propaganda de uma marca coreana de veículos. O comercial dela relativo ao campeonato é tão desproposital que não se atina para seu objetivo. Será que comprar um carro da montadora significa estar em dia com a obrigação civil de torcer? Concordo que anunciar televisores é coerente, mas forçar a barra até queima o filme do produto. Mas o que realmente me deixa indignado é ver as emissoras de TV - aparentemente todas - venderem um clima de festa que realmente não acho que precisa. Assisti ao jogo amistoso entre a seleção do Dunga e a do Zimbábue, anteontem, mas vi a imagem na TV e o áudio de uma rádio. É incrível: o locutor não narrava um minuto de jogo sem outros dois ou três de anúncios. É de dar raiva. Na TV não é diferente: é comercial toda hora, seja declamado pelo narrador seja nas placas por todo o estádio e as inscrições nos uniformes de todos. De onde se conclui o óbvio: Copa é um grande negócio, e é por essas e outras que meu espírito não se enche de orgulho com esse evento tão popular e tão rico.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Fim de semana no interior

Fim de semana num sítio em Bragança Paulista, com Isabela e casal de amigos. Coisa diferente: mato, galinhas, galos e pintinhos, vacas, árvores, tanque com peixes. Espaireci, inebriado com a doce hospitalidade e simpatia de nossos anfitriões, seu Roberto e dona Terezinha, pais de Martinho, marido de Marcela, o casal de amigos. A cidade de Bragança é bem bonitinha. Fomos a um bar, Trairagem, onde comemos o tal peixe em iscas fritas, muito gostoso. No dia seguinte, sábado, fomos a uma cidade vizinha, Pedra Bela, onde existe, segundo os caras lá, a maior tirolesa do mundo. Um cabo de aço de 1,9 mil metros de extensão e que no ponto mais alto atinge 1,4 mil metros. Você paga na base onde termina o passeio e uma van leva ao pé de morro, onde, depois de 309 degraus, atinge-se o pico de uma pedra, onde se encontra uma simpática igrejinha. De lá se desce, em um passeio emocionante que leva menos de dois minutos. Dá um frio na barriga e um medo danado de cair, mas depois do pavor inicial é curtir a paisagem lá de cima e torcer para demorar, mas logo acaba. Depois da tirolesa, nada melhor que uma cervejinha gelada. Aí a fome aperta. De volta ao sítio, um rango muito bem feito e recebido. Domingo foi dia de beliscar tilápias pescadas na hora nos tanques, sorvendo umas cervejotas - e uma cachacinha divina -, além de queijo e uma berinjela esplêndida. E assim se foi o domingo. Foi um fim de semana diferente, muito gostoso, com contatos com pessoas novas e num ambiente muito aconchegante. Único problema foi um susto que levamos na estrada, mas nada grave, apenas um susto.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Removendo o pó

Estou encaixotando minhas coisas para a mudança, que não sei quando será, mas será em breve, espero. O interessante é pôr as mãos de novo em tantos livros já lidos e outros que nunca li - alguns comprei ou ganhei na época da faculdade e estão ali, virgens, inéditos, esperando minha boa vontade. Há livros que nem sei como chegaram às minhas mãos. É bom fazer isso, pois coloco nas minhas metas lê-los um dia. O mesmo com os discos. Tantos CDs que faz tempo que não reouço, e outros que nunca ouvi, ou ouvi apenas uma vez. Sem contar as milhares de músicas que estão no computador que um dia vou transcrever para CD. Lá está cheio de músicas que baixei e nunca ouvi sequer uma única vez. É estranho isso. A gente se esforça para conseguir uma obra dessas e ela acaba na gaveta, ou no HD, porque deixamos para usufruir em outra oportunidade e acaba esquecendo. Penso qualquer dia fazer como fez o Kubrusly na rádio Excelsior, nos anos 80. Ele pegou todos os discos da emissora, catalogou em fichas e, em um arquivo, fazia o seguinte: a cada música executada, ele colocava a respectiva ficha no final do arquivo. Assim, tinha a certeza de que a mesma música não seria tocada novamente em um período curto de tempo, prática comum nas demais emissoras até hoje. É uma ideia. Cada dia ouvir um CD, colocá-lo no final da gaveta e ouvir o próximo. Assim, em algum tempo ouço todos os discos que tenho. O problema é que quando gosto de um disco tendo a ouvi-lo dezenas de vezes até cansar. Há também DVDs que comprei, ou gravei, que até hoje não assisti. Outra oportunidade de, em casa nova, reparar essa falha. Aqui ainda posso adicionar os amigos que há tempos não vejo, os emails que não escrevi, os telefonemas que não dei. Depois reclamo da solidão... É. Essa mudança de casa tem tudo para ser mais do que uma simples mudança de casa.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Boas risadas garantidas

Assisti ao filme "Quincas Berro d'Água", dirigido por Sérgio Machado, baseado no livro de Jorge Amado "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água", obra que sempre quis ler mas nunca animei, o que agora creio ganhei um excelente estímulo. Não posso, portanto, analisar a fita à luz do texto que lhe serviu de inspiração, mas o filme é muito engraçado, com atuação esplêndida do grande Paulo José no papel-título. Estão todos bem, as interpretações são, em algumas partes, exageradas, como a de Flávio Bauraqui, como Pastinha, chorão e meio bobão - inteiramente bobão, aliás. Ele chora demais, de maneira escrachada, mas acho que até que ficou bem adequado ao nonsense da situação toda. Irandhir Santos, como Cabo Martim, está muito bem, e é um ator que está se revelando e logo será mais conhecido por aí, segundo dizem os especialistas, dos quais, claro, não faço parte. Mariana Ximenes, como sempre, perfeita, encarnando uma falsa pudica, a Vanda, filha de Quincas, ou, por outra, uma pudica que em certo momento abraça a causa do pai (rs). Marieta Severo, como Manuela, falsa argentina, é séria, dramática, e sua interpretação não nega a excelente atriz que é. Há ainda os outros dois amigos do morto, Pé de Vento (Luis Miranda) e Curió (Frank Menezes) perfeitos. Ponto nebuloso para Vladimir Brichta, como o marido de Vanda, Leonardo, meio canastrão demais, mas nada que comprometa. A história é, em resumo, assim. Quincas é um beberrão convicto, amigo da mais pura esbórnia, que no dia de seu aniversário morre. Os amigos não se conformam com o ocorrido e resolvem roubar o defunto para comemorar a passagem de anos como tinham planejado. E aí as situações, os quiprocós, são inusitados. Belas imagens da baixa Salvador à noite, com os bordéis, botequins, gafieiras, terreiros, delegacias, em um clima noir e lúgubre, de grande beleza. O conflito se dá com a polícia, acionada pela filha, em busca do morto, a perseguição, a fuga, corre-corre. E nesse meio vão desfilando os tipos mais estranhos do Pelourinho, cais, baía de Todos os Santos e outras localidades que não sei identificar. Não se ri o tempo todo, mas a narrativa vai construindo as situações de maneira que a gente não se dá conta do que pode acontecer, e o final, antecipado no começo, também é inesperado. O engraçado é que o narrador é o próprio morto, que vai destilando veneno a respeito do comportamento das pessoas em volta. É meio drama também, mas no sentido de que se procura poesia na amizade grande daqueles personagens em torno do Quincas, este uma pessoa adorada pelos amigos de copo e pelas amigas de corpo. Realmente, dá vontade de ler o livro de um fôlego só. É o que farei. Quanto ao filme, nem preciso recomendar, né?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Vida nova

Está frio. Ontem entreguei documentação para a construtora. Songa monga me pediu um monte de papelada e quando fui entregar soube que não era necessário tudo aquilo, porque não vou financiar. Saco, até comprei multifuncional para dar conta de tantas coisas solicitadas. Agora mais um trambolho para transportar. Se tudo der certo (e há de dar) em no máximo dois meses tenho meu apartamento novo nas mãos. Aí é fazer o acabamento, limpar e mudar. É a sete minutos - a pé! - de meu trabalho. Nunca mais viajar 33 km todos os dias, pra ir e pra voltar; trânsito, sono, rodízio tudo isso pra trás. Que sonho! Fica bem longe da família, mas nada que uma boa viajada de carro ou condução não resolva. Filha também está longe, mas ao alcance de um voo curto. As distâncias às vezes assustam, mas vencê-las é um desafio que a vida nos coloca. A namorada Isabela também mora longe, e acabo de constatar que vivo cercado de longas distâncias das pessoas que importam. Ideal seria todos ficarem perto, mas numa cidade de dimensões continentais como essa que moramos é difícil, porque os empregos, pelo menos na minha área, não abundam. Portanto optei por morar perto do trabalho, após nove anos de sacrifícios, aos quais meu corpo e paciência não toleram mais. Será estranho voltar a morar na capital, onde vivi por um breve período nos anos 70; o restante foi todo no ABC, exatamente nas três cidades que formam a sigla: Santo André, São Bernardo e São Caetano. Não sei se me acostumarei, acho que essa opção de ficar perto do ganha-pão, apesar de melhorar a qualidade de vida, dá a sensação de que a prioridade é o trabalho. Mas não é só isso. Estarei também a poucos quilômetros dos bons cinemas, teatros, casas de espetáculos, bares, restaurantes, museus. Onde eu moro hoje não tem nada disso. É tudo longe e chega fim de semana dá uma preguiça só de imaginar pegar trânsito para ir a um mero cinema de qualidade. Ou se contentar com os blockbusters do Extra Anchieta ou do Shopping ABC. Não quero maldizer São Bernardo, mas não me empolgo em sair por lá. Agora estarei em condições de poder usufruir da intensa vida cultural da cidade de São Paulo. E espero que usufrua mesmo, sem preguiça.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A caminho dos cinquenta anos

Completei 49 anos sexta-feira, 14. Agora é contar os dias para os 50, idade enigmática, meia centena, meia idade.

Envelhecer é estranho. Não me sinto um homem velho, na acepção clássica do termo. Estou bem de saúde, com o espírito tranquilo, cheio de planos, perspectivas, achando que realmente a vida começou (recomeçou) aos 40.

Estou com a filha bem encaminhada, em um relacionamento bom, com uma pessoa especial,  devo mudar de residência em breve, o que pode mudar radicalmente minha qualidade de vida. Acho que as coisas para mim este ano estão caminhando bem.

Tive uma bela festa sábado, com família, namorada, amigos, um astral muito bom (na foto, sobrinhas Simone e Shirley, meu bem querer Isabela e amigos). Recebi cumprimentos e fiquei feliz. Foi uma semana de aniversário excelente. Agradeço a todos que demonstraram carinho comigo, o que me fez sentir especialmente amado por pessoas especiais.

E tenho certeza de que esse caminho aos 50 será igualmente perfeito, pois farei o que for possível para que a estrada seja retilínea, mas, se com obstáculos, que os possa transpor sem traumas.

Adoro essa sensação, é a superação de uma fase ruim, e o início de uma plena de alegrias. Estou otimista, e quero compartilhar essa sensação com todos que puder. Quero ser um cinquentão como fui nos outros anos todos, principalmente os dos melhores períodos de minha vida, quando pude realizar plenamente todas minhas potencialidades e cresci o suficiente para estar bem agora.

Os problemas existem, claro, como para todos. Mas posso contabilizar só ganhos este ano que se encerrou sexta-feira. Conheci pessoas maravilhosas, viajei para lugares incríveis, trabalhei todos os dias, à exceção de um ou outro que uma doença sem maiores consequências me impediu, vivi bons momentos... acho que tenho alguns privilégios nesse particular, então não tenho do que reclamar, mesmo.

Estou feliz, repito, e pronto para os demais anos que vêm por aí, com certeza de que serão também bacanas, pois, do que depender de mim, o serão. Quanto aos projetos, estou elaborando ainda, mas sinto que cresce dentro de mim um entusiamo que vai me levar para caminhos que me serão importantes, creio sinceramente que a vida vai continuar a me sorrir. E as pessoas especiais que me rodeiam têm grande responsabilidade nisso.

Dois filmes

Assisti a dois filmes este fim de semana: Alice no País das Maravilhas e As Melhores Coisas do Mundo. O primeiro achei meio enfadonho, se bem que a tecnologia 3D é de tirar o fôlego, e a sala Imax no Espaço Unibanco do Shopping Bourbon é excelente, apesar de caríssima a sessão lá (R$ 34 a inteira, meia para quem é cliente Unibanco ou Itaú). Confesso que prefiro o desenho da Disney.

O segundo é um filminho adolescente, meio não apropriado para o universo meu atual. Mas foi interessante por poder comparar minha adolescência com a atual, de enormes diferenças. O filme é cheio de histórias paralelas, o que cansa um pouco, mas o desfecho é para cima, alto astral, e a gente sai com a alma lavada, o que acho ser mesmo a intenção do filme.

Mas, entre os dois, acho que preferi mesmo o prazer de degustar um enorme hambúrguer do Burger King, com 1 litro de coca (rs). Estava precisando de cometer esse sacrilégio com meu corpo. Sem culpa, contudo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Emancipação

Este fim de semana fui conhecer o apartamento onde moram minha filha e a prima dela, que estudam longe de casa e ingressaram na vida autônoma. Que lindo, quanta emoção. Ela recebendo os pais em seu novo lar, todo arrumadinho, bonitinho, fazendo café. Guiou-nos pela desconhecida - para nós - cidade, andando de ônibus e táxi por todo canto, atrás de coisas necessárias para a casa. Foi muito legal ver minha filha naquele ambiente em que ela estará vivendo pelos próximos quatro anos - creio que no mínimo. Mostrou os textos que está estudando, contou das aulas, dos trabalhos, das expectativas. Ela está feliz, e isso me deixa feliz, apesar da saudade que a distância provoca. Já é uma mocinha, e responsável, independente, ciente de seus deveres e de seus direitos também. Mas a presença dos pais fez com que retornasse um pouco aos ares de menina que estávamos acostumados. E isso foi muito bom. Dia das mães, ela toda zelosa em agradar, triste com as flores que não chegaram a tempo. Vê-la em seu ambiente deixou-me com uma sensação de orgulho, a ver como está se virando e dando conta de tocar a própria vida. Pena que o tempo estava feio, em um lugar em que o sol teima em queimar, e impediu que ela nos recebesse com o churrasco com o qual desejava nos homenagear e aos seus parentes e amigos. Mas o domingo das mães foi passado na casa de um tio dela, onde várias mães - tias, primas - se encontraram para um almoço festivo, regado a muito carneiro e outras delícias. Aos 18, eu ainda vivia com meus pais, se bem que mais na rua do que em casa, o que deixava os velhos apreensivos. Mas essa independência passava longe de mim. Comecei a trabalhar, de forma constante, só aos 19 e aos 22 entrei na faculdade. Fui sair de casa paterna somente aos 31, quando me casei. Mas aí era vida a dois, com as responsabilidades divididas. E logo fomos pais, começando essa história que tem agora esse desenrolar. Acho que, depois do que vimos, só podemos acreditar que nossa filhinha vai longe. Espero que não tão longe de nós.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Futebol é um saco

Segunda-feira é um saco. As conversas normalmente versam sobre o mesmo assunto: os jogos de futebol do fim de semana. E eu sempre boiando, porque não assisto, eu quando assisto não entendo, e se tento entender acabo gostando menos ainda desse esporte bretão que mobiliza tanta gente no mundo todo. E este ano, de Copa, será prato farto. Mas do Mundial eu até gosto, porque a gente torce para o país, a seleção síntese de todas nossas agrugas, modelo de nosso bem ou mal-estar. Gosto das crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol. Ele conseguia fazer o assunto parecer palatável até para quem não está acostumado à linguagem do meio, geralmente tão indecifrável quanto a da economia para quem não é do ramo. E uma coisa que ele abominava era o tal complexo de vira-lata do brasileiro, de se sentir inferiorizado diante de seleções mais bem preparadas e de países em que as condições de vida são muito melhores que as nossas. Bem, isso ficou para trás. Hoje, nossos atletas são tão bem preparados e em alguns casos pagos como de qualquer nação de Primeiro Mundo, onde, aliás, muitos deles jogam. Mas o que me deixa chateado é que isso virou uma grande fonte de recursos, dinheiro que imagino rode, vide o investimento que se faz nesses campeonatos, sejam regionais, nacionais ou internacionais. Realmente, eu prefiro ficar de fora.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Jovens tardes de domingo

Estou lendo "Minha fama de mau", autobiografia de Erasmo Carlos, e descobrindo que o sujeito é engraçado, tem bom humor e um grande talento para rir de si próprio. O livro é uma delícia, se bem que às vezes ele incensa demais o seu amigo Roberto Carlos. Mas está recheado de boas histórias da Jovem Guarda e primórdios. Bem, estou na metade do livro e ainda nem chegou propriamente nas jovens tardes de domingo - está começando agora, na minha leitura. Eu gostava muito da Jovem Guarda, costumava assistir aos caras na TV (não exatamente o programa do Roberto, pois eu era muito pequeno, mas os que vieram depois), lia as Revistas do Rádio, Melodias, Fatos e Fotos e outras que apareciam - isso bem lá na frente já, alfabetizado, e ouvia no rádio e na TV as músicas. Como já postei aqui, quando fui ao show do Roberto pela primeira vez em minha vida, costumava ver os galãs e as galãs nos shows de aniversário de minha cidade, São Caetano do Sul. Não chegava a ser um fanático, desses que se vestem igual ao ídolo e tem tudo deles, mas o ritmo me agradava muito (talvez venha daí minha preferência, anos depois, pelo bom rock and roll, a partir de Beatles). O livro está sendo importante para resgatar essa etapa ingênua (nem tanto, apreende-se da leitura) de nossa história musical. A escrita (texto final de Leonardo Lichote) é ligeira, gostosa de ler, com orações bem concatenadas e histórias saborosas. Mas até aqui (pg. 152 de 343) dá a impressão de que o Erasmo está um tanto superficial, talvez ocultando passagens não muito nobres de sua trajetória, optando por lances engraçados ou comoventes, e valorizando demais as parcerias com o Rei. Eu esperava ler episódios obscuros que certamente a carreira de um artista tem, os trambiques, maracutaias, as puxadas de tapete... Têm algumas coisas assim, mas muito por cima. Erasmo parece que se preocupa mais em relatar suas aventuras sexuais (ou desventuras) do que em detalhar sua trajetória. Numa página ele é o moleque aprontando nas ruas de Tijuca, zona norte do Rio; noutra. já toca violão e canta no The Snacks; vem outra e já compôs a versão para Splish, Splash. Pode ser que mais à frente ele amarre essas pontas soltas, mas até o momento dá uma certa agonia, uma sensação de amadorismo, que imagino ele cometeria se tivesse escrito a obra sozinho. Vamos dar um desconto. Ao final do livro dou uma impressão final (sem trocadilho).

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O segundo debut da filha


Minha filha fez sua estreia no movimento estudantil. Os alunos de sua universidade - parte deles, claro - estão reclamando professores, equipamentos, ampliação do restaurante e da creche, entre outros itens, e há mais de uma semana estão em greve, tendo ocupado a Reitoria. A foto mostra ela empunhando um cartaz em passeata no campus, quando se dirigiam à sala da reitora. É engraçado vê-la nesse agito, a gente inevitavelmente se lembra da mesma época, dos valores que tinha, e remete ao agora, o que ficou para trás e o que criou raízes. Acho ótimo ela ter suas visões, convicções, creio que vai consolidando sua opinião, seu modo de pensar, e assim ela ingressa no mundo adulto, onde passa a ser uma cidadã. Acho que está na hora de emprestar-lhe uns livros (rs).

Tirando isso, vale um post pra dizer que não tem novidade, que não fiz nada, que a vida seguiu modorrenta como um caravançarai no deserto? A única novidade é que voltei à cidade de Praia Grande pela primeira vez desde que meu pai, que morava lá, morreu, há quase 10 anos. Está tudo bastante diferente, e a casinha dele continua lá, agora habitada pelos enteados, acho. Fiquei triste de passar por lá, claro, mas foi bom também recordar momentos felizes passados naquele lugar, os churrascos, a casa cheia de gente, as caminhadas pelo calçadão. Frequentamos a Praia Grande desde muito pequenos e a transformação foi realmente radical, apesar de ainda não ter confiança de entrar no mar de lá. Mas ficou bonito, sim. Tomei umas cervejas mordiscando iscas de peixe com minha nova amiga e o sábado foi passado dessa forma. Já o domingo foi sem muita atividade. Fui embora à tarde para poder trabalhar à noite. No feriado do dia 21 também não fiz nada que merecesse registro.

Não me decidi ainda a abandonar a terapia; fui segunda e quinta e mais uma vez a ladainha do sono. Gostava mais quando fazia umas terapias alternativas, que incluíam florais, acupuntura, cromoterapia, aromaterapia, massagem... Saía de lá muito leve e achando o mundo uma maravilha. Mas tinha que fazer minha parte, qual seja, não me estressar à toa, mesmo que tomasse uma bela fechada de um carro. Estar naquelas sessões correspondia a sair um pouco do mundo e levitar em uma esfera superior, onde tudo era leve e as preocupações ficavam lá embaixo. Podia ser um mero paliativo, mas o bem-estar proporcionado era muito legal.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sono óbvio; insônia ululante

Parece piada. O homem que pago para me ouvir passou uma sessão quase inteira falando dos benefícios de uma boa noite de sono (para mim dia), de ter alguma rotina, horários certos e tal. Bem, nunca fui um cara regrado, sempre dormi, acordei e comi nos mais variados horários e chegar atrasado nos compromissos para mim é que é uma rotina. Poderia contar casos hilários aqui de meus atrasos, mas quero focar nesse negócio de sono. É claro que sei dos benefícios do sono, cara pálida! Dar uma grana pro sujeito me dizer isso me faz sentir-me lesado, roubado mesmo, é a palavra. Tudo bem, vamos ser condescendentes. Concordei e resolvi seguir um ritual para dormir bem. Desligar todos os telefones, TV, rádio, luzes, fechar bem as janelas, deixar o quarto bem aconchegante e dormir o mais cedo que puder. Foi o que fiz nesta quinta-feira, após a consulta-mesmice. Às 11h em ponto deitei-me, e dormi em seguida, sem dificuldade. Mas, apesar de todo esse cuidado, acordei meio-dia e meia, assim do nada, sem nenhum barulho a me despertar ou pesadelo a me afligir. Acordei, chateado, levantei-me, tomei água, fui ao banheiro, chequei o celular (tinha uma mensagem, respondi) e voltei à cama. Fiquei entre dormindo e acordando até 15h30. Aí vi que não tinha jeito e fui almoçar. Comi bem e resolvi assistir a um filme, O Sequestro do Metrô, baseado em um livro que li nos anos 70, quando era assinante do Círculo do Livro. Com Denzel Washington como o mocinho do controle do metrô, e John Travolta como o bandido assaltante. Bom filme, boas cenas de ação, apesar de clichês, diálogos interessantes, humor, ironia, alguma crítica política ingênua (ah, quando fala de corrupção, prefeito sacana e tal). Roteiro, no entanto, repleto de falhas, mas não chega a comprometer a obra como boa diversão. O resultado é que passei o tempo e, ao final dele, consegui dormir até 22h. Aí fiquei com preguiça de levantar, o que só acabei fazendo por volta de 23h, já no meio da Grande Família. Então a piada de que falava é essa: esta semana toda dormi bem, com TV e computador ligado, celular e telefone tocando, e, na hora que resolvo me isolar, o sono não vem. E olha que disse para o ouvidor que estava dormindo bem, mas parece que o cara não tem um plano B, sempre tem que seguir o que programou para mim independente do que eu lhe diga. Estou seriamente inclinado a deixar esse sujeito ouvindo o silêncio de minha ausência e investir essa grana em bons filmes e livros, coisas que talvez me permitam compreender um pouco melhor as coisas da vida que me afligem.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Um domingo de ócio total

Nossa, que domingo tive! Fiquei ele todo praticamente na cama, só levantei poucas vezes para as refeições, banheiro, essas coisas. No mais, TV, sono, filminho, internetadas. Pior é que acordei muito cedo, por volta de 8h, e assisti ao programa rural da Globo. Depois, Inezita e Boldrin na Cultura. Gosto desses programas que tocam músicas regionais, nada a ver com esses sertanejos de hoje - nada contra, até ouço, e algumas são até bem feitas, mas a música caipira é, no meu ponto de vista, muito boa. Teve show da Central Scrutinizer no Centro Cultural São Paulo, mas não fui; era às 18h, e acordei às 16h morrendo de preguiça de sair. Também não fui na festa de lançamento da Devassa, sexta, em Jundiaí. Sábado churrasqueei com a família, depois de andar pelo shopping resolvendo problemas de celulares e impressoras, rs... Sexta Isabela voltou pra casa dela. Foi um sufoco no aeroporto de Congonhas. Chegamos uma hora antes da saída do avião, como recomenda a companhia. Mas a fila estava imensa e bateu o desespero de perder o voo. Felizmente deu tempo, na correria. Mas aprendi a lição: estar no check in pelo menos com hora e meia de antecedência, porque o que se anda de avião hoje não é brincadeira. Aliás, estacionar lá está cada vez pior, um estacionamento tão grande e sempre cheio. Pois é, parece que a crise está mesmo passando longe daqui. Bem, voltando ao domingo. Assisti a um filminho em DVD meio bobinho, mas, sei lá, devia estar carente, e me emocionei muito. Chama-se Sete Vidas, com Will Smith como principal personagem. Ele sofreu um acidente tempos atrás que causou a morte de sete pessoas, porque foi ver recado no celular enquanto dirigia e não viu seu carro ir em direção a uma van cheia de gente. Sua mulher também morre no desastre. Aí sabemos que ele é agente fiscal da Receita e escolhe sete pessoas que estão com dificuldades para ajudá-las de alguma maneira. É um modo de ele compensar as sete vidas que fez ceifar. Ele acaba se apaixonando por uma de suas beneficiadas e o que ele faz por ela é realmente comovente, apesar de a crítica ter achado um tanto piegas. Sei lá, esses críticos é que são meio piegas às vezes. Claro, é um filme feito mesmo para comover, é do mesmo diretor de À Procura da Felicidade, com o mesmo Smith (Gabriele Muccino), mas gosto de filmes assim, me comovo e dane-se se pareço babaca. Estava, porém, especialmente sensível este domingo e o desprendimento do cara, apesar de fruto de um remorso imenso, me deixou pensativo. Faria eu algo assim por pessoas que nem sequer conheço, apenas porque elas merecem? Outra coisa, precisa de uma  motivação forte assim (expiar uma culpa) para se fazer o bem às pessoas? Tem uma cena em que ele doa medula óssea a um garotinho com câncer que é muito forte. A extração é feita sem anestesia e a dor é muito bem representada por Smith, bem como a hora que ele comete o suicídio (não estou estragando o prazer de ninguém porque o filme começa com ele anunciando que vai se matar), de uma forma assustadora. Eu acho que só as boas interpretações valem o filme, apesar de ser um tanto arrastado, lento, de não promover o crescendo necessário para esperarmos ansiosamente pelo clímax. Acabei de vê-lo com um certo espírito de solidariedade e me achando pouco empenhado em ajudar quem precise. E a gente vê na TV esse desastre que houve no Rio e fica comovido, revoltado, mas faz o quê? Depois de notícias de que muitas doações não chegaram ao Haiti dá mais raiva ainda, vontade de mandar tudo para aquele lugar. Sabe, tem dias que sinto muita raiva da humanidade, apesar de que generalizar não é boa ideia. Mas egoísmo e individualismo são pragas que vicejam por aí, e sacanagem com os outros, mais ainda. Assusta-me muito isso aí. A gente precisa de uma boa crosta grossa nas costas para poder sobreviver nessa selva, e também de tolerância, senão sai brigando toda hora. Depois do filme, papeei um pouco no MSN e dormi gostoso até cerca de 17h, já no final do jogo Santos 3 x São Paulo 2. Meu cunhado e sobrinho tricolores devem estar putos... Vi Faustão, cheio de celebridades desfilando demagogia com a desgraça alheia e depois Fantástico, que trouxe cenas de um resgate no morro do Bumba, em Niterói (RJ). É impressionante como a Globo consegue essas coisas: em plenas operações arriscadíssimas no local da tragédia, mete uma equipe toda lá. Não sei se outras emissoras também puderam acompanhar o resgate do homem. Lembrou-me demais do filme A Montanha dos Sete Abutres, com Kirk Douglas, guardadas as devidas diferenças, quer dizer, não estou dizendo que, tal qual o personagem de Kirk, um jornalista inescrupuloso, a Globo esteja explorando a desgraça alheia; só me encano um pouco por certa exclusividade que ela muitas coisas consegue, à custa sabe-se de que expediente. Mas, se for esforço de reportagem, como parece que é, parabéns a ela, como sempre. Terminado o show da vida, fui trabalhar, esperando que esta seja uma semana boa e de realizações. O bom é que o próximo final de semana já está garantido. Depois eu conto.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Maioridade

Não me lembro muito bem de quando completei 18 anos. Recordo-me vagamente de que me alistei, tirei documentos (título de eleitor, identidade, CPF) e estava procurando emprego, inutilmente. Era 1979. Época da discoteca, e eu era frequentador de algumas pistas, onde tentava dançar à la Travolta (ridículo, eu). Não tirei carteira de motorista de imediato, sonho de todo moleque que atingia a maioridade. Não tinha grana para isso, nem carro. Eu era um cara muito diferente do que viria a me tornar depois. Meio vagabundo, apesar de ralar os parcos músculos carregando carrocerias de caminhões na transportadora São Thomé para descolar uns trocados que garantiam a balada, o cigarro e a calça Levi's comprada na loja de fábrica, na longínqua Vila Leopoldina, zona oeste da capital, onde o preço era inferior porque havia um defeito ou outro que tirava a peça das lojas. Meu pai vivia me cobrando uma ocupação, mas idade de serviço militar era ruim para conseguir emprego, só esses bicos na transportadora. Também não ia bem na escola; fiquei em recuperação em Matemática Aplicada, no terceiro colegial, dois anos seguidos, o que, somado à reprovação da 6ª série, iria me atrasar e fazer entrar na faculdade somente aos 21 anos. Minha filha entrou com 17! Tinha uma turma de amigos ótima, mas pouco chegada a estudos. A maioria pensava em cursar Senai e ser operária. Eu mesmo cheguei a fazer o curso de aprendizagem industrial, de desenho mecânico, mas abandonei quase no final, porque não tinha como comprar o caro material. Eu queria fazer faculdade - e, claro, fiz. No 1º colegial, quando completei 18 anos, me encantei com as aulas de Química e pensei em seguir essa profissão. No ano seguinte a matéria complicou e já fiquei motivado a ser desenhista de plantas, por causa das aulas de Edificações. O problema é que essa matéria deixou de existir no ano seguinte porque o governo mudou o plano educacional e tirou a ênfase na profissionalização para manter o foco anterior na formação intelectual. E o material caríssimo todo que meu pai teve de comprar a muito custo? O mesmo material que me fez desistir do Senai, ironia do destino (pelo jeito, não era para eu ser desenhista mesmo, apesar de adorar rabiscar umas coisas...) No último ano já não sabia mais o que gostaria de ser, mas me apaixonei pela professora de PIP (Programas de Informação Profissional), uma loira que ia à escola de moto com roupas justas de couro preto que me deixava louco, eu com todos meus hormônios dos 20 anos... Em conversas vocacionais com ela, chegamos à conclusão que meu condão era para a escrita, pois ia bem em Português e Redação e adorava ler e escrever. E também já estava metido com a observação da realidade por um prisma um pouco mais político, devido às novas atividades de que comecei a participar em 1980 e que foram uma reviravolta em minha vida e no meu modo de pensar. Pois então as opções principais seriam Letras ou Jornalismo. Havia ainda Arte Dramática, pois na época fazia teatro amador. E acabei fazendo isso mesmo,  me inscrevi na Metodista de São Bernardo para Comunicação e na Fatea, de Santo André, para Educação Artística, que nem cheguei a terminar as provas porque o resultado da Metô saiu antes. Nem tentei USP porque estava afastado dos estudos havia dois anos por conta das reprovações em Matemática Aplicada (detesto matrizes até hoje). Bem, para quê estou dizendo (escrevendo) tudo isso? Porque ontem, 8 de abril, minha filha completou 18 anos, uma data importante e marcante para qualquer pessoa. Ela chega na maioridade em um contexto completamente diferente do meu. Morando em outro Estado, dividindo apartamento com uma prima, cursando uma universidade federal, em breve terá seu carrinho, mas estudando o mesmo que eu, o que eu jamais poderia imaginar que fosse acontecer, mas do que me orgulho muito, porque, apesar de tudo adoro minha profissão e acho que ela leva muito jeito para isso sim. A sensação, claro, é de que ela continua uma garotinha e morro de medo de vê-la solta nesse mundo, como já descrevi aqui. Mas a realidade é que ela está maior de idade e cada vez mais construindo sua própria vida, pavimentando seu próprio caminho nesse mundo. E precisa disso. E eu tenho mais é que ficar quieto e dar todo apoio de que ela precisar, pois assim ela vai longe, tenho certeza disso.
Ah, uma coisa engraçada: apesar de eu ter título de eleitor desde os 18 anos, só aos 21 fui usá-lo. Isabela participou de sua primeira eleição aos 16.