O Barquinho Cultural

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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Minha vinilteca: "Solo", de André Geraissati

Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.


O contexto da compra


Em meados dos anos 1980, eu resolvi estudar violão, porque adorava (e adoro) música e queria aprender a tirar um som decente do Di Giorgio Bel Som 36 que comprei do Tony, colega do banco em que trabalhávamos.


Passei a frequentar a Catedral dos Músicos e das Artes e ter aulas com Fernando Deghi, mas de violão clássico, o que significava começar do zero, treinar os dedos para os arpejos, ler partituras e um dia, quem sabe, poder tirar sem passar vergonha um "Blackbird" no pinho...


Bem, acabei desistindo, mas a paixão por música e pelo violão não diminuiu, e não perdia a oportunidade de assistir a algum concerto e shows de músicos populares e de comprar discos de violonistas de todas as matizes. Assim acabei conhecendo André Geraissati, paulistano nascido em 7 de setembro de 1951 e morto em 19 de novembro de 2025.


O álbum duplo "Solo" eu comprei em 8 de agosto de 1987, depois de assistir a algum show do músico, não me recordo onde, mas certamente em algum teatro do Grande ABC, onde morei até o ano 2000. Ou vi o show depois da compra do disco, já não consigo me lembrar.



O que me surpreendeu na obra é a sonoridade singular, fruto, além da qualidade dos ótimos violões Martin, das afinações nada ortodoxas que André elaborava, na busca de tirar o instrumento do lugar comum.


Apesar do encarte mostrando as afinações e tons de cada música, evidentemente jamais consegui reproduzir de longe aquele som. Nem que fosse com a trivial afinação EADGBE (Mi, Lá, Ré, Sol, Si Mi).



Sobre o músico



André começou a carreira no Grupo D'Alma, trio de violonistas do qual fez parte de 1979 a 1985, junto de Ulisses Rocha, Ruy Saleme, Mozart Mello e Cândido Penteado (em diferentes formações).


Paralelamente às atividades com o trio, André, entre 1982 e 1985, apresentou-se com o multiinstrumentista fluminense Egberto Gismonti, com quem dividiu os palcos nas turnês "Fantasia" e "Cidade Coração".


A partir de 1985, seguiu carreira solo, tendo, contudo, lançado seu primeiro LP individual, "Entre Duas Palavras", em 1982. O segundo, "Insight",  de 1985, foi o primeiro disco gravado no Brasil em sistema Super Áudio. Em 1987 sai este álbum duplo "Solo".  Em 1988, lança "DADGAD" e em 1989, "7989", títulos que se referem a afinações e cifras harmônicas.


Esses álbuns foram lançados no Brasil e no mundo pela Warner Records, e reeditados em CD em 2000 pelo próprio André por intermédio da Tom Brasil Produções Musicais.


Em 1988, participa da “Hot Night" do Festival de Jazz de Montreux e em 1990 grava o CD “Brazilian Image” ao lado do flautista Paul Horn, álbum que concorreu ao Grammy na categoria Jazz.


De 1993 a 1998, André dedicou-se a uma série de concertos e gravações reunindo todos os artistas envolvidos com música instrumental brasileira, cercando-os da melhor tecnologia possível: o projeto Brasil Musical.


Em 2000, lança o CD “Next”, com violão, dois teclados e uma moringa de barro, usada como percussão; em 2002, sai “Canto das Águas”, o primeiro Super Áudio CD da América Latina, pelo selo Cavi Records.


Em 2007 lançou o DVD "Zimbo Trio/Egberto Gismonti/Hermeto Paschoal" e, em 2008, o DVD "André Geraissati/Violão Solo". No dois anos seguintes, fez a Euro-Arab Tour, percorrendo com seu violão dezoito países da Europa, Oriente Médio e Egito.


Em 2017 fez, em São Paulo,  três shows "Revival" do Grupo D'Alma, tocando todas as músicas de três discos com os violonistas Ulisses Rocha e Nelson Faria.


Foi diretor musical do festival de música instrumental Jazz Meeting desde a primeira edição, que teve a décima edição em abril de 2022.


Detalhes técnicos



"Solo", o primeiro álbum duplo de música instrumental brasileira, foi gravado em fevereiro de 1987 no estúdio Midi, em São Paulo, fabricado e distribuído pela BMG Ariola Discos. Lançado pela WEA, o disco foi produzido por André Geraissati, com direção artística de Liminha (Arnolpho Lima Filho).


Gravado pelo sistema PCM Digital, teve como técnico Afonso Villano Netto e corte de José Oswaldo Martins. A capa traz foto de um acrílico sobre tela de Alexandre Dacosta, com fotos de Paulo Vasconcellos e coordenação gráfica de Silvia Panella.


A capa interna traz texto de Zuza Homem de Mello, que, em determinado trecho, diz: "Depois de meses de estudo [...] ele conseguiu encontrar uma série de afinações originais, cada qual adequada a um tema seu, com as quais amplia notavelmente as possibilidades de timbres e extensões de seu violão".


André Geraissati é autor de todas as faixas, nas quais se acompanha ao violão folk Martin, com cordas de bronze do mesmo fabricante. As faixas marcadas com * têm títulos de Ana Cláudia Vasconcellos Queiroz, então sua esposa.


"Solo: A História do Primeiro Álbum Duplo de Violão no Brasil", um e-book do fotógrafo Marco André Briones, publicado em 14 de agosto de 2023, traz detalhes da criação do álbum, com depoimentos do próprio André. O trabalho também tem um ensaio fotográfico, com imagens de André e de seu violão.


As faixas


Disco 1

Lado A

1) Lobo

2) Flores De Fumaça *

3) Fogo Eterno *

4) Outono I


Lado B

1) Nana Naná (dedicada a Naná Vasconcellos)

2) Ausência * (dedicada a Marco Antônio Araújo)

3) Nogueira (dedicada a Paulinho Nogueira)

4) Lívia *


Disco 2

Lado A

1) África

2) Três Marias

3) Lenha *

4) Américas *


Lado B

1) Grãos De Areia *

2) Lâmina *

3) Pulsar *

4) Luz De Seda *

5) Outono II

6) Embrujo


Ouça a íntegra do álbum





quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Minha vinilteca: O Banquete dos Mendigos

 

MINHA VINILTECA


Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.

Em homenagem a Jards Macalé

Como o disco chegou a mim

O álbum duplo  "O Banquete dos Mendigos" apareceu no apartamento onde eu morava com minha então companheira Joana em São Bernardo do Campo (SP), creio que por volta de 1991. Não sei quem o esqueceu lá, já estava na estante antes de me casar com ela. Quer dizer, imagino quem o deixou lá, mas não digo, sob risco de a pessoa querer de volta (risos).

À época não tinha muitas informações sobre o disco, além daquelas disponíveis na capa, contracapa e encarte. O repertório e os intérpretes, de primeira grandeza, me chamaram a atenção de imediato, assim como a ilustração da capa, uma reprodução da "Última Ceia" de  Leonardo da Vinci (1452-1519). E também a tarja ao alto do canto esquerdo: "LIBERADO".

Eu me lembro de sentir uma certa angústia ao ouvi-lo inteiro na primeira vez. É um disco gravado ao vivo, com meus artistas preferidos de sempre, com plateia aplaudindo, gritando, mas não me pareceu clima de festa: era como uma impossibilidade de se irradiar alegria, dado o período de trevas em que foi gravado. E a voz forte do poeta e futuro imortal da ABL Ivan Junqueira lendo artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos acrescentava tensão ao clima.

O contexto de produção


Contava Jards Macalé (1943-2025) que, em 1973, ele estava duro e puto. Comendo da farinha do desprezo. Após dirigir em Londres o álbum "Transa", de Caetano Veloso,  no ano anterior, e não receber os devidos créditos, e de seu LP homônimo de 1972 ser um fracasso de vendas, resolveu promover um espetáculo beneficente - em benefício próprio, bem entendido -, seguindo uma onda da época de se realizar shows para ajudar os artistas que enfrentavam a barra pesada da ditadura.

A ideia foi bem recebida e obteve adesões de nomes de peso como Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Edu Lobo, Gal Costa e de debutantes como Raul Seixas e Luiz Melodia. Agora faltava encontrar um local para as apresentações. Foi quando o então diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), Cosme Alves Neto, lhe contou que estava sendo organizada uma mostra em homenagem aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e sugeriu que o espetáculo fizesse parte do evento. Jards topou na hora: farinha do desejo!

Assim, em 10 de dezembro (mesma data em que, em 1948, foi assinada a Declaração) de 1973, os músicos e intérpretes reuniram-se no MAM para um espetáculo cuja parte da divulgação ficou a cargo de meninos de favelas do Morro do Pinto e da Comunidade São Lourenço, que distribuíram pela cidade panfletos convidando para o evento. Mas, claro, se falar de direitos humanos em plena ditadura, governo Médici, não passaria batido.

Diz-se que a plateia, de cerca de 4 mil pessoas, estava coalhada de agentes da polícia à paisana (como se possível fosse algum disfarce) e os censores estavam na primeira fila do auditório. Soldados do Exército cercavam o prédio do museu. Não houve, contudo, repressão física, mas, como Chico Buarque fez questão de frisar, nem tudo era permitido. Em sua apresentação, Chico falou que seu repertório estava desfalcado e algumas canções foram proibidas de se executar, como "Vai Trabalhar, Vagabundo" (tema de filme homônimo de Hugo Carvana). No lugar dela, ele cantou trechos de "Jorge Maravilha", de Julinho de Adelaide, pseudônimo que usou à época para driblar a censura.

Detalhes técnicos


O show foi gravado de maneira sorrateira, driblando os olhares dos agentes da repressão, que chegaram a confiscar fitas de gravação, mas que, espertamente, foram enviadas a local seguro antes e os meganhas acabaram levando foram fitas virgens. Foi o primeiro desafio coletivo de artistas brasileiros à ditadura depois do Ato Institucional n° 5 (AI-5), no final do governo do general Médici (fonte: Memorial da Democracia).

A direção geral do espetáculo foi de Jards Macalé, com Ana Maria Miranda como assistente; coordenação geral de Xico Chaves e Lula, com assistência de Flor Maria e Beto; Mauricio Hughes e Ray como técnicos de som e Etiny de contrarregra.

A gravadora RCA produziu e lançou o LP em 1974, mas a censura o proibiu e recolheu os exemplares das lojas. O álbum só seria liberado em 1979, com capa diferente (o original era uma foto da plateia, e não a reprodução da obra de Da Vinci). O encarte de 12 páginas traz as fotos e textos da primeira versão recolhida.

O disco teve coordenação artística e direção de estúdio de Jards Macalé; mixagem de Paulo Frazão e Luis Carlos; fotos de Alexandre Koester, Cleber Cruz e Ivan Klingen e direção de arte por Ney Tavora. O texto do encarte menciona e agradece o espanhol Antonio Muiño Loureda, diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), um dos idealizadores da mostra; Ivan Junqueira, assessor de Imprensa do Centro de Informações das Nações Unidas no Brasil, que fez a leitura de artigos da Declaração; Heloisa Lustosa, diretora do MAM-RJ; o já citado Cosme Alves Neto; e Newton Anet, advogado e assessor jurídico.

O texto do encarte afirma que os artistas, gravadora e equipe abriram mão de seus direitos artísticos e fonográficos  "em função de outros Direitos que se tornaram urgentes: o Direito à Vida, à Sobrevivência". Diz ainda que metade dos ganhos com as vendas seria detinada ao Centro das Nações Unidas no Brasil para ser entregue ao Special Sahelian Office, escritório especial da Divisão dos Direitos Humanos, em benefício de populações da África Central assoladas pela seca, como o oeste da Mauritânia e leste da Etiópia.

O disco é dedicado ao poeta piauiense Torquato Neto, morto um ano antes.

Os músicos e as faixas dos LPs


Não há informações disponíveis sobre os músicos que acompanharam os intérpretes das faixas do álbum, supondo-se que alguns se acompanharam ao violão ou piano. Mas alguns chegam a mencionar seus acompanhantes. Edu Lobo e Milton Nascimento mencionam Danilo Caymmi na flauta; Bituca também apresenta Paulo, Claudio, Maurício e Toninho Horta (guitarra). O MPB4 sola e acompanha Chico, mas sem Magro.

O Grupo Soma, que toca neste LP uma faixa chamada PF (prato feito? Polícia federal?) era formado pelo baixista norte-americano Bruce Henry, Tomás Improta (teclados), Áureo de Souza (bateria) e o inglês Ritchie "Menina Veneno" (flauta). No show, o grupo tocou outras duas músicas: "Albuquerque Woman" e " Um Dia".



O LP duplo de 1979 contém 23 faixas, intercaladas pela leitura de 17 dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em junho de 2015, o selo Discobertas lançou uma caixa com 3 CDs (foto à esq.) contendo o show na íntegra - disponível no Spotfy (abaixo) -, com 43 faixas e a leitura integral do texto da Declaração, mas em faixa única ao final das apresentações.

A versão de 1974/1979 nunca foi editada em CD.



Disco 1

Lado A

1) Introdução
Art. 1º
2) "No Pagode do Vavá" (Paulinho da Viola) - Com Paulinho da Viola (voz e violão)
"Roendo As Unhas" ( Paulinho da Viola ) - Com Paulinho da Viola (voz e violão)
3) "Percussão" (Pedro dos Santos) - Com Pedro dos Santos
Art. 2 e 3
4) Art. 5
5) "Samba dos Animais" (Jorge Mautner) - Com Jorge Mautner (voz) e Nelson Jacobina (violão)
6) Art. 6 e 8
7) "Pra Dizer Adeus" (Edu Lobo/Torquato Neto) - Com Edu Lobo (voz e violão) e Danilo Caymmi (flauta)
Art. 9
"Viola Fora de Moda" (Edu Lobo/Capinam) - Com Edu Lobo (voz e violão) e Danilo Caymmi (flauta)

Lado B

1) "Palavras" (Luiz Gonzaga Jr.) - Com Luiz Gonzaga Jr. (voz e violão)
Art. 11 e 12
2) "Eu E A Brisa" (Johnny Alf) - Com Johnny Alf (voz e piano)
Art. 13 e 14
"Ilusão À Toa" (Johnny Alf) - Com Johnny Alf (voz e piano)
3) "Cachorro Urubu" (Raul Seixas/Paulo Coelho) - Com Raul Seixas
Art. 18
4) "P. F." (Bruce/Shields) - Com Grupo Soma
Art. 19
5) "Nanã das Águas" (João Donato/Geraldo Carneiro) - Com Edison Machado e Grupo
Art. 20 e 21

Disco 2

Lado A

1) "Pesadelo" (Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro) - Com MPB4
"Quando O Carnaval Chegar" (Chico Buarque) - Com Chico Buarque e MPB4
"Bom Conselho" (Chico Buarque) - Com Chico Buarque e MPB4
"Jorge Maravilha" (Julinho da Adelaide) -  Com Chico Buarque e MPB4
2) "Abundantemente Morte" (Luiz Melodia) - Com Luiz Melodia
Art. 23 (a)
3) "Cais" (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos) - Com Milton Nascimento (voz e violão)
Art. 23 (b)
"A Felicidade" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) - Com Milton Nascimento (voz e violão)

Lado B

1) "Anjo Exterminado" (Jards Macalé/Waly Salomão) - Com Jards Macalé (voz e violão)
"Rua Real Grandeza" (Jards Macalé/Waly Salomão) - Com Jards Macalé (voz e violão)
Art. 23 (c)
2) "Asa Branca" (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) - Com Dominguinhos (voz e acordeon)
"Lamento Sertanejo" (Dominguinhos/Gilberto Gil) - Com Dominguinhos (voz e violão)
3) Art. 30
4) "Oração de Mãe Menininha" (Dorival Caymmi) - Com Gal Costa


Ouça a íntegra no Spotfy


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Morre aos 82 anos o artista Jards Macalé

Morreu nesta segunda-feira (17/11/25), aos 82 anos, o ator, músico e compositor Jards Macalé. Ele estava internado em um hospital particular na Barra da Tijuca, zona sudoeste do Rio de Janeiro, onde tratava um enfisema pulmonar. Ele sofreu uma parada cardíaca, após passar por cirurgia.


A morte foi anunciada nas redes sociais do artista. "Jards Macalé nos deixou hoje. Chegou a acordar de uma cirurgia cantando 'Meu Nome é Gal', com toda a energia e bom humor que sempre teve", diz a publicação.


Biografia

Jards Anet da Silva, nasceu no bairro da Tijuca, zona norte do Rio, em 3 de março de 1943, nas proximidades do morro da Formiga. Iniciou sua trajetória cultural, na década de 1960.

Foi cantor, músico, compositor e ator. Cresceu rodeado de música: no morro, os batuques do samba, na casa ao lado de onde morava, os cantores Vicente Celestino e Gilda de Abreu.

Na residência dos pais, escutava os foxes, as valsas e as modinhas, tocadas ao piano pela mãe, Lígia, que também cantava e no acordeom, pelo pai.

O coro familiar tinha o irmão mais novo Roberto e o próprio Jards. No áureos tempos do rádio, ouvia a Rádio Nacional e os cantores de sucesso, como Silvio Caldas, Francisco Alves ('O Rei da Voz'), Cauby Peixoto, Orlando Silva, Marlene e Emilinha, que se apresentavam aos sábados no Programa César de Alencar.

Ainda jovem, se mudou com a família para o bairro de Ipanema, onde ganhou o apelido de Macalé, comparado ao pior jogador de futebol do Botafogo, que tinha esse apelido.

Na adolescência, formou seu primeiro grupo musical, o duo Dois no Balanço. Mais tarde veio o Conjunto Fantasia de Garoto, que tocava jazz, serenata e samba-canção.

Ele estudou piano e orquestração com o maestro Guerra Peixe, violoncelo com  Peter Daueslsberg, guitarra com Turíbio Santos e Jodacil Damasceno e análise musical com Esther Scliar.

Sua carreira profissional começou em 1965 como guitarrista do Grupo Opinião. Foi diretor musical das primeiras apresentações de Maria Bethânia. Teve composições gravadas por Elizete Cardoso e Nara Leão, entre outros.

Com Gal Costa, Paulinho da Viola e seu parceiro de composição José Carlos Capinam, criou a Agência Tropicarte, para gerenciar seus shows.

Participou como ator e compositor da trilha sonora dos filmes "Amuleto de Ogum" e "Tenda dos Milagres", de Nelson Pereira dos Santos.

Também compôs para as trilhas sonoras de "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade; "Antonio das Mortes", de Glauber Rocha; "A Rainha Diaba", de Antonio Carlos Fontoura, e "Se Segura, Malandro!", de Hugo Carvana.

Macalé é autor de músicas como "Vapor Barato", "Anjo Exterminado", "Mal Secreto", "Movimento dos Barcos", "Rua Real Grandeza", "Hotel das Estrelas" e "Poema da Rosa".

Entre os intérpretes de suas canções estão Gal Costa, Maria Bethânia, Clara Nunes, Camisa de Vênus e O Rappa, entre outros.

Em 2019, seu álbum "Besta Fera" foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB e considerado um dos 25 melhores álbuns brasileiros do primeiro semestre de 2019 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

A APCA também escolheu seu álbum "Coração Bifurcado" como um dos 50 melhores álbuns brasileiros de 2023 e a colaboração "Mascarada: Zé Kéti com o Sérgio Krakopwski", como um dos 50 melhores álbuns de 2024.

(Texto da Agência Brasil, com reportagem de Douglas Corrêa e edição de Denise Griesinger.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Lô Borges...

MINHA VINILTECA

Nesta nova série, vou compartilhar minha pequena vinilteca. São apenas 123 títulos. Um nada diante de colecionadores possuidores de andares inteiros de discos. Mas é a MINHA coleção. Cada um desses vinis tem uma história, um afeto, um porquê. São 75 LPs de artistas brasileiros e 48 de fora do Brasil. Sobre cada um, vou contar coisas como quando e em que contexto os adquiri ou ganhei (se me lembrar e houver anotação), a ficha técnica (se não houver encarte, recorro à internet) e alguma curiosidade, de minhas memórias ou disponíveis em resenhas. Claro que a maioria dessas informações qualquer IA pode lhes dar em segundos (faço uso de alguma, sim, quando não tiver outro meio de pesquisa), mas a minha emoção de quando escolhi o disco na loja, o coloquei no prato e depositei a agulha isso nenhum robô pode reproduzir. E é isso que quero lhes oferecer. As postagens seguem ordem alfabética. Intercalo LPs nacionais e internacionais.


Esta postagem homenageia Lô Borges 

Salomão Borges Filho, o Lô Borges, parceiro de Clube da Esquina de Milton "Bituca" Nascimento, morreu neste domingo, 02/11/2025, Dia de Finados, aos 73 anos, por "falência múltipla de órgãos", segundo o boletim médico divulgado pelo Hospital Unimed de Belo Horizonte, onde estava internado desde 18 de outubro, com um quadro de intoxicação por medicamentos.

Nesta postagem da série "Minha Vinilteca", fujo da regra que eu mesmo determinei, de intercalar LPs nacionais e internacionais, em ordem alfabética, avançando algumas letras para prestar minha homenagem sentida e dolorida a esse artista mineiro de imensa qualidade e sensibilidade. Falo aqui dos primeiros álbuns do compositor que adquiri: "A Via Láctea" e "Clube da Esquina", este com Milton Nascimento.

Este Blog já cobriu um festival em Três Pontas (MG), onde nasceu Wagner Tiso e cresceu Bituca, evento este que reuniu ainda Lô e uma galera muito da pesada. Acesse aqui.

A VIA LÁCTEA

A surpresa 

"A Via Láctea" foi lançado em 1979, sete anos depois do famoso "disco do tênis", que fora colocado no mercado no mesmo ano do "Clube da Esquina". Eu o ganhei em 20/12/1985, creio que como presente de amigo secreto do banco em que eu trabalhava. Dentro da embalagem (descobri somente hoje, 40 anos depois!), há um cartão de boas festas, assinado por Eliete. Peço mil desculpas, Eliete, não me lembro de você. Mas agradeço imensamente o presente. No disco há carimbo da loja São Bento Discos, de São Paulo.

À época, eu era admirador de Bituca, de quem comprava todas as fitas K7 que encontrava. Chegar a Lô foi um percurso natural, uma vez que nos discos de Milton o garoto estava sempre presente. Como era praxe para mim, eu sempre indicava nos amigos secretos o que queria ganhar, para não haver erros. Então devo ter recomendado a Eliete que me desse um disco do Lô. Assim que o pus para rodar, já me apaixonei. É o único LP individual de Lô que tenho.

Ficha técnica

O LP foi lançado pela EMI Odeon Fonográfica, com direção de produção de Mariozinho Rocha, e produção executiva de Milton Nascimento. Os técnicos de gravação são Roberto Castro, Mayrton Bahia e Dacy Rodrigues; a mixagem é de Franklin Garrido e Nivaldo Duarte, com corte de Osmar Furtado. A concepção da capa é de Kélio Rodrigues e Márcio Borges, com fotos de José Roberto e Henrique Leiner, com coordenação gráfica de Tadeu Valério e Kélio Rodrigues. A ficha traz ainda agradecimentos a seu Nonato pelo cafezinho.

Os músicos

Acompanham Lô Borges (que canta e toca guitarra, violão, piano e viola de 12) os músicos Paulinho Carvalho (baixo, guitarra e violão), Telo Borges (violão, piano, piano elétrico), Fernando Oly (viola de 12 cordas), Hely Rodrigues (bateria), Robertinho Silva (bateria e percussão, Aleuda Chaves (percussão), Cláudio Venturini (guitarra), Wagner Tiso (orquestração, regência, ARP Omni, piano, sintetizador, órgão, acordeon), Toninho Horta (orquestração, regência, piano, guitarra, percussão), Luiz Alves (baixo acústico), Copinha (Nicolino Cópia), Celso Woltzenlogel, Jorginho (Jorge Ferreira da Silva) e Jaime (flautas), Flávio Venturini (piano e sintetizador), Vermelho (José Geraldo de Castro Moreira, órgão e sintetizador).

Ainda acompanham Giancarlo, Vidal, Alves, Daltro, Eduardo, Murilo, Faini, Aizik, Lana, Paschoal, Walter e Piersantino (violino spalla), Penteado, Stephany, Macedo, Linderburgo (violas), Marcio, Alceu, Watson e Ana (cellos).

A mana Solange Borges divide os vocais em duas faixas e Rick, Alexandre e Bituca reforçam as palmas na vinheta que fecha o lado A.

As faixas do LP

Lado A

1) "Sempre Viva" (Lô e Márcio Borges)

2) "Ela" (Lô e Márcio Borges)

3) "A Via Láctea" (Lô e Ronaldo Bastos)

4) "Clube da Esquina Nº 2" (Lô, Milton Nascimento e Márcio Borges) - com Solange

5) "A Olho Nu" (Lô e Márcio Borges)

Lado B

1) "Equatorial" (Lô, Beto Guedes e Márcio Borges)

2) "Vento de Maio" (Telo e Márcio Borges) - com Solange

3) "Chuva na Montanha" (Fernando Oly)

4) "Tudo Que Você Podia Ser" (Lô e Márcio Borges)

5) "Olha O Bicho Livre" (Paulinho Carvalho e Rodrigo Leste)

6) "Nau Sem Rumo" (Lô e Márcio Borges)


CLUBE DA ESQUINA

O contexto da compra

Na época da compra desse LP duplo (um luxo para poucos em 1972), eu já tinha adquirido um respeitável conjunto CCE com toca-discos, duplo K7 e sintonizador AM/FM e passei então a comprar discos de vinil, em vez dos cassetes que ouvia no toca-fitas do carro de meu pai. Não sei se este foi o primeiro LP que comprei, mas foi certamente o primeiro de Bituca. Um clássico, em todos os sentidos.

A compra foi feita em 20/11/1987, no Jumbo Eletro de Santo André, e tem até uma etiqueta com o preço dentro da capa: 59000 (eu não sei se eram 590,00 cruzados, ou 59.000 cruzados!). Lembro que ficava horas olhando aquela capa interna dupla cheia de fotos, tentando descobrir quem eram as personagens lá. Dá pra identificar de cara Dori e Dorival Caymmi, Bituca, Lô Borges, Paulinho da Viola, Beto Guedes, Norma Bengel, Toninho Horta e Miles Davis. Os demais, só pesquisando.

Ficha técnica

O LP foi lançado em 1972 pela EMI Odeon. A edição que tenho é de 1985, e não traz encarte nem qualquer outra informação, além daquelas disponíveis nos selos (nome das músicas e compositores). Mas uma edição especial em CD de outubro de 2007, da Trama, produzida por João Marcelo Bôscoli, que tem também o "Clube da Esquina 2", de 1978, oferece as informações.

O disco foi gravado nos Estúdios EMI-Odeon do Rio de Janeiro em 1972. A produção é de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. A direção de produção é de Milton Miranda, a direção musical, de Lindolfo Gaya, com supervisão de Bituca. Os orquestradores são Wagner Tiso e Eumir Deodato, com regência de Paulo Moura. O diretor técnico é Z. J. Merky. Os técnicos de gravação são Nivaldo Duarte, Jorge Teixeira e Zilmar Rodrigues. O técnico de laboratório é Reny |R. Lippi. A concepção da capa é de Cafi, com colaboração de Ronaldo Bastos. As fotos da capa, da contracapa e da nuvem são de Cafi e as internas de Cafi e Juvenal Pereira.

Os músicos

Como se sabe, o "Clube da Esquina" faz referência à turma que se reunia na confluência das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Belo Horizonte (MG), para tocar e trocar ideias. Aí, em meados de 1971, Bituca levou a galera para Niterói para compor e gravar o celebrado álbum homônimo duplo meses depois, à revelia dos protestos da gravadora, que achava um LP duplo absurdo. Mas Bituca bateu o pé, ameaçou trocar de firma e o disco saiu como ele quis. No estúdio, cada um tocava o que havia à disposição, e a ficha disponível dos músicos participantes é esta, com os instrumentos na ordem das faixas:

Milton Nascimento (voz, piano, violão) Lô Borges (voz, violão, guitarra, percussão, surdo, piano, bateria), Tavito (guitarra 12 cordas, guitarra 6 cordas, violão, percussão), Wagner Tiso (órgão, piano, piano elétrico), Beto Guedes (voz, baixo, guitarra 12 cordas, percussão, piano, carrilhão), Toninho Horta (guitarra, percussão, baixo, violão, voz), Robertinho Silva (bateria e percussão), Luiz Alves (caxixi, percussão, baixo com arco), Rubinho (tumbadora, bateria), Nelson Angelo (guitarra, percussão, surdo, piano), Paulinho Braga (percussão), Luiz Gonzaga Jr. (coro).   

As faixas dos LPs

Disco 1

Lado A

1) "Tudo Que Você Podia Ser" (Lô e Márcio Borges) - Voz: Bituca

2) "Cais" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) - Voz: Bituca

3) "O Trem Azul" (Lô Borges e Ronaldo Bastos) - Voz: Lô Borges

4) "Saídas e Bandeiras Nº 1" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Voz: Bituca e Beto Guedes

5) "Nuvem Cigana" (Lô Borges e Ronaldo Bastos) - Voz: Bituca

6) "Cravo e Canela" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) - Vozes: Bituca e Lô

Lado B

1) "Dos Cruces" (Carmelo Larrea Carricarte) - Voz: Bituca

2) "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo" (Lô e Márcio Borges) - Vozes: Lô e Beto Guedes

3) "San Vicente" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Vozes: Bituca e Tavito

4) "Estrelas" (Lô e Márcio Borges) - Voz: Lô

5) "Clube da Esquina Nº 2" (Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges) - Instrumental

Disco 2

Lado A

1) "Paisagem na Janela" (Lô Borges e Fernando Brandt) - Voz: Lô Borges

2) "Me Deixa em Paz" (Monsueto e Ayrton Amorim) - Voz: Alaíde Costa e Bituca

3) "Os Povos" (Milton Nascimento e Márcio Borges) - Voz: Bituca

4) "Saídas e Bandeiras Nº 2" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Vozes: Bituca e Beto Guedes

5) "Um Gosto de Sol" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) - Voz: Bituca

Lado B

1) "Pelo Amor de Deus" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Voz: Bituca

2) "Lilia" (Milton Nascimento) - Instrumental

3) "Trem de Doido" (Lô e Márcio Borges) - Voz: Lô Borges

4) "Nada Será Como Antes" (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) - Vozes: Bituca e Beto Guedes

5) "Ao Que Vai Nascer" (Milton Nascimento e Fernando Brandt) - Voz: Bituca


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