O Barquinho Cultural

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domingo, 19 de maio de 2013

Ainda é cedo para termos um filme definitivo sobre Russo


Thiago Mendonça e Laila Zaid (Reprodução)
Há algo de estranho no filme “Somos Tão Jovens”, de Antônio Carlos Fontoura, sobre a juventude de Renato Russo, antes de a Legião Urbana estourar no país. Apesar da advertência no início da projeção, de que a obra é baseada na vida do cantor e compositor, o que leva a concluir que houve alguma licença poética na construção do personagem, Renato aparece como uma pessoa frágil, atormentada, meio perdida sobre seu papel no mundo. Bem distante, portanto, da figura carismática, provocativa e com instinto de liderança que os depoimentos de seus amigos, dados aos jornais à época do lançamento, pintaram.

Não curti de imediato o Legião nem qualquer outra banda de rock que surgiu no início dos anos 80. Vivia uma fase bicho-grilo, pela qual Renato, de acordo com o filme, também passou antes de conhecer o punk rock, e não me liguei muito no rock brazuca que então despontava. Ouvia mais Beto Guedes, Lô Borges e Tarancón, entre outros. E achava esse som bem inferior ao dos pioneiros Raul e Mutantes dos 60/70.

Mas o clima da época, estudante de Jornalismo e nos estertores do regime militar, não permitia que ficasse imune a esse movimento. Não aderi, contudo, de cara à nova onda. Ainda estava a descobrir Chico, Caetano, Gil e Milton, e qualquer coisa abaixo de Beatles para mim era perda de tempo. Fui, mesmo, prestar atenção às bandas bem depois, só para confirmar que muitas delas ou se extinguiram por falta de assunto e de novidade, ou sofreram o desgaste próprio da aderência ao mainstream.

Voltando ao filme, o Renato vivido por Thiago Mendonça ( o Luciano apagado de “Dois Filhos de Francisco”) impressiona pela caracterização, e seu esforço em tocar e cantar ele próprio as músicas deve ser louvado. Não chega aos pés do Cazuza de Daniel Oliveira ou o Jim Morrison de Val Kilmer, mas confere credibilidade. Falar nisso, o Marcos Breda, que vive o pai de Renato, está caricato e estereotipado, bem longe da sua brilhante atuação como Marcelo Rubens Paiva em “Feliz Ano Velho”.

A história tenta mostrar um painel do surgimento das bandas brasilienses, como a pré-Legião Aborto Elétrico, Plebe Rude e Capital Inicial, assunto abordado no livro “O diário da turma: a história do rock de Brasília”, de Paulo Marchetti (2001), porém é mais centrada no próprio Aborto, e ficamos sem saber se Renato e companhia é que deram o start para o surgimento das outras ou foi um movimento espontâneo e simultâneo.

Também não ficamos sabendo se, afinal, Dinho Ouro Preto (depois vocalista do Capital) fez parte desse grupo ou não (ele sempre disse que participou, sim). Em um momento, quando Renato e turma dão entrevista ao jornalista Hermano Vianna – irmão de Herbert, do Paralamas - (ver em http://olicruz.wordpress.com/2013/05/04/hermano-viana-escreve-sobre-o-rock-de-brasilia/), ele explica a miríade de conexões que as bandas praticavam, com todos participando de todas, como uma grande comunidade musical. Coisas do rock, também. Mas fica vago.

Enfim, o Renato do filme é um cara antenado, que devorou clássicos da literatura e da música em seu exílio involuntário por causa de uma doença que o paralisou por um tempo, inconformado com as artimanhas do poder central e com a incapacidade de fazer algo revolucionário (em uma cena marcante, ele cobra dos pais alguma atitude, ao qual o pai pergunta o que ele, um mero economista do Banco do Brasil pode fazer?). 

Parece que o músico encontrou a resposta no punk rock que os amigos filhos de embaixadores lhe apresentaram ao trazer discos de Londres, e partiu para a ação via imagem e atitudes agressivas. Nada mais adolescente.

É incrível supor que uma pessoa com essa reflexão da realidade se tenha transformado em porta-voz da juventude de seu e do futuro tempo (a plateia do cinema em que assisti ao filme estava repleta de adolescentes que aparentemente pouco se importaram de consumir pipoca e refrigerante a preço de refeição completa no shopping). Há realmente algo de estranho no Renato pintado no filme. Creio que o que o diretor tentou foi traduzir em imagens algumas das letras fundamentais do compositor – o que Fontoura até ilustra de maneira pouco criativa, ao colocar versos de algumas canções em frases ditas por Renato aqui e ali.

O filme, afinal, não me emocionou muito, deixou com vontade de quero mais, e a única cena em que senti algum arrepio foi quando ele cantou “Ainda é Cedo”, construída exatamente para surtir esse efeito: a homenagem à amiga querida com quem havia se desentendido e o desenrolar de certa forma evidente. E fica também a dúvida: a tal menina que lhe ensinou quase tudo que ele sabe foi realmente uma mulher ou o famoso pó branco, que alguns insinuam ter sido a fonte inspiradora? O diretor não quis correr riscos, pelo visto. Somado ao perfil insípido que traçou do grande Renato, parece que não quis mesmo.

A colcha de retalhos de Soderbergh

Jude Law e Catherine Zeta-Jones (Reprodução)
"Terapia de risco" (Side Effects), de Steven Soderbergh, aborda males psiquiátricos, como a depressão, mas apenas como pano de fundo para uma trama policial, e passa por leve pela questão da política da medicação às vezes de maneira leviana e o poder da indústria farmacêutica. Catherine Zeta-Jones, bipolar assumida, vive uma psiquiatra envolvida em um golpe sórdido. O filme é bom, se bem que se perde um pouco no desenvolvimento dos assuntos, mudando o enfoque e deixando no ar sobre o quê, afinal, o diretor quer falar. É assunto que daria para explorar bastante. Mas a opção do diretor foi outra, e me frustrou um tanto. O filme aborda ainda a prática de fraude no mercado financeiro, mas também de maneira superficial.

Quanto à Catherine, li no começo do ano entrevista com ela dizendo que aceitou fazer o filme por ser um convite - quase uma intimação - de Sordenbergh, que a dirigiu em "Traffic" e "Doze Homens e Outro Segredo". Ela anda reclusa para cuidar dos dois filhos que teve com Michael Douglas. Mas filmou ainda "RED 2 - Aposentados e Ainda Mais Perigosos", de Dean Parisot (inédito), com Bruce Willis, com quem atuou em "O Dobro ou Nada", uma bobagem de Stephen Frears. Depois do Oscar por "Chicago", de Rob Marshall, parece que tem errado a mão em suas escolhas. Mas é sempre um prazer vê-la na tela.

Irreparável a atuação de Rooney Mara, a protagonista, psicóloga de formação - ela que teve indicação ao Oscar ano passado pela atuação em "Os Homens Que Não Amavam as Mulheres" e foi a namoradinha do criador do Facebook antes de ele "enricar", em "A Rede Social". Consegue enganar bem o espectador, em uma trama bem à la Hitchock. Jude Law também convence como o psiquiatra endividado que se mete em uma confusão da qual sai um pouco herói, desenvolvimento também explorado de maneira vaga e inverossímil por Soderbergh. Confesso que saí do cinema sem entender muito bem o desfecho.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Nosso Pupu maior

                                                                                                                                                                 "O meu pupu querido, na noite de luar, apareceu na Neomater, junto com os passarinhos”

Há 21 anos, por volta das cinco e meia da manhã, vinha ao mundo nossa filha Isabela. Veio um pouquinho antes do combinado, o que já prenunciava seu caráter de não deixar para amanhã o que pode ser feito ontem. Pegou-nos, eu e à mãe, de surpresa. Correndo para a maternidade Neo Mater, de São Bernardo, nem combustível havia no tanque do velho Monza preto. Até hoje rimos nos lembrando da cara do frentista abastecendo o carro e vendo a mãe agonizando no banco de trás. Coisas do Boga, diriam muitas vezes até hoje.

No hospital, o doutor Gilberto Palma chamado às pressas, nem deu para preparar a filmagem  planejada. E a malinha! Não estava pronta também. Corro eu à casa pegar as primeiras roupinhas. Cato a esmo o que me vem primeiro na gaveta. E o resultado é esse pijaminha o dobro de seu tamanho, mas era o que havia para a foto do berçário. “Esse Boga, viu!”, é o que dizem... Até hoje.

Isabela nasce. A moça vem até o vidro nos mostrar – a mim e à tia Dega, sempre presente. Ao ver pela primeira vez aquele rostinho, aqueles olhinhos, aquela boquinha, foi amor à primeira vista. Senti naquele momento que minha vida mudava para sempre. Era pai. Voltemos ao tempo. A notícia da gravidez de Joana me foi dada em um evento da Prefeitura de Santo André do qual participávamos. Fiquei besta, feliz demais. E foram nove meses de curtição da gestação, montagem do enxoval, do quarto, o primeiro presentinho, da saudosa Bete, mamãe e filhinho hipopótamo amarelos. Meu primeiro presente foi um perfuminho, creio que Giovanna Baby.

O primeiro dia em casa. Cuidados extremos, os dois sem muita experiência, a ajuda preciosa das tias, o primeiro banho, dado pela mais experiente prima Nanci. Eu ainda tinha algum traquejo, obtido pela presença da primeira sobrinha, Shirley, que morou em casa de meus pais até os 4 anos. Ensaio de paternidade. Mas sem problemas. O amor nos instrui, e acho que fizemos tudo direitinho. Vide a linda e saudável moça que temos hoje, se virando sozinha em outro país, longe dos olhos, mas sempre tão perto dos nossos corações (é um clichê, sei, mas muito adequado).

Nesta data, em que nossa filha chega à maioridade, quantas cenas vêm à mente... Quantas imagens, sons, cheiros, cores... Como a vida foi carinhosa conosco ao nos trazer esse ser tão lindo, tão meigo, tão carinhoso. A gente fica assim meio estupefata ao notar que o tempo passa tão rápido, mas acredito que todos os momentos foram apreciados com intensidade, cada sorriso, choro, conquista, frustração, tudo foi vivido em plenitude, mesmo que nem sempre totalmente presente.

Poucas horas depois de Isa vir à luz, chega sua prima-irmã-melhor amiga-etc Mariana. No mesmo dia do nascimento de minha mãe Hirde, que não ficou aqui para conhecer a filha de seu único menino sobrevivente (o primeiro filho de meus pais, do sexo masculino, não resistiu e teve poucas horas de vida). Tampouco a vó Alice teve oportunidade de conhecer a filha de sua penúltima cria.

Os avôs Almindo e Francisco, contudo, puderam dar-lhe carinho e sentir o gosto de renovação da vida que um recém-nascido sempre traz. Mas, para conhecê-los, Isa teve que viajar. Primeiro à Praia Grande, depois a Cáceres (MT). E nossa filha nunca mais parou de viajar. Espírito itinerante, senso de independência e uma enorme curiosidade pela vida e vontade de tudo conhecer. É uma viajante nata, mesmo que a saudade muitas vezes a persiga, o que é também um estímulo para voltar aos amados.

Uma menina vocacionada para as artes. Como qualquer criança, praticou dança, pintou, cantou, mas foi na arte dramática que se encontrou, e nela atuou até resolver, surpreendentemente, seguir a profissão do pai. Sem esquecer, contudo, do viés herdado da mãe. Enfim, um resumo de nós dois, aperfeiçoado pelo vigor da juventude, da vontade de realizar, de conhecer, de fazer.  Porque tem metas, objetivos, coragem e atitude. Eu a mãe lhe demos a vida, e ela faz dela o melhor que pode.

Nesta data, minha filha, eu e sua mãe deixamos testemunhado, de público, todo o grande amor que temos por você, a saudade que sentimos, você tão longe, mas algo importante para que prossiga enfrentando a vida sem temor e com o preparo necessário para brilhar, como temos certeza de que o fará. Siga seu destino com calma e tranquilidade, com a certeza de que você é muito amada por todos nós e que, quaisquer que sejam as decisões que for tomar na vida, terá sempre nosso apoio e confiança.

Com amor,

Seus pais


Our Pupu major

"My dear Pupu, in moonlight night, in Neomater appeared, along with the little birds"

Twenty one years ago, around half past five, our daughter Isabela came to us. She arrived a little before agreed, which was a harbinger of her character: never leave for tomorrow what can be done yesterday. This took us, me and her mother, by surprise. We rushed to NeoMater, the maternity hospital in São Bernardo, running out of fuel in the old black Monza. Even nowadays, we laugh when we remember the face of the employee of the gas station, fueling the car while her mother “agonized” in the back seat. Boga’s stuff, as people say even nowadays.

In the hospital, Dr. Gilberto Palma was recruited hastily and it was not possible to run the planned shooting. And the little suitcase! This wasn’t ready either and I run home to pick up the first little clothes. I picked at random the things which first appeared in the drawer. And the result is these little pajamas, twice as big as you, but that was what we had for the nursery picture. Oh, Boga… this is what people say, up to now.

Isabela is born. The woman comes to the glass window to show us – to me and to her aunt Dega, always present. The first time I saw that little face, those little eyes, that little mouth... it was love at first sight. At that moment, I felt my life was changing forever. I was a father. Let’s come back in time. The news of Joana’s pregnancy was broken to me in an event of Santo André City Hall in which we were taking part. I was dizzy, really happy. Then, nine months tanning the gestation, preparing the outfit, the bedroom, the first gift - from the dear Bete, mom and son yellow hypo. My first gift was a little perfume, Giovanna Baby I guess.

First day at home. Extreme care, both naive, the precious help of the aunts, the first bath was given by Nancy, the most experienced cousin. I had some ability, developed with my niece, Shirley, who lived at my parent’s place until she was four. Paternity rehearsal. But, no problem. Love instructs us, and I think we’ve done everything properly. The proof is the healthy, pretty girl we have today, finding her way on her own in another country, out of sight, but always so close to our heart (I know this is a cliche, but very adequate).

Today, when our daughter reaches adulthood, so many scenes come to mind… So many images, sounds, smells, colors… Life was lovely to us, bringing us this being so beautiful, so sweet, so affectionate. We feel a bit thunderstruck when we notice the time passes so fast, but I believe all the moments were enjoyed intensely, each smile, cry, achievement, frustration, everything was lived fully, even if not always present.

Few hours after Isa coming, Mariana - her cousin-sister-best friend-etc. - arrives. In the same day my mother Hirde had been born, but she couldn’t stay to meet the daughter of her only boy who survived (the first son of my parents didn’t resist and lived only a few hours). Neither her grandma Alice had the opportunity to meet the daughter of her penultimate child.

The grandfathers Almindo and Francisco, however, could give her affection and feel the taste of life renovation a newborn always brings. But, to meet them, Isa had to travel. First to Praia Grande, afterwards to Cáceres (MT). After that, our daughter never stopped travelling. Itinerant spirit, sense of independence, a huge curiosity about life and a desire to know everything. She’s a native traveler. Sometimes the nostalgia pursues her; however, this is a stimulus to come back to her beloved.

A girl with a way with the arts. As any kid, she danced, painted, sang, but it was with acting that she identified, and acted up to deciding, unexpectedly, to follow her father’s footsteps. Without forgetting, however, the bias inherited from her mother. Ultimately, an abstract of both of us, perfected by the vigor of the youth, the willingness to perform, to know, to do. For she has aims, objectives, courage and attitude. Her mother and I gave her life, and she has made of this life the best she could.

On this date, my daughter, your mother and I testimony, publicly, the enormous love we feel for you, how much we miss you. You’re so far away, but it is important that you keep facing life fearlessly and preparing yourself to shine, as we are sure you’ll do. Follow your destiny calm and quietly, being sure that you’re truly loved by all of us and that no matter the decisions you have to take in life, you’ll always have our support and trust.

Love,

Your parents

quarta-feira, 27 de março de 2013

Limites são para serem superados


Gaby Andersen, Olimpíada de LA, 1984

Coincidência – ou não -, assisti recentemente a três filmes que abordam pessoas acometidas de males que lhes impedem de, por conta própria, se locomover, comer, se limpar, enfim, qualquer atividade que normalmente fazemos sozinhos. “Amor” (“Amour”, de Michael Haneke), “Intocáveis” (“Intouchables”, de Eric Toledano e Olivier Nakache) e “As Sessões” (“The Sessions”, de Ben Lewin). Em todos os três, as pessoas incapacitadas mantêm a dignidade, não querem ser vistas com pena nem tratadas como seres sem inteligência e discernimento.

Não estou defendendo a resignação, mas creio que enfrentar as adversidades da vida com coragem e determinação é uma boa dica para quem acha que é um coitado total e que o mundo todo conspira contra ele. Conheço pessoas que o tempo todo lamentam a má sorte, vivem às turras com tudo e todos, achando que as coisas ruins só acontecem com elas. Como menciona o palestrante Mauricio Louzada em seu livro “Pra Valer” (editora All Print, 2011, 3ª edição), “os problemas fazem parte da vida, mas ser vítima deles é uma questão de escolha”.

Impossível não se lembrar do físico britânico StephenHawking, portador, desde os 21 anos, de esclerose lateral amiotrófica, que lhe paralisa os movimentos do corpo, mas não as atividades cerebrais. É autor da frase: “Inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança”, o que encerra uma grande lição. Também podemos nos referir ao paralama Herbert Vianna, que há 12 anos ficou paraplégico e, após quase dois meses em coma, sobreviveu e sua recuperação foi tamanha que lhe permitiu voltar à atividade artística, apesar das limitações que adquiriu.

Mas há outros anônimos por aí que nos dão sempre uma lição de vida. Mostram que a força de vontade – a de viver, em primeiro lugar – supera os obstáculos que possam aparecer. E que, antes de se queixar, é bom avaliar se está dando o melhor de si. Não quero dar lição de moral, mas acho que uma atitude positiva diante da vida ajuda bastante, que o pão de hoje é uma dádiva e o de amanhã depende de nosso esforço e crença em nossa capacidade de obtê-lo.

A esses conhecidos que vivem rabugentos e se achando os mais injustiçados dos humanos, vivo dizendo que se lamentar não resolve os problemas, que o que conta é a maneira como os enfrentamos, sem perder o vigor. Mas uma hora cansa ver que minhas palavras de nada aliviam sua lástima. O que acontece é que mais dia menos dia acabarei me afastando deles, pois negativismo pega, e não quero ser um radar de energias ruins. Parece cruel, mas é assim.

sábado, 16 de março de 2013

A importância das atitudes

Com as amigas Cris, Eliana, Angélica e Lize (Century Flat Hotel)

Sempre disse que atitudes valem mais que palavras, estas porque se não acompanhadas daquelas pouco valor podem possuir. Mas ontem (15/03), ouvindo uma palestra sobre motivação, de Mauricio Louzada, entendi a verdade disso: de que adianta dizer aos seus queridos que os ama e não compartilhar com eles a vida, os momentos, não estar presente em episódios importantes da vida?

Coincidência – ou não -, nesses últimos dias tenho revisto amigos de muito tempo, que as circunstâncias da vida nos fizeram afastar-nos. Foi lindo, como já mencionei em posts anteriores. Dizer nas redes sociais ou por meio de um torpedo que estamos com saudade é bom, mas reencontrá-los é muito mais gostoso, faz a gente sentir que aquilo que foi construído durante anos de amizade continua dentro de nós.

O palestrante falou da importância de se reprogramar mentalmente para o sucesso, de questionar seus próprios pensamentos negativos para torná-los positivos, de estabelecer metas plausíveis e ir à luta, focado nesse objetivo. Mas o interessante é que, segundo suas palavras, sucesso não quer dizer, necessariamente, alcançar os bens materiais desejados, o status social cobiçado. Sucesso, na concepção do palestrante, é estar feliz, alcançar a felicidade.

Concordo com ele. E ser feliz, para mim, tem mais a ver com estar bem com as pessoas queridas, poder desfrutar de momentos com elas, de saber que não se está sozinho nesse mundo imenso e obscuro. Muitas celebridades, reconhecidas por multidões, talvez se sintam solitárias; filmes diversos tratam disso. Multimilionários  há que não têm tempo de ver os filhos crescerem, aprenderem as letras, descobrirem o mundo; enfim, não se trata da velha máxima de que dinheiro e fama não trazem a felicidade, mas de perceber que uns sem a outra não faz muito sentido.

Após a palestra fomos a um bar para prolongar o momento gostoso de estar junto. Quando a gente convivia mais frequentemente, o bar era um ponto de relax, quando podíamos deixar as discussões sobre o que fazer para mudar o mundo de lado e nos entregarmos a assuntos mais amenos, como o último disco do Chico, o filme que entrou em cartaz e tínhamos que ver, os amores frustrados que vivíamos, os planos para o futuro, as encrencas com os pais, enfim, os papos próprios de jovens na casa do 15 aos 20.

Mas este bar escolhido não permite essa interação. Uma banda tocando no volume máximo, depois, no intervalo, um som na mesma intensidade. Impossível conversar se não aos gritos, o que impede qualquer diálogo sensato. Bem, é um lugar para isso mesmo, ouvir música alta, tomar drinques, paquerar, beijar e... Sei lá. É diversão, e é importante nos divertirmos, claro. Mas o mais importante é que os contatos foram refeitos e não faltarão oportunidades de novos encontros, papos intensos e desfrutar da felicidade que muitas palavras não conseguem exprimir.

terça-feira, 12 de março de 2013

A propósito de papas e conclaves

Foto: Johannes Eisele/AFP


Nesses dias de reencontro com amigas que havia anos não tinha contato, uma reflexão me vem à cabeça, e tem a ver com essa eleição que hoje se iniciou para o próximo papa da Igreja Católica. Não professo essa religião, nem batizado e crismado sou; primeira comunhão a tive já aos 19 anos, e sem ter passado pelos procedimentos que me parecem necessários para ingerir o corpo e o sangue do Cristo. Porque minha família é de origem protestante, não esses neopentecostais de agora, que conseguiram até introduzir um membro cheio de preconceitos em uma comissão importante da Câmara dos Deputados. O fato é que, nessa igreja de meus pais, não se batiza recém-nascidos, e, quando atingi a idade de o ser, eles tinham saído da religião, não por vontade própria, mas por algo que eu nunca soube direito. Enfim: sou pagão. Vou para o inferno ao morrer, dizem.

Mas, no começo de 1980, fui atraído à paróquia de meu bairro para participar de um grupo de jovens que se reunia para discutir religião, ensaiar para o coral da missa e fazer algum trabalho pastoral junto às favelas da região. Confesso que o argumento que meu amigo usou para eu lá ir foi o de que havia muitas meninas bonitas participando. Eu, aos 19 anos, reco (para quem não sabe, o garoto que está prestando o serviço militar obrigatório), achei a ideia interessante e lá fui. Ele tocava violão e logo se tornou popular na comunidade (nome que dávamos ao grupo).

Para mim, foi uma virada total. Tinha, nesse tempo, algo de errado na mente, uma insatisfação com o rumo da vida, um passo em falso e cairia para um campo que nenhum pai sonhou em ver o filho seguir. Essa comunidade foi um tipo de redenção: encontrei lá pessoas que comungavam das mesmas expectativas, sonhos, frustrações, desejos de dar algum sentido à existência. E entender esse Deus que, na religião de meus pais e avós, era tão opressor, tão regulador, regrado, controlador...

Em pouco tempo houve eleição para a coordenação do grupo e me incentivaram a me candidatar. Foi a primeira (e única) vez que postulei a um “cargo” eletivo. Fiquei em segundo lugar e assumi a vice-coordenação do Juba (era esse o nome que deram à comunidade, sigla de “Juventude Unida Baseada no Amor”). Minhas tarefas eram, entre outras, escolher o tema de discussão da reunião semanal, procurar na Bíblia alguma passagem que tivesse a ver com o assunto, redigir a ata da reunião e substituir o coordenador em sua ausência.

Gostei da coisa. O grupo era acompanhado pelos seminaristas da paróquia, uma galerinha que lá se preparava para ser padre um dia, em um seminário meio fora do comum, organizado pelo pároco, um sujeito de origem francesa que tinha um trabalho junto aos moradores de favelas e seguia o que se denominou Teologia da Libertação, com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) atuando junto à população em um sentido de tornar a Igreja Católica mais voltada aos “oprimidos”, com a premissa de que foi a esse povo que Jesus se dirigia quando aqui esteve.

Até cheguei a cogitar a possibilidade de entrar nesse seminário, me tornar padre. Mas a paixão arrebatadora por uma menina linda do grupo frustrou meus planos. Não rendeu nada com a garota e a vocação acabou não se manifestando. E o resto é história.

O que importa aqui é o fato de eu ter, nesses últimos dias, me reencontrado com pessoas que participavam desse grupo naquela época, pessoas que fiquei muito tempo sem ver e ter notícias, e revê-los foi muito intenso, foi um resgate de uma pessoa que julgava esquecida lá dentro de mim, que perdeu um pouco da ilusão, da ingenuidade, dos sonhos. Que teve que encarar a realidade, sem desistir, contudo, de acreditar na possibilidade de o mundo ficar melhor, mais justo, mais igualitário.

Éramos fãs dos papas Paulo VI e João XXIII; este promoveu o Concílio Vaticano II, trazendo a Igreja para mais perto dos pobres, e aquele deu continuidade a esse trabalho (posso estar falando besteira, mas escrevo de memória, sem pesquisa; se alguém contestar e esclarecer, agradeço).

Depois de mais de um ano de atividades no Juba, resolvemos montar um grupo de teatro amador, o Tupi (Teatro Unido Popular Independente – gostávamos de meter “unidos” em tudo [rs]), para fazer um trabalho mais lúdico e provocar discussão junto aos expectadores. Montamos a peça “A Invasão”, de Dias Gomes, mas mudando o final, para melhor condizer com os fatos pós 31 de março de 1964. Levamos a montagem por um ano a favelas, comunidades de bairro, sindicatos, clubes, onde houvesse gente a fim de debater a realidade (!).

O grupo extinguiu-se com o surgimento do PT, o padre mudou sua postura e voltou à antiga prática católica de promover encontros de casais, catequização, grupos de estudos bíblicos e de corte e costura, enfim, largou um pouco a mão daquele trabalho social. E a Igreja também, com João Paulo II, seguiu esse rumo. Pouco depois, em 1985, o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (coisa que remonta à Inquisição), Joseph Ratzinger, condenou ao silêncio o frei Leonardo Boff, um dos teóricos da Teologia da Libertação, por causa de seu livro “Igreja, Carisma e Poder”.  A Igreja Católica mudava, e Ratzinger, depois papa Bento XVI, parece que levou essa “nova” doutrina ao paroxismo. Ele que renunciou ao cargo no último dia de fevereiro deste ano.

Agora, os cardeais estão a escolher seu sucessor. Não tenho tido interesse em acompanhar o processo. Há muito deixei de me importar com os rumos dessa igreja, mas pelo que tenho ouvido e lido, essa religião continua distante dos tempos atuais, das questões fundamentais que importam ao seu rebanho, em nome, talvez, de igual opressão, regulação, regras e  controle da igreja de minha infância. Assim, fico com meu Deus, e a ele me dirijo sem intercessão de algum de seus pastores. Se me ouve, não sei. Mas imaginar que alguém zela por você em algum canto dá um certo conforto.